Ame-se e Seja-se

Por Roberta Bonfim

você se vê? E se você fosse uma mulher como eu, como se sentiria? Não é fácil ser mulher, nordestina, simpática e gostosa nos dias de hoje, preciso esconder os seios e me esforçar para chamar menos atenção, e estamos em2021.

Onde algumas mulheres gritam o feminismo, olho ao redor nos vejo ainda em grande parte presas a padrões pré estabelecidos por terceiros e quartos, por seres que jamais saberiam o que é ser mulher. Eu sou mulher pra caralho, sou mulher como foi Bárbara de Alencar, sou mulher como Atenas ou Clarice, sou mulher como Virgínia, como Helda, como Maria, como Dani, como Quitéria, como Ravena, como você. 

Você que já se sentiu agredida, diminua, exposta, invadida ou privada de ser quem é, você que sentiu todos os pesos dos dogmas e das culpas impostas por outros e que por tempos pareceram ser minhas próprias limitações.

Não culpo ninguém por isso pois nunca fui homem, nunca entendi como é pensar por duas cabeças, com esforço é até pensar por duas entradas de luminosidade, mas pensar pelo ângulo animal prático da vida me parece estranho e medonho. Medonho como a história de Maria de Biu e sua lenda caneluda que justifica a fuga do homem que tirou sua vida. Lembro de Luzinete que com Aids transmitida por qualquer homem que poderia ser seu amor, morreu só, buscando ser amada, implorando qualquer olhar. Um dia me disseram que faz parte do ser mulher sentir-se admirada, desejada. Esse lugar em que nos sentimos invadidas e excitadas. até onde há a culpa? Até onde é pura negação dos próprios instintos? Não penso que ser mulher seja uma dor, mas é uma guerra, uma batalha constante pelo poder existir enquanto ser, além do gênero, dos estereótipos e rótulos, além inclusive do ser mulher, ou ser homem, ou ser gay, trans. Mesmo porque existem dias em que é possível ser tudo isso. 

Eu tinha uma vizinha na infância, não sei se já comentei, mas não sou daqui. Me reconheço brasileira com todas as raças em mim e também os misto de todas as violências vividas por mim e pelos meus ancestrais.  Sou parte de uma família que buscava ser tradicional sem conseguir. A gente nasce pro que é e não adianta pensar o contrário ou forçar a barra, estamos vivendo em um mundo misturado.

Mas na minha infância havia uma vizinha, ela não era nem feia nem bonita, mas era mulher, daquelas que quando você olha de cara identifica, era mulher como ninguém em casa era, era  daquelas que olha no olho e não tem nenhum pudor de ser quem é, por não saber ser de outro jeito. Eu a olhava com admiração e temor, com paixão, desejo e horror. Olhar para aquele ser mulher era colocar em cheque a minha capacidade sê-lo. 

Me olho no espelho, me acredito mulher.  – Tudo é mesmo um xadrez semiótico, o símbolo do feminino é um espelho (desenha o símbolo),de vaidade, de visão de si e autoconhecimento, de ser gente, somos no final todos espelhos de nós mesmos. Qual a última vez que você deu um conselho? Lembra o que disse? Eu lembro. Eu disse: – ame-se, pois de tudo que aprendi no meu caminhar o mais transformador tem sido o exercício perene do amor, do amar.

Uma história real!

Olá, povo!

Como estão todos?

Parece que as coisas voltaram ao normal, não é? Não fosse pelo uso das máscaras, talvez nem nos lembraríamos de termos vivido dias tão tensos. Mas não confiem nesse ar de normalidade, ainda temos um vírus letal circulando em nosso dia a dia. Continuem se cuidando e usem máscaras.

O filme de hoje “Quanto Vale?”, nos conta uma história baseada em fatos reais.

Após os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, o governo norte americano, as companhias aéreas e outras empresas de diversos ramos se preocupavam com ações judiciais que poderiam ocorrer, movidas por familiares das vitimas desse triste capítulo da história. Responsabilidade civil é algo muito importante nos EUA e os danos financeiros seriam desastrosos.

Desse modo foi criado um Fundo de Vítimas do 11 de Setembro, a fim de indenizar as famílias da vítimas e os que, em serviço, adoeceram, como: bombeiros, socorristas, serventes, policiais entre outros.

