Celebrando e Agradecendo

Por Roberta Bonfim.

Às vezes ensaio me sentir culpada por ter esse olhar Polyanna, ensaio me entristecer, me rebelar, ensaio muitas coisas, minha cabeça até se cansa quando tento desenhar caminhos para me tornar esse ser…. E não sou, nunca fui e possivelmente não serei. Falta em mim o dom para sofrer. Definitivamente não sou boa nisso e quando o desespero bate normalmente opto pelas crises de riso, ou sobrecargas de funções, ao ainda uma boa série como The is us que me levaram a prantos sem fim. Meu terapeuta dizia que sou inteligente. Ele repetiu tanto isso em nossas sessões que me convenceu e também me convenceu, ou me deixei convencer que as culpas não me vestem. Houve um momento em que ele quase se assustou com minha ausência de lágrimas ao falar sobre o que deveriam ser dores, e em algum lugar devem mesmo ser, mas não sei senti-las, ou aprendi muito bem a  racionalizá-las e então buscar caminhos outros que me possibilitem continuar existindo. 

E por que escrevo tudo isso? Porque hoje só desejo celebrar e agradecer e quase retomo o ensaio de culpa. Pois como celebrar em meio a uma pandemia? Como agradecer quando tantos fazem a passagem e,ou estão doentes? Como celebrar quando deveria tá chorando com o desgoverno que chefia o executivo do país que tanto amo? Mas, celebro e agradeço. E apesar do ensaio não me sinto minimamente culpada por celebrar e agradecer a vida, as histórias, as de verdade, aquela que não nos ensinaram na escola. Celebro e agradeço aos amigos, aos ArteVistas que comigo compartilham-se e compartilham sonhos. Celebro e agradeço a vida!

Hoje especialmente celebro os 114 anos da Ponte Velha, lugar com o qual me relaciono desde a barriga da minha mãe. Lugar que sempre, em todas as ocasiões me recebeu e tratou bem, lugar que fez nascer o Poço da Draga. Então celebro agradeço ao Poço da Draga, seus guardiões da memória, seu povo tão bom de papos e abraços. Celebro e agradeço pelas vidas de cada um que ali resistem e narram nossa história. Agradeço a Marilac e Isabel Lima, por serem as mãezonas que são, ao Serginho por ser este amante do lugar que lhe deu e dá vida. Celebro e agradeço Seu Chico, o Seu Lunga do Poço da Draga. Manelzim, que além de pescador dedica-se a ensinar capoeira aos seus. João e Maria, um casal lindo de se ficar perto ouvindo as história do tempo do trilho e tantos mais que a vida, histórias e convívio me ensinou a amar. Celebro e agradeço pois ArteVistas incríveis aceitaram nosso convite de realizar uma live de 10 horas amanhã (27 de maio de 2020) em comemoração a este Lugar, que nos inspira a todos nós. Agradeço a nossa equipe linda que se mobilizou para fazer acontecer. E que vai ser uma loucura linda e repleta de afeto, carinho, arte e desejo que mais se somem a este lugar, para entenderem mais sobre nossa própria história, que esqueceram de nos contar. Nossa forte relação com o mar. Nós que moramos na esquina do Brasil, a um oceano da Europa. Nós que vivemos, sentimos e somos Fortaleza.

Então, estou celebrando e agradecendo!

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IMAGEM DE DIVULGAÇÃO ANIVERSÁRIO DO POÇO DA DRAGA

E tem mais. Ontem teve mais uma estreia do especial Melhores Momentos da Lugar ArteVistas -arte onde estiver, na Varanda Criativa. Esse Lugar que amamos habitar e que devido as circunstâncias não estamos podendo ir celebrar a vida ao lado do querido ArteVista  Gustavo Portela e dos seus. Mas, com o programa matamos saudades e respiramos. E se você que está me lendo não assistiu, aproveita que tem o link aqui em baixo e aperta o play. Garanto que será uma respirada profunda que te encherá os pulmões de crença e amor pelo futuro que há de vir,  e virá. No foco a cozinheira que apresenta o quadro Arte na Cozinha, Clara Freitas e sua risada mais gostosa, nossa fotógrafa ArteVista que amamos Lorena Armond, o produtor e músico Marcelo Freitas, o músico pernambucano Almério, a cantora baiana Luedji Luna, e o multiartista Gyl Giffony, deixam claro em suas falas, crenças, pesquisas e lutas que é urgente que nos relacionemos com nossos lugares para que encontremo-nos e fortalecemo-nos e assim, possamos contribuir com o mundo em que existimos. Grata Kiko Alves por ter feito esse corte tão lindo e conseguido resumir um mês em 20 minutos.. 

    PROGRAMA DE ONTEM

E como a semana é mais que ontem e hoje, agradeço a Allana Peixoto por ter me desafiado a compartilhar rotina, fiquei muito me sentindo blogueirinha e foi lindo e importante saber que o nosso dia a dia aqui em casa inspirou e provocou leveza ä seres que nos são queridos. Não dou conta do sempre, pois gente pense numa coisa pra dar trabalho, mas tentarei sempre postar sorrisos, compartilhar aprendizados e certamente que depois de tantas horas de live, ficarei mais safa com a internet. Agradeço também ao nosso advogado Eduardo que me deu o melhor presente dos últimos tempos, conseguimos registrar nossa marca, agora somos formalmente Lugar ArteVistas -arte onde estiver e podemos trabalhar com mais segurança e alegria, pois nossa marca querida, feita pelo nosso designer Marcelo Muz, ainda terá muita história para contar.

Boneca lugar

LOGO LUGAR ARTEVISTAS

E tenho mais a agradecer. A campanha em prol do Poço da Draga vem possibilitando deixar essas famílias em situação possível de existir, e outros parceiros maravilhosos vem se somando. Além da Associação Anjo Rafael, que jamais me cansarei de agradecer pelo trabalho incrível que fazem, e por me ensinarem com exemplo a sempre transformar dor em amor, a turma do Spray do Bem, aqui organizada pelo Além da Rua, e todos os artistas envolvidos. Mas também ao João Furtado, do Iprede que vem junto com os seus fazendo um trabalho de milagres e afeto, a turma do Auê e tantos.. E a todos que estão colaborando, se somando e vibrando positivamente para que passemos por tudo que estamos passando da forma mais leve possível. É fundamental que deixemos a vibração boa, que chamemos pelas chamas violetas de cura e transmutação. É importante agradecemos pela nossa saúde e ficarmos em casa, para manter a saúde dos nossos. Lembro que somos todos um e que devemos trabalhar essa cura coletiva.Alguns perdemos, outros ainda irão e a vida vai seguir e mais que antes faz-se urgente que nos melhorarmos como seres e saibamos como somar ao nosso próximo. O mandamento amar ao próximo como a nós mesmos, nunca esteve tão em alta no meu coração e torço que esteja também no seu, pois é exatamente isso. O próximo somos nós mesmos e para sairmos disso fortalecidos é fundamental e urgente que pensemos coletivamente.

