Cartas de amor

Bombardeada por notícias trágicas, busco abrigo numa história de amor que resistiu a tudo e todos com troca de cartas.

Não as cartas dos versos modernistas de Álvaro de Campos, em pessoa (com desculpas ao eterno Fernando pelo trocadilho efêmero): “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas (…)”.

A formação rígida que se perpetuou até meados do século vinte afastou o quanto pôde dois jovens apaixonados. O rapaz protestante de origem simples não teve permissão para namorar a moça católica de tradicional família. Os dois decidiram então que o amor venceria qualquer obstáculo.

Conciliadores, descobriram uma maneira de sobreviver sem causar rupturas familiares: através da troca de cartas de amor ao longo de sete anos. Mas como fazê-las chegar ao destino?

O jovem escondia suas cartas debaixo de uma pedra, na frente da casa dela, durante o trajeto diário depois do trabalho. Ela o espreitava à janela, ao lado de um sobrinho que, mesmo criança, manteve o segredo da tia.

Dentro de cada carta ele colocava um raminho de jasmim-leite, trepadeira cultivada em todas as casas que habitaram após o almejado enlace.

A jovem, por sua vez, convencia tripulantes do Lloyd Brasileiro a postarem secretamente uma carta em cada porto, de Norte a Sul, nos cruzeiros de verão na companhia vigilante da mãe.

Quando as barreiras foram eliminadas, viveram 44 felizes anos até que a morte os separou. As cartas secretas foram enterradas com o primeiro que partiu, honrando um pacto do casal. Ela mesma as depositou na urna funerária do seu único amor.

Voltando aos versos portugueses, o sujeito lírico se redime ao fim do poema: “(…) Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”.

Escrevi esse texto em um momento em que é preciso resgatar o amor e reimaginar um mundo melhor. Se isso é ser sonhadora e ridícula, visto a carapuça com muito orgulho.

Ia esquecendo de contar que plantei na fazenda uma muda de jasminzeiro que perfuma nossas noites sertanejas e mantém viva a memória do amor de Luiza e Joel, meus sogros.

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