Gayatri Chakravorty Spivak: “Pode o subalterno falar?” (1)

A crítica literária e filósofa indiana Gayatri Chakravorty Spivak (1942) contrapõe e costura, em suas obras, a tradição marxista, a filosofia desconstrucionista do franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004), os estudos feministas, as discussões pós-coloniais. Seu ensaio Pode o subalterno falar? (1985) desenvolve a questão imediata do título conforme a tese de que, em muitos contextos fora das áreas “civilizadas” e economicamente privilegiadas do capitalismo contemporâneo, as pessoas desprestigiadas e oprimidas têm como arma de luta política imprescindível a comunidade, mesmo que restrita ao pensamento, com aqueles que ecoam suas vozes ou mesmo as inventam. Isso não resultaria numa representatividade ingênua e idealizada, mas num campo de forças e relações complexo e em contínuos rearranjos e desarranjos.

“Este texto se deslocará, por uma rota necessariamente tortuosa, a partir de uma crítica aos esforços atuais do Ocidente para problematizar o sujeito, em direção à questão de como o sujeito do Terceiro Mundo é representado no discurso ocidental. Ao longo deste percurso, terei a oportunidade de sugerir que uma descentralização ainda mais radical do sujeito é, de fato, implícita tanto em Marx quanto em Derrida. E recorrerei, talvez de maneira surpreendente, ao argumento de que a produção intelectual ocidental é, de muitas maneiras, cúmplice dos interesses econômicos internacionais do Ocidente” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Pensadores franceses da segunda metade do século XX, na trilha da noção espinozana de afeto e da vontade de potência nietzscheana, propuseram o conceito de desejo, encarnação de vitalidade e força transformadora, como questão mais aguda para a filosofia recente. Gayatri, entretanto, vai enxergar numa louvação em coro que Gilles Deleuze (1925-1995) e Michel Foucault (1926-1994) fazem, desse conceito, um descuidado retorno a uma subjetivização simplificadora e antiquada: o desejo teria sido tratado pelos autores referidos como uma via absolutamente benéfica de práticas políticas; com interferência marxista (por intérpretes como Walter Benjamin e Louis Althusser), a indiana matiza a pulsão desejante como intensidade produtiva, mas também como desejo por aquilo que se sabe ou se descobre prejudicial, fenômeno comum tanto em indivíduos dispersos (como ressaltado na psicanálise freudiana) como em coletividades subalternizadas na periferia do capitalismo mundial. É como se o sujeito unitário e essencialista que Deluze e Foucault tanto criticam (tradicionalmente cristalizado na figura do indivíduo como simplicidade e essência), fosse recuperado por eles mesmos, inadvertidamente, na formulação de um desejo triunfal e homogeneizado.

Gayatri C. Spivak | The Department of English and Comparative Literature
Gayatri Chakravorty Spivak. Foto da internet.

“Esses filósofos não admitem a ideia da contradição constitutiva – e é aí que eles se separam de comum acordo da esquerda. Em nome do desejo, eles introduzem novamente o sujeito indivisível no discurso do poder. Foucault frequentemente parece atrelar “indivíduo” e “sujeito”; e o impacto disso em suas próprias metáforas é talvez intensificado em seus seguidores. Devido ao poder da palavra “poder”, Foucault admite usar a “metáfora do ponto que progressivamente irradia suas adjacências”. Tais deslizes tornam-se a regra em vez da exceção, em mãos menos cuidadosas. E esse ponto radiante, que anima um discurso efetivamente heliocêntrico, preenche o espaço vazio do agente com o sol histórico da teoria – o Sujeito da Europa” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Tida como difícil, a prosa ensaística de Gayatri pode ser descrita como um jeito singular de escrita e, desse modo, de tentativa de chamar a atenção do leitor para um posicionamento político participante a partir de sua própria linguagem: é preciso sacudi-la, deslocá-la, por opção, por vontade de viver melhor, como modo de situar práticas possíveis de subjetividade frente ao que é estagnação socioeconômica, cultural e existencial, da vida nas zonas precarizadas da linguagem, da geografia e do corpo mundo(s) afora. Próximo mês, continuo citando e comentando a prosa de provocação que Gayatri assume em seu ensaio.

“Meu argumento é que Marx não estátrabalhando para criar um sujeito indivisível, no qual o desejo e o interesse [como aquilo que é interessante, antiopressor, para um indivíduo ou um grupo] coincidem. A consciência de classe não opera”- com esse objetivo. Tanto na área econômica (capitalista) quanto na política (agente histórico-mundial), Marx é compelido a construir modelos de um sujeito dividido e deslocado cujas partes não são contínuas nem coerentes entre si” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Franz Fanon: Pele negra, máscaras brancas (2)

“O negro tem duas dimensões. Uma com seu semelhante e outra com o branco. Um negro comporta-se diferentemente com o branco e com outro negro. Não há dúvida de que esta cissiparidade é uma consequência direta da aventura colonial… E ninguém pensa em contestar que ela alimenta sua veia principal no coração das diversