EuTambismo

“EuTambismo” foi o nome que dei a uma espécie de “Síndrome” (ou mania, mesmo), visíveis em alguns processos da comunicação.

Já repararam nas pessoas que param tudo que o outro fala ou expressa, dizendo: “Eu também”?

Seria tal prática que chamo de “Síndrome de EuTambismo”

– Eu também fui

– Eu também li

– Eu também vi

– Eu também acho

– Eu também sinto

– Eu também conheço…

Quase um vício que muitas vezes acaba gerando a falta de um outro que seja só escuta, que apenas ouça de forma interessada, acolhedora, empática, curiosa, educada. Tudo que alguém necessita do seu interlocutor em determinados momentos. Já parou para pensar que essa mania rouba desse outro o prazer de compartilhar sua simples novidade, quando ávido por comunicá-la vai sofrendo uma série de interrupções desatentas.

Tentando compreender um pouco mais o “EuTambista”, dentre outras coisas, identifiquei ânsia, desejo um tanto desordenado de competição, “sombra”, gente que quer ser brilho o tempo todo, que não compreende que pode ser bom, gentil, até terapêutico, deixar o outro ser…

Comunicação é respiração. Respirar para falar e também para escutar pode fazer a diferença se desejamos uma troca sem ansiedades… Porque não possibilitar a alguém ser o dono da sua fala, somente e ponto?

Sinto que o ideal nos processos de comunicação é a arte de chegar ao outro transitando por uma via de mão dupla – regular o ouvir e o falar, prestar atenção na emissão e recepção no diálogo. Em tempos de tanta gente com assunto, às vezes, tudo que uma pessoa precisa é ser ouvida por alguém que se importe com quem fala.

Web Rádio: você já ouviu falar?

Se você acompanha esta coluna, já ouviu sim

Todos os dias, dezenas de web rádios novas entram no ar. Desde o início dos anos 2000, quando elas começaram a virar tendência no Brasil. E continuam se proliferando, apesar da concorrência com Spotify, Deezer e demais streamings. Mas, de forma geral, sinto que as pessoas ainda não entendem muito bem o que é e, muitas das vezes, nunca ouviram uma web rádio. Por isso resolvi escrever especificamente sobre isso.

Este sou eu, gravando “Nasci Para Bailar”, um programa de MPB da Matula Web Rádio.

Outros fatores também me trazem a esta escrita. Há alguns meses estreei um programa na rádio online e me encontro completamente apaixonado por esta modalidade. Então vim te apresentar um pouco deste (incrível) mundo. 

Antes de partirmos objetivamente para isso, quero compartilhar uma fala do Beto, criador da Matula (veremos a seguir), onde ele diz: “Eu acho super legal não saber qual a próxima música que irei ouvir, tem essa coisa da surpresa. Além de ser orgânico: tem uma pessoa fazendo a seleção dessas músicas e conversando com você”.

Agora sim, vamos às ferramentas para que você também mergulhe nessa surpresa:

Qual a Diferença da Rádio convencional para a Web Rádio?

Essa é uma dúvida comum, mas simples de entender. As rádios convencionais (AM ou FM) possuem limite de alcance da sua transmissão, enquanto as transmitidas online não tem barreiras geográficas, basta ter um dispositivo com acesso à internet.

Outra diferença fundamental é quanto ao financiamento. Para transmitir o sinal AM ou FM, você precisa enfrentar bastante burocracia e fazer um alto investimento. A necessidade de obter receita suficiente para pagar a empreitada, não permite uma programação de nicho. Por isso, de maneira geral, as rádios convencionais tocam o que está no mainstreaming e, dificilmente, abrem suas portas para experimentações.

A web rádio é barata e, na maioria das vezes, de produção caseira. Praticamente qualquer um pode criar o seu próprio programa e até a sua própria rádio online. Isso permite um acesso muito democrático e programação extremamente diversa.

