Sobre Bel, recomeços e filhos de papel

Eu poderia falar do meu livro de contos, Confinados, que será lançado dentro de dez dias, mas acordei novamente cismada com Belchior e no que ele teria sentido para criar “Tudo outra vez”.

O lamento poético que mistura amargura e esperança e que embalou grande parte da minha juventude, noite dessas sacudiu meus sonhos maduros e me fez passar os últimos dias cantarolando os mesmos versos.

“…Minha rede branca, meu cachorro ligeiro

Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro

O fim do termo saudade como o charme brasileiro de alguém sozinho a cismar…”

O genial compositor cearense teria mesmo se inspirado na repatriação de amigos exilados por força da ditadura militar? Tudo leva a acreditar que sim, pelo ano de criação da música – 1979 –, o tal da anistia.

Vejo-me, inevitavelmente, voltando ao meu refúgio sertanejo, lugar de acolhimento de amigos e familiares, de onde estou afastada desde o início da pandemia, sem previsão de um retorno breve.

A vida é mesmo feita de acasos e incertezas que exigem recomeços e ressignificações. Não ouso reviver emoções, alegrias, acontecimentos ou momentos. Primeiro, porque nada se repete e, depois, porque também mudamos a cada dia. No momento, adio planos e cuido para que a esperança sobreviva ao caos. Poderei viver novas experiências em um sertão que tem tudo para se transformar para melhor. E sigo sonhando com o dia em que cruzarei novamente aquela porteira e saudarei todos de lá: “Gente de minha rua, como eu andei distante…”.

Quanto aos “filhos de papel”, estou muito feliz com o nascimento do meu quarto livro. Dedico-o à minha única e inesquecível irmã. Creio que ela – tão fã do Bel quanto eu – ficaria orgulhosa da mana caçula que conseguiu emergir, malgrado a força densa que nos afundou a todos.

Dezembro

Algumas poemas da minha página @podeserumapoema

(…)

 A professora perguntou ao menino se ele se sabia o que era se vesti com classe.

Ele respondeu,  só os urubus suportam um completo terno clássico.

(…)

Alma de pescador.

Pescador que é pescador só pesca para comer e enquanto isso a mente estica feito linha de anzol brincando de tocar a areia do rio.

(…)

Eu plantei um pé de manga para meu neto.

O neto de meu neto chupa as mangas do pé de manga que plantei.

As abelhas degustam as mangas dos pés de mangas que plantei.

Eu, o pé de manga, meu neto e as abelhas alimentamos a terra que sustentou da raiz da manga aos meus fios de cabelo da minha vó.

Minha vó virou abelha.

(…)

Vontade.

Vou mergulhar no rio e virar piaba. Pronto.

EU CARREGO UMA SOLIDÃO TÃO GRANDE DENTRO DE MIM.

AS VEZES ACORDO NA MADRUGADA SÓ PARA ACARICIAR O CABELO DELA.

EU DANÇO PELADA COM A MINHA SOLIDÃO. ONTEM ALGUÉM ME DISSE QUE PAREÇO ALEGRE E TRISTE, MEUS OLHOS CONFUNDEM.

EU NÃO SEI.

 NO FUNDO EU QUERIA MESMO ERA CATAR PEDRA NO CHÃO PARA  ATIRAR NO RIO. DEPOIS MERGULHOS DE OLHOS ABERTO EM BUSCA DAS PEDRAS.

A minha solidão parece uma pedreira, eu não tenho medo dela. Eu estou com medo do ano, o tal do 2020 e também 2021. Futuro, futuro sou eu anciã, só que agora.

 Quero que meus cabelos cresçam, toda sexta estou passando “babosa”, aproveito passo na pele toda, principalmente em cima do peito, dizem que é bom para cicatrizar.

Texto de Barbara Matias (Flecha Lançada)

Imagens de Jamal.

