É de caminho que se vive.

(Fonte: Imagem de 二 盧 por Pixabay)

Hoje eu acordei com um grande insight em minha mente. “Eu preciso apreciar o caminho que as coisas percorrem até se concretizarem”. Calma, eu irei explicar. Mesmo que essa frase a princípio não tenha muito sentido, ela é basicamente o que dá sentido à vida.

Por muitos anos, eu venho repetindo uma ação rotineira em minha vida: “Não terminar o que começo…”. Isso é algo que tenho muita dificuldade em resolver. Sou a mestra dos cursos acumulados, do violão esquecido, dos livros empilhados na prateleira, dentre outras tantas coisas não concluídas em minha vida. Eu nunca tinha parado e observado como esse padrão se repetia, até que sonhos importantes começaram a bater em minha porta e eu não tinha determinação para dar continuidade a essas grandes ideias.

Eu acredito que esse seja um padrão em uma grande parcela das pessoas de minha idade e/ou mais novas. Sou da geração dos anos 90, em que as pessoas começaram a ter uma melhor qualidade de vida e os filhos que nasceram a partir daí tiveram mais oportunidades de estudos e facilidades que a geração anterior, portanto, maiores oportunidades de sonhos, de se qualificar para um futuro bem diferente de seus genitores. Tudo isso em teoria é o certo, mas por que na prática muitos acabam se tornando adultos sem ter feito algo realmente significativo em suas vidas? Algo que preencha sua alma e satisfaça seu Ser? Muitos se tornaram repetidores de ordens, em um trabalho cansativo e estressante, enriquecendo seu patrão e vendo sua vida passar em janelas de escritórios, fábricas e em diversas formas de trabalho repetitivos.

Hoje, aos 30 anos, estou buscando mudar minha vida. Existem sonhos que quero alcançar e fazer a diferença aqui nessa existência. O principal deles é me tornar uma pessoa cada vez melhor e dessa forma poder ajudar aos que estão ao meu redor. Tenho alguns projetos que giram em torno dessa ideia central, porém no último ano, em que esses sonhos começaram a surgir, comecei a identificar uma enorme força de resistência dentro de mim. Um grande medo de atingir meu potencial máximo. E na mesma intensidade que a motivação vinha ela ia embora.

Nos ensinaram a sonhar grande, a ter coisas materiais, a ser o melhor da classe, a ter a melhor formação possível gerando um grande clima de competição em todo lugar que estivéssemos, e isso me trazia uma grande desmotivação pois não é a forma que eu vejo mundo. Mas, não é de competição e nem de fracasso que fala esse texto, fala de caminhos. E onde entram os caminhos em tudo isso?

Não nos ensinaram a imaginar e muito menos a desfrutar o caminho que teremos que passar para obter nossos sonhos. Só nos ensinaram apenas a querer, a desejar algo material ou intelectual. Contudo, não nos ensinaram que para isso ser atingido, é necessário dedicação, tempo empregado diariamente, errar muitas vezes até dar certo e dar continuidade apesar dos obstáculos. Falta-nos persistência, afinal, nada se materializa do nada, é necessário esforço, energia, cuidado e tantas outras importantes qualidades ao se desenvolver um projeto. 

Vejamos o exemplo de uma casa. Para sua construção é preciso começar pelo projeto, depois faz-se a estrutura, levanta-se as paredes, faz-se o acabamento e só então estará pronta para alguém morar, são muitas etapas de construção e tudo isso leva tempo, investimento e dedicação. Te pergunto, qual foi a última vez que almejou algo e imaginou o caminho que isso levaria para se concluir? Eu te parabenizo, caso isso seja rotineiro em sua vida, mas acredito que não é algo comum na vida de muitos, inclusive na minha.

E se ao pensarmos em algo ou ao desejarmos desenvolver algo a gente já imaginasse o caminho que iremos percorrer? Se eu como espiritualista, alguém que quer falar de muitas coisas para expansão da consciência, em vez de sonhar me vendo dar palestra, apenas olhasse para mim e imaginasse “qual caminho devo percorrer para chegar até lá?” Ou quando eu observasse a conquista de alguém e visse que eles concluíram algo x ou y em suas vidas, em vez de me colocar como vítima e dizer que foi fácil para ele, por que não me questionar qual foi o caminho que ele trilhou para chegar até alí?

A gente tem a eterna mania de comparar o palco das pessoas com nossos bastidores. Eu tenho uma proposta a lhe fazer, que tal a partir de agora você começar a admirar os caminhos percorridos pelos outros e por você mesmo? E se isso se tornar o tema principal da sua vida? Talvez você consiga olhar para trás, entender a longa jornada que percorreu e amar o seu caminho. Assim também será mais fácil amar a si mesmo, pois dará valor a cada escolha que fez e te levou ao momento presente. Acredito que essa forma de ver a vida trará muito mais foco e determinação para atingirmos nossos sonhos e ter a força para caminhar por toda essa jornada, que é VIVER!

Com amor,

All Franca

Eu, mulher em formação.

Começo informando que a escrita me corrói, deveras fica adormecida nas minhas entranhas, expelir não é fácil, é quase um aborto de um sentimento atroz. Quero falar ou me libertar desse pensamento. Esse involuntário momento de estar só consigo, traz inquietações. Estou com o olhar internalizado para o meu eu, creio que estou a dar os primeiros passos em busca da minha identidade feminina, é estranho isso? Você deve achar estranho, mas a   famosa frase de Simone  de Beauvoir ” Você não nasce mulher, se torna mulher”, nunca teve tanto sentido para mim nesse  momento da minha vida. Eu, mulher em formação, há tempos atrelo essa minha ausência de identidade feminina ao fato de ter sido privada de uma presença materna forte, efetiva e afetiva. Creio que essa solidão de leito maternal é a pior de todas e a mais danosa para nós mulheres. Construir sozinha as essências de uma fêmea no mundo gerado por energias masculinas, é ardo. E instantaneamente vestimos a pele e a carapuça de crianças e futuras mulheres fortes, uma auto defesa, desesperadora. E nos tornamos plantas carnívoras para manter-se vivas. Mas lá no fundo somos apenas uma criança em busca de um colo, nessa constante auto negação da fragilidade, e isso nos torna tão vulneráveis ao amor danoso. Começo a crer que o amor, não esse ocidentalmente romantizado, comercializado e vendido como fórmula da felicidade. Mas o amor por se só, daqueles que Gibran Kahil diz que nada dá e nada recebe senão de si próprio. Nasce e renasce nas fortalezas. Certeza de si é fundamental para ramificação das raízes desse sentimento. Alma trincada em desalinho atrai seus pares. É na fragilidade que o amor se torna meramente busca de conforto, isso é algo perigoso, a troca se torna entrega cega, e sem querer fomos lançadas nos braços dos predadores, pesado isso, se sentir presa fácil. Mais difícil ainda é aceitar que isso é carência sim, que carregas desde os primeiros passos de tua vida.
.     Às vezes me pergunto se de fato tivesse tido uma mãe comprometida na minha formação enquanto ser mulher, que mulher de fato teria me tornado? Não sei, só sei que a duros passos caminho em busca dessa mulher que quero ser ou que inventei para me salvar. Não me arrependo das minhas entregas, todas foram ingenuamente verdadeiras, e me responsabilizo pelos os amores vãs que atrai, aprendi com cada um deles. A minha certeza que nunca serei igual porque estou em processo de transformação.O amor irá chegar quando eu estiver preparada para recebê-lo.

