Dois anos de artevismo

Bem no comecinho da pandemia que ainda nos assombra, recebi um convite para abraçar um Lugar que respira cultura, afeto, arte, talento e coragem.

À época, minha família – como tantas – passava por uma tempestade que culminou na perda da minha única irmã para a Covid-19, o que me levou a adiar o “Sim”.

Meses mais tarde, em ato de resistência, publiquei o primeiro texto mensal. Hoje trago o vigésimo quarto, uma comprovação de que vida é energia e partilha.

Nesses dois anos, dividi com queridos leitores e leitoras minhas angústias e regalos. Tento provocar alguma reflexão e alertar para a importância de aprender a lidar com o sofrimento. A temática varia conforme o momento: ora triste, inconformada e revoltada; Ora alegre, resignada e paciente.

Já escrevi sobre as pequenas inutilidades que nos sustentam; Que devemos encarar os desafios com seriedade; Da obrigação de respeitar pensamentos divergentes; De recomeçar, apesar dos infortúnios; Sonhar o impossível; O direito de manter a casa em desordem; Que a luta feminista gera um mundo mais justo; De cuidar de quem padece; Não negar a própria dor, mas sim evoluir a partir dela; Valentia para desistir do que não faz mais sentido; Participar de algo que beneficie a coletividade; Entregar-se a memórias leves quando o presente estiver muito pesado; Julgar menos é sinal de maturidade; Insistir na esperança ativa; Aproveitar as boas surpresas; Priorizar-se nem sempre é egoísmo, é preciso fortalecer-se para amparar o outro; Praticar o desapego faz um bem enorme, uno e plural; Esperançar de novo e sempre porque o dia mais potente – e feliz – ainda virá; Inspirar-se na força do amor; Aceitar o envelhecimento é florescer; Do perigo de conviver apenas entre iguais; E que as mudanças são necessárias e inevitáveis.

Renovo hoje votos de amizade e gratidão com o nosso ArteVistas pela oportunidade de falar livremente acerca das minhas próprias vivências, e torço que elas possam ser úteis a alguém.

Ainda há caquinhos espalhados, o mosaico não está completo e nem sei se estará um dia. De certeza mesmo, só o desejo de seguir, de cultivar o riso e o convívio.

Meu tempo é agora

Junho mal acabou e já estou com saudade das quadrilhas, milho assado, canjica e pé de moleque.

Saudosa, não saudosista! Cultivo o desapego ao ontem. Prefiro o mundo contemporâneo, com suas modernas ferramentas tecnológicas e avanços científicos que nos facilitam a vida, curam doenças graves e chacoalham convicções.

Por outro lado, semeio memórias de risos, afetos, objetos, lugares e sabores, enquanto acolho os costumes ancestrais com seu linguajar e manifestações próprias, sem rejeitar as inevitáveis mutações.

As quadrilhas juninas são unanimidade como tradição a ser mantida, embora muitos torçam o nariz conservador para as recentes variações. E se eu disser que essa dança, como tudo na vida, está em constante evolução? A quadrilha da nossa saudosa infância era uma releitura da releitura, capaz de fazer eriçar os fios brancos das cabeleiras postiças dos fidalgos europeus de três séculos atrás.

Importamos uma dança aristocrática francesa para os salões monárquicos brasileiros que, na sequência, espalhou-se para a zona da mata, agreste e sertão nordestinos, associada à colheita e aos santos católicos de junho. Uma transformação que prossegue porque cultura é como linguagem, algo vivo que acompanha as mudanças sociais. Uma comprovação prática? Ninguém mais fala “vossa mercê”. Nem a nobreza masculina europeia usa mais peruca branca com cachos.

Temos, obviamente, que zelar os hábitos locais e a norma culta da linguagem quando a esfera e o contexto assim exigirem. Nas redes e mídias sociais, destino deste escrito, posso [e devo] espalhar pitadas de descontração. Nos aplicativos de mensagens instantâneas – como “Whatsapp” ou “zap” –, as abreviações e “emojis” dão o tom. No Jornalismo, minha área, utilizamos linguagem mais formal. Enfim, expressar-se com maior ou menor (in)formalidade vai depender do suporte, do meio e da profissão.