O Orgulhoso e o Humilhado

Por Roberta Bonfim

Caminhava pelas ruas como faço sempre que possível. Caminhava blaser, como dizem os mais íntimos. Caminhava contemplando o meu entorno. Sempre gostei de andar pelas cidades, qualquer uma que eu esteja, gosto de bater perna, ouvir os sotaques e os papos. Então, hoje eu caminhava, como de costume e quando subia  Av. Monsenhor Tabosa, passei em paralelo com um senhor que carrega seu corpo sentado sobre um skate velho, com um mochila não menos velha sobre suas pernas, o cabelos já grisalhos se escondiam dentro de um boné da mesma idade que a bolsa e o skate.E uma luva resistente na mão esquerda, mão/ braço, que levava todo o corpo no impulso ao chão. Ensaiei sentir vergonha, culpa, mas respirei fundo e, ofereci-me para ajudar. Ao que ele negou veementemente, disse que precisava passar por aquilo para nunca mais ir ali. E sem qualquer esforço o entendia, mas mesmo com sua negativa, não conseguia sair ali do seu lado, até que ele de forma gentil me agradeceu, mas que eu seguisse que ele iria passar por aquilo sozinho. Eu, então segui meu caminho em passos apressados sem olhar pra traz até o quarteirão seguinte, onde parei e me pus a observá-lo. Ele parou um instante e depois subiu na calçada e seguiu em outro ritmo e eu também. Ali chorei um choro desesperado e completamente mudo, que nem parecia existir escondido por detrás da máscara e dos óculos.

Respirei, segui meu destino.

(Que hoje foi um destino muito lindo, montar o esqueleto da nossa próxima temporada que só posso adiantar que será linda e realizada em um lugar que amamos na ida e na volta, o Poço da Draga, com ArteVistas lindos, como Flávia Muluc, Dinha, Clezia (Diva Cacheada), Antonello Veneri, Gustavo Luz, as maravilhosas Marilac e Izabel Lima da ONG VelauMar, a turma inspirada do Coletivo Fundo da Caixa e mais uma porção de ArteVistas lindos. Dizer que até minha orientadora topou e nosso querido Kiko Alves. O que podia ser marcado foi e daí resolvi juntar dois prazeres que me voltaram em novembro, e imagens de um Lugar encantado, somadas a uma saudade bem grande de João Paulo Pinho e nossas vídeo danças e Roberto Falcão e nossa alegria em criar brincando. Os amo. Bem deu isso, espero que gostem, pois creio que terão outros.)

O destino cruza com a gente de modos interessantes e na volta para casa, na mesma avenida, mas agora descendo no sentido dos carros, mas quase que na mesma altura do encontro transformador da ida. Na volta cruzo olhar. Minto. Miro olhar para um jovem franzino, com um saco na mão, a vestimenta desgastada, os ombros curvados para frente, a cabeça enfiada entre os ombros, seu olhar baixo e triste, tornou-se ainda mais baixo e triste quando percebeu meu olhar. E eu me envergonhei de tê-lo visto. Como pude lançar meu olhar sobre ele? Quem penso que sou? E ele, quem pensa quem é? E quem somos, senão um só? 

Hoje, como em todos os dias cruzei com o orgulhoso e o humilhado, e como todos os dias ensaio ter a força necessária para lhes dar os abraços precisos.

Como você apresentaria o Brasil?

As lives que aconteceram no início do lockdown foram um alívio para muita gente. Eu e muitos amigos nos encontrávamos (virtualmente) para ouvir música e ficar conversando pelos bate-papos das redes sociais. Em um desses momentos, um colega Dj comentou, de surpresa, que se a ele fosse perguntado “Qual artista (de música) você utilizaria para apresentar ou explicar o Brasil?”, ele responderia: Gilberto Gil.

Primeiramente achei engraçado, o comentário dele foi quase sem nexo com a conversa da hora. Mas isso não me saiu da cabeça. Pensei que foi uma escolha violenta, porque eu tinha acabado de estudar a discografia do Hermeto Pascoal e escolher Gil, obviamente o deixaria de fora. Como deixar Hermeto de fora? Depois ri de mim mesmo. Gil é tão vasto, Hermeto também e muitos outros também o são. O Brasil é gigante, quantos artistas seriam/são necessários para explicar tal complexidade?

Essa semana muitos nomes me vieram à cabeça, todos representando um “tipo” de Brasil. Por que não escolher Pixinguinha, Dilermando Reis, João bosco, Nação Zumbi, Djonga, Racionas MC’s, etc? Resolvi levar a brincadeira a frente, mas agora não mais tomando a pergunta como algo tão sério e sim tentando me divertir junto de outros amigos para descobrir as possibilidades e diversidade de músicas e de Brasis. 

Procurei a Jornalista e Pesquisadora Musical, de BH, Maria Caram (@mariacaram). Como libriana que é, disse que foi bem difícil escolher. “Pensei em falar do “Meu corpo, minha embalagem todo gasto na viagem” (Álbum do Pessoal do Ceará), mas acho que a obra que usaria para apresentar o Brasil seria o “Tropicália ou Panis et circenses”. –  Particularmente, achei a dúvida entre os dois álbuns genial!  

