Topa uma Beatle’s playlist ai?

Preparei uma playlist com grandes nomes da MPB que fizeram versões incríveis de músicas dos Beatles e pouca gente conhece.

Evinha, João Donato, Astrud Gilberto, Milton Nascimento, Elis Regina, Gal Costa e vários outros e outras que transformaram as canções do quarteto em algo completamente novo.

Capa da playlist “MPB canta The Beatles”

Até ensaiei explicar o porquê de compartilhar isso hoje. Mas, na verdade, apenas fiquei com saudade de ouvir Beatles e acho que vai cair muito bem nesse dia de domingo.

Vou deixar o link aqui embaixo!

Depois me diz o que achou 🙂

Num dia a gente chega, no outro vai embora…

Gente, vamos pensar um pouquinho, juntos?
Nessa fatalidade ocorrida com o vôo que ocasionou a morte precoce da cantora Marília Mendonça e outras quatro pessoas, todos nós paramos para pensar um pouco em nossas vidas. Na urgência de viver. Poderíamos aproveitar a consciência que emerge dessa dor coletiva e usá-la como gatilho para refletir sobre nossos comportamentos e atitudes de dois polos distintos: a procrastinação (no sentido real da palavra, no qual temos o péssimo hábito de adiar tudo) e o agora.
A morte do outro nos mobiliza, a gente morre um pouco, também…
E, neste caso, a morte de uma figura pública, jovem, com 26 anos de muitos sonhos e realizações, talentosa, com uma legião de fãs, falando a língua desses dezenas de milhões, nos leva ao luto coletivo.
A dor que dói no outro, dói em mim também.
Dói em mim como mulher, como mãe, como filha. Dói em mim pela juventude interrompida, como também doeu e dói a morte de milhares de jovens, vítimas de balas perdidas, das mulheres perdidas para o alfa feminicídio, da misoginia e de todos os preconceitos, das atrocidades e das 612 mil vidas perdidas deste desgoverno.
Viver esse luto por pessoas que não fazem parte do nosso “mundo” particular, nos traz uma sensação de solidariedade, fraternidade, irmandade, e porque não dizer que essa dor nos torna mais humanos?
Por um instante, pensamos em nossas vidas, em quantas coisas deixamos para depois, acreditando unicamente na imprevisibilidade do amanhã, do mais tarde… E nos pegamos fazendo juras e promessas cheias de urgências de: viver o hoje, de dizer que ama, de resgatar um projeto esquecido no fundo da gaveta e tantas outras coisas que ficaram adormecidas com a falsa promessa do depois.
E aí, não tem como fugir do clichê: a vida é um sopro! É agora! Hoje! No presente, único lugar em que é possível realizar sonhos, projetos e aspirações, porque o ontem é passado e o amanhã … Ah! O amanhã, a gente nem sabe se vem (chega).
Mas, se faz necessário o mas… “é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana, sempre”… E acima de tudo é preciso ter cALMA.
No nosso tempo, sem pressa, sem atropelos, sem nos violentar. Respeitando nossos limites. Sem emergência e sem imediatismos.
Um passo de cada vez.
E tá tudo bem!

POR ONDE ANDEI….

Se alguém perguntar por mim, diz que eu fui por ai…

Silvia Helena de Amorim Martins.

Faz tempo que não apareço por aqui… na verdade estive em outros lugares… Esse texto é sobre escolhas e desejos… O fato de ter me ausentado do blog fala muito de mim e do meu desejo acessar algumas experiências até então não vividas…

Algumas das minhas escolhas, assim como as suas, não são apenas da ordem do prazer, mas também da realidade… Atuo como psicóloga e tive oportunidade de mergulhar em diversos concursos e seleções na minha área… Não foi nada fácil… na verdade foi bem desafiador, muitas aulas, exercícios, dores nas costas e uma série de questionamentos… Mas naquele momento fazia muito sentido… Afinal isso aqui é Brasil e vivemos tempos difíceis… Continuei atendendo meus paciente e estudava em todas as oportunidades que surgiam… O que era mais importante era o sentimento de dever cumprido…. fiz tudo que eu poderia fazer…