Adaptamos o figurino da “quadrille” original e renomeamos os movimentos “En avant tous!” | “En arrière!” para “Anavantu!” | “Anarriê!”, somados aos regionais “Olha a cobra!”, “Olha a chuva!”, “Caminho da roça!”, e outros abalos que ainda virão.

Vivam as mudanças! Um “Salve!” à cultura popular.

Liberdade ou ofensa?

É maravilhoso conviver apenas entre pensamentos iguais, não é?

Não, não é. É perigoso, abusivo e pode desabar para o totalitarismo, que fere de morte democracias e liberdades.

Perdi a conta das vezes em que cogitei me afastar dos contrários, felizmente recuei a tempo. Onde ficaria a verdadeira igualdade, sem distinções ou privilégios, que tanto defendo?

A vivência nos universos cultural e jornalístico alargou meus horizontes, trouxe-me novos afetos, debates calorosos, porém educados. Preparou-me, enfim, para trafegar por várias esferas.

Reconheço-me nas pessoas religiosas, embora a minha espiritualidade não se encaixe em uma prática institucional específica. Identifico-me também com aquelas que se definem conservadoras, a despeito da minha mente progressista. Aceitação mútua, diga-se. A única coisa inaceitável é a afronta à democracia, pelos altos danos coletivos. Como isso termina, todos sabemos, basta abrir os livros de História.

Muito fácil detectar o risco. Nos regimes autoritários, o primeiro pilar golpeado é a imprensa que apura e divulga denúncias de atos não republicanos de governantes. Desacreditar a imprensa é pena capital para as democracias. A sociedade tem o direito de saber o que acontece nos bastidores do poder e nós, jornalistas, temos o dever de informar.

Como cidadãos civilizados, é preciso reconhecer as fronteiras da livre expressão. Há uma faixa movediça entre o direito legítimo de se expressar e o ataque à honra de alguém. Somos livres para manifestar a nossa opinião, todavia se o fizermos de maneira violenta ou difamatória, estaremos cometendo um crime e responderemos por isso na justiça. Fora disso é o caos.

Democracias suportam diversidade. Não há o que temer. E quem for “cancelado” por expor respeitosamente seus pontos de vista, deve agradecer aos céus pelo livramento do convívio com extremistas que cortejam o fascismo, mal sempre à espreita, mas derrotado infinitamente.

Em tempo: este não é um texto analítico, pouco entendo de ciência política, contudo as mudanças mundiais que ora ocorrem são bem perceptíveis e preocupantes, atingem a todos e dizem respeito às nossas vidas.

Minha amiga violência,

Tu flertas comigo desde tão cedo, né? Quando cheguei tu já fazia morada e sentava na cabeceira, como convidada de honra. Não lembro exatamente a primeira vez que nos vimos frente a frente, mas lembro-me bem do medo que sempre tive de ti, mesmo quando a vejo pulsando em mim. 

Tu tens sempre os mesmos olhos e o mesmo timbre base na voz, independente do soprano, contralto, barítono, ou grave da voz humana que te é posse, que tu faz parte.  Outro dia dancei, como se fosse o Rio Jaguaribe um de nossos encontros, daqueles que deixam memórias inesquecíveis no corpo/alma. Dancei para liberar, para partiturizar, dancei porque dançando me alcanço em lugares que adestrei minha mente para não acessar., o bom é que hoje te reconheço mais rápido. Outro dia te vi no rosto de uma colega, acho que ela nem percebeu que você tomou a frente, o protagonismo. Te vi já em muitos rostos, das mais diversas idades e muitas vezes no meu próprio.

Um dos nossos encontros mais marcantes, foi em uma trans linda, típica dos anos 90, ali na frente do Domínio Público e Órbita Bar ela me olhou, ela me viu e eu a vi e você estava lá, me olhou, mas não era eu seu foco. Mas… Eu te via, e mesmo hoje quando rememoro esta cena, chego quase a ver seu rosto violentado, pois tu, tu querida é o resultado dos afetos tristes, que geram ódio que te produzem violência(s). 