“Essa escolha passa tanto pela mistura dos artistas, por um coletivo que é e não é, mas pela capacidade de síntese de várias referências, várias partes e várias épocas do Brasil. Cheio de experimentos, sonoridades, um bom humor único, uma ironia fina, os traços de amor e brega que marcam nossa música, tudo meio misturado e cuspido. A gente começa sem saber onde vai chegar e termina sem saber direito o que aconteceu. Acho que não tem nada mais Brasil que isso (risos).”

Conversar com Maria me deixou muito empolgado para continuar com a brincadeira. Então fui conversar com o amigo, Dj e também Pesquisador Musical, Tai Holanda (@_djtai) que, aparentemente sem dúvida alguma, disse: “explicar o Brasil, é falar da discografia de Daniela Mercury, que é uma verdadeira aquarela rítmica”

Balé Mulato

Tai também fez questão de citar um álbum em especial: Balé Mulato (2005), de Daniela Mercury, é pura brasilidade, desde a capa que retrata a miscigenação tropicalista. A música “Levada brasileira”, presente no disco, celebra a mestiçagem do suingue nacional, caindo inclusive na cadência bonita do samba. Na mesma linha, “Balé popular” puxou a rede para as águas da África matricial, fonte que abasteceu a música da Bahia.”

Parei diversas vezes de me concentrar na escrita desse texto para ouvir os álbuns que Tai e Maria citaram. Apesar de serem obras cheias de pluralidade, ambas possuem uma perspectiva diferente de Brasil. Um nos apresenta um país melancólico, de uma falsa alegria estampada no cartaz, onde é preciso passear escondido. Inclusive, Caetano e Gil foram presos pela Ditadura Militar logo após a interrupção de um show tropicalista pelos generais. “Tropicália” é um disco ainda atual, num país que ainda não tolera a diversidade e que ainda muita gente sente que precisa se esconder para ser feliz.

O outro, de Daniela, é uma celebração ao amor, a cultura negra e a um país que vibra, é feliz e resistente. Consigo enxergar também esse Brasil, mas com muito menos frequência. Confesso que há em mim menos otimismo do que em “Basil Mulato”, porém, quando o consigo celebrar, o peito enche de alegria, como a cantora propõe. É, sem duvida, um lindo disco.

Conversei também com outras pessoas. A Dj Beá Tomaz (@djbeatomaz) disse que o nome que mais vem em sua mente é o do cantor Djavan, “ele parece que conta nossa vida em várias músicas.” E, a amiga e cantora Andréa Piol (@andreapiol), explicaria ou apresentaria o Brasil com a obra de Milton Nascimento. Não justificou o porquê, mas a gente consegue imaginar diversos motivos para a escolha.


Ana Mudim (@djanamudim), Professora Universitária e Dj, foi quem mais me surpreendeu com a resposta: “Oi, amado, minha tese de doutorado contesta tudo isso (…), falar sobre algo que é demarcadamente brasileiro tem relação com manutenção de poder e articulação de mercado a partir de uma ideia estereotipada sobre o Brasil. Creio que não consiga colaborar porque não acredito nisso”. Na mesma hora pedi autorização para publicar essa fala, que me encantou e fiquei bastante entusiasmado para ler mais. Não sei como ela poderia ter colaborado melhor (risos).

Por fim, jogo a brincadeira para você leitor ou leitora: se identificou com alguma perspectiva que descobrimos até aqui? Qual artista (de música) você utilizaria para apresentar ou explicar o Brasil? Bem, espero que essa e outras perguntas nos levem para novas ideias e novas discussões.

Sobre o Autor:

Sou Adonai Elias, Comunicador, Dj e amante dos discos. Escrevo mensalmente sobre música para a “Lugar Artevistas” e (quase) diariamente na @itaperidiscos. Para dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

Até a próxima 🙂

Eclipse

Acho interessante, quando Silvia Federici cita Francis Bacon, em seu livro Calibã e a Bruxa: 

“A magia mata a indústria”. 

