Mel e fel de respeitar

                                                                                                                       Por Indyra Gonçalves

Respeitar é uma prática difícil. É um exercício que exige olhar para si mesmo e olhar o outro. Leva tempo para aprender a respeitar, sem nunca chegar a perfeição (na minha opinião, ela não existe em nenhuma situação. Também é uma condição de opressão). É doloroso ao mesmo tempo em que é libertador.

Dos aprendizados e das vivências que a vida tem me dado, o respeito é o mais complicado de colocar em prática. Naturalmente, temos o instinto de querer moldar, determinar e achar que a nossa verdade é a verdade certa para viver a vida (será que que existe uma certa?). Grande engano. Aliás, um engano que nos coloca no lugar do opressor, porque assim como quem quer nos impor suas preferências, fazemos o mesmo com os outros quando impomos as nossas sobre eles. Com respeito criamos trocas. Construímos relações. Possibilitamos crescimento.

Lembro de ter lido um desabafo da atriz Taís Araújo, atuante na defesa dos direitos das mulheres e do povo negro, além de outras bandeiras das minorias, sobre a preferência de sua filha por bonecas e princesas. Ela descreveu como “parece piada” que a filha aja de maneira contrária ao que ela defende. Na fala da atriz foi possível sentir um pouco da sua falta de compreensão de tal prática e também um tanto de desespero pelas escolhas da filha.

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Tradução: silêncio e respeito​
Ao mesmo tempo em que a atriz se via naquela situação contrária ao que defende, ela também falou da importância de respeitar, aprender e ensinar com tudo aquilo. Eis a grande chave dessa nossa passagem por esse mundo, o respeito.

Amar e estar perto daquilo que parece com a gente é bom e fácil. Afinal, todos temos um pouco de Narciso, somos auto admiradores do que somos e temos, onde o espelho é o melhor e mais fiel companheiro. Respeitar entra como a quebra do espelho ou, pelo menos, um olhar mais amplo do que a própria imagem. É complicado. É difícil. Exige se reinventar.respeito 4

E é sobre esse processo de se reinventar que escrevo. Desejo colocar para fora esse sentimento de confusão entre teoria e prática do respeito, além de minha vontade de se reinventar. Na teoria, respeitar é algo simples. Você convive, fica perto do outro, mas sempre respeitando as escolhas dele. Sem julgamento, sem colocar a sua verdade como absoluta, respeita. Na prática, a vontade de moldar grita. E falar não é assim, mais sim, dessa maneira. De mostrar que alguém está errado e que você está certo. Daí, começa o duelo. Porque entender os desejos do outro é difícil. Porque antes de entender o outro, não nos permitimos nos entender, nos respeitar. Então nos perdemos.

Há sofrimento no processo de respeitar. Porque ele é doloroso. Seria incrível se a gente pudesse receber uma receita, como aquelas bem simples de bolo, dizendo a quantidade, o tempo de preparado e os ingredientes certos para respeitar os outros. Para nos respeitar. Mas não existe. Respeitar é como a maior parte de tudo que acontece na vida, você descobre vivendo. Observando. Testando. Admitindo.

“Mas eu o (a) amo”, “É difícil não falar minha opinião”, ”Eu sei que ele está escolhendo errado”. É difícil não reagir, não sofrer, não ficar desesperada. Mas respeitar tem dessas coisas, mesmo que você possa estar certo em alguns conselhos ou avaliações, respeitar é uma importante maneira de ganhar confiança e de também receber respeito.

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Sim, sofro para respeitar, mas o bom de construir respeito é que os laços e diálogos são fortalecidos. A partir desse lugar há uma relação de troca, uma abertura para conversar, uma comunicação que corre poucos riscos de ser mal interpretada. Posso te mostrar minha opinião e ser ouvida como alguém que é respeitada e que pratica o respeito. Da mesma maneira que ouço sem que me sinta violada.

O respeito é uma transformação nas relações. É um caminho aberto. É a construção de espaços com diversidade. É a celebração de diferenças que convivem, se reinventam e se encontram em um espaço comum, de igualdade, mesmo sem semelhanças.

