Alguns lugares às vezes

Hoje eu deveria publicar a última parte do meu fichamento para o belo relato de Davi Kopenawa em A queda do céu (que fica, portanto, adiada). Mas às vezes a correria absurda do cotidiano discorda das intenções… Compartilho aqui, então, pequenos objetos bem longe da urgência da fala de Kopenawa, mas perto de lugares que não existem ou só existem às vezes, fingindo, na cara de pau, que essa troca seria uma compensação. Para o caso de alguém estar transitando por esses supostos lugares no momento em que leia o abaixo. Quem sabe?

*

complicação

.

não, meu amigo,

é uma onça

uma onça naquele

terreno baldio

cercado de prédios altos por todos os

                                                   lados

.

no meio

da merda

da cidade

.

um quem qualquer que

visse aquela

.

cena apoiado em ponto

de vista seguro, quer dizer,

de gente,

.

veria naquela onça o corpo vivo dum

grito no

silêncio tenso do

.

olhar grito pra ondular a anestesia

da gente ao redor,

sem ciência de onça por perto

.

não um leão, esse tipo

de gringo extraviado por

circo ou zoológico

.

uma onça de amazônia remota

ou pantanal de língua cortada

uma onça imprevista

talvez pintada ou suçuarana

.

não, você deve ter certeza

é onça-pintada

.

o cachorro latindo sem

parar na vizinhança fica o

dia inteiro encoleirado, sem

que possa correr um

mísero metro, ou

trancado numa casinha

escura em que mal

cabe o seu corpo.

Eu dou o que eu sou, ela disse

.

enquanto isso

no prédio alto

uma trança de ondas desfiadas

sem pressa sem cor

sacode de leve uma antena

.

longe das antenas, a onça urra alto e forte

e é aí que o terreno

baldio se complica

é aí que a terra arregala o olho

*

se faz algo

.

montanhas longe

se escondem sob o solo da noite

.

cidade cerca iluminada

de prédios

em torno de um

.

resto espaço tempo de verde

telhados feitos

com fios enrolados entre

.

si

caixa d’água meio vazia

o céu

.

muro alto que alguém pula

mexe as patas, caminha

ânimo de acordado

faz tempo

*

roubo

.

a ansiedade te pede um

acordo, qualquer moeda de

troca que seja

.

aí, você inventa uma

magia: você olha o

contador de minutos

do relógio: se estiver

par, é sim, é o que

você quer; ímpar, é

não, significa algo que

é não-você.

.

daí que, sem se dar conta,

ao longo dos anos, você

foi trocando sua

anônima ansiedade

por alegriazinhas

pares e chateações ímpares.

.

o número de ricos no

mundo continua diminuindo, e

alguém aguarda que eles sejam

totalmente extintos, mas

esses alguéns infelizmente se

esquecem de que em

torno da mesa da santa

ceia tem uma cerca de

candidatos prontos, cada

um, pra tomar o lugar do primeiro apóstolo que cair

.

morto. Mas, voltando

ao que interessa,

um dia, já meio

tarde, você percebe que

se deixou manipular pelo

relógio, que nem sequer

estava te manipulando.

.

finalmente, você pensou

em transformar essa treta

em poesia, mas a

preguiça te autorizou a

se contentar em

anotar o poema na

mente, pronto, até que

ele fosse

abduzido ao pisar numa

poça de esquecimento

*

zé ninguém

.

veja o lado bom de

ser um zé ninguém: ninguém

vai querer medir as

escrotices que você

fez na vida

.

veja o lado ruim de

ser um zé ninguém: ninguém

vai querer medir as

escrotices que você

fez na vida:

indiferença

.

veja o lado ruim de

ser um zé alguém: alguém

vai querer medir as

escrotices que você

fez na vida

.

veja o lado bom de

ser um zé alguém: alguém

vai querer medir as

escrotices que você

fez na vida:

qual a diferença

.

veja o lado ruim de

ser um zé muita gente: muita gente

vai querer medir as

escrotices que você

fez na vida

.

veja o lado bom de

ser um zé muita gente: muita gente

vai querer medir as

merdas que você

fez na vida:

entenda, aceite e goste. grato(a).

Davi Kopenawa: A queda do céu (2)

“Antigamente, os brancos não existiam. Foi o que me ensinaram os nossos antigos, quando eu era criança. Omama vivia então na floresta, com seu irmão Yoasi e sua esposa, Thuëyoma, que os xamãs também chamam de Paonakare. Seu sogro, Tëpërësiki, morava numa casa no fundo das águas. Não havia mais ninguém. Assim era. Omama deu-nos a vida muito antes de criar os brancos, e era também ele que, antes deles, possuía o metal. As primeiras peças de ferro utilizadas por nossos ancestrais foram as que Omama deixou para trás na flo­resta, quando fugiu para longe, a jusante de todos os rios” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Continuo a resumir e comentar trechos do riquíssimo relato do xamã Yanomami Davi Kopenawa ao antropólogo francês Bruce Albert. Em sua longa e poética narrativa, Kopenawa delineia a cosmologia mítica Yanomami, rememora as relações que ele e outros membros de seu povo estabeleceram com os brancos e associa os mitos apocalípticos de sua cultura à destruição da floresta amazônica e de seu povo. Considerando que o livro é enorme, resolvi abordar, desta vez, a segunda parte do livro, “A fumaça do metal”, composta por oito capítulos, e deixar o comentário à terceira, “A queda do céu”, para o próximo mês.

“Os nossos passam muito tempo ansiosos em obter mercadorias: facões, machados, anzóis, panelas, redes, roupas, espingardas e munição. Os jovens passam o tempo todo jogando futebol na praça central da casa, enquanto os xamãs estão trabalhando ali ao lado. Eles não prendem mais o pênis com um barbante de algodão amarrado em torno da cintura, como os nossos maiores faziam. Usam bermudas, querem escutar rádio e acham que podem virar brancos. Esforçam-se muito para balbuciar a língua de fantasma deles e às vezes até pensam em deixar a floresta. Mas não sabem nada a respei­to do que os brancos realmente são. O pensamento desses jovens ainda está obstruído. Por mais que tentem imitar os forasteiros que encontram, isso nun­ca vai dar nada de bom. Se continuarem nesse caminho escuro, vão acabar só bebendo cachaça e se tornando tão ignorantes quanto eles” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O contato com os brancos remonta a acontecimentos ocorridos antes do nascimento de Kopenawa, contados a ele por outros Yanomami. Foram relações habitualmente marcadas por autoritarismos, exigências e tratamento injustos, sem contar epidemias (metaforizadas como “fumaças” mortíferas) a manipulação étnica sob a forma de catequese cristã, a devastação de áreas extensas, povoadas, devido à obsessão pelo ouro. Doenças como o sarampo ou a tuberculose matavam dezenas, centenas de índios de etnias diversas. Ainda criança, Kopenawa se viu apartado de seus parentes consanguíneos, mortos pelo sarampo, tendo que ser criado pelo padrasto e outras pessoas.

“Vimos os brancos espalharem suas epidemias e nos matarem com suas espingardas. Vimo-los destruírem a floresta e os rios. Sabemos que podem ser avarentos e maus e que seu pensamento costuma ser cheio de escuridão. Esqueceram que Omama os criou. Perderam as palavras de seus maiores. Esqueceram o que eram no primeiro tempo, quando eles também tinham cultura. Omama depositou a espuma com a qual criou os antigos brancos muito longe de nossa floresta. Deu-lhes uma outra terra, distante, para nos proteger de sua falta de sabedoria. Mas eles copularam sem parar e tiveram mais e mais filhos. Então, foram tomados de euforia, fabricando um sem-número de mer­cadorias e máquinas. E acabaram achando sua própria terra apertada” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Kopenawa trabalhou com os brancos realizando diversos tipos de serviços: atuou como intérprete, realizou atividades braçais na floresta, afazeres domésticos em escritórios da Funai e até prestou cuidados de saúde que aprendera. Tudo isso, tanto em Manaus, no meio da zoada e do clarão urbanos, bem como no verde-escuro dourado do murmúrio amazônico. Observava as camisas, as calças, os óculos e os relógios de pulso, e o fato de esses objetos esconderem o corpo ante o olhar lhe pareceu atraente. Sentiu e praticou, o quanto quis e conseguiu, uma vontade de ser branco, gradualmente decepcionada pela constatação de que nunca conseguiria fazer uma transformação completa.

“Aprendi a imitar o modo de falar deles. Mas isso não deu em nada de bom. Mesmo embrulhado dentro de uma bela camisa, dentro de mim eu continuava sendo um habitante da floresta! Por isso costumo repetir aos rapazes de nossa casa: ‘Talvez vocês estejam pensando em virar brancos um dia? Mas isso é pura mentira! Não fiquem achando que bas­ta se esconder nas roupas deles e exibir algumas de suas mercadorias para se tornar um deles! Acreditar nisso só vai confundir seus pensamentos. Vocês vão acabar preferindo a cachaça às palavras da floresta. Suas mentes vão se obscu­recer e, no final, vocês vão morrer por isso!’” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Floresta Amazônica: um lugar para visitar ao menos uma vez
Vista da Floresta Amazônica. imagem da internet

A cosmologia Yanomami absorve a cristã. O Iavé judaico-cristão, para eles, é Teosi, irmão de sua principal divindade, Omama. De caráter ambíguo, frequentemente hostil aos Yanomami, Teosi desperta neles uma natural desconfiança. Os missionários de Teosi, pai de “Sesusi” (isso, Jesus), falavam em bondade e salvação, mas frisavam mesmo era o pecado e a punição. Kopenawa, assim como outros de seu povo, aderiu ao cristianismo, sob os incentivos e a persuasão dos missionários. Porém testemunhando que as promessas de Teosi eram vagas e os maus-tratos de seus emissários brancos eram um fato cotidiano, ele se afasta gradualmente dos cultos evangélicos e retoma os caminhos do mundo de sonho xapiri da fé Yanomami.

“Após a morte, nosso fantasma não vai viver junto de Teosi, como dizem os missionários. Ele se separa de nossa pele e vai morar noutro lugar, longe dos brancos. Nossos defuntos moram nas costas do céu, onde a floresta é bela e rica em caça. Suas casas lá são muitas e suas festas reahu nunca param. Vivem felizes, sem dores nem doenças. Vistos de lá de cima, somos nós que causamos dó! Os mortos ficam tristes por nos terem abandonado na terra, sozinhos, com fome e ameaçados pelos seres maléficos. Por isso minha mágoa é um pouco aplacada quando penso que minha mãe vive feliz na floresta dos fantasmas, na companhia de todos os nossos parentes falecidos. É verdade. Somos nós, os poucos humanos que sobraram, que ficamos sofrendo na floresta, longe de nossos mortos” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Na fala de Kopenawa, o xamanismo se fundamenta com importância política na luta por uma especificidade, pela diferença, pela irredutibilidade de um nós a um vocês-outros dominador. O xamã Yanomami, antes de reemaranhado em seu mundo de floresta, exercitou uma percepção atenta, estarrecida e frustrada das paisagens brancas para, finalmente, voltar a sua terra e entendê-la com outra nuance: a urgência de sobreviver, de se manter fio de coletividade. Longe do branco, mas ciente do provável destino tragicômico deste, o culto aos xapiri na floresta fantasma é a arma de um heroísmo em processo de silenciamento.