‘’AMAI AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO’’

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Nossos corações se enchem de gratidão igual a Dona Maria Zenir. Mas sabemos que a campanha do Poço da Draga não pode parar. ⠀ Vamos sempre lembrar que são mais de 500 casas com duas ou mais famílias dividindo espaço e sem sua fonte de renda. ⠀ São trabalhadores que hoje estão de mãos atadas mas que não perdem a esperança. ⠀ Quem puder ajudar pode transferir qualquer quantia para a diretora da ONG @velaumarong @marillac.lima3 ⠀ ⠀ ⠀ Luiza de Marillac Lima Ferreira⠀ Cel (85) 9 8775.3596⠀ CPF: 657327823 20⠀ Agencia 3468 1⠀ Conta 118270- 6⠀ Banco Brasil⠀ ⠀ #lugarartevista #artevista #arteondeestiver #arte #art #batepapo #afeto #música #dança #teatro #criação #criatividade #coletivo #artevistas #cultura #amor #organization #organizaçãosemfinslucrativos #profit #ong

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E por falar em amor, gente… O que é este blog, se não lugar de pleno amor? Nesta semana tivemos duas estreias de ArteVistas tão cheias desse amor, Juliana Veras e suas memórias afetivas, que afetam o coração e Mari Trotta, uma mãe que tanto me inspira, isso além de outros textos tão necessários. Gente, só tenho a agradecer a todos e cada um por se compartilharem e permitirem essas trocas que de certo nos fazem tanto bem. 

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IMAGEM DE DIVULGAÇÃO

A parte a isso sigo Polyanna, buscando sempre o que celebrar e agradecer, pois neste mundo de tantas matrix, podemos escolher até tal ponto o que queremos visualizar e assim viver. Grata por me ajudarem a perceber o quanto a humanidade é linda, o quanto somos um ambiente buscando equilíbrios e movimentos. E por falar em movimento, celebro e agradeço ao reggae, samba, forró e carimbó que nos ritmam aqui por casa. Sigamos com força, foco, fé, amor e muito aprendizado. 

Celebração e gratidão! 

Parabéns Poço da Draga! 

Passeio na garupa do unicórnio

Por Mari Trotta.

A palavra mãe convoca corações, figurinhas de amor, romantismo virtual. O cenário romântico criado na maternidade sufoca, dificulta soltar o ar, ou melhor, soltar o verbo. Mandar a real.
A humanidade se preserva em chavões, a quarentena fica linda, uma oportunidade de ler, de estar presente, de cozinhar. Nunca gostei de ver fotos de pratos de comida, que indigestão, vão se propagando indiscriminadamente nas redes.
Olho de rabo de olho, passo rápido, enjoo social.
Depois de dois meses os clichês esvaziam, só dizer amei com emoji não diz mais nada, criam nova figurinha, diz força, mas continua o coração, alguém que segura um coração. Quem é esse sujeito indeterminado que tem como missão suportar o peso do coração? É uma sujeita, mãe, sujeita a esquecer de si para cuidar.
Dormi e acordei chorando muito estes dias. Reli o blog que escrevi, “Na espera de um novo amor”, enquanto esperava na fila da adoção. Vi cada post da espera, da chegada e do cotidiano que deflagrava as descobertas da minha filha no mundão. Eu tinha matéria para um poema por dia. Não porque a vida era linda, mas era ação no mundo. Instantes de dilatação, pupila crescida, nova observação.
Criei uma mãe em mim, desde sempre, que conhecia o limite de estar exposta à maternidade. Preciso de mim. Sozinha. Criando meus imaginários e devaneios. Achei bastante tempo comigo. Mesmo maternando em viagens de trabalho ou de passeio, sim eu viajava sozinha sendo mãe, dormindo, no trabalho, no samba, eu delimitava o estar presente sempre. Escolha que fiz por uma boa relação. Funcionava.
Congela a vida externa. A vida é a casa. Tudo cresce nos mínimos detalhes da percepção. O corpo da cria, as frustrações, a impossibilidade de se ter o que se quer.
Confinadas. Totalmente expostas uma a outra.
Tudo aflorou rapidamente como a natureza se reconstitui veloz sem a presença humana. A culpa materna cresceu junto com o pé dela. A televisão ficou permitida. A comida é a que se dá para fazer. Dar atenção é tudo que não quero. Brincar o tempo todo é trabalho doloroso.
Faz de conta que eu sou uma mulher maravilha e que tenho super poderes para dar conta de você, de mim, da casa, do trabalho, das minhas alunas e alunos, do meu companheiro, das minhas amigas que estão surtando como eu, da política perversa, da universidade pública ameaçada, da tristeza de ser humana hoje, do medo de ficar doente, de ficarmos, ao invés de totalmente expostas, isoladas. Dor dilacerante é não ter matéria para fazer de conta.
Respira. Pausa. Lembrei que fui criança. E olhei para mim menina. Bem pequena. Resgatei. Peguei no colo. Entendi, à força, ser mãe me mostra caminhos de mim. Cuidar de mim como cuido da minha filha. Mudei. Falo comigo com muita paciência, me faço carinho, me alimento, me coloco para dormir, demoro no banho, danço na sala. Canto.
Criei um manifesto para me salvar. Fica decretado que as mães devem se priorizar, cuidar de si como cuidam de suas crias, lutar (não somente pelo facebook) por um mundo em que nenhuma criança precise se isolar das outras para salvar vidas, que a vida familiar burguesa se transforme em vida em aldeia, aonde todos os cuidados das crianças sejam feitos pela comunidade e não só pelo pequeno núcleo familiar. Decreto, também, que quando o vírus acabar, vamos desligar as telas dos celulares e computadores, para reconstruir a sociedade em que as nossas crias fazem de conta estar. Por fim, decreto que são obrigatórios os passeios de unicórnios na garupa das crianças para as mães poderem relaxar e quem sabe ler um livro na quarentena.

Imagem para o Texto

Imagem de arquivo pessoal.

Alfazema-Bamburral

Por Juliana Veras.

