Pequenos votos de Ano Novo

O ano começa e a gente aqui a fazer mil planos, votos e promessas.

Promessas me lembram logo a privação de guloseimas e vaidades empenhada por alguns a fim de alcançarem uma graça ou aproximarem-se do divino.

Reconheço que a intenção declarada é das melhores, mas desculpem se não boto muita fé na sua força transformadora, no sentido de tornarem o mundo um lugar mais solidário e humanista.

Por que não substituir o sacrifício de abster-se de chocolates, doces, vinhos, cervejinhas, esmalte, maquiagem ou bijus, por atitudes que promovam uma real melhoria comunitária?

Eis meus singelos votos para 2022:

1. Priorizar – sempre que possível – os próprios desejos e necessidades; só podemos ajudar o próximo se estivermos bem, tipo a metáfora da máscara de oxigênio nos aviões, conhecem? (“Em caso de despressurização, coloque primeiro a sua máscara para depois auxiliar a pessoa ao lado”). Pois é!

2. Não adiar mais o curso de idiomas ou as aulas de piano, aquarela ou canto

3. Voluntariar-se em instituições de acolhimento para ler para idosos ou contar histórias para crianças, por exemplo

4. Providenciar a feira do amigo enfermo ou passear o cãozinho da vizinha idosa

5. Aprender – e multiplicar – artes manuais: costura, retalhos, crochê, fuxico ou bordado

6. Cuidar da saúde mental e física praticando esportes coletivos, como tênis ou vôlei de praia; moramos num país tropical com cerca de 7.500 quilômetros de litoral

7. Fazer um balanço dos afetos: estreitar os laços benéficos e afastar os tóxicos. Felizmente os meus primeiros ganham em disparada

8. Descartar corretamente o lixo doméstico; o reaproveitamento de objetos gera um ambiente mais sustentável

9. Reduzir todo e qualquer desperdício; comprar apenas o básico e indispensável; dar preferência a fabricantes que trabalham de forma sustentável

10. Postergar viagens de lazer para depois da pandemia; há muitas opções de diversão na nossa cidade

Já sabemos que mudanças globais partem de atos pontuais. Não carece, no entanto, renunciarmos aos pequenos prazeres da vida. Eles podem ser o fôlego que precisamos para socorrer o outro. Feliz ano!

“Viver é melhor que sonhar”

Sonho com as coisas mais bizarras, adquiro superpoderes, me crescem asas potentes no lugar de braços frágeis, perco a roupa, não encontro a porta do banheiro, e por aí vai.

Noite dessas, sonhei com um jabuti. Fiquei cismada, uma vez que o bichinho de carapaça não costuma rastejar em habitats de vidro e concreto. Um amigo brincou para apostar no jacaré ou na cobra, segundo ele os que melhor se afinam na bolsa contraventora.

Em vez da fezinha transgressora, fiz uma breve consulta virtual sobre o seu significado onírico e deparei-me com vários conceitos positivos: “longevidade”; “tenacidade”; “felicidade”.

Felicidade é tudo, né? Não, não é. Desde a fala de uma filósofa contemporânea acerca das armadilhas que minam sociedades negadoras do sofrimento e da energia própria da vida, venho tentando driblar a alegria gratuita, a autoajuda enganosa, enfim, a obrigação de ser feliz o tempo inteiro. Mesmo com toda a carga, é inspirador encarar nossas aflições com coragem e transformá-las em algo útil a outros.

Para suportar a dor pela perda da minha única irmã e demais vítimas da Covid-19, coloquei mente e corpo ao capricho das letras, feito náufrago que se agarra à tábua na fantasia do resgate. Foi nesse cenário de tormenta que nasceu “Confinados”, coletânea de contos lançada um ano atrás.

Em maio último, minha editora submeteu o livro ao crivo do maior prêmio da literatura brasileira. Cheguei a duvidar das chances de uma pequena casa editorial e de uma autora tardia e pouco conhecida. Mas não custava sonhar, apesar do alerta do poeta.

Semirreclusa, prossegui de olhos bem abertos, cuidando dos meus, irrigando a esperança neste combalido país e no restante do planeta redondo, e atenta aos sobreviventes para além da minha soleira lustrosa.