“Foi quando os garimpeiros chegaram até nós que realmente entendi de que eram capazes os napë [brancos]! Multidões desses forasteiros bravos surgiram de repente, de todos os lados, e cercaram em pouco tempo todas as nossas casas. Buscavam com frenesi uma coisa maléfica da qual jamais tínhamos ouvido falar e cujo nome repetiam sem parar: oru — ouro. Começa­ram a revirar a terra como bandos de queixadas. Sujaram os rios com lamas amareladas e os enfumaçaram com a epidemia xawara de seus maquinários. Então, meu peito voltou a se encher de raiva e de angústia, ao vê-los devastar as nascentes dos rios com voracidade de cães famintos. Tudo isso para encon­trar ouro, para os outros brancos poderem com ele fazer dentes e enfeites, ou só para esconder em suas casas! Naquela época, eu tinha acabado de aprender a defender os limites de nossa floresta. Ainda não estava acostumado à ideia de que precisava também defender suas árvores, seus animais, seus cursos d’água e seus peixes” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O xamanismo, no caso dos Yanomami, é um tipo de visão de mundo dita mágica, estimulada pela interação do corpo humano com substâncias psicotrópicas, envolvendo experiências alucinatórias e um modo específico de se relacionar com elas. Nada importa se as vivências envolvidas nisso não seriam comprováveis de um ponto de vista lógico e experimental; elas são plenamente adequadas a um modo de vida integrado à floresta e incomparavelmente mais saudável (para o indivíduo, para a coletividade) que na cartilha urbanizada ocidental. Um xamã politicamente conscientizado e progressista tem, com toda a probabilidade, muitíssimo mais a oferecer que certa atitude logocêntrica, pseudointelectual, que se encontra de prontidão por aí.

“Se eu tivesse ficado só trabalhan­do para os brancos, se meu sogro não tivesse me chamado para perto dele, meu pensamento teria ficado curto demais. É por isso que agora quero que os brancos, por sua vez, ouçam estas palavras. Trata-se de coisas das quais nós, xamãs, falamos entre nós muitas vezes. Não queremos que extraiam os miné­rios que Omama escondeu debaixo da terra porque não queremos que as fu­maças de epidemia xawara se alastrem em nossa floresta. Assim, meu sogro costuma me dizer: ‘Você deve contar isso aos brancos! Eles têm de saber que por causa da fumaça maléfica dessas coisas que eles tiram da terra estamos morrendo todos, um atrás do outro!’. É o que agora estou tentando explicar aos brancos que se dispuserem a me escutar. Com isso, talvez fiquem mais sensatos? Porém, se continuarem seguindo esse mesmo caminho, é verdade, acabaremos todos morrendo. Isso já aconteceu com muitos outros habitantes da floresta nesta terra do Brasil, mas desta vez creio que nem mesmo os bran­cos vão sobreviver’” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Davi Kopenawa: A queda do céu (1)

“Hoje, os brancos acham que deveríamos imitá-los em tudo. Mas não é o que queremos. Eu aprendi a conhecer seus costumes desde a minha infância e falo um pouco a sua língua. Mas não quero de modo algum ser um deles. A meu ver, só poderemos nos tornar brancos no dia em que eles mesmos se transformarem em Yanomami. Sei também que se formos viver em suas cida­des, seremos infelizes” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Em dezembro de 2020, tive uma ideia que gostaria de pôr em prática na parte que me cabe neste blogue. Ler obras escritas por ou pelo menos com mulheres, indígenas, negras e negros, pessoas lgbt+, enfim, pessoas vindas de contextos distintos de minha situação de branco de classe média. Daí, trazer para cá essa coleta, essa leitura, à maneira de resumos, de fichamentos daqueles de curso universitário de graduação. Quer dizer, procurando interferir o mínimo nos comentários que vierem. Mal sou habilitado a falar de mim mesmo, esse meu inevitável desconhecido, imagine de pessoas e coletividades cujas condições materiais, simbólicas, espaçotemporais de existir estejam ou sempre estiveram fora da minha tênue experiência.

“As máquinas dos brancos fazem delas peles de imagens [registros impressos ou audiovisuais] que os seus cantores olham, sem saber que nisso imitam coisas vindas dos xapiri. Por isso os brancos escutam tanto rádios e gravadores! Mas nós, xamãs, não precisamos desses papéis de cantos. Preferimos guardar a voz dos espíritos no pensamento” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Então, por que me propor a isso? Vários colegas de blogue já comentaram algumas obras, ou outras afins, que gostaria de trazer para cá. A intervenção deles foi oportunamente crítica, participativa, acrescentando sua insubstituível corporeidade existencial, visto que se tratavam de discussões próximas de seus contextos de vida. Quanto a aqui, em vez de remoer a mim mesmo ou coisas habitualmente próximas a minha percepção, este lugar de fala seria direcionado a algo que, em agosto passado, comentei neste blogue como meu interesse em praticar: um lugar de escuta. Um registro da descoberta de livros que ainda não li, que tenho procurado ler. Algo que talvez seja útil para alguém que ainda não os tenha lido. E que se aproxime de olhares em alguma medida dissidentes do que há de ranço na receita europeia-iluminista-racional-branca-classe-média a que acabei me habituando ao longo dos anos sem me dar conta clara do que estava fazendo.

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Davi Kopenawa. Foto da internet.

“Não pensem que a floresta é vazia. Embo­ra os brancos não os vejam, vivem nela multidões de espíritos, tantos quantos animais de caça. Por isso suas casas são tão grandes. Tampouco pensem que as montanhas estão postas na floresta à toa, sem nenhuma razão. São casas de espíritos; casas de ancestrais. Omama [entidade espiritual maior, para os Yanomami] as criou para isso. São muito valiosas para nós. É do topo delas que os xapiri descem para as terras baixas, por onde andam e se alimentam, como os animais que caçamos. É também de lá que eles vêm a nós quando bebemos yákoana para chamá-los e fazê-los dançar” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Já havia comentado minha prática, desde que cheguei aqui, de tentar exercitar uma utopia do texto (sugerida, por exemplo, por escritores românticos alemães do final do século XVIII ou Roland Barthes em O prazer do texto): escrever sem gênero definido, sem compromisso binário com ficção ou texto verídico, usando o direito de não ter assunto definido, de mudar de assunto quando houvesse desejo nisso, de explorar o potencial político de questionamento anticonservador que consigo ver em tal prática. A proposta de agora parece interagir de um jeito válido com a proposta de antes, então. Suponho.

“É verdade que os xapiri às vezes nos apavoram. Podem nos deixar como mortos, desabados no chão e reduzidos ao estado de fantasmas. Mas não se deve achar que nos maltratam à toa. Querem apenas enfraquecer nossa cons­ciência, pois se ficássemos apenas vivos, como a gente comum, eles não pode­riam endireitar nosso pensamento. Sem virar outro, mantendo-se vigoroso e preocupado com o que nos cerca, seria impossível ver as coisas como os espí­ritos as veem” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Pensei então em inaugurar a intenção mencionada com A queda do céu, relato em parceria do xamã e líder político Yanomami Davi Kopenawa com o antropólogo marroquino Bruce Albert. Albert conviveu com Kopenawa durante muitos anos, e o resultado é tanto o relato de uma biografia como o de uma convivência. Em uma série de capítulos com a duração de um conto ou um ensaio, as palavras de Kopenawa, misturadas à escrita de Albert, abordam e avaliam a prática xamânica, que é um modo específico de viver nesse cosmos chamado floresta (amazônica). Hoje, com a ajuda das citações presentes, estou comentando a primeira parte do livro, “devir outro”, composta por oito capítulos. Já que o livro é enorme, deixarei as partes seguintes, “A fumaça do metal” e “A queda do céu”, para o próximo mês.

“Então, de tanto prestar atenção, comecei a poder ouvir as palavras dos espíritos. Eles trocaram minha língua e minha garganta pelas deles. E assim, aos poucos, seus cantos foram se revelando a mim e se tornando claros. Comecei a cantar como eles. Mas foi tudo muito devagar. Não se pode ser impaciente nesse caso. Deve-se tentar pouco a pouco imitar a última parte das palavras do canto dos espíritos. É assim que se consegue começar a escutá-los de verdade, e foi o que eu fiz. E finalmente eles livraram minhas orelhas de tudo o que as entupia” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

No provocativo ensaio-prefácio que se antecipa às memórias de Kopenawa, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro comenta uma posição defendida por Albert quanto ao modo de se relacionar com os dados etnográficos recolhidos na pesquisa: manter a orientação conceitual e a cosmovisão das pessoas que atuaram como fontes e informantes. Manter as expressões de linguagem, as imagens, o jeito de ver visibilidades e invisibilidades de coisas. É isso que o texto concretizado faz.

“Quando, às vezes, o peito do céu emite ruídos ameaçadores, mulheres e crianças gemem e choram de medo. Não é sem motivo! Todos tememos ser esmagados pela queda do céu, como nossos ancestrais no primeiro tempo. Lembro-me ainda de uma vez em que isso quase aconteceu conosco. Eu era jovem na época. Estávamos acampados na floresta, perto de um braço do rio Mapulaú. Tínhamos saído, com alguns homens mais velhos, à procura de uma moça do rio Uxi u que tinha sido levada por um visitante de uma casa das terras altas, a montante do rio Toototobi. Anoitecia. Não havia nenhum ruído de trovão, nenhum raio no céu. Tudo estava em silêncio. Não chovia, e não se sentia nenhum sopro de vento. No entanto, de repente, ouvimos vários estalos no peito do céu. Foram se sucedendo, cada vez mais violentos, e pareciam bem próximos. Era mesmo muito assustador!” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Kopenawa mistura, na parte do livro tratada nesta fala, os mitos de origem de seu povo com sua experiência iniciatória como xamã. Como se fossem texturas emaranhadas num mesmo plano: real e imaginário, essas camadas do real, gerando essa coisa sem nome certo que, de um jeito inexato, poderia ser chamada de percepção-experiência. Mas isso, obviamente, não numa visão europeia, branca, racional, mercadológica, cientificista, e sim, numa visão Yanomami, outra em relação ao branco e até a si própria.

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Davi Kopenawa. Foto da internet.