É certo que ele, filósofo aliado ao estado, quis contestar a magia, pois seguir crenças mágicas, em sua visão, atrapalhava a linha de produção industrial. Estes preceitos teve como consequência a criação do sistema capitalista. Curiosamente também, Bacon era membro da rosacruz, indicando seu interesse por fraternidades filosóficas, conhecimentos ocultos e consequentemente pelo poder político. Neste sentido, entendo que Bacon categorizou a magia, ao diminuir o conhecimento da natureza da terra e ao enaltecer o homem. Então, ao diferenciar natureza de cultura, pode-se entender que para ele alguns “tipos” de magia matavam a indústria, outras a fortaleciam. Em tempos de era de peixes, as crenças eram enraizadas profundamente, criando um misticismo dogmático, o qual produzia medo no humano que a quisesse subverter, controlando assim seus movimentos. Bacon também usava de magia, era um criador de dogmas, e assim, influenciou o plano mental do inconsciente coletivo, utilizando o medo como ferramenta, para criar um caminho único de existência. Porém, quero dizer que agora trabalhamos aqui em prol da biodiversidade.

Fazer magia é algo inerente a todos os seres, mais precisamente a todas as matérias existentes no cosmo, porém não é algo intencional, sem querer generalizar é claro. O que quero dizer é que, talvez, nós humanos (seres “super evoluídos”) não saibamos ainda que fazemos magia, pois para a indústria crescer tivemos que acreditar que magia era ilusão, algo distante da materialidade terrena, porém nos esquecemos que magia é movimento e força de intenção. Isso só me faz ter a certeza que caímos no feitiço industrial, hipnotizados começamos a nos movimentar, com força, garra e determinação, num trabalho em série, com o objetivo de conseguir um espaço dentro do ninho exclusivo dos bem-sucedidos – isso sim é ilusão. Cegos e anestesiados chegamos até aqui, porém – falando por mim – sinto-me cheia de vontade de reativar meus sentidos perceptivos ao saber que também posso criar minha magia existencial. Para isso, quero criar movimento, ao invés de me agarrar a pensamentos que me coloquem sensações de ressentimento.

Os maias se relacionavam com o movimento dos astros para medir o tempo. Eles entendiam que os seus trânsitos influenciavam a vida na terra, como por exemplo: as estações do ano e o movimento das marés. Consequentemente tudo isso nos induz também à criação de nossas danças de vida. Recuperar o animismo, como diz Isabelle Stangers é uma forma de fazer crescer em nós a percepção de que estamos em relação com todas as matérias da terra e do cosmo, com o intuito de transformar a crença da supremacia humana, para assim descolonizar a ideia de querer centralizar o poder em nós. Biodiversidades. Fazer magia é entender que nossos afetos se relacionam diretamente com a criação de momentos no nosso campo existencial no presente. É na intenção que atraímos o que está grudado em nós. Somos como imãs, um campo gravitacional, a emoção, a mente são nossas aliadas no campo da magia, pois ao intencionar energia, atraímos para nossas vidas aquilo que mantramos. Os mantras para os orientais e nossos povos originários, são frases que repetimos de forma rotineira. Acrescento ao significado de mantra também os nossos gestos que diariamente repetimos. Ao analisar isso em mim, caio em diversos círculos repetitivos, esses os quais não entendo porque se formam em minha vida, porém para alterá-lo é necessário modificar o mantra. Jung diz em seu livro Sincronicidade, que o afetos são responsáveis pela criação de sincronicidades. A magia está no mantra de nossa filosofia de vida, criando assim todo o nosso campo vibracional. Tudo depende dos nossos valores e crenças, é assim que fazemos magia. Quero indicar aqui que não pretendo, criar um texto coaching… muito pelo contrário… este tipo de ação nos pressiona a continuar dentro de um campo de mantra criado por Francis Bacon e pelos amigos dele. Meu interesse aqui é na biodiversidade e não na contínua manutenção da padronização de corpos. Entramos na era de aquário, é muito importante entender esse momento, pois essa energia pode criar tanto uma grande comunidade biodiversa, como podemos adentrar em uma realidade paralela e perder a conexão entre os corpos no âmbito na matéria. Digo, estamos criando um movimento muito tecnológico, não podemos nos esquecer de esfregar os nossos corpos!!!!!!!!!!! Nem podemos nos esquecer de que podemos nos conectar em rede por meio dos OLHOS, nem que esse simples gesto pode nos auxiliar a desenvolver tecnologias corporais, como a TELEPATIA.