Preparei abaixo uma lista com algumas web rádios que melhor representam a sua categoria, assim você pode experimentar bastante de todas as suas vantagens:

Matula Web Rádio

Criada em Belo Horizonte, mas com relações por todo o país, a Matula Web Rádio é uma iniciativa coletiva que surgiu com a proposta de oferecer uma programação qualificada, diversificada, inclusiva e gratuita aos seus ouvintes. Sem se limitar ao mainstream, a Matula é uma alternativa às rádios tradicionais, abrangendo assim vários estilos e nichos.

Homepage da Matula Web Rádio

Com músicas 24h e a grade recheada de programas incríveis, um outro grande atrativo da Matula é o chat ao vivo, que permite a interação entre ouvintes e locutores. Assim é possível fazer comentários, pedir música e fazer amizades.

Web Rádio Veneno

A Veneno nasceu em São Paulo, da ideia de unificar e solidificar as mais diversas iniciativas culturais. A web rádio comporta programas de muitas vertentes, dialogando com diferentes estéticas e conceitos. Dispondo de uma programação 24 horas por dia, a rádio também é responsável pela criação de eventos e conteúdo sempre visando promover os nossos artistas residentes.

Homepage da web rádio Veneno

Recentemente (em maio) eles estrearam o programa “OuVisse”, um espaço dedicado a artistas, Djs e produtores de música eletrônica no Nordeste.

Mutante Rádio

A Mutante Web Rádio é uma iniciativa totalmente voltada ao alternativo e ao underground. Atuantes desde abril de 2016, os mais de 100 locutores, espalhados por vários lugares do mundo, focam em oferecer músicas inéditas de bandas ainda desconhecidas do mainstreaming. 

Homepage da web rádio Mutante

Rádio Frida Rock

Diretamente de Porto Alegre, a Web Rádio Frida Rock se dedica a experimentar novos olhares sobre o universo feminino e feminista. Além de valorizar a cultura negra e LBTQIA+. Com discussões de temas variados, como política, economia e cotidiano. E, claro, muita música!

Homepage da web rádio Frida Rock.

Vale ressaltar que tanto a Mutante, como a Frida Rock, fazem parte de uma rede de web rádios que se apoiam ao redor do mundo. Inclusive compartilhando programas e locutores. Nos sites de ambas, é possível ver a lista completa.

Segundo Ricardo, um dos Integrantes da Mutante, “se você ouve uma web rádio, você está ajudando a transformar cada vez mais a música em algo incrivelmente democrático, principalmente nos dias de hoje”.


Agora é só escolher por onde começar e apertar o play!

Sobre o autor:

Publicitário e Produtor Cultural. Colunista, pesquisador musical, colecionador de discos e amante da diversidade de movimentos artísticos do Brasil.

Instagram: @adonaielias.m

Até a próxima! 🙂

Minha casa vive em mim

Quando penso na infância a primeira coisa que vem a minha mente é a casa que morava com minha família – eu meu pai, minha mãe, duas irmãs e quatro irmãos. Sempre desorganizada. Era uma casa bem versátil, verdade. Teve muitas caras, cores e jeitos. Os habitantes dos quartos iam mudando de acordo com o aumento da prole, ao longo dos quase vinte e dois anos em que vivemos lá. Rua Raul Leite, nº 20, casa 3 – fundos, que acessávamos por uma longa escadaria. Estava localizada num bairro bem eclético em termos da diversidade social que ali vivia. Tinha gente pobre, classe média baixa, classe alta metida a burguesa que se “esfolava” para se manter em tal posição e tinha gente abastada mesmo. Nós éramos os pobres, mas sempre agraciados por uma vizinhança muito amiga e gentil, em sua maioria. No geral, posso dizer que um lugar agradável!

Nossa casa tinha três quartos, um banheiro, duas salas, cozinha, uma área externa grande e um quintal com um pé enorme de jenipapo. Num lar com tantas crianças e quartos não muito espaçosos, é claro que os famosos beliches (de três e de dois andares) tornavam as acomodações bem mais funcionais, o que não significa necessariamente belas ou harmônicas. Vivi num ambiente sem nenhuma estética, onde nada combinava com nada, no que se refere a harmonia que a minha alma tanto necessita numa moradia. Sou libriana com ascendente leão e sol quase de casa IV no meu Mapa Astrológico. Traduzindo, isso significa que lar é santuário sagrado e que um cantinho gostoso é tudo de bom para a paz do meu espírito.

