Opções de vida

Arquivo pessoal

Animal selvagem ou animal doméstico: seriam, no momento, as únicas opções de vida, especialmente pra você, mas você não vai voltar às àrvores, às tocas subterrâneas.

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O açude ou a poça d’água, boiando sobre a terra e embaixo do ar. Sem lugar certo, como gases extraviados pelo corpo.

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Sair do útero, sair debaixo do viaduto, começar o passeio diário. O viaduto nem sempre é sua casa, mas sempre, quer dizer, no sempre do às vezes, o viaduto é seu palácio, a arquitetura que alguém parece ter te dado. Dado, não, emprestado. Lixeiras de bairro chique, comida quase não é estragada. Eu também como camarão; enquanto isso, as guerras são menos gafanhotos que um tipo de cupim, com todo o respeito e admiração pelos gafanhotos e cupins. Alguém dotado de pequenos poderes materiais pensa o que você pensa: você é a imagem, o recipiente plástico. Você nem sabe que ou se está lá. Mas você está, e o nome disso é insônia, teimosia, mal-entendido. Por exemplo. Um longo passeio a pé na parte da cidade em que transitar não é proibido, isso é sua 3×4, seu portfólio, endereço, código de barras, presente, futuro e, depois, passado. Uma das duas ou três certezas: a que diz e constata: “depois, passado”.

Clarice ficaria triste pela romantização da insônia

(O adulto é triste e solitário)

2 da manhã é normalmente o horário em que a sensação de ter 15 anos novamente me invade, sendo dessa vez insônias possíveis de se beber vinho. E, sinto muito a qualquer pessoa que venha ler isso, mas preciso usar a cacofonia “já que”. Pois, já que nas noites em que eu me amenizava e ficava romantizando a insônia, nos meus pensamentos, sempre olhava pela janela e me imaginava bebendo vinho, lidando com o mesmo problema, mas em qualquer outra cidade. 

Se você, leitor, pudesse me ver nessas horas para além dessas palavras, ficaria impressionado que meu semblante se torna extremamente calmo nesses momentos. Imagem que eu nunca passo. A mente pensa tanto que arrisco dizer que não estou pensando em nada. Mas esse nada sempre me impede de dormir. É estranhamente caótico como já tentei várias “técnicas de melhorar a saúde do sono” fruto de pesquisas ineficientes de madrugada, acho que meu corpo realmente acredita que está em outro fuso horário nessa busca por estar em outras cidades.

Nunca sei exatamente o momento que eu vou dormir, é a grande surpresa do meu dia, creio que de todos. Mas é como se existisse esse ponto de virada que se eu pensar demais nele, ele não acontece. Então como encarno uma super-heroína nesses momentos, resolvo solucionar toda a minha vida numa simples noite. Cacofonia novamente. Já que não durmo, penso que ao menos produtiva serei, enquanto se deseja um vinho e vivenciar outras realidades. Não numa taça, pois não temos, mas em qualquer recipiente possível. Talvez numa tentativa falha de me aproximar de Drummond, porque ele já se aproximou muito de mim. 

Talvez eu queira ficar comovida como o dito cujo citado na poesia, trocando o conhaque pelo vinho.

E falando nele, ando me sentindo mais hedonista do que nunca. Presenciando todos os prazeres possíveis e me vendo obcecada por todos eles. O que facilmente renderia algumas explicações da minha histeria psicanalítica.

Acho que sempre me bate vontade de escutar Gal Costa nesses momentos. Aquele ao vivo que tem a música do Jards, Hotel de Estrelas, ou talvez seja das. É dessas músicas que combina com o clima de madrugada reflexiva numa cidade grande. Poderia ser qualquer música de Selvagens também, tudo deles é muito Fortaleza pra mim, mas estranhamente também acho que é tudo muito eu. Ando me perdendo nesses achismos e erros gramaticais. Ando me confundindo com essa cidade. 

Isso pode ser algo bom. 

As coisas estão boas, mesmo que pareça confuso falar isso depois do relato inicial de insônia. Mas é uma caixa de pandora com quase tudo expulso ou acalmado. Quase.

Útero não define maternar

Vocação materna sempre foi uma fonte inesgotável de inspiração para as mais diversificadas linguagens literárias, artísticas e culturais, responsáveis por um acervo “simplesmente” incalculável de obras sobre a sublime condição que pariu todas as civilizações conhecidas.

É impossível, portanto, pensar esta condição materna como se fosse uma condição apenas para as mulheres que possuem útero. Mas é possível pensarmos esta sublime condição a partir da subjetividade de cada uma de nós. 

Minhas gestações, por exemplo, foram os períodos que mais me amei! A mágica da vida acontecendo dentro de mim… uma benção, um privilégio e um desafio, sem dúvida alguma. A mistura mais louca de sentimentos e hormônios.

Sentir meu corpo mudando para abrigar outro ser, não teve preço, mas teve enjoo, azia, fome, desejos, refluxo, medos e muita ansiedade. 

O canal lacrimal também funcionou com mais facilidade… bastando passar um comercial de margarina na TV para desencadear o choro.

 Agora, teve muito mais mimos, carinhos, cuidados, ânimo (sim, eu fui uma mãe/grávida cheia de disposição!) 

O sono que a maioria das mães sentem, não veio no meu “pacote gestacional”. Talvez por isso, meus filhos durmam tão pouco… mas isso é outra história. 

E beleza, é claro! Modéstia à parte: fui uma grávida muito bonita! E sabe qual a razão? Eu estava completamente feliz e apaixonada pela ideia de ser mãe. Passei os meses da gestação em pleno estado de graça. Lógico que, na gravidez do caçulinha, esses sentimentos só apareceram depois que me recuperei do susto. Afinal, outra gestação, 16 anos depois, não é brincadeira, não!  

Amava estar grávida, sentir nossos corações pulsando juntos, nosso vínculo cada dia mais forte… os chutes que me acordava na madrugada, quando eles não gostavam da posição que eu dormia… E até os soluços que faziam meu ventre pulsar…

Gestações completamente diferentes: na gravidez do João Pedro, fiz massagens, hidroginástica, ioga, curso de gestante… na segunda gravidez do João Vítor, foi o que podemos chamar de “selva”… Enfrentamos uma reforma em casa e todo caos que vem no pacote. E, acreditem, foi a melhor coisa que fizemos. Nosso ninho ficou maravilhoso para recebê-lo.

Ah! Como autocuidado, fiz acupuntura: foi o que me manteve sã durante todo esse período de mudanças.

Ok! Falei da MINHA gestação. Mas, muito antes de gerar meus filhos no útero, eles foram gestados, desejados e ansiosamente esperados na minha cabeça, no meu coração e na vontade de ser mãe, que me acompanhou desde criança, brincando de boneca e mais tarde, quando me percebi como mulher e com essa possibilidade.

Não mais importante do que as mulheres que gestam seus filhos no desejo e no coração. Porque, muito mais que um útero, para SER mãe, é preciso primeiro QUERER ser mãe. Uma mulher para ser mãe precisa ter o “chip” da doação, da entrega, da resiliência, da paciência e do amor incondicional. 

Precisa ter o desejo de cuidar, proteger, educar, ser modelo, incentivar, conduzir, orientar, nos primeiros anos, e amar, ser colo e abrigo, o resto da vida. E isso não vem com o útero.

Nasce um filho, mas nem sempre nasce uma mãe… Mãe, a gente aprende a ser na caminhada desafiadora do maternar.

E assim, de mãe em mãe, com suas características e peculiaridades, caminha a gestação da humanidade.

Minha amiga violência,

Tu flertas comigo desde tão cedo, né? Quando cheguei tu já fazia morada e sentava na cabeceira, como convidada de honra. Não lembro exatamente a primeira vez que nos vimos frente a frente, mas lembro-me bem do medo que sempre tive de ti, mesmo quando a vejo pulsando em mim. 

Tu tens sempre os mesmos olhos e o mesmo timbre base na voz, independente do soprano, contralto, barítono, ou grave da voz humana que te é posse, que tu faz parte.  Outro dia dancei, como se fosse o Rio Jaguaribe um de nossos encontros, daqueles que deixam memórias inesquecíveis no corpo/alma. Dancei para liberar, para partiturizar, dancei porque dançando me alcanço em lugares que adestrei minha mente para não acessar., o bom é que hoje te reconheço mais rápido. Outro dia te vi no rosto de uma colega, acho que ela nem percebeu que você tomou a frente, o protagonismo. Te vi já em muitos rostos, das mais diversas idades e muitas vezes no meu próprio.

Um dos nossos encontros mais marcantes, foi em uma trans linda, típica dos anos 90, ali na frente do Domínio Público e Órbita Bar ela me olhou, ela me viu e eu a vi e você estava lá, me olhou, mas não era eu seu foco. Mas… Eu te via, e mesmo hoje quando rememoro esta cena, chego quase a ver seu rosto violentado, pois tu, tu querida é o resultado dos afetos tristes, que geram ódio que te produzem violência(s). 

Já te vi em tantos rostos, e também nos meus, nos rostos que me vestem, dos que  eu dou conta para o momento. Como escreveu um amigo sobre mim, “vivo meus momentos e mesmo quando o tempo aperta faço questão de ser feliz. Sabe porque querida violência? Porque te aceito e reconheço seu papel no rolê, só não desejo mais te permitir protagonismos na minha história, a senhora já roubou muita cena por aqui, e eu sou criativa, sou boa em transformar, em (des)construir, em mudar, de rumo, cidade, vida, perspectivas, corpos, lugares de existência. 

Sabe o que percebi outro dia? Que meu corpo codificou-te como ato de amor, creia, felizmente fui e sou salva por minha essência e pelas artes que me rodeiam e não me permitem aceitá-la, minha cara. Tenho hoje consciência que pelo justo equilíbrio da substância, posso viver longe de ti, ao percebê-la mesmo quando invade a casa, por outros corpos externos ao meu.

Não te quero mal, apenas não te quero mais. Flertarei contigo de longe, apenas para conhecer com antecedência sua chegada, e não mais para oferecer-te a cadeira de honra, mas apenas a permanência para estar, por ter consciência que és parte de mim, do todo e até em ti existe Deus.

Roberta Bonfim 09 de maior 2022

Ontem foi dia das mães

Ontem foi dia das mães e minha filha disse que não me amava e não precisava de mim, sorri pelo meu desejo interno de que ela realmente não precise mais mais de mim, assim estaremos juntas só pelo desejo pré-existente do nosso amor profundo amor.Se compartilho essa intimidade é para dizer que somos todes humanes, crianças e nós “adultos, todos cumprindo seu papel fundamental de lutar para existir como somos..
A bem da verdade é que vamos crescendo nessa estranha relação de gratidão pela vida e luta pelo direito de ser sem a sobras dos que vieram antes, buscando descobrir por conta própria e buscando seus próprios meios para demonstrar suas frustrações e medos.
Eu por minha vez falo grosso e me disponho ao abraço, contraditoriamente, como é o existir, respiro fundo acalento minhas crianças. Respiramos juntas e vamos nos equalizando. A avó estava em casa, ela queria brincar e não dormir, eu precisava fazê-la dormir e também me possibilitar esse descanso.
No sábado fui à baladinha porque sou mãe mas como tudo que aqui há, sou também Deusa, sou mulher. 😀

Ideias também envelhecem

Gosto muito do exercício de revisitar meus antigos escritos para conferir se minhas ideias evoluíram de alguma forma. 

Escolhi dessa vez um texto de forte valor afetivo que inspirou o título da coletânea de crônicas e outras narrativas [“Viver, Simplesmente”], lançada em 2016, mimo da minha editora pelo meu ingresso na chamada terceira idade.

Trata-se de tema espinhoso – a morte – abordado bem antes de vivenciarmos uma das maiores tragédias sanitárias do planeta que dizimou mais de seis milhões de pessoas no curto espaço de dois anos, o equivalente à população todinha do estado de Goiás, sendo o Brasil o segundo país com mais mortes por Covid-19 no mundo, atrás apenas dos EUA.

Transcrevo a seguir alguns trechos:

“Viver desapegadamente para não sofrer com afastamentos ou viver intensamente e sofrer – mais intensamente ainda – com os afastamentos inevitáveis? Fiz essa pergunta dia desses para alguém bem próximo e a singeleza da resposta me surpreendeu: ‘Viver, simplesmente’.