Já te vi em tantos rostos, e também nos meus, nos rostos que me vestem, dos que  eu dou conta para o momento. Como escreveu um amigo sobre mim, “vivo meus momentos e mesmo quando o tempo aperta faço questão de ser feliz. Sabe porque querida violência? Porque te aceito e reconheço seu papel no rolê, só não desejo mais te permitir protagonismos na minha história, a senhora já roubou muita cena por aqui, e eu sou criativa, sou boa em transformar, em (des)construir, em mudar, de rumo, cidade, vida, perspectivas, corpos, lugares de existência. 

Sabe o que percebi outro dia? Que meu corpo codificou-te como ato de amor, creia, felizmente fui e sou salva por minha essência e pelas artes que me rodeiam e não me permitem aceitá-la, minha cara. Tenho hoje consciência que pelo justo equilíbrio da substância, posso viver longe de ti, ao percebê-la mesmo quando invade a casa, por outros corpos externos ao meu.

Não te quero mal, apenas não te quero mais. Flertarei contigo de longe, apenas para conhecer com antecedência sua chegada, e não mais para oferecer-te a cadeira de honra, mas apenas a permanência para estar, por ter consciência que és parte de mim, do todo e até em ti existe Deus.

Roberta Bonfim 09 de maior 2022

Ideias também envelhecem

Gosto muito do exercício de revisitar meus antigos escritos para conferir se minhas ideias evoluíram de alguma forma. 

Escolhi dessa vez um texto de forte valor afetivo que inspirou o título da coletânea de crônicas e outras narrativas [“Viver, Simplesmente”], lançada em 2016, mimo da minha editora pelo meu ingresso na chamada terceira idade.

Trata-se de tema espinhoso – a morte – abordado bem antes de vivenciarmos uma das maiores tragédias sanitárias do planeta que dizimou mais de seis milhões de pessoas no curto espaço de dois anos, o equivalente à população todinha do estado de Goiás, sendo o Brasil o segundo país com mais mortes por Covid-19 no mundo, atrás apenas dos EUA.

Transcrevo a seguir alguns trechos:

“Viver desapegadamente para não sofrer com afastamentos ou viver intensamente e sofrer – mais intensamente ainda – com os afastamentos inevitáveis? Fiz essa pergunta dia desses para alguém bem próximo e a singeleza da resposta me surpreendeu: ‘Viver, simplesmente’.

A Tanatologia, ciência relativamente nova que estuda a nossa relação com as perdas – incluída aí a mais traumática delas, a morte –, afirma que o sentimento ou ‘luto’ causado pelo desaparecimento de um ente querido – potencializado, quando em caso de mortes prematuras – lidera a lista dos maiores sofrimentos de grande parte da humanidade. Mesmo para os que afirmam crer na eternidade da alma, a dor da perda – de um filho, por exemplo – é insuportável e, muitas vezes, insuperável.

Não me sinto imune, e também não escondo o medo, mas gostaria muito de aprender a encarar a morte da forma mais natural possível. Aceitar que tudo se acaba, que nada é para sempre”.

Tanta coisa vi e vivi nesses últimos dois anos, perdas, decepções e sofrimento. Mas descobri também solidariedade e compaixão. Assim como o corpo, a mente acumula rugas, flacidez e manchas. Envelhecer, contudo, pode ser bastante positivo, na medida em que traz maturidade e aceitação. É remoçador perceber que não sou mais a mesma pessoa de anos atrás, que adquiri novos valores e passei a enxergar o mundo sob outros prismas.

Terapia de Escada

Por Roberta Bonfim

Data: 10 de agosto de 2011.