Meu pai era um eletricista profissional, trabalhava na antiga Companhia de Energia Elétrica da Bahia, hoje Coelba, e aquele velho adágio “casa de ferreiro, espeto de pau”, cabia perfeitamente na figura dele. Apesar de ser “o cara” na eletricidade, era um faz tudo em casa. Pintava parede, consertava canos, capinava o quintal, cozinhava, fazia feira, compras, forrava nossos livros da escola, amava minha mãe, mas era de uma desorganização alucinante. Vivia a bradar que “trabalhava sem deixar vestígios”, o que não correspondia a verdade dos fatos. Era bom no que fazia, um profissional muito solicitado por toda a vizinhança e elogiado por quem recebia os seus serviços. Mas, dentro de casa, não primava em nada pelo bom acabamento das instalações, deixando fios expostos, cacareco para todo lado, tubulações visíveis, caixa de ferramentas embaixo dos móveis. Pintava a casa e o chão ficava todo salpicado por meses a lembrar da “limpeza” das paredes de todo ano, sem nenhum primor nos retoques.

Minha mãe, por sua vez, era professora, mas acabou indo trabalhar como educadora em saúde, uma função que corresponde hoje em dia ao papel das nossas maravilhosas ACS – Agentes Comunitárias de Saúde. Era também auxiliar de enfermagem, o que a colocava numa exigente escala de trabalhos externos e infindável jornada de afazeres domésticos quando retornava. Tendo que dar conta de tantas coisas ao mesmo tempo, a beleza da casa não era mesmo a sua prioridade. Gostava da ordem, mas os dias eram naturalmente para bagunçar tudo e passar o final de semana arrumando o que dava.

Em síntese, vivíamos num lugar, em minha opinião, digno de “sobreviventes”.

Na medida em que íamos crescendo meu pai nos colocava numa tabela de tarefas. Meninos e meninas iam entrando na lista das obrigações domésticos, inicialmente de forma igualitária, tipo: lavar pratos, por a mesa, encerar a casa, limpar o quintal…. Mas, o machismo estrutural estava presente para subalternizar as fêmeas da casa, o que nos fazia sempre trabalhar mais e ao macharal, reservado sempre mais tempo para a delicia dos momentos de brincadeiras, diversão e rua.

Eventualmente tínhamos alguém que vinha na função de “diarista” para ajudar na faxina e também uma lavadeira que semanalmente levava as trouxas de roupas sujas da casa para lavar fora… Como mais velha das mulheres, fui sendo encarregada do “rol das roupas” que iam para lavagem, e também outras tarefinhas, como tomar conta dos irmãos menores, varrer, forrar cama, passar as manhãs de sábado com minha mãe tratando carne, preparando comida da semana, e no final de tudo passar a tarde arrumando a cozinha e o resto da casa, numa rotina cansativa, chata e infindável.

É claro que eu amava a escola e odiava os sábados e feriados. Naquela época cristalizei a casa como um local de sacrifícios, de trabalhos forçados e reprodução de desigualdades. Mas, até os 17 anos assumi a incumbência silenciosa de deixar aquela casa “bonita” como podia, mesmo estando longe daquilo que a minha alma tanto queria. De verdade, nunca consegui… Então, fui colocando a nossa casa no lugar de simplesmente “nossa casa”, a base de tudo que pude receber e, ponto. Fui sossegando meu coração e, mais ou menos nessa idade, comecei a sentir a necessidade de buscar minha própria casa, meu lugar de ordem, silêncio e beleza…

Um desafio tal busca, que me parece ter se tornado existencial. Minha casa interior passou a ser com o tempo, o lugar que até hoje tento ordenar. A melhor casa que pude conhecer a cada tempo, desde que tomei consciência de que está tudo dentro de nós. Arrumar as desordens, silenciar os barulhos e desarmonias foi me aproximando de verdade do melhor lugar do mundo para viver, a casa que carrego onde vou… Aqui dentro de mim. E fora de mim, cada vez menos canto para organizar…

O QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO?!?