O responsável por procurar as famílias das vitimas e convencê-las a aceitar a indenização do fundo e não ingressar com processos foi Ken Feinberg (Michael Keaton), um advogado renomado e bem sucedido que, tradicionalmente, atuava na área de litígios cíveis. Ele se candidatou a ser o responsável por esse fundo, porque queria ajudar seus compatriotas de alguma forma. Se ofereceu ao governo americano e fez esse trabalho gratuitamente.

Ao longo das negociações, seu comportamento e entendimento sobre questões indenizatórias muda, e isso é o mais bonito na jornada contada no filme.

Além de Michael Keaton, outros grandes atores compõem o elenco, figuras como: Stanley Tucci, Amy Ryan e Tate Donavan.

Um ótimo filme! Disponível na Netflix. Assistam.

Até o próximo mês, queridos! E como novembro é o mês do meu aniversário, vou presentear vocês com comentários sobre três filmes, ok?

Cuidem-se!

Forte abraço!

Janaina Alencar.

Onde vou estar agora

Eu seleciono bem as flores que vou usar, tiro galhos, sementes, e restos de folhagens… Com uma tesoura vou cortando pétala à pétala cada flor dentro do potinho … É um processo calmo e paciente que nem toda pessoa está afim de fazer, mas que para mim sem isso não faz sentido, preciso fazer essa ação até enxergar vários flocos verdes e cintilantes …

O perfume toma de conta do espaço, exala um cheiro de chuva com limão. Rapidamente me sinto um tamanduá socando seu nariz em um formigueiro profundo, farejando cada cheiro suculento para saciar seu desejo. Aquele perfume entra nos buracos do meu nariz com uma sensação adstringente limpando as estradas neurais de meu cérebro.

Pego uma seda, derramo todas as flores picadinhas nela, espalho com leveza. Minha mãe de santo sempre me diz que um padê jamais deve ser sacudido, deve ser organizado com as mãos. Meus dedos prontamente organiza aqueles pequenos flocos, verdes, aveludados, cristalizados, cintilantes; aquilo é um presente para mim e para mais ninguém então tem que ser bem feito.

Segundos depois já lanço aquele pequeno torpedo carregado de terpenos pressionados, aglutinados esperando serem eriçados para soltarem seu esperma quente e grosso em meus pulmões… um gozo que jorro na minha boca, risco o isqueiro e vejo a brasa se formar. Baforo devagar, arejo os pulmões, aterro a cabeça. Gozo em fim…

Fim … ?

Meu sonho era conhecer Moraes Moreira…

Caminhante

Por Roberta Bonfim

Depois de uma aula sobre identidade de lugar, que quis muito compartilhar a conversa repleta desses temas entre Izabel Lima e Gustavo Luz, na Lugar ArteVistas que compartilho aqui.

E sai. Eram 16:45 e sai andando da minha casa até a casa de Michele Tajra, alguns quarteirões depois. Neste trajeto me percebi sedentária, quando ante a uma pequena ladeira a respiração já se mostrou puxada. Mas, no ato tento me convencer de que é a máscara.

Sigo!

Mas na frente recuo a uma bicicleta que vem. Preciso dizer que sou miupe e as caminhadas gosto de vivê-las vestida da minha miopia, exatamente para me permitir as boas surpresas. O fato é que senti o movimento da bike e brequei. Achei o movimento grande, pensei se quem estava na bike não havia se assustado também. Era um homem negro que sorria com os olhos, e nos sorrimos dizendo que tava tudo bem com ambos e segui. 

Atravessei a rua e peguei o celular lembrando da colega Ada Raquel Mourão, que estuda calçadas e eu que amo integrar as coisas sempre me irrito com a individualidade social exposta pelas calçadas, ou crio histórias mentais sobre os moradores das casas de calçadas tão distintas. Será que essas pessoas andam nas ruas? Será que já empurraram um carrinho de criança ou uma cadeira de rodas?

Vídeo feito inspirado por Ada Mourão

Sigo e observo o vazio das ruas, em quase 10 quadras cruzei com quatro ou cinco pessoas na rua. Acho acho pouco, especialmente em um fim de tarde em Fortaleza, onde só parar na rua para olhar o colorido do céu já faz valer o dia, nos lembrando que somos só pó estelar com toda sua imensidão e esplendor natural. 

E ao dobrar a Santos Dumont me deleitei com o deitar do sol nessa banda do mundo e o imaginei dando as caras pelas bandas do Japão. Respirei e segui.

Na casa da amiga o reencontro com o amor Jean Jackson que escreve para este blog e que agora vai escrever das bandas de Paraty. Encontro também a Diva Marta Aurélia que nos presenteou com um programa Janela da Alma que é um verdadeiro convite ao amor e ao semear juntes. 

