Onde está meu Coração


Por Roberta Bonfim

Precisamos falar sobre tanto, que nem cabe na vida que se tem, mas quase coube no roteiro de George Moura, Sérgio Goldenberg, Laura Rissin e Matheus Sousa, "Onde está meu Coração", que tem no elenco Letícia Colin, Daniel Oliveira, Camila Márdila, Barbara Colen, Mariana Lima, Fábio Assunção, dentre outros, e traz tantas pautas, tantas questões, em especial as dependências. Mas, ainda sim nos lembra a cada episódio, dos dez da primeira temporada, lançada em 2021,  que nada é mais precioso que a vida e o amor. 
Com direção de Noa Bressane a série tem como tema principal a dependência em crack e o que acontece com o usuário, bem como, com quem está no seu entorno físico e emocional. A linha tênue entre a confiança e o aprisionamento, o tratamento que exige distanciamento, e o fato de que se trata de um ser, ou vários, e que os afetos permeiam todos os contextos. 

Sem dar spoiler, mas desejosa de que muitos assistam e gerem olhar empático a essas questões a que no século XXI estamos todes, direta e indiretamente relacionados. Pois diferente do discurso ultrapassado o crack alcança a todes, das diversas classes e é danoso. O crack pode inclusive já fazer parte do seu rolê de modo recreativo, a real é que quem usa diz que é bom, e nem todos tem em si essa predisposição à dependência, por isso é uma roleta russa, e o ideal é evitar experimentar. Há outros modos de chegar a essa plenitude de alma, ou de exaustão. Mas, vamos a esta série necessária e dinâmica.
Logo no primeiro episódio somos apresentados a Amanda, intensamente interpretada por Letícia Colin, que neste momento para mim é mais Amanda que Leticia. Amanda é médica, residente, vivendo todas as tensões, deste lugar de ser parte do contexto entre a vida e a morte do outro, e suas particularidades. Ao mesmo tempo, que vive uma luta interna e física com o crack, fragilizando seu casamento, relação familiar, e seu lugar profissional.
Também no primeiro episódio conhecemos Sofia, mãe de Amanda, interpretada pela sempre maravilhosa e chique Mariana Lima, que nos emociona com sua entrega a personagem e todas as suas questões com a sutileza de uma grande atriz. Fábio Assunção interpreta David, o pai, médico, com questões com álcool nunca compartilhadas com as filhas, na manutenção deste lugar um tanto hipócrita de parecência da perfeição. Conhecemos também Miguel, o companheiro vivido por Daniel Oliveira.
Nos próximos episódios os véus sobre a questão da solidão feminina, o machismo estruturação, traição, ganância, medos, inveja e outras emoções se relacionam, ao tempo que temos ali também caminhos do tratamento sendo explicados. Os excessos de amor, a síndrome do controle, na crença de sermos Deus, a dificuldade de lidar com as frustrações, são temáticas que vêm à tona. Junto com a relação com a dívida com o mundo do tráfico, e a relação de perda de cada um dos lugares.
A irmã mais nova de Amanda se apega a religiosidade em tempos de puberdade na busca pela felicidade, uma promessa, desejos, uma coisa meio Nelson Rodrigues, e mais uma relação que tem muita admiração, assim como também inveja e que só se resolve enquanto afeto depois de muitas situações, uma morte e um nascimento.
A série traz ainda em subtexto, questões de exploração sexual e moral, o uso indiscriminado de álcool de medicação, que são tão nocivos quanto as drogas ilegais. O uso do poder do dinheiro, as ausências médicas em hospitais, que levam a óbitos. Como eu disse no começo do texto, é uma séria de tanto e que vale demais assistir, pausadamente ou uma boa maratona da, indiferente, desde que se deixe afetar por esta família de tanto amor. Grata a todos que realizaram esta série de milhões.

Deixe seu amor – Leve seu Lixo

Sábado (17 de set) foi dia de limpar a praia, e que seja todo dia. Mas ontem nos reunimos alguns para limpar o que nos cabe no mundo. lembrei-me o dia todo de uma história que escutei na escola de um menino que devolvia estrelas ao mar e quando indagado sobre porque o fazia, já que não conseguiria cobrir a infinidade de estrelas. Eles responde, arremessando mais uma estrela ao mar: – Esta eu salvei! E era como ele que eu me sentia ali juntando grandes, médios e microplásticos na Praia do Poço da Draga, este lugar que eu amo na vida.

