Um artigo do Artigo

Por Roberta Bonfim

Sou jornalista, antes disso, sou “gente do teatro” e tudo que eu sabia sobre artigos eram que eles poderiam ser de reportagem, crônica, narrativa, um texto de opinião. Assim, aprendi e executei, li e vivi durante uma vida. Artigos essencialmente opiniosos, normalmente gostosos de ler e não como um padrão, mas normalmente curtos. Estamos aqui falando de um artigo que entra no espaço midiático de massa, que precisava caber dentro do que o editor e o diagramador te oferecem de toques/espaço..

Na minha realidade atual de ser mais uma vez acadêmica, descubro caminhos metodológicos de pesquisas, tento construir um que caiba a mim e a pesquisa, conheço pessoas, leio um tanto, ouço outro mais. Aprendi também sobre mim, na observação dos outros em pequenas janelas que nada dizem e ouço falas potentes e outras completamente vazias, ouço atrocidades e respirou fundo buscando entender, como vivemos nessa sociedade micro e macro que mais parece uma grande feira de vaidades e posses.  E é neste universo que tenho reencontrado a filosofia, a sociologia, a psicologia, a comunicação e as infinitas artes. Vivo no universo acadêmico, ao tempo em que realizo a Lugar ArteVistas – arte onde estiver, onde nós, diversos, conversamos com outros diversos. E aprendo, duplamente, isso para além do aprendizado de viver com uma criança de três anos em casa, colocando na prática todas as filosofias em gestos grandiosamente simples e imensos em símbolos. E por falar em símbolo estamos envoltos em quantos? 

Se há um perigo comprovado pela história, são os discursos únicos que nos emburrecem, e nos cegam da forma mais cruel, e nos faz crer que precisamos caber.

Esses dias mesmo conversando com a indigena Telma Tremembé (PACHECO, 2021) que acaba de lançar um livro sobre as histórias a partir da sua e de suas ancestrais, é categórica ao dizer que não houve descobrimento do Brasil, o que houve foi uma invasão, agressão, escravização e roubo de terras originárias.  E mesmo hoje celebramos e é feriado o marco da agressão, que o discurso único nos fez crer em descobrimento. E fala isso com a plenitude de quem já sofreu todos os tipos de agressão e aprendeu a superar. Pois imagina viver em um estado que nega a sua existência enquanto povo. É o que acontece no Ceará, o estado ainda nega a existência dos indígenas que lutam em retomada. O que fica claro por exemplo na série de cinco papos que estão entrando no canal Lugar ArteVistas aos domingos deste mês de abril que é o Noda de Caju, onde indígenas conversam com indígenas a fim de fortalecer as redes e o conhecimento entre os parentes, como se chamam.Tem ainda a fala de Cacique Pequena, de Aquiraz que nos pede união, de Teka ao falar da importância da língua indigena que ela estuda e busca passar o conhecimento aos seus. É nítida a diferença de fala e postura entre indígenas que cresceram dentro de seus símbolos e signos, dos que foram criados nas cidades, mas mantém-se indignas, mas sem conhecimento sobre seus signos e símbolos perdem significado. Guajajara nos conta que falando sua língua e o portugues era tida como se falasse só um idioma porque o seu de matriz não é reconhecido em seu país, que chamamos Brasil.

E se primeiro explano sobre essas trocas, é porque o que viveram e vivem os indígenas é a prova da teoria da biopolítica, percebida e explicada por Foucault, onde há estratégias de manutenção da vida, mas também da morte. O que fica claro com a fala de Duarte (2007, p.04):

[…] tal cuidado da vida de uns traz consigo, de maneira necessária, a experiência contínua e crescente da morte em massa de outros, pois é apenas no contraponto da violência depuradora que se podem garantir mais e melhores meios de sobrevivência a uma dada população. Não há, portanto, contradição de gerência e incremento da vida e o poder de matar aos milhões para garantir as melhores condições possíveis: toda biopolítica é também, intrinsecamente, uma tanatopolítica.