Até que um par de dias após sonhar com o jabuti, fui surpreendida com a notícia de “Confinados” no rol dos dez finalistas do cobiçado prêmio. O aplicativo do celular lotou de mensagens. Abri a do amigo brincalhão: “E aí, jogou? Que bicho deu?”. Digitei com a mais genuína das alegrias em dois longos anos: “Deu Jabuti!”. E exagerei nos emojis de risos e bichinhos cascudos.

O ano em que não montei a árvore de Natal

Em 2020, por motivos compreensíveis, não desencaixotei bolas, sinos e outros adornos natalinos, rito que cumpria há 23 dezembros.

Uma tragédia sanitária sem igual corroeu as entranhas do mundo, revelando toda sorte de maldade que nos espreita.

Perdemos entes queridos, adoecemos, deixamos de fazer inúmeras coisas, e cá estamos, chegando ao fim do segundo ano de pandemia, colando os caquinhos e tentando restaurar a normalidade.

Uma breve saída à noite neste comecinho de novembro foi o bastante para perceber que o Natal já se instalou nas cercanias. Muitos prédios piscam nervosos em vários tons. Eu falei “comecinho de novembro”?

Até entendo que após quase dois anos de afetos remotos estejamos ansiosos por abraços reais, mas o respeito aos rituais é importante para a sobrevivência das culturas. Afinal, ninguém festeja aniversário meses antes da data. Parece que tudo virou comércio, consumo e lucro. Cansada disso, sabe?

Na minha infância, as luzinhas só brilhavam em dezembro. A estrela no topo da árvore era ligada apenas na véspera de Natal. À boca da noite do 24, chegávamos à casa da tia Clotilde, a irmã mais velha [e solteira] da minha mãe, uma espécie de matriarca da família e avó para mim e minha irmã.

Meus pais, ambos órfãos [meu avô paterno – único vivo – morava no interior do Ceará e raramente vinha à capital] e com somente duas filhas, atendiam com imenso gosto ao chamado da tia Clotilde, estendido a alguns aparentados e vizinhos da avenida do Imperador, região central de Fortaleza.

Com a partida da saudosa tia, meus pais juntaram-se às noites felizes dos meus sogros que, por serem de outro Estado, sem parentes em Fortaleza, abriam as portas aos novos amigos cearenses, todos muito bem-vindos.

Meu marido e eu adotamos o grande núcleo familiar após o falecimento do meu sogro. Com o correr dos anos, as gerações mais novas passaram a realizar suas próprias confraternizações, numa evolução natural da vida.

Neste ano espero resgatar a tradição da árvore de Natal, celebrar em grupo o amor maior, a solidariedade, a compaixão e o infinito apoio que recebi dos amigos e familiares nos dias mais difíceis.

A tal maturidade

Chamar alguém de imaturo é como uma ofensa inaceitável, mesmo quando o acusado tem vinte anos ou menos; que nem um herege que se recusa a “vestir a carapuça”, para evocar a expressão eclesiástica medieval que se perpetua aos dias atuais.

Estava relembrando as inúmeras vezes em que me fiei ter atingido a sensatez e o equilíbrio que caracterizam a tal maturidade.

No primeiro beijo, me considerei a própria experiência. A primeira decepção amorosa trouxe a convicção de que eu me tornara precocemente madura. O ingresso na universidade veio escoltado da certeza de vivência máxima. A graduação, a primeira grana com o meu trabalho, a gravidez dos meus filhos, as amizades desfeitas por incompatibilidade ou desamor, o falecimento do meu pai… Um rol infinito de felicidades e tristezas da fase mais jovem.

Sempre que escalava um novo degrau da maturidade, eu acreditava que seria o último, que finalmente havia alcançado o real patamar da plenitude.

Dizem que a maturidade se instala [sem quaisquer garantias, descobri aos poucos] à medida que você desconstrói e humaniza seus heróis e heroínas – pais, amigos, companheiros, mestres –, e continua a respeitá-los e admirá-los da mesma forma.

A verdade é que a maturidade está a toda hora se evadindo. Além de chegar sem avisar, parte furtiva, sem aceno ou abraço.

De repente, no esplendor da terceira idade, a gente se pega, por exemplo, julgando uma pessoa querida que não atendeu às nossas exigentes expectativas. Pronto, a danada da maturidade escapuliu de novo, levando consigo tudo aquilo que incorporamos com ela, pois nunca anda sozinha, se faz acompanhar da tolerância, resiliência, compaixão e solidariedade.

Da próxima vez que alguém lhe surpreender com uma falha ou uma decepção, reflita antes de voltar à estaca zero do crescimento humano.

Proponho, portanto, vigília permanente às constantes fugas da tal maturidade. A gente se encontra na travessia. Boa sorte pra nós.

Todos os dias são passado

A uma semana de entregar uma nova crônica para o “ArteVistas”, busco inspiração em fotos antigas de família.

Bem que eu gostaria de escrever algo leve e atual, mas em tempos de afastamento social e pouca empatia – mesmo atenuados pela brisa acolhedora de agosto no meu sertão praieiro –, o passado se mostra o melhor parceiro.

Lembro-me de uma entrevista em que o escritor amazonense, Milton Hatoum, afirma que “a literatura trabalha e reaviva o passado”. Portanto, não o lastimo, pelo contrário, louvo o passado; ele nos permite brincar com as palavras na tentativa de decifrar a alma humana.

Pego, então, os álbuns de fotografias e vou carimbando minhas digitais nas velhas páginas da infância, adolescência e juventude.

Estou nos braços da minha mãe, à frente do meu saudoso pai, boquinha prestes a soprar a primeira velinha. Uso um lindo vestido de organza azul feito pela parente modista, em perfeita composição com o laço da cabeça. Meninas vestiam azul às vésperas de 1960.

Aposto todas as velinhas sucessoras, que minha mãe não fez ali um apelo genérico, do tipo: “Que minha filha seja feliz!”. Arisca e cuidadosa como ela só, não submeteria o futuro da caçula a interpretações de divindades já tão sobrecarregadas de pedidos. Certamente encomendou os mínimos detalhes em silêncio, conforme a tradição: “Saúde, profissão digna, autossuficência, casamento por amor e filhos saudáveis”. Nessa ordem. Desejo de mãe é sagrado.

Salto treze anos e caio nas areias escaldantes do Pecém, jangadas ao fundo. Eu, irmã e primas. Férias de verão. Falar em verão no Nordeste é igual a “subir pra cima” ou “entrar pra dentro”. Não está de todo errado, mas é “over”, segundo os colonizados chiques. Excesso de coisa nenhuma.

Quatro temporadas depois e eis-me fantasiada de havaiana com uma querida amiga. Aquele carnaval ouviu meu grito de maioridade. Foi-se o arroubo juvenil, permanece a longeva amizade.

Devolvo o passado à estante e retomo a criação sem pressa do livro de gênero ainda indefinido, uma novela, talvez? Alterno com a leitura de um clássico literário. Estamos sempre trazendo o ontem. E lembrei-me novamente do grande Hatoum.

“Carpe diem”

Dia desses, ao rever “Sociedade dos poetas mortos”, renovei meu encantamento pela célebre passagem em que o professor John Keating diz a seus jovens alunos: “Carpe diem! Aproveitem o dia, garotos. Façam suas vidas serem extraordinárias”.

Desde a primeira vez que assisti o filme de Peter Weir – há três décadas –, caí de amores pelo professor fictício de literatura e o antigo conceito latino. Que jovem não gostaria de ter um mestre que o acolhesse em suas angústias e inseguranças, além de incentivá-lo a fazer as próprias escolhas? Lembro que saí do cinema abraçadinha ao Sr. Keating.

De lá pra cá, muitas mudanças. Em mim, no mundo e na prática inadequada da tal concepção. “Colha o dia”; “curta o dia”; “aproveite o momento” transformou-se em “viva impulsivamente”; “consuma tudo o que puder de uma só vez”. O resultado são adultos imaturos, que não sabem lidar com frustrações, numa busca incessante por prazeres que duram o tempo de um suspiro.

Então, qual a definição correta de “aproveitar o momento”? Para alguns poucos, permanece a ideia anterior à era cristã, do romano Horácio em seu poema de louvor à vida: aproveitar o que há de bom em cada instante, devido a incerteza do amanhã. Mas de que forma?

“Aproveitar o dia”, gente querida, é fazer coisas úteis para a humanidade. Nada com “se jogar” como se não houvesse amanhã. O nome disso é “imprudência” e “imaturidade”. É necessário, sim, dar o passo seguinte, simplesmente porque o futuro é logo ali e exige de nós sensatez e responsabilidade.

Mesmo à volta com a terrível pandemia da Covid-19, agravada pelo descaso do poder público central, torço pelo resgate de emoções singelas que dispensem dinheiro, como comover-se com o brilho da lua cheia, o horizonte colorido no pôr do sol, o canto dos pássaros, uma palavra de conforto, o sofrimento do outro, o sorriso de uma criança ou as brincadeiras de um bichinho de estimação, desde que respaldadas pelo essencial a uma existência digna.

Fazer da vida algo extraordinário é um ato coletivo de resistência. Em vez de esbanjarmos o agora com futilidades e atitudes egocêntricas, usemos a nossa potência para o crescimento e satisfação de todos e todas. Isso é “carpe diem”.

Antigo normal: nunca mais

Rifa-se antigo normal de uma vez por todas.

Quarenta minutos de faxina na mesa de centro espelhada – com gavetões e nichos –, abarrotada de objetos e livros intocáveis de capa dura.

Costas arrebentadas de tanto arrastar dois trambolhos de madeira maciça, vulgos “mesinhas de cabeceira”, para tirar o pó acumulado.

Armário inflado de roupas, sapatos e bolsas que nunca serão repetidos ou até mesmo estreados.

IPVA caríssimo para rodar menos de mil quilômetros por ano, sem contar os gastos com combustível, estacionamento e manutenção.

Horas no trânsito caótico para ir à padaria ou mercadinho do bairro, em vez de usar as passadas ou pedaladas saudáveis.

Caminhadas na esteira em ambientes fechados, morando em uma cidade plana, que transborda sol, brisa, parques ecológicos e calçadões que beiram o verde mar.

Carimbos no passaporte para destinos turísticos da moda, com suas superlotações que sufocam a alma do lugar, cultura e estilo de vida dos moradores.

Festas para ver e, principalmente, ser visto.

Amizades às pencas que não se importam um tiquinho com o outro.

Cozinha meia-boca de restaurantes e bares caros, e filas gigantescas dos recém-inaugurados.

Lamentos por desgraça pouca, como a xícara de estimação quebrada acidentalmente.

Felicidade incessante, também conhecida como alienação, demência ou ingenuidade.

Diversão com filhos|netos no parquinho climatizado do shopping, quando se tem quilômetros de orla urbanizada, com quiosques, academias a céu aberto, parque infantil, quadras de vôlei e tênis de praia, anfiteatro, ciclovia, pista de cooper e de skate. Sim, é seguro.

O medo de andar nas ruas e se apoderar das calçadas e praças.

Carros estacionados nas ciclofaixas ou nas vagas prioritárias “só enquanto” pega o filho|neto na escola.

O pouco de tolerância que ainda resta para ouvir fofoca, maledicência e desinformação, como as criminosas fake news.

Por fim, como perfeição e santidade nunca fizeram parte dos meus planos, excluem-se da rifa laivos de arrogância que, porventura, alguém detectar nessas prendas.

Abraços silenciosos

Dor física ou dor na alma, qual delas machuca mais?

Quando fraturei gravemente o tornozelo durante um treino aeróbico, cheguei a desmaiar de tanta dor. Nos quinze dias que se seguiram à cirurgia de urgência, só consegui tirar breves cochilos. Foram sete meses muito difíceis até a completa reabilitação.

Relembro esse fato por dois motivos: nesse próximo domingo completam dois anos do ocorrido; e por mais doloroso que tenha sido, não se compara à dor profunda pela perda, no ano seguinte, da minha única e querida irmã para a COVID-19.

A dor na alma, essa parece que nunca passa. Ainda mais quando potencializada pelo luto coletivo que ora vivemos, pela inépcia e escárnio do poder público central frente à pandemia, o inadmissível adiamento na compra de vacinas e o consequente atraso na imunização da população.

Embora incomparáveis, ambas são dores que, no primeiro instante, parecem insuperáveis, mas vou me esquivar aqui de falar somente em superação. Porque antes de superar qualquer dor, é necessário ser acolhido nessa dor.

Quando se está sob intenso sofrimento – físico ou espiritual –, tudo o que não se quer ouvir é que “vai passar”, expressão até simpática mas que pode denotar indiferença à dor alheia. É como se lhe dissessem: “Pare de se lastimar, você não é o único ser que sofre”. Desfiar experiências similares superadas – na maioria das vezes, muito mais graves – também não vai ajudar a quem sofre. No fundo, todos sabemos que tudo passa, que nada é para sempre, nem as coisas ruins nem as boas. Mas apressar o processo para quê? Não existe vida sem sofrimento e cada pessoa tem seu próprio tempo e modo de reagir a ele.

Dizem que o sofrimento contribui para o crescimento humano [e deve ser mesmo], como inúmeros outros sentimentos também contribuem, mas eu prefiro enxergá-lo apenas como natural à existência. É preciso, portanto, parar de negá-lo. Só assim seremos capazes de enfrentá-lo e superá-lo no momento certo.

Enfim, se você não é especialista em comportamento – como também não o sou –, ao se deparar com as dores de alguém, apenas o acolha em silêncio, com um abraço, sem comentários ou julgamentos.

“É muita coincidência”

O novo quadro do Fantástico, que traz um pouco de leveza a esses tempos sombrios, me fez lembrar de um episódio em Paris envolvendo um casal cearense e um célebre chef francês.

Foi em novembro de 2016. Eu passava uma curta temporada na França dando vida à Joëlle, heroína francesa do meu romance “O segredo da boneca russa”, quando meu marido chegou do Brasil para alguns dias de férias.

Coloquei o processo literário no modo espera e saímos os dois abraçadinhos pelas ruas medievais de Saint-Germain-des-Prés em direção ao carrefour de l’Odéon. Ele queria entregar, sem demora, a cachaça que trouxera do Ceará para o chef Yves Camdeborde. Apaixonado por cozinha, meu marido adora se conectar com os cozinheiros dos seus restaurantes favoritos. Entramos no bar-restaurante – lotado àquela hora – e tentamos nos aproximar do disputadíssimo balcão.

Para tu-do! Chef celebridade, restaurante famoso, clientes sem reserva, balcão… Explique melhor, s’il vous plaît! Parece estranho para o imaginário gourmet, mas essa é exatamente a proposta das três casas “Avants-Comptoirs” de Yves Camdeborde, considerado o precursor da “bistronomia”, conceito de porções autorais a preços mais acessíveis. Truques de mentes inovadoras e criativas para contornar as recorrentes crises econômicas deste início de século.

Camdeborde teve a brilhante ideia ao se deparar diariamente com as filas que se formavam à hora do almoço na sua “La Brasserie Le Comptoir” [localizada no térreo do seu charmoso hotel “Le Relais Saint-Germain”; à noite, a brasserie se transforma em restaurante com menu surpresa, elaborado com produtos frescos de alta qualidade para uma clientela agendada bem previamente]. O gênio montou, então, dois barzinhos colados à brasserie, sem bancos, cadeiras ou mesas; apenas um grande balcão para servir os tais petiscos finos, harmonizados com bons vinhos em taças. Se era para esperar em pé por uma mesa incerta na brasserie, que fosse em grande estilo. [Em tempo: estávamos no “Le Comptoir de la Terre”, o primeiro dos três “Avants-Comptoirs” parisienses].

Enquanto saboreávamos as deliciosas entradinhas [amuse-bouches], indaguei ao funcionário simpático que atendia no balcão se o chef Camdeborde estava na casa. Ele me fitou surpreso e respondeu afirmativamente. Esclareci que éramos brasileiros, fãs da gastronomia do Camdeborde, e perguntei se ele poderia entregar ao patrão uma cachaça que meu marido acabara de trazer do Brasil. Para nosso espanto, ele disse que ia chamar o Camdeborde para que entregássemos o souvenir pessoalmente.

Minutos depois, aparece o Camdeborde acompanhado de uma bela jovem. Transcreverei a seguir o colóquio para expressar fielmente a dimensão do inesperado fato:

Bonjour à vous! – Camdeborde nos saudou.

Bonjour, M. Camdeborde! Enchantés. Je suis Celma et voici mon mari, Antônio – apresentei a mim e meu marido.

Enchanté! – Camdeborde retribuiu. – Je vous présente Nicole.

Bonjour, Nicole! Enchantés! – saudamos a jovem.

Expliquei-lhes no meu francês intermediário, que eu estava em Paris escrevendo um livro, e que meu marido acabara de chegar do Brasil com uma cachaça artesanal premiada – de fabricação própria – especialmente para o Monsieur Camdeborde.

– Podem falar em português, eu sou brasileira – Nicole falou em tom quase inaudível, mas com visível satisfação.

– Que maravilha! – meu marido e eu dissemos ao mesmo tempo.

– Vocês são de onde? – Nicole manteve o tom moderado.

– Somos do Nordeste – meu marido respondeu.

– Também sou! Ils sont du Nordeste! – ela traduziu para Camdeborde, em tom levemente mais elevado. – De qual lugar? – ela prosseguiu.

– Ceará – respondi.

– Não acredito! Também sou do Ceará! Ils sont du Ceará! – ela gritou [para os padrões franceses], saltitando ao lado de Camdeborde.

Camdeborde arregalou os olhos e, já de posse da garrafa de cachaça, leu o rótulo em voz alta, dobrando os erres e enfatizando as últimas sílabas: “Cachaçá Cedrrrô do Libanô, São Gonçalô do Amarrrrantê…”

– São Gonçalo??? Crois pas! C’est a cotê de mon village! – Nicole interrompeu o chef aos saltos, gritando até para os padrões brasileiros.

– Qual a sua cidade? – perguntamos ao mesmo tempo.

– Paracuru – ela respondeu.

– Inacreditável! – foi a minha vez de pular, gritar e dar-lhe aquele abraço brasileiro. – Nossa fazenda, onde a cachaça é envelhecida e envasada, fica a meio caminho entre São Gonçalo e Paracuru. Vamos sempre na sua cidade caminhar na praia. Seus familiares moram lá?

– Sim!

– Como veio parar aqui, Nicole? – perguntei, invasiva, infringindo os sisudos códigos locais [jornalista nunca tira férias].

– Casei-me com um francês, o Baptiste, filho do Monsieur Camdeborde, trabalhamos aqui – ela respondeu sorrindo, apontando discretamente para o funcionário do balcão que arranjou aquele encontro inusitado.

Baptiste divertia-se à curta distância com a cena, sem imaginar o grau de conexão que se operava entre seus familiares e aquele desconhecido casal brasileiro. Mais parecia um reencontro de velhos amigos.

Tirei da bolsa um exemplar de “Viver, simplesmente”, uma coletânea de crônicas, artigos e reportagens organizada por minha editora para celebrar os meus sessenta de vivências, autografei para a família Camdeborde e abri na página 216, exatamente no capítulo “Trinta motivos para não sair de Saint-Germain-des-Prés [e arredores]”, que destacava os amuse-bouches do “L’Avant Comptoir” entre as delícias imperdíveis do charmoso bairro na margem esquerda do Sena. O chef-estrela agradeceu os mimos, tirou selfie conosco e saiu apressadamente; estava atrasado para o preparo do menu gastronômico daquela noite no seu exclusivíssimo “Le Comptoir du Relais”.

Difícil eleger a nossa maior alegria naquele início de tarde de outono: cumprimentar pessoalmente o famoso chef francês ou conhecer sua nora cearense. [Atualizando: Nicole e Baptiste não estão mais juntos].

Pensando aqui em enviar essa história para a produção do Fantástico. Posso até anexar uma sugestão de sinopse: “Casal cearense entra em um bar-restaurante francês que costuma frequentar quando está em Paris; pede ao barman que entregue ao proprietário [famoso chef francês que o casal só conhece através da mídia] uma cachaça premiada trazida do Brasil; o dito cujo aparece com uma jovem intérprete nascida numa cidadezinha cearense, na mesma região da fazenda do casal, local de origem da cachaça premiada; a jovem cearense era funcionária no bar-restaurante parisiense, nora do chef celebridade e casada com o tal barman”.