E ai? Ai surgiu um sentimento libertador de aprovação… Como assim? Me dei conta de que fiz tanto e que estava tão orgulhosa de mim, que não preciso da aprovação dos outros…( inclusive ainda não saíram os resultados definitivos, mas me sinto em paz e vitoriosa). E após 4 concursos/ seleções (provas, provações e aprovações)… Fui andar pelo mundo e colocar em prática meu hedonismo… Fui provar sabores, experimentar amores, novos ritmos, novas águas e outras formas de navegar… Sim navegar é preciso… Lembra da linda Dory? do filme procurando Nemo… Ela sempre dizia: Continue a nadar… Uma metáfora potente que eu interpreto como: Continue a viver…

A interpretação é a minha arte… Atuo com psicanálise… interpreto sintomas e seus significados, além de muitas outras peculiaridades trazidas nas sessões de terapia… Na verdade acredito que o mundo é polissémico, ou seja, possui vários significados e cabe a cada um de nós interpretar e dar sentido… Mas na verdade também estou te convocando a pensar e repensar suas escolhas.. Dá uma olhada naqueles desejos, medos e anseios… Daqui a pouco é natal e após a virada… O que vai permanecer na sua vida? E o que vai embora? Ou quem vai embora?

Seja eu você ou o Huguinho, Zezinho e Luizinho ( entendedores entenderão), não permaneceremos iguais, imutáveis, eu sei que estamos na onda da harmonização… a galera não quer envelhecer… Mas isso não é algo que pode ser controlado, a cada dia mudamos, nos tornamos outros… Vamos mudando através das experiências… A verdade é que eu mudei e você também… Eu não sei você … Mas eu fui nadar e não voltei… pelos menos não da maneira como eu me conhecia…

Ps: Vá se perder por ai… se permita sair da posição de suposto saber e se coloque na posição de aprendiz.. E claroooo se permita flertar com a vida e com os crushs que o universo envia.. Afinal está tudo certo, estamos todos aqui para aprender e evoluir nessa jornada.. Um grande abraço… Me siga no @silviahelena.psi.

dias…

São dias novos esses em que me ensaio nova também. Mas, não menos intensos, nem menos corridos, isso de ir finalizando aos poucos é diferente de acabar e pronto. Ir aos poucos é seguir fazendo o que se faz, entendo que tem um fim e acabar de uma vez é fazer o fim no agora. 

Ir se despedindo daquilo que pelos últimos anos dediquei parte da vida é ir abrindo mão do que em algum momento acreditei que seria para sempre, “sem saber, que o pra sempre acaba”. Mas, nesta segunda no Arte onde Estiver, conversando com Vagner, Nat e Geni lembrei “que nada vai conseguir mudar, o que ficou”pois lembro de tudo, das falas e expressões e das minhas próprias emoções e decantação após cada encontro. Sou gratidão e alegria.

Gayatri Chakravorty Spivak: Pode o subalterno falar? (3)

Pode o subalterno falar? Pode falar a mulher subalterna, a mulher residente em países e culturas na periferia do capitalismo globalizado e de sua ainda divisão internacional do trabalho? Gayatri Chakravorty Spivak (1942), em seu livro homônimo, de 1985, propõe cuidado ao tentar responder essas questões, mas sua escrita é de qualquer modo o gesto de debatê-las, no contexto do suicídio ritual de mulheres na índia colonial como exemplo de ocultamento do corpo e silenciamento de voz no universo feminino subalterno. Ao longo da discussão, ela também apresenta algumas perspectivas teóricas metodológicas de uma coletividade de estudiosos indianos conhecida como Grupo de Estudos Subalternos, da qual parcialmente se desenvolveu a perspectiva conhecida como “pós-colonial” nas ciências humanas, a partir do final da década de 1970.

“Para o ‘verdadeiro’ grupo subalterno, cuja identidade é a sua diferença, pode-se afirmar que não há nenhum sujeito subalterno irrepresentável que possa saber e falar por si mesmo. A solução do intelectual não é a de se abster da representação. O problema é que o itinerário do sujeito não foi traçado de maneira a oferecer um objeto de sedução ao intelectual representante. Na linguagem um tanto arcaica do grupo indiano [de estudos subalternos], a questão que se apresenta é: como podemos tocar a consciência do povo, mesmo enquanto investigamos sua política? Com que voz-consciência o subalterno pode falar? Seu projeto, afinal, é o de reescrever o desenvolvimento da consciência da nação indiana” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Gayatri critica o afastamento de filósofos franceses, Michel Foucault e Gilles Deleuze, dos conceitos marxistas de dialética e ideologia, bem como da perspectiva especificamente econômica, na crítica ao capitalismo, que eles praticaram. Esses questionamentos não intentam negar a contribuição ao pensamento em épocas recentes pelos autores mencionados, mas a sugerir que categorias conceituais não focadas por eles podem ser as mais urgentes para uma discussão em torno da questão difícil sobre como e se pessoas subalternas, especialmente mulheres, podem ter voz e representatividade políticas relevantes, produtivas, no panorama dos circuitos e torniquetes da subalternização econômica e social mundo afora.

“Quando passamos à questão concomitante da consciência do subalterno, a noção daquilo que o trabalho não pode dizer se torna importante. Na semiose do texto social, as elaborações de insurgência permanecem no lugar da ‘declaração’. O emissor – ‘o camponês’ – está marcado apenas como um indicador de uma consciência irrecuperável. Quanto ao receptor, devemos perguntar quem é ‘o real receptor’ de uma ‘insurgência’? O historiador, transformando a ‘insurgência’ em um ‘texto para o conhecimento’, é apenas um ‘receptor’ de qualquer ato social pretendido coletivamente. Sem qualquer possibilidade de nostalgia pela origem perdida, o historiador deve suspender (tanto quanto possível) o clamor de sua própria consciência (ou consciência-efeito, como sendo operada pelo treinamento disciplinar). Para que a elaboração da insurgência, empacotada em uma consciência-insurgente, não se congele em um ‘objeto de investigação’ ou, pior ainda, em um modelo de imitação. ‘O sujeito’, inferido pelos textos de insurgência, pode servir apenas como uma contrapossibilidade para as sanções narrativas conferidas ao sujeito colonial nos grupos dominantes. Os intelectuais pós-colonialistas aprendem que seu privilégio é sua perda. Nisso, eles são um paradigma dos intelectuais” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar? Grifos da autora).

Para Gayatri, a mulher subalterna é duplamente silenciada e ocultada frente ao imperialismo e a episteme (o conhecimento racional e científico no Ocidente): por ser subalterna, residente em uma área periférica da hierarquia capitalista mundial, e por ser mulher, em uma sociedade patriarcal de longa idade. Como será enfatizado a seguir, essa mulher é alvo de disputas ideológicas tanto pelo ponto de vista de hábitos nativos como do oportunismo colonizador, sendo útil a seus confrontos ao longo da história e em nenhum dos casos tendo uma voz ou uma performance corporal que vislumbre de fato interesses que poderiam ser considerados como parte de uma agenda coletiva de classe para mulheres subalternas (no caso, a ser desenvolvida por elas mesmas).