Eclipses chegam para alterar o padrão mensal cheio da lua, para nos dizer que inclusive os corpos celestes também estão alterando os seus percursos. Dia 30/11/2020 a terra se alinhará com a lua e o sol, e por causa disso a sua sombra apagará o brilho na lua. Enxergar-lá-emos vermelha e opaca. Essas alterações nos céu indicam novos processos em nossas marés, levando-nos a uma mais forte percepção das nossas oscilações emocionais e mentais. Eclipses criam portais e estes criam abertura temporal que se desenvolve na duração de estadia do eixo em que a terra se encontra agora. Hoje o eixo norte da terra está apontado para a constelação de gêmeos e o sul para a de sagitário. Gêmeos indica uma energia que se espalha percorrendo de forma veloz diversos pontos, ligando-os entre si e formando uma rede de conexão. Isso nos pede diálogos mais velozes, porém certeiros, verdadeiros e ligados pelo afeto da lua – coletividade conectada. Por aqui, nesse texto, agora, intenciono, como num mantra, que creio em processos criativos coletivos que envolvam seres muito diferentes uns dos outros e que estes encontros sejam cuidadosos e generosos.

Desconstruções sobre o amor romântico.

Silvia Helena de Amorim Martins.

Se eu queria enlouquecer esse é o romance ideal. 

(Paralamas do Sucesso)

Era uma vez…. não sei se você já observou, mas todo conto romântico inicia da mesma forma, hahahahah e detalhe tem um príncipe e uma princesa, geralmente brancos e dentro do padrão eurocêntrico, raramente um casal inter-racial. Na vida real quando duas pessoas se encontram apesar do encantamento, os sinos não tocam, não tem sons de violino ao fundo, você não esta no alto de uma torre e ele não está montado em um cavalo branco. È tudo bem real, não tem esse glamour todo produzido pelo cinema, literatura e músicas. Observa-se as imperfeições:aquele dentinho torto, aquele cabelinho branco que teima em aparecer. Nada mais comum, afinal somos humanos e não saímos de um conto da Disney.

Nesse texto quero enfatizar que o outro, aquele seu crush (paixão súbita), gatinho(a), que faz seu coração batucar igual escola de samba no carnaval, infelizmente não vai lhe completar. É triste eu sei, acredite nas minhas palavras eu realmente sei hahahahah. O sofrimento amoroso, as frustrações são democráticas atingem a todos abaixo do céu, assinalo que os homens também sofrem por amor e como sofrem esses rapazes, mas devido uma estrutura social machista não é tão aceitável permitir que as lágrimas rolem. Vamos rasgar o véu e o verbo?!

Desde a infância é fomentado esse ideal romântico, esse imaginário fabuloso de que alguém vai nos completar. Isso me lembra Fabio Júnior : Carne unha, alma gêmea, bate coração, a metade da laranja e por ai vai hahahahaha.O psicanalista, Daniel Omar Perez afirma: O outro não vai me completar nunca, por que esse outro é faltoso e desejante, ele pode até caminhar junto, lado a lado masjamais suprir todas as expectativas, por que isso é pesado demais para qualquer ser humano na terra. É exatamente essa falta que eu tenho, você tem e a galera geral tem também, que a psicanálise chama de falta estruturante, em uma tentativa de satisfazer essa falta nos endereçamos a vida social, trabalho, amor, atividade física, lazer, dentre outras coisas que você pode nomear enquanto acompanha esse texto.

Será que não está na hora de se permitir descansar da angústia e da ansiedade gerada pelos ideias do amor romântico? Em 2019, de acordo com o IBGE 60% dos brasileiros e brasileiras estavam solteiros, suponho que imersos nessa pandemia que não acaba, esse número deve ter aumentado. Viu!!! Não é só você, tem todo um movimento que está desconstruindo o amor romântico. Seu eu sou contra o amor? Não, jamais só tenho uma visão crítica e reflexiva sobre o tema. O que você acha de enxergar o amor e o afeto como algo mais amplo, para além do par romântico? Será que amor de amigos, família são menores que o amor romântico? Eu sei que você está ai do outro lado dizendo: Há mais são amores diferentes. Concordo com você meu bem, são amores diferentes e provavelmente você quer um amor caliente que faça seu coração bater mais forte, pulsando só de emoção, que te faz acordar no meio da noite, que deixa você ansioso (a), com os olhos grudados na tela do celular a espera de uma resposta ahhahahahah. Mas esse é a questão, o amor romântico está pautado na impossibilidade, em um amor idealizado, que aponta o outro como perfeito (algo que não existe). Então acorda pra vida bebê!!!! Isso aqui é Brasil hahahhaha. O que você acha de um amor possível? De primeiro cuidar da sua casa interna / coração, antes de convidar alguém para entrar? Vai que nesse enclausuramento você se descobre como alguém bastante interessante e digno de amor?