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Dou por mim

Texto de Alana Girão de Alencar – Poeta e Psicanalista
Todos os dias, dou por mim a acreditar, como dizia Lacan, que a arte transmite um saber que se antecipa, e assim, rendo-me inevitavelmente à poesia que parece denunciar de forma escancarada a insensatez que estamos assistindo, vivendo e sofrendo na política do nosso país. “Alguma coisa está fora da ordem”1 e, indiscutivelmente, a nossa “piscina está cheia de ratos”2. E, lamento, do que vejo: uma histeria desenfreada a apontar discursos perfurantes, como se houvesse a possibilidade de instaurar a culpa do caos na própria ausência, projetando soluções partidárias como se a estrutura perversa obedecesse ao regime democrático. Sim, Cazuza, nos resta “pedir piedade… pois há um incêndio sob a chuva rala, somos iguais em desgraça”3.
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Sigo lendo e relendo matérias críticas, soterradas de desabafos, sobre políticos, ministros, juízes, denúncias, operações, golpes, injustiças e tudo o quanto importa… e, de maneira não menos surpreendente, sempre me deparo com a conclusão lógica de ficar cara a cara com a proporção desmedida do nosso desamparo. Rasga-se a Constituição, burlam-se deveres, abusa-se de direitos, corrompe-se a esperança. Nosso circo de miséria, agora, dilata a olhos nus, nos acorrenta… nos põe aos sobressaltos de duvidar do futuro. Raul Seixas já havia alertado “que sempre houve ladrões, maquiavélicos e safados”4, só não previu por quanto tempo prolongar-se-ia esse “hoje em dia” em que “dá no mesmo ser direito que traidor. Tudo é igual, nada é melhor”5.
Num desses textos, como de espanto, li que “Marielle é um cadáver fabricado”6, e de impulso indaguei sobre as armadilhas construídas pelo arcabouço das palavras. Atirar fábulas em histórias reais, sofridas, de minorias que gritam queixas de uma sociedade adoecida, me parece despencar de qualquer bom senso rumo ao desrespeito pungente. Marielle, antes de ser cadáver, era gente, voz… E, ao passo que os passos seguem, vozes se calam, medos florescem, cordeiros endiabrados assumem o controle anárquico. Tudo às claras, sem vergonha na cara, sem pudor… sádicos gozam como se houvesse triunfo. Receio ter chegado ao tempo em que a migalha tida como luxo serve de teia ao compartilhamento da dor dos humilhados.
Não é à toa que imagens de Oscar Maroni exibindo sua natureza cruel voltam a macerar meus pensamentos. Um libertino vulgar angariando mérito por patentear a falência da lei. Ele não estava só. Havia para quem direcionar o seu olhar oco. Havia para quem responder todo esse descontrole político que enfrentamos. Estamos embarcados no Metrô Linha 743 sem que tenhamos nos dado conta. Sem que saibamos em que parada descer.
E assim, em Pessoa, sigo questionando: “As injustiças da Natureza, vá: não as podemos evitar. Agora as da sociedade e das suas convenções – essas, por que não evitá-las?”

O lugar da dor

Por Indyra Gonçalves

A dor é um negócio que todo mundo sente. Seja na cabeça ou na alma ela está sempre ali. Ela está presente como todo o resto. Ela existe como o amor, a felicidade, os abraços. Mas é sempre estranho falar sobre a dor e, especialmente, que ela tem um lugar em nossas vidas, às vezes diário, passageiro, mas presente.

A dor existe para nos dizer que estamos vivos. Mesmo que pareça complicado entender dor como vida, mas ela é. Ela tem um lugar importante, mas desprezado, em nosso cotidiano. É como diz o ditado, mais se aprende com a dor do que com a alegria. Porque a dor é direta ou nem tanto, mas ela incomoda e faz querer solução rápida. Ela vem como um balde de água fria em um embalado e gostoso sono debaixo de um edredom quentinho. Às vezes, ela nem é tão direta, que deixa você relaxar só para poder te acordar a cada cinco em cinco minutos e avisar que está ali.  

Falar da dor e desse lugar que ela ocupa é difícil. É difícil falar que se sente dor. Estamos acostumados a guardar ou disfarçar a dor. A gente chega a substituir a dor, porque não fomos acostumados a senti-la. Na verdade, a gente nem sabe como sentir. Mesmo quando ela apertada muito, quase que sufocando tudo, a gente só quer que passe. Mas a dor faz parte da vida. Ela é uma etapa ou várias que vão aparecer ao longo dos dias de maneiras diferentes. Em mim ela sempre parece maior, mais forte do que nos outros. É comum sentir assim. Mesmo que a dor seja  por causa de um acontecimento coletivo, onde todos sentem doer, em mim sempre parece doer mais. A dor tem dessas coisas, porque ela traz questões, inquieta, existe.