Ao reproduzir Duarte, a reflexão sobre o que vivemos enquanto população no mundo, mais especificamente no Brasil, com um chefe do executivo sendo um genocida assumido que não ver qualquer problema nisso e por mais que não simpatize minimamente com ele, não o culpo como indivíduo pelas estruturas criadas no nosso país o terem feito assim. E ele não prometeu fazer diferente disse, e os poderosos que mandam no país e ditam as regras seguem sendo consumidos e enriquecidos. E as igrejas que sempre foram fundamentais no processo de colonização seguem fazendo seu trabalho. Além de que fomos nós nesse coletivo de existir em sociedade, que direta ou indiretamente o colocou ali, muitos vendo-o como o salvador, o Messias, ao meu ver, é o personagem perfeito para deixar o Brasil com toda potência que tem, no lugar de colonizado que ensaiava sair. 

E uma massa humana morre diariamente, as terras amazônicas estão sendo devastadas a olhos nus. E a metáfora dos Índios que troca a alma por um espelho segue. E estejam atentos que a metáfora é dos Índios, que agora somos todos nós, não do Indigenas. E a pergunta é, quem tá ganhando com isso? 

E aqui cabe conceitualizar este exemplo da necropolítica a partir da alta taxa de mortalidade em ambientes de cárcere, ou das favelas, e em tempos pandêmicos, onde a vida seria ganha no dia e não há comida, onde o isolamento se torna quase impossível, o que aumenta as taxas de infecção, mas também nas ruas onde não há estruturas mínimas.

Então volto aos símbolos colocados na vivência indigena, mas que veste a todos nós, nossos símbolos, são nossas referências espaciais, inclusive de existência, identidade, territorialismo, ambientação, a quebra desses símbolos, é a quebra desse ser, que precisa exercitar o perene estado de reconstrução. Que história nos veste das quantas que em absoluto desconhecemos.

E (MBEMBE, 2003/2018) pontua que essa destruição pela forma simbólica se dá, quando o indivíduo se percebe descartável, o que acontece por exemplo em estado de cárcere, no dentro do sistema capitalista que te repete a todo momento que você é facilmente substituível, e de forma ainda mais cruel, quando são negligenciados direitos constitucionais básicos de saúde, educação, assistência social, segurança, saneamento básico, dentre outras coisas, gerando um estado de precariedade, somada a uma pandemia, estamos aqui falando de uma calamidade pública, em meio a uma crise sanitário, com um desgoverno e sem plano de direcionamentos para sairmos dessa. E um sorriso no rosto que não cabe no rosto do presidente de um país, que vive o que o Brasil tem vivido em tempos atuais. Mas, que de acordo com Mbembe, com a diminuição do orçamento de políticas públicas, o sistema social permite-se escolher suas vítimas gerando efeito de intersubjetividades cotidianas contemporâneas. Então, esse sorriso não é novo, nada o é, nem nossas vozes.

E em meio às tragédias sociais e mortificação da memória social coletiva, trazendo falas hegemônicas, como verdades absolutas, nós percebemos adoecidos, mas está difícil ainda aceitamos que somos adoecedores, devastadores, que se estamos aqui estamos executando o poder de saber. E a questão permanente é o que fazemos com isso?

Lembro agora de um texto muito reproduzido nas redes sociais, que dizia “Nenhum Direito a Menos”. E essa talvez seja a batalha cotidiana de todos nós neste momento. Garantir a não exclusão do máximo de direitos sociais já conquistados a partir de muito sangue, suor, trabalho e vidas. Pois somos humanos, racionais que reagimos ao mundo a partir das vivências pessoais, mas é a partir dos contexto sociais, ambientais e mesmo urbanos das estruturas de poder que existimos e nos relacionamos com quem nosso no mundo. Mas há genuinamente a necessidade de ser útil, ou deveria. 

E para fechar este texto com gancho no começo, afirmo que em meio às teorias humanas que nos mostram ou constroem como competidores, no contexto dual das culturas ocidentais e nas feiras de vaidades que por vezes sufocam no ambiente acadêmico, quando há mais autores que contexto, o que deve ter seu papel. O fato é que Achille Mbembe, que conheci neste texto, e assumir minha ignorância, mas me justifico por ser nova nesse universo apresenta reflexões e questões importantes e urgentes e de certo vou visitá-lo logo que possível para saber mais sobre suas vivências e estudos compartilhados.

Concluo refletindo que mesmo quando buscamos o global, é a partir do nosso lugar de existir, que o percebemos e nos percebemos a partir dele, e a fala vem depois. 

E você qual o seu Lugar?