Fortaleza, 24 de maio de 2020

Olá, Lugar ArteVistas. Casa confortável de elucubrações preciosas, que admiro tanto pela beleza da proposta, pelas pessoas envolvidas e suas reflexões. Gostaria de compartilhar com vocês um escrito que não é dramaturgia nem música, nem é processo de montagem teatral, mas faz parte de tudo isso pois me compõe artista e humana. E é temporal. Me veio há alguns dias numa manhã de maio. Achei importante trazer esse texto a esta casa como primeira postagem minha como artevista. Meu companheiro Clesio, que é das letras e do coração além de Primeiro Leitor, insistiu para que publicasse apesar de criticar algumas de minhas anarquias gramaticais ou, como chamo, minhas tentativas de alcançar o diabo do fluxo de pensamento. Me esforcei para, na digitação, tentar reproduzir algo próximo à fluência da escrita no caderno, que tem uma dinâmica sensorial própria. Quando escrevi, no início da semana, eu ainda tinha 39 anos. Sugiro então que sintamos um cheiro que nos conecte a um passado bom, e que escutemos o canto dos pássaros. Vamos à leitura. 😉

foto I

Fortaleza, 18 de maio de 2020, por volta de 5h da manhã.

Alfazema

O vovô João já estava com a memória difícil, mas ainda falava. Um dia, numa daquelas caminhadas em Isidoro, trouxemos uns gravetinhos pra ele cheirar. “– Bamburral”, com aquela voz mansa, rouca e macia que o tempo deu pra ele. A mamãe também chorou. As crianças e os idosos frágeis fazem isso com a gente, despertam em nós certa vontade de chorar, apertá-los e guardá-los no bolso, ainda mais quando os amamos muito.

A vovó Maria já tinha morrido. E eu já usava antes, pensando nela, mas depois dessa fala do vovô, aí é que a alfazema ficou sendo um dos meus cheiros favoritos.  Alfazema e as colônias de bebê suaves.

O amor potencializa tudo.

Acho que a lembrança deles me veio, dessa forma sinestésica, sensorial, tão pessoal assim… e agora por alguma razão me lembro da carne fofa da minha avó me abraçando forte… Nossa, como era bom. Quarenta menos dezesseis… aquilo é um sabiá? …, vinte e quatro. Como faz muito tempo, há muito deixou de ser uma lembrança triste. Acho que nunca foi. Dá uma acochadinha na garganta como se tivesse uma piranha de cabelo presa no gogó, dessas bem pequenas. Mas vem com um sorriso interno.

Eu era muito nova, mas pude ainda colher muitas lembranças incríveis. Algumas. Várias. Uma que me marcou muito, vivo repetindo essa história, é que a vovó sempre deixava guardado pra mim um pouco de galinha cozida. Ela sabia que eu adoraaava. Deixava guardado pra mim num pote de margarina.

As letras do caderno de repente embaçam e a paisagem ganha um gosto salgado. Faço questão de provar. Algumas. Outras, que fiquem fazendo cócegas no rosto. É bom. Sinestesias da quarentena.

 

Bem-te-vi

Identifiquei. Te peguei. Safado desse bem-te-vi. Parei pra sentir o ar um pouquinho. Frio táctil na ponta do nariz, o rabo macio do gato passando perto, o som macio da respiração do amor no quarto ao lado, o quentinho nas pálpebras do Sol que aparece agora – Olá, Astro-Rei. Divindade querida, junto à tua irmã Lua, por tantas civilizações. Ele veio, acariciou meu rosto com sua mão quente e agora ajeitou o seu manto, ocultando-se nas nuvens. Como um bom deus, ele só está aqui pra me fazer feliz.  Me acariciar, iluminar a minha escrita e possibilitar a visão dessa paisagem indizível em palavras. É tudo uma experiência de amor. O senhor fique sempre assim, viu, Sol? Fala a habitante dos trópicos. Há quem esteja mais próximo dos trópicos do que em Fortaleza. Nessa ponta do continente não é possível se aproximar mais. Estou coladinha no mar atlântico voltada pro norte referencial do planeta. Redondo. Arredondado.

Como estava dizendo antes do Sol me encantar e interromper com sua exuberância, parei pra sentir o ar um pouco e me perdi no meio dessa multidão de passarinhos. Como é o nome desse tipo que canta uma frase grande e aguda, que termina parecendo uma pergunta? O rei do sertão Seridó saberia. “É meu concriz, é meu sofrê, corrupião, êêê, voa cantando, rubro negro do sertão”. Será esse o nome? Será que ele tá me respondendo com a lembrança das letras de suas músicas? Não me espantaria. Agora foi que eu chorei mesmo – hehehe! Queria que você estivesse vivo, Cícero querido. Por inúmeros fatores. Mas pode morrer, viu! Já a gente se encontra por aí. A Covid inclusive tá levando um bocado de gente bem rápido. A festa vai ser é grande. Claro, depois que organizar a fila que deve tá uma confusão. Ciço querido, recebe aí nossos amigos artistas. Tem uns músicos incríveis que devem estar trocando altas ideias contigo agora, que companhia de luxo!… Pena que as mortes são tão tristes. Tão cheias de dor, principalmente psicológica pra quem fica. A leveza aparente nunca seja confundida com insensibilidade, rimos feridos com punhos cerrados, garganta em chamas e lágrimas nos olhos. E vai morrer muito mais gente. Culpa daquele abestado ali fazendo caminhada lá embaixo. Alguém salve o Brasil de seus representantes genocidas.

Então eu ouvi essa multidão de passarinhos. E captei o bem-te-vi no ar. Te peguei, bonitinho. Mas eu tô ligada que o teu ninho é na outra rua. Não pare de cantar não, que te ouvir é a coisa mais linda, assim como ouvir teus companheiros. Esse aí parece um soim, mas cantando com métrica. O galo também está super afinado. Amburguesa? Ainda existe? Os tetéus, acho que só ouvimos na madrugada. Meu Deus. Estou no meio do sertão. Era aí que eu queria chegar.

Anarquia gramatical

Ainda bem que minha mente tem um Colaborador que faz contas rápido pra mim, às vezes, e que eu tenho alguma intimidade com as letras. Se não, a beleza desses sons, dessas vistas e desses sabores não me deixaria pensar. Meu Colaborador me mostrou o número daquela casa à frente. 24. Faz vinte e quatro anos que a minha avó materna morreu, levada pelo Alzheimer, assunto que inclusive me uniu à Roberta Bonfim na possibilidade da montagem de uma peça um dia.