Limpar o Poço, como qualquer outra praia para mim é um respirar, um limpar de alma, um encontro com uma profundidade de mim. Mas é também encontrar amigues, é receber e dar abraços incríveis. É mergulhar sem medo, pensar em pular, respirar profundo e agradecer.

Ver os escoteirinhos limpando a praia, balarines dançando, gente de todo lugar catando os resíduos para que não entrem no mar. E sim. E infelizmente como bem disse uma garota na limpeza. -“A gente tá limpando e daqui uma semana tá tudo igual”. Ao que eu respondi: Não, esses daqui não entrarão no mar. E vamos torcendo para que como nosso grupo, cresçam aqueles que se responsabilizam pelo seu metro quadrado no mundo.

Tava aqui pensando que nem sei exatamente quanto de resíduos tiramos, mas como ando mesmo recolhendo resíduos por ali faz uns anos, com ou sem ação; há algumas coisas que custo a entender. Tipo: o que faz uma pessoa tirar a fralda de uma criança, um ser que precisa que haja mundo para que possa crescer e se desenvolver, aí este adulto simplesmente deixa essa fralda ali. Outra coisa gente. Namorar ali na praia da Carminha deve ser massa, mas pessoas, não custa levar embora os seus descartes físicos, em seus saquinhos de látex. Outra estranheza para mim são os pacotes de chilito e biscoito. Pois pensa comigo, se na vinda tinha espaço na bolsa para trazê-los, como não cabem na mesma bolsa vazios?

Precisamos falar também sobre o excessivo número de palitos de pirulito na areia. GENTE! Como que essas crianças vão ter dentes saudáveis? Impossível! E mais os corantes também são danosos e o açúcar uma droga pesadíssima, como bem me lembrou meu amigo Anchieta. Não sou médica , mas garanto que se tirarem os pirulitos das bocas de suas crianças elas só por isso estarão mais saudáveis. Outra curiosidade latente são as bitucas de cigarro. Sério, estamos no século XXI, vamos normatizar sair de casa com seu cinzeiro portátil.

Mas, o mais legal que eu acho nestas ações, além do movimento geral, é ver quem tava na praia só de curtição entrando na brincadeira, sorrindo junto, agradecendo a ação. Fazendo questão de dizer e mostrar que já levam as suas sacolas e se responsabilizam pelo seu metro quadrado no mundo. Lembrei-me de quando a muito tempo atrás eu estava ali onde eles estão e ações outras de limpeza me chamavam atenção e eu manifestei o desejo de ser parte, já faz um tempo que sou. Grata a cada um que viveu junto este dia de amor aos nossos ambientes. Vamos juntes!

Depois da limpeza e do mergulho ainda fomos comer gostoso e por um preço possível no Coração Selvagem, lugar lindo de existir com uma biblioteca gostosa e que nos promete para breve um museu, homenageia Belchior em sua decoração e manutenção de peças. Fiquei curiosa para conhecer o que sonhou e realizou este sonho que deixa as Tabajaras ainda mais charmosas. Alimentadas, seguimos para uma feirinha delícia logo mais a frente e para fechar uma parada final e cheia de samba, no lugar mais massa que eu acho para tomar uma cerveja na PI, MIncharia Bar. Com ou sem música ao vivo, as melhores trilhas sonoras.

Já em casa fui assistir o dia e montar um vídeo. Grata Vida! Que sempre haja muita arte onde eu estiver!

Maria Antonia – sem acento

 

Súbita é a vida

Mas aqui foi a morte que te levou

Levou-te na hora errada

Claro que nõa haveria hora certa para sua partida

Mas agora definitivamente era a errada

Tu estavas feliz

Tu eras tu

Então quando penso nisso 

Consolo-me

Morrestes sendo-te

Morrestes como teu nome

O que tu escolhestes para viver contigo na eternidade 

E na profundidade que tua voz chegava

Enchi minha boca para chamar-te e encherei sempre

MARIA ANTONIA

Quando te pedi uma palavra 

Tu me disse transição

Fechastes uma

Começastes outra

Entendo

Mas foi rápido, né?

Talvez para ti o tempo da eternidade

A eternidade que eu vou sempre sentir ao te ouvir cantando

Maria

Ai Maria

Não estou preparada para não te encontrar

Ninguém tá

Estou tomada de uma raiva que me parece justa

A raiva de não ter podido fazer nada 

A raiva por não te ter mais perto para eu te dizer a cada encontro o quanto a sua existência me inspira vida e transformações

Ai minha Deusa Maria Antonia

Que seja leve sua passagem

Como era a tua alma

Como ressoava os seus sons

Torna-se voz celeste: Maria Antonia

Um nome poucas vezes coube tão bem em uma pessoa, uma voz, uma Deusa, uma luz, Mari.a.ntonia – sem acento como ela gostava de me dizer com sorriso maroto no rosto. E antes mesmo de perceber-se em sua grandiosidade já brilhava, e hoje vou olhar o céu certa de que lá te encontrarei brilhando e cantando no cosmos.

Se deixar o medo te para

Por Roberta Bonfim

Faz um tempo que não escrevo, não sei exatamente quanto, mas pelo fluxo da vida, creio que meu último texto tenha sido o de junho, ou mesmo  maio. É que fugi do meu curso, me distrai, me trai por tentação e reconhecimento de lugares e afetos. Tudo absolutamente fundamental e gratificante. Tudo feito com muito amor e entrega e essa (des) construção me faz radiar. Estar em meio aos que fazem arte, poder falar com a turma do Poço da Draga ali e fazê-los protagonista de um festival lindo e com patrocínio da Coca-cola sem açúcar, e na semana seguinte outro festival realizado no e pelo Poço da Draga.

Mas, o fato é que tanto tive de me observar, entender e acolher a mim, a minha filha e a nossa relação, a percepção sobre rede de apoio e questões tão mais profundas, tudo dentro do cotidiano comum e toda sua dantesca complexidade. Mas, neste texto vou me ater ao medo.

Isso é o medo profundo e potente resistência à vida que precisa seguir. Sou mãe desde o dia 28 de maio de 2017, quando admiti para mim e aceitei com amor e gratidão o fato de estar gerando um ser de lá até aqui, eu que sempre amei viajar, diminui bastante as viagens, engordei 27 quilos depois que a cria já estava no mundo, crises profissionais, humanas e existenciais. Uma viagem internacional com a cria a lado, e poucas de carros nas proximidades da cidade. E teve uma pandemia no caminho, o que nos deu a chance de vivermos muito de perto eu e minha pequena.

O fato é que finalizadas algumas etapas, recebi um convite irrecusável de ir à Manaus, e com este convite veio a euforia, da realização de um interesse antigo de conhecer Manaus, onde tenho um primo querido, que nem estava lá no ato na minha visita, a relação com a água doce que eu também amo e as pessoas do norte. Enfim, era tudo euforia, até que chegou o medo. E ele chegou no meio de um café da manhã, próximo a porta de casa, e foi tão profundo que me levou às lágrimas, uma prospecção pessimista sobre o que poderia ser. 

Pensar sobre a morte e como a vida se configura sem mim, deu-me pânico, não por pretensão mas por valores e só sofri pela minha ausência ao tange o processo de formação da minha cria. Não tive medo de perder nada além do desenvolvimento da minha filha e lembrei de Fernanda Montenegro e tantes outres que dizem não ter medo da morte, só peninha. Me reconheço neste lugar como ser, mas como mãe ainda sinto medo de não estar. E mesmo crendo que tudo cumpre o seu papel, senti um medo feroz. 

Cheguei a compartilhar o medo para ver se justificava, mas não se justifica para mim que passei a vida viajando e rindo de quem tinha medo de voar, e estava ali em pânico pensando em desistir, em resistir ao fluir da minha própria caminhada. O fato é que viajei e foi incrivel, como foi uma viagem curta de 4 dias, não deu nem para sentir saudades roxas, mas de certo sentimos nossas ausências, no momento positiva. Pois eu pude conversar com meu amigo de vida sem interrupções por atenção, e pude também conhecer e ouvir outras histórias. Resolvi gravar como registro de viagem e já que não há mais uma revista, que ninguém segura esse lugar, que seja ele minha morada virtual a quem não me é íntimo, mas sendo meu, eu, com minha cara e jeito, eu vivendo, vendo, sendo, querendo arte onde estiver. 

E minha filha, bem, ela também sentiu a ausência, apesar de nos falarmos virtualmente todos os dias. Mas se divertiu horrores, com madrinha, avô, bisaavó, primes e amigues. Uma grande farra. 

E eu fui e voltei, sem nenhum arranhão, agora imagina se eu tivesse deixado o medo tomar de conta… Teria perdido de visitar o paraíso.

Maternar e Maternar-me

Por Roberta Bonfim

O mantra do só damos o que temos é dos meus preferidos, apesar de eu em mim o achar às vezes bastante contraditório, mas ainda sim não o largo e no final agradeço por ter cedo percebido que faço parte de um todo que que ficar lutando não me leva muito longe, nem os gritos, pedidos de socorro, cenas, ou criação de realidades paralelas, tudo que seja resistência uma hora ou existe ou desiste. 

Eu no ato e exercicio diaria da maternagem, venho me maternando, ando cuidando e acarinhando minha criança, e vez ou outra perguntando como cheguei até aqui, como resistir, ou a a melhor: o que eu teria sido se na base eu tivesse recebido todo amor e leveza que mereço no que teria me tornado? Passei 27 anos da minha vida resistindo e lutando para prestar, mesmo acreditando que eu não tinha nem muita serventia e nem muito valores, apesar de mim, hoje sei que tudo é exatamente como precisa ser para sermos e agradeço, ao me maternar, ao me cuidar, ao cuidar da minha cria, ou ao delimitar espaços que sejam meus em absoluto, pois apesar de mãe, ainda sou eu, e venho aprendendo isso com a maternidade que me mostra de modo muito escancarado nossas diferenças e complexidades. Hoje aos 40 começo a identificar lindezas em mim e na minha caminhada até aqui, para tá pronta para ser a mãe que minha filha precisa que eu seja e para acarinhar minha crianças ainda nesta existência, e por reafirmar com palavras e na vivência que o amor é transformador é fundamental para que consigamos buscar a melhor versão de cada um de nos e entendermo nos como o todo que somos juntes.

Não sei como ficará este blog, se fica ou se acaba, se gue ou adormece, então registro minha alegria e gratidão por ter podido registrar fragmentos do meu maternar por aqui.

Filho doente Mãe Aflita

Não importa o tipo de mãe que se seja, a cria adoeceu a mãe começa a ver tudo ao seu redor mudando o tônus, e aqui é para além das culpas sociais, que todas,e em maior ou menor proporção vivemos, É que filho doente é sinônimo de noites mal dormidas, dias intermináveis, se longe pela ausência , se perto por ver o bem querer dodói. 

Quando a cria adoece, restabelecemos rotas e a prioridade fica singular. Eu crio minha filha para suportar a minha ausência, caso eu não esteja em algum momento importante, mas assim também respeito os espaços seguros de mim, os espaços dos meus silêncios e barulhos internos.

Tento manter minha filha sempre protegida, inclusive de mim e dos meus possíveis excessos, não que eu não erre, claro que erro e muito , só sigo, pois a vida segue e eu sou como ela.  Depois de uma noite longa venho aqui dizer que o mais incrível da maternidade é exatamente essa mudança do plural para o singular. Grata vida!

Minha amiga violência,

Tu flertas comigo desde tão cedo, né? Quando cheguei tu já fazia morada e sentava na cabeceira, como convidada de honra. Não lembro exatamente a primeira vez que nos vimos frente a frente, mas lembro-me bem do medo que sempre tive de ti, mesmo quando a vejo pulsando em mim. 