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É impossível saber. Não vale a pena tentar competir. A dor não cabe em um dosador. Ela apenas existe. A dor mora no silêncio, na ausência, na distância. Em doses parceladas em vários dias. Na partida antecipada. A dor mora dentro de si mesma. É quando achamos que ela se acalmou, que ouvimos ela gritar. A dor é uma maneira de pedir ajuda. Ela é autoconhecimento também. Em alguns casos, ela existe para colocar um fim no que um dia foi amor (ou abuso disfarçado de amor). É como fala a letra da música Angra dos Reis, “é uma dor que dói no peito”, cantada na voz do Renato Russo (por favor).

Acredite, esse lugar de dor tem vida. Tem arte. Explosão. Medo. A dor dói, mas nos movimenta. A perna está machucada, mas tem um leão atrás de você. Você corre. Ou, pelo menos, você tenta. Ela dói tanto que também paralisa. Mas existe. É presente. É passado. É futuro. Toda hora dói. Dói o coração partido na adolescência. Dói partir. Dói enterrar o filho. Dói ter medo. Dói. A dor está vida. Nos pedindo para correr. Nos fazendo parar. Ela está. Ela é branca, preta, amarela. É intensa. Suave. Ela é dor. E em você, o que dói? É físico ou na alma?

Escolhi deixar doer por um tempo. Não sei se a alma ou a carne, mas a dor se faz presente. Ela me inquieta. Dias. Noites. Estou analisando a dor. Doía mais antes ou dói mais agora? É uma dor parcelada ou foi um banho de água fria? Está confusa. Está serena. Mas dói. Essa é a hora de ter medo, acredito. Deixar as lágrimas escorrerem. Respirar. Inspirar. Qual remédio é o mais indicado? Tudo vai depender qual é a dor da vez. Talvez um abraço, que parece curar muitas dores. Tem perdão, que cura dores que já viraram mágoas. Tem silêncio. Mas ainda não sei de que dor se trata. Acho que seja daquelas difíceis de passar. Daquelas que já moram com você, mas só aparecem de vez em quando.

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Dor é autoconhecimento. É um teste, como aquele que você sempre faz quando se olha no espelho. Ela reflete algo sobre você, seu corpo, suas frustrações. Ela te cobra mudanças. Faz você reduzir o ritmo. Ela faz você expôr a sua alma, como água transparente. As suas dores dizem muito sobre você. Sobre as noites em claro, sobre o amontoado de silêncios. A dor tem voz. Ela quer falar. A dor lembra. Ela machuca enquanto você não perdoa a você mesmo. A dor se alimenta de culpa, do medo, da incerteza. Ela também te deixa forte. A dor mostra que você está vivo.

A dor precisa de espaço, não o tire. Ela precisa fazer parte da vida como engrenagem para avançar, para refletir. O tempo sabe qual o tempo da dor. Não se apresse. Não a camufle. Deixe doer. Deixe sangrar. A dor é necessária. Ela passa da mesma maneira que chega. Não se obrigue. A dor é vida e ela também sabe curar.

EVOÉ! – Um Grito de Evocação

Eis o nome do primeiro álbum do cancioneiro Daniel Medina, artista intrigante que tem ao seu lado uma banda inteira. Começo falando da banda, pois os sons propostos e executados por Saulo Duarte (também responsável pela produção musical), Bruno Rafael, artista de uma bela liberdade em viagem sonora, Igor Caracas (transforma-se em um gigante com sua bateria e manda ver em passos e compassos), o tecladista viagem nos remete a outro espaço-tempo (perdão por não recordar seu nome, se alguém souber manda a pesca).
O álbum conta ainda com a participação do talentoso Victor Colares e voz forte de Juruviara, que junto com Daniel Medina emociona cantando “Boi Cidade”.  No álbum há ainda canções mágicas como  “Lágrima de Índio” (que canto para ninar Ana), ou a forte voz de Medina ao cantar em tempos como o que vivemos que ; “apesar nos perigos, nós estamos vivos, nós ao vivo…”
No álbum há ainda a chiclete “Cantar Vitória”, que em breve seremos presenteados com clipe novinho.
Evoé Medina!Por se manter em pleno fluxo de criação, suas obras são especiais e marcantes, repletas de emoções de Fortaleza e a adaptabilidade de suas Dunas, mas que se mistura com gostosura com a urbana São Paulo, assim percebemos Evoé! que se encontra em todas as plataformas digitais. Segue link YouTube https://www.youtube.com/watch?v=nrMcd_Z7NoI

Conversamos com Medina aqui no Lugar ArteVistas e que delicia de papo.

http://lugarartevistas.com.br/ceara

#arteondeestiver #tja #gratavida #danielmedina #vento #terra #simborala

O tempo não é para amadores

 

Indyra Gonçalves

O tempo não é para amadores. Ele passa rápido demais, sem a possibilidade de você poder parar ou voltar. Em sua passagem, ele só parece acelerar. Ele é implacável e compacto. Muitas vezes cabe dentro de um sonho de uma criança, é intenso na vida de um adolescente e curto na juventude. É quando a gente cresce, que entramos no mundo dos adultos, que o tempo desaparece, que ele voa.