Vinte e quatro anos…

Coisa mais feia, “Colaborador”. É que não posso revelar o nome do meu Eu Interior. Pensar, às vezes, dá preguiça, ainda mais quando se está acordando. É mais fácil realmente conceber que tem alguém na sua cabeça pensando por você, daí, a você fica a missão de interpretar ou simplesmente reunir as coisas.

Minha amiga Marcelina Acácio tem razão de se admirar com “quantos eus não cabem dentro de mim mesma”.

Digo eu, mãe, que a gente pira pra não endoidar. Ensandece pra não enlouquecer.

Então, Gó.

Há um certo prazer no atrevimento da quebra de parágrafos. Quase tão bom quanto escrever frases muito compridas sem usar vírgulas como os alemães que a gente lê traduzido pro português. Se se distrair, perdeu.

Então, Gó.

Melhor que quebrar parágrafos é quebrar parágrafos com parágrafos que se repetem. Ainda mais, parágrafos curtinhos. !! Ai, Marianne Bonfim, preciso te contar isso! Mas sabe, Lorrana Feitosa, eu ainda tô na fase das vírgulas. Às vezes, abuso delas. Se erro, geralmente é proposital. Não por irreverência, mas por atrevimento gramatical. Não são a mesma coisa. Agora dei pra, além de pensar em voz alta, escrever o que converso em minha cabeça com minhas amigas escritoras. Hoje é o aniversário de uma delas inclusive. Parabéns, Jéssy Santos querida. Que nosso Deus de Amor te faça muito feliz.

Então, Gó. Vou concluir com muito gosto pra ti, pelo prazer de poder ser lida por ti. A sua filha começou este escrito falando dos avós. Sim, escrever é um tipo de fala, fora o fato de que eu geralmente digo em voz alta o que vou escrever. Perdão, só mais uma coisa.

Lorrana, mulher, eu estou na fase das vírgulas. Porque parei de questioná-las, foi uma fase curta se comparada a toda a minha vida, logo, talvez as quebras com vírgula sejam mesmo a minha tendência natural. Ou, voltei a ser assim. Mas, mais madura, pois, desencanei, né. Risos inauditos. Só que o que eu queria te contar é que também andei namorando as reticências… … . Viu? Abandonei quase que totalmente o travessão. Dei pra falar os meus “à partes” dentro das frases mesmo hahaha, pelo mesmo atrevimento gramatical antes mencionado… Preciso melhorar alguns dos meus títulos… Mas Marianne – adoro teus dois enes… – … maldito travessão…, eu entendo o prazer das frases curtas. Só não confio muito. Nelas. Também não confio muito na quebra dos parágrafos.

Faço não por irreverência.

Nem por atrevimento.

É pela mais pura anarquia gramatical.

Mesmo.

Mas confesso o que está posto, ainda não cheguei no nível de abandonar as maiúsculas… … Ô que eu olho pra vocês como uma puritana olha morrendo de inveja pra saia curta das cocotinhas… Maldita Clarice Lispector, maldito Alan Mendonça, malditos todos vocês! A-doro!

Mãe! Te amo. Tchau.

Mini-crise de riso.

Foto II

Bamburral

Pois é, Gó. Outros sons se mesclam agora ao canto dos pássaros, inclusive bateres de asas e mesmo outros pássaros. Porém, sons humanos com o raiar do dia. E eu queria dizer que comecei falando dos meus avós, seu pai e sua mãe e o bamburral-alfazema, talvez porque me senti, no friozinho do findar da madrugada e em meio ao canto de tantos pássaros, no aconchego do sertão de Isidoro, no nosso Recanto João e Maria, a casa deles e o solo das raízes de nossa família.

Não há aviões, os carros diminuíram e o trânsito das pessoas está bem menor na quarentena… infelizmente maior do que deveria, pois muitas pessoas não estão respeitando o isolamento e pagaremos um preço cada vez mais caro, com muito mais mortes por conta disso… Mas, pelo confinamento necessário dos humanos, que se protegem da doença, protegendo sua espécie, creio que os bichos, imunes que são, estão dominando o mundo. Os pássaros vieram fazer seus ninhos nas ruas, nas árvores, nas portas das casas, trazendo o sertão pra pertinho de nós.

Infelizmente, sabemos, há tristeza e morte.

E uma certa languidez no ar.

E não sei se em parte porque agora podemos finalmente apreciar, mas uma coisa é certa. Definitivamente, sem a euforia da modernidade o mundo fica muito mais bonito.

Fiquemos em casa, se pudermos.

Juliana e as Feras

Veras

Qual o seu lugar no mundo?

Por All Franca.

Qual o seu lugar no mundo?

Quantas vezes nos questionamos sobre isso? Desde pequenos somos bombardeados com a pergunta corriqueira: “O que você vai ser quando crescer?”, num momento em que nem sabemos o que é crescer, sabemos apenas o como é Ser. Afinal toda criança sabe o que é Ser, para elas bastam apenas viver, cada dia é uma descoberta, não precisam de máscaras, papéis ou disfarces para suas emoções, elas apenas são o que são. Contudo, à medida que vão crescendo e  essa pergunta chega aos seus ouvidos, inconscientemente elas começam a acreditar que não “são” algo, que precisam “Ser alguém”… E nesse ponto começa nossa conversa de hoje.

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(Imagem de Gerd Altmann por Pixabay)

Nos últimos anos de minha vida, passei por diversas tentativas de “Ser alguém no mundo” conforme a sociedade prega. Quando me formei no ensino médio, fiz vestibular para diversas federais para Ciências da Computação, acreditava naquela época que era uma área promissora, não passei e acabei fazendo o curso Técnico em Informática. Depois entrei na faculdade para fazer Sistemas de Informação, fiquei um ano e meio, percebi que não era para mim. Dois anos depois passei em Licenciatura em Matemática, foi mais um ano ali, saí novamente para entrar em Engenharia Mecânica, o curso que eu acreditava ser a minha salvação, foi, ele me faria “ser alguém”. Fiquei nele por 6 anos, sofri por muitas coisas que passei nesse período. Mas hoje, acredito que o que mais doía era ter a certeza que eu não estava “sendo nada” ali. Estava sendo só uma repetidora de equações e raciocínio lógico e foi nesse cenário que iniciou-se meu despertar Espiritual (assim que chamo o processo de se conectar com sua essência divina). Foi apenas a partir do meu despertar que comecei a perceber quem realmente Sou. E digo para você que não foi um processo simples, precisei enfrentar muitas partes inconscientes minhas, muitas dores emocionais e muitas sombras, contudo passar por isso foi libertador. E aos poucos fui encontrando quem sou.