Tu tens sempre os mesmos olhos e o mesmo timbre base na voz, independente do soprano, contralto, barítono, ou grave da voz humana que te é posse, que tu faz parte.  Outro dia dancei, como se fosse o Rio Jaguaribe um de nossos encontros, daqueles que deixam memórias inesquecíveis no corpo/alma. Dancei para liberar, para partiturizar, dancei porque dançando me alcanço em lugares que adestrei minha mente para não acessar., o bom é que hoje te reconheço mais rápido. Outro dia te vi no rosto de uma colega, acho que ela nem percebeu que você tomou a frente, o protagonismo. Te vi já em muitos rostos, das mais diversas idades e muitas vezes no meu próprio.

Um dos nossos encontros mais marcantes, foi em uma trans linda, típica dos anos 90, ali na frente do Domínio Público e Órbita Bar ela me olhou, ela me viu e eu a vi e você estava lá, me olhou, mas não era eu seu foco. Mas… Eu te via, e mesmo hoje quando rememoro esta cena, chego quase a ver seu rosto violentado, pois tu, tu querida é o resultado dos afetos tristes, que geram ódio que te produzem violência(s). 

Já te vi em tantos rostos, e também nos meus, nos rostos que me vestem, dos que  eu dou conta para o momento. Como escreveu um amigo sobre mim, “vivo meus momentos e mesmo quando o tempo aperta faço questão de ser feliz. Sabe porque querida violência? Porque te aceito e reconheço seu papel no rolê, só não desejo mais te permitir protagonismos na minha história, a senhora já roubou muita cena por aqui, e eu sou criativa, sou boa em transformar, em (des)construir, em mudar, de rumo, cidade, vida, perspectivas, corpos, lugares de existência. 

Sabe o que percebi outro dia? Que meu corpo codificou-te como ato de amor, creia, felizmente fui e sou salva por minha essência e pelas artes que me rodeiam e não me permitem aceitá-la, minha cara. Tenho hoje consciência que pelo justo equilíbrio da substância, posso viver longe de ti, ao percebê-la mesmo quando invade a casa, por outros corpos externos ao meu.

Não te quero mal, apenas não te quero mais. Flertarei contigo de longe, apenas para conhecer com antecedência sua chegada, e não mais para oferecer-te a cadeira de honra, mas apenas a permanência para estar, por ter consciência que és parte de mim, do todo e até em ti existe Deus.

Roberta Bonfim 09 de maior 2022

Ontem foi dia das mães

Ontem foi dia das mães e minha filha disse que não me amava e não precisava de mim, sorri pelo meu desejo interno de que ela realmente não precise mais mais de mim, assim estaremos juntas só pelo desejo pré-existente do nosso amor profundo amor.Se compartilho essa intimidade é para dizer que somos todes humanes, crianças e nós “adultos, todos cumprindo seu papel fundamental de lutar para existir como somos..
A bem da verdade é que vamos crescendo nessa estranha relação de gratidão pela vida e luta pelo direito de ser sem a sobras dos que vieram antes, buscando descobrir por conta própria e buscando seus próprios meios para demonstrar suas frustrações e medos.
Eu por minha vez falo grosso e me disponho ao abraço, contraditoriamente, como é o existir, respiro fundo acalento minhas crianças. Respiramos juntas e vamos nos equalizando. A avó estava em casa, ela queria brincar e não dormir, eu precisava fazê-la dormir e também me possibilitar esse descanso.
No sábado fui à baladinha porque sou mãe mas como tudo que aqui há, sou também Deusa, sou mulher. 😀

Mês de Amor

Por Roberta Bonfim

Ser Mãe não é pensar ser, mas ser-se. Não há quaisquer padrões para os caminhos construídos na relação mãe e cria, seja o tipo de mãe que seja, assim como o tipo de cria. Existem infinitos, mas o que é comum a todes é o desejo de que a cria seja-se, mesmo que isso às vezes os mantenha distantes por toda uma vida.

E se a gente muda a perspectiva do abandono, para a de extrema humildade em assumir que não se consegue. Ser mãe, querides leitores não é tarefa fácil. É o pleno exercício de amor. Ser mãe faz mais potentes na batida do coração e algumas, como eu, apresentam medos nunca antes minimamente flertados.