Voltei para casa e já estava escuro, mais do que eu me lembrava que era a cidade de noite com luz fracas e pouco convidativas a vivência na rua, por deixá-la inóspita. E as calçadas irregulares dificultam o trajeto. Na volta cruzei com mais pessoas na rua, todas em movimento e mulheres, as que abrem e fecham as cidades.Gratidão!

Sendo…

Por Roberta Bonfim

Os dias passam lentamente apressados. E a vida passa e vamos vivendo tantas novidades cotidianas, aprendizados surpreendente óbvios, a cada novo instante, além dos testes de reação e todo o ambiente que somos e nos cerca. Por aqui estamos a 3 anos e 8 meses aprendendo a nos separar e com um desejo profundo de união.

Tão pouco conseguimos ser só nós, e logo ela já será a garota sociável que nasceu para ser e a mãe aqui vai ficar só observando e buscando fazer as escolhas mais acertadas por nós até que ela esteja preparada para tomar suas próprias decisões.

Outro dia enquanto conversávamos ela me apresentou questões tão pertinentes e profundas que cheguei mesmo a entender os medievais e agradeci por vivermos no agora e por termos a grata alegria de passamos por esta vida podendo ser mãe e filha.

Esses dias, talvez por conta das reaberturas e diminuição das distâncias, comecei a pensar sobre o quanto mudei desde que me tornei mãe. Uma das coisas que me chama muita atenção é a relação com os amigos, e mesmo com a cidade. 

Quando vamos ser mãe até sabemos que muito vai mudar, mas só no viver entendemos real o que isso quer dizer, e diz. E daí para frente a perene brincadeira de escolher a todo instante de modo consciente e responsável, mas sem culpa. Porque a culpa é peso e eu estou deixando os meus no caminho. Seguindo com o que me cabe e onde caibo.

Campo de magia: o que é e como se proteger

Desde a antiguidade a palavra magia soou e até hoje soa como algo negativo. Desde épocas muito antigas, existem escolas de iniciação ritualística. O conceito inicial básico de magia é forma-pensamento ou intenção, ou seja, se ela é ruim, torna-se magia ruim, se ela é forma-pensamento boa, torna-se magia boa.

          Algumas dessas pessoas desvirtuaram-se da proposta original que deveria ser a conexão com 4 elementos da natureza (terra, água, fogo e ar) e suas formas arquetípicas com intenção de elevação do espírito e respeito ao livre arbítrio alheio.

 Esses que por próprio livre arbítrio decidiram caminhar em águas turvas, se auto intitularam como magos negros, interferindo no livre arbítrio e sofrendo consequências dessas ações através do princípio de choque de retorno. Ou seja, se faço o mal, recebo o mal que inevitavelmente envio.

          Muitos desses seres desencarnaram e no plano astral exercem influencia sobre uma cadeia de comando  e com nós encarnados que estejam na faixa vibratória deles. Os magos negros ainda podem induzir a pessoa, através de seus sentimentos de culpa e baixa auto estima a achar que jamais poderão receber a Luz Divina, e não encontram objetivo em nada.

Em grande parte das vezes, infligem a si mesmos os mais diversos castigos e, mesmo quando recebem a ajuda de outros espíritos e das almas iluminadas, eles argumentam que seus crimes são imperdoáveis e anseiam por “castigos” que possam “purificá-los”. Vivem acreditando que são indignos de qualquer perdão, e se não forem auxiliados, podem chegar inclusive ao suicídio.

A prática da magia negra é explicada, à luz da doutrina espírita pelo Livro dos Espíritos em suas questões 549 e 550, sob o título de “Pactos”, de 551 a 556, sob o de “Poder Oculto, Talismâs e Feiticeiros”, e 557 “Bençãos e Maldições”. Ali se ensina que as ações de espíritos voltados para o mal sobre as pessoas podem ser impedidas, caso a pessoa objeto dessas ações invocar, em sua proteção, a ação de espíritos voltados para o bem.

Ensina, ainda, que para que uma pessoa tenha a ajuda de espíritos voltados para o bem, ela deverá manter-se em harmonia com eles, envolvendo-se, em todas as suas atividades e práticas, com pensamentos nobres e sempre procurando auxiliar aos necessitados.