Não estou dizendo para você se fechar, longe disso eu estou dizendo é para você se abrir para a vida, apreciar cada momento sem estar se martirizando com as pressões sociais que apontam que você precisa estar com alguém. A vida é agora, não se prenda a padrões, seja gentil consigo hoje!!!! E se aparecer um crush, que não fecha com ossonhos/ ideais? Mas é claro que ele/ela não vai fechar hahahahah a vida não é uma novela. E não estou dizendo que se jogue nos braços do primeiro que quiser hahahahaha. Mas apenas sai do alto da torre, fura a bolha de expectativas e se permite conhecer, conversar, deixar as coisas fluírem no seu tempo. Aproveitando a experiência no presente.

Mas claro sem deixar de focar em você, lembra!?Somos seres faltosos, quando nos acolhemos, nos cuidamos e acarinhamos passamos a ser menos exigentes com o outro e a enxergar as coisas como de fato são. Vale ressaltar a importância da rede de apoio: família, amigos e demais grupos. Bora, acalmar esse coração cansado(a)?!colocar as pernas para o alto, se espreguiçar e apreciar as dores e sabores de ser quem se é. Apesar das adversidade a vida é bem gostosa. Será que você não está vendo a vida passar, a espera de alguém que não vai chegar ( príncipe e princesa). O que você não pode é perder saúde em busca de ideais inalcançáveis. Um grande abraço!!! E até a próxima. Se cuida daí que eu me cuido daqui!!!

UMA TENTATIVA DE ESCREVER

Por Kiko Alves

Esse texto de hoje não se propõe a ser um texto que traga algo de novo, nem se organiza como um texto dito padrão, é apenas a reflexão de um homem negro, gay, periféricos, umbandista no limiar de seus quarenta anos, e isso acreditem é importante que seja falado, que viver tanto nesse contexto de mundo é um privilégio negado ao povo preto. Então não é linear as ideias que trago aqui, são apenas reflexões meio soltas, de alguém que tenta pensar, um pensamento pautado pela raiva, e dor, não é facil ser homem livre, não é facil ser um corpo negro no mundo.

Nos últimos dias, tenho me pegue pensando, no quanto o ato de se expressar não é algo tão simples, digo no sentido artístico, utilizar essa ferramenta para tentar decodificar e reorganizar o mundo, não é algo natural, corpos como meu recebeu o direito de ser grato, a expressão para pessoas como eu é um exercício que precisa ser ensinado, e depois de ensinar, precisamos apreciar o processo de liberdade que ela porventura possa trazer, por que vezes sabemos até nos expressar mas as urgências me dizem que ela é pouco importante, temos uma voz aqui do lado do ouvido falando que a sobrevivência é mais importante, a arte como respiro, a arte como possibilidade de ir um pouco além, de continuar esse processo que é respirar como prática básica da vida, a escrita é parte desse processo, compõe o fazer artístico, é um privilégio caros amigos, e por tanto um direito quase que exclusivo de brancos.

Claro que hoje temos diversos movimentos de pessoas negras que tentam criar espaços de produção artística negra, afrocentrada, voltada para o conforto e para a felicidade preta, mas todos eles são efêmero, curtos, por temporada quando existem, hoje na cidade não temos um espaço preto e nem é culpa da pandemia, antes já eram poucos, só se agravou.

Eu sou da filosofia, e na prática faço cinema, me utilizo do cinema para tentar fazer isso, me expressar, criar um espaço de pensamento e fazer negro,  quando não entendo algo, em geral filmo, porém mesmo esse lugar que é tão familiar, faltou, a escrita me faltou, mesmo coisas simples como a habilidade de olhar para o grande Rei de Oió e saber que sou protegido por algo maior e mais profundo,  me faltou, e já me desculpei pela minha falha aos meus ancestrais; talvez tenha ficado no entanto a inquietação que a filosofia me trouxe nesses muitos anos de vida; e por faltar meios que nos ajudem a sair da frente dessa muralha que foi feita para se ter a ideia que é intransponível…ficamos paralisados, o racismo é uma muralha que foi construída com essa ideia, que ela é não somente natural, é também intransponível, é uma logica organizada estrutural e conceitualmente que faz parecer que mexer nela, é mexer na logica que organiza e dita as regras da realidade, o racismo foi uma idea que se tornou normal.