Antes desse processo, eu sentia um grande vazio dentro de mim e imaginava que ele seria suprido ao ter sucesso profissional. Me deparar com um mercado competitivo já dentro da própria universidade, me deixou mais perdida e infeliz do que já vinha experienciando. O meio acadêmico é avassalador, te engole feito uma onda se você não está entre os primeiros da turma, no ambiente de exatas então, você se torna apenas seu coeficiente de rendimento.

Hoje, depois de muitos altos e baixos compreendi que sou muita mais do que a sociedade espera de mim, que já sou um Ser completo e que minha existência aqui no planeta é devido ao meu propósito de vida, que descobri nesse caminho. Tal propósito se desenrola em levar consciência para o maior número de pessoas possível, e por isso estou aqui hoje a escrever.

E digo para você que, ainda não encontrou seu lugar no mundo, digo-lhe que está tudo bem está perdido e digo-lhe mais, você já é tudo que precisa ser! Sua natureza é divina e completa, você não precisa da aprovação da sociedade, dos familiares, ou de todos os meios que os reprime. Você guarda um grande potencial dentro de você, porém depende de você querer enxergar. No começo não é tão natural entender isso, mas aos pouco, com perseverança, amor e compaixão por você mesmo, será possível ter essa compreensão. Busque no fundo do seu coração, o que realmente te faz feliz? O que faz teu coração palpitar? Aquele sonho antigo, que para muitos não era promissor, mas para sua alma é ele que a completa, onde ele está? Não sabe ainda se tem algum sonho? Tudo bem, comece olhando para você, desenvolvendo seu amor próprio, dando valor a cada milímetro cúbico de quem és (se é que podemos medir o infinito que somos em milímetros cúbicos rsrs). Dentro de você tem uma vozinha que te diz o que fazer e você apenas a ignora pois você foi treinado a ignorar. Saia do botão automático, procure viver, deixe de apenas sobreviver, é chegada a hora de todos os seres humanos compreenderem seu infinito valor, não deixe essa onda passar, você já tem um lugar no mundo, você já é alguém. Se conecte com seu coração, não há problema se o caminho der voltas, o que você não pode é ficar parado no mesmo lugar.

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(Imagem de Jill Wellington por Pixabay)

A busca por Ser alguém na vida, me mostrou apenas que já sou, sempre fui e sempre serei. Hoje vivo feliz com meu propósito e estou cada vez mais compreendendo quem sou. Você também é capaz de viver assim, pois você já tem o seu lugar no mundo e esse lugar é dentro de você. Viva a sua verdade!

Com amor,

All Franca.

 

Direito de existir

Por Indyra Gonçalves.

Na bula social existe uma lista imensa de nãos recomendados. Existir como você se reconhece, ser como deseja, amar a quem te faz feliz, usar o que te deixa livre são alguns dos itens não recomendados da sociedade que idolatra um discurso de ódio, de medo, que marginaliza a existência de milhares de pessoas por causa da cor da pele, orientação sexual, religião, por ser mulher, dentre outros diversos lugares de existência. Nas regras sociais a aparência define a qual lugar você pertence, define se você tem um nome ou se é apenas mais um número na lista de mais um. As regras sociais dizem quem é você pelo tamanho da sua conta bancária, quanto maior, melhor. Dinheiro nos torna iguais da maneira mais hipócrita que se pode existir.

Não recomendados – Não recomendado l Clipe oficial:

Sob esta sensação constante de incômodo e ainda com o corpo e a alma imersos nas reflexões propostas no texto da última sexta, Carne viva, sigo na exposição e no questionamento de feridas, traços perversos e desiguais que seguem abertos e latentes nesse nosso contexto social padronizado e que vive num processo constante de selecionar as pessoas.

No último domingo, 17, foi celebrado o dia Internacional da Luta contra a Homofobia, também conhecida como LGBTFOBIA. A data marca, esse ano, 30 anos que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID), considerada por muitos anos como doença mental. No Brasil, a conquista aconteceu em 1985, cinco anos antes da data registrada pela OMS.

A homossexualidade, especialmente na Idade Média da cultura Ocidental, era vista como um pecado grave. Qualquer semelhança com os dias atuais é mera coincidência (contém doses de ironia). Não demorou muito e a relação entre duas pessoas do mesmo sexo passou a ser punida com as pessoas sendo queimadas nas fogueiras das inquisições. Logo depois se transformou em crime. Entre 1553 e 1967, no Reino Unido, por exemplo, a homossexualidade foi criminalizada. A perseguição às pessoas seguiu ainda por muitos anos, visto que o hábito de considerar crime permanecia na formação cultural da maioria da sociedade. O passo seguinte na história da homossexualidade foi quando a OMS a considerou como doença, retirada da CID em 1990. Hoje, trinta anos após esse importante avanço ainda há uma parte da população que busca “curar” pessoas LGBTQI+. Não há cura para o que não é doença.

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A jovem e importante conquista para a comunidade LGBTQI+, assim como para uma sociedade que deseja se estruturar na base do respeito e da igualdade pelo direito de existir do outro, é celebrada nos mais diversos âmbitos sociais e políticos. É um momento de denúncia sobre os trágicos números que mostram a vida de milhares de pessoas sendo tiradas pela intolerância e cobrança do Estado para a ampliação de políticas de proteção, sociais e econômica das pessoas LGBTQI+. A vida é um direito universal, que deve ser garantido a qualquer pessoa. Esse direito está, inclusive, seguro na Constituição Federal de 1988, no artigo 5º, caput, define que todos os brasileiros e os estrangeiros que residam no Brasil tem o direito à vida.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade[…]. (: BRASIL, 1988)

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Ao contrário do que está garantido na lei, o Brasil é um país homofóbico e que também está no topo dos países que mais mata LBGTQI+ no mundo. Num relatório apresentado em 17 de maio do ano passado, pelo Grupo Gay da Bahia, foi constatado que, em média, uma pessoa LBGTQI+ morreu a cada 23 horas. Totalizando 141 mortes de janeiro a 15 de maio de 2019, desses, 126 homicídios e 15 suicídios. O estado com os piores números foi São Paulo, com 22 mortes. Em seguida veio a Bahia (14), Pará (11) e Rio de Janeiro (9).