“Dormir no teu colo é tornar a nascer…”

Na minha existência A.T. (antes do Tom), não havia preocupação, problema, trabalho ou dor de cotovelo que valesse uma noite de sono. Sempre me admirei com insones, e me compadecia ao imaginá-los rolando na cama enquanto os ponteiros do relógio teimavam em correr. Questionava-me sobre como faziam para aguentar o amanhã, com suas urgências e novas preocupações e novos problemas e novos trabalhos e novas dores. Pra mim, não havia solução para qualquer coisa que houvesse, que não passasse pelo aconchego da minha cama.

                Hoje, na vida D.T. (depois do Tom), sigo resistindo, mesmo após 1 ano e 3 meses de pouco e picotado sono. Me surpreendo, também, com o quanto todo o nosso corpo se prepara e se transforma para gerar e acolher a cria – o que inclui acordar a cada mexida ou respirar mais profundo dela e sobreviver com pequenas e intervalados cochilos.

                Já ouvi relatos de bebês que desde pequerrotos engatam horas a fio abraçados a Morfeu, mas, definitivamente, dormir não é o forte do daqui de casa. Dizem que o gramado do vizinho é sempre mais verde; eu digo que o filho do vizinho é sempre mais sonolento. Desde os primeiros meses, ao tentar arrumar a rotina diária do Tom, as sonecas e o sono noturno foram as ações que mais se demoraram a organizar. Aos poucos, claro, as coisas foram melhorando, mas não ao ponto de nos possibilitar – a mim e a ele – um descanso ininterrupto, ou algo perto disso. Para completar, se durante o dia todos os cuidados com o Tom são justamente divididos entre mim e o pai, à noite o protagonista dessa história decide que só a minha companhia serve, possivelmente porque trago em mim a fonte de toda e qualquer solução para os seus probleminhas de bebê: o tetê da mamãe!

                Sigo resistindo e resistente, certa e feliz pela escolha que fiz pela livre demanda, mas carregando comigo toda a exaustão de 1 ano de privação de sono. Guerreira? Não, e nem faço conta desse rótulo. Apenas uma mulher (como tantas) atravessando os limites do seu corpo pelo bem da cria, buscando soluções e alternativas para conseguir continuar (como muitas) e que vai se corroer de culpa quando não mais conseguir (como todas!).

                Até quando conseguirei? Por quanto tempo pretendo amamentar? Não sei. Assim como todos ao redor, também me faço essas perguntas diariamente. Todos os dias penso em desistir, mas todos os dias escolho continuar, e assim seguiremos até quando for bom pra ele e possível pra mim. A ideia de não estabelecer meta e depois dobrar a meta tem funcionado até aqui e com ela que seguiremos. Sei que muito em breve sentirei falta do meu colo ser o melhor lugar do mundo para ele e das noites intermináveis sendo seu abrigo e alimento. A cada gota sorvida, sei que Tom é inundado de amor, aconchego, proteção e saúde, e isso é meu combustível, força e moeda que paga qualquer noite em claro.          

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano e 3 meses.

Vejo o Tempo Incerto

por Júlio @casamentopoetico

Dia após dia uma pergunta filosófica buberiana atravessa meu pensamento, como um relógio sem pilha na parede. Sem corda, sem força, sem propulsão para a vida. Estático, sem brio nem vigor. “O que faz com que você seja você”?

O relógio parado não marca as horas, não define o tempo, apenas se propõe a existir, semelhante a um quadro na parede.
Então, vejo o tempo incerto, de um presente estagnado, sem passado declarado, sem futuro alcançável. Estático. Mecânico. Árido e interminável é o tempo, afirmava Neruda.
Nenhum ponteiro se mexe.
Basta uma pilha e todo elã vital se recompõe, basta uma vontade de existir para que tudo se refaça, basta um mecanismo e todo movimento se renove. Marcadores, numeração, o fato de dar corda faz acordar, faz a cor dar, faz a cor de ar, invisível, intermitente, renovado. Como que vindo de dentro. Eu sou eu e as minhas circunstâncias, nos lembra Ortega y Gasset, independente se o mundo não está bem e o tempo pareça incerto, escolho estar feliz. Outra questão fundamental: por que as horas difíceis demoram a passar enquanto os momentos felizes voam ligeiramente? O poeta Virgílio aponta uma resposta plausível (ars longa, vita brevis) a vida é breve e arte longa, a oportunidade fugaz.