“É bem conhecido que a noção do feminino (mais do que a do subalterno do imperialismo) foi usada de maneira semelhante na crítica desconstrucionista e em certas variedades da crítica feminista. No caso anterior, uma imagem da ‘mulher’ está em questão – uma imagem cuja predicação mínima como algo indeterminado já está disponível para a tradição falocêntrica. A historiografia subalterna traz à tona questões de método que a impediriam de usar tal artifício. Com respeito à ‘imagem’ da mulher, a relação entre a mulher e o silêncio pode ser assinalada pelas próprias mulheres; as diferenças de raça e de classe estão incluídas nessa acusação. A historiografia subalterna deve confrontar a impossibilidade de tais gestos. A restrita violência epistêmica do imperialismo nos dá uma alegoria imperfeita da violência geral que é a possibilidade de uma episteme. No contexto do itinerário obliterado do sujeito subalterno, o caminho da diferença sexual é duplamente obliterado. A questão não é a da participação feminina na insurgência ou das regras básicas da divisão sexual do trabalho, pois, em ambos os casos, há ‘provas’. É mais uma questão de que, apesar de ambos serem objetos da historiografia colonialista e sujeitos da insurgência, a construção ideológica de gênero mantém a dominação masculina. Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Gayatri Chakravorty Spivak and Liah Greenfeld Confirmed as Plenary Speakers  for the 2020 IPSA World Congress | IPSA
Gayatri Chakravorty Spivak. Foto da internet.

O foco do ensaio de Gayatri, seu “estudo de caso”, é uma disputa de visões sobre suicídios rituais de viúvas no momento da cremação pública do cadáver de seus maridos. Considerava-se um ato de honra que a viúva se deitasse sobre a fogueira funerária e assim partilhasse do destino do esposo. Sabe-se entretanto que em muitos casos, devido ao interesse em herdar os bens do morto pelos familiares, elas eram praticamente pressionadas a esse gesto. Em 1829, o sacrifício de viúvas é oficialmente proibido pela lei imposta pela autoridade colonial britânica (a Índia, como se sabe, foi gradualmente capturada pelo domínio inglês desde pelo menos o século XVIII, o que se manteve até a metade do século XX). Gayatri discute então como essa proibição representou uma propaganda positiva do domínio imperial britânico e do capitalismo colonial no século XIX, como se os bondosos homens brancos ingleses estivessem simplesmente salvando mulheres indefesas diante de um costume questionável: o problema não era a legitimidade dessa compreensão (“Obviamente não estou advogando a matança de viúvas”, diz Gayatri), mas o fato assinalado por ela de que, no transcurso entre o costume hindu e a lei “moderna”, a fala e a visão da mulher sobre seu corpo sempre se mantiveram silenciadas por discursos masculinos que decidiam e interpretavam, sem lhes dar de fato escolha ou fala, o que elas podiam ou deviam fazer.