O que os movimentos anti-racistas de pessoas brancas fazem hoje é tentar não normalizar a barbárie, e vê o outro com uma espécie de humanidade ainda não praticada, acredito que a luta anti-racistas de pessoas brancas ainda esteja na primeira infância, ela se dá conta do mundo, ele até consegue vê contextos, mas falta leitura, falta compreensão, falta decodificar, falta entender, falta um inunda-se de humanidade, falo que falta, por que nenhuma pessoa branca anti-racistas abriu mão de seus privilégios ou poder em prol de pessoas negras, os que têm de fato poder não vão fazer, e os que não tem o tal poder, não entendem como podem dividir algo que julgam não ter, é aí que o racismo se mostra de uma forma tão refinada, ele sutilmente afirma que nesse processo de partilha dos privilégios pessoas brancas precisem abrir mão de sua humanidade superior e riquezas e na prática vamos ter que falar disso, ele afirma que tudo que vocês têm é natural que vocês tenham, e que por tanto quem questiona isso é inimigo, logo longe da norma, e vocês caros amigos praticam essa ideia diariamente.

Talvez a questão em que devo focar sejam as práticas racistas, ou alternativas para que possamos habitar um mundo livre dessa doença cognitiva, o racismo é uma falha de caráter, é uma fissura na ética na construção de diversos sujeitos, e é também uma atitude política em relação ao mundo e ao grande outro. Mais que uma pratica o racismo é uma ideia muito bem organizada, para em primeiro lugar afirmar a humanidade quando no mesmo movimento nega essa mesma humanidade a certos grupos, em segundo ele é organizado de modo a silenciar corpos e subjetividades que por ventura não estejam dentro da regra, e a regra é posta a todo momento pelo estado, a mídia, a indústria, e pelo pensamento vigente, o racismo é uma tecnologia de segregação construída de forma muito eficiente, por quê se coloca como norma, mesmo quando não chama um negro de macaco, mesmo quando ele não mata um negro num estacionamento qualquer, de algum lugar desse país, ele se afirma como regra, como norma em vivemos dentro dessa norma.

Nesse processo de discursos anti-racistas extremamente necessários, eu me incomodo muito com a existência deles, é contraditório, mas sinto dessa forma, um incômodo na afirmação de pessoas não negras sobre compreender o contexto e dor de pessoas negras, de certa forma sou um pouco marxista, por mais que negue por vezes esse pensamento, nego em prol do pensamento do grande Marcus Garvey e de Malcon X e seu desejo por uma ideia negra da vida e do mundo, uma construção politica e social do negro. Outra ideia que me incomoda e da moda dentro da luta anti-racista de racismo estrutural, me incomoda por que por vezes existe uma certa demagogia por parte de quem fala, pois se o racismo é estrutural e todos somos parte da estrutura que compõe o tecido social, então na prática ou sofremos racismos ou praticamos racismo, entendo que esteja na estrutura, então cada vez que abrimos a boca e narramos como essa violência é feia e que está na epiderme da sociedade, talvez nesse momento coubesse um pequeno exercício de reflexão de privilégios, por que se somos parte do problema e ele persiste a 520 anos só posso entender que esse pensamento que hoje é narrado como feio, como desvio ainda é vantajoso para quem na prática ainda se beneficia desse sistema arcaico de perceber o outro.

Não basta saber que é estrutural, é necessário ação para que possamos criar um mundo diferente, aí volto aqui a nossa ideia marxista de redistribuição de renda, dos recursos, porque uma das coisas que organize a lógica racista, é o poder, sendo portanto um meio de alcançar um equilíbrio, distribuir de forma mais justa o poder essa palavra que parece sempre tão distante de todos e que referencia algo de ordem quase sobrenatural que organiza e dita as regras do mundo. 

Não se trata de post, ou likes, ou textão em algum feed, talvez se trate de em primeiro lugar brancos deixarem de lado sua humanidade, que nos 700 anos tem sido construída sobre a ideia de superioridade, e que negros possam deixar de acreditar que somos uma raça inferior, uma casta de serventes, isso não muda muita coisa a curto prazo, mas se brancos deixam de lado sua humanidade e se abriem a experiencia de outras humanidades e não como coloziadores e sim parte da reinvenção da vida, possamos ter uma possibilidade de construção juntos, e negros precisamos entender e amar nossa humanidade, precisamos entender que a estrutura e sobre tudo o pensamento, depois é esse pensamento posto no mundo na forma de lei e regra.