Silvia Helena de Amorim Martins.

Eu tenho fé na força do silêncio… ( Pouca Vogal).

Sim é isso mesmo que você leu: O que você está falando? Inclusive qual o motivo? Objetivo? Pra quem? E o que sustenta essa prática? Você deve estar do outro lado dizendo o seguinte: Para me comunicar!!!!!

Mas será que isso é necessário? Será que tuuuudo precisa ser falado? Será que o silêncio também não comunica? Há teóricos que enfatizam que o corpo fala. Não estou dizendo para fazer voto de silêncio, estou convocando você a pensar sobre o que você está falando.

Você esta falando para você ou para o outro? Saliento que falar nos organiza psiquicamente, mas por que você está endereçando uma demanda sua ao outro? Seria um pedido de ajuda? Será que você está se afogando em um mar de palavras não ditas? Ou algo precisa ser demarcado? Será que você precisa de aprovação? Dizer o que você faz ou fez tem relevância? Isso te da uma sensação de segurança? Qual a posição inconsciente em que você está se colocando? Eu falo, logo existo? Olha o que eu fiz, está vendo essa (e) sou eu ? Você tem que me amarrr!!! Será que é algo da ordem do reconhecimento?

Eu sei são muitas perguntas! Mas perguntas necessárias e oportunas, afinal “é melhor não saber nada  assim posso entender…”  ecoa uma linda canção dos Gilsons.

Será que você é um ou uma sabe tudo? Sabichão, sabichona? E isso te leva onde? Será que você justifica suas escolhas?? Pra que isso?

“ Mas Silvia é sem maldade quando vejo já falei, me justifiquei, prestei até contas sobre a minha vida”.

A bendita vida mercantil, na qual mostramos para o outro o que parecemos ser, mas muitas vezes não somos…. E por que isso? Medo da rejeição? De não ser suficiente? E não ser aceito pelo que é?

Não duvido que esse modo de ser no mundo esteja no automático, muitos anos no mesmo funcionamento.

Vamos mergulhar nas profundezas do seu ser… Confie em mim você vai emergir melhor….se questionando!?! Talvez o que você está falando seja o seguinte: Eu preciso de  permissão, confirmação para fazer o que desejo, para ser quem sou.

Ai você deve está falando: “Ora Silvia, falo, por que sinto prazer em falar do que faço, onde vou…”

De fato é da ordem do prazer, mas também da necessidade de confirmação. De dar satisfação…

 Você autoriza? Você confirma essa minha escolha? Você está falando de você para você!!! Mas endereçando suas demandas ao outro, em busca de validação, permissão e curiosamente esse comportamento se sustenta por que você busca no outro algo que você mesmo poderia oferecer a sí próprio: Escuta e acolhimento.

E ainda não gosta quando esse outro  não te da um tapinha nas costas e te diz: Tá certo, parabéns!!!

Tem algo ai que precisa ser olhado. Observe a quem você dirige a comunicação. Provavelmente o feedback negativo de pessoas que não compartilham os mesmos valores e ideais que você. Se você sabe que vai ser censurado por que se direciona a essas pessoas? Será que você mesmo se censura? E o outro acaba sendo um reflexo disso?   

O outro não precisa concordar com você!!! Vamos lá pensar um pouco!!!!

Viver não precisa ter funcionalidade… Você não precisa de autorização para ser quem é!!! E vamos fazer um exercício: Ser menos crítico consigo e com o outro.





Nem tudo precisa ser dito. O que você acha de uma postura inédita? Pensar, antes de falar? E viver mais…

 “ Eu tenho fé na força do silêncio”, já dizia o Grupo Pouca vogal. Um nome bem simbólico. Afinal por que essa sede de preencher lacunas…?

