Fazer do fim recomeço

Por Roberta Bonfim

Escrever sobre os processos os deixam mais claros, então, vamos clarificar, ou revelar os fatos por aqui para entendermos os próximos passos. Acho que hoje teremos textão. 

Vamos lá:

Em quase 10 anos, isso, dez anos. Bafo, né? Eu agora acho. Agora que eu sinto a leveza do desapego, sem esquecer de nada. Afinal, tenho no DNA todo o vivido até aqui e felizmente muito foi vivido. E segue sendo e eu sou absolutamente grata.

Lembro como se fosse hoje nosso primeiro programa, mas antes disso lembro quando eu descobri que gostava de brincar disso, com o homem o tempo e a espera, em companhia de Eduardo Lopes. E no primeiro programa gravado na Cinelândia, estávamos eu Eduardo e Felipe Romano, depois conversei com mais uns tantos nordestinos como eu, por relação convivial, ou localidade de estabelecer a relação empática, o fato é que de cara foi Ceará (Eduardo Lopes – Cinelândia), Pernambuco (Anthero Montenegro – Feira de São Cristóvão), Sergipe (Samuel de Assis – Santa Tereza) e mais Ceará (Georgina Castro – Copacabana), deixo-me então me deleitar pelos maravilhosos que ali cruzaram meu caminho e então Brasilia (Daniel Chaudon – Ipanema), Rio de Janeiro (Taís Feijão – Urca,  Ana Kelly e Wesley – Cinelândia), Paraná (Carlos Simioni – Glauce Roche), Rio de Janeiro mais uma vez (Eduardo Marinho – Cine Santa e Lobisomem (Victor Alvim – Academia Brasileira de Cordel)), Pernambuco se repete (Gonçalves – Academia Brasileira de Cordel), Turquia (Emrah Kartal – Casa das Ruínas). 

E tive a oportunidade de ir a Minas Gerais fazer uma oficina com Romulo Avelar dentro no no Cine-Horto e em MInas falei com MIneiros, Lydia Del Picchia em Belo Horizonte e com Avelar em Inhotim. Volto ao Rio de Janeiro para um pernambucano cearense e criado no meu querido Pirambas, Jesuíta Barbosa – Museu da Republica,  Bahia (Rafael Medrado – Largo do Machado), Rio Grande do Sul (Duda Woyda – Largo do Machado). E venho para Fortaleza onde celebramos dois anos de Lugar ArteVistas e eu tive uma aula de história com Valéria Pinheiro, no Teatro das Marias. 

Ao voltar ao Rio de Janeiro conversei com o carioca da baixada Caio Prado, no Leblon, com o saxofonista Glaucus Linx e os adoráveis da Umbonde banda em Laranjeiras, no estúdio La cueva. E ai Mangueira com Reisado dos Irmãos  e Coco do Cariri. E um passeio com a es cearenses da banda Verônica Decide Morrer – na Lapa. O último programa gravado no Rio de Janeiro. 

E esse Lugar só existe porque houve esse nascer onde colocando este Lugar no mundo Felipe Romano, que é muito cidadão do mundo, mas a família vive no interior do Rio de Janeiro. Ele eu amo na ida e na volta e com a quantidade de raiva que a gente já se fez e seguimos nos amando de graça, é amor mesmo. Romano nesta fase gravou comigo os seis primeiros, e no sexto Natan Garcia, meu parceiro de transformações profundas, aceitou brincar junto também, ele que hoje é fotógrafo premiado boladão ali ele estudava e tateava sua nova melhor amiga. O sétimo ele quem viu e só me avisou e o papo começou e foi incrível, neste com a gente quem brincou foi Luciana Lima, uma goiana linda de existir que conheci por intermédio de Chris Ayumi que dança na nossa primeira vinheta. E Lu não só gravou com a gente, como editou o programa. Lembro como hoje as duas sentadas no chão do meu minúsculo kitinet na Lapa, editando este vídeo. Eu fiquei muito encantada, e achando que estávamos subindo de nível, pois os anteriores quem editou foi eu. 

Mas, ele foi se embora para outros ventos e eu me usei da minha cara de pau e convidei Heraldo Cavalcanti que já tinha me filmado quando eu fazia alguma peça de Nelson Rodrigues no Theatro José de Alencar e no ato ele disse que eu fotografava bem. Era vestido de noiva. Lembrei! Onde eu atuava com Evelyne, hoje casada com meu tio, irmão de minha mãe. Particularidade extras a parte, chamei Heraldo para brincar e ele aceitou e nos ensinou muito a mim e Natan, dois ouvidos atentos. 