Sabe o que isso significa, Tadeu Schmidt? Tudo, né? Uma tremenda coincidência!

Fitas pretas

No funeral do meu avô, meu pai alfinetou uma fita preta na lapela, símbolo de luto pela perda do ente querido.

A cena fixou-se na minha jovem retina, por ter sido talvez o meu primeiro contato com a morte de um familiar. Meu pai permaneceu com seu adereço de pesar por um longo período. À época, apenas as mulheres enlutadas trajavam-se completamente de preto. As crianças, de modo geral, eram liberadas da convenção.

Essa lembrança afetiva emergiu após me deparar dias atrás com a imagem de fitas pretas amarradas à tela de proteção da varanda de uma amiga virtual – status que em nada invalida a minha concreta admiração por seus posicionamentos.

Tratava-se de um manifesto de luto coletivo diante da assustadora marca de trezentas mil vidas brasileiras perdidas para a COVID-19 em doze meses. Trezentos mil pares de olhos que não mais piscarão à luz do sol, trezentos mil corações que não mais se inspirarão sob a lua cheia, trezentos mil pares de mãos que não mais afagarão rostos amados, trezentas mil bocas que não mais sorrirão ou beijarão, trezendas mil pessoas que não abraçarão mais os pais, avós, filhos, netos, irmãos, sobrinhos e amigos.

A triste alegoria da fitinha preta na lapela agiganta-se na tragédia que ora vivemos. Dizer que a morte é natural não conforta quem perdeu um, dois, três ou mais parentes para a terrível doença. É, antes, de uma monstruosidade sem limites e total falta de empatia, atitude própria de mentes doentias. É desesperador ver dezenas de milhares chorando familiares que poderiam estar vivos se tivesse havido, por parte das autoridades competentes, controle imediato e rígido ao uso de equipamentos de proteção, celeridade na aquisição de vacinas para imunização em massa da população e ajuda financeira contínua aos mais vulneráveis, como muitos países o fizeram e ainda fazem.

Na ausência de vacinas para todos e de auxílio emergencial suficiente, só nos resta a autorreclusão e doses de solidariedade. O que mais precisa acontecer para entendermos que a “vida normal” anterior à pandemia do novo coronavírus – encontros com amigos, viagens, farturas e megacelebrações – não combina com esse momento de dor coletiva? Chega de falsos discursos de compaixão e pseudodilemas entre salvar empresas ou vidas. É preciso dar um basta aos que estimulam desobediência civil ao confinamento obrigatório responsável, aglomerações e brindes macabros à morte de brasileiros dos grupos prioritários, principalmente.

Em vez de perdermos tempo rebatendo provocações, vamos exigir do poder público federal providências emergenciais para tentar salvar o emprego de trabalhadores e livrar da fome os mais necessitados. E também reverter erros e omissões de 2020, como o atraso na compra de vacinas, a inexistência de um plano nacional de imunização e a incitação a manifestações de rua que proliferaram o vírus exterminador.

Enquanto toda a população não for vacinada, a prioridade continua sendo salvar pessoas. Economia de nenhum país sobrevive a quase quatro mil mortes diárias somente por Covid-19, entre trabalhadores e consumidores em geral, incluídos operários, professores, médicos, estudantes, enfermeiros, advogados, artistas, informais, desempregados, aposentados, profissionais liberais, empresários, comerciantes e políticos.

Precisamos assumir que estamos em guerra contra um único inimigo: o vírus, que, se não for combatido, vai continuar matando pessoas e eliminando empregos dos [ainda] vivos. Ficar um ano – ou mais – confinado – total ou parcialmente – é ético, é obrigatório, é dever de todos. Caso contrário, não haverá amanhã.

Vamos refletir e rever nossos atos, antes que o futuro reivindique a nossa responsabilidade. A cobrança pode vir de um filho, filha, sobrinho, sobrinha, aluno, aluna, neto ou neta: “Como você contribuiu para salvar vidas na pandemia de 2020 e 2021”? Ninguém vai perguntar se salvamos empresas.

Qualquer ação é válida. Até amarrar uma fitinha preta na tela da varanda para demonstrar que a gente se importa com a dor do outro e que as vítimas não serão esquecidas.

*

Imagem: Regina Dalcastagnè