 Katiana Monteiro é atriz, pedagoga, ArteVista e mãe de namir.

Afeminada de uma quarentena

Imagem de vó.

Todo mundo da minha família é nordestino. Se vieram de outro lugar não me contaram, por isso, estou enviando essa carta ancestral, suja de suor das mãos de muitas que caminham comigo.

Eu me chamo Bárbara Leite Matias, tenho vinte e seis anos, e sou de um sítio chamado Marreco, que pertence a um distrito chamado Quitaíus, onde anteriormente moravam os povos Karyrys- do município de Lavras da Mangabeira, que fica na divisa Cariri e Região Centro Sul, Ceará. Eu sou sensível e bruta.

Eu sempre gostei de estudar e conversar apesar das tantas dificuldades que enfrentei e enfrento por conta da unificação desses desejos, atualmente estudo Doutorado em Teatro, na Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG. Meus pais não entendem direito mass eles me ajudam, como podem. Quando passei, minha mãe me pediu para escrever no papel o nome do curso e o lugar, para se caso alguma visita perguntar, ela mostrar o papel e não ter vacilo com essa alegria.

Eu escrevi o bilhete como se fosse uma carta de amor.

 Quem pariu o nordeste foi uma mulher

O nordeste foi parido por uma mulher. O pai ninguém sabe, talvez filho de estupro de algum português, espanhol ou alemão. A mãe do nordeste é sozinha, criou a cria sem leite no peito e na geladeira. Nordeste é graúdo, alimentado com farinha e rapadura.  A mãe do nordeste disse:

– Nada de arma.

Nordeste obedeceu e não tem presidente como nunca teve pai.

 Quem pariu o nordeste foi uma mulher. Ser nordeste, é ser mátria.

 Para minhas avós e as avós delas

Toda mulher nordestina é um pé de cajarana, de pinha e de pitomba. Somos mais da nossa avó do que das novidades que vemos na internet. Quem são essas mulheres. Onde estão?

Você já percebeu que não era bem “mania” o comportamento da sua avó. Quem são essas mulheres? Pés descalços, coluna firme subindo a ladeira com a lata d’água na cabeça. Quem são essas mulheres que pouco choravam, que lavavam roupas na beira do rio e pegavam peixe com a mão, que faziam almoço para quinze trabalhadores, que plantavam numa terra que não era sua, quem são essas mulheres que foram mãe de vinte, quinze ou dez filhos? Que ficavam por horas de molho no rio quando sua menstruação descia. Que comiam com a mão. Que rezavam com as plantas e tiravam tuas dores com folhas de molho ou falando baixinho. Que sentavam debaixo de uma árvore em prece. Quem são essas mulheres que tão pouco estudaram mas fizeram de tudo pros próximos pegarem somente na caneta?

Onde estão essas mulheres que ajudavam as amigas a parir e juntas enterravam o umbigo da cria? Quem liga pra elas, o que fizemos com elas?

Onde está aquela mulher que sentava na calçada catando feijão que ela mesma plantou?

Como dorme a mulher que apanha do marido por conta da cachaça e que perde o filho pra ela também como uma predeterminação misteriosa?

 Onde estão as mulheres que foram em silêncio amante dos patrões e criaram filhos das senhoras de vestido bordado também por elas?

 Onde estão as mulheres que engomaram roupas alheias pro pão e livro do filho? Quem fotografa a mulher que engravidou aos doze e quando sua filha mais velha fez quinze anos lhe deu um neto para criar? Essas mulheres durante a vida inteira massagearam seu útero no fogão, uma mão sem joias com os dedos assados da brasa, com um brilho escondido nos olhos, essas mulheres sabem pouco do desgoverno desse país porque elas sempre governaram a si e aos seus, sempre seguiram intuitivamente vivas como o sol do nordeste.

Minha vó Albertina poderia governar uma nação inteira de pés descalço e sem calcinha.

Minha Biza Mariquinha criou vinte e sete filhos sem saber o nome do presidente do Brasil.

Bárbara Leite é atriz, performer, professora de teatro e escreve para a cena. Também escreve no blog Lugar ArteVistas às quintas-feiras, em “qual é o seu Lugar de fala?”

O nascimento de um peixe, olhos sobre tela.

Não sou como qualquer pessoa que quando senta-se para escrever, lhe correm palavras com a fluidez de um rio.

A mim elas se apresentam como em ondas, uma após a outra, num movimento de ir e vir, constante.

Esta “coisa” eu não sei para onde vai. Devo admoestá-los!

Talvez fale sobre como um artista com saudades pinta uma tela.

Num dos últimos encontros com o artista Zé Tarcísio, o vi iniciando uma pintura, da sua nova série.

Sentado à mesa de trabalho, e com as ferramentas dispostas sobre ela, ele mergulha o pincel no betume, retira o excesso, e faz um traço no papel em branco, está iniciada a obra. E segue, numa coreografia, da mão com o pincel.

O processo criativo me atrai.

Estou ali, observando-o, e quando ele me dá uma oportunidade (a curiosidade não mata a gata).

