Antigo normal: nunca mais

Rifa-se antigo normal de uma vez por todas.

Quarenta minutos de faxina na mesa de centro espelhada – com gavetões e nichos –, abarrotada de objetos e livros intocáveis de capa dura.

Costas arrebentadas de tanto arrastar dois trambolhos de madeira maciça, vulgos “mesinhas de cabeceira”, para tirar o pó acumulado.

Armário inflado de roupas, sapatos e bolsas que nunca serão repetidos ou até mesmo estreados.

IPVA caríssimo para rodar menos de mil quilômetros por ano, sem contar os gastos com combustível, estacionamento e manutenção.

Horas no trânsito caótico para ir à padaria ou mercadinho do bairro, em vez de usar as passadas ou pedaladas saudáveis.

Caminhadas na esteira em ambientes fechados, morando em uma cidade plana, que transborda sol, brisa, parques ecológicos e calçadões que beiram o verde mar.

Carimbos no passaporte para destinos turísticos da moda, com suas superlotações que sufocam a alma do lugar, cultura e estilo de vida dos moradores.

Festas para ver e, principalmente, ser visto.

Amizades às pencas que não se importam um tiquinho com o outro.

Cozinha meia-boca de restaurantes e bares caros, e filas gigantescas dos recém-inaugurados.

Lamentos por desgraça pouca, como a xícara de estimação quebrada acidentalmente.

Felicidade incessante, também conhecida como alienação, demência ou ingenuidade.

Diversão com filhos|netos no parquinho climatizado do shopping, quando se tem quilômetros de orla urbanizada, com quiosques, academias a céu aberto, parque infantil, quadras de vôlei e tênis de praia, anfiteatro, ciclovia, pista de cooper e de skate. Sim, é seguro.

O medo de andar nas ruas e se apoderar das calçadas e praças.

Carros estacionados nas ciclofaixas ou nas vagas prioritárias “só enquanto” pega o filho|neto na escola.

O pouco de tolerância que ainda resta para ouvir fofoca, maledicência e desinformação, como as criminosas fake news.

Por fim, como perfeição e santidade nunca fizeram parte dos meus planos, excluem-se da rifa laivos de arrogância que, porventura, alguém detectar nessas prendas.

Abraços silenciosos

Dor física ou dor na alma, qual delas machuca mais?

Quando fraturei gravemente o tornozelo durante um treino aeróbico, cheguei a desmaiar de tanta dor. Nos quinze dias que se seguiram à cirurgia de urgência, só consegui tirar breves cochilos. Foram sete meses muito difíceis até a completa reabilitação.

Relembro esse fato por dois motivos: nesse próximo domingo completam dois anos do ocorrido; e por mais doloroso que tenha sido, não se compara à dor profunda pela perda, no ano seguinte, da minha única e querida irmã para a COVID-19.

A dor na alma, essa parece que nunca passa. Ainda mais quando potencializada pelo luto coletivo que ora vivemos, pela inépcia e escárnio do poder público central frente à pandemia, o inadmissível adiamento na compra de vacinas e o consequente atraso na imunização da população.

Embora incomparáveis, ambas são dores que, no primeiro instante, parecem insuperáveis, mas vou me esquivar aqui de falar somente em superação. Porque antes de superar qualquer dor, é necessário ser acolhido nessa dor.

Quando se está sob intenso sofrimento – físico ou espiritual –, tudo o que não se quer ouvir é que “vai passar”, expressão até simpática mas que pode denotar indiferença à dor alheia. É como se lhe dissessem: “Pare de se lastimar, você não é o único ser que sofre”. Desfiar experiências similares superadas – na maioria das vezes, muito mais graves – também não vai ajudar a quem sofre. No fundo, todos sabemos que tudo passa, que nada é para sempre, nem as coisas ruins nem as boas. Mas apressar o processo para quê? Não existe vida sem sofrimento e cada pessoa tem seu próprio tempo e modo de reagir a ele.

Dizem que o sofrimento contribui para o crescimento humano [e deve ser mesmo], como inúmeros outros sentimentos também contribuem, mas eu prefiro enxergá-lo apenas como natural à existência. É preciso, portanto, parar de negá-lo. Só assim seremos capazes de enfrentá-lo e superá-lo no momento certo.