Pensando sobre pão no meu lugar

Pensar em pão é pensar também num universo de assuntos. Desde sua origem milenar, passando por sua importância social e cultural através dos tempos, até chegar no campo individual, onde nós somos privilegiados pelo desfrute dos prazeres palatares, olfativos e visuais. Fazer pão é delicioso e comer é ainda melhor.

Não experienciei na infância a cultura de fazer pão em casa, a não ser o regionalmente chamado “pão de milho”, também conhecido como cuscuz. Meu primeiro contato com fazer pão foi quando estive em São Paulo, já com vinte e poucos anos de idade. Assim foi: numa ocasião familiar assisti o cunhado do meu irmão, padeiro experiente, na condução de uma receita. Foi lá, em 2014, que me identifiquei com o ofício. Desde então foram algumas tentativas frustradas, estudo, tentativas bem sucedidas, pesquisas e mais experimentos até chegar no #lugar onde estou, na cozinha, durante a maior parte dos meus dias.

Um tempo depois, já em 2015, ingressei na faculdade em Fortaleza. Logo comecei a procurar empregos para me manter e estudar. Essa busca não demorou muito, pois as amigas com quem dividi morada, Diná e Carol, me incentivaram a fazer os pães para venda. Foi aí que tudo começou e dei início ao meu negócio, o @paodojean. Foi fundamental ter incentivo e apoio dos amigos nesse início de jornada, pessoas maravilhosas. Sou muito grato ao Uirá e à Geciola também pelo apoio que me deram no começo. E tantos outros amigos.

Pessoalmente falando, no que diz respeito aos saberes e fazeres, percebo que nos tornamos cada vez melhores em uma determinada função, ação ou habilidade a medida que ficamos bons em outras – é diretamente proporcional. É como acredito que funciona o universo: as coisas levam a outras coisas. Fazer pão, como exemplo, me faz melhorar em outras áreas da vida. É como uma engrenagem que quando uma peça se move as outras partes se movem junto. Às vezes tudo que precisamos é fazer alguma coisa boa para alguem ou, principalmente, para nós mesmos.

Colocando os pés na atualidade, sabemos que têm sido tempos tão difíceis que às vezes é melhor se perder em pensamentos nostálgicos que remetem a momentos agradáveis. Neste período pandêmico teve quem aproveitou para aprender e fazer seus próprios pães em casa. Isso é realmente bom! Fico contente demais em ver tanto conhecimento sendo compartilhado por tantas pessoas boas na internet. Cito aqui em especial a grandiosa professora Nanda Benitez, quem me proporcionou um “divisor de águas” no meu processo pessoal.

Quando falo de conhecimentos me vem a reflexão sobre educação. Reflexão de que uma boa escola deveria ter uma disciplina sobre saúde básica, que necessariamente fale sobre alimentação saudável, sobre como preparar alimentos, mostrar que nós somos o que comemos, que a saúde começa pela alimentação. Mas é triste que isso seja, por enquanto, um sonho meio distante, pois sei que ainda é um privilégio para alguns ter acesso a conhecimento útil, acesso a comer bem, comer saudável ou simplesmente comer.

É difícil falar somente das coisas boas da vida e ignorar as mazelas que nos rodeiam. Mas é preciso equilíbrio em tudo nessa vida. Equilíbrio e movimento é o que mantém a vida viva.

Assim, movendo o pensamento para o meu #lugar atual, quero aproveitar para citar uma querida amiga e parceira de ofício aqui em Quixadá. Marta, além educadora no Museu da cidade, fabrica artesanalmente os saborosos e saudáveis pães da Marta. Ela tem muito conhecimento e oferece qualidade, pois além de usar bons ingredientes, faz o processo de fermentação lenta em seus pães. Esse processo faz a diferença nos pães. Além de tornar a massa mais saudável, de fácil digestão pelo organismo de baixo índice glicêmico e glúten.

Por fim, gostaria de convidar todos a acompanhar uma transmissão ao vivo promovida pelo Instituto Antônio Conselheiro, de Quixeramobim, junto com a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), que estão promovendo um “ciclo formativo virtual” através do Projeto Cuidar da Vida no Semiárido. Nesta ocasião, que será transmitida através do canal no YouTube do IAC, Marta é convidada para falar sobre o tema Memórias afetivas das nossas comidas de verdade. Marta me convidou também para essa conversa. Espero vocês lá.

Abraços.

Consciência

“A Carta do Dia” é uma coletânea de textos curtos com mensagens de minha autoria, publicadas diariamente no Caderno Buchicho do Jornal o Povo, entre os anos de 2003 e 2015. Nesses tempos de isolamento e novas escritas, as gavetas da memória abriram e deu vontade de rever e compartilhar com #lugarartevistas esses anos de afetos e muita gratidão, graças a escrita… #acartadodia

A Terra é o nosso templo macrocósmico, a casa maior que habitamos e da qual não podemos nos mudar e, por isso mesmo, que precisamos saber cuidar. Para cuidar da Terra precisamos ter consciência ecológica, a educação do sentir, do pensar, do expressar e do agir de maneira consciente, amorosa e o menos impactante possível para o equilíbrio do ambiente em que vivemos. Podemos compreender na prática os cuidados com o planeta se pensarmos em nosso próprio corpo como uma terra microcósmica, como um “templo sagrado” que também necessita de cuidado, carinho, atenção e de muito amor para funcionar em harmonia. Cuidar do corpo não apenas por preocupação com a aparência, mas com o propósito de obter o melhor que ele pode nos oferecer. Qualidade de vida é o que também contribui para que tenhamos saúde com consciência corporal. Mas tanto a consciência ecológica quanto a corporal só funcionam de verdade com mudanças de hábitos, com crenças positivas, saindo da ignorância (do não sei), para transformar novas e boas ações em filosofia de vida. Do contrário tudo fica apenas no “levantar bandeiras” em nome do modismo, das circunstâncias, ao invés de uma prática transformadora.

Será?

Por Roberta Bonfim

Um texto é mesmo isso, né? Uma sopa de letrinhas que se misturam e se separam ao seu bel prazer e o escritor, inflado de sua pretensão e desejo pela possa crer que são deles as palavras que se formam sós, apenas usando-o como instrumento. Será?

E as canções, serão inspirações ou sopros do universo que ritmam os espaços, enchendo-os de sons e também de ruídos, a fim de nos salvar e enlouquecer, ao mesmo tempo. Mas, especialmente a música nos possibilitar falar, os ruídos nos libertam. Será?

As pinturas, certamente são a reprodução do visto, como presente externo aos olhos, ou nas viagens mentais sobre essas memórias que desconhecemos e nos visitam vez ou outra e que os de trações mais seguros arriscam desenhar. Será?

A dança é movimento e há movimento em tudo. Pois gente, tenho uma coisa para avisar, e espero que se te for um surpresa você assista a vários episódios do canal Lugar ArteVistas, para ser lembrado do que já sabe. De que a terra é redonda e em movimento permanente de translação e rotação. Será?

Será? Que no passado, já foi. No presente é, e no futuro… Será? Será que após o que vivemos estaremos para viver o será? E será que se não nos unirmos estaremos fadados a sermos os que foram e já não são? E então?

E como será que seria se de repente fossemos todes tomades por uma vontade sem fim de cuidar de si, talvez, se aprendêssemos a verdadeiramente nos cuidarmos com a atenção que merecemos, talvez, conseguíssemos cuidar do outro e que é também parte do mesmo todo que me me constitui e a você também. Será?

E nesse lugar tivemos estreias lindas no blog e no canal, e por falar em canal depois de anos eu tive coragem de organizá-lo, ele tá lindes. Será? 

Chega confere e depois me diz o que achou.

https://www.youtube.com/channel/UCgtYvtMKZi1GlAkvhUbdiVg

Mãe: Meu egoísmo e minha vaidade.