A obra vai se fazendo, se mostrando à medida que a pintura acontece, e de repente ele começa a ver a paisagem que está se formando. Nada antes imaginado.

Como repórter plástico, a nova série iniciada na pandemia da Covid-19 traz a saudade da paisagem, vivida pelo artista solitariamente, na sua casa e mais recentemente no seu atelier. É como uma fuga do artista durante o isolamento social.

Zé me disse ainda, que desenhar é como escrever um poema, é como uma música.

Sim, o que se busca afinal, em tudo, é a poesia.

Aos poucos e cuidadosamente vamos retomando o nosso contato, o que nos é uma injeção de ânimo e vida.

“Amar e humor, deve estar em tudo”. Zé Tarcísio, uma fonte inesgotável.

Talvez eu quisesse falar sobre processo criativo e saudade, ou sobre como eu não escrevo mais.

Sobre um peixe colorido, dentro de um tecido gelatinoso, muito fino e escorregadio, que em sonho eu devolvi ao mar, para que ele nascesse, ou ainda sobre a continuação do sonho, olhos sobre tela, uma tela pintada por Cecília Meireles, avaliada em 3.566.000,00, propositalmente manchada por um spray de arte urbana, na cor azul marinho.

Já aí teria muita coisa. Por ora, sinto-me como um peixinho, que precisa voltar à àgua, nutrir-se do que lhe é essencial, para no tempo certo, saltar do útero que lhe gesta, e nadar.

Voltar ao útero seja a nossa urgência, é nisto que agora eu penso.

Na posição fetal, que me é confortável.

Nascer, no entanto, acontece.

Ai, minha mãe! Cuide bem de mim, que ainda não nasci. E depois, de nós, só aquela fotografia de 1989, eu nos teus abraços, sem saber ainda que nascer escorre sangue.

Eu, a criança para sempre impura, nos abraços de minha mãe. Ao fundo, este pé de urucum, da casa de minha madrinha. Este é nosso único registro juntxs. 1989.

Que não nos falte Amor!

Olá, ArteVistas!

Assim, os vejo, pois assim quero ver-me também. Sigo achando que as semanas estão correndo mais que quando tínhamos a chance de estarmos na rua, às vezes quando olho pela janela, também tenho a impressão de que somos os únicos a ainda respeitar o isolamento social, e mesmo assim entramos para as estatísticas dos infectados pelo vírus invisível. Felizmente estamos bem, e tenho fé que seguiremos assim, muito de boas, se comparados aos inúmeros casos graves da mesma. De modo que aqui,  sigo agradecendo.

Nos corres e com a parceria de Marcelina Acácio e Wislon estamos atualizando site e blog, com o objetivo de deixá-los ainda mais graciosos e aconchegantes aos olhos e almas. Seguimos com as live, que na semana passada foram muito ricas em conhecimento, Rodrigo Mercadante, da Cia do Tijolo deu-nos uma aula sobre a relação do teatro com a democracia, Silvia Moura é uma escola de vida que anda e dança, Kiko Alves falou sobre negritude e se compartilhou tão lindamente, na mesma semana em que nos compartilhou aqui neste blog um texto necessário, e Tatiana Amorim falou um tanto sobre o grupo Bagaceira, e deixou claro que teremos novidades em breve. Se não acompanhou, mas se interessa, chega no nosso Instagram @lugarartevistas e abre o IGTV. 

Live com Kiko Alves.

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Live com Rodrigo Mercadante.

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Live com Silvia Moura.

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Live com Tatiana Amorim.

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Hoje retomamos com Rebeca Raso, que aqui também escreve às quintas, com textos de sua pesquisa e trabalho com os movimentos feministas lá da Galícia, vai ser lindo. Na quarta, temos Clara Freitas falando sobre a mulher na cozinha e sobre nosso especial Arte na Cozinha, a quinta promete reflexões e beleza com a Mulher Barbada e se tivermos sorte ela ainda solta a voz, e fechamos a semana num papo fotográfico com Galba Nogueira.

Nesta semana recebemos a notícia de que a nossa querida Allana Peixoto vai se afastar, para trilhar novos sonhos. Aqui seguimos na torcida por todas as suas realizações. E eu arrisquei criar peças, foi divertido e menos bizarro do que eu tinha imaginado, usando o Canvas, claro. hihihi. Feitas todas as peças do mês de julho já compartilhei com todos, tudo com objetivo de ir minimizando funções, pois esta semana tive receio de dar pane no meu sistema interno. E por falar em interno, o quarto episódio dessa temporada de aniversário foi um retorno aos lugares mais profundos de mim. Talvez o mais difícil e mais lindo momento que já vivi na vida e na relação com a Lugar ArteVistas, onde o conceito de ver e viver arte onde estiver, se tornou prática real e gerou alterações internas muito profundas, além de uma visão sobre mim, o outro, este lugar que eu nunca sequer havia suposto possível. E ainda tive a honra de cruzar com tantos ArteVistas iluminados.  Te convido veementemente a apertar o play e seguir até o fim preparado para lindezas.

Uma novidade linda, foi a certeza sobre a atualização sutil da nossa marca, que ganha traços mais parecidos aos da nossa mascote Ana Luna que se autodenomina a bonequinha do programa, e será, é. Um presente de Klebson Alberto, que ainda esta semana vai nos entregar o sonhado manual de marca, caminhos da nossa identidade visual e outras coisinhas lindas que você vai encontrar nos nossos canais de comunicação e de certo vai se encantar.

Nossa nova logo.

No mais, temos livro lindo no nosso site, “De Vento em Poesia”, da nossa querida Marcelina Acácio, tá esperando por você, com poesias necessárias e urgentes. (www.lugarartevistas.com.br) Chega lá, confere e se compromete com a arte de manter essa poeta escrevendo. Ela que escreve às quartas aqui neste blog. Por falar no blog esses dias tivemos colunistas convidados incríveis que nos compartilharam maravilhas. O charmoso e talentoso Gustavo Xavier, que nos fala sobre o Budismo e me deixou bem curiosa, desejando mais textos dele por aqui. E a Mãe de três, Mayanne Andrade, que teve seu texto publicado ontem. E ainda recebemos um texto incrível que ainda será publicado da atriz ArteVista Katiana Monteiro, que entra na última segunda de julho. 