Enfim, se você não é especialista em comportamento – como também não o sou –, ao se deparar com as dores de alguém, apenas o acolha em silêncio, com um abraço, sem comentários ou julgamentos.

“É muita coincidência”

O novo quadro do Fantástico, que traz um pouco de leveza a esses tempos sombrios, me fez lembrar de um episódio em Paris envolvendo um casal cearense e um célebre chef francês.

Foi em novembro de 2016. Eu passava uma curta temporada na França dando vida à Joëlle, heroína francesa do meu romance “O segredo da boneca russa”, quando meu marido chegou do Brasil para alguns dias de férias.

Coloquei o processo literário no modo espera e saímos os dois abraçadinhos pelas ruas medievais de Saint-Germain-des-Prés em direção ao carrefour de l’Odéon. Ele queria entregar, sem demora, a cachaça que trouxera do Ceará para o chef Yves Camdeborde. Apaixonado por cozinha, meu marido adora se conectar com os cozinheiros dos seus restaurantes favoritos. Entramos no bar-restaurante – lotado àquela hora – e tentamos nos aproximar do disputadíssimo balcão.

Para tu-do! Chef celebridade, restaurante famoso, clientes sem reserva, balcão… Explique melhor, s’il vous plaît! Parece estranho para o imaginário gourmet, mas essa é exatamente a proposta das três casas “Avants-Comptoirs” de Yves Camdeborde, considerado o precursor da “bistronomia”, conceito de porções autorais a preços mais acessíveis. Truques de mentes inovadoras e criativas para contornar as recorrentes crises econômicas deste início de século.

Camdeborde teve a brilhante ideia ao se deparar diariamente com as filas que se formavam à hora do almoço na sua “La Brasserie Le Comptoir” [localizada no térreo do seu charmoso hotel “Le Relais Saint-Germain”; à noite, a brasserie se transforma em restaurante com menu surpresa, elaborado com produtos frescos de alta qualidade para uma clientela agendada bem previamente]. O gênio montou, então, dois barzinhos colados à brasserie, sem bancos, cadeiras ou mesas; apenas um grande balcão para servir os tais petiscos finos, harmonizados com bons vinhos em taças. Se era para esperar em pé por uma mesa incerta na brasserie, que fosse em grande estilo. [Em tempo: estávamos no “Le Comptoir de la Terre”, o primeiro dos três “Avants-Comptoirs” parisienses].

Enquanto saboreávamos as deliciosas entradinhas [amuse-bouches], indaguei ao funcionário simpático que atendia no balcão se o chef Camdeborde estava na casa. Ele me fitou surpreso e respondeu afirmativamente. Esclareci que éramos brasileiros, fãs da gastronomia do Camdeborde, e perguntei se ele poderia entregar ao patrão uma cachaça que meu marido acabara de trazer do Brasil. Para nosso espanto, ele disse que ia chamar o Camdeborde para que entregássemos o souvenir pessoalmente.

Minutos depois, aparece o Camdeborde acompanhado de uma bela jovem. Transcreverei a seguir o colóquio para expressar fielmente a dimensão do inesperado fato:

Bonjour à vous! – Camdeborde nos saudou.

Bonjour, M. Camdeborde! Enchantés. Je suis Celma et voici mon mari, Antônio – apresentei a mim e meu marido.

Enchanté! – Camdeborde retribuiu. – Je vous présente Nicole.

Bonjour, Nicole! Enchantés! – saudamos a jovem.

Expliquei-lhes no meu francês intermediário, que eu estava em Paris escrevendo um livro, e que meu marido acabara de chegar do Brasil com uma cachaça artesanal premiada – de fabricação própria – especialmente para o Monsieur Camdeborde.

– Podem falar em português, eu sou brasileira – Nicole falou em tom quase inaudível, mas com visível satisfação.

– Que maravilha! – meu marido e eu dissemos ao mesmo tempo.

– Vocês são de onde? – Nicole manteve o tom moderado.

– Somos do Nordeste – meu marido respondeu.

– Também sou! Ils sont du Nordeste! – ela traduziu para Camdeborde, em tom levemente mais elevado. – De qual lugar? – ela prosseguiu.

– Ceará – respondi.

– Não acredito! Também sou do Ceará! Ils sont du Ceará! – ela gritou [para os padrões franceses], saltitando ao lado de Camdeborde.