Mas, no posterior Natan já estava era em São Paulo, mas Heraldo topou e a linda Ellen foi junto. E no outro quem salvou foi a maravidiva Sara Parente, e o outro do outro chamei minha amiga-prima (hoje comadre Gabriela Macedo) e ela ficou segurando a câmera quando eu ia entrevistar e a inspirada Nívea Uchoa que gravou a cabeça do programa comigo, mas eu que filme as danças e montei quadro e o áudio é uma merda, mas eu gosto do todo e lembro de ter me divertido. Fiz outros assim mas só eu e amo todos, logo falarei sobre eles. 

Mas o último gravado no Rio de Janeiro é lindo por ter sido uma brincadeira completa, do jeito que gosto. Gravando tinha Ruviana maravilha, prospera, minha luz de inspiração, que conheci com Gabi (a comadre), junto gravando tinham dois maravilhosos. Um Filipi Abdala, hoje pai de uma menina linda e um homem sério, na época um estudante como eu esperando o busão, conversa vai e vem convido ele para gravar e ele topa e leva Bruno e é Verônica e Lapa e fechamos essa etapa Rio de Janeiro com a beleza que eu amo.

Em MInas quem gravou foi Don, não estou certa que seja este seu nome, mas ele salvou se dispondo a gravar e ainda deu ao projeto uns cartões de memória para câmera. 

E em Fortaleza quem topou a parada foi Henrique Kardozo, com quem eu havia trabalhado em um Festival das Artes Cênicas e já era um fotógrafo massa, mas acho tendo quase certeza que foi das primeiras gravações dele, que agora é o cara do vídeo.

Terça que vem conto mais

dias…

São dias novos esses em que me ensaio nova também. Mas, não menos intensos, nem menos corridos, isso de ir finalizando aos poucos é diferente de acabar e pronto. Ir aos poucos é seguir fazendo o que se faz, entendo que tem um fim e acabar de uma vez é fazer o fim no agora. 

Ir se despedindo daquilo que pelos últimos anos dediquei parte da vida é ir abrindo mão do que em algum momento acreditei que seria para sempre, “sem saber, que o pra sempre acaba”. Mas, nesta segunda no Arte onde Estiver, conversando com Vagner, Nat e Geni lembrei “que nada vai conseguir mudar, o que ficou”pois lembro de tudo, das falas e expressões e das minhas próprias emoções e decantação após cada encontro. Sou gratidão e alegria.

Mais um passo

O bom do fim é que ele é repleto de começos e libertações. Faz um tempo venho neste exercício de desapego, porque já sabia que a vida estava pronta para me exigir tomadas de decisões e escolhas norteadoras de vida, da minha e naturalmente do que precisa de mim para acontecer pelas bandas daqui.

O exercício de soltar não é fácil, mas é incrivelmente libertador, e a percepção de que a única aprisionada e agora em processo de reabilitação social era/ sou eu. E isso fortalece meu pensamento de que tudo é a partir da gente. Dentro de uma relação, o outro só faz com a gente o que autorizamos, mas fomos programades a pensar que precisa de alguém autorizar. Também para ter a quem culpar, talvez. Não sei. Eu cada vez mais sei que nada sei.

Assim, no caminho das liberdade física, mentais e espirituais vamos seguindo o fluxo do existir juntes, pois só sabemos assim. Boa toada para todes nós!

O dia do desisto

Por Roberta Bonfim

Pode ser que amanhã eu me arrependa, pode ser que não, mas por hoje desisto, abro mão, jogo a toalha. Sempre desejei um algo construído juntes, a partir da união de realizações de sonhos, com respeito e compromisso, mas depois de quase 10 anos de Lugar ArteVistas, hoje percebi que remei foi muito, e ao contrário do que outrora me pareceu, nada saiu muito do lugar. Eu ainda estou aqui pedindo, implorando para que cada um faça o seu por si, e há quem ache que trabalhe para mim. Senhora mãe! Trabalho por este lugar, para que seja, sejamos nós nos expressando e usando este lugar como veículo para falarmos sobre o que cremos, cada um com suas crenças. 

E aí que tá a parada, hoje acordei sem mais crer. Hoje acordei percebendo que promessas e compromissos são palavras soltas na cidade dos ventos e voam, sem um “oi Roberta! mulher nem fiz, nem escrevi, nem gravei, nem estarei, desisti”, apenas faz-se de conta que nada foi combinado, ou comprometido. Não há compromissos reais e eu sigo aqui correndo, sem dormir, buscando modos de ser braço aos demais, investido tempo e dinheiro. E hoje meu tempo tá mais precioso que dinheiro. Mas, mesmo os mais próximos, na realidade, especialmente eles. A real é que hoje acordei e percebi os óbvios, que venhos percebendo faz tempo, mas talvez pela pretensão, vaidade ou apego eu me negava a admitir. Mas hoje admito e compartilho aqui com os três ou quatro que me leem.

Eu já tinha pontuado que no formato atual eu não seguiria, mas tinha esticado os prazos, por… nem sei porque. O fato é que hoje me percebendo completamente exausta jogo a toalha, seguiremos trabalhando para o Poço da Draga e com o que acontecer de forma orgânica, com responsabilidade partilhada e respeito. A parte a isso não interessa, não a mim.

Quando iniciei a Lugar ArteVistas era para ser respeitosa e estimuladora dos sonhos do outro que tornaram-se também sonhos para mim e sou muito grata por cada troca, aprendi um bocado com cada troca. Sigamos!

Caos

por Roberta Bonfim

Tudo me parece extremamente caótico, como está também minha casa neste momento, em que todo lugar habita brinquedos, nem sabia que tínhamos tanto por aqui, vamos mesmo fazer uma triagem para compartilhar alguns por aí.

Pergunto a coisas e tenho respostas inusitadas, é como se me faltasse uma atitude que se tenho desconheço por hora, ou não achei ainda o ponto da minha força vital.

A vida acontece e eu existe em paralelo, observo minha vida externa, mas só tenho conseguido viver a interna e ela também está caótica. Quem devia me proteger me agride sem perceber, penso para tentar me confortar. Minha criança chora e vivo não fazendo a a criança que eu ajudei a trazer ao mundo sofrer das mesmas brechas do que não recebemos. Mesmo porque em parcelas universais sempre estive abraçada por famílias que me deram algo e me receberam por alguns momentos. Agradeço ao universo a chance de viver a Lugar ArteVistas que me permite trocar com tantos seres inspiradores.

Assim, apesar do caos seguimos plenas!

Ame-se e Seja-se

Por Roberta Bonfim

você se vê? E se você fosse uma mulher como eu, como se sentiria? Não é fácil ser mulher, nordestina, simpática e gostosa nos dias de hoje, preciso esconder os seios e me esforçar para chamar menos atenção, e estamos em2021.

Onde algumas mulheres gritam o feminismo, olho ao redor nos vejo ainda em grande parte presas a padrões pré estabelecidos por terceiros e quartos, por seres que jamais saberiam o que é ser mulher. Eu sou mulher pra caralho, sou mulher como foi Bárbara de Alencar, sou mulher como Atenas ou Clarice, sou mulher como Virgínia, como Helda, como Maria, como Dani, como Quitéria, como Ravena, como você. 

Você que já se sentiu agredida, diminua, exposta, invadida ou privada de ser quem é, você que sentiu todos os pesos dos dogmas e das culpas impostas por outros e que por tempos pareceram ser minhas próprias limitações.

Não culpo ninguém por isso pois nunca fui homem, nunca entendi como é pensar por duas cabeças, com esforço é até pensar por duas entradas de luminosidade, mas pensar pelo ângulo animal prático da vida me parece estranho e medonho. Medonho como a história de Maria de Biu e sua lenda caneluda que justifica a fuga do homem que tirou sua vida. Lembro de Luzinete que com Aids transmitida por qualquer homem que poderia ser seu amor, morreu só, buscando ser amada, implorando qualquer olhar. Um dia me disseram que faz parte do ser mulher sentir-se admirada, desejada. Esse lugar em que nos sentimos invadidas e excitadas. até onde há a culpa? Até onde é pura negação dos próprios instintos? Não penso que ser mulher seja uma dor, mas é uma guerra, uma batalha constante pelo poder existir enquanto ser, além do gênero, dos estereótipos e rótulos, além inclusive do ser mulher, ou ser homem, ou ser gay, trans. Mesmo porque existem dias em que é possível ser tudo isso. 

Eu tinha uma vizinha na infância, não sei se já comentei, mas não sou daqui. Me reconheço brasileira com todas as raças em mim e também os misto de todas as violências vividas por mim e pelos meus ancestrais.  Sou parte de uma família que buscava ser tradicional sem conseguir. A gente nasce pro que é e não adianta pensar o contrário ou forçar a barra, estamos vivendo em um mundo misturado.

Mas na minha infância havia uma vizinha, ela não era nem feia nem bonita, mas era mulher, daquelas que quando você olha de cara identifica, era mulher como ninguém em casa era, era  daquelas que olha no olho e não tem nenhum pudor de ser quem é, por não saber ser de outro jeito. Eu a olhava com admiração e temor, com paixão, desejo e horror. Olhar para aquele ser mulher era colocar em cheque a minha capacidade sê-lo. 

Me olho no espelho, me acredito mulher.  – Tudo é mesmo um xadrez semiótico, o símbolo do feminino é um espelho (desenha o símbolo),de vaidade, de visão de si e autoconhecimento, de ser gente, somos no final todos espelhos de nós mesmos. Qual a última vez que você deu um conselho? Lembra o que disse? Eu lembro. Eu disse: – ame-se, pois de tudo que aprendi no meu caminhar o mais transformador tem sido o exercício perene do amor, do amar.

Caminhante

Por Roberta Bonfim

Depois de uma aula sobre identidade de lugar, que quis muito compartilhar a conversa repleta desses temas entre Izabel Lima e Gustavo Luz, na Lugar ArteVistas que compartilho aqui.

E sai. Eram 16:45 e sai andando da minha casa até a casa de Michele Tajra, alguns quarteirões depois. Neste trajeto me percebi sedentária, quando ante a uma pequena ladeira a respiração já se mostrou puxada. Mas, no ato tento me convencer de que é a máscara.

Sigo!

Mas na frente recuo a uma bicicleta que vem. Preciso dizer que sou miupe e as caminhadas gosto de vivê-las vestida da minha miopia, exatamente para me permitir as boas surpresas. O fato é que senti o movimento da bike e brequei. Achei o movimento grande, pensei se quem estava na bike não havia se assustado também. Era um homem negro que sorria com os olhos, e nos sorrimos dizendo que tava tudo bem com ambos e segui. 

Atravessei a rua e peguei o celular lembrando da colega Ada Raquel Mourão, que estuda calçadas e eu que amo integrar as coisas sempre me irrito com a individualidade social exposta pelas calçadas, ou crio histórias mentais sobre os moradores das casas de calçadas tão distintas. Será que essas pessoas andam nas ruas? Será que já empurraram um carrinho de criança ou uma cadeira de rodas?

Vídeo feito inspirado por Ada Mourão

Sigo e observo o vazio das ruas, em quase 10 quadras cruzei com quatro ou cinco pessoas na rua. Acho acho pouco, especialmente em um fim de tarde em Fortaleza, onde só parar na rua para olhar o colorido do céu já faz valer o dia, nos lembrando que somos só pó estelar com toda sua imensidão e esplendor natural. 

E ao dobrar a Santos Dumont me deleitei com o deitar do sol nessa banda do mundo e o imaginei dando as caras pelas bandas do Japão. Respirei e segui.

Na casa da amiga o reencontro com o amor Jean Jackson que escreve para este blog e que agora vai escrever das bandas de Paraty. Encontro também a Diva Marta Aurélia que nos presenteou com um programa Janela da Alma que é um verdadeiro convite ao amor e ao semear juntes. 

Voltei para casa e já estava escuro, mais do que eu me lembrava que era a cidade de noite com luz fracas e pouco convidativas a vivência na rua, por deixá-la inóspita. E as calçadas irregulares dificultam o trajeto. Na volta cruzei com mais pessoas na rua, todas em movimento e mulheres, as que abrem e fecham as cidades.Gratidão!

um texto por completar.

Por Roberta Bonfim

Já é quarta, mas só agora “parei”. Ainda não parei, né? Mas, escrever é como parar. Ou mais. Escrever é mais que parar, pois escrevendo move-se o que quase sempre mantem-se ainda em estado de silencio, pelos medos da opinião do outro que nem me percebe e talvez ai seja o grande medo, perceber que nunca fui se quer visto, ou notado. Ou temo tanto o abandono, por saber a dor que ele causa, talvez eu não me deixe o estado de encanto que nos cegam, mesmo e apesar de.

Viver é mais que tudo, é estar e existir, sem julgamentos e/ ou feridas.

Viver é se permitir….

Hoje, que deveria ter sido ontem me permito deixar um texto por completar.