A que mora na casa vermelha – Ele: Péricles, 36 anos; construiu um pequeno império por ser bom, do tipo muito bom em informática  e só nisso. Tendo muito, sem ter ninguém e decidido a se matar pensa sobre ter um filho, com isso lembra-se da sua relação com seu pai e porque evitou por tantos anos formar uma família. – Ela: Raquel, 32 anos; pensa e sofre com o pedido de seu pai que lhe dê um neto, pensa e sofre o tempo todo por sua relação com o pai, ou a falta dessa relação, pensa e sofre com sorriso no rosto, não se permite se negar a ninguém, não quis aprender a dizer os nãos que sempre teve sem ouvir. – Eu: Eu sou a que mora na casa vermelha, e tudo que eu queria naquela quinta feira era dormir. Mas como? Se eu precisava escrever uma história de verdade para ver no que dava. E logo naquele dia eles se encontram nas escadarias da Lapa. A Lapa foi à escolha por ser sinônimo de poucas desculpas e muitas diferenças. Ele crescerá no rio, mas nascerá em outro lugar, ela sempre estivera ali. Raquel gostava de cantar e Péricles teimava em tocar violão e assim nas escadarias da Lapa pensavam e esqueciam suas muitas questões, ali se sentiam jovens outra vez. Da troca de olhares, o encaixe entre voz e violão e aquela música que diz: “Você diz que seus pais não te entendem, mas você não entende seus pais…” Mais uma troca de olhares, até que Péricles toma a iniciativa de chamá-la pra outro lugar na escada mesmo. Eles sobem um pouco e sentados olhando para baixo, observando pessoas ela diz:

Raquel– Eu sempre andei aqui, vinha com minha vizinha, meu pai pagava ela pra trazer a gente pra brincar de subir e descer escada, umas dez ou 15 vezes, todos os dias, Truque para que chegássemos em casa tão cansados que nem falássemos, nem comecemos e nem pedíssemos atenção, eles estavam ocupados demais para serem pais, e nós… (Pausa – sorrindo meio desconcertada) Nós, bem gostávamos da brincadeira de descer e subir. Aqui nem era tão belo, era apenas uma escada, nosso brinquedo de cansar… (virando-se pra ele) E agora ele me olha na cara e implora para que eu tenha um filho, para que Ele (ênfase) possa se certificar que é um homem melhor, que será melhor avô que pai. (Péricles sorri, vendo na sua frente a chance clara de ser pai, Raquel é a mulher certa para ser a mãe de um filho dele – Tenta falar, mas Raquel nem percebe) Eu na verdade penso que ele esteja querendo continuar a brincadeira de me cansar, para que eu não queira nada além do permitido, do que sobra. (Péricles tenta falar em vão) Mas sabe, estou cansada de sobras. Restos de tempo, pano, roupa, pai, amor, escolhas.

Ambos – Restos!

(sorrindo se olham e como se houvesse sido feito um pacto de desabafo, era a vez dele falar)

Péricles – Eu sempre usei essa escada pra terminar relacionamentos, nunca namorei uma mulher que gostasse de vim aqui, então, sempre que fico de saco cheio as trago e me deixo curtir a brincadeira de voltar a ser adolescente. Tá vendo aquela loira de vestido azul, lindona? Pois é, ela amanhã não me liga mais, principalmente depois de eu a ter deixado lá em baixo. E me desculpe, mas se estamos falando verdades; você não é o que podemos chamar de mulher bela. Mas eu estou feliz de está aqui trocando essa idéia com você. Sei lá! Chego a ter a sensação que já te conheço. (Raquel ouve tudo olhando pra baixo, busca a loira e se questiona sobre quem é mais bela, ela ou a outra e o que é a beleza? São pensamentos). 

Raquel – Não nos conhecemos e eu tenho certeza disso, é exatamente por que não nos conhecemos que estamos sendo tão honestos, é mais fácil sermos quem somos com estranhos que cheios da ignorância genial dos desconhecidos não criam falsas realidades e nem se frustram com nossas imperfeições. Eu não sei nada sobre você, não conheço a loira lá embaixo e nem a acho lindona. Nunca te vi na minha frente, mas sei que você pensa e sofre mais que eu. 

Péricles – Quer ter um filho comigo? Ou melhor, quer ser mãe de um filho meu?

(Raquel sem reação, esboça palavras que não saem, seu corpo diz muito sem nada dizer e Péricles apenas a olha, tranqüilo respeita e espera seu tempo).

A que mora na casa vermelha – Nunca vi isso, eles nunca se viram antes e ele olha pra cara dela e diz: Quer ser mãe do meu filho? Me deu uma vontade de aparecer e dizer que eu aceitava e eu até sou bem ajeitadinha. (sonha) Ai! Um filho nosso seria lindo, já conseguia me imaginar grávida dele, sendo bajulada… E comigo ele teria de arrumar outro lugar para finalizar a relação, pois as escadas eram meu lar. Talvez em um baile socity. Mas foi a ela que ele pediu pra ser a mãe de seu filho, muito provavelmente seu único filho e se tudo corresse como o desejado, seria um filho sem pai, mais um filho sem pai.

Raquel – Sempre gostei de música francesa, amores platônicos, sempre amei dizer que moro em mim, mas preciso admitir que nem tão assim. Ter um filho não é um sonho um mas de meu pai, que mesmo quando eu pedi não esteve comigo, ele podia ter morrido antes mesmo de eu nascer, essa talvez foi a única forma de ele ser um pai maravilhoso, pois seria um pai morto e nós santificamos os mortos, entendemos suas falhas e…

Péricles – Você acha mesmo que o melhor seria um pai morto, eu também penso assim. Só tenho três lembranças de meu pai, ele me colocando na cacunda e caminhando na praia, eu fui muito feliz nesse dia. Lembro dele olhando pra nós dizendo que estava vindo pra cá PR melhorar de vida e depois iria nos mandar as passagens, nunca mandou. Minha mãe que acreditando e justificando tudo, quis crer que ele nos esperava.

Raquel – E a terceira lembrança?

Péricles – Ele bêbado andando aqui pela Lapa. Nos olhou e fez de conta que não nos viu e foi tão forte em sua ação, que mesmo a paixão de minha mãe não lhe tapou os olhos. 

Raquel – Então como seu pai, aqui você abandona suas mulheres? 

Péricles – Nunca havia pensado sobre esse prisma. Mas sempre deixei claro que não acredito no pra vida toda. Mas me diga: Você acredita que melhor pai seria o seu morto?

A que mora na casa vermelha – Ele voltava ao assunto do pai, precisava ter certeza que ela acreditava nisso, pois se acreditasse certamente aceitaria ser a mãe de seu filho.

Péricles –  Você quer ser a mãe do meu filho? Não vou desampará-lo, mas também não estarei presente a idéia é que eu morra alguns meses antes dele nascer, mas até lá encherei vocês de amor e você vai poder realizar o sonho do seu pai e o seu. Dará o neto que mostrara que ele mudou e quem sabe o ensine a ser também um pai melhor pra você, que terá sua casa e uma empresa que nesse meio tempo te ensino a administrar junto com meu irmão e melhor amigo Pedro. 

(Raquel rir e desconcertada pede desculpas)

Raquel – Perdoe-me é que você se chama Péricles e eu seu irmão Pedro. Sua mãe gosta de nomes que lembram homens fortes.

Péricles – Meu nome foi escolhido por meu pai, que ainda dava maravilhosas aulas de histórias e dizia que eu assim como o grego, eu seria repleto de glórias. (Pausa) A gloria de não tê-lo, a glória de viver ao lado de uma mãe que sempre que me olhava chorava por lembrar-se dele, a glória de crescer longe do meu irmão, por que minha mãe não conseguiu trazer a nós dois. Glória…

Raquel – Estamos próximos da Glória, quer ir caminhando até lá? (Rir na tentativa de minimizar a tensão e consegue, Péricles rir e responde que não com a cabeça).

Raquel – Eu poderia te falar sobre todos os meus problemas, minha incapacidade de acreditar… Em mim, mas, como eu já te disse você pensa e sofre mais que eu. (pausa) Não tenho certeza se seria saudável para essa criança ter pais que pensam e sofrem tanto assim. (rir quebrando de vez o clima de tensão)

(Péricles olha para todos em baixo e busca as mãos de Raquel que também esta a observar os boêmios da escada).