“As árvores da floresta e as plantas de nossas roças também não crescem sozinhas, como pensam os brancos. Nossa floresta é vasta e bela. Mas não o é à toa. É seu valor de fertilidade que a faz assim. É o que chamamos në rope. Nada cresceria sem isso. O në rope vai e vem, como um visitante, fazendo cres­cer a vegetação por onde passa. Quando bebemos yákoana, vemos sua imagem que impregna a floresta e a faz úmida e fresca. As folhas de suas árvores apa­recem verdes e brilhantes e seus galhos ficam carregados de frutos. Vê-se tam­bém grande quantidade de pupunheiras rasa si, cobertas de pesados cachos de frutos, pendurados na parte de baixo de seus troncos espinhosos, e imensas plantações de bananeiras e pés de cana-de-açúcar. Esse valor de fertilidade da terra está ativo por toda parte” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

A sensorialidade “fantasma”, xamânica, é uma sensorialidade outra, de quem se tornou outro. Tornar-se xamã, segundo Kopenawa, é ganhar acesso a um mundo paralelo povoado pelos xapiri, espíritos de forma variável, humana, animal, vegetal, mineral, ora minúsculos, ora gigantescos (no início dos tempos, toso os seres eram uma espécie de meio-termo, de pontes morfológicas entre o corpo humano e outras formas). Em geral, são benfeitores e, por intermédio dos xamãs, protegem a humanidade de entidades sobrenaturais ameaçadoras. Os muitos xapiri auxiliam na caça, na pesca, na coleta, na agricultura. Auxiliado pela yákoana, substância vegetal alucinógena similar ao LSD, o xamã se torna “fantasma” e consegue enxergar os xapiri e perceber suas danças e cantos.

“Os xapiri nos protegem contra todas as coisas ruins: a escuridão, a fome e a doença. Afastam-nas e combatem-nas sem descanso. Se não fizessem esse trabalho, nós daríamos dó! O vendaval, os raios e a chuva não nos deixa­riam um momento de trégua; a cheia dos rios inundaria a floresta continua­mente. Ela ficaria infestada de cobras, escorpiões e onças, invadida pelos seres maléficos das epidemias. A noite envolveria tudo. Teríamos de ficar escondidos em nossas casas, esfomeados e apavorados. Começaríamos, então, a virar ou­tros, e o céu acabaria caindo novamente. Por isso nossos ancestrais começaram a fazer dançar os xapiri no primeiro tempo. Sua preocupação, desde sempre, foi proteger os seus, como Omama havia ensinado ao seu filho. Nós apenas seguimos suas pegadas. Os xamãs Yanomami não trabalham por dinheiro, co­mo os médicos dos brancos. Trabalham unicamente para o céu ficar no lugar, para podermos caçar, plantar nossas roças e viver com saúde” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O xamã Yanomami deverá aprender os cânticos dos espíritos protetores e, no mundo-fantasma, construir para eles uma casa espiritual que sediará os encontros mágicos. Espécie de espelho não-idêntico do nosso, o mundo espiritual Yanomami é descrito como uma “floresta no pensamento”; um mundo que não existiria sem o mundo material em que vivemos e sem o qual não existe. A narrativa de Kopenawa funde os mitos compartilhados por seu povo com as impressões recebidas na pele do indivíduo. Seu texto acompanha o assunto por meio de um clima de sonho, que é propriamente o do mundo espiritual xamânico, muitas vezes alcançado durante o sono, bem como pelo estado onírico induzido pelo ritual. Cheio de fatos heroicos, míticos, o relato do Yanomami é poesia e prosa, realidade e imaginação, sonho e vigília, mundo e mundos.

“[…]No entanto, quando se diz o nome de um xapiri, não é apenas um espíri­to que se nomeia, é uma multidão de imagens semelhantes” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Tipo uma trilogia autobiográfica

Cocó e Sabiaguaba: um olhar socioambiental sobre a criação do Parque -  Renato Roseno
Fonte: Google

Meu amigo Ivo, tempos antes de morrer, compartilhou comigo seu plano de escrever uns três livros, segundo ele, mais ou menos autobiográficos. Morreu sem ter tido disciplina, paciência ou perseverança suficientes pra sentar a raba numa cadeira simbólica qualquer e pôr na palavra o que sua cabeça pensava em ditar. Como homenagem ou gesto oportunista, tanto faz, resolvi confiscar as cenas que ele imaginou e redigi-las como se fossem minhas, mas logo desisti do fingimento e deixo claro de onde elas vieram.

Por uma questão de, vamos dizer, honra, procurei acrescentar algo de meu antes de as palavras caírem no teclado e na tela. O que não foi difícil, já que convivi longos anos com esses acontecimentos de mentira na minha cabeça, até que eles começaram a parecer inventados ou mesmo experimentados por mim. Talvez isso se deva ao fato de que, da mesma maneira que o Ivo, eu tenho ao longo da vida misturado o vivido e o imaginado graças à esquizofrenia nossa de cada dia. Ele, inclusive, dizia brincando que nem eu, nem ninguém nunca saberia se os fatos a seguir aconteceram de verdade ou não, o que talvez seja o mesmo que dizer: aconteceram ou acontecerão em breve. Quem conta essas histórias, quem diz “eu” nelas? Ivo, eu? Não sei.

O quarto.

Aos 30 anos de idade, eu deixei meu quarto e saí de casa. Ou foi aos 20? Vamos dizer que foi aos 30. Até então, morei com minha mãe, minha irmã e meu avô numa casa pequena da periferia de Fortaleza. Eu nunca ouvi falar no meu pai ou em outros parentes ou pessoas próximas. Minhas lembranças mais antigas eram naquele quarto: minha mãe passava algum tempo comigo nele até eu completar seis ou sete anos de idade. A realidade é uma colcha de retalhos costurada. Retalhos de banalidade costurados com fios do absurdo. Um gato morou com a gente durante parte desse tempo: enquanto viveu. A casa tinha três quartos: um para meu avô, um para mim, um dividido entre minha mãe e minha irmã, mais jovem que eu uns cinco anos. Nunca soube o porquê desse privilégio masculino, e só consegui refletir a respeito quando já não estava mais morando ali. Talvez tivesse a ver com o fato de que ninguém nunca entrava no quarto do vovô nem no meu. Tampouco eu saía do quarto; não me lembro de ter feito isso alguma vez ou, nas vezes em que achei que saí e andei pela casa, não sei se isso aconteceu mesmo ou se estava sonhando ou se isso tinha a ver com os remédios psiquiátricos que minha mãe me dava. Quanto ao vovô, um dia, quando eu tinha 15 ou 16 anos, o gato entrou no quarto dele por um buraco no canto inferior da porta que, segundo elas, estava velha e quebradiça; minha mãe e minha irmã gritavam desesperadas para o que o bicho voltasse, mas ele nunca mais saiu do quarto em que entrou. Elas não sabiam o que tinha acontecido com ele, já que não entravam nunca no recinto do vovô; tampouco descobri o porquê disso: só minha mãe parecia saber o que aconteceria se alguém entrasse no quarto do vovô, mas ela simplesmente se recusava a falar sobre. O vovô não falava com ninguém, não respondia nada; apenas, que nem eu, recebia a comida e o penico por debaixo da porta e devolvia prato vazio e penico cheio em horários em que ninguém tava observando. Eu fazia quase o mesmo, com a diferença de que, nos momentos de recepção ou devolução dos utensílios de comer e evacuar, eu conversava um pouco com minha mãe e minha irmã caçula pela fresta no canto inferior da porta. Talvez as portas desses dois quartos fossem emperradas: a do meu quarto estava, eu descobriria um dia. Depois de falar com minha mãe e minha irmã por uns minutos e receber ou devolver os itens necessários, eu fechava a tal fresta com o pedaço inferior da porta que servia como uma portinhola, uma microporta na porta. O vovô machucou o gato? Ele o convenceu a nunca mais sair dali? Eu não sei. Nunca soube. Eu não sabia sequer por que não podia sair do meu quarto; minha mãe apenas dizia que isso não me faria nada bem. Então, por amor a ela, eu me acomodei àquela situação, até porque ter um quarto só para mim não deixava de ser um privilégio. Ou algum tipo de precaução? Minha mãe tinha me dado um pequeno gravador de voz, além de letras e palavras desenhadas em papéis amassados. Assim, os anos seguindo, eu fui aprendendo a ler. Minha mãe era professora. Ela passava, cada vez mais, por baixo da fresta da porta, livros que pegava emprestado numa biblioteca. Assuntos variados, coisas do mundo inteiro, modos de tentar saber das coisas, histórias reais ou inventadas. O quarto sempre parecia um pouco escuro, mesmo no claro do interruptor acionado. Eu não tinha amigos, não via ninguém: eu lia o tempo todo, sob a lâmpada fraca e amarela que me iluminava. Se bem que dizer que eu estava sempre só seria exagero: sempre tinha alguém comigo: eu sempre estava lá com você. Com muita frequência, eu via e conversava comigo mesmo; um eu da minha idade, ou muitas vezes mais novo, criança ou idoso, quando eu já estava quase adulto, por exemplo. Eu falava pra você coisas em que você nunca havia pensado ou coisas que você achava cruéis e agressivas, que te tiravam a vontade imensa que você sentia, apesar da resignação, de sair daquele quarto. Outras vezes, o duplo de mim mesmo, que dizer, eu, tu, aparecia e te apoiava, dizendo que você precisaria tentar ter a força que talvez nem eu nem você tivesse. Algumas vezes o carneiro aparecia e passava algum tempo caminhando pelo pequeno quarto. Depois sumia. O carneiro apareceu pela primeira vez num sonho: tinha o corpo de um carneiro comum, uma cabeça com rosto humano e quatro chifres. Eu sabia que não deveria olhá-lo, principalmente olhar diretamente seu rosto insuportável pra qualquer pessoa: sabia ou temia que, se fizesse isso, provavelmente nunca sairia daquele quarto. Uma pequena janela alta me dava sol, me dava lua, me dava ruídos da rua. Um dia, 30 anos haviam se passado e, no dia do meu aniversário, esse dia bem no meio do ano, minha mãe abriu a porta e disse que eu estava pronto. Eu nunca a entendi bem, mas até ali minha vida era só aceitar, talvez por não saber claramente que haveria outras opções. Aos 30 anos de idade, eu saí do quarto e de casa.

A Cidadela.