PS: Você tem escolha é livre para circular e outras tantas coisas mais… Então por que você se prende? E não se aprende? Afinal QUEM É VOCÊ QUE SE ESCONDE ATRÁS DE UM NOME QUALQUER?!?

Foi bom heinn!!! Será que foi pra você? Não precisa me responder… Nos vemos em breve…Abraços!!!

Brilhar os dias

Já ficou magoada(o), chateada(o) ou emburrada(o), um dia inteiro por um  fato ocorrido no trânsito ou por um tom de voz mais elevado em um momento de discussão, por um “bom dia” que não lhe deram ou um “olhar mau olhado” de alguém? Pois é… quando isso ocorre, já imaginou o poder que dá, assim, de presente, a outra pessoa que às vezes você nem conhece, talvez nunca mais veja na vida, ou mesmo que seja alguém conhecido, mas que de repente, acaba por dar uma super importância, ao tirar o seu bom humor, sua disposição? Esteja atenta(o) para essas armadilhas da comunicação e previna-se. Nunca esqueci do filme “O Homem Milagre”, que tem uma frase que diz o seguinte: “SNIOP”, ou seja: “Salve-se das Nefastas Influências de Outras Pessoas”. É importante sim, nos esforçarmos para manter o devido controle emocional, serenidade e procurar nos proteger do baixo astral solto por aí. Um dos aspectos mais importantes da capacidade de comunicar de uma pessoa é a energia que flui sutilmente da voz, do corpo, das palavras, de gestos, olhares. O corpo fala o mal também. Tudo é expressão. Claro que existe tristeza, vontade de silêncio, solitude… Mas, nada disso precisa ser agressivo para com os outros. Quão agradável, potente e transformadora pode ser a vibração de alegria, otimismo, bom humor e tolerância, mesmo diante dos desafios da vida. Quando conseguimos isso, mais que comunicar, irradiamos luz, boa energia que ajuda a brilhar os dias.

Vida e trabalho

“Um homem se humilha

Se castram seus sonhos

Seu sonho é sua vida

E a vida é trabalho

E sem o seu trabalho

Um homem não tem honra

E sem a sua honra

Se morre, se mata

Não dá pra ser feliz”

Guerreiro Menino – Gonzaguinha

De fato, tudo que nos faz refletir de maneira mais profunda está diretamente ligado a nossa vida real, nosso dia a dia. Cada acontecimento pode ser um gatilho para uma porção de ideias. Criamos um mundo na mente que, antes de ser imaginado, também é resultado da realidade, resultado de tudo que verdadeiramente existe. É da condição humana ser pensante. É o que nos difere dos demais animais, dizem.

Tenho pensado ultimamente sobre trabalho, emprego e vida; o trabalho é uma condição indissociável da vida. Se há  vida, há trabalho, sempre existiu. Já com a invenção do emprego, passamos a gastar nosso tempo de vida com tarefas a serem cumpridas, horas marcadas, alarmes, cronogramas, rotinas etc. E a vida, é pra ser vivida. 

Desde pequeno fui iniciado aos trabalhos dentro e fora de casa. Isso, sem dúvida, tem influência, hoje, na minha  disposição e aptidão à uma série de serviços. Gostar de fazer, e fazer bem feito é o resultado das cobranças dos adultos ao meu redor, naquela época, para que eu fizesse bem feita toda e qualquer atividade que me atribuíam. 

De modo geral sou grato por, desde a infância, ter tido tantas oportunidades e experiências que me fizeram ser quem sou hoje: um trabalhador nato. A vida sem movimento nunca fez sentido para mim. Mas, por outro lado, reconheço a necessidade e importância dos momentos de ócio. Respeito, sempre que posso, meus limites. Busco equilíbrio em tudo. Afinal, sempre acreditei na vida baseada em movimento e equilíbrio. Aproveitando o gancho, isso é a perfeita analogia à patinação ou ao ciclismo e tantos outros esportes que precisam dessa combinação para acontecer.

Muitos afirmam que vida e trabalho são a mesma coisa. Na verdade, acredito que viver dá um tanto de trabalho. Para viver, em nossas sociedades modernas, temos a necessidade de trabalhar num emprego, para, em troca, conseguir manter um padrão de vida confortável e com dignidade básica. Nada além do que deveria ser garantido a qualquer ser humano desde o nascimento. Aí vem ao pensamento os muitos trabalhadores com difíceis condições de trabalho, as irregularidades e desigualdades que fazem uns serem mais explorados que outros.

É bastante utópico pensar que pode existir o fim do trabalho/emprego como conhecemos. Existem indícios lógicos e evidentes de que pode acontecer uma significativa diminuição no número de vagas de emprego, principalmente devido a evolução tecnológica. Assim tem sido com a substituição gradual dos seres humanos por máquinas e inteligências artificiais. Não é de hoje que observa-se e sabe-se disso.

Mas como poderemos superar essas previsões? Trata-se de uma questão de planejamento de políticas públicas? – provavelmente. Nosso planeta é rico em recursos que, na maioria das vezes, são desperdiçados: matéria-prima e alimentos. E o planejamento não poderia ajudar a evitar desperdícios? – sem dúvida! O básico sempre será alimentação e moradia. Com isso resolvido o resto flui. Agora, o mais difícil será abolir os interesses da minoria que controla o poder e usa isso para exploração e lucro. Acredito e tenho uma forte esperança de que a humanidade caminha para a resolução de grandes questões como essas. É o que eu quero, um dos mais profundos desejos meus.

Sempre existiu desproporcionalidade entre pessoas e vagas de emprego. Os que estão fora das estatísticas do desemprego são, infelizmente, sortudos. Do contrário, seriam infelizes por não poder ter uma vida minimamente aceitável. Os tradicionalistas, mentes fechadas, podem achar uma tremenda besteira, mas a verdade é que é difícil fugir da alienação que o capitalismo sempre nos causou.

Fica fácil perceber o porquê de muitos trabalhadores permanecerem “presos” em seus empregos. É quase uma obrigação, um dever. Existe tensão e pressão para conseguir pagar os boletos e por mais injusto, ilegal, irregular, exploratório e nocivo à saúde física e mental, ter um emprego garantido, parece que sempre será a alternativa menos pior.

Sonho com uma grande mudança de valores, éticos e morais, desde as bases do sistema. Espero que possamos garantir nossas liberdades individuais, desejos, conforto, momentos de descanso, lazer, prazer e trabalhos, sem necessariamente submeter-nos ao apagamento/esquecimento do nosso verdadeiro lado animal, humano, que é o estado de desfrute da vida em contato com a natureza.

Ao passo que é no mínimo preocupante pensar sobre isso tudo, é preciso ao mesmo tempo tentar acalmar a mente e buscar aquele famoso equilíbrio através  de alternativas criativas e outras coisas que nos ajudam a suportar. Isso evitará uma crise existencial gerada por uma causa que não tem nem previsão para solução. Tipo: aceita que dói menos. Aqui, no final, deixo escapar risos.

O bom encontro é de 2

Os relacionamentos só acontecem com mais de um. Não há dúvida. É bem verdade que quem está só, sozinho, solitário ou “alone” pode se sentir, às vezes, “pleno”. Mas essa solidão típica dos ermitões do deserto é uma ilusão. Ela não e verdadeira. É uma espécie de arrogância achar que se pode estar sempre sozinho. Que se pode pensar sozinho. Que se pode viver sozinho.

Um relacionamento existe para que aprendamos a conviver com a diferença. Desde o início dos tempos, pelo menos é o que se conta. Desde células unicelulares a pluricelulares, assexuadas e sexuadas que é o equivalente às histórias bíblicas, de onde seres unicelulares se dividiram (mitose-assexuada) para formarem duas entidades com os mesmos componentes genéticos (Adão e Lilith), ou a divisões mais complexas (meiose), originando células com componentes genéticos distintos e cuja reprodução se dá de forma sexuada (Adão e Eva), é que se fala da intrínseca relação da união e separação.