Alguns espíritas erram ao achar que é só querer que se livra da obsessão. O médium altamente treinado, consegue…mas a sofisticação das obsessões só faz crescer. Hoje em dia não existem mais obsessões simples. Em geral são complexas, agravadas pela instalação de aparelhos astrais na região para-cervical (no corpo astral um espelho do corpo físico). Porém, as condições predisponentes são realmente dadas pela própria pessoa, que é ignorante ou ignora voluntariamente a Lei de Causa e Efeito, e usa seu arbítrio erroneamente, ou nem ao menos exercita durante a vida seu direito de escolhas.

Geralmente não é quem erra muito quem mais fica sob o jugo dos magos negros, mas quem se deixa levar, quem não se esforça para evoluir, e não compreende que suas dificuldades, na verdade são lições que ainda precisam ser aprendidas, exercitadas, restauradas. Preferem o lugar de vítimas, ou seguem o “deixa a vida me levar” ao pé da letra, ou pior, fazem escambo com a escuridão em troca de benefícios próprios. Esse último caso é o que mais acontece.

Casos como de pessoas que insistem em um relacionamento que já acabou e fazem uma “amarração” espiritual estão infringindo o livre arbítrio da pessoa em questão e muitas vezes sem saber fazem magia negra. O custo de retorno disso é alto pois gera cobranças pelo próprio ato gerado.

Caso você tenha feito isso no passado ou tenha sido alvo disso, saiba que isso é mais comum do que se imagina e pode ser resolvido. No próximo artigo, daremos continuidade desse ponto. Fale conosco e faça essa quebra energética.

Vem pra roda…

Por Coletivo Abayomi

Reunir-se e realizar atividades, este formato é uma tradição muito antiga de muitas civilizações:seja para ouvir e falar, para brincar, cantar ou rezar. Tem um significado infindo dedimensões temporais, éticas e políticas que influenciam acordos sociais e comportamentais.

A circularidade é o espírito motriz, fundamento que nos convida a receber todos os saberes e fazeres bem como nos impele a compartilhá-los. É o valor que desperta o senso de pertencimento através de ações comunitárias.

O convite para sentar se reunir em roda é quase sempre irresistível. Puxe pela memória e provavelmente lembrará… de uma roda de amigos, da família em volta de uma mesa, de histórias ao redor da fogueira, de uma roda de samba, de capoeira, de cirandas. E as brincadeiras em roda? O prazer do ato de sentar em roda é um estímulo para trocar de conhecimento e fortalecimento de nossas memórias.

Imagem: Michael Aboya

Entre todos os valores civilizatórios africanos e afro-brasileiros, a circularidade merece um lugar de destaque. A sabedoria de várias sociedades africanas nos convoca a repensar para o modo de se comunicar, se relacionar e se colocar no mundo. Literalmente como nos posicionamos diante de um coletivo ou uma comunidade.

Uma tecnologia leve que cria e mantêm vínculos éticos e simbólicos, a configuração espacial sem início e nem fim nos presenteia com uma concepção metodológica social e filosófica, permite que todos se olhem e sejam olhados. Essa comunicação através do contato visual nos coloca como iguais, sem hierarquia, aponta para o movimento, a troca, a renovação, a cooperação, a coletividade; possibilita a mesma oportunidade de estar na centralidade.

Uma roda não tem espectadores, uma vez nela todos são responsáveis por manter acesa a energia que a alimenta. Quem não toca, canta; quem não canta, dança; e quem não dança… balança a criança.

A circularidade sintetiza a múltipla e rica cosmologia africana e pedagogicamente nos ensina que a vida é cíclica. Chamamos movimento cíclico porque a todo o momento mudamos nosso pensamento, humor, forma de agir e se comunicar, as pessoas expressam e passam energia por esta roda.

Imagem: Moisés Patrício

A complexa cosmologia africana, nos ajuda a compreender nosso tempo e o tempo do outro, ajudando-nos a assimilar que somos partes do mesmo todo, somos interdependentes e conectados ao ritmo da vida e da natureza, dimensões estas, cujas tradições africanas são retro-alimentadoras, por imprimir experiências envolventes, autênticas e profundas.

Quando a metodologia da circularidade ganha dimensões epistemológicas, ela torna-se uma espiral  — como o “tempo espiralar” de Leda Maria Martins —, uma roda infinita que se desloca pelo espaço-tempo conectando todos os membros da ancestralidade que a compõem. Uma mola que nos propulsiona a saltos maiores em um impulso coletivo.

A circularidade é o provérbio vivo: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo”.

A tal maturidade

Chamar alguém de imaturo é como uma ofensa inaceitável, mesmo quando o acusado tem vinte anos ou menos; que nem um herege que se recusa a “vestir a carapuça”, para evocar a expressão eclesiástica medieval que se perpetua aos dias atuais.