O Brasil é um país perigoso para LBGTQI+. É perigoso também para mulheres, negros, indígenas, para crianças, para pessoas. A intolerância, o desrespeito, o ódio estão encarnados numa parte da sociedade brasileira que se veste de falso moralismo dos mais diversos e justifica a violência que reveste o preconceito que a alimenta. Eles humilham. Desmoralizam. Buscam em suas crenças em Deus justificativa para violentar. O Brasil não sabe cuidar dos seus filhos. Ele é um pai ausente. Jovem demais para assumir a responsabilidade de criar educar, dar amor, ensinar sobre respeito aquele por quem também é responsável. O Brasil é um homem abusivo e machista: a melhor pessoa no espaço social/midiático, mas na verdade é um violentador que desrespeita quem diz amar nos espaços de intimidade. Vivemos em dias brancos, héteros e com o poder concentrado em poucas mãos. É preciso estarmos unidos. Resistir. Como bem canta Gal Costa em Divino Maravilhoso “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”.

Divino Maravilhoso_Gal Costa (Gal Costa 1969):

Os efeitos que esse lugar de opressão traz às vidas das pessoas é de medo e também de resistência. Esses lugares são conhecidos de Jão, artista visual, bicha e “bem afeminadinha” como se descreve ao falar do seu sentimento de existência como homem gay no Brasil. “O medo está sempre ao nosso lado, principalmente, porque o acesso à vida e ao afeto sempre foi algo proibido pra gente. Já que sempre foi um problema pro outro. Então, a gente sempre teve que pensar nas nossas maneiras de agir e de viver”, lembra.

Jão traz ainda amargas lembranças da violência sofrida em seu corpo devido estar usando roupas que socialmente são colocadas para mulheres. “Lembro que há alguns anos eu fui agredido na rua pelo simples fato de estar usando trajes de cunho feminino. Porque eu, como uma bicha afeminada, eu não podia ter esses trejeitos. Eu sempre tinha que me comportar da maneira como a sociedade esperava e não da maneira que eu queria me comportar. Isso fez com que eu tivesse alguns traumas e crescesse com esses traumas. Então, eu sempre pensei duas vezes antes de fazer as coisas que eu quisesse fazer”, desabafa.

Confira o papo completo com Jão:

A homofobia mata. O ódio também. Há morte por todos os lados. Uma sociedade que não atua pelo respeito, pela igualdade, pelo direito de escolha e de expressão do desejo do outro está fadada a falhar e enterrar pessoas, cada vez mais. Todas as vidas importam. Todas as vidas e existências precisam ser respeitadas. Haverá luta e resistência. Os silêncios serão quebrados. Jão é resistência. Ele resiste através de sua voz, da forma como se veste, sendo afeminada, com arte. Jão resiste no seu projeto Coisas de viado – Cartografia de corpos que resistem. No projeto, Jão traz ilustrações e pinturas que retratam os traumas vividos por ele e que também faz parte da vida de milhares de LGBTQI+ e, infelizmente, resulta na morte das pessoas diariamente. “Eu como homem gay sigo nessa luta e nessa resistência através da minha existência. É mais como um esporro, mais um grito de que as pessoas parem de nos matar. Porque essas palavras, elas têm poder”, reforça Jão.

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Coisas de viado – Cartografia de corpos que resistem – João

“Eu vejo a vida e o desejo de viver como o maior símbolo de resistência pra gente que é LGBTQI+. Porque nós estamos sempre nas margens. Então, quanto mais a gente ocupar mais espaços, quanto mais a gente colocar a nossa cara a tapa, mais a gente se torna uma resistência. E eu, como sou artista, eu tento transpor isso nos meus trabalhos também. Porque eu acredito que quanto mais bicha, quanto mais LGBTQI+ tiver trabalhos, tiver expondo esses trabalhos, vai ser um trabalho político. Porque a nossa existência é política”, enfatiza.

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Coisas de viado – Cartografia de corpos que resistem – João

 

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Coisas de viado – Cartografia de corpos que resistem – João

 O sentimento de Jão é partilhado pelo artista Diego Moraes, que faz parte do grupo Não recomendados ao lado de Caio Prado e Daniel Chaudon. Em dezembro de 2016, a revista Lugar Artevistas conversou com Diego em São Paulo, sobre esse lugar de homem gay. Muito além da vida adulta, o papo trouxe um desabafo de Diego sobre o ódio recebido desde a infância, também vivido por Jão, quando já se via como “uma criança viada”, lembra. Não apenas o preconceito pela sua orientação sexual, mas Diego lembra ainda que essa violência era agravada por causa do racismo que sofreu.

“Eu sempre fui um cara que, desde criança, sempre sofreu muito preconceito a respeito de ser uma criança viada, a respeito de ter black power. Ser um dos primeiros black power numa cidade absolutamente provinciana como Piracicaba. E, supostamente, usar roupas diferentes, involuntariamente e as pessoas gritarem xingamentos gratuitos. As pessoas baixam os vidros dos carros e gritam: viado! Vai cortar esse cabelo!”, lembra Diego.

O artista afirma ainda que esta é uma violência que o acompanha por toda a sua vida “eu vivo assim até hoje. A minha vida inteira foi assim”. A homofobia, muito além da disseminação de ódio, é também uma manifestação arbitrária que qualifica o outro como contrário, inferior ou anormal. Confira o papo completo com Diego Moraes na Lugar Artevistas:

Diego Moraes_Beco do Batman_Lugar Artevistas:

O papo sobre existência e resistência da comunidade LBTQI+ segue na próxima sexta-feira, 29. Trarei outras histórias, lutas e lugares de fala reforçando a importante conquista do 17 de maio, dia Internacional da Luta contra a LGBTFOBIA. Além de dicas de filmes, livros e projetos urbanos que reforçam a luta LGBTQI+. Fiquem em casa. Deixo aqui o meu muito obrigada à Marcelina Acácio, Júnior Barreira e Jão pela colaboração na construção do vídeo com o depoimento de Jão. Cuidem de vocês, dos seus e dos outros. Sejamos resistência nesses dias brancos.

 

Mariana

Por Saulo Lemos.