Imagem de divulgação.

O Poço da Draga continua precisando da colaboração de todos nós, seja financeira, com material de higiene geral, e/ou pessoal, cestas básicas, com banners de eventos que estão guardados em algum depósito entulhado e podem se transformar em arte. Se nada for possível, compartilhe esse convite a colaborar a quem achar que pode somar ao lugar que nos ensina tanto sobre resistência e que neste momento precisa que nós somemos a ele, para que saíamos todos da melhor forma possível disso que vivemos. e aqui agradecemos a turma linda que realiza outro movimento necessário, que é o Unidos venceremos, rede de apoio aos trabalhadores da cultura que doou 30 cestas. E mais uma vez agradecer a Associação Anjo rafael pelas 100 cestas entregues, além de tanto mais. Gratidão e sigamos.

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Por fim, convido-os a respirar, tomar muita água, ouvir boas músicas e hoje vou até deixar dica de filme, o documentário Gabo. E até semana que vem com mais novidades sobre os passos e atos desse lugar. E que não nos falte amor. Que não nos falte amor de graça! 

Roberta Bonfim é atriz, jornalista e agitadora cultural, idealizadora e realizadora da revista eletrônica cultural Lugar ArteVistas – arte onde estiver. Escreve às segundas no Lugar a mãe que sou e às terças sobre a revista Lugar ArteVistas.

A dor e a delícia de ser mãe… de três!

Inicio esse texto afirmando que, ser mãe é realmente padecer no paraíso, tenho dito que nunca havia pensado que seria mãe, muito menos de três… 

Em minha casa os denomino como: Davi, o Rei! João, um príncipe guerreiro, desses que estão sempre à frente na batalha, e Marina, uma linda princesa. 

Davi, o Rei! João, um príncipe guerreiro, desses que estão sempre à frente na batalha, e Marina, uma linda princesa. 

Quando fiquei grávida do Davi, aos 18 anos, muito imatura, me veio uma alegria e um medo, afinal, não cuidava nem de mim direito, mas desde que o segurei em meus braços  senti que, naquele dia, nascia também um novo eu. 

Desde então, muitos desafios.. Passamos 5 dias internados até ele ser liberado para casa, lembro-me que ao sair do hospital, em meio a despedidas e agradecimentos às enfermeiras, elas diziam: “tchau, chorona, vai dar tudo certo!”. Sim, eu chorava muito. Foi desesperador saber que aquele pequeno bebê era meu. 

5 anos depois, lá estava eu, durante a festa do Rei Davi, anunciando que ele seria promovido a irmão mais velho; mal sabia ele que ganharia uma priminha também. Bruno, como sempre, fez o anúncio para todos depois do parabéns e eu lembro (dando risadas nesse momento) da expressão de cada um. 

De longe, essa foi a gestação mais tranquila, eu me sentia mais preparada para o que estava por vir, mesmo com medo por saber que não teria minha rede de apoio – Tia Neta, Fátima, Hiá e Ilma – por perto, mas confiante no “vai dar certo”. E, sim, foi tudo maravilhoso! João nasceu forte e saudável em pleno mês de férias, o que me possibilitou ficar o puerpério na casa da minha sogra tendo toda a ajuda necessária. Após 30 dias, voltamos pra nossa casinha longe da cidade e, por incrível que pareça, consegui dar conta do Davi, do João e da casa, sozinha. 

Assim, seguimos firmes e confiantes, até que 1 ano e pouquinho depois, veio a notícia que chegaria uma moradora linda pra nossa casinha. Marina, minha princesa, veio de brinde. Foi desesperador descobrir que vinha outro ser, dessa vez sem nada programado. Pobre Mayane, mal sabia que o desespero dessa descoberta nem chegaria perto do que viria pela frente. Quando descobrimos a gravidez, eu já estava com 13 semanas. A gestação, por sua vez, foi bem tranquila, porém ativa, muito ativa, afinal já cuidava de outras duas crianças sedentas por atenção. 

Pouco tempo depois, soubemos que seria uma menina, o que aliviou bem mais o desespero. Imaginem só a loucura que é desconstruir esses dois meninos, tirar a raiz das brincadeiras machistas, ensinar o importante lugar da mulher na vida deles, e várias outras coisas que luto e acredito para que o mundo seja melhor para minhas meninas, Ana e Marina. (Ana Luna, minha dindinha que amo,  meu coração sente quando falo sobre você. E digo mais, é a menina mais inteligente que eu já conheci, e sempre digo que a vi em meus sonhos antes de ela ser). Foi a partir desse dia que comecei a aceitar o fato de que teria mais um bebê, cuidando de outros dois, afinal, um é pouco, dois é bom e três é demais! 

Já sabia que não daria conta sozinha e que iria precisar de ajuda para quando Marina chegasse. Pelas contas ela chegaria em Abril, mês de aulas, Davi não podia perder, já sabia que não daria conta da prole, nosso puerpério seria em casa, eu, ela, Bruno e duas outras crianças.

Março de 2020, e a Pandemia chega ao Brasil, tivemos de cancelar o planejado chá de fraldas e, nesse momento, bateu o desespero de não saber o que viria e como seriam os próximos dias, nem nos meus piores pesadelos eu imaginava que tudo isso fosse acontecer. 

Por conseguinte, Davi teve férias forçadas e, no início da quarentena, foi para a casa da avó, onde permaneceu por uns 60 dias. Enquanto isso, passei 20 dias isolada antes de Marina nascer.

Chegou o grande dia! 07 de Abril de 2020, nesta manhã não havia nenhum caso confirmado de COVID no município onde Marina estava programada para nascer. No dia seguinte, primeiro caso confirmado. Enquanto eu e Marina aguardávamos alta, João tinha ido passar uns dias na casa da avó, entretanto ela não deu conta de toda a energia do príncipe guerreiro e o mandou de volta o mais rápido possível. Confesso que, a essa altura do campeonato, parece que faltavam dois pedaços de mim devido ao silêncio que reinava nessa casa, este que hoje só vigora após às 21:30h, e esse é o horário que mais agradeço, porque é quando vejo que consegui mais um dia e, cá pra nós, esses dias duram 72 horas. 