A Tanatologia, ciência relativamente nova que estuda a nossa relação com as perdas – incluída aí a mais traumática delas, a morte –, afirma que o sentimento ou ‘luto’ causado pelo desaparecimento de um ente querido – potencializado, quando em caso de mortes prematuras – lidera a lista dos maiores sofrimentos de grande parte da humanidade. Mesmo para os que afirmam crer na eternidade da alma, a dor da perda – de um filho, por exemplo – é insuportável e, muitas vezes, insuperável.

Não me sinto imune, e também não escondo o medo, mas gostaria muito de aprender a encarar a morte da forma mais natural possível. Aceitar que tudo se acaba, que nada é para sempre”.

Tanta coisa vi e vivi nesses últimos dois anos, perdas, decepções e sofrimento. Mas descobri também solidariedade e compaixão. Assim como o corpo, a mente acumula rugas, flacidez e manchas. Envelhecer, contudo, pode ser bastante positivo, na medida em que traz maturidade e aceitação. É remoçador perceber que não sou mais a mesma pessoa de anos atrás, que adquiri novos valores e passei a enxergar o mundo sob outros prismas.

A procura do bairro que satisfeito sorri

(Não leia caso você seja o Nando Reis)

Esse texto pode parecer muito específico e talvez seja. 

Ia dormir, me lembrei que escrevi para uma pessoa sobre o fato de all star combinar ou não com priquitinha (para quem não é de Sergipe, é um termo para sandália de couro.). Resolvi revisitar, mudar tudo e publicar aqui no Artevistas. Então, esse texto é a conversa que ficou pra hoje. Ou para um tempo atrás, já que essa pessoa não se faz mais presente e isso aqui é apenas um monólogo modificado e caótico.

Fiquei pensando sobre a ideia de comprar os dois all stars, o azul e o preto de cano alto, e se isso não acaba sendo muita expectativa. Isso de ser um ser completo e inteiro em termos filosóficos e amorosos. Talvez me deixe nervosa e sinto, mais uma vez, que vou ficar repleta de talvez, sendo a confusão minha única certeza em praticamente tudo que escrevo.

Lembro de uma vez que escutei “Nossa você é tudo que eu imaginava”, essa situação me dá um pouco de pavor, porque não sei na verdade quem eu sou e quem eu imagino que eu sou, então pensar que eu estou sendo a imaginação perfeita de alguém sem ao menos ser a minha, me deixa apavorada. Se eu estou em contínuo processo de autorreflexão e descobrimento, como essa pessoa consegue acompanhar essas mutações? Como essa ideia fica se adaptando a esse ser que não sabe ao certo para onde está indo? E de onde surgiu essa pessoa que você imaginava? Quem é essa pessoa?

Além de que fico um pouco nervosa de pensar que já tenho em minhas mãos os dois all stars, sabe? Esse fato de já ser esses dois e eu não sei, Nando Reis, se eu estou tendo uma crise de ansiedade, se quero ter esses dois, se esses dois se completam realmente, se isso tudo é um motivo importante para crise e talvez eu devesse só escutar a música e imaginar cenários românticos como qualquer pessoa. Mas esse tanto de questionamento e o não saber as coisas me deixa nervosa pensando que se eu já tenho esses dois, talvez eu não precise procurar mais all star nenhum. Então os gregos estavam errados, Zeus não dividiu ninguém no meio e a gente não precisa ficar buscando nada. Fábio Júnior, você também tem culpa nisso, mas não vou entrar nessa música, no momento estou apenas justificando o que vem a seguir com base em meu mapa astral ser praticamente igual ao dele.

E por ter nascido no mesmo dia que o “Carne e unha, alma gêmea, bate coração” eu preciso assumir que gosto da ideia de que a gente vive numa constante busca desse outro all star, ou de priquitinhas, ou de havaianas azul e branca ou de um scarpin vermelho, e enfim sapatos falam muito sobre pessoas. Nunca liguei muito para eles, Chorão estaria orgulhoso desse antigo eu, mas só comecei a prestar atenção nas minhas roupas, de modo geral, quando eu senti vontade de passar uma imagem mais séria e talvez eu tenha me perdido um pouco nessa visão de seriedade e misturado com uma sensualidade que eu nem queria ter, mesmo sem usar os sapatos certos para isso. Mas isso é pauta pra outro texto e talvez vocês se sintam como minha terapeuta se sente agora.

Talvez por me perder em mim mesma é que fico nervosa de ser esses dois all stars e não estar mais buscando por ele ou pela priquitinha. Inclusive, não busco mais priquitinhas, já tive a que passou em minha vida e acho desesperador pensar em ter algo próximo daquele estilo de novo. Acredito que é preciso de novos sapatos e é preciso experimentar novas combinações, mas no momento me encontro longe da busca do sentido amoroso da coisa, pois a combinação já foi encontrada.

No fundo isso tudo faz parte daquela ideia de que o desejo é o maior dos sentimentos e afins, porque a ideia de querer ter os dois é um desejo. Você deseja encontrar o bairro das laranjeiras que satisfeito sorri, sendo que é tudo uma visão idealizada e fruto de um Nando Reis que talvez não tenha superado Marisa Monte. Desculpa Nando, avisei para você não ler, pode ser um gatilho.

Por fim, acho intrigante ter os dois ou querer comprar os dois porque no final a gente é tudo isso, né? O all star, ou priquitinhas, ou havaianas azul e branca ou o scarpin vermelho. É muito mais do contexto, do desejo e da coragem do que sobre o sapato em si.

Mês de Amor

Por Roberta Bonfim

Ser Mãe não é pensar ser, mas ser-se. Não há quaisquer padrões para os caminhos construídos na relação mãe e cria, seja o tipo de mãe que seja, assim como o tipo de cria. Existem infinitos, mas o que é comum a todes é o desejo de que a cria seja-se, mesmo que isso às vezes os mantenha distantes por toda uma vida.

E se a gente muda a perspectiva do abandono, para a de extrema humildade em assumir que não se consegue. Ser mãe, querides leitores não é tarefa fácil. É o pleno exercício de amor. Ser mãe faz mais potentes na batida do coração e algumas, como eu, apresentam medos nunca antes minimamente flertados.

Desde que começamos este blog algumas mães já compartilharam vivências por aqui e com todas tanto aprendi, e às vezes em momentos nada a ver com o que elas relatam, lembrei do como e deu certo. Ando mesmo pensado que toda ideia concebida é de algum modo uma ideia compartilhada e as vivências se entrecruzam para que percebamos o óbvio de que somos juntes, que é esta união que nos fortalece, a percepção de que podemos ser rede uns aos outros, ou no caso de nós, mães, umas às outras.

É bonito ver amigues com filhes brincando com a minha filha, mas a maternidade não é uma tribo, ou uma mudança de fase no videogame da vida, é apenas um outro lugar, nem melhor , nem pior, mas com suas próprias questões, frutos de nossas próprias questões. E amo os amigues sem filhes que estão só o gás para serem bons parceiros de boas trocas sobre a mãe, e temas que por mais liberais que sejam serão tabus. Eu sou particularmente feliz por ter amigos de vida, assim me ajudam a escrever com detalhes os caminhos do existir em conjunto, aprendendo juntes.

Outro dia depois de uma reunião conversando com um colega sem filhes, e relatando da demora na recuperação de uma cirurgia simples como a de apendicite e rindo digo; com criança pequena é difícil ter descanso. E ele disse algo como: a eterna relação de amor e odio” mãe e filho. Sai refletindo a respeito e cheguei a conclusão que na minha relação com a cria de modo geral tem-se o amor, o que dificulta a relação, ás vezes são as influência diretas, ou indiretas do ambiente, e há momentos em que rola tudo junto.

São duas vidas, vivendo muitas vidas, vivendo ao tempo que se aprende a viver, experimentando a existência, buscando de algum modo consciência para melhor selecionar as experiências. E aqui na casa que sou e habito, busca-se equilibrar o sistema, entre a criança que sou e a que educo e o ser que sou no hoje e o que desejo viver no amanhã. Assim, a maternidade foi para mim caminho da quebra real do tempo espaço, onde eu preciso me revisitar para me acolher, trabalho para ser o ser que desejo ao tempo que trabalho para outra vida diretamente, e dialogo com a senhora cheia de gatos, que serei.

Ser mãe me acalma e enlouquece, ser mãe me liberta e prende e evidência todas as minhas humildes contradições, que são tão nossas. Gratidão a cada mãe que me acolheu na estrada da vida e as tantas que me inspiram e ensinam. Grata!

Efeitos de Elena Ferrante.