“A viúva hindu sobe à pira funerária do marido morto e imola-se sobre ela. Esse é o sacrifício da viúva- a transcrição convencional da palavra sânscrita para a viúva seria sati. Os primeiros colonos britânicos a transcreveram como suttee. O ritual não era praticado universalmente e não era relegado a uma casta ou classe. A abolição desse ritual pelos britânicos foi geralmente compreendida como um caso de ‘homens brancos salvando mulheres de pele escura de homens de pele escura’. As mulheres brancas – desde os registros missionários britânicos do século 19 até Mary Daly – não produziram uma interpretação alternativa. Em oposição a essa visão está o argumento indiano nativo – uma paródia da nostalgia pelas origens perdidas: ‘As mulheres realmente queriam morrer.’ As duas sentenças vão longe na tentativa de legitimar uma à outra. Nunca se encontra o testemunho da yoz-consciência das mulheres. Tal testemunho não seria ideológico transcendente ou ‘totalmente’ subjetivo, é claro, mas teria constituído os ingredientes para se produzir uma contrassentença. Ao passar os olhos pelos nomes grotescamente maltranscritos dessas mulheres – as viúvas sacrificadas – nos relatos policiais incluídos nos registras da Companhia das Índias Orientais, não se pode destacar – uma ‘voz’. O máximo que se pode notar é a imensa heterogeneidade que atravessa um relato tão esquelético e ignorante (castas, por exemplo, são normalmente descritas como tribos). Diante de sentenças dialeticamente entrelaçadas que podem ser construídas como ‘homens brancos estão salvando mulheres de pele escura de homens de pele escura’ e ‘as mulheres queriam morrer’, a mulher intelectual pós-colonial faz uma pergunta de simples semiose – o que significa isso? – e começa a traçar uma história” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Como um contraponto de significado e gesto político ao sati, o suicídio ritual de viúvas na Índia, Gayatri relata, no encerramento de seu livro, o caso de Bhuvaneswari Bhaduri, adolescente que participava de um movimento de luta armada para a libertação nacional indiana durante a década de 1920. Ela havia sido encarregada de cometer um assassinato político; incapacitada para fazê-lo por motivo hoje desconhecido, enforcou-se. Certos casos de suicídio feminino no país se motivavam por uma ideia de desonra devido a uma gravidez fora do casamento. Assim, parentes e próximo à jovem, em registros colhidos na época, alegaram abandono de noivo ou coisa do tipo. Gayatri, entretanto, detalha que a garota tirou a própria vida durante a menstruação, o que era rigidamente proibido em qualquer ritual de suicídio feminino na Índia, e enfatiza nisso uma intenção: a de deixar claro que seu ato não era símbolo do arbítrio masculino sobre seu corpo, mas de sua liberdade, limitada, silenciada e ocultada que fosse, de ter uma atuação política pertinente, ao mesmo tempo, à sua condição feminina e a seu repúdio ao colonialismo. A forte possibilidade de que Bhuvaneswari tenha se matado como forma de concretizar o assassinato político que lhe cabia é legível como um contraponto irônico, dialético, paródico, crítico, à falta de voz e decisão da mulher indiana, por mais que não tenha sido assim; por mais que as versões habituais daquela narrativa, embebidas no sólido patriarcalismo indiano, não aceitassem essa interpretação insurgente.

“Nessa leitura, o suicídio de Bhuvaneswari Bhaduri é uma reescrita subalterna, ad hoc, não empática, do texto social do suicídio sati tanto quanto o é o relato hegemônico da resplandecente, lutadora e familiar Durga [deusa que, na mitologia hindu, suicida-se em protesto ao assassinato do marido]. As possibilidades discordantes que emergem desse relato hegemônico da mãe lutadora estão bem documentadas e são popularmente bem lembradas pelo discurso dos líderes e participantes masculinos do movimento pela independência. O subalterno como um sujeito feminino não pode ser ouvido ou lido. […] O subalterno não pode falar. Não há valor algum atribuído à ‘mulher’ como um item respeitoso nas listas de prioridades globais. A representação não definhou. A mulher intelectual como urna intelectual tem uma tarefa circunscrita que ela não deve rejeitar com um floreio (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?)”.

Mais um passo

O bom do fim é que ele é repleto de começos e libertações. Faz um tempo venho neste exercício de desapego, porque já sabia que a vida estava pronta para me exigir tomadas de decisões e escolhas norteadoras de vida, da minha e naturalmente do que precisa de mim para acontecer pelas bandas daqui.

O exercício de soltar não é fácil, mas é incrivelmente libertador, e a percepção de que a única aprisionada e agora em processo de reabilitação social era/ sou eu. E isso fortalece meu pensamento de que tudo é a partir da gente. Dentro de uma relação, o outro só faz com a gente o que autorizamos, mas fomos programades a pensar que precisa de alguém autorizar. Também para ter a quem culpar, talvez. Não sei. Eu cada vez mais sei que nada sei.

Assim, no caminho das liberdade física, mentais e espirituais vamos seguindo o fluxo do existir juntes, pois só sabemos assim. Boa toada para todes nós!

Três é melhor!

Olá, povo!

Como estão todos?