Fora do quarto, fora de casa, eu tentava entender o mundo, percebendo nos começos daquele novo tempo de existência que ele, o mundo, era bem diferente do que os livros contavam. Pra pior, muitas vezes. Mas era o mundo que eu tinha, era o mundo que se tinha, e existia uma vida querendo continuar, e coisas e pessoas bonitas também, e logo eu perceberia o quanto. Me tornei professor de crianças e adolescentes depois de algum tempo atuando em reforço escolar. Era um péssimo professor no começo. Sabia que precisava rapidamente aprender a interagir com pessoas, coisa complicada, cheia de cascas falsas e soluções ausentes, diferente dos bichos, das plantas, das pedras, da água e da areia, com quem era tão fácil me entender. Eu queria tanto falar, achava que tinha muito a falar, mas com pouco percebi que me sentia melhor me calando e deixando as pessoas falarem. Não por humildade, mas por insuficiência e, em seguida, por prudência. Depois dos procedimentos supletivos pra poder dizer que eu tinha algo parecido com uma escolaridade, consegui ingressar numa faculdade de filosofia. Gente de todo tipo, isso era atraente, mas a maioria estava mais preocupada com coisas que me cansavam logo: ser dono de muito, fazer um nome, ser alguém, ser notado. O mundo era assim, não era? Fazer o quê com isso? Conheci duas garotas com quem gostava de conversar: Mariana e sua namorada. Sempre rodeadas de gente que amava seu humor, sua esperteza, sua sutileza e sua rudeza eventual. Eram gentis comigo, apesar de melhores que eu em praticamente tudo. Eu me sentia inferiorizado, mas também fascinado pela energia intensa que elas jogavam no ar, na cara da sociedade. Elas me contaram de um projeto que tinham: Lucrécia, a namorada, possuía um terreno que herdara, próximo à rua da Sabiaguaba, e, junto com outras pessoas, estavam construindo banheiros, um galpão coberto, cozinha, áreas comuns, o suficiente para estabelecer ali uma comunidade. O mundo não é do jeito que a gente queria, mas a gente pode criar um mundo próprio que tenha olhos, ouvidos e braços abertos pra outros mundos, elas diziam. Comecei a frequentar festinhas, reuniões de grupos de estudo e de meditação que rolavam na Cidadela, era assim que chamavam o local arborizado que sediava a comunidade e sua vila de barracas de camping. Logo, eu tinha largado a faculdade e tava morando por lá. O grupo era composto principalmente por mulheres, uns poucos homens, algumas pessoas que não se identificavam com nenhum sexo e transexuais. Mais da metade, pessoas negras. Como produzir e manter uma sociedade, pouco numérica que seja, com práticas de potencialização de tudo o que cada uma ou um gostaria de ser? Como experimentar cotidianamente a liberdade? Como vivenciar o corpo, a mente, de maneira coletiva e inclusiva? Com essas pautas na cabeça e no corpo, estudávamos, festejávamos, todo mundo fazia sexo com todo mundo, ou pelo menos com quem quisesse, e farreávamos; tocávamos música, arrumávamos dinheiro de formas variadas: tempos depois, pouco antes do fim, ainda pude ouvir alguém comentar que aquela época era estranhíssima: depois de uma certa prosperidade econômica, veio uma tremenda crise. De tudo. De qualquer modo, enquanto pôde, houve uma grande afinidade entre aquele pessoal. Vinha gente de fora, interagíamos com o mundo, líamos poesia em locais diversos da cidade, nos reuníamos por aí, zombávamos da cidade, do gênero humano, amávamos o gênero humano. Todos muito ou mais ou menos jovens, mais jovens que eu em geral. Percebi que na privação remediada que era a vida que eu tinha levado com meus poucos parentes, no isolamento inexplicado em que tinha ocupado um quarto por 30 anos de vida, no ato mental de achar que eu tinha algo a oferecer ao mundo, percebi com isso o quanto eu estava iludido: o mundo é que teria algo a me oferecer, e eu precisava desesperadamente disso. Aquele matriarcado, em que enfrentar a incerteza e o risco de morte se tornaram valores exaltados, me impressionava profundamente. Fora da Cidadela, as pessoas eram comumente frágeis demais, ou muito carentes de aprovação, ou inconscientemente conservadoras e apegadas à autoridade, ou simplesmente mimadas; era incrível, mas eu tinha encontrado um lugar em que a atitude melindrosa e a vontade de ser famoso ou de levar uma vidinha domesticada e inserida no jogo do “aceitável” praticamente não existiam. Vivi tempo suficiente, alguns anos, no mundo ao redor, pra saber que um lugar daqueles só podia ser bom demais pra ser verdade, e, no entanto, tudo aquilo era real. Eu não acreditava, eu tinha medo de perder aquilo, porque sentia que ali tava rolando um tipo de equilíbrio frágil, provavelmente passageiro, e foi passageiro. Na Cidadela, tinha fragilidade, sensibilidade, tinha, sim, e muito, mas quem ali usasse essas qualidades como desculpa para comodismos ou prepotências logo se desencorajava a permanecer lá. Aconteciam rituais sincréticos, embora a maioria dos membros fosse ateia. Ateias e ateus espiritualizados, quer dizer, corporalizados, como se dizia. Um tempo depois, a Cidadela foi se esvaziando, e pequenos grupos dispersos resolveram levar o estilo de vida dali a outros lugares da cidade onde gente se aglomerasse, públicos, privados ou onde esses adjetivos se confundissem. A preocupação participante era evidente, mas se sabia ou se sentia que de pouco adiantava propor atuações em política partidária ou mesmo protestos pacíficos; logo, chegou-se à conclusão de que atos terroristas radicais eram uma urgência. Mas Mariana e Lucrécia, além de outras mulheres do bando, não queriam atos homicidas, que consideravam de uma grosseria real e simbólica desnecessária. Era preciso algo mais efetivo e mais sutil: destruir mecanismos de transações comerciais, financeiras, tipo. O mundo andava agitado, mais caótico que o habitual, naquela época, e isso podia significar acontecimentos inesperados e empolgantes… O colapso ambiental previsto fazia tempos por órgãos científicos veio antes do esperado: um esgotamento aparente dos recursos ambientais. De repente, tudo ruiu. De repente, pareceu que a sabotagem que o pessoal da Cidadela fez no sistema financeiro online da cidade se ligou misteriosamente a um blackout geral acompanhado de barulhos de explosão nem sempre ao longe. Tínhamos nos reunidos na Cidadela, depois de meses sem nos encontrar, e saímos de madrugada pra sabotar o sistema financeiro a partir de uma sala com computadores ligados num tipo de escritório mobiliado e alugado. Uma vaquinha imensa, entre gente desconhecida, pra fazer aquilo. Algo que não podia ser real, mas estava acontecendo. No escritório, ficaram poucos de nós. Mariana, Lucrécia e outras pessoas. O resto, pelas ruas, fazendo atos de agitação. Eu estava nas ruas, e até hoje não sei dos que ficaram no escritório. O blackout e as explosões começaram aí. Naquela noite, eu estava muito bêbado e chapado, e tudo foi ficando confuso: lembro apenas vagamente que cometi algum erro, algo como ajudar a incitar a parte do bando com que eu estava, junto de outros caras do bando, a atacar um grupo de policiais armados e nervosos em alguma esquina. Todo mundo tenso e nervoso. Depois, amnésia, cortes e saltos de cenas, escuro e silêncio. Acordei, não sei quanto tempo depois, só, sem lembrar de nada. Tava vivo? Numa cidade deserta. Era sonho? Não parecia. A vida, estranha.

A cidade.

Agora, naquele agora, eu vivia sozinho na cidade abandonada. Ainda existia gente por aí? Tinha comida em lugares diversos da cidade. Enlatada. Mais que o suficiente. Sem precisar limpar ou consertar, eu tinha a cidade inteira pra gastar; sempre tinha lugar pra conseguir comida e deixar merda sem precisar passar nunca mais por ali de novo. A cidade era suficiente pra uma pessoa avulsa. Passei a morar numa casa abandonada perto do mangue do Cocó, depois de perambular pela cidade algumas vezes entre a cidadela e a casa onde tinha morado antes, tentando achar o pessoal do bando ou minha mãe, minha irmã, meu avô desconhecido. Eu sempre tinha adorado histórias de personagens inevitavelmente diante de si mesmos, mas agora que vivia uma com essa intensidade, recusava, queria de todo jeito desfazer atitudes passadas na esperança de reverter o que tinha acontecido. Como se o que tivesse acontecido comigo, como se o que acontecesse com uma só pessoa, fosse resultado apenas das ações dela. Com o tempo, fui me resignando, e um tipo de serenidade às vezes alegre virou minha companhia. Nasceram árvores enormes pela cidade, de um tamanho que eu nunca tinha visto. Começou a haver estações do ano bem distintas, uma coisa que eu nunca tinha imaginado acontecer ali: inverno muito frio e sombrio. Seca, verão de semiárido. Outras estações, com climas intermediários entre esses dois. O inverno parecia um inverno nuclear passageiro, aquele tipo de situação em que a luz do sol é encoberta por gases ou fumaça por longos períodos. Dizem que os dinossauros morreram assim, não foi? Se tivesse alguém aí pra me responder. Depois de algumas semanas, a luz do sol voltava, e eu sabia então que provavelmente não morreria em breve. Eu sentia falta demais da Cidadela, da época em que eu era tão invisível quanto agora, mas era feliz. Passaram-se anos, e eu continuei vivo: quanto mais tempo continuava vivo, mais me impressionava com isso. Um dia, apareceu uma menina inesperadamente. Uma menina sozinha numa cidade daquele tamanho. Cada vez menos eu acreditava no que acontecia. Uns seis anos de idade. Tinha se perdido da mãe desde algum tempo, não lembrava quando. Muito danada, como se dizia, sorridente, linda, cativante. Fazia anos que eu não tinha companhia de pessoa alguma. Fiquei alegre como há muito tempo não ficava. Sem opções, a menina passou a viver comigo, primeiro meio assustada, mas confiando em mim gradualmente. A solidão compartilhada foi se transformando em confiança. A filha que nunca tive nem tinha pensado em ter? Procurávamos comida, conversávamos, eu a ensinava a ler melhor. Eu falava das minhas experiências estranhas, ela falava de sua mãe sendo mãe e pai no dia a dia. A princípio, Letícia, aquela filha postiça, mostrou alegria, energia, carisma e inteligência; na quase inocorrência de fatos a cada dia, algo foi mudando num quase imperceptível. A menina foi se mostrando irônica. Primeiro eu duvidava disso, achava que estava me enganando, tendo alucinações, como desde a infância suspeitava que tinha. Foi ficando clara uma relativa crueldade, da garota, em comentários nos quais analisava a minha vida diante de mim: meus fracassos. Estranhíssimo. Depois de tudo, era só que me faltava. Por que isso? Eu contava minha história pra ela, e a reação, antes amável e atenta, era essa, a de uma análise fria, precisa, pontuda. Eu não conseguia acreditar, não conseguia, não acreditava como tudo o que eu vivia era tão irreal, tão daquele jeito. Cheguei ao entendimento de que a menina tava frustrada e agressiva por não estar com a mãe. Pensei muitas vezes em me livrar dela, inclusive em deixá-la trancada num cômodo de casa abandonada, mas com o tempo me resignei como alguém que se resigna a um domínio; os dias não pararam de passar, não pararam. Houve um longo silêncio, de dias, meses. Aos poucos, sem opções melhores pra ambos, nossa relação foi melhorando. Se tornou amizade, parceria por carência afetiva e pela expectativa da vinda da mãe da menina. Era essa uma das nossas conversas frequentes: a mãe dela deveria estar em algum lugar da cidade, e deveríamos procurá-la, esperar que aparecesse. Elas moraram sozinhas, como eu vinha fazendo, por um tempo. A mãe dela estava por aí. Se tornou nossa meta: encontrá-la. Esperávamos, procurávamos. Letícia dizia: minha mãe é linda. Pra nós, ela era ansiosamente, sonhadamente, alguém por vir.