Gostaria muito de terminar esse texto. Esse início já não é o planejado e nem o que a priori
seria escrito no computador, já que ele surge de uma necessidade tremenda de escrever
em qualquer papel que tenha pela frente e vem com letras mais bagunçadas e confusas
que o usual. Dessas letras que, talvez algum dia, se olhem, seria motivo de desistência de
leitura. E graças a essa última fala, inicio então como previsto no bloco de papel: Sempre
tive uma ótima rotina de leitura. A construção dessa frase ressalta algumas coisas que
podem ser supostas. Em primeiro, logo me vem que pode parecer uma certa presunção ou
tentativa de me gabar sobre um passado que pode estar presente ainda. Em segundo, me
lembra que esse “tive” é um pretérito seguido de um sempre, sendo assim, não existe mais,
não seria motivo de glorificação. Então esses livros que sempre me arrebataram, me
compreenderam e até me ajudaram a me esquecer de mim, de alguma forma foram
alocados em outra posição na minha vida.


A necessidade que existia desse prazer, passou a se tornar uma perda. Perdi a vontade de
me reconhecer no olhar do outro. A leitura se tornou mais lenta, mais densa, pode-se dizer até dolorosa de se lidar. Sendo feita apenas quando necessária por motivos acadêmicos.
Nunca tinha entendido direito esse sentimento até “A amiga genial” e, infelizmente, esse texto não é sobre o livro. Muito menos algum tipo de resenha. Mas é sobre um dos assuntos que ele trouxe à tona ao longo da leitura: eu. E isso pode parecer mais egocêntrico do que realmente é.


“—Não quero mais ler nada do que você escreve.
Por quê?
Pensou um pouco.
__ Porque me faz mal.”


Esse texto poderia também ser uma sequência de trechos retirados desse livro, sendo apenas um compilado dos momentos que existiu um sentimento mais intenso, para quem precisasse ler apenas sentir, ou até mesmo numa tentativa de justificar um comportamento individual. E para além de identificações pessoais, me veio a necessidade de escrita. Essa que também eu abandonei.


Por medo.


E enfim, surge Elena Ferrante, na minha vida. Que nem sei quem é. Nem sei quantas pessoas sabem quem é. E que junto com seu anonimato, veio a exposição de várias pessoas. Eu me senti exposta naquelas páginas, quase de maneira violenta, afinal como seria me identificar com a brutalidade da realidade dessas pessoas nessa cidade italiana pós-guerra e com características de selvageria humana. Me expõe que não conheço quem escreve esse texto da mesma forma como não conheço ela, mas sou capaz de um reconhecimento mínimo pelas palavras. As mesmas que geram medo. Expõe que se essa Bárbara batesse na minha porta, me convidando para algo ou pedindo para entrar, eu bateria a porta na sua cara.


Ela que não é revelada, me faz escutar músicas de quando tinha 12 anos numa tentativa de transparecer algo que já existiu aqui e me agarrar numa imagem mais leve de mim mesma.
Uma imagem que permeia entre as duas personagens principais da história, uma amada,
outra vista como cruel. Essas duas sendo retrato de fases de mim mesma e talvez de toda
mulher. A competição e a necessidade de ser qualquer outra coisa além de mim, é relatado
pela adolescência das meninas, mas ainda está aqui.


Talvez, esse texto não seja sobre nada. E não informe nada. Seja fruto apenas de uma
necessidade de entender que não preciso de uma Lila, ou uma Lenu, ou de alguma
amizade para sentir conflitos. Já que esses me permeiam tal qual se estivesse uma cidade
toda morando dentro de mim. No mais, peço desculpas a uma pessoa em específico, que
não citarei o nome, mas que sinto muito por toda a competição gerada e tudo que foi
vivenciado de ruim graças a comentários alheios e necessidade rótulos como se fossemos
produtos de mercado qualificados como próprios para consumo ou não. Que existem
critérios a cumprir. Como se não fossemos tudo dentro de nós mesmas e não apenas
“amadas ou cruéis”. Sinto muito por ter sido conivente com isso, e até mesmo alimentado
uma competição pessoal de que seria melhor em algo que você ou você ser melhor na
maioria das coisas que eu. Talvez precise da reflexão se esse amor gera admiração que
pode ser confundido com inveja facilmente se não minimamente racionalizado.