Raquel – Longe de mim fazer inferno, mas acho que sua namorada parece ter se enturmado muito bem. Essa deve gostar mesmo de você, ou simplesmente ser mais esperta do que você julgava. Eu tenho que ir, já chega de terapia da escada por hoje.

Péricles – Como assim, terapia da escada? E você não vai quer ser a mãe do meu filho.

Raquel – Como te disse venho aqui desde sempre e já encontrei gente de todo tipo por aqui. Também falo meus problemas e volto pra casa mais leve, para aguentar submissa o silêncio do meu pai. Não seria má idéia ser mãe de um filho seu, vamos conversar mais a esse respeito. Te encontro na próxima quinta para próxima seção?

(Raquel levanta-se e sobe as escadas com uma leveza de quem nem sente os degraus, Péricles a observa subindo)

Péricles – Próxima quinta as 20hrs e pode se preparar, pois será a mãe do meu filho.

(Péricles após acompanhar todo percurso de Raquel, sorrir lembrando-se dela e percebe-se já saudoso).

A que mora na casa vermelha – Como boa espiã que sou comecei a observá-los todas as quintas feiras, teve uma em que ela não foi e ele sentiu tanto sua ausência que a pergunto mudou.

(Eles anos depois sentados nas escadarias com duas crianças brincando de cansar.)

Roberta Bonfim

Cartas de amor

Bombardeada por notícias trágicas, busco abrigo numa história de amor que resistiu a tudo e todos com troca de cartas.

Não as cartas dos versos modernistas de Álvaro de Campos, em pessoa (com desculpas ao eterno Fernando pelo trocadilho efêmero): “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas (…)”.

A formação rígida que se perpetuou até meados do século vinte afastou o quanto pôde dois jovens apaixonados. O rapaz protestante de origem simples não teve permissão para namorar a moça católica de tradicional família. Os dois decidiram então que o amor venceria qualquer obstáculo.

Conciliadores, descobriram uma maneira de sobreviver sem causar rupturas familiares: através da troca de cartas de amor ao longo de sete anos. Mas como fazê-las chegar ao destino?

O jovem escondia suas cartas debaixo de uma pedra, na frente da casa dela, durante o trajeto diário depois do trabalho. Ela o espreitava à janela, ao lado de um sobrinho que, mesmo criança, manteve o segredo da tia.

Dentro de cada carta ele colocava um raminho de jasmim-leite, trepadeira cultivada em todas as casas que habitaram após o almejado enlace.

A jovem, por sua vez, convencia tripulantes do Lloyd Brasileiro a postarem secretamente uma carta em cada porto, de Norte a Sul, nos cruzeiros de verão na companhia vigilante da mãe.

Quando as barreiras foram eliminadas, viveram 44 felizes anos até que a morte os separou. As cartas secretas foram enterradas com o primeiro que partiu, honrando um pacto do casal. Ela mesma as depositou na urna funerária do seu único amor.

Voltando aos versos portugueses, o sujeito lírico se redime ao fim do poema: “(…) Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”.

Escrevi esse texto em um momento em que é preciso resgatar o amor e reimaginar um mundo melhor. Se isso é ser sonhadora e ridícula, visto a carapuça com muito orgulho.

Ia esquecendo de contar que plantei na fazenda uma muda de jasminzeiro que perfuma nossas noites sertanejas e mantém viva a memória do amor de Luiza e Joel, meus sogros.

O dia mais feliz

“Qual o dia mais feliz da sua vida?”. A pergunta vaga aparece nos minutos finais da minissérie que assisti numa plataforma de streaming nesse quase feriado momino.

Mas foi a resposta encantadora da protagonista que não me saiu da cabeça: “O meu dia mais feliz ainda não aconteceu”.

O fato de a personagem ser bastante jovem talvez explique o mundão de felicidade que a espera, mas é animador acreditar que o dia mais feliz ainda está por vir.

Na minha já extensa jornada, eu poderia listar facilmente vários mais felizes dias – e também mais tristes –, mas vou me ater a uma amostra dos primeiros.

Começo pelas férias juvenis na praia do Pecém, quando minha mãe nos incentivava a convidar duas ou três amigas. Passávamos o dia inteiro naquela imensidão branca de areia e dunas: banhos de sol e mar pela manhã, esquibunda e vôlei à tarde, e luarada ao anoitecer, com ou sem lua.

Incluo na trilha feliz a aprovação no vestibular; um universo extraordinário despontou para a menina de 17 anos que se sentiu, de repente, adulta.

A primeira colação de grau e a largada de dois corações apaixonados e entrelaçados em sonhos e aventuras, ocorridas ambas ao mesmo tempo, trouxeram alegria e exigiram mais responsabilidade.

A recompensa primeira do primeiro trabalho na área escolhida.

A emoção mais intensa que nunca acaba: o nascimento dos filhos e, décadas mais tarde, a chegada dos netos.

O dia tenso e feliz do desembarque com minhas crianças em outro país para uma prolongada estadia. Tudo o que eu aprendera até então seria desconstruído e reconsiderado. Foi como nascer de novo.

A inauguração do refúgio sertanejo em virada de ano, com nossa familinha, meus saudosos pais e mais gente querida.

As celebrações por qualquer motivo com amigos e amigas.

Os lançamentos dos meus livros que encerram longos períodos solitários de criação.

Acrescento, por fim, a partilha de conhecimento, afeto e senso de coletividade em ambientes culturais e literários que resultam, entre outras ações, na doação de pequenas bibliotecas a comunidades.

Que o nosso dia mais feliz esteja sempre por vir.

Em tempo: A quem interessar, a minissérie de dez episódios a que me referi está na Netflix e chama-se “Maid”.

Desapego

Desde o início da pandemia planejo esvaziar parte das gavetas e prateleiras do apartamento em que habito há vinte anos.

Comprei sacolas plásticas de cem litros e programei o alarme do celular para as quartas, dia espremido entre antecipações e urgências. O aviso “Desapego” começava a soar às nove em ponto, adiava duas ou três vezes, até que um imprevisto abortava a missão.

Se me pedissem uma autodefinição, “apego” constaria certamente na coluna das qualidades ou dos defeitos. Prendo-me não apenas a objetos, mas a gentes e situações, embora eu lute contra isso. Aprendi que para avançar é preciso renunciar ao que não é mais benéfico ou que não faz mais sentido.

Meu projeto do desapego ganhou força a partir da tragédia das recentes enchentes no Brasil. Cortou-me o coração ver aquelas pessoas perderem tudo; a idosa que se recusou a ficar no abrigo e voltou para sua casa em área de risco.

As cenas dramáticas me remeteram a um trecho de “O prego e o rinoceronte”, livro de ensaios da professora de literatura, Regina Dalcastagnè, que me tocou imenso: “Daí a dificuldade dos mais velhos de se desfazerem de seus objetos, especialmente quando precisam abandonar a própria casa. Cada coisa eliminada é um testemunho apagado de sua presença no mundo”.

E pensei nas minhas gavetas e prateleiras à espera do desprendimento. Livrar-se voluntariamente de alguns pertences é muito diferente de vê-los tragados pelas águas ou destruídos pelo vento e fogo, ou abandonados no rastro seco do flagelo que mutila há séculos a memória do povo nordestino.

Lembrei-me também dos semblantes de meus pais ao deixarem a casa em que viveram por quarenta anos para ficarem mais próximo das filhas adultas. Ela, sempre tão falante, emudeceu durante todo o trajeto até o prédio onde ainda mora. Ele mostrava-se resignado.

Minha mãe conseguiu reconstruir seu universo com novos objetos, enquanto meu pai buscou diariamente a antiga morada até a despedida final. Eu diria que me vejo em ambos, um pouco ontem e um tanto amanhã. Sobre o agora, tenho gavetas vazias e sacolões cheios, por fim. Há momentos em que o passado exige descarte. E o futuro grita logo ali.