Camdeborde arregalou os olhos e, já de posse da garrafa de cachaça, leu o rótulo em voz alta, dobrando os erres e enfatizando as últimas sílabas: “Cachaçá Cedrrrô do Libanô, São Gonçalô do Amarrrrantê…”

– São Gonçalo??? Crois pas! C’est a cotê de mon village! – Nicole interrompeu o chef aos saltos, gritando até para os padrões brasileiros.

– Qual a sua cidade? – perguntamos ao mesmo tempo.

– Paracuru – ela respondeu.

– Inacreditável! – foi a minha vez de pular, gritar e dar-lhe aquele abraço brasileiro. – Nossa fazenda, onde a cachaça é envelhecida e envasada, fica a meio caminho entre São Gonçalo e Paracuru. Vamos sempre na sua cidade caminhar na praia. Seus familiares moram lá?

– Sim!

– Como veio parar aqui, Nicole? – perguntei, invasiva, infringindo os sisudos códigos locais [jornalista nunca tira férias].

– Casei-me com um francês, o Baptiste, filho do Monsieur Camdeborde, trabalhamos aqui – ela respondeu sorrindo, apontando discretamente para o funcionário do balcão que arranjou aquele encontro inusitado.

Baptiste divertia-se à curta distância com a cena, sem imaginar o grau de conexão que se operava entre seus familiares e aquele desconhecido casal brasileiro. Mais parecia um reencontro de velhos amigos.

Tirei da bolsa um exemplar de “Viver, simplesmente”, uma coletânea de crônicas, artigos e reportagens organizada por minha editora para celebrar os meus sessenta de vivências, autografei para a família Camdeborde e abri na página 216, exatamente no capítulo “Trinta motivos para não sair de Saint-Germain-des-Prés [e arredores]”, que destacava os amuse-bouches do “L’Avant Comptoir” entre as delícias imperdíveis do charmoso bairro na margem esquerda do Sena. O chef-estrela agradeceu os mimos, tirou selfie conosco e saiu apressadamente; estava atrasado para o preparo do menu gastronômico daquela noite no seu exclusivíssimo “Le Comptoir du Relais”.

Difícil eleger a nossa maior alegria naquele início de tarde de outono: cumprimentar pessoalmente o famoso chef francês ou conhecer sua nora cearense. [Atualizando: Nicole e Baptiste não estão mais juntos].

Pensando aqui em enviar essa história para a produção do Fantástico. Posso até anexar uma sugestão de sinopse: “Casal cearense entra em um bar-restaurante francês que costuma frequentar quando está em Paris; pede ao barman que entregue ao proprietário [famoso chef francês que o casal só conhece através da mídia] uma cachaça premiada trazida do Brasil; o dito cujo aparece com uma jovem intérprete nascida numa cidadezinha cearense, na mesma região da fazenda do casal, local de origem da cachaça premiada; a jovem cearense era funcionária no bar-restaurante parisiense, nora do chef celebridade e casada com o tal barman”.

Sabe o que isso significa, Tadeu Schmidt? Tudo, né? Uma tremenda coincidência!

Fitas pretas

No funeral do meu avô, meu pai alfinetou uma fita preta na lapela, símbolo de luto pela perda do ente querido.

A cena fixou-se na minha jovem retina, por ter sido talvez o meu primeiro contato com a morte de um familiar. Meu pai permaneceu com seu adereço de pesar por um longo período. À época, apenas as mulheres enlutadas trajavam-se completamente de preto. As crianças, de modo geral, eram liberadas da convenção.

Essa lembrança afetiva emergiu após me deparar dias atrás com a imagem de fitas pretas amarradas à tela de proteção da varanda de uma amiga virtual – status que em nada invalida a minha concreta admiração por seus posicionamentos.

Tratava-se de um manifesto de luto coletivo diante da assustadora marca de trezentas mil vidas brasileiras perdidas para a COVID-19 em doze meses. Trezentos mil pares de olhos que não mais piscarão à luz do sol, trezentos mil corações que não mais se inspirarão sob a lua cheia, trezentos mil pares de mãos que não mais afagarão rostos amados, trezentas mil bocas que não mais sorrirão ou beijarão, trezendas mil pessoas que não abraçarão mais os pais, avós, filhos, netos, irmãos, sobrinhos e amigos.