Fuja, se for o caso, por favor!

No outubro deste ano sem paralelo, como a aventura de Hans Pfaall, eu estava em Iguatu, sertão do Ceará, preparando material didático para lecionar uma disciplina de poesia brasileira contemporânea.

Arquivo pessoal

Escolhia autores conforme uma equação entre política e linguagem, inquietação de mundo e busca de uma voz própria. Procurava colocar na seleção de textos o máximo de vozes femininas, negras e fora dos cânones comuns.

Arquivo pessoal

Confortavelmente protegido na parte de cima de uma casa duplex, alugada junto com colegas professores, meu corpo se depositava ali, desconhecedor de tantos corpos femininos, negros, índios, pobres, sendo agredidos naquele mesmo instante Brasil afora, mundo afora, de tantas maneiras que, com elas, se poderia até fazer um manual geral da agressão.

Arquivo pessoal

Meu lugar preferido na tal casa é uma varanda, no piso em que durmo, o de cima, que dá uma boa vista dos arredores. Oferta de um pôr-do-sol bonito, uma vista de uma lagoa quase seca, de tão maltratada pelo sol e principalmente pelas mãos do bicho mais autodestrutivo que existe.

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Ao lado da varanda, a gente pode ver um terreno baldio. Sou decididamente monótono, como diria Jorge Luis Borges: adoro conversar sobre terrenos baldios, adoro o fato de que nele não há pessoas, e quando há, é gente que provavelmente sabe desfrutar a beleza e o refúgio ali oferecido por ninguém. O terreno baldio ao lado da varanda da casa alugada em Iguatu, em outubro, abrigava um rebanho de carneiros ou ovelhas. Ovelhas, digamos.

Arquivo pessoal

As ovelhas, juntas, são comunidade, partilha. Quando uma delas berra, as outras costumam berrar juntas, em concordância, geralmente. É o seu jeito de dizer: estou com fome. Estou aqui. E eu também estou aqui. E eu também estou viva, tenho minha voz, meu orgulho, minha beleza, minha saúde, meu tempo.

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As ovelhas, obviamente, não eram donas das próprias vidas no terreno baldio embrulhado em muros altos e uma cerca de madeira na frente, que dá pra rua. O terreno tinha muita vegetação rasteira, capim, arbustos. Alguém, obviamente, mantinha as ovelhas trancadas ali, para que comessem a vegetação e depois fossem assassinadas e tivessem sua carne vendida e devorada.

Arquivo pessoal

Num dos dias do referido outubro, eu estava na dita varanda, dez ou onze horas da noite, ouvindo música e remoendo quinquilharias empoeiradas na cabeça. De setembro a outubro, o clima fica mais árido no semiárido, e só melhora um pouco com um vento fresco que chega na cidade mais ou menos no horário em que eu tava na varanda naquele dia.  O vento foi tão forte que derrubou as tábuas que tapavam a saída das ovelhas. Todos os dias, durante o dia, vinha alguém pra abrir esse portãozinho e levá-las pra pastar na área seca da lagoa, do outro lado da rua.

Arquivo pessoal

Tábuas ao chão. As ovelhas, depois de alguns minutos de hesitação ou ponderação, começaram a fugir pelo buraco aberto. Foi lindo. Gravei a cena como pude com vídeos e fotos toscas, amadoras. Claro, as ovelhas seriam depois recapturadas, se não fossem atropeladas pelas montarias automóveis do bicho autodestrutivo que logo somos. Mesmo assim, não tenho palavras pra descrever o sentimento de desforra e beleza que me dominou naquele momento. Parte do rebanho (muitas não quiseram se aventurar e preferiram a gaiola) correndo para fora do terreno baldio, para a rua, num barulho lindo. Nós e as pequenas ilusões de que precisamos pra continuar vivendo, como disse um europeu aí num livro.

Arquivo pessoal

Então, minhas palavras de fim de ano e ano novo seriam, caso alguém se beneficiasse com elas e quisesse escutá-las: se precisar, mate em legítima defesa ou, pelo menos, fuja! Fuja o máximo possível, que fugir também é um jeito, às vezes o único disponível, de lutar. Suponho.

Não é aconselhável escrever a realidade

Quando minha amiga Roberta me convidou para participar deste blog, a proposta era que eu escrevesse sobre literatura. Meio desobediente desde criança, sugeri, em contrapartida, que minhas contribuições mensais abrangessem não só textos dentro do que se entende por crítica literária, mas que passeassem livremente pelas fronteiras cansadas entre o que é ficção e não-ficção, narrativa e ensaio. E que, principalmente, abrissem mão de ter assunto definido, não como expressão do aleatório, mas como um modo pensado, refletido, de tentar misturar a escrita e seus entornos de mundo. Já havia comentado esses direcionamentos aqui, antes. Roberta, Robertinha, amável e anticonvencional, aceitou a ideia de imediato. Meses depois, pela primeira vez, vou procurar de fato cumprir o pedido que me foi feito incialmente e apresentar um exercício crítico para um livro que completa em 2020 seus 60 anos de publicação: Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

Uma leve zapeada pela internet logo dá encontro a várias discussões quanto à importância dessa obra para o movimento negro, para os feminismos e para uma discussão sobre a pobreza no Brasil, assuntos os quais eu só poderia, hoje, discutir de modo superficial, embora atento. Seja como for, tomando essas questões como companhia de percurso, gostaria de debater um pouco a escrita da autora em relação a suas experiências e percepções. Isso, na perspectiva de atravessar o extremo da diferença em relação ao pobre universo do mim-mesmo, gesto que tem me interessado muitíssimo; buscar, na obra, não mais, como quando muito jovem, o que se parecia comigo, mas o que é intensamente outro, tentativa incerta de escutar o desconhecido.

Com datas-jornadas reunidas em diário, como informa o subtítulo, Quarto de despejo contém o relato cotidiano de uma moradora negra da extinta favela Canindé, na cidade de São Paulo, entre 1955 e o começo de 1960, com um salto que exclui o ano de 1957. Na ausência de marido ou coisa descartável desse tipo, a narradora trata da vida naquela comunidade; basicamente, a cumplicidade com os três filhos e as relações meio tumultuadas, meio festivas, entre os que viviam lá. Miséria, violência, alcoolismo e espontaneidade amistosa, contíguos como os barracos dos residentes. Tratando desses fatos, a dicção da narradora tenta parecer pomposa, talvez por acreditar que isso seria necessariamente digno para uma pessoa financeiramente pobre. Contudo, sem se dar conta, aquela dicção ganha força e beleza na medida em que tal busca se precariza, multiplicando-se os desvios à norma padrão da língua (que são condenáveis apenas para desinformados e preconceituosos em geral, visto que, conforme Manuel Bandeira ou a linguística contemporânea, em nada impedem à comunicação do que interessa: ideias e afetos). A escrita de Carolina é rica e crítica exatamente do jeito que se apresenta.

Quarto de despejo se entrega como um realismo descritivo em que a liberdade da digressão é, felizmente, uma das poucas normas. A lição realista ocidental, dentre tantos nomes como Fiódor Dostoiévski ou Graciliano Ramos, assume, nesse caso, um tom de voz para si e para o que se percebe por perto. A palavra “realismo”, nessa obra, aliás, não cai na gaveta convencional da ânsia por transformar paisagens em fotos de alta definição, como se isso fosse requisito para denunciar, reclamar, gritar, expor o mal íntimo da privação nossa de cada dia. Realismo, nesse espaço, está próximo daquilo que em Machado de Assis ou no Neo-realismo cinematográfico italiano é a essência sem essência da realidade: sua larga fluidez, a ambiguidade, a mistura rasgada entre luz e sombra, o espaço indefinido entre práticas distintas e inconciliáveis de subjetividade; aquilo, enfim, que nenhum olhar ou letra explica por completo. Não há, em geral, uma preocupação em contextualizar detalhadamente a personalidade ou a biografia dos vizinhos, como foi ou seria a vida de antes ou depois do período descrito, ou em criar artifícios para “prender o leitor” (estratégia tão triste e corriqueira no mercado da leitura, como se ler tivesse de ser resultado de uma trapaça pregada no consumidor de livros). A materialidade cotidiana em que Carolina escreve dá um teor não convencional a sua escrita, com saltos coesivos que não explicam tudo, mas, por isso mesmo, criam um movimento próprio, pura e bela vontade de lutar contra a morte a cada instante, apesar da eventual fragilidade: “Hoje em dia quem nasce e suporta a vida até a morte deve ser considerado herói”. O que importa está aí, mesmo que você prefira se preocupar com miudezas adiáveis.

Quer dizer, um dado nítido trazido pela narrativa é o prazer do texto, prazer de criar uma realidade afetiva (afetos alegres, mas também inevitavelmente tristes), mais que a necessidade de gerar uma realidade objetiva com ele. E é esse feitio que aproxima a escrita da mineira, paulistana de adoção, àquilo que me parece ser o aspecto mais importante dessa estranha instituição chamada literatura, por alguns, ou escritura, por outros: uma mistura necessária de busca de uma linguagem própria e a preocupação política de desengatar os entraves de hierarquia e exclusão no mundo contemporâneo. O livro e a favela se constroem, como linguagem e política, no ato da escrita. Inevitável, parece-me também, enfatizar nisso a importância política da linguagem como algo que não simplesmente espelha práticas, mas se posiciona criticamente diante delas, que escolhe dados delas para confrontá-las.

De casa nova: Carolina Maria de Jesus na Companhia das Letras | PublishNews
Carolina Maria de Jesus. Foto da internet

No mundo-favela, ser escritor é ser exceção. A maioria dos que estão ali é analfabeta. Mesmo assim, um corpo escuta e anota frases simultaneamente. Com frequência, são mencionados momentos em que a narradora escreve seu diário ou simplesmente redige algo, em intervalos de urgências contínuas. Uma outra favela, em relação à Canindé fora-texto, passa a existir no durante que a faz verbo, e isso, de um modo especial: ela ecoa sem fim no presente incessante da página, como se a leitura independesse de alguém lendo em tal momento e, estando o livro fechado, apenas esperasse, paciente, um novo leitor para retomar o que ecoa livre do silêncio. A escrita de Carolina é uma escuta da multiplicidade circundante, mas também o ato de fundá-la, fazê-la existir. “O José Carlos ouviu a Florenciana dizer que eu pareço louca. Que escrevo e não ganho nada”. Por que escrever? Para quê? Essas perguntas, enunciada eventualmente por alguns dos personagens e nunca respondida pontualmente, têm sua resposta disseminada da primeira à última linha do diário-livro.