Não sei se isso resolve nada, o que sei é que ou entendemos que outras humanidades são necessárias aqui, nesse momento ou morreremos repletos de humanidade, por que de uma forma ou de outra esse mundo vai colapsar, como se trata de poder, lutaremos por poder, não tem sido pacífica essa luta, nos resta então redistribuir a violência.

Diário de bordo é pra isso, também. Acho.

Por Roberta Bonfim

Tudo seria se fosse, ou não seria se não fosse. É que na real, tudo o é, se for, se formos, se somos, se sou. Sou? Sou eu? Somos nós? Sobre quem se trata? Ou sobre o que? Temo ser constituída de perguntas sem respostas. Mas, do que se trata a vida se não de um emaranhado de perguntas sem respostas? E, gerando mais. 

Esses dias mesmo me deparei com uma mulher na rua, creio que more ali naquele exato lugar em que a vi, ela tinha um olhar vivo, atrás de um corpo quase morto. Também esses dias, uma atrocidade me tirou o doce da boca, trocando-o por amargor de existir em lugar tão… Tão… Não encontro ainda palavras que diga claramente como percebo esse lugar do qual existo, existimos. Pois a agressão violenta até levar o ser a morte, é real e nos ecoa e precisa nos ecoar, é imprescindível que nos atravesse, que nos agrida, que nos mate, como foi morto mais este ser. E por amor ao que pra você for mais importante na vida, não me diga que a revolta a este fato absurdo é vandalismo. Não me diga que é um exagero, mimi ou qualquer menos do que a gravidade do vivido.

          Me perguntei, e me pergunto, e possivelmente serei neste perguntar, sobre o que leva alguém a bater em outro alguém até levá-lo a morte? Eles batiam em quem? O que estimulava toda a ira para agredir o outro assim? O que nos faz espantarmos a nós mesmos até a morte? Juro que não consigo, mesmo com muito esforço encontrar as razões. E apesar desse medo da ira possível, não aceito que seja uma questão de tom de pele, somos todos um, creio e busco viver verdadeiramente esse lugar, nem sempre rola, ainda temo muito a proximidade com o outro. Não sou boa em estabelecer limites, assim, sempre indicado manter as distâncias saudáveis, desse modo aprendi a estabelecer uma forte relação com parte de mim. Uma parte constituída de partículas de outras partes, que se misturam e se opõem, permanentemente. costumo culpar o signo, mas tá difícil, usar a luneta, símbolo desse lugar. Tá difícil e penso que talvez seja por eu crer que somos todos um, então aquela agressividade toda também me habita e isso em absoluto me apavora.  Um sentimento de impotência, me volta muitas vezes ao dia, e o exercício de saber até onde dou conta também. 

Eu que sempre vivi a beira, achei por um instante que havia amadurecido e controlado a fera que me habita, mas o que tenho percebido na constância da minha companhia é que não há qualquer controle, além do ilusorio sufocante de que se é preciso caber, ser parte, pois o contrário disso é a solidão. E reza a lenda que ela não é boa. 

O que nos faz humanos tão enormemente desumanos? O que nos faz humanos demasiadamente omissos e impotentes em um mundo em que o que sobra de mata virgem vem sendo queimada, explorada, invadida? O que somos? O que sou? São tantas perguntas que chegam mesmo a esquentar a minha cabeça e falo de um esquentar físico, sensorial. E antes que exploda respiro e acredito, corro, pego a mochila coloco nas costas, ando na rua até o suor descer pelas costas e então com a temperatura corporal equilibrada consigo zerar minha mente.

Mas, sabe o que mais me faz muito bem, ou eu não teria mandado esta mensagem, é este Blog, este Lugar onde nós que habitamos somos ArteVistas.

Mensagem enviada em grupo de whatsapp

Gente!!! Hoje graças a esse lugar o dia já amanheceu lindo de viver. Ainda maturando o texto de Saulo, a primeira resenha, e lendo o texto de ontem de Gustavo, há gente amo lê-los! Aprendi um bocado. E ainda tinha msg de Mari confirmando seu texto de segunda. Meu coração e alma só celebram e agradecem!

Ontem de noite ainda (sexta) tiveram dois programas lindos no nosso canal do YouTube, um com contos do mundo, e outro de pontos e papos, com apresentação das ArteVistas Josy Correia e Marta Aurélia e convidades lindos, respectivamente.

Logo menos teremos o terceiro encontro de mais um projeto lindo que se relaciona com o Poço da Draga… mas daí são cenas dos próximos capítulos. Abraços em todes e cada um e lindezas! Sigamos escrevendo e compartilhando que é lindo.