A triste alegoria da fitinha preta na lapela agiganta-se na tragédia que ora vivemos. Dizer que a morte é natural não conforta quem perdeu um, dois, três ou mais parentes para a terrível doença. É, antes, de uma monstruosidade sem limites e total falta de empatia, atitude própria de mentes doentias. É desesperador ver dezenas de milhares chorando familiares que poderiam estar vivos se tivesse havido, por parte das autoridades competentes, controle imediato e rígido ao uso de equipamentos de proteção, celeridade na aquisição de vacinas para imunização em massa da população e ajuda financeira contínua aos mais vulneráveis, como muitos países o fizeram e ainda fazem.

Na ausência de vacinas para todos e de auxílio emergencial suficiente, só nos resta a autorreclusão e doses de solidariedade. O que mais precisa acontecer para entendermos que a “vida normal” anterior à pandemia do novo coronavírus – encontros com amigos, viagens, farturas e megacelebrações – não combina com esse momento de dor coletiva? Chega de falsos discursos de compaixão e pseudodilemas entre salvar empresas ou vidas. É preciso dar um basta aos que estimulam desobediência civil ao confinamento obrigatório responsável, aglomerações e brindes macabros à morte de brasileiros dos grupos prioritários, principalmente.

Em vez de perdermos tempo rebatendo provocações, vamos exigir do poder público federal providências emergenciais para tentar salvar o emprego de trabalhadores e livrar da fome os mais necessitados. E também reverter erros e omissões de 2020, como o atraso na compra de vacinas, a inexistência de um plano nacional de imunização e a incitação a manifestações de rua que proliferaram o vírus exterminador.

Enquanto toda a população não for vacinada, a prioridade continua sendo salvar pessoas. Economia de nenhum país sobrevive a quase quatro mil mortes diárias somente por Covid-19, entre trabalhadores e consumidores em geral, incluídos operários, professores, médicos, estudantes, enfermeiros, advogados, artistas, informais, desempregados, aposentados, profissionais liberais, empresários, comerciantes e políticos.

Precisamos assumir que estamos em guerra contra um único inimigo: o vírus, que, se não for combatido, vai continuar matando pessoas e eliminando empregos dos [ainda] vivos. Ficar um ano – ou mais – confinado – total ou parcialmente – é ético, é obrigatório, é dever de todos. Caso contrário, não haverá amanhã.

Vamos refletir e rever nossos atos, antes que o futuro reivindique a nossa responsabilidade. A cobrança pode vir de um filho, filha, sobrinho, sobrinha, aluno, aluna, neto ou neta: “Como você contribuiu para salvar vidas na pandemia de 2020 e 2021”? Ninguém vai perguntar se salvamos empresas.

Qualquer ação é válida. Até amarrar uma fitinha preta na tela da varanda para demonstrar que a gente se importa com a dor do outro e que as vítimas não serão esquecidas.

*

Imagem: Regina Dalcastagnè

As lutas de março

Desde a minha última postagem sobre o dia dedicado internacionalmente à mulher, poucas mudanças ocorreram de fato.

Louvo todas as conquistas femininas do último século, principalmente, mas ainda há enormes desafios a enfrentar. A começar pela nossa pouca adesão ao movimento. Uma pesquisa de 2019, feita pelo Data Folha, mostra que apenas 38% das mulheres brasileiras se consideram “feministas”. O percentual sobe para 47% entre as mais jovens (com menos de 35 anos), e para 44% entre as que concluíram o ensino superior. Enquanto isso, fontes oficiais denunciam dados aterradores: mata-se no Brasil três mulheres por dia, pelo simples fato de serem mulheres.

Proponho nos debruçarmos sobre os motivos que levaram à escolha do oito de março como marco da luta feminina por um mundo mais justo e igualitário. Para começar, a data foi inspirada na mulher operária. As referências mais citadas evocam dois episódios transcorridos em Nova Iorque durante greves de trabalhadoras têxteis que teriam acontecido no mês de março de séculos distintos, reprimidas violentamente pelos patrões e polícia. No segundo episódio, morreram mais de cem mulheres queimadas dentro da fábrica em que trabalhavam.

Não se trata, portanto, de data comercial, como Dia das Mães, Dia das Crianças, Dia dos Pais e outras tantas criadas para aquecer as vendas e fazer girar a economia. Já critiquei várias vezes a forma equivocada com que publicitários e estabelecimentos comerciais propagam um dia que deveria ser de reflexão e debate.