Por Alana Alenacr

Começo fazendo uma retrospectiva de como foi meu começo. A primeira gestação. O que me fez/faz ser MÃE. O egoísmo aumentava conforme a barriga. Não para alimentar meu ego com sua pequenez, mas para suprir a direção das forças à minha nova responsabilidade, aos meus cuidados e desafios; afinal, tudo em mim se preparava, tudo em mim exigia a habilidade de proteger e assegurar o bem-estar de um milagre acontecendo a todo instante no meu ventre. Acontecendo no realizar compulsório do meu maior sonho. Eu entendia, meio sem explicações, o quanto a minha vida mudava com a certeza de uma nova vida sendo gerada em mim… uma outra vida que dependia totalmente da minha condição estética, genética e intelectual… um filho. Não no sentido estreito de limitá-lo ao sexo masculino, mas em toda a grandiosidade de ser entendido como um Ser. Também, não era apenas um filho, mas o MEU filho que em absolutamente tudo seria e é parte de mim… desde o que representa o amor materno até o sentimento de ainda não interpretá-lo em suas particularidades. Pedro Antônio. Não porque tem cara de Pedro, não pelo dever de ser santo, muito menos por ser fruto de uma promessa. Pedro Antônio por ser o ato de um desejo, do meu desejo; por ser de mim tudo aquilo que considero sadio e forte e vivo. Por ter a emoção entrelaçada em uma canção de amor, por ser parte da minha poesia, da minha inspiração, por exigir de mim a irreverência de lidar com a sensibilidade de ouví-lo a todo e qualquer questionamento. A vaidade também aumentava conforme a barriga. Não aquela vaidade estética corporal e individualista, mas a vaidade que se confunde com o orgulho, com a decência de poder encher a boca e dizer:

EU SOU MÃE! Não uma mãe qualquer, e sim a mãe do filho mais lindo do mundo, mais inteligente de todos e com isso continuar numa série de elogios tão propriamente verdadeiros de mães como eu; Um Rinoceronte Fêmea. De pele grossa, ousada, de defesa selvagem. Aquela mãe que no primeiro ultrassom sem qualquer vestígio de ser, já consegue deduzir que não há sombra de dúvidas quanto à fortaleza de quem virá; que na segunda ultrassom, num pinguinho de forma, afirma que é a cara da mãe (e é). Talvez, ao primeiro impacto, estes “pecados capitais” (fragilizadores), tão delicados que passam a ser intensamente decididos, como a vaidade e o egoísmo, sejam “perdoados”/compreendidos à medida que são descobertos como fonte de amor. Amar um filho não requer uma medida exata posto que vai além de qualquer sensação tátil, de qualquer motivo óbvio;  Senti ser uma dádiva que não deve ser comparada, e que não se dá pela poesia apenas, mas pela parte Divina de um todo em mim. 

Dia 12 de abril de 2011 Pedro Antonio nasceu.

Vamos de indicados para o Oscar 2021?

Olá, povo!

Como estão todos? Desejo que estejam todos bem, com saúde e se cuidando! A vacina da Covid está mais perto do que longe! Que todos consigamos manter o entusiasmo e a esperança!

Antes de falar sobre os filmes de hoje, quero tecer algumas informações adicionais sobre filmes que já compartilhei com vocês e que estão na corrida do Oscar!

Na coluna de janeiro comentei com vocês sobre “A Voz Suprema do Blues”, que está concorrendo a 05 Oscar: melhor ator, com a indicação póstuma de Chadwick Boseman; melhor atriz – Viola Davis; melhor direção de arte; melhor maquiagem e penteado e melhor figurino.

Na coluna de fevereiro trouxe para vocês “Relatos do Mundo”, que está indicado ao Oscar em 04 categorias: melhor fotografia, melhor produção, melhor som e melhor trilha sonora.

Em março falei sobre Os 7 de Chicago (e que continua sendo o melhor filme visto esse ano!), que vai disputar 05 estatuetas: melhor filme, melhor ator coadjuvante – Sacha Baron Cohen, melhor roteiro original, melhor montagem e melhor fotografia.

A cerimônia do Oscar será dia 25.04.2021, e hoje trago mais dois filmes que estão nessa corrida:

Em primeiro lugar vou lhes contar das minhas impressões sobre “Mank”! Um filme gravado em preto e branco, com uma fotografia e um figurino impecáveis, que tem como protagonista nada menos de Gary Oldman, e que, ainda, conta com outros atores maravilhosos e já bem conhecidos, como: Amanda Seyfried, Lily Collins, Charles Dance, Joseph Cross, entre outros.

O filme, dirigido por David Fincher, conta a tumultuosa história de Herman J. Mankiewicz, no período em que trabalhou para Orson Wells, e que escreveu sua maior obra prima – Cidadão Kane -, e da sua briga com Olson pelos créditos da obra.