Estava relembrando as inúmeras vezes em que me fiei ter atingido a sensatez e o equilíbrio que caracterizam a tal maturidade.

No primeiro beijo, me considerei a própria experiência. A primeira decepção amorosa trouxe a convicção de que eu me tornara precocemente madura. O ingresso na universidade veio escoltado da certeza de vivência máxima. A graduação, a primeira grana com o meu trabalho, a gravidez dos meus filhos, as amizades desfeitas por incompatibilidade ou desamor, o falecimento do meu pai… Um rol infinito de felicidades e tristezas da fase mais jovem.

Sempre que escalava um novo degrau da maturidade, eu acreditava que seria o último, que finalmente havia alcançado o real patamar da plenitude.

Dizem que a maturidade se instala [sem quaisquer garantias, descobri aos poucos] à medida que você desconstrói e humaniza seus heróis e heroínas – pais, amigos, companheiros, mestres –, e continua a respeitá-los e admirá-los da mesma forma.

A verdade é que a maturidade está a toda hora se evadindo. Além de chegar sem avisar, parte furtiva, sem aceno ou abraço.

De repente, no esplendor da terceira idade, a gente se pega, por exemplo, julgando uma pessoa querida que não atendeu às nossas exigentes expectativas. Pronto, a danada da maturidade escapuliu de novo, levando consigo tudo aquilo que incorporamos com ela, pois nunca anda sozinha, se faz acompanhar da tolerância, resiliência, compaixão e solidariedade.

Da próxima vez que alguém lhe surpreender com uma falha ou uma decepção, reflita antes de voltar à estaca zero do crescimento humano.

Proponho, portanto, vigília permanente às constantes fugas da tal maturidade. A gente se encontra na travessia. Boa sorte pra nós.

Onde mora a lembrança?

Será que mora no nome da minha mãe que tenho que dar pra minha filha? Mora na lápide, marcando data de vida e morte? Na letra das cartas nunca enviadas? Na culpa? Poderia mesmo ter feito diferente?

Mora na conversa que conta como era uma situação pra quem nunca viveu aquele momento, tentando buscar detalhes?

Será que a lembrança mora dentro do sonho, numa imagem que nunca aconteceu, mas poderia ter acontecido?

Mora no beijo de despedida?

Na música?

Na aflição?

Na alegria?

Na conquista?

Nos encontros?

Mora na imagem, na foto que não se mexe e você vai sempre ter só aquela posição?

Será que a lembrança mora naquela ação que você não lembra direito como aconteceu, mas sabe porque aconteceu? Na intenção?

Mora no trauma? No “eu não quero mais” ou “quero melhor”?

Mora no cuidado, carinho e zelo?

Mora na parte boa ou na parte ruim? 

Onde escuta a voz de novo?

Quando a gente percebe que algumas coisas estão indo embora, onde vamos buscar a lembrança?

Ela mora mesmo na memória?

Vocacionados para mais

Facetas da Expansão – 29-09-21

Evoluir é a necessidade que nos move. Consciente ou inconscientemente, somos para o crescimento. Uma vez li algo do grande educador Paulo Freire que dizia: “o ser humano é vocacionado para mais, para a expansão”. De fato, se observarmos bem, em diferentes fases da vida estamos sempre enfocando algum tipo de objetivo que nos levará a mais. Afinal, como humanos, precisamos encontrar formas de nos desenvolver e nos tornar melhores, maiores, abundantes, importantes, mais informados e um dia, quem sabe, até iluminados. O impulso para evoluir em todas as dimensões vem de um anseio expansionista vital. Quando estamos abertos e receptivos ao novo, o entusiasmo e a felicidade que isso proporciona, gera sempre vontade de ir além… Se escolhemos expandir de forma ecológica, agindo de forma positiva e coletiva, nos tornamos cada vez mais generosos, otimistas, humanizados, solidários, empáticos e naturalmente desejosos de contribuir para que outros enveredem pelo mesmo caminho.  Mas existe também a expansão negativa, aquele tipo que acontece quando se escolhe pela manifestação de facetas da personalidade que reforçam o exagero, gerando coisas como a gula, o fanatismo, o autoritarismo, a ganância, a vaidade, a agitação, a megalomania, o exibicionismo e muitas outras coisas desagradáveis, nada geradoras da vida longa, fluída e boa que a nossa alma quando acessa, reconhece e se aquieta.