João sobe e desce brincando de homem-aranha, quando corro pra tirá-lo da grade, que já foi escalada por ele pelo menos 1 metro e meio em tempo recorde, Marina chora, enquanto isso Davi pede pra fazer uma boquinha e, pá, João já está subindo na cama de cima da beliche e eu corro pra acudir. Preparo almoço, alimento as crianças, hora do banho pós refeição; o sono da tarde nessa quarentena já não existe mais, e no meio de toda essa correria, tenho 30 minutos de sossego quando paro para amamentar. 

Sim, ser mãe é maravilhoso, mas dói. 

Dói saber que o mundo que vivemos é tóxico.

Dói saber que eu preciso fazer deles pessoas melhores, que preciso que eles entendam que o mundo é melhor pra quem estuda, e várias outras coisas que minha mãe e pai já diziam e eu não queria entender. 

Minha casa? É cheia de vida, os enfeites trocam de lugar com frequência, as prateleiras não têm mais livros, meu fogão é gasto pelo uso, meu sofá precisa de mantas, no meu quarto dormem 5 pessoas, a vida vira do avesso, mas no fim de tudo a gente descobre que o avesso é o nosso lado preferido. 

Agradeço muito por todas as pessoas que me ajudaram nessa caminhada, desde o nascimento do Davi até os dias de hoje, foram peças fundamentais pra gente conseguir chegar até aqui, sozinha seria impossível, enquanto escrevo tudo isso, um filme de tudo que já foi vivido até aqui passa em minha mente, e eu só consigo agradecer  por esses três seres incríveis e lindos que a mim foi confiado. 

Roberta, obrigada pelo convite. ❤️

Com amor, Mayane.

Mayane Andrade tem 26 anos, mãe de três e vendedora de tudo e qualquer coisa nas horas vagas, de Fortaleza, mas fugiu para uma vida mais tranquila no Aquiraz

110 anos do Theatro José de Alencar

Sob o olhar de uma habitante do Curso Princípios Básicos de Teatro

Mar menino! Quer dizer que em junho de 2020 o Theatro José de Alencar completa 110 anos? Mas é tempo, né?!

Eu sou Juliana Veras, atriz, diretora, arte-educadora, artista da cena e do pensamento no teatro e na música aqui de Fortaleza, Ceará. Eu sou ex-aluna e professora do Curso Princípios Básicos de Teatro, o CPBT, esse projeto tão lindo sediado no Theatro José de Alencar, nosso TJA. E trabalho junto à Companhia Crisálida, ao coletivo Manada e alguns grupos de teatro do Ceará, com artistas que têm todos um vínculo afetivo muito forte com o TJA, nossa segunda casa.

Para áudio-descrição: Enquanto escrevo, estou sentada no meu lugar de estudo e trabalho, meu quarto, com meus livros, roteiro de espetáculo que estou escrevendo e objetos de inspiração para a criação. Estou usando uma blusa de estampa florida que tem as cores dos vitrais do TJA, que são também as cores da logo do CPBT: preto, azul, verde, amarelo, vermelho, branco.

Estou aqui para falar do CPBT e para isso convido vocês a voltar no tempo e imaginar o ano de 1991. Naquela data, o hoje centenário Theatro José de Alencar, depois de dois anos fechado para restauração, deixou de ser apenas uma casa de espetáculos para se tornar também um centro de formação e pesquisa em artes cênicas. No prédio anexo, onde antes funcionava o curso de odontologia da UFC, a então secretária da cultura Violeta Arraes e sua equipe de colaboradores, idealizaram e instalaram o CENA – Centro de Formação e Pesquisa em Artes Cênicas. Lá foram construídas salas destinadas a oficinas, cursos, residências, intercâmbios, estudos e experimentos artísticos dos estudantes, educadores, artistas e pesquisadores das diversas linguagens cênicas, ou seja, música, canto, dança, circo, palhaçaria e teatro.

Foi nesse contexto, em 1991, que os professores Joca Andrade e Paulo Ess, na companhia de outros colaboradores, iniciaram as atividades artísticas e educativas que deram origem ao CPBT, que, ano que vem, 2021, completa 30 anos de atividades ininterruptas. O Curso tem sobrevivido a todo esse tempo devido ao empenho dos professores, coordenadores, dos funcionários do Theatro, do interesse e importância que a comunidade fortalezense tem dado a esse projeto que foi incentivado por todos os gestores que passaram pela direção do TJA ao longo desses invernos e verões todos.

Joca Andrade, Neidinha Castelo Branco e Juliana Veras no CENA – TJA, 2020.

Atualmente o CPBT atende a três turmas, nos períodos manhã, tarde e noite. A equipe de coordenadores e professores é formada por Neidinha Castelo Branco, que ministra aulas no horário noturno, Joca Andrade, no turno tarde e eu, Juliana Veras, pela manhã.

Meu primeiro contato com o CPBT foi no ano de 2006, quando fui aluna de Joca Andrade e o Curso completava seus 15 anos. Na época, minha turma concluiu com a montagem de um espetáculo, Curingas.

Elenco do espetáculo CURINGAS, CPBT 2006 (Direção: Joca Andrade).

Cantávamos assim:

SENHORAS E SENHORES (Letra: Germana Cavalcante. / Música: Juliana Veras.)

Senhoras e senhores, boa noite!

Com sua licença vamos nos apresentar

O espetáculo Curingas é um jogo

E desse jogo, você vai participar

A sua sorte agora vai entrar em cena

Pois essa peça é você quem vai montar

A sua cena vai abrir uma janela

E essa janela, outra vida revelar

Luiz Otávio Queiroz e Juliana Veras no espetáculo CURINGAS, CPBT 2006 (Direção: Joca Andrade).

Eu tinha alguns anos de experiência no teatro. Comecei como muitos de nossos alunos hoje, reunindo pessoas de interesse em comum e arriscando comunicar a poesia para o mundo. Mas foi meu contato com o CPBT que abriu em mim portas para muitos questionamentos humanos. O projeto pedagógico do Curso é pautado no incentivo da relação do artista-criador com a cidade e o mundo para o qual ele cria. E para mim, saber direcionar o foco da minha vontade de compartilhar arte era o tempero que faltava.

