Questões?

Por Roberta Bonfim

Uma história que teve um final não esperado.

Uma pessoa que teve uma história contrária.

Um sentimento que teve a decepção necessária.

Uma vida que não terá fim tão cedo, mais que com certeza perdeu muito do que poderia ser, ter, sentir, viver.

E o que se faz para mudar tudo isso?

Faz?

E a ordem? Do que se trata? 

Será ela o oposto da paz?

Contrários, talvez.

Ordem como sinônimo de perseguição?

Contraditório?

Há ordem?

Que ordem? O que ela impõe?

O que massacra, pisa, expulsa cidadãos.

Quem disse que ordem é organização?

E o que precisamos organizar? 

E é fato ou ilusão, a ideia de que ordem traz o “progresso”?

E o que sabemos?

Conhecemos?

Ou apenas queremos perceber?

Há quem diga que saber é conhecer suas limitações.

E você, conhece perceber que querer é poder?

E o que queremos?

E o mundo?

a vida?

as pessoas?

nós mesmos? 

E esse normal que de tão simples, torna-se complexo.

E o amanhã dificultado, não é o que supomos

Luz da Ribalta

Por Roberta Bonfim

É incrível como o palco pode ser escuro e sombrio. 

Na hora do espetáculo, as luzes eram tão fortes e bonitas que eu julgava que mesmo com seu término alguma luz se manteria, para dar apoio. Mas, não aconteceu, e onde se via o compasso perfeito, a iluminação necessária, as palavras precisas, na peça mas bem feita já vista, agora era uma plena escuridão paralizante.

No entanto os aplausos não foram fortes o suficiente, talvez, e mesmo alguns arriscaram vaiar. Os “protagonistas” sentiram-se inseguros, correram para lados opostos e apagaram as poucas luzes que sobraram.

Era o fim daquele espetáculo, agora é preciso acender outras luzes, usar outras palavras, encontrar novos caminhos possíveis. E a questão é: em nome do que? Aplausos? Compreensão? Aderência? 

Mas, nesse momento tudo que se tem são luzes apagadas.

Será que desistiram?

Espero que não.

https://www.youtube.com/watch?v=1TiE2B_Ykik&ab_channel=SidneyGavin1

E você, desistiu ou tá no ensaio?

Vou aqui procurar a luz da ribalta para te iluminar.

Vida Remota e a Maternidade

Por Roberta Bonfim

Não sei como funciona na casa da vizinha, mas aqui em casa, estamos nos dando bem, nesse Lugar de vida remota que não é muito distante do lugar que eu já habitava. Já há algum tempo, entendi que estar preso diariamente a um lugar não era a minha parada e que é possível existir sem estar fisicamente. Sou fruto dos anos 80, assisti muitos filmes futuristas, isso ficou no imaginário, e hoje não me assusta por completo. Nessa dos medos, além das baratas, tenho real medo de ET. Mas, isso é papo para um outro momento. Agora quero compartilhar com você que me lê, que ando me sentindo mais viva neste último mês, realizei um desejo antigo de viver um lugar de aprendizado e trocas constantes. Esse exercício da teoria e com direcionamento, para vida. Mas, também por crer que se cada um de nós fizer um pouco somos capazes de coisas incríveis, que as relações em rede são lindas e compõem a doce dança da vida. Entrei no mestrado em Psicologia Ambiental, na UNIFOR, onde graças à dedicação de minha Vó, consigo existir. Grata Dona Hedelita Nogueira. Com a orientadora que escolhi, e que de cara já me deu vários presentes de encontros, e olha que ainda nem paramos só nós duas para trocar uma ideia real, sobre os projetos que caminham juntos. Vou falar sobre isso em algum momento nos texto da terça.

  • FOCA ROBERTA! A aula de inglês de 1 hora na televisão, acaba já já e você nem disse sobre o que vai falar… – penso.

Então, o fato é que com essa da Pandemia, tivemos de nos adaptar, mas aqui em casa, por exemplo o que vivi e vivo, e aqui falo da relação com a maternidade, bem como com essa vida remota. Aqui vivemos ajustes, alguns mais radicais, outros absolutamente orgânicos. No começo do que se tornou uma pandemia eu tinha programas gravados na Varanda Criativa para cortar (um dos meus grandes prazeres nesse lugar, pena que demanda tempo e o tempo tá escasso por aqui) depois veio a temporada de aniversário. Gente! Não sei como isso chega aí, mas aqui, dentro de mim, é tipo Puta que pariu, faz 8 anos que me delicio assumidamente desse lugar de encontro, troca, afetos. Na boa, trago todos com quem já conversei e foram alguns, me apaixonei, mesmo que instantaneamente, por todos. E hoje fazem parte do meu DNA. E agora estou/ESTAMOS montando o como será, e isso também é delicioso. 

  • ÉGUA VÉI! FUGIU DO TEMA DE NOVO. 

O fato é que agora vivo esse lugar de mestranda, pode parecer banal pra você, mas eu estou achando incrível, e não é pelo título, e nem sobre o que vou produzir academicamente é que esse Lugar me abre caminhos para realizar meu desejo de ser mais algumas vezes ponte para ações que beneficiem ao Poço da Draga. Que é inclusive parte do meu objeto de estudo. 

  • GENTEEEE BRASIL! COMO ENROLA. PUTZ!! E O QUE TUDO ISSO TEM HAVER COM A MATERNIDADE?

É isso! Tem tudo haver, pois só por vivermos neste momento remotamente que consigo por exemplo viver o mestrado, pois do contrário, por ser mãe solo. E aqui não posso reclamar no apoio da rede, mas, o fato é que eu não conseguiria sem grandes prejuízos. E assim, venho tentando conseguir, aos poucos e um dia por vez. Com mil demandas. Exemplo, agora são 8:22 da manhã, eu já alimentei criança duas vezes, cuidei do jardim, limpei a casa, lavei a louça de ontem. Montei toda minha agenda fixa, interagindo e brincando com Ana Luna. Agora ela tá na aula de inglês e eu consigo escrever esse texto e se der tempo ainda consigo ler um dos 5 artigos desta semana. 

Consigo assistir aula enquanto lavo a louça, mantendo um caderno e uma caneta por perto para quando sentir que preciso pontuar algo. E que minha filha não saiba, mas consigo ficar sentadinha no sofá com ela vendo um filme, ou deitada na rede balançando ao tempo que participo de algumas reuniões em que eu possa participar menos. Consigo ficar mais tempo abraçadinha com ela, observá-la crescer. E estou exaurida, sonho com 1 mês sem filha e me prometo que por esses trinta dias nem ligarei. hihihihi …

Bem, a aula de inglês acabou, o artigo vai ficar para depois que ela dormir hoje de noite, se eu não capotar antes, como acontece algumas vezes. Ontem tive uma aula de estatística e ensaiei duvidar da minha capacidade de conseguir, mas ainda estou aqui. 

Abraços em quem chegou aqui e se estiver trabalhando de casa, curte o momento, coloque plantas, pinta você mesmo uma parede, se relaciona com o lugar e perceba que há arte onde estiver, e se pá, consegue fazer isso assistindo a uma aula, ou aos nossos programas da Lugar ArteVistas. 😀

FOTO MINHA COM ANA LUNA

Aos que não me conhecem, sou Roberta Bonfim – mãe da Ana Luna e propriedade da Clarice Lispector.

Palco e Luz

Por Roberta Bonfim

Uma luz me chama para um palco vazio, mas, totalmente iluminado. Não há ninguém ali, além de mim, palco e luzes. Corro pro palco, fecho as cortinas vermelhas. Procuro um som. Escuto. Ao longe, baixinho uma música sem letra, um som sem melodia harmoniosa, mas que desperta curiosidade. Talvez um violão desafinado, sendo tocado por um lunático apaixonado, ou ainda quem sabe, uma criança fazendo arte. Procurava o som, já com alguma impaciência, que logo levaria a desistência, mas, o vi. Não quis perturbar, mas queria dançar. Então, pus sutilmente o microfone perto dele e liguei as caixas do palco

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Voltei ao palco, cortinas fechadas, e o som, antes estranho, agora se fazia fascinante. E todo aquele palco só pra mim. O ato de abrir as cortinas, fiz de olhos fechados, e me deixei dançar, guiada e embalada pela música. Percorreria toda extensão do palco, nunca estivera tão feliz como naquele dançar. Naquele instante que tomei consciência, a música parou. Parei de dançar. Temi que o tocador, tivesse descoberto que eu o ouvia e dançava aqui. Temi que ele estava de pé ali me olhando. Temi. Tremi. Sabia que precisava abrir os olhos e encará-lo. Mas, não conseguia, não queria. Poderia passar, sem dificuldade, horas ali dançando com aquele som, naquele palco. Eu e minha alma. Então, sem coragem de abrir os olhos pus-me a falar, relatar meus sonhos secretos, em uma árdua tentativa de convencer alguém que poderia nem tá ali. 

E depois do fatigante monólogo abri finalmente os olhos, olhei ao redor, procurei o teatro, o palco, a luz, mas tudo que encontrei foi uma completa bagunça, bruxas gnomos e duendes, entre anjos, quadros e máscaras. Eu estava no meu quarto, o lençol e travesseiros no chão, a gata me olhando. E eu, chorava e sorria. Tudo não passou de um belo e inesquecível sonho.

Hoje resolvi compartilhar este sonho, para que me ajudem a compreendê-lo. 

Até a próxima terça!

Independe

Por Roberta Bonfim

Quando me programei para escrever esse texto coloquei como título “As Tradições”, pois ele sobe no dia 07 de setembro, quando se celebra… Preciso pensar para lembrar a razão de ser feriado neste dia. Depois de uns 40’ chego a um veredicto, mas busco no Google, para me certificar antes de compartilhar. E para o meu alívio, eu não estava errada ao pensar que a data celebra a Independência do Brasil. Não me julgo por não lembrar de imediato e olha que desfilei na escola levando bandeira, cantávamos o hino do Brasil e o da bandeira, enquanto a mesma estava sendo hasteada. Sou fruto de uma gama que foi treinada até uma idade para entender a importância de uma data que eu pouco ou nada entendia, mas celebrava. 

  • Uma conquista! – Pronto! Pensar que havia sido uma conquista já me bastava para celebrar.

Quem me conhece sabe do meu apreço por celebrações, pois como sempre digo, vim pra essa vida de turista, o lance é que cai em um mundo que por vezes não está de acordo comigo, ou meus modos. E em um sistema que prega a falta, e desperdiça uma fartura. Ou eu que estou ainda com pouca percepção sobre mim, e como mesmo escrevendo aqui, e escrevendo todos os dias, ainda é menos do que gostaria, o tempo que tenho para este prazer, esse lugar que tira de mim sentimentos tão profundos.

Possivelmente não saibam, mas já escrevi dois livros do início ao fim, nenhuma obra prima da literatura, mas se pra caber na poesia é preciso uma árvore, um filho e um livro, já alcancei a tal da felicidade… mais o quê? Muito o que celebrar! – Pois sou mãe da filha mais maravilhosa que eu poderia merecer, já plantei algumas árvores e escrevi dois livros, e tantos textos que certamente dariam mais algum. Eu que antes da maternidade acreditava que escrevia para não ser em absoluto esquecida, hoje é porque somos tão bem lapidadas e eu fui ficando tão medrosa, que escrevo para tentar descobrir dentro desses eus que dividem esse corpo, quem sou nessa interseção, que ainda não estou certa se administro bem. rs

O fato é que escrevo e nesse escrever escrevo-me também, e assim, talvez, eu me entenda melhor, ou consiga destravar as portas sem precisar voltar pro outro lado dela. O sonho de vencer os gatilhos emocionais sem ser assertivamente atingida por eles. Isso de viver, eu como ser solo eu já conseguia minimamente existir nesse lugar de ser e de habitar-me. Mas com a maternidade tanto mudou, que agora vez ou outra me vejo perguntando onde estão alguns pedaços de mim, pois para que haja um real equilíbrio todos que me habitam precisam estar acordados e cientes dos caminhos escolhidos para serem trilhados. 

Minha sorte, é que sou mãe de uma criança tão maravilhosa que deixa esse lugar da maternidade um aconchego de prazer em grande parte do tempo. Mas, lembro a quem acompanha meus textos que tem parte disso que é resultado do exercício da rotina, da plena repetição, até que se automatize e para tanto precisam que nós, os “adultos”, os “grandes”, ajudemos as crianças a estabelecerem alguns padrões e isso muda em absoluto as nossas próprias rotinas. E mesmo aquelas que neste momento seriam incríveis, ainda me questiono se não vou estragar a memória de um lugar. E começo a rir, observando a extrema necessidade de controle sobre o que só saberei vivendo. Um dispêndio inútil de energia. Agora quando me pego no flagra, troco uma ideia comigo e se necessário com Ana Luna.