Desde que começamos este blog algumas mães já compartilharam vivências por aqui e com todas tanto aprendi, e às vezes em momentos nada a ver com o que elas relatam, lembrei do como e deu certo. Ando mesmo pensado que toda ideia concebida é de algum modo uma ideia compartilhada e as vivências se entrecruzam para que percebamos o óbvio de que somos juntes, que é esta união que nos fortalece, a percepção de que podemos ser rede uns aos outros, ou no caso de nós, mães, umas às outras.

É bonito ver amigues com filhes brincando com a minha filha, mas a maternidade não é uma tribo, ou uma mudança de fase no videogame da vida, é apenas um outro lugar, nem melhor , nem pior, mas com suas próprias questões, frutos de nossas próprias questões. E amo os amigues sem filhes que estão só o gás para serem bons parceiros de boas trocas sobre a mãe, e temas que por mais liberais que sejam serão tabus. Eu sou particularmente feliz por ter amigos de vida, assim me ajudam a escrever com detalhes os caminhos do existir em conjunto, aprendendo juntes.

Outro dia depois de uma reunião conversando com um colega sem filhes, e relatando da demora na recuperação de uma cirurgia simples como a de apendicite e rindo digo; com criança pequena é difícil ter descanso. E ele disse algo como: a eterna relação de amor e odio” mãe e filho. Sai refletindo a respeito e cheguei a conclusão que na minha relação com a cria de modo geral tem-se o amor, o que dificulta a relação, ás vezes são as influência diretas, ou indiretas do ambiente, e há momentos em que rola tudo junto.

São duas vidas, vivendo muitas vidas, vivendo ao tempo que se aprende a viver, experimentando a existência, buscando de algum modo consciência para melhor selecionar as experiências. E aqui na casa que sou e habito, busca-se equilibrar o sistema, entre a criança que sou e a que educo e o ser que sou no hoje e o que desejo viver no amanhã. Assim, a maternidade foi para mim caminho da quebra real do tempo espaço, onde eu preciso me revisitar para me acolher, trabalho para ser o ser que desejo ao tempo que trabalho para outra vida diretamente, e dialogo com a senhora cheia de gatos, que serei.

Ser mãe me acalma e enlouquece, ser mãe me liberta e prende e evidência todas as minhas humildes contradições, que são tão nossas. Gratidão a cada mãe que me acolheu na estrada da vida e as tantas que me inspiram e ensinam. Grata!

Terapia de Escada

Por Roberta Bonfim

Data: 10 de agosto de 2011.

A que mora na casa vermelha – Ele: Péricles, 36 anos; construiu um pequeno império por ser bom, do tipo muito bom em informática  e só nisso. Tendo muito, sem ter ninguém e decidido a se matar pensa sobre ter um filho, com isso lembra-se da sua relação com seu pai e porque evitou por tantos anos formar uma família. – Ela: Raquel, 32 anos; pensa e sofre com o pedido de seu pai que lhe dê um neto, pensa e sofre o tempo todo por sua relação com o pai, ou a falta dessa relação, pensa e sofre com sorriso no rosto, não se permite se negar a ninguém, não quis aprender a dizer os nãos que sempre teve sem ouvir. – Eu: Eu sou a que mora na casa vermelha, e tudo que eu queria naquela quinta feira era dormir. Mas como? Se eu precisava escrever uma história de verdade para ver no que dava. E logo naquele dia eles se encontram nas escadarias da Lapa. A Lapa foi à escolha por ser sinônimo de poucas desculpas e muitas diferenças. Ele crescerá no rio, mas nascerá em outro lugar, ela sempre estivera ali. Raquel gostava de cantar e Péricles teimava em tocar violão e assim nas escadarias da Lapa pensavam e esqueciam suas muitas questões, ali se sentiam jovens outra vez. Da troca de olhares, o encaixe entre voz e violão e aquela música que diz: “Você diz que seus pais não te entendem, mas você não entende seus pais…” Mais uma troca de olhares, até que Péricles toma a iniciativa de chamá-la pra outro lugar na escada mesmo. Eles sobem um pouco e sentados olhando para baixo, observando pessoas ela diz:

Raquel– Eu sempre andei aqui, vinha com minha vizinha, meu pai pagava ela pra trazer a gente pra brincar de subir e descer escada, umas dez ou 15 vezes, todos os dias, Truque para que chegássemos em casa tão cansados que nem falássemos, nem comecemos e nem pedíssemos atenção, eles estavam ocupados demais para serem pais, e nós… (Pausa – sorrindo meio desconcertada) Nós, bem gostávamos da brincadeira de descer e subir. Aqui nem era tão belo, era apenas uma escada, nosso brinquedo de cansar… (virando-se pra ele) E agora ele me olha na cara e implora para que eu tenha um filho, para que Ele (ênfase) possa se certificar que é um homem melhor, que será melhor avô que pai. (Péricles sorri, vendo na sua frente a chance clara de ser pai, Raquel é a mulher certa para ser a mãe de um filho dele – Tenta falar, mas Raquel nem percebe) Eu na verdade penso que ele esteja querendo continuar a brincadeira de me cansar, para que eu não queira nada além do permitido, do que sobra. (Péricles tenta falar em vão) Mas sabe, estou cansada de sobras. Restos de tempo, pano, roupa, pai, amor, escolhas.

Ambos – Restos!

(sorrindo se olham e como se houvesse sido feito um pacto de desabafo, era a vez dele falar)

Péricles – Eu sempre usei essa escada pra terminar relacionamentos, nunca namorei uma mulher que gostasse de vim aqui, então, sempre que fico de saco cheio as trago e me deixo curtir a brincadeira de voltar a ser adolescente. Tá vendo aquela loira de vestido azul, lindona? Pois é, ela amanhã não me liga mais, principalmente depois de eu a ter deixado lá em baixo. E me desculpe, mas se estamos falando verdades; você não é o que podemos chamar de mulher bela. Mas eu estou feliz de está aqui trocando essa idéia com você. Sei lá! Chego a ter a sensação que já te conheço. (Raquel ouve tudo olhando pra baixo, busca a loira e se questiona sobre quem é mais bela, ela ou a outra e o que é a beleza? São pensamentos). 

Raquel – Não nos conhecemos e eu tenho certeza disso, é exatamente por que não nos conhecemos que estamos sendo tão honestos, é mais fácil sermos quem somos com estranhos que cheios da ignorância genial dos desconhecidos não criam falsas realidades e nem se frustram com nossas imperfeições. Eu não sei nada sobre você, não conheço a loira lá embaixo e nem a acho lindona. Nunca te vi na minha frente, mas sei que você pensa e sofre mais que eu. 

Péricles – Quer ter um filho comigo? Ou melhor, quer ser mãe de um filho meu?

(Raquel sem reação, esboça palavras que não saem, seu corpo diz muito sem nada dizer e Péricles apenas a olha, tranqüilo respeita e espera seu tempo).

A que mora na casa vermelha – Nunca vi isso, eles nunca se viram antes e ele olha pra cara dela e diz: Quer ser mãe do meu filho? Me deu uma vontade de aparecer e dizer que eu aceitava e eu até sou bem ajeitadinha. (sonha) Ai! Um filho nosso seria lindo, já conseguia me imaginar grávida dele, sendo bajulada… E comigo ele teria de arrumar outro lugar para finalizar a relação, pois as escadas eram meu lar. Talvez em um baile socity. Mas foi a ela que ele pediu pra ser a mãe de seu filho, muito provavelmente seu único filho e se tudo corresse como o desejado, seria um filho sem pai, mais um filho sem pai.

Raquel – Sempre gostei de música francesa, amores platônicos, sempre amei dizer que moro em mim, mas preciso admitir que nem tão assim. Ter um filho não é um sonho um mas de meu pai, que mesmo quando eu pedi não esteve comigo, ele podia ter morrido antes mesmo de eu nascer, essa talvez foi a única forma de ele ser um pai maravilhoso, pois seria um pai morto e nós santificamos os mortos, entendemos suas falhas e…

Péricles – Você acha mesmo que o melhor seria um pai morto, eu também penso assim. Só tenho três lembranças de meu pai, ele me colocando na cacunda e caminhando na praia, eu fui muito feliz nesse dia. Lembro dele olhando pra nós dizendo que estava vindo pra cá PR melhorar de vida e depois iria nos mandar as passagens, nunca mandou. Minha mãe que acreditando e justificando tudo, quis crer que ele nos esperava.