Com os anos, a gente aprende a fazer mágica com o tempo, porque não se pode apenas passar por esta vida sem plantar, sem amar, sem sentir. Daí, começa a briga com o tempo, que fragiliza o corpo, que aumenta as responsabilidades, que sufoca o peito com tanto compromisso. E a gente se queixa porque não tem tempo, ou porque já passou o tempo ou porque está ansioso com o tempo que ainda vem.

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O tempo também é cenário de saudade. Ele constrói os mais saudosos enredos de querer voltar, de estar com pessoas queridas que partiram. O tempo também cura. Ele acalma corações, enlouquece quem o espera. Ela dá oportunidade para recomeçar e fechar ciclos. O tempo traz medo, coragem, nos desafia, nos deixa perdidos. Ele brinca, acontece, mas ele passa e passa rápido demais.

Esses dias, encontrei um baú, que considero um dos símbolos do tempo onde podemos guardar, assim como em uma memória que é palpável, um punhado de lembranças de um tempo em que o tempo parecia mais devagar. Ele foi presente de um dos meus aniversários da adolescência, onde coloquei cartas escritas à mão, com selos colados depois de passar a língua, cheias de adesivos coloridos, letras caprichadas que falavam sobre amizade, saudade e amor. Tudo de um tempo em que a gente tinha tempo para caprichar, para expressar, para parar e ler longas histórias de um cotidiano comum, simples.

Ah, seu Tempo, como você mudou as coisas. Como revirou tudo de ponta cabeça. Como passou. O que você me deixou? Agora estou sempre com presa, sem tempo para escrever sobre o banal. Sem tempo para viver o simples. Não tenho tempo de me reconhecer, porque você corre demais e eu não consigo pegar você.

Cazuza já dizia que “o tempo não para”. O que é bastante assustador, porque há tempos em que precisamos parar, respirar, recomeçar. Mas o tempo não para. Ele nos arrasta com suas mudanças, nos alivia com seus remédios, nos convence a tomar decisões, a lutar, a seguir ou a desistir. O tempo é rei e sabe disso. Ele também é medo, porque nem sempre conhecemos a caminhada, porque também temos receio de sofrer outra vez.

Mas o tempo tem também o papel de ser libertador. Ele nos faz deixar em seus caminhos mágoas que nos causaram dor. Ele nos faz lagarta para poder nos transformar em borboletas. Em cada novo caminho nos ensina, nos mostra, nos fortalece. O tempo entende nossas angústias. Ele sabe de tudo o que nós passamos. Muitas vezes age como um bom e velho amigo que tem o espírito acolhedor.

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Tradução: Querido passado, obrigada pelas lições. Prezado futuro, eu estou pronto.

O tempo também se precipita. E vem de uma vez sem freios, sem avisos prévios. Ele nos mostra uma realidade que não aguardávamos tão cedo. Ele diz a verdade em segundos, tira o chão, enlouquece. São lágrimas. São dores. São medos. É silêncio. Daí, ele passa por um julgamento. Vira réu de um turbilhão de sentimentos. “Ei, seu tempo, vá com calma, que a minha alma não te esperava devastador assim”- alguém chama atenção do tempo. Outro questiona: “mas já era hora de você chegar? Não foi o que a gente combinou”. Pode reclamar, espernear, mas ele chega, passa, vai e vem. Ele é o senhor de tudo.

Às vezes, o tempo me assusta. Ele assusta você? E se não der tempo viver? E se não der tempo amar? E se não der tempo dizer ou aprender? “Ah seu tempo, por favor, vá mais devagar. Ainda preciso ver meus filhos crescer. Ainda preciso viajar, conhecer, me perder, me reencontrar. Ainda preciso me perdoar”. Será que ele te ouviu? Não tenho respostas, o jeito é caminhar.