Até que enfim as coisas parecerem, de fato, estar entrando nos eixos, e a vida normal está cada dia mais próxima. Hoje, é até raro saber que alguém pegou Covid! As noticias são de vacinação, de diminuição de índices de infecção e de morte. As restrições estão sendo flexibilizadas em larga escala, quase não existem mais. Que bom que estamos vivos para presenciar esse momento! Viva à vacina! Viva à ciência! Viva o SUS!

Conforme o prometido, hoje a coluna vai trazer comentários sobre três filmes!

Primeiro trago a vcs a dobradinha polêmica lançada pela Amazon Prime, que nos relata o assassinato do casal Von Richthofen na versão de Suzane e de Daniel Cravinhos.

Em “A Menina que Matou os Pais”, Daniel Cravinhos conta sua história do relacionamento com Suzane Von Richthofen e o convívio com a família dela, e nos trás a sua versão de como aconteceu o assassinato dos pais dela na fatídica noite de 31 de outubro de 2002.

Pelos relatos de Daniel, Suzane nunca foi uma boa menina, inocente, subserviente aos pais. Ela sempre fez o que quis, burlando o rigor da criação de seus pais, como a maioria dos adolescentes faz, mas com aceso a muito dinheiro. Ele, como seu namorado, tentava ajudá-la a se libertar de seus pai, mas pelas vias corretas e tentando frear a rebeldia da moça, que o dominava completamente. E que ele fazia tudo por amor e para protegê-la. Ela arquitetou todo o plano para matar os pais e participou de todo o acontecimento, exceto do assassinato propriamente dito, que fora executado por ele e pelo seu irmão, Christian Cravinhos.

Em “O Menino que Matou Meus Pais”, a versão de Suzane, ela conta que era uma menina feliz, ingênua, inocente e obediente, que tinha uma relação harmônica com seus pais, que não queriam que ela mantivesse seu namoro com Daniel, por ele só ter interesse no dinheiro da família. Relata que Daniel a botou no mal caminho, fazendo-a usar drogas e forçando-a a transar com ele para provar o seu amor. Que a explorava financeiramente para que proporcionasse o que ele desejava, e que a induziu a participar do assassinato de seus pais, que ele mesmo planejou e executou em companhia de seu irmão, para que eles pudessem ficar juntos, casar e viver com a grana da herança sem a interferência dos pais dela em suas vidas.

Adoro filmes baseados em fatos reais, e adoro ouvir a versão dos condenados. Assistam e tirem suas conclusões.

O terceiro filme de hoje é “Filhos do Ódio”, também baseado em fatos reais, disponível na Netflix. Um filme revoltante, mas lindo e que nos dá esperança, que fala sobre a segregação racial nos EUA, sobretudo no Alabama. Filhos do Ódio conta a história de Bob Zellner (Lucas Till), um rapaz branco, de família classe média alta, aluno exemplar, neto de um dos lideres da KKK (Ku Klus Klan), criado para odiar negros, mas que não via diferença de cor entre as pessoas.

Zellner desafiou todas as barreiras e seu avô, para lutar pelo direito dos negros na década de 60.

Filhos do Ódio é um desses filmes que nos aquece o coração e no dá esperança na humanidade. Vejam!

Até dezembro, queridos.

Cuidem-se!

Forte abraço!

Janaina Alencar.

O dia do desisto

Por Roberta Bonfim

Pode ser que amanhã eu me arrependa, pode ser que não, mas por hoje desisto, abro mão, jogo a toalha. Sempre desejei um algo construído juntes, a partir da união de realizações de sonhos, com respeito e compromisso, mas depois de quase 10 anos de Lugar ArteVistas, hoje percebi que remei foi muito, e ao contrário do que outrora me pareceu, nada saiu muito do lugar. Eu ainda estou aqui pedindo, implorando para que cada um faça o seu por si, e há quem ache que trabalhe para mim. Senhora mãe! Trabalho por este lugar, para que seja, sejamos nós nos expressando e usando este lugar como veículo para falarmos sobre o que cremos, cada um com suas crenças. 