O filme é intenso, nostálgico, profundo e lindíssimo. Gary Oldman – Mank, está, como sempre, magnífico em seu papel. Nos mostrando, mais uma vez, a natureza e o brilhantismo com que interpreta seus personagens.

O filme conta com 10 indicações ao Oscar desse ano. São elas: melhor filme, melhor ator – Gary Oldman, melhor atriz coadjuvante – Amanda Seyfried, melhor diretor – David Fincher, melhor trilha sonora original, melhor fotografia, melhor direção de arte, melhor figurino, melhor maquiagem e melhor produção. Está disponível na Netflix. Assistam!

Em segundo lugar, lhes trago O Som do Silêncio! Um filme denso e incrível, que nos faz submergir ao silêncio (embora tenha uma edição de som espetacular). Nos trás várias reflexões sobre a vida, seus desafios e perdas, a total falta de controle sobre ela, ao renascimento, ao poder de adaptação, à resiliência e a capacidade de se reinventar. Um drama com nuances impactantes. Belíssimo!

Está na corrida por 06 estátuas douradas: melhor filme, melhor ator – Riz Ahmed, melhor ator coadjuvante – Paul Raci, melhor roteiro original, melhor montagem e melhor produção. Disponível nas plataformas: Prime Video, YouTube e Now. É imperdível!

Bons filmes e muita saúde para todos vocês!

Forte abraço!

Janaina Alencar.

CORPORIFICAR 01

Água,

a água atiça memórias das minhas entranhas,

Das veredas do meu corpo.

Lembro que quando criança

minha brincadeira favorita era fazer “poço d´ água”.

Sou dos Picos, bairro rural da cidade  de Itapipoca_CE.

Tampávamos as correntes de água nas grotas para virar poço

Pulávamos de cima de uma azeitoneira

Tampávamos as pontes

e tudo se transformava,

Em poços de risadas e estripulias.

Fui criada pela minha avó, minhas tias e meus pais ali por perto.

Nosso quintal tinha uma cacimba

e nessa época não comprávamos água,

a água era nossa,

do nosso quintal,

nascia das entranhas das pedras e da terra.

Lata d´água na cabeça pelas manhãs

e as vezes no entardecer

Lata d`água na cabeça

Lata cheia,

E a água escorrendo pelo rosto, descendo pelo corpo,

Nessa época a água era nossa…

“Bebedor! ”

O bebedor era um oásis de fontes de água,

era onde a comunidade “Batia roupa”

Um encontro bonito de mulheres acontecia por lá,

mulheres de cócoras,

umas chegando, outras saindo

equilibrando na cabeça bacias de roupas.

No esfregar de panos,

uma pausa de outra mulher

para contar uma história, um acontecido do dia.

Água escorrendo

e a vida também,

Escorrendo…

Coisa de rio,

Fazer as histórias escorrerem.

Hoje lembrando dessas memórias

eu sinto o quanto era libertador aquele rito-rio,

mulheres se encontrando,

narrando suas histórias…

cantando,

partilhando,

desaguando seus traumas e suas dores…

Águas de rios

Escorrendo pelo corpo

Entre as pernas de cócoras

Lata d`água na cabeça

Água escorrendo pelo corpo

Agua da fonte, água do ventre da terra

Banhando o anúncio da sede

Banhando o preparo da vida

Banhando vidas por vir

Vidas que seguem nas mulheres que banham o tempo

No tempo que jorra entre as pernas…

“os povos originários não precisam de água potável porque se abastecem das águas dos rios” falou o despresidente desse país.

Já prevíamos que jorraria das nossas entranhas um ecocídio instaurado.

A nossa água insípida, incolor e inodora

Hoje fede a ignorância.

Hoje nossas águas matam dezenas de povos indígenas

que consomem das entranhas dos rios

a poluição vinda dos garimpos

e os agrotóxicos vindo das grandes fazendas.

A água era nossa!

Nos provocava respiros de abundância.

Hoje a água tem nome

Tem dono

Tem outros valores.

Desses que se somam por números

Desses que não vem das veias,

vem das vias,

rodovias que trazem litros de ignorância

ironia dos tempos compramos água.

E pagamos para estar vivos e vivas.

_Rafaela Lima.