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Time is money, my dear (Tempo é dinheiro, minha querida) já dizia o ditado. E quanto custa seu tempo? Ele vem com abraço? Tem devolução? Podemos parcelar os melhores momentos e passar mais rápido aqueles em que sofremos, com o peito ferido? Seu tempo atende qual negócio? Quais sonhos você já pagou com seu tempo? Você já “perdeu” tempo? O tempo também tem preço, consequências e prazo de validade.

De vez em quando a gente entra nas máquinas do tempo e deixa que ela nos leve sem destino, sem esperas, sem ansiedade. Estou confusa, seu Tempo. Não sei em que tempo estou. Será que no tempo de me perder? Ou será de encontrar? Estou no tempo de amar ou de recuar? Estou no tempo das flores ou dos espinhos? De chorar ou de encarar? De ficar ou de partir? Estou com medo de errar. Às vezes eu quero voltar, porque é mais seguro um lugar que já é conhecido, mas eu não quero parar. Ah, seu Tempo, vá devagar. Minha mente anda confusa, mas livre. Tenho receio de não parar de voar. E se eu não souber mais voltar, em que tempo vou ficar? Deixa que o tempo sabe o que faz. Que tudo tem tempo para acontecer, desde que esteja sendo plantado algo no presente. Falam ainda que o tempo nunca erra, que sabe a hora certa de tudo acontecer. Ele oferece as chegadas e enche corações; mas também traz as partidas, porque diz ser necessárias. O tempo sabe das coisas.

Uma tarde de descobertas no Museu

Havíamos acabado de fechar quadro de gravações para esta temporada da revista eletrônica cultural Lugar ArteVistas. Começamos a pesquisa e de cara chegamos à Av. Luciano Carneiro, por onde todos que viveram UFC e UECE, ou mesmo só o amor pelo Benfica deve ter passado algumas vezes, nos mais diferentes meios de transporte.

Eu passei muito por ela, mas nunca até este dia havia me perguntado quem haveria de ser o homem que nomeia a avenida. E quando coloco no Google, a primeira surpresa positiva, este homem tem sua obra e história exposta no Instituto Moreira Sales, um desses lugares que quando conhecemos respeitamos. Daí de cara a curiosidade aumentou, e muito.

Quem foi Luciano Carneiro? O que representou de nós? Até onde chegou? O que retratou? Você sabe? Se souber de alguma história sobre ele, nos conte por favor, queremos saber. Pois foi ao descobrir um pouquinho sobre o homem Luciano Carneiro e sua história como fotojornalista, que começamos a mudar alguns planos. E eu que na faculdade tanto estudei a revista Cruzeiro, nunca soube que era também feita por um cearense.

Em 1948, ingressou na equipe da revista O Cruzeiro, no Rio de Janeiro. Entre 1947 e o início dos anos 1950, a produção fotográfica de O Cruzeiro sofreu uma consistente inflexão em direção a um fotojornalismo mais humanista e engajado. Foi concretizada por fotógrafos como Luciano Carneiro, José Medeiros, Flávio Damm, Luis Carlos Barreto, Henri Ballot e Eugênio Silva, que passaram a integrar a equipe da revista nesta época, trazendo para as fotorreportagens de O Cruzeiro uma maior ênfase na objetividade e no caráter documental e jornalístico. Luciano Carneiro atuou como correspondente internacional de O Cruzeiro, realizando reportagens sobre a Guerra da Coreia, a vida no Japão e na Rússia, a África de Albert Schweitzer, o Egito de Nasser, a Iugoslávia de Tito, a Revolução Cubana de Fidel etc. Além disso, realizou matérias no Brasil sobre jangadeiros, posseiros, a seca no Nordeste, a herança do cangaço, as lutas estudantis, entre outras, e diversas matérias reunidas, em que revelava suas influências e modelos associados à fotografia humanista do pós-guerra praticada por fotógrafos como Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, Robert Doisneau e W. Eugene Smith, entre outros.”  (https://ims.com.br/2017/06/01/sobre-luciano-carneiro/)

Dessa descoberta o contato com o Museu da Fotografia de Fortaleza, inaugurado em 2017, para sabermos mais sobre as exposições “Na Linha de Frente” e “Norte/Nordeste” e logo estavamos falando com Fernanda Oliveira. – Aqui sentimos amor por pessoas acessíveis! – Na sequencia o telefone toca e é Lara Veras, responsável pela assessoria de imprensa do Museu, com mil sugestões e um sorriso na fala que somada a nossa empolgação gerou a marcação deste papo. Conversariamos no mesmo dia com Fernanda Oliveira e André Lionh.