Oito de março pode até vir acompanhado de rosas vermelhas, desde que não desqualifique a luta feminina. Temos todos os outros dias do ano para as celebrações festeiras – que são maravilhosas.

Vamos guardar esse dia para lembrar ao mundo da importância de se combater diariamente as injustiças e desigualdades entre os sexos, e para fortalecer a luta feminina – que deve ser de todos – pelo direito à vida, equivalência salarial e direitos reprodutivos, entre outros.

“Sejamos todos feministas”, apela a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Quando uma mulher luta pelo seu próprio espaço, ela pode melhorar o mundo. Isso é ser “feminista”. Vamos subir os índices da próxima pesquisa?

Era uma vez uma casa triste

“Uma casa arrumada é uma casa morta; onde há vida há perturbação da ordem”. A voz grave e melodiosa do filósofo Mário Sérgio Cortella entrou pelos fones de ouvido enquanto eu transpirava no meu limitado circuito aeróbico: sala-cozinha-varanda, com algumas barreiras no meio do caminho.

Se existe uma casa viva nesses tempos de pandemia, é a minha, constatei ao circular pela quadragésima vez a mesa de jantar transformada em ilha de trabalho, com computador, cadernos, blocos, livros, canetas e um suporte para celular; ou ao me esgueirar por entre sofás, poltronas, pufes e esbarrar numa banqueta deixada fora do lugar; ao roçar mais uma vez a perna direita na porta rebelde do armário sob a pia da cozinha; ao saltar as anilhas de halteres no canto de um degrau; ou ao pisotear as folhas amareladas na varanda.

O resto do dia refleti sobre o direito de uma casa ser alegre. Direito a almofadas e cadeiras fora do lugar; a piano centenário explorado por dedinhos desafinadores; a bicho gigante de pelúcia ocupando metade da sala; à garrafinha d’água vazia junto à xícara de café sorvido sobre a mesinha de centro; a colchonete de treino funcional esquecido na varanda; e a até uma leve camada de poeira sobre os móveis.

Admito que mantive a minha casa impecavelmente linda – aquela que se costuma chamar “casa de revista” – mesmo à época de dois filhos desbravadores que já me deram netos. A chegada dessa novíssima geração levou-me a concessões antes inimagináveis. E agora, após onze meses de confinamento em casa e afastamento social, com tantas perdas de vidas humanas para a Covid-19, a arrumação e ambientação esmeradas foram banidas de vez da minha lista de vaidades.

Percebi que existe harmonia na desordem. Quando tudo é muito certinho e previsível, a vida se torna estática e triste, igual a uma casa arrumada. O meu lugar hoje é muito vivo, para a minha alegria, do meu marido e dos nossos pequeninos.

O filósofo tem toda razão.

Sonhar é resistência

Neste 2021 quero sonhar todos os sonhos impossíveis, como os autênticos sonhos devem ser.

Planar entre os pássaros como se um deles fosse. 

Correr mais veloz que o jamaicano Bolt.

Trocar de roupa em três, dois, um…

Atravessar a nado, em seis horas, o Canal da Mancha.

Bailar como Odette no Lago de Tchaikovski.

Perguntar ao meu pai o motivo da sua risada, enquanto ele se enxágua lá no chuveiro. 

Ouvir da minha irmã os perrengues hilários nas suas viagens com colegas e amigos.

Levar a Buba e a Babu para caminhar no calçadão da Beira-mar de Fortaleza.

Dar corda na bicicletinha que ganhei da minha madrinha no aniversário de cinco anos.

Desembaraçar o cabelo sintético da minha boneca “Xodó”. 

Dividir com Lygia o prêmio sueco de literatura. 

Ser derrubada por um filhote brincalhão de Rott e não sofrer um arranhão.

Chegar ao topo da cordilheira himalaia.

Conversar com a criança que fui um dia. 

Acordar e perceber, entre aliviada e aflita, que tudo não passou de um sonho.

Feliz 2021, metade real, metade fantasia!

Sobre Bel, recomeços e filhos de papel

Eu poderia falar do meu livro de contos, Confinados, que será lançado dentro de dez dias, mas acordei novamente cismada com Belchior e no que ele teria sentido para criar “Tudo outra vez”.

O lamento poético que mistura amargura e esperança e que embalou grande parte da minha juventude, noite dessas sacudiu meus sonhos maduros e me fez passar os últimos dias cantarolando os mesmos versos.

“…Minha rede branca, meu cachorro ligeiro

Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro

O fim do termo saudade como o charme brasileiro de alguém sozinho a cismar…”

O genial compositor cearense teria mesmo se inspirado na repatriação de amigos exilados por força da ditadura militar? Tudo leva a acreditar que sim, pelo ano de criação da música – 1979 –, o tal da anistia.

Vejo-me, inevitavelmente, voltando ao meu refúgio sertanejo, lugar de acolhimento de amigos e familiares, de onde estou afastada desde o início da pandemia, sem previsão de um retorno breve.

A vida é mesmo feita de acasos e incertezas que exigem recomeços e ressignificações. Não ouso reviver emoções, alegrias, acontecimentos ou momentos. Primeiro, porque nada se repete e, depois, porque também mudamos a cada dia. No momento, adio planos e cuido para que a esperança sobreviva ao caos. Poderei viver novas experiências em um sertão que tem tudo para se transformar para melhor. E sigo sonhando com o dia em que cruzarei novamente aquela porteira e saudarei todos de lá: “Gente de minha rua, como eu andei distante…”.

Quanto aos “filhos de papel”, estou muito feliz com o nascimento do meu quarto livro. Dedico-o à minha única e inesquecível irmã. Creio que ela – tão fã do Bel quanto eu – ficaria orgulhosa da mana caçula que conseguiu emergir, malgrado a força densa que nos afundou a todos.

Maior que o nosso quintal

Bolha, zona de conforto, caixa, não importa a metáfora para a sensação de segurança quando se pertence a um grupo em que todos pensam da mesma forma.

É óbvio que cercar-se de pessoas que comungam com as nossas ideias pode nos trazer um sentimento de acolhimento e bem-estar, mas não podemos esquecer que a resistência, o contraditório, a teimosia e a inquietação são os vetores da mudança e evolução no mundo.

Pegando o gancho nas eleições municipais que se aproximam, cito algo que hoje parece muito natural: o voto feminino. Mas sabiam que, há noventa anos, nós, mulheres brasileiras, não podíamos escolher nossos representantes políticos? Bizarro, não é mesmo? Quando o direito feminino ao voto foi aprovado, em 1932, as casadas só podiam votar com o consentimento dos maridos; viúvas e solteiras apenas se tivessem renda própria.

A quem devemos tal conquista? Às nossas bravas antecessoras que ousaram discordar do pensamento hegemônico à época, que dispensaram as asas protetoras de seus pares e lares patriarcais, “desobedeceram” pais, irmãos e maridos, sofreram discriminações e preconceitos, enfim, saíram da caixa. Imaginem a realidade atual do nosso país se aquelas mulheres tivessem se acomodado em seus casulos, dizendo amém para tudo e todos. Seríamos um país ainda mais injusto, pois é impossível reconhecer igualdade de seres humanos enquanto mulheres e outras minorias não participarem ativamente de decisões coletivas.

Voltando à comodidade de integrar um grupo sem pensamentos divergentes – motivo dessas linhas –, acredito que só evoluímos como pessoas quando somos contestados em nossas certezas e verdades, no contato com o diferente, na prática do argumento, do debate e diálogo respeitosos. Não precisamos “eliminar” quem pensa diferente de nós, salvo quando se tratar de algo cruel e desumanizador, a exemplo do nazifascismo que varreu a Europa na primeira metade do século 20, e de outros males contemporâneos, como o racismo, a homofobia, a misoginia e afins. Mesmo reacionários convictos reconhecem a importância das diferenças para uma sociedade livre. Já dizia famoso dramaturgo brasileiro, de perfil conservador: “Toda unanimidade é burra”.

É possível discordar sem ataques e ódio? Não só é possível, como necessário. Enaltecemos tanto a democracia, mas nos negamos a conviver e respeitar os contrários. Muitas vezes queremos “exterminar” – ou “cancelar”, para usar a linguagem das redes – quem age e pensa de maneira diversa da nossa. O que precisamos combater vigorosamente é a polarização que tanto mal faz à humanidade. O caminho mais trilhável para isso é fortalecendo as liberdades de pensamento e expressão.

Parece utópico? E quem vive sem sonhos e esperança? Vamos sair das nossas caixas? Há vida inteligente pulsando fora delas, um mundo muito maior que o nosso quintal.