Hoje mesmo, tivemos de bater um papo real sobre o fato de ela gritar, genteeeeee ela tem uma gargantaaaaa… e meus ouvidos são muito sensíveis, então essa combinação é o ó. E daí hoje acertamos, e assumo que uso neste momento a autoridade de mãe, mesmo sentada na mesma altura e falando baixinho, de dizer que se ela berrar terei de deixá-la no quarto para pensar um pouco. E lógico que ela me coloca a teste e eu preciso cumprir o que acabará de prometer. Estamos falando de 7 horas da manhã e Ana Luna berrando valendo e eu muito tranquilamente aguava as plantas até ela se tranquilizar e pedir desculpas pela cena. Fácil? Não é? Nem sempre seguro tão de boas, mas faz parte desse lugar de ser mãe, de estabelecer os limites, os tempos, momentos, e tudo com o máximo de amor. As três frases mais repetidas no dia aqui é casa, são: “filha, ajeita as pernocas” – “como tratamos quem amamos? Com beijinho, carinho e amor!! né?”e para fechar, “eu te amo meu amor da minha vida!”que em momentos de good vibes, me rende bons abraços, beijinhos e denguinhos. Há dias que ganho até um chamego. E lá, agarradinha com ela, penso palavras que poderiam ser escritas e nunca serão, pois mesmo eu amando muito escrever amo mais ainda viver meu tempo agarrada com ela, vivendo nosso amor!

Agora, enquanto escrevo, vejo meus diários e penso e agradeço pelas vezes em que eles me lembraram e me lembrarão de quem sou e das histórias que carrego, e pela chance de viver este já, em que coloco o último ponto.

P.S. Gostaria de trocar uma ideia com as mães que somos? Deixa os comentários aqui embaixo.

O Presente do Agora

Texto de Roberta Bonfim

Começo dizendo que fui mãe velha, para mim a hora certa, mas socialmente ainda vista como uma mãe velha. E por que digo isso? Porque agradeço esse tempo, a cada birra que vivo aqui em casa, quando me percebo respirando fundo e tranquilamente enquanto minha filha grita plenos pulmões, pelos motivos mais sem pé, como não conseguir desmontar peças, ter de ir tomar banho, ou não querer vestir a calcinha, dentre outras razões, sem qualquer razão para o tamanho da cena. E sempre pergunto se ela é dramática ou dramista, ela normalmente responde que dramática, sem saber o que isso venha a ser. Aí nesta hora agradeço, pois há 5 anos atrás corria o sério risco de ficar louca só pelo grito, mas como fui mãe na minha hora, tá tudo certo por aqui. E por que falo sobre isso? Porque agora neste lugar de mãe constato e reafirmo que não somos máquina, ao contrário, e por mais que alguns queiram negar, somos bichos, e como tais podemos ser adestrados. O que quero dizer com isso? Que a repetição é amiga leal, a rotina companheira fiel e a respiração indispensável para vida.

 