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Museu da Fotografia de Fortaleza – Vídeo

No dia marcado, uma sexta feira, lá estávamos, as 14:30 h/min e descobrimos que André não conseguiria chegar para o papo, que foi remarcado para domingo. Assim mudamos tudo e propusemos um tour pelo Museu da Fotografia, com Fernanda. No começo todos ainda um pouco travados, mas depois do decimo quinto passo, o papo pegou no tranco e o Museu nos surpreendia a cada novo andar e experiências compartilhadas. Da portaria ao terraço inúmeras histórias, sensações, descobertas e sentimentos!

Aqui estamos em estado de amor pelo Museu da Fotografia de Fortaleza.

Na equipe de gravação: Henrique Kardozo, Tiago Lima (imagens) Raisa Azevedo (Redes Sociais) e Roberta Bonfim (produção e apresentação). Edição de Crislânio Brandão.

Gratidão!

#arteondeestiver #artenomuseu

 

 

Pode ser que sejam os hormônios…

Mas…

Quando reflito bem, percebo que os pensamentos, as percepções, as observações e os quase limites já estavam presentes, o que por vezes me faz crer que seja mais possível ser uma questão de prioridades.

Mas…

Questiono essa possibilidade quando tenho muita vontade de ir a um lugar e me paraliso para evitar ter de explicar o que nem sei se serei questionada, mas a real é que rola um pouco de preguiça de ter de dar uma satisfação social ou respirar muito fundo e trabalhar o máximo potencial de diplomacia para de forma elegante e simpática mudar de assunto sem parecer tá fugindo da raia, digo, da pergunta. E por outro lado, me justifico feliz por ter aproveitado para dormir, ler um bom livro ou assistir a um bom filme. Existem momentos em que me sinto absolutamente sozinha, e aí você que me lê e é meu amigo, familiar, pode pensar, ela podia bem chamar… Pois é… Tenho percebido que grande parte dos que me cercam me oferecem mais trabalho para convencê-los e didaticamente lhes mostrar outras perspectivas, e quando consigo tal façanha lembro de Clarice Lispector e seus momentos epifânicos, repletos de força que no instante seguinte já não é mais.

Mas, devem ser os hormônios.

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Ando pelas ruas e lembro de muitas coisas e pessoas, as histórias que nos uniram e/ou afastaram, olho ao redor e exercito assumir pra mim a minha incapacidade de ficar batendo com a mesma pedra no martelo, a real é que apesar de jovem (para atualidade, se estivéssemos no séc XVIII, aos 35  já seria velha, se viva estivesse). Há no caminhar um quê de meditação e tanto se resolve sozinho em mim, quando passo por lugares, provo de sabores ou neste lugar da escrita que agora me encontro, e abro minhas caixas internas, fechadas por tanto tempo. – Preciso escancará-las e analisá-las com o máximo de amor que tenho em mim, em especial o amor próprio, e sim são momentos de muitas emoções, mas como a vida não para e espera que nos resolvamos, é preciso ao mesmo tempo da razão, que me toma e exige praticidade até para perceber e “escolher” emoções.

Mas, devem ser os hormônios…

Me refaço na perspectiva sobre os meus, os tempos nos mudou em muitas coisas e algumas tantas contas foram pagas no caminho e mesmo entendendo o lugar de doar-se (não estou ainda certa se de modo espontâneo, como escolha, ou natural por fluidez), ainda que ame minha louca família, a vida me ensinou desde muito cedo que amar não enjaula, ao contrário. E serei sempre grata à literatura por ter me mostrado que o amor não tem amarras e que sangue diz muito para biologia, mas não tanto para a escrita da vida. E apesar de ainda sentir algum incômodo, tento perceber pelo melhor ângulo quando alguém diz que sou como um outro alguém que não eu mesma em minhas múltiplas possibilidades de ser. Cresci ouvindo que sou 8 ou 80 como se isso fosse um grande monstro e alguma de mim o encara bem assim. E também no caminhar da vida e com ajuda da biologia sou dona de uma voz forte e de uma postura mais dura, que me ajuda na seleção natural especialmente por não conseguir com facilidade fazer parte de uma tribo específica, me criei do mundo, de todas as tribos, dessa tribo que crio em mim e tenho medo de verdades absolutas e polaridades extremas. Temo a violência, mas mais ainda sua banalização, mas…

Devem ser os hormônios!