Desde quando comecei a dar aulas, conversava muito com a Mariana sobre esse
trabalho. Estava mais empolgado que em quase todos os momentos da vida antes e depois. Contava, e ela já sabia, que lia muitíssimo, obcecado praticamente, trocava horas de sono pelos livros, não conseguia evitar, assim como não tinha jeito de evitar a chateação por não conseguir levar 30 ou 40% do que lia para as salas de aula, já que nem os hábitos dos alunos, nem o próprio modelo de escola tão comum nessa cidade ou país dava conta disso. Mas os papos com a Mariana se tornavam parte do prazer de ensinar (ou acreditar que estava ensinando) e discutir isso. Um dia, eu falava com ela sobre como isso que se chama literatura, na aparente homogeneidade prometida pela palavra, era um campo de guerra, de desentendimentos e de necessidade de posicionamentos.
Tantos livros publicados até hoje por tanta gente no mundo e na história. Coisas suficientes para agradar gostos bem variados. As escolhas habituais de parte dos estudiosos daquele campo de guerra lá (a literatura) privilegiam alguns jeitos de dizer e pensar. Escritas que evitar ser espelho de preconceitos, da preguiça existencial, da tentação cotidiana de anestesia. Que não levem a sério quando alguém dá a caminhos alheios o nome de “verdade” (embora a gente, na fragilidade nossa de cada dia, insista em concordar tantas vezes que valeria de algo o caminho que outras pessoas ou entidades improváveis apontam). O romantismo nas artes, que tremeu a terra nas mentes do século XIX, com seus hábitos, práticas, falas e sentimentos, inventou como bem comum a vontade de ter uma voz que ninguém mais tenha. Todos esses fatos e prosas eram falas da Mariana misturadas com as minhas. De conversas anteriores e daquele dia também. Num certo instante, ela puxou a frase e não devolveu, não precisava, eu escutava, adorava escutá-la. Ela dizia: a literatura moderna, mais para o fim do século XIX e varando o século XX adentro, pega a fé na originalidade do eu romântico (no fundo, uma ilusão, mesmo que uma ilusão gostosa), e faz dela uma busca heroica e maníaca por maneiras individuais de dizer literatura. Uma literatura que se alimentava dos modos cotidianos de escrever e falar, que bagunçava a palavra até colher jeitos estranhos, diferentes, arejados, intensos, vitais, de falar e pensar: Virginia Woolf, Marcel Proust, Franz Kafka, James Joyce, Vladmir Maiakowski, Oswald de Andrade. Etc.! Um batalhão de escritas que reavaliava o mundo e seus mundos, a linguagem e seus ecos, de jeitos inéditos, trazendo para a frente do palco, mais ainda que o romantismo, pobres, mulheres, índios, negros, desajustados e tanta gente mais, aliás sem o figurino de preconceitos cientificoides, racistas, misóginos, aburguesados e eurocêntricos da segunda metade do século XIX. A literatura moderna do começo do século XX foi fazendo muitos acertos de contas com quem não costumava ter voz nem na sociedade, nem na arte, nem na ciência, nem na filosofia, nem em porra de lugar nenhum.
O embaraçoso aí é que esses acertos de contas ainda eram um gesto de não dar voz àqueles povos todos, mesmo que involuntariamente. Os diversos modernismos, as vanguardas artísticas históricas, sem dúvida mais abertas à mulher e a outros costumeiros excluídos das artes até então, ainda eram manifestações mobilizadas a partir de condições econômicas favoráveis. Concordo, Saulo, com quem disser que a desigualdade econômica, que só piorou ao longo do século XX, não invalida a energia pulsante das obras daquele tempo, mas não deixo de sentir, diante disso, um mal-estar.  A literatura que falava em sair dos casulos de prosperidade era feita dentro deles e falava de mundos dos quais não participava. Tem algo de melancólico nisso. E no final das contas esse panorama se associou e muito a todo o aspecto monumental, midiático e comercial que tão frequentemente acaba existindo mesmo em torno daquelas obras que parecem mais inconformistas, iconoclastas, transgressoras, anticomerciais.
Por muito tempo foi inimaginável que as gentes das margens pusessem em ato uma voz literária. Ultimamente isso tem mudado. As mulheres, os pobres, os outros do defasadíssimo olhar branco-hétero-burguês-liberal-europeoide, têm escrito suas escritas, com todas as contribuições do que a experiência traz ou procura. Em vez de terem porta-vozes, decidiram ter voz, o que por si já é muito foda. Apesar de que é difícil ter voz própria nesse mundo que tem donos escrotos e escravos de montão, muita escritora e escritor tão tentando isso. Daí que vai ficando disponível a eles, talvez, um poder de decisão sobre a permanência do que você e eu gostamos na literatura. Talvez essa inquietação por falar e pensar diferente do comum, do conveniente, talvez o direito ou mesmo a vontade de divergir, de não precisar ser parecido, percam intensidade. O mercado e as grandes mídias comerciais seduzem muito. Talvez essa gente que começa a falar e ganha gosto nisso não queira mais produzir pensamento e/ou linguagem deslocadas, não queiram ir além de contar suas dores e suas exigências de um jeito conciso, o que não é recriminável, de modo nenhum, dizia. Por exemplo, escrever um livro para denunciar maus-tratos de um macho escroto, e dizerem: pronto, eis a literatura, sem que haja necessariamente preocupação em levar a linguagem ou a fronteira entre o eu e o outro ao limite. Cada grupo vai dizer o que é literatura, mesmo que isso esteja longe das minhas escolhas ou das suas. Como alguém poderia legislar que a literatura deve ser assim ou assado? Ela será o que fizerem dela. Quanto menos normativismos, melhor.
O que não significa, continuava Mariana, que eu preciso gostar do que não quiser.
Me interessa uma literatura produzida por vozes dissonantes, mas que também, como o pessoal das modernidades sucessivas ao longo do século XX e já no XXI, não recuse bagunçar a linguagem e as formas de ser corpo e mente. Que não recuse os impasses, os problemas, as crises, os sentimentos extremos, as perturbações. Que consiga atravessá- los, experimentá-los. Que veja ou sinta a beleza que pode haver na nessa falta de resposta chamada “vida que segue”. Gosto muito da Carolina Maria de Jesus, tanto porque ela é um exemplo admirável, empolgante, como porque, na escrita dela, ela tenta às vezes fabricar um tom formal que depois perde, talvez involuntariamente, e é aí que esse texto ganha força para dar a pensar o humano e os poderes loucos de suas palavras e gestos. Carolina bota a si mesma e aos outros pelo avesso, diz aquilo que talvez ela não gostaria de dizer, mas que a torna tão complexa e viva; a mesma coisa com seus vizinhos de favela, que ela às vezes quer descrever como incômodos, mas que são, por isso mesmo, tão atraentes, convidativos. Enfim, o que vai aí são minhas fascinações de leitora, porque da vida fodida na favela, por exemplo, eu não sei nada. Livro pode ser bom, quem sabe, para que a gente saia dele e comece a reclamar mais, a gritar alto, a jogar pedra na cara de pau do governo, da iniciativa privada, do caralho de asa. Bora ser black blocs!