Algum tempo depois ingressei como professora. Minha primeira turma montou o espetáculo Um Gole Divino, que está comemorando dez anos em 2020. Nós ainda nos encontramos, mas cada pessoa da turma já guiou sua vida para lugares bem distintos, afinal, dez anos são alguma coisa.

Elenco do espetáculo UM GOLE DIVINO, CPBT 2010 (Direção: Juliana Veras).

E no Gole, a gente canta assim:

NINHO DA UVA (Letra e música: Juliana Veras.)

Ele fez o vinho da uva

Foi criado no ninho da uva

Ele nos trouxe o cultivo da uva, a uva, a uva

E o mel que adoça os seus lábios que adoçam os meus

(…)

Amanda Alves e Anitta Muratori no espetáculo UM GOLE DIVINO, CPBT 2010 (Direção: Juliana Veras).

O espetáculo é uma ode a Dioniso, deus do teatro, e foi montado para comemorar o centenário do Theatro José de Alencar. De lá para cá, cada ano tem sido uma experiência de constante renovação para mim. Muitos são os depoimentos de nossos alunos e ex-alunos sobre a importância que o Curso tem em suas vidas. E isso reverbera profundamente em nós que mediamos a formação. Estar em contato com cada época, motivando jovens e adultos a pensarmos juntos a criação, em conexão com as urgências de cada época, reforça para mim o sentido de ser artista.

Hoje, em tempos de recolhimento pela pandemia do novo coronavírus, nossa programação se volta ao diálogo com os alunos em suas casas por meio virtual. Investimos na discussão teórica dos assuntos que cada módulo do Curso contempla, afim de compreender melhor nosso contexto e nos preparar para a forma como a arte virá a ser fruída em tempos vindouros.

Enquanto alimentamos em nós a esperança de dias melhores, desejamos que a gente possa, sobretudo, sair deste momento difícil um pouco mais humanos.

Viva o CPBT, o Theatro José de Alencar em seus 110 anos; viva a arte, o encontro e a vida!

Juliana Veras e as Feras

Colaboração: Joca Andrade

Outras imagens do espetáculo CURINGAS, direção de Joca Andrade, 2006:

Nina Castro Brasil (in memoriam).
Elenco e direção.
Luiz Otávio Queiroz e Nina Castro Brasil (in memoriam).
Emerson Lúzbio, Adriana Coelho, Juliana Veras e Germana Cavalcante: Equipe de Sonoplastia.

Outras imagens do espetáculo UM GOLE DIVINO, direção de Juliana Veras, 2010:

As mulheres.
Gleyson Lýsios e Elaine Cristina.
Anitta Muratori.
O elenco.
Evoé!

Juliana Veras é atriz, diretora, escritora, compositora, filósofa e pesquisadora de teatro e música. Escreve aos domingos para o blog Lugar ArteVistas.

Perspectiva

Cara amiga bruxa,

Agora, estou em um novo ponto de vista.

Passei duas lunações e meia na praia da baleia (Itapipoca-CE). Aprendi com a civilização maia, a contar tempo observando o movimento da natureza, uma lunação é o período que a lua leva para retornar a sua fase nova, dura aproximadamente 1 mês. Conseguir uma boa relação com a lua vem sendo uma pesquisa diária. Ao observar as suas fases, percebi a reverberação destas no meu corpo físico, emocional (astral) e energético (etérico). Para falar sobre eclipses, por exemplo, é preciso primeiro sentir a experiência de vivê-los com consciência. Comecei a treinar a expansão do meu campo intuitivo, por meio de meditação e calendário lunar, para observar as influências destes eventos em mim.

A ação gravitacional da lua me interessa. Imagina a força que esse astro opera sobre nós por meio de seus movimentos cósmicos? Penso que, assim como as marés, o nosso corpo liquidamente enche e seca, como o movimento de sístole e diástole respiratória, movendo nossas águas numa dança de correntes marítimas. O mar precisa de seis horas por dia para encher e mais seis para secar, refazendo seu ciclo sempre em horários diferentes. Na praia da baleia observei que nos períodos de lua nova ou cheia, a maré estava alta próxima ao horário em que o sol se punha ou nascia. Isso quer dizer, que neste mesmo período a maré estava baixa ao meio dia ou meia noite. Nesses momentos de oposição e conjunção entre sol e a lua, o mar aumenta a sua amplitude. Na baleia, por exemplo, existem pedras que só aparecem nessas fases da lunação, pois o recuo e o avanço da maré ficam maiores, revelando, por exemplo, o que estava escondido pelas águas nos momentos das fases crescente ou minguante. Daí te pergunto: o que tu tens revelado de si mesma na lua nova ou cheia, quando tua maré baixa te revela? Ou como tua ação avança nos períodos de maré alta?

Outro efeito gravitacional que a lua exerce sobre nós são os momentos de seu apogeu e perigeu, ou seja, quando ela está mais distante ou próxima da terra. No mapa astral, verificamos isso por meio da proximidade da lua com lilith. Quanto maior a proximidade entre elas, mais distante a lua está da terra, portanto está no seu apogeu. Quando a lua está mais próxima da terra, em seu perigeu, seu efeito sobre as águas é muito maior, aumentando a amplitude das marés, podendo até gerar ressacas no mar.

Porque então nós estaríamos de fora desse efeito gravitacional, já que nosso corpo é composto de 70% de água?

Tenho pesquisado textos antigos de ocultismo e esoterismo (se quiser, podemos trocar sobre isso), para descobrir mais sobre esses ensinamentos. Nossos antigos sábios já falavam que o elemento água simbolizava nossas emoções. No tarot, por exemplo, a leitura do naipe de copas (elemento regente: água) nos conduz para interpretar o corpo emocional do consulente. A lua na astrologia, como também a carta A Lua (arcano XVIII do tarot de marselha), traz muito sobre a forma como reverberamos nossas emoções, como nos relacionamos, ou como revelamos a nossa intuição. Hoje ela esta se aproximando de sua fase quarto crescente, saindo da fase nova, momento em que nos sentimos mais introspectivas (podendo também indicar começos de novos ciclos, ou plantio de sementes/ideias), para iniciar a força de ação. Nesta semana de eclipse em câncer mergulhei nas raízes da minha existência, voltando para fortaleza para adubar minha árvore genealógica. Quando abri a minha composteira, vi que o biofertilizante (líquido liberado pela decomposição de cascas de frutas e legumes, rico em nutrientes) estava seco. Resolvi o problema colocando um pouco de água no recipiente, para poder utilizar este líquido nas plantas que ficaram em casa. Adubar as relações, para fortalecê-las. Me preparando aqui para o eclipse lunar em capricórnio, local onde se posiciona a minha lua natal. Assunto o qual tenho com algumas amigas de mesma lua… mania temos de internalizar sentimentos profundos e de ser autossuficiente para resolver questões emocionais…rs…