Na favela, não é apenas a escrita que é tida como supérflua, mas tudo ao redor: gente, coisas, moradias, utensílios. Por isso, a metáfora do título: a favela é o quarto de despejo, recinto de cacarecos como parte da casa que é a cidade. A imagem do cubículo de despejo é retomada ao longo do livro conforme a desvantagem hierárquica imposta pela sala de estar, pelos quartos dos donos, ou seja, pela exuberância das áreas paulistanas de classe média, captadas pelo olhar sensível da narradora, mas que fecham seus olhos ao quadradinho escondido nos fundos. O quarto de despejo é depósito de inutilidades, mas também serve à casa: quando massa de manobra eleitoral, por exemplo, como apontado com frequência no livro, ou, de modo mais geral, quando os negros têm alguma “utilidade” para o bem-estar branco. Ao passo que viver na favela é ter a experiência mais aguda da exclusão, da vida num país de exclusão, o olhar da narrativa, sempre no limiar entre a favela e o resto da casa, é antropófago: absorve, aprende, sobretudo com leituras e conversas com pessoas e opiniões que alimentam a visão crítica da narradora. Olhar que tem sede e está sempre morrendo de fome.

Aliás, a preocupação recorrente de Carolina é conseguir alimentos a cada dia para si e para as crianças. A fome é, pensando com Maurice Blanchot, a pergunta que nenhuma resposta desfaz, é o dado mais concreto, mais concreta que a fruta inalcançável, como no Cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto (1920-1999). A fome e a frágil saciedade alimentar que mal a eufemiza são os condutores constantes da matéria de vida possível naquele lugar. “Eu não quero enfraquecer e não posso comprar. E tenho um apetite de leão. Então recorro ao lixo”. Disso decorre, creio, a insistência em escrever, escrever para enganar a fome, escrever tanto, até que escrever se torne meio para enfrentá-la. A arte de recolher do lixo aquilo que pousa na débil soleira entre sobrevivência e morte é como um suplemento à escrita: escolha, inscrição do alimento podre no próprio corpo que o cata. Catador e lixo, duas texturas do despejo, se confundem, alças de um mesmo metabolismo.

O livro de Carolina Maria, que pode ser lido também como romance, é uma espécie de palco teatral, voz que se desdobra de si mesma e se veste de ficção; ficção que não mente, mas escancara o gritante no habitualmente invisível. Do quarto-favela, comparece o que é favela ao extremo; a “mentira” do que é, em mais de um sentido, dramatizado (como dor sentida, como dor expressa), é a única verdade que resta: verdade como mais um item do despejo. Porém, a performance, o gesto cênico da escrita do despejo não é melodramático. Não apela a sentimentalismos: diz mesmo é o que há ou, mais precisamente, o que falta. A força, apesar de tudo, está no que falta, porque a vida, a falta e mesmo a alegria possível se confundem: “Achei o dia bonito e alegre. Fui catando papel”. Aqui, provavelmente, perde sentido a questão de se uma escrita é artística ou não, se assume algum lado na binaridade bestinha texto literário X texto não-literário, ficção e realidade, porque o acontecido e a palavra se tornam inseparáveis, mesmo que distintos. Escrita, experiência, invenção: o sonho ancestral de que o olhar se torne parte da paisagem, mesmo que no efêmero.

“Não é aconselhável escrever a realidade” diz um sapateiro à narradora. No entanto, Quarto de despejo é uma grande desobediência a esse “conselho”. Não é aconselhável escrever a realidade, por diversos motivos: por exemplo, porque a censura é como um vírus, ora inativo, ora disseminado; ou porque uma vez iniciada essa escrita, é quase inevitável a descoberta de que será preciso continuá-la enquanto o próprio corpo estiver vivo, e depois em outros corpos, interminavelmente: começar a escrita sabendo que ela não poderá, não deverá, não quererá ser interrompida, mesmo que o seja por tempo indefinido. E quem sabe, com isso, lembremos de desobedecer certos conselhos lamentáveis, por prazer, por favor, sem favor, já que o que vocês e eu mais fazemos é obedecer, decepcionantes que somos. Entretanto, ainda vivos, talvez. Afinal, mesmo o título de um texto pode muito bem ser desobedecido. “Os favelados zombam dos conselhos”.

Frestas do mundo dos outros

A luz cheia, caída do
sol sobre as folhas das
árvores que fazem do
terreno baldio um
remendo de floresta, folhas,
microtelas multidirecionais, filtros
verdes, a alguns metros acima das
crianças sentadas no chão em círculo assim
étrico. Há sapos-cururus dormindo por
ali, escondidos, invisíveis como aquelas
crianças quando elas caminham pelas
ruas, quer dizer, quase invisíveis, porque
as pessoas às vezes as veem e as
temem ou sentem seus territórios in
vadidos por elas, crianças como
cachorros ferais em forma
humana. Um homem (segredo: esse
cara sou eu) mora
numa biblioteca onde
só há livros e uísque, o que
pra ele não deixa de ser uma
situação de alguma sorte, já
que ele gosta dos livros e do
uísque. Sempre sozinho naquela
biblioteca, esquecido de desde
quando. Não tinha sobrado
ninguém além dele naquela
cidade. Muito longe do homem e
de sua biblioteca, as crianças do
terreno baldio não dispõem de livros nem
de uísque, mas sim de pequenos
cachimbos de lata de cerveja ou refrigerante
em que fumam um tipo de
farofa grossa com cara de
encardida. Essa é uma das
primeiras vezes em que
essas crianças se divertem desse
jeito: estão animadas e têm a
vaga sensação de estarem diante
de um monte de trilhas
atraentes, sem saber qual
escolher. Por um lon
go período, o homem da
biblioteca preferiu livros que
detalhassem personagens parecidos
com ele, caras distantes dos
outros porque queriam e porque não
queriam: Fausto, Brás Cubas, o
escritor sem nome do
porão de Dostoiévski, o
escritor com fome, de Knut Hamsun, o
animal sem nome na
toca que escavou, como
contou Kafka. As garotas e
garotos brincam eufóricos após
os cachimbos, o dia é de
luz atravessando todos os poros, mas
não está tão quente, talvez porque
ainda seja manhã. O homem
na biblioteca não tem
noção clara do tempo, ele
já nem tenta mais medir a
passagem do tempo, e,
falando em tempo, faz um
tempo que ele tem preferido
ler obras com personagens femininas
e bem diferentes dele: as
mulheres de Clarice, de Virginia, de Cassandra, de Marília Gabriela, de Orides, de
Maria Carolina, de Ana Cristina.
De dia, ele lê, de noite,
bebe uísque: homem rotineiro.
Em lugar de ler livros-espelho, de se buscar nas
páginas lidas, ele agora lê livros
com personagens que acolhe
como filhas, esposas, amigas, ou me
lhor, ele acolhe a ausência delas como
se fosse uma filha, uma esposa, uma
amiga. Simultaneamente, eu não sou
esse homem, nem estou
aqui. Convenceram você a
ver, às vezes, felicidades possíveis de
alguém apenas como tristeza e
pessimismo: isso, sim, é que é
triste, alguém poderá responder. Quem
sabe? Os sapos-cururus são
pequenos hipopótamos, porquinhos
provavelmente felizes em
seu aparente mau-humor. Pode
acontecer: quando alguém chega
perto
deles, eles viram as costas e
cagam e mijam da maneira mais
rude e sonora que conseguem, talvez
até não estejam sendo
sinceros, mas, quando fazem
isso, estão expressando uma
irritação repentina. Sapos-cururus se
parecem um pouco com ratos, caramujos,
tilápias, javalis, gatos, cachorros, coelhos, gente:
se adaptam a qualquer lugar e
vencem fácil a disputa pela vida que
houver com as espécies nativas. Se
bem que os sapos se limitam a
comer insetos: sua ambição é
modesta. Uma noite, depois de
um sexo intenso e gostoso, você
dormiu e sonhou que, por uma
infelicidade qualquer, os sa
pos-cururus simplesmente foram
extintos, fim, pra eles, da aventura
de viver. Não foi um sonho bom, foi
um sonho triste, mas logo
você acordou e constatou, aliviada,
que nenhuma má-notícia tinha
chegado e, portanto, os
cururus provavelmente continuam
seu próprio mundo nas
frestas, ou em torno, do
mundo dos outros

Vivo antes de 7h30 da manhã

Um ou dois anos depois da época em que eu dava aulas particulares em bairros diversos de Fortaleza e voltava pra casa a pé, consegui uma vaga para ensinar num curso de graduação em Letras em Iguatu-CE. Aulas de literatura de língua portuguesa. A maior oportunidade que já tive na vida. No sertão bonito e áspero do cacto. Dar aulas, se aporrinhar, ter umas alegrias imprevistas, ser professor, quem sabe. Desde então, em geral, o tempo escorrendo sem alarde, sem problemas de menção especial: a vida em Iguatu, resumindo.

Muitos anos depois de começar a trabalhar lá, numa noite, final de turno, eu conversava um pouco com Manfredo, a poucos dias da colação de grau de sua turma, num corredor do campus. Ele não parecia muito interessado na minha preferência por literatura contemporânea, mas acho que gostava de conversar comigo sobre livros em geral. Passou por nós o Rômulo, concludente em breve, assim como o que papeava comigo. Interessou-se, parou por ali, injetou umas frases na conversa. Propôs então que continuássemos, num bar, a tratar dos assuntos que viessem. Já havia notado que Manfredo não era próximo de Rômulo, mas não necessariamente o evitava; em todo caso eram bem diferentes. Manfredo me olhou com ar de: não tou fazendo nada melhor mesmo. Opinei: vamos beber.

Manfredo me lembrava aqueles desenhos do rosto do Cruz e Sousa, cuja poesia gosto tanto, mas sem a barba, com um rosto mais arredondado e a pele um pouco mais clara do que parecia ser a do meu poeta brasileiro preferido no século XIX. Esse nome, Manfredo, foi homenagem do pai, falecido, que gostava do romantismo europeu e particularmente do belo poema teatral de Lord Byron em que o heroico personagem Manfred desafiava, ao mesmo tempo, Deus e o diabo (“esses dois sujeitos indignos de confiança”, dizia divertidamente Manfredo). Rômulo era policial, branco, uns 40 e poucos ou tantos, rosto meio detonado pelos anos e talvez por muitas farras. Tinha um sorriso fácil e que me parecia meio idiota; provavelmente era alguém dado a autoritarismos e talvez agressividade. Acho que era bolsominion enrustido (ainda não havia sido eleito o pior presidente que nosso pobre país já teve).

Então, essa pequena comunidade de três machinhos fomos ao bar e restaurante da rodoviária, mesa sob céu com algumas estrelas. Estava tocando forró no aparelho de som; conseguimos que trocassem por Belchior, repertório dos primeiros discos. Manfredo gostava de roupas escuras, meio formais, botões. Seu jeito de falar também tinha uma certa formalidade na escolha das palavras, no tom de voz. Sempre a coluna muito ereta, meio sério. Pareceria caricatural, talvez, se não fosse a atitude sarcástica com que encarava tudo. Rômulo fazia o papel do gente boa conversador, cheio de sabenças que considerava úteis ou impressionantes. Era alguém trivial. Apesar das impressões que me causava, tinha uma atitude em geral amistosa. Ambos iam se graduar em breve. Animados. Um clichê do bar é uma certa tendência espontânea de que as conversas primeiro toquem assuntos “sérios” para depois alcançarem tudo aquilo que classificações variáveis incluem na rubrica “putaria”. Um clichê, isso, mas a cerveja estava geladíssima. Dava até uma dorzinha perto da úvula.