Adorava o jeito de Mariana. A gente se conhecia há alguns anos. Durante uma época, passávamos boa parte do nosso tempo livro juntos. Era terapêutico para os dois.
Éramos uma comunidade, uma cidade. Minicidade, que seja. Espíritos livres (já que, por exemplo, não levávamos nem Nietzsche, nem ninguém ao pé da letra). Mariana usava óculos, tinha o cabelo bem enrolado, comprido, e era obesa. Rosto lindo, conforme a gramática normativa da beleza em uso nessa nossa sociedadezinha. Olhava para todos os lados o tempo todo, falava de todos os assuntos que conseguia. Às vezes, se calava e ficava longos minutos distraída, olhando para lugar nenhum ou com um contorno de tristeza no olhar apontado para baixo, rosto levemente contraído. Há alguns anos, antes da obesidade, namorara uma garota que ainda amava. Uma mulher bonita, esperta, audaz, dizia. Parece que a via como alguém infalível, absurdamente admirável, a tal amada conseguia lhe injetar essa imagem, mas não a amava, ao contrário de Mariana, em que o sentimento era extremo, ignição de uma dependência sofrida, constrangedora.
Ela teve que se livrar da namorada manipuladora, de algum jeito que não chegou a comentar, e assim ia levando a vida. Nossa amizade não era à maneira inglesa, sem confidências, como entre Jorge Luis Borges e Bioy Casares. Ela me falava às vezes de sua princesa mofada, e eu, de que até os 30 não me relacionara com ninguém, já que nem saía de casa (um dia eu conto como foi isso). Nos cinco anos seguintes, tive só desencontros: só amava quem não me amava ou quando não me amavam. Depois, não tivera praticamente mais nada. A última garota que amei, Tália, hoje namorava outro, e eu ainda pensava nela todo dia, como se isso fosse uma previsão favorável do futuro. E Mariana com isso? Ela ria, debochava, mas de um jeito que não conseguia irritar ou chatear mais: dê seu jeito, safado. Te vira! Eu ria também. As gargalhadas eram um refrão das conversas.
O humor de Mariana combinava com o meu. Irônico, debochado, sarcástico. Os dois antifofos. Humor do tipo que, se outros escutassem, diriam: “ai, credo! Que horror!”, o que só o tornava mais engraçado para nós. Nada de zombar da fragilidade alheia, era mais uma falta de solenidade com a vida, com a morte, com a alegria, com tudo o que era dor e gozo. Era a melhor definição de leveza que eu podia conceber, mas que precisava, que nem ela dizia, de couro grosso. Quando eu reclamava de algo, ela respondia, com um ar de deboche disfarçado que eu adorava: se preocupa não, quando morrer, passa. Não éramos muito o tipo de pessoas que encontrava semelhantes onde chegasse. Sabíamos que éramos fora da receita, e nisso tinha um caroço de incômodo: cadê mais gente que nem nós? Dois desempregados, ou vivendo de empregos desvalorizados, como professor temporário ou auxiliar de biblioteca. Não que fôssemos únicos, originais: a turma dos excluídos de qualquer tipo é a maior panela que existe.
Ela falava muitos palavrões. Soavam elegantes em sua boca. Às vezes sumia por dias, não atendia a ligações, mensagens. E reaparecia, o mesmo jeito ágil, a mesma dureza gaiata, os mesmos farelos de tristeza na imagem que dava de si. Eu a chamava às vezes de minha mestra ou minha mentora, principalmente quando ela parecia estar pensando em coisas que a roubavam do passo. A réplica me fazia bem, e acho que a ela também: deixe de ser besta, mané. Ou: crie jeito de gente, seu café-com-leite.
A anarquia podia reinar, tomar conta de tudo, só porque existia por algumas horas num recinto ou durante um passeio a pé por algum trecho transitável da cidade, pelo bairro de terrenos baldios. Mariana precisava caminhar, e eu temia que fosse para longe sem voltar. Parece que os medos preveem o futuro. Implacável, sempre com uma resposta engraçada, áspera e suave no bolso da fala, Mariana parecia ter um tipo de fragilidade que transparecia no cuidado ao caminhar, no jeito de olhar a rua antes de botar o pé além da porta. Ela precisava ir. Éramos uma comunidade, um povo, um povo mínimo. As melhores coisas às vezes são mínimas. Quem precisa ir, acaba indo, e isso quer dizer que consegue ousar, virar o jogo, botar pra quebrar, chutar o balde, meter o louco. Eu tinha uma fantasia eventual ou consolatória de ir embora num navio, fazer qualquer trabalho e usar as lembranças das aulinhas do curso de inglês para se fazer útil a bordo. Pois a espertinha furtou minha ideia e lá foi ela. Na despedida, a gente foi prum bar, tomamos todas, cantamos músicas de dor de cotovelo. Quem disse que a gente não se dava o direito sublime de ser clichê? Um dia ela não estava mais à vista. Estava agora em todo lugar? Mariana é quem escreve esse texto, ou uma voz anônima que, enquanto escreve, toma corpo de pessoa, de multidão. Eu sou personagem dela e o meu nome de autorzinho é uma ficção que não cabe no nome de Mariana. Eu sou um tipo um heterônimo dela, que me disse por fim: tu tá vivo, acha uma rota, que o rumo cego também é teu. Mariana marcou um trecho disso que posso chamar de juventude, isso que está acabando e dando lugar a outra coisa que precisa vir.

Carnal

Como se eu fosse deus, eu me criei a mim mesma, com o poder da imaginação.

Levei um tempo reconhecendo o corpo antes do primeiro toque.

“Sexo é na cabeça e é solitário, boy”.

Jamais esqueci Uma Flor de Dama, um texto do Caio Fernando Abreu, interpretado por Silvero Pereira, num monólogo brutal.

Mas mesmo deus, vestido de poder e glória, deseja beber o leite que escorre da carne.

Tudo isso é simples e natural.

É a vida acontecendo, escorrendo pelas pernas.

É com presença que se goza. E só se pode fazê-lo estando viva.

Faço do meu gozo um ato de resistência. Estou viva, logo gozo.

Me investigo, exercitando os sentidos. Toco com a ponta dos dedos o clitóris, sinto o gosto, o odor. Sinto, e o sentir é de quem está viva.

Há muitos dias isolada, o desejo cresce, pulsa entre os dedos.

Normal.

Sou carnal. Tenho fome.

 

Coisas de Tempo e Vento por Marcelina Acácio.