Mudar a perspectiva do olhar para si enxergar internamente, tem me causado descobertas delicadas. Observar as minhas marés tem me proporcionado encontros com um desconhecido inconstante, fazendo-me percorrer por águas calmas, cristalinas, turvas ou turbulentas, levando meu corpo a um passeio por tsunamis ressaqueados, redemoinhos gigantes e leves marolas. Tudo ao mesmo tempo. Aprendo com isso a ser tormenta azul, kin do calendário maia, mais precisamente a ser o olho do furacão, que em seu centro a vacuidade do ar se presentifica, enquanto em suas extremidades tudo se transforma.

Minha amiga bruxa, a alquimia da vida está em como manipulamos os ingredientes energéticos. Abaixo segue um poema que escrevi em tempos de redemoinhos gigantes, é uma música também, espero um dia poder arranjá-la.

Olha,

Não é nada fácil

Se perceber em desconexão

Das próprias palavras emitidas em vão

Sei que o processo de desconstrução é lento

Pois o que passa dentro de mim

É muita carência

Por não saber lidar com o que está aqui

Dentro.

O lado de dentro de mim

Mora alguém que ainda não conheci

Eu sou algo indeterminado e em constante fluxo

A camada superficial do meu ser é apenas a beira do precipício

A profundidade se dá no percurso

MERGULHA

Tenho alegria de mergulhar em mim, tenho descoberto a minha criança perdida. Gosto de brincar com ela.

Te amo e saudades.

Um beijo de sua amiga bruxa.

Praia da Baleia, 2020.

Natália Coehl é mestranda em artes pela UFC e graduada em Licenciatura em Teatro pelo IFCE. Pesquisa técnicas de movimento, como: dança, mímica, artes marciais, meditação e derivas urbanas. Escreve aos sábados para o blog Lugar ArteVistas.

Religiões e o budismo japonês de Nichiren Daishonin.


Antes de começar, recitemos três vezes o seguinte mantra: “Nam Myoho Renge Kyo”. Muitas vezes quando se escuta sobre o budismo, pensa-se imediatamente em certas práticas que estão bem disseminadas no imaginário coletivo: meditação, jejum, isolamento social, desmaterialização como forma de elevar a alma. Sem mencionar explicitamente aquilo que aparece à primeira vista (como as vestimentas, a rasura dos cabelos e o absenteísmo de valores ocidentais para quem se define como budista) é sabido que o ponto de comum entre todas as correntes é a perseguição da iluminação. O que o imaginário coletivo e popular dessa expressão expressa, no entanto, é aquilo que em outra medida aparece como contraditório para quem conhece a história do famoso buda Sakyamuni.
Longe de ter passado a totalidade de sua vida preso em monastérios, no alto de uma montanha ou em cavernas, comendo raízes e vivendo como um eremita, Sakyamuni encontrou por volta dos seus 35 anos o caminho do meio. No intuito de conhecer as quatro etapas de sofrimento universais do homem (o nascimento, o envelhecer, a doença e a morte) que seus pais lhe esconderam quando criança, esse ex-príncipe indiano decidiu procurar a verdade adotando as práticas de isolamento e
meditação dos eremitas de sua época. O budismo já existia. Após atingir a iluminação debaixo de uma figueira, teria então chegado ao Nirvana, um estágio de sabedoria e paz que lhe forneceu autoridade para ser capaz de disseminar esses ensinamentos para uma pleura de seguidores. Cada um destes discípulos então escreveu aquilo que conseguiu interpretar, dando origem a um número ainda mais sem fim de tratados, os sutras.
E daí fica a pergunta: será que para atingir a “iluminação” teremos todos de nos isolar e trilhar o mesmo caminho dessa referência espiritual? Perseguir os opostos e então encontrar o famigerado “caminho do meio”? Eu sempre tive dúvidas quanto ao radicalismo dessa e outras práticas religiosas. Claro que meu lugar de fala, de quem nasceu imerso em valores judaico-cristãos e na periferia do Ocidente vai guiar meu julgamento. O que fazemos quando sofremos? O que fazemos quando somos
acometidos por injustiças que não parecem ter reparação? O que resta para aqueles que são derrotados por forças invisíveis? Procuramos a soberania do Estado e do dinheiro para resolver algumas dessas questões, quando não somos religiosos, e de Deus quando o somos, correto?
Eu sei que em meio a uma sociedade que estimula valores como competição, vaidade, medo, avareza e ignorância, muitas vezes se abster da vida em sociedade parece a melhor escolha. Eu mesmo acredito que em vidas passadas devo ter sido um desses eremitas que viviam em montes e vales, à espera de almas perdidas que procuravam se encontrar e que voltavam livres porque meus conselhos e histórias lhes remetiam novamente ao encontro de si mesmo. Nesta vida, porém, o meu lugar de vivência tem me mostrado que o verdadeiro caminho é o de “estar junto”, o de “sofrer junto”, o da “empatia” e de estender a mão, porque ela alimenta mais do que a boca que reza. Eu acredito que na vida somos às vezes como o vento, a água, a rocha e o fogo. Nós variamos de estado. Nada é para sempre. Por isso quando alguém está passando por um profundo sofrimento eu prefiro dizer: “Aguenta que vai passar, lá na frente você vai ver porque teve de enfrentar essa situação”. Eu prefiro o enfrentamento mais que o isolamento, compreende? O que não me impede de fugir de vez em quando dessa loucura que são as cidades superpopulosas.
Mas então, o que isso tem a ver com o budismo japonês? Tem a ver que esse budismo é muito parecido com a minha maneira religiosa de pensar: estar junto, viver numa comunidade de afeto, onde erros possam ser superados e acertos celebrados. Quando ouvi falar pela primeira vez dele e seu princípio norteador imaginei que fosse algo meio charlatão, dessas místicas que prometem mundos e fundos. Porém, quando vi o tamanho da organização e quão profundamente tocava a alma das pessoas comuns, percebi que era valorosa. Não é o momento para falar da prática e de todos os
princípios dessa religião, até mesmo porque não sou o mais fervoroso dos adeptos e existem pessoas em grau de qualificação muito maior para uma ampla explicação. Entretanto, é por ter uma filosofia que segue uma linha de raciocínio comum, verdadeira e poderosa, que me sinto capaz de esboçar essas linhas gerais sobre essa crença.
O “Nam Myoho Renge Kyo” que advém do sutra de Lótus é o mantra que contém o princípio de causa e efeito imanente da vida. Ele foi defendido como a essência de todo o budismo no século XIII pelo monge Nichiren Daishonin, em meio à uma situação deplorável no Japão do ponto de vista moral, econômico e político. A flor de lótus se tornaria o símbolo por excelência da superação dos sofrimentos da vida, pois apesar de estar na lama só ela seria capaz de florescer com tal exuberância. Esse ensinamento acredita que a simples recitação torna o indivíduo suficientemente forte para enfrentar os obstáculos, tomando e se responsabilizando por suas próprias decisões. Afinal, o efeito é somente a causa de algo que foi decidido. Essa lei geral clássica da física de Newton corrobora com a ideia da sua contraparte quântica (talvez também mística) de que o bater das asas de uma borboleta em um lugar pode fazer um furacão no outro lado do mundo.