É que é assim, nascemos, choramos e ali, naquele momento os profissionais humanos já entregam o ser ao colo da mãe, pronto, silêncio, ali é quase tão quentinho e confortável quanto útero, apesar da frieza gélida de uma sala de cirurgia. Minha filha nasceu depois de uma cesariana rápida realizada por uma equipe incrível que ama muito o que faz, sou e serei sempre muito grata por todo cuidado, comigo e com minha filha. Especialmente agradeço à Sabrina Sabry, a doula, aquela que escolhi, mediante indicação de Suênia, minha referência na vida em muitos lugares, a quem tenho tanto a agradecer que nem tento para não cair na plena pieguice. Mas, voltando à cesariana rápida, na realidade um pouco antes dela, coisa de uns três dias, comecei a sutilmente sentir umas pontadas, lembro como se fosse hoje. Fomos gravar, com Grafiteiros que deixavam a Tenente Benévolo mais bonita. O bucho nas tampas e lá estávamos gravando, depois comemos, e eu comi muito, tudo que eu não havia conseguido comer na gestação, já que só nesta última semana tive a grata alegria de comer sem vomitar. Comi horrores, dirigi muito pela cidade. Na manhã seguinte comecei o dia fazendo faxina, ela cada vez mais indicava que estava chegando a hora. Pós-faxina um banho de mar. O bicho foi começando a pegar e ali pela primeira vez senti medo de estar só. Senti medo de cair, de a bolsa estourar e eu desequilibrar, senti medo de não aguentar a dor, de não conseguir ser a mãe que eu desejava, de o progenitor aparecer do nada, senti medo que avisassem à minha avó, ou a qualquer pessoa da família. Liguei para duas amigas que amo, e claro que elas logo apareceram. Katiana Monteiro e Ivina Passos, as melhores piores companheiras que eu podia ter escolhido para sentir dor na frente. As caras delas possivelmente nunca sairão de minha memória. Elas estavam se sentindo absolutamente impotentes e me olhavam deixando claro que se não faziam nada era só impotência e eu claro que sabia disso, por isso no meu plano de parto, sim tive a ingenuidade de fazer um plano de parto, como se tivéssemos qualquer controle sobre o próximo instante. Mas, o fato é que nele eu teria segurado e vivido essa história sozinha, eu iria na hora que a bolsa estourasse para o hospital com a doula que estava sempre a postos. Gente ela é incrível! Seu marido também, porque lá para o meio da madrugada, lá estava ele dirigindo para nós para que Sabrina pudesse estar comigo, já que eu sentia a contração e vomitava. Mas, apesar disso tudo, do hospital lotado, o outro com um médico no mínimo bizarro que soltou logo na nossa entrada um “eu preferia ser corno a obstetra”, ali olhei para a Sabry, antes de tomar adrenalina e disse que não queria que minha filha nascesse pelas mãos daquele homem.  E ela lógico agiu com responsabilidade e profissionalismo ímpares, entrou em contato com meu obstetra que rapidamente tomou providências para realização desta cesariana, agendada às 5h da manhã e que foi realizada às 7:00, e às 7:45 Ana Luna solta seu primeiro choro e é acolhida, começa neste instante nossa relação de poder. O amor vem se construindo a cada novo instante.

Pelo amor das Deusas não me leiam mal, ao contrário, observem, se não é neste instante que esses pequenos seres entendem que ao chorarem algo acontece, e o que acontece é melhor do que a situação anterior. Daí pra frente até que aprendam minimamente a falar nós mães logo aprendemos a identificar tipos de choros, tem os imbuídos de razão, nos primeiros 3 meses o intestino tá terminando de se formar, gente isso deve ser absolutamente incômodo, tem a peleja de aprender a mamar. E a amamentação é um livro à parte, eu por exemplo tive um dia que tava tão pirada, que por mais estímulo,  não saia uma gota sequer de leite do meu peito. Tá tudo na cabeça e se a gente não está com a cabeça bem, e com uma rede que te apoie verdadeiramente, nada funciona. E eu que tinha um plano de parto, também tinha um plano de primeiros meses, onde a ideia era ficar eu e minha filha, sem visitas, sem barulho, sem interferências, e vivemos o extremo oposto a isso. E minha filha entendeu rapidamente o poder do grito, da cena. Na pior das hipóteses atiça a plateia e ela ama público. 

E por que retorno a isso, é que é neste momento, lá no primeiro choro que começam muitas outras relações importantes, ali um amor completamente novo, começa a se desenvolver fora do corpo da mulher/mãe, a relação com o mundo dessa mulher e deste ser e deles juntos, e é importante também iniciar a relação com as rotinas. Rotina para dormir, passeios, acordar… comer só a partir dos sexto mês. Aqui em casa, hoje a filha dorme às 20:30, mas até 1 ano e meio era às 18:30, a partir dos dois anos às 19:30 e agora chegamos ao limite do horário de criança ir pra cama. E tem dado certo. Em tempos de pandemia, onde passamos o dia juntas e isso não minimiza nenhuma das minhas outras funções, ao contrário, sem as rotinas eu certamente não daria conta nem de um terço. 

E neste texto como em outros reafirmo meu amor pelas rotinas, um algo que só comecei timidamente a ter com prazer em idade adulta, e que nos ajuda enormemente a melhor aproveitar os tempos e os presentes do instante já, que é o agora. 

Bem, de acordo com minha rotina é findado o momento dessa escrita pois agora é hora da leitura com frutas com a filha. O livro do dia ”Sinto o que Sinto, de Lázaro Ramos. Um mês de agosto de amor e construção de novos hábitos para todos nós.

30 meses não são 30 dias, e é só o começo.