Na humanidade, muito se tentou argumentar que o essencial do ser humano seria sua violência por conta de uma espécie de egoísmo inato. A justificativa perfeita para se fazer guerras. Essa justificativa pretendia somente fazer jus aos interesses mais obscuros. (Um bom exercício é procurar saber quem se beneficia delas). O recurso de comparação com os animais, p.ex., foi usado para justificar esse ou aquele comportamento. O que levou também a uma espécie de darwinismo social. Ora, foi somente nos últimos anos, por meio de estudos, dentre eles, os antropológicos, que se constatou o caráter societário do ser humano. Aquela velha imagem do “homem das pedras” violento com um catape na mão hoje faz parte somente da ignorância de algumas poucas cabeças. Constatou-se que foi somente pela cooperação que o ser humano pôde sobreviver às diversas calamidades da natureza, enchentes, escassez e intempéries. Uma cooperação que ainda tem o potencial de crescer. Longe de um paraíso na Terra, ainda estamos mais próximos de uma espécie de “sociabilidade insociável” como Kant a definiu nos fins do século XVIII.

Em tempos pandêmicos, esse paradoxo kantiano se torna ainda mais evidente. Em que medida podemos nos relacionar e em que medida devemos nos afastar uns dos outros? Uma coisa é certa: sem uma atenção à devida equação dos relacionamentos, essa bactéria sobreviverá mais do que nós. Ainda falta muito para nós tomarmos consciência do nosso poder, da nossa singularidade e da nossa natureza. O nosso real poder. Uma natureza que deve ser responsável e co-criadora. Não há outro caminho. Somente a observação, o aprendizado e a vontade de se desenvolver para além das nossas pequenezas limitantes é que um dia poderemos olhar um para o outro e entender que Eu sou o Outro e o Outro sou Eu.

Por que razão senão essa existem os opostos? Um ensinamento cabalístico poderoso pode trazer luz à essa inquietação. Conta-se que no início dos tempos quando Deus resolveu criar o mundo, ele o concebeu como algo perfeito. Dessa maneira, tudo estava no seu lugar. Mas então, percebeu que o Universo como tal precisava de um receptor. Dentro da sua enorme capacidade de dar e criar, ele percebeu que precisava também de alguma coisa que pudesse receber todo o seu esplendor. Tal como uma corrente elétrica que flui em determinada direção, era assim que a energia estava colocada, estabelecida numa ordem. Foi então que algo estranho aconteceu. Um belo dia, aquele pólo que recebia, embora muito agradecido por tudo que tinha e recebia infinitamente, decidiu que também queria dar. Isso gerou um curto-circuito no mundo e foi nesse momento que o mundo se fragmentou, ocorrendo o que a ciência chama de Big-Bang. Esse é um sentimento parecido com o daqueles pais super-protetores que fazem seus filhos sentirem o chamado “pão da vergonha”, quando lhes é cerceada a capacidade de adquirem por seus próprios meios o seu ganha pão.

Kabbalah em hebraico significa “recepção”. E enquanto fragmentos dessa explosão, nós seres humanos (ou melhor a nossa consciência) encontra-mo-nos divididos entre a capacidade de doar e receber. Nós podemos ser muito generosos e responsáveis, mas muitas vezes, podemos chegar ao âmago do nosso egoísmo, querendo somente receber. É assim que o mundo é constituído. É como o Sol e a Lua, quando um dá e o outro recebe. Dessa mesma maneira, nós somos aqueles que Deus atribuiu a tarefa de consertar o mundo, para sermos co-criadores da sua criação. Apenas no momento em que tomarmos consciência global de que somos Um e que todos podem receber da mesma maneira que doar é que teremos corrigido todo o mal que existe. Portanto, relacione-se, viva, ensine, conserte, quebre o ego inúmeras vezes quantas forem precisas, recobre-se, reconstrua-se, junte os caquinhos do ego, fique grande, fique pequeno. Mas, no fim, por favor, compartilhe.

Juntemos os cacos e compartilhemos a cola.