Flor de Lótus (Imagem: divulgação/internet)


A partir de Nichiren, que a trouxe da China, no Japão ela fez sua história. Existe a versão mais ortodoxa e a versão secular. As duas vivem em disputa. A primeira preza por uma forte hierarquia e a submissão de autoridades monasteriais. A segunda, laica e muito mais popular, tem adeptos em todo o mundo e é sustentado pelos líderes da Soka Gakai Internacional. E pode ter certeza que na sua cidade deve haver uma sede.
Aqui no Rio de Janeiro ela é muito popular e já a encontrei mesmo em Fortaleza. E o que mais tem de interessante nela? Bem, como é definida pela recitação de um mantra capaz de incorporar o ritmo do universo de “causa e efeito mística” convém que ela seja aceita em inúmeros países pois é independente de normas, costumes e morais. Isso a torna extremamente poderosa, e fica um tanto quanto irresistível quando se importa em alcançar o “Kosen Rufu” ou o estabelecimento da paz em todos os povos. Isso porém traz consequências de um ponto de vista crítico. Desde a filosofia de Immanuel Kant – sim, sou profundamente moderno – sabemos que o choque das civilizações advém sempre de um valor particular com pretensão universal, gerando os conflitos e guerras com outros particulares supostamente universais. É assim que os movimentos que se direcionam para a paz universal têm fracassado, à exemplo do cristianismo (conversão forçada e tribunais de inquisição), as ideias seculares do iluminismo de “liberté, egalité et fraternité” que as distribuem somente para os brancos europeus privilegiados, e a “missão civilizadora” que serviu como base para a colonização de povos na África, Ásia e América. A história se repete como farsa e às vezes como tragédia. É assim que as melhores intenções se tornam às vezes corrompidas.
E, finalmente, uma questão que percorre o budismo: “Onde está Deus?”, perguntamos. E a resposta é que não há. A concepção de Deus para o budismo é a de que tudo é Deus. É complexo definir em poucas linhas. Mas eu continuaria ensaiando a dizer que tem a ver com a ideia de que tudo se transforma e está em mutação. Uma nuvem pode estar comunicando um “adeusinho” do seu animal de estimação que morreu há poucos dias. Eu particularmente acho muito bonito, levanta minhas esperanças e me dá entendimento do todo. Afinal, em DEUS sem o D e o S, há apenas o EU.
Porém, se colocarmos a questão mais profundamente, sem negacionismos (atitude ignorante dos nossos dias), é significativo perceber que não é a existência da verdade que nos torna humanos, mas a vontade de buscá-la. Isso me nos dá o direito de questionar. De questionar os dogmas, as doutrinas, o “establishement” de quem diz que é assim ou assado.
A verdade mais pura da vida é que nós sempre vamos procurar a origem de todas as coisas, da criação e da diferença entre as criaturas. Afinal, nós não temos a resposta absoluta ainda, ou temos? Se o Budismo não acredita em um Criador por achar que é simplesmente o homem quem fala por Ele (pois na História o que vemos prevalecer é a outorga de autoridade do homem de dominar outros homens), tomando para si a responsabilidade da sua própria vida, é louvável e está no caminho da “verdadeira iluminação”. Mas resta aquela coceirinha atrás da orelha que diz que se o livre-arbítrio foi concessão de Deus, como poderia ele tomá-la? Ele se arrependeu de nos deixar livres para decidir? Deus se arrependeu de ter feito o homem ou será que fomos nós que nos arrependemos de querer buscá-lo, de querer encontrá-Lo como faria um jovem em busca de seu verdadeiro amor? Antes do Novo Testamento tomar as rédeas de controle do que define como “Deus”, esse Deus amoroso, que é só perdão e busca a paz, o que prevalecia antes era a honestidade, transparência e o pacto do Antigo Testamento que sem contradição alguma falava dos sofrimentos e da existência da guerra como condição de sobrevivência. Não havia o “dê a Deus o que é de Deus, a César o que é de César”. Era também severo porque precisava impor uma moral, regras, instituir o que é o certo e o que é errado. Ou vamos continuar acreditando que o relativismo cultural (primo do
dístico igualdade, liberdade e fraternidade) de comer animais proibidos e manter relações proibidas não nos afetará? Cedo ou tarde, aquilo que foi causa aparecerá como efeito. Essa é sem dúvida uma lei universal. Não importa o credo ou a origem do país, nós seres humanos, estamos submetidos a leis invisíveis. E aquele que quiser enxergar melhor pode comprar um par de óculos: o óculos do amor e da restrição, da compaixão e da orientação, do beijo e da vara, ou se você quiser, a visão do Caminho do Meio.

Gustavo Xavier é ator, capoeirista e historiador. Licenciado pela UFC em Historia Social, mestrado pela PUC-Rio em Relações Internacionais.