E aí que tá a parada, hoje acordei sem mais crer. Hoje acordei percebendo que promessas e compromissos são palavras soltas na cidade dos ventos e voam, sem um “oi Roberta! mulher nem fiz, nem escrevi, nem gravei, nem estarei, desisti”, apenas faz-se de conta que nada foi combinado, ou comprometido. Não há compromissos reais e eu sigo aqui correndo, sem dormir, buscando modos de ser braço aos demais, investido tempo e dinheiro. E hoje meu tempo tá mais precioso que dinheiro. Mas, mesmo os mais próximos, na realidade, especialmente eles. A real é que hoje acordei e percebi os óbvios, que venhos percebendo faz tempo, mas talvez pela pretensão, vaidade ou apego eu me negava a admitir. Mas hoje admito e compartilho aqui com os três ou quatro que me leem.

Eu já tinha pontuado que no formato atual eu não seguiria, mas tinha esticado os prazos, por… nem sei porque. O fato é que hoje me percebendo completamente exausta jogo a toalha, seguiremos trabalhando para o Poço da Draga e com o que acontecer de forma orgânica, com responsabilidade partilhada e respeito. A parte a isso não interessa, não a mim.

Quando iniciei a Lugar ArteVistas era para ser respeitosa e estimuladora dos sonhos do outro que tornaram-se também sonhos para mim e sou muito grata por cada troca, aprendi um bocado com cada troca. Sigamos!

Só vou falar se me escutar…

Por Coletivo Abayomi

Nossa fala carrega nossa existência. A arte das palavras é um saber milenar africano, uma forma de registro, tão engenhosa quanto a escrita, mas que serve-se de gestos, improvisos, música e dança na confluência do armazenar e transmitir. Transmite através da corporeidade e sons, para além da voz, a memória e a cultura, integra ao tempo e espaço das tradições e das comunidades e jamais deve ser entendida como a negação da escrita, mas como afirmação da prática, porque palavra é ação. Não existe corpo preto que não se manifeste ao som das nossas antigas ciências sonoras.

Imagem:@alfon_romeros

 A oralidade é tão sagrada ao povo preto ao ponto de ser personificada. Ananse é a grande aranha, que tece as teias da vida através de histórias, memórias que ligam as pontas regressas e pregressas da ancestralidade. Outra marca da importância da oralidade e todos os fundamentos contidos no verbo, é a institucionalização do Griot e da Griotte, cargos de confiança concedidos pelas realezas e que são transmitidos de forma hereditária. 

No Mali, a família Kouyatè serve honrosamente à sua comunidade e ao reinado desde o século XIII, como uma linhagem de bibliotecas vivas, se dividem na função de guardiões e difusores dos mitos – ficcionais e documentais – da sociedade malinesa. Ouvir as palavras e voz dos mais velhos, é entender que a tradição é viva. Que parte de toda história também está em você.

Imagem: @Islandboiphotography

Na unicidade do ser, segundo a cosmovisão africana, os pensamentos repercutem por toda a extensão do corpo e reverberam em palavras, por isso “as palavras têm poder”, pois são pensamento manifesto, além disso, toda vida, em alguma dimensão  rítmica, se movimenta, e toda vibração emite som, mesmo que infra ou ultrasonoros, sendo assim “som é vida”.

As palavras são potência de vida e de morte, nos chamam à razão e nos lançam aos devaneios, curam e ferem com a mesma rapidez, nos embalam poeticamente e nos seduzem como o canto de Oxum.

A oralidade é instrumento pedagógico de perpetuação da cultura e história de África e seu legado nativo e diaspórico. Ferramenta de preservação do hálito sagrado da memória, da identidade e cultura, na busca da valorização da ancestralidade resistimos, existimos e reinventamos através do axé que vem da boca.