Hoje vou começar o exercício de andar com caderninho e escrever todas as ‘promessas’ que ouço no dia e daqui um ano estudar as métricas e estatísticas, mas espero que antes de bater as metas entendamos (me incluo, pois não estou certa se faço diferente), que não temos obrigações, não são necessárias as promessas, que não há do que ter medo, além de todos os que já temos e os que nos salvam de nós. E ainda tem os sinais, tenho pensado muito sobre eles e foi a partir deles que entendi que nada é uno. Não nos constituímos de uma escolha decisória e absoluta, mas da soma de muitas de nossas escolhas e ações no decorrer de nossos caminhos e, apesar de todos os esforços, tudo não passa de uma possibilidade e então olho e vivo a vida como uma ficção, e vou assim eu mesma escrevendo esse roteiro de mim, pois é esse o único que posso ter participação. Mesmo nem isso sendo homogêneo, mas a ciência há de explicar, pois eu não.

Há de ser coisa de hormônios.

LA - GNC-131

Há 29 semanas (agora 38) estou com um ser se formando e crescendo em mim e, para que isso possa funcionar pra ele, muito em mim mudou, algumas coisas bem óbvias, outras nem tanto assim, mas da mesma forma que tenho dificuldade de entender quem acha tudo isso uma absoluta magia, preciso assumir que somos bem ignorantes e pouco respeitosos com esse lugar. A mulher grávida não vira nem de longe um semi-deus, mas é um ser em estado de entrega e essa tem me parecido ser uma camada interessante, mas como o modo geral do existir somos também diferentes, assim, mesmo havendo padrões, não há regras, mesmo que existam cálculos, o tempo muda e as coisas se transformam, do modo que os cálculos não resolvem a questão geral da nossa constituição. E não havendo fórmulas, não existe o certo e errado como opositores, mas sim como colaboradores do processo de existir no melhor que podemos de nós. Penso! Mas…

Devem ser os hormônios.

Neste capítulo da minha vida estou em um lugar de protagonismo de mim que além da teoria eu nunca havia antes experimentado, mas ao mesmo tempo o corpo não reage da mesma forma, nem mesmo os tons da fala saem da forma que eu esperava. Quase nada é como se imaginava, mas vou descobrindo novos caminhos para seguir na caminhada e assim entendo o lugar de pensar e agir por outro que por hora não o faz, mas fará, e é importante saber que não tarda e logo a configuração muda outra vez. Se fosse eu um computador, quantas formatações eu teria no meu histórico de vida? E formatações constroem históricos? Escrevo isso, ao tempo que ouço Mozart e penso em comer um torrone…

Devem ser os hormônios.

Há 266 dias ( me encontro em estado de graça, diriam os antigos, eu apenas me sinto buchuda, prenha e um pouco incomodada, dormir se torna cada vez mais uma necessidade e uma dificuldade, já nem sei há quanto tempo não durmo uma noite completa sem interrupções de xixi, cãibras, cólicas, azia, enjoos, gases ou de Clarice Lispector (a gatinha repleta de gatinhosidade). Uma amiga querida logo no início me falou que os enjoos eram resoluções kármicas e eu me apeguei nisso para crer que cada momento mais doideira dessa etapa é para uma resolução outra. Mas, ainda viro o garrafão, lavo banheiros, faxino casa, lavo roupas, tênis e geladeira. Caminho pelas ruas como antes e assumo que essa parada de ter um ser que depende de mim me deixa em um lugar novo de caminhar e observar ao redor. Em síntese, acho que vamos ficando um tanto mais medrosas, talvez, apesar de mais fortes. Te parece contraditório? É…

Devem ser os hormônios.

E apesar de várias ultrassons, onde já é possível ver que ela já tá toda formadinha e tal, não consigo imaginá-la minimamente e nem como algumas mães tive sonhos com ela, e essas coisas. Mas, por outro lado, converso com ela faz um tempo, cheguei mesmo a escrever cartas que pensei que jamais entregaria, agora já é um novo quadro, mas de alguma forma creio que vamos seguir momentos completamente novos para ambas e peço que tenhamos discernimento para errar com amor e acertar com cuidado. Mas, como será? até prefiro não imaginar, o que é outra contradição, pois a gravidez minimizou parte de minhas ansiedades, talvez por ter desapegado de muitas possibilidades. Não sei, afinal…

Devem ser os hormônios.