Pois então. Manfredo me perguntou o que há de interessante na literatura hoje, mas não parecia interessado na resposta. Falei de obras que me agradam, das inquietações políticas de linguagem que me cobram a atenção; ele queria, entretanto, a névoa e os tons de voz do que lhe parecia ser a Europa no século XIX. De qualquer modo, me parecia importante, até imprescindível, que aquele rapaz tivesse aqueles modos naquela cidade. Era um deslocamento, uma saída do banal e do massivo, um anacronismo no melhor sentido da palavra, em que se traz algo de antes como uma coisa nova, que cutuca o que houver de pasmaceira no presente: o anacronismo de Jorge Luis Borges ou até o de Oswald de Andrade. Manfredo era interessante porque irônico e reflexivo, porque não se deslumbrava com cânones, exceto aqueles que admirava (basicamente, a arte clássica, da Antiguidade, e a do século XIX); a atualidade contaminava a impressão passadista que parecia querer causar de si mesmo. Não se dava conta, e preferi deixar que um dia percebesse isso sozinho, do quanto era fruto do agora, do hoje. Que nem todo mundo que estiver vivo, diretamente ou por tabela, queira ou não.

Aliás, Manfredo contou o resumo de uma peça teatral que pretendia escrever. Gostei tanto que consegui guardar na memória. Era ambientada na Grécia mitológica que os gregos construíram e tinha, como um dos personagens, Medusa, lendária criatura cujo olhar, quando visto, multiplicava ao extremo a porção de pedra que cada pessoa carrega em suas emoções. Um jovem cego é abandonado na ilha de Medusa por marinheiros debochados, sem saber onde estava, nem sobre quem morava ali. Começa a caminhar sem rumo, já que não conhecia o lugar, e acaba por entrar no palácio onde Medusa arrastava seu corpo de serpente sem descanso, dia e noite. Ela o fareja e vem a seu encontro. Logo percebe que ele não se transformará em pedra, já que é cego. O jovem percebe a chegada de alguém e pergunta se seu interlocutor pode ajudá-lo. Medusa se mantém em silêncio observador. Uma das cobras venenosas em sua cabeça, resquício dos belos cabelos que um dia teve, arma um bote para picar o rapaz no rosto.

Medusa [dirigindo-se à serpente que iria picar o rosto do rapaz. Era a primeira vez, em séculos, que a Medusa falava, voz rouca, inumana, mas parecida com a de uma mulher]: não.

O cego: está falando comigo?

Medusa: Não.

O cego [hesitante]: apenas quero ir embora.

Medusa: para onde?

O cego: qualquer lugar. Para mim, todos os lugares são quase o mesmo, e estar em casa e estar perdido não são coisas tão diferentes.

Medusa: o que você quer?

O cego: eu?… Tenho fome. Quero comer.

Medusa: aqui não há nada que lhe agrade, a não ser que goste de carne podre [silêncio com olhar sarcástico]. De um banquete recente…

O cego: preferiria talvez algumas frutas.

Medusa: [o olhar dela mistura contrariedade e curiosidade, se é que um olhar humano pode conter isso] por aqui não há frutas.

O cego: parece que invadi sua casa. Me perdoe. Sabe se eu poderia conseguiria frutas em algum lugar perto? [ouvindo o arrastar do corpo de serpente, enquanto ela se movia ao seu redor] Posso fazer uma pergunta?

Medusa: sim.

O cego: você é humana?

Medusa: o que você acha?

O cego: acho que sim.

Medusa: por quê?

O cego: porque… você me escuta. Sei que me observa enquanto espera que eu fale. Sinto uma paz estranha. Creio que não exagero em dizer que você é a melhor companhia que tenho tido em muito tempo. Seu silêncio me acaricia melhor que a maioria das palavras piedosas que me deram como esmola.

Um fio de tristeza ecoa do olhar de Medusa, na imensidão daquele palácio de pedra, que na verdade era um labirinto, que na verdade era um palácio. Ao ar livre, depois de longa caminhada, chegam perto de uma macieira. O cego acha as maçãs deliciosas. Come e adormece recostado no tronco. A medusa se sente ressensibilizada, mas também irritada pela inquietação sentimental que aquele frágil e jovem rapaz provocara em alguém ressentida como ela. Seduzida ou estuprada, não se sabe ao certo, por Posêidon no templo de Atena, foi castigada por esta devido à profanação de seu altar: transformada naquele monstro: Medusa. A paixão, naquele momento, lhe inspira horror contra o ódio que sentia. Ódio à humanidade e a todos os deuses, carregado consigo há tanto tempo. A medusa sabe que só poderia voltar a ter a paz ressentida em que vivia se o jovem desaparecesse. Entretanto, sabe-se incapaz de atentar contra a vida do rapaz, apesar da intranquilidade odiosa que ele involuntariamente lhe traz. Ela precisa comer; apenas seres sem olhos poderiam lhe servir de alimento. Quando Perseu e seus companheiros chegam à ilha para matar Medusa, poucos dias depois, simplesmente não encontram o rapaz cego dormindo sob a macieira. Ele não está mais lá. Seu corpo desaparecera por completo, e só Medusa sabe o que acontecera. Uma última fala dela, dirigida ao público, ecoaria antes de o pano cair:

Medusa: vocês são ridiculamente limitados… Acham que destruí meu redentor! Meu redentor de vidro fino. São incapazes de pensar que eu possa ter dado a ele o paraíso que nenhum humano ou deus lhe daria!

Algo que eu não sabia colocar em palavra no momento me agradava naquela ideia de teatro. Mudamos de assunto, e Rômulo, já meio alterado, iniciou o relato do fora que sua namorada havia lhe dado, já que ele era assumidamente um cara muito controlador e ciumento. Inconsolável, ele tinha impulsos de agredi-la e disse isso a ela, que deixara claro, com isso, que dele queria apenas distância. Tinha vontade de esmurrá-la ou pior. Manfredo olhou pro lado e fez uma cara de desânimo sarcástico ao ouvir isso. Olhei pra baixo e torci a boca meio involuntariamente. E agora, essa. Manfredo cortou o silêncio de alguns segundos: Olha, isso não tem futuro, não. Se tu não tá nem aí pro que vai acontecer com ela, pensa no monte de problema que tu vai arranjar pra ti mesmo. Mais alguns segundos de silêncio. Peguei a deixa e falei um pouco sobre como ele poderia lidar com aquele sentimento, como poderia talvez tentar negociar com a namorada (embora eu achasse que ela não aceitaria mais ter contato com ele, pelo menos não a curto prazo) e como poderia lidar com a rejeição definitiva caso isso fosse uma certeza. Falei de improviso, mais por tensão que por confiar de fato naquelas palavras. Mas vai que ajudassem, ué. Eu espero que tenham servido pro cara se aquietar. De qualquer modo não tive nenhuma notícia dele depois da colação de grau, nem boa, nem ruim.

Conversamos por mais um tempo, assuntos amenos, alfinetadas no Bolsonaro ouvidas por Rômulo em silêncio, talvez por sonsice. Manfredo ocasionalmente encorajava Rômulo a fazer yoga, meditação ou, em caso de diagnóstico, a tomar pílulas e banhos gelados à noite, e o outro ria aparentemente sem perceber o tom de deboche. Depois falamos de coisas aleatórias, relacionamentos. As historinhas de cada um. Contei da minha vida amorosa incerta. Diversas vezes, só gostava das namoradas depois que eu terminava os namoros, e elas arrumavam alguém. Eu queria então reverter as coisas, mas era tarde. Transei com caras, também, numa suruba, foi bom, tranquilo e sem afetos especiais. Rômulo franziu a testa e apertou os olhos. Fiquei feliz por ele ter se chocado. Pequenas alegrias a que a gente não renuncia. Então, desde um tempo relativamente longo, estava só. Só, numa espécie de inércia. Como numa espera desenganada, sem tanta pressa. Lou Andréas Salomé ensinou algo a Nietzsche: as mudanças importantes muitas vezes precisam de pequenos movimentos retomados a longo prazo. Raríssimo, desde criança, eu falar assim de mim pra gente que conhecia pouco. De repente, soube que muitas horas tinham se passado, e talvez eu tivesse bebido mais do que percebia. Gosto de algumas de suas aulas, não de todas, disse Manfredo, sem que eu percebesse claramente se estava de zoeira ou não, se o provável deboche era um jeito de tentar animar o ambiente. Em alguns momentos da noite, eu me perguntava até que ponto contribuí para aqueles caras chegarem ali. Até que ponto houve nas aulas que ministrei alguma contribuição que prestasse pra algo. Algo que parecesse válido. Difícil saber, mas estar ali com aquelas pessoas tão diferentes de mim não era mau. Nada mau. A cerveja possivelmente ajudava a manter o clima de boas. Tanto melhor.

Hora de buscar um rumo. Rômulo sumiu logo em sua moto. Manfredo era adepto e usuário de uma bicicleta. Me acompanhou por um quarteirão, antes de seguir seu caminho, enquanto nos perguntávamos: Esse Rômulo tem jeito na vida? Rapaz, sei não. Caminhei pra casa em que ficava quando estava na cidade, aluguel dividido entre colegas professores. Depois que andei dois quarteirões e seguia por um trecho de poucas casas, todas as luzes ao redor apagaram. A eletricidade e seu rumor sumiram. Escuridão densa e desafiadoramente silenciosa: por uns segundos, tudo deixou de existir. Não estava tão longe e conseguia me guiar até a casa pelas estrelas e pelo risco de lua no céu. Lembrei do Ivo, um amigo falecido de câncer há uns dois anos que tinha uma história amorosa parecida com a minha, avulsa, sem chegar a lugar nenhum. Tinha a minha idade. Lembrei também dos relatos de experiências de quase morte que doentes ou acidentados fazem, às vezes, quando acordam de seus comas: tomada por uma tranquilidade inédita, a pessoa encontra, em um salão iluminado, parentes mortos antes dela e que vieram recebê-la. Não consigo acreditar em vida após a morte: isso pra mim é contar com o ovo no cu da galinha. Pensei então que talvez o paraíso fosse uma experiência neurológica que durasse poucos minutos ou segundos, mas sendo percebida, nem que por um instante, com um gosto de eternidade. Ivo talvez tenha tido seu céu: tomara. Eu continuava vivo e estava chegando na casa em que dormia em Iguatu, quase às três da manhã. Sono. Tinha que dar aula às 7h30. Mas a aula às 7h30 não entra nesta história e, portanto, é um lugar e um horário que nem existem, pura ficção.