Raquel – E a terceira lembrança?

Péricles – Ele bêbado andando aqui pela Lapa. Nos olhou e fez de conta que não nos viu e foi tão forte em sua ação, que mesmo a paixão de minha mãe não lhe tapou os olhos. 

Raquel – Então como seu pai, aqui você abandona suas mulheres? 

Péricles – Nunca havia pensado sobre esse prisma. Mas sempre deixei claro que não acredito no pra vida toda. Mas me diga: Você acredita que melhor pai seria o seu morto?

A que mora na casa vermelha – Ele voltava ao assunto do pai, precisava ter certeza que ela acreditava nisso, pois se acreditasse certamente aceitaria ser a mãe de seu filho.

Péricles –  Você quer ser a mãe do meu filho? Não vou desampará-lo, mas também não estarei presente a idéia é que eu morra alguns meses antes dele nascer, mas até lá encherei vocês de amor e você vai poder realizar o sonho do seu pai e o seu. Dará o neto que mostrara que ele mudou e quem sabe o ensine a ser também um pai melhor pra você, que terá sua casa e uma empresa que nesse meio tempo te ensino a administrar junto com meu irmão e melhor amigo Pedro. 

(Raquel rir e desconcertada pede desculpas)

Raquel – Perdoe-me é que você se chama Péricles e eu seu irmão Pedro. Sua mãe gosta de nomes que lembram homens fortes.

Péricles – Meu nome foi escolhido por meu pai, que ainda dava maravilhosas aulas de histórias e dizia que eu assim como o grego, eu seria repleto de glórias. (Pausa) A gloria de não tê-lo, a glória de viver ao lado de uma mãe que sempre que me olhava chorava por lembrar-se dele, a glória de crescer longe do meu irmão, por que minha mãe não conseguiu trazer a nós dois. Glória…

Raquel – Estamos próximos da Glória, quer ir caminhando até lá? (Rir na tentativa de minimizar a tensão e consegue, Péricles rir e responde que não com a cabeça).

Raquel – Eu poderia te falar sobre todos os meus problemas, minha incapacidade de acreditar… Em mim, mas, como eu já te disse você pensa e sofre mais que eu. (pausa) Não tenho certeza se seria saudável para essa criança ter pais que pensam e sofrem tanto assim. (rir quebrando de vez o clima de tensão)

(Péricles olha para todos em baixo e busca as mãos de Raquel que também esta a observar os boêmios da escada).

Raquel – Longe de mim fazer inferno, mas acho que sua namorada parece ter se enturmado muito bem. Essa deve gostar mesmo de você, ou simplesmente ser mais esperta do que você julgava. Eu tenho que ir, já chega de terapia da escada por hoje.

Péricles – Como assim, terapia da escada? E você não vai quer ser a mãe do meu filho.

Raquel – Como te disse venho aqui desde sempre e já encontrei gente de todo tipo por aqui. Também falo meus problemas e volto pra casa mais leve, para aguentar submissa o silêncio do meu pai. Não seria má idéia ser mãe de um filho seu, vamos conversar mais a esse respeito. Te encontro na próxima quinta para próxima seção?

(Raquel levanta-se e sobe as escadas com uma leveza de quem nem sente os degraus, Péricles a observa subindo)

Péricles – Próxima quinta as 20hrs e pode se preparar, pois será a mãe do meu filho.

(Péricles após acompanhar todo percurso de Raquel, sorrir lembrando-se dela e percebe-se já saudoso).

A que mora na casa vermelha – Como boa espiã que sou comecei a observá-los todas as quintas feiras, teve uma em que ela não foi e ele sentiu tanto sua ausência que a pergunto mudou.

(Eles anos depois sentados nas escadarias com duas crianças brincando de cansar.)

Roberta Bonfim