E só de sondar pensar no futuro, chegam às questões de cunho financeiro, fraldas, leite, plano de saúde, remédios, escola, livros, roupas e a lista só cresce. E os meses em casa aprendendo em intensivão como ser mãe, a opção de ter ou não companhias. O reaprender modos de amarrar o tênis. E minha vida profissional para onde caminhará? E a social? E as viagens que não farei, por algum tempo. A vida mudou e tanto ainda vai mudar, mas nunca foi diferente, sempre esteve em transformação e vim humana para testar e aprender a ser camaleão e me adaptar. Penso que este aprendizado sirva para todos. E em meio a isso ensaio me lamentar por algumas escolhas, mas se não fosse como foi, não seria como é, e como é me parece ser um caminho para mim e vou aprender a trilhá-lo. O que ainda vai ser alterado? Como tudo se resolverá? não sei, penso que nenhum de nós sabe sobre esse tal amanhã, mas….

Devem ser os hormônios.

A gravidez solo não é tão difícil como pintam, penso mesmo, talvez porque me consola que dê menos trabalho que a acompanhada (lógico que existem aqueles caras massa, que foram super bem educados e não bebem de todas as doses do machismo cultural histórico social no qual estamos inseridos, mas ainda é uma minoria). E nos momentos que sinto falta de ter alguém perto, penso em uma parceria sem rosto e personalidade, mas que se faz parceria, não saberia explicar.

Coisas de hormônio, devem ser.

As roupas não cabem, andar coladinha e de barriga de fora me é absolutamente estranho, até ensaio em casa uma saia baixa com uma blusinha, mas ainda não consegui arriscar sair assim pelo mundo, não além da praia. O mar que me acalma e aflige a depender do movimento e o meu momento. Mas apesar de as roupas estarem ficando engraçadas, eu ando me sentindo… – não seria feia, mas… – desinteressante. Esse lugar ‘sacro’ contraditório, pois se pegarmos uma sala com 30 seres sentados e 2 oferecem a cadeira e ambos acima dos 60 anos. Que tempos vivemos? Que tipos estamos nos tornando? O que se pode fazer? Como ensinar esses lugares ao ser que virá? Há, por outro lado, uma enxurrada de informações que dizem coisas que não consigo acompanhar. Como fazer uma triagem? Como contribuir para que este ser possa viver suas fases da forma mais saudável possível? Como doar sem sacrificar? Como sentir sem sofrer? E por que não sofrer? É na lágrima ou no riso que tá o paraíso? Ou no casamento de raposa, ou da viúva? Como sol e chuva e essa busca pelo equilíbrio térmico? Quando ficou paia, feio, vergonhoso, se equilibrar? Porque homens não podem chorar? E as mães porque choram escondidas de seus filhos, se o choro é a primeira língua deles? Será que não se entendem se chorassem juntos? E quem disse que temos de ser sempre fortes? Releio alguns diários e encontros perguntas não diferentes dessas, mas,|a perguntá-las agora…

Devem ser os hormônios.

Há 77 (11)  dias do previsto para este ser sair de mim, tento ajeitar o quarto que será dela, sem deixar de ser ainda meu lugar de trabalho. Vai começar sendo dividido e vamos aprender a nos dividir uma com a outra, como macaco velho, é mais fácil de mudar de tronco, penso que seja essa a razão de termos de nos doar exclusivamente por 9 meses (como dizem), para estarmos mais aptos a aceitar já de coração preparado o ser que o tomará para si. Será assim? Quando me pego minimamente fantasiando, bato com a mão no ar para espantar o pensamento, afinal, sem expectativas, evitarmos a fadiga. Tanta lucidez…

Devem ser os tais hormônios.

E não sei se os amo, ou…

Ou o que?

Devem ser os hormônios.

 

FotosLA - GNC-98

Fotos de Henrique Kardozo para a campanha #barrigasnacidade #arteondeestiver.

As fotos devem ser compartilhadas com as hashtags até o dia 7 de fevereiro. As imagens passarão por uma análise da nossa equipe e também pelo olhar do fotógrafo @henriquekardozo para a produção de um calendário. A melhor foto dará à futura mamãe um ensaio fotográfico artístico tendo Fortaleza como cenário, produzido pelo Henrique. Os segundo e terceiro lugares entrarão no calendário, que será lançado após o carnaval.

No dia 09 de fevereiro, a nossa equipe irá informar as três fotos selecionadas.

Para participar:
– Siga @LugarArteVistas no Instagram.
– Marque três amigas grávidas.
– Poste uma foto sua grávida em Fortaleza, em seu perfil no Instagram com as hashtag #BarrigasnaCidade e #arteondeestiver.

Roberta Bonfim 07 de novembro de 2017.