Neste mês completam-se 30 meses que minha filha deixou de morar em mim e ganhou o mundo. 30 meses que virei a mãe da Ana Luna. 30 meses em que aprendo e desaprendo várias coisas, e parece que o tempo não passa por mais que pareça estar voando. Ela, minha filha cresce a olhos vistos e me surpreende a cada segundo com uma novidade, seja uma palavra nova. Esses dias ela me mandou um: “a Clarice (a gata) é sorrateira”. Ou com frases de efeito revigorantes, como: “Mamãe, mamãe, eu te amo”. Ou quando pede por favor, com licença ou agradece espontaneamente. Ou ainda quando pede para ir para o mar e eu digo que não podemos e ela se conforma e me faz prometer que tudo passará, e andaremos por todo o país, como na canção de Luiz Gonzaga.

 

Tão linda, né? Mas, não se engane ela é também uma criança de 30 meses e tem como melhor diversão contrariar todas as regras, há quem diga que é a adolescência infantil. Quando tá em vídeo chamada com a avó, então faz tudo ao contrário do que é dever aqui por casa. E em épocas de quarentena, a cada nova birra faz-se necessário usar da criatividade para que o clima não fique bizarro, e vale tudo, dançar, fingir que cai, olhar formato de nuvens, fazer voz de personagens, encarnar alguns, conversar com brinquedos, fazer a reboladinha da Baby do Brasil, ou prometer banho no chuveiro já nas últimas da paciência e criatividade. Ela detesta banho de chuveiro em casa, só gosta do chuveiro da barraca de praia, aqui ela curte mesmo tomar banho na lavanderia. E o motivo é óbvio, pensa que assim pode minimizar as lavagens de cabelo, o que acaba sendo uma verdade. Espertos eram os medievais que diziam não haver crianças, mas sim adultos pequenos. 

Aqui seguimos buscando nos descobrir e reconfigurar, nesse lugar de mãe e filha e depois de já nem sei quantos dias, há momentos em que eu tenho real desejo de deixá-la na casa da avó e com os tios e sumir pelo menos por 12 horas. Nem sei o que eu faria, acho que deitaria numa rede em lugar silencioso para ler um livro, sem celular nem por perto e depois dormiria profundamente sem medo de a filha acordar. 

Contudo, ainda estamos aqui, eu, ela e Clarice Lispector. Deixarei essa escapadinha para quando pudermos sair tranquilamente e farei ela estendida, algo como uns 30 dias. Porque sonhar não custa nada e todo mundo pode, em algum momento, penso. E no mais estamos bem, saindo de uma covid familiar, já que ficamos doentes juntas e estamos nos curando juntas e com muito amor e gratidão, por ter sido leve e tranquilo. E felizmente, até agora sem surtos, pesar ou desespero.

Mas, devo admitir que muito desse não desespero é fruto de algumas tomadas de decisões anteriores e em processo. Aqui quem educa sou eu e não abro muito espaço para desserviço, não assistimos jornal e a tv tem limite de uma hora por dia em desenhos e 2 horas com show de músicas, como; Novos Baianos, Chico César, Bob Marley, Rhaissa Bittar, Luiz Gonzaga, Cidade Negra. Telefonemas de vídeo diários para nossa vó e quinzenal com mais umas poucas pessoas. Muito floral e óleos essenciais, além dos chás de fim de tarde e das músicas de meditação nos dias mais turbulentos. Massagens e meditação são peças chave para o equilíbrio em uma casa como a nossa, em que somos três fêmeas, além das plantas. Onde a fêmea mãe, no caso eu, sofre de toc e não consegue ver a casa suja e bagunçada, onde a fêmea filha adora uma bagunça e a fêmea gata é a única que se permite surtos diários, sempre no mesmo horário. Gosto de crer que ela tá limpando o ambiente para que tenhamos uma noite de sono mais leve.

Há quem me chame de rígida, mas eu é que sei o que acontece quando a rotina é mexida. De modo que temos atividades diferentes por dia, mas nos mesmos horários, e claro que no domingo jogamos todas as regras na gaveta e nos permitimos passar o dia vivendo o chamego, fazemos cinema em casa, contando histórias, comendo pizza e pipoca.

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São 30 meses de um amor lindo que nutrimos todos os dias. São 30 meses de inúmeras questões e muita dedicação. São 30 meses de nós duas juntas, e é só o começo, pois temos uma vida inteira pela frente, juntas nesse lugar incrível de sermos mãe e filha.