Lugar de escuta

Por que deveria existir a obrigação de se adequar a classificações de gênero, quaisquer que sejam? Tenho na cabeça o exemplo dos gêneros textuais, discursivos. Por que um texto deveria se adequar à exigência de que ele seja trilhado por certas características fixas? Isso, ok, tem sua utilidade em muitas situações. Acredito, porém, que a liberdade de desobedecer, alterar e desrespeitar regras para composição de texto no arco de um mesmo texto pode ser um tipo de prazer. Lembrei daquele livro tão bonito do Roland Barthes, O prazer do texto; o que é revolucionário não é a dor, a renúncia, o trágico, os normativismos morais. O que pode mudar o mundo é o prazer, o gozo como limiar do prazer, o desejo não como um se manter longe, mas como contínuo querer estar perto, diferença sutil, mas creio que relevante.

Nesta coluna, gosto de praticar um dos meus prazeres: a digressão. Mudar de assunto. Não obrigar o texto que escrevo a ter unidade temática. Não ter a obrigação de continuar falando da mesma coisa. Num mesmo texto, gosto às vezes de, sem aviso, passar do ensaístico ao ficcional, do cotidiano ao absurdo, da ânsia de conversar ao gesto de me calar. Não sei até que ponto isso pode interessar a possíveis leitores, mas é algo que me desperta prazer, animação. Hoje, então, resolvi enunciar algumas coisas de pensamento que me interessam e, espero, possam interessar a você(s). Um pequenino trajeto pessoal de descobertas e expectativas.

Além da literatura, que procuro levar para as salas de aula em que vou buscar a manutenção da minha materialidade, tenho muito interesse pela filosofia. Especificamente, por um certo ramo da filosofia que busca se desviar dos ritualismos e normativos habituais da área, especialmente na academia. A filosofia que não tem medo de se confundir com outras áreas de saber. A filosofia que corteja uma abertura de seu próprio corpo à fusão desapropriadora com outros corpos de linguagem e práticas não linguísticas. Isso tudo, como opção, não como regra de ouro ou coleira. Nesse sentido, creio que os escritos de Friedrich Nietzsche (1844-1900) são um momento muito feliz do chamado pensamento ocidental.

Partindo de acontecimentos pessoais, como a doença que o impediu de continuar lecionando, o desânimo motivado por isso e a retomada da vontade de viver e pensar, bem como históricos e estéticos, como o conjunto artístico e filosófico da cultura grega da Antiguidade, Nietzsche antecipa o inconsciente psicanalítico, enfatiza a irracionalidade e a antimoralidade como componentes do desejo humano de estar vivo e, principalmente, sustenta uma ideia que, décadas depois, seria amplamente aceita pelas ciências humanas: a de que inexistem verdade cultural unificada e válida para a espécie humana inteira. Não adianta você esperar que seus valores sirvam automaticamente para o outro; é preciso que você estabeleça uma luta existencial e política para que o seu pensamento faça sentido e prazer ao outro também. Que você convença, debata, argumente e encontre ou construa a sua comunidade, aqueles que compartilharão pensamento e práticas com você.

O pensamento de Nietzsche vem, assim, não puramente de afirmações prévias e categóricas que pretendam enunciar uma verdade pretensamente universal, mas em uma escrita aberta, interpretável de muitas maneiras, em que ecoa uma afirmação: estou aqui falando para os meus amigos, para aqueles que queiram concordar comigo, fazendo lembrar, talvez, que linguagem não é caminho definido, mas dispersão, desencontro, luta pela sobrevivência. Nietzsche diz também que não espera que concordem com tudo o que ele diz, mas que espera que queiram frequentá-la e colher nela o que desejarem: isso pode servir, inclusive, como modo de leitura de sua obra, já que pessoalmente considero impossível concordar com todos os posicionamentos dele. O exercício de buscar pontos de vistas diferentes dos convencionais gerou muita polêmica para a obra nietzschiana; diante da acusação de precursores do nazismo, seus textos seriam antes a recusa em dar automaticamente o status de coisa ruim à crueldade e de coisa boa à bondade. Operação arriscada, mas que pelo menos em certos âmbitos pode gerar debates maduros e lúcidos. Por que não procurar compreender algo criticamente, pela maior parte de ângulos possíveis, antes de adotar posições simplesmente porque disseram que seriam válidas?

Certamente, considerando o contexto eurocêntrico, machocêntrico, caucasocêntrico do século XIX, a obra de Nietzsche não está isenta de conservadorismos, machismo, hipóteses equivocadas ou meramente aberrantes em geral. Elas me ajudam a produzir pensamento, não para me tornar discípulo, mas para exercitar aquilo que o filósofo alemão escreveu num poema: “quer me seguir? Siga a si mesmo!” Com o tempo, muitos começaram a defender que a obra nietzschiana não era uma apologia do nacionalismo e de tudo que nele é autoritário, mas, por exemplo, o ato de perguntar: você está de fato convicto de que quer ou não quer ser autoritário? Qual resposta você se dá quanto a isso? Nietzsche parece ter estimulado um pouco daquilo que houve de mais transformador e anticonservador no pensamento europeu do século XX: Georges Bataille, mistura de antropólogo, economista, ensaísta, ficcionista e não sei o que mais, é um dos primeiros deles. Jacques Derrida, que quis ver a matéria como um tipo de imensa linguagem, e Gilles Deleuze e Félix Guattari, que disseram que a linguagem humana é a base de qualquer abuso de poder, preferindo atentar para as linguagens que preferem exprimir afetos a significados inteligíveis, trouxeram também algumas linhas boas para repensar permanentemente o humano como transformação e potência.

Já que estou falando de gentes e ideias, mas estou também falando de mim mesmo, de certo modo, não quero deixar de lado a contribuição indispensável de Karl Marx. Não pela aposta heroica, embora cada vez mais duvidosa, de que uma revolução radical esteja garantida, mas pelo gesto politicamente intenso de pensar outro mundo e outra materialidade; pela argumentação decisiva na sustentação de que os espaços humanos não são natural e inevitavelmente imutáveis, mas que mudam com a história, e com isso podem mudar rumo a uma dinâmica libertadora e desierarquizadora de coisas que muitos desejam, mas temem não ser possível.

Não poderia, de jeito nenhum, dizer que as ideias acima sejam o que há de melhor e mais importante no pensamento construído pelo grande ciclo das modernidades (que continua contemporaneidade adentro). São só algumas posturas que chamaram minha atenção. Entretanto, elas me parecem próximas de um interesse que tenho tido desde alguns anos: o de sair da tendência canônica e afinal mercadológica (mesmo que eu não queira) de ler obras escritas por homens brancos de classe média. Sair da zona de conforto mental. Ler coisas que não se pareçam com o que já li. E, sobretudo, buscar as vozes de quem secularmente foi tratado na base do “cala a boca”, mas que sempre teve e cada vez mais tem muito o que dizer, da forma que puderem: mulheres, negros, “povos não ocidentais”, animais, plantas.

Cânone, Norma, periferia, zona de desterritorialização, todos esses são conceitos brancos, europeus ou europeizados. Muito provavelmente aquelas vozes que começam a ser ouvidas vão propor categorias que desloquem essas aí. Isso não terá reconhecimento da elite acadêmica branca, ou terá de modo limitado, mas poderá atuar como fonte de práticas políticas de elaboração de comunidades de tamanho variável. Essa percepção me tem dado vontade de calar e escutar as vozes de todos esses grupos.

E tem é coisa para quem se interessa. Pensamento feminista em suas diversas vertentes, negro, pós-colonial ou decolonial, queer etc. Uma grande multidão de autores mundo afora trazendo suas vivências e seus dialetos (o que é uma língua senão uma multiplicidade de dialetos?), oferecendo-me percepções que eu jamais terei se me mantiver lendo europeus ou europeizados. Sueli Carneiro, Helena Vieira, Milton Santos, Judith Butler, Franz Fanon, Anibal Quijano, María Lugones, Donna Haraway, tantas falas. O interessante, para mim, é que vejo pontos de contato entre os europeus citados e comentados acima e muitas das discussões, por exemplo, nos autores latino-americanos da proposta decolonial ou nos que se dedicam às discussões queer. Aqueles autores dos primeiros parágrafos acima têm, para mim, uma contribuição de que gosto muito: não aceitam compreensões simplificadoras, esquemáticas, do real, mas tentam abrir olhos e ouvidos para sua complexidade, para as complicações do humano, no fundo atuando como forças contínuas de confrontação ante tudo que é conservador, tudo que tenta manter privilégios e noções preconcebidas. De qualquer modo, eles são um limite, um insuficiência, são o anúncio do que precisa ir adiante. São algo que este texto mesmo está tentando fazer: admitir que li vários europeus, mas quase nada, ainda, do que tem me interessado ultimamente. É a confissão de um desejo, mas também de uma falta.

Condições materiais favoráveis de espaço e tempo é que propiciaram, naquele ciclo de modernidades mencionado, o desenvolvimento de um pensamento complexo, que una o lado estético da linguagem à preocupação com práticas políticas de vida em grupos. Um pensamento que começou a ser formulado por brancos, pelo menos no campo de parte das práticas envolvidas por ele, mas que, quem sabe, consiga combater minimamente valores excludentes do mundo branco habitual.

Talvez a origem racial, de gênero ou de outras circunstâncias de um pensamento não determine completamente os percursos e performances com que ele vai se conectar. Talvez o lugar de fala não seja um perímetro inequívoco; o lugar de escuta, imagino, não é; é fluido, aberto e amoroso ao outro, não como norma e virtude, mas como proveito, viço de experiência, categoria que tem suas cascas europeias, mas que também existe em outras diversas culturas, como alegria de viver o próprio corpo e prazer com o prazer do outro. O prazer naquela imprevisível medida revolucionária, inquietante, embora sempre em risco de ser usado para anestesiar e dominar. Complexidade e simplicidade, categorias também brancas, podem ser bagunçadas pelas vozes novas de modo que elas construam pensamento politicamente transformador, democrático, mas crítico da democracia, com possibilidades produtivas e encorajadoras.

Essas observações, contudo, não se propõem como explicação ou previsão de nada, mas apenas como vontade e aposta. As vozes novas é que vão decidir e estão decidindo o que querem dizer. Toda esta escrita aqui tentou não mais que chegar a este lugar: o do silêncio e da atenção. E se houvesse um pensamento que produzisse movimento pelas vozes de que gosto, pensamento que privilegiasse a escuta das corporalidades e transcorporalidades que escapam a ele? Como a opção pelo silêncio e por uma longa escuta, por eventuais intromissões na conversa, pensamento em que a escuta é uma escritura, cuja singularidade é, numa conversa, propor como fala predominantemente a ação dos ouvidos? O meu lugar de pensamento, hoje, é um lugar de escuta, de quem se cala para escutar, não por mérito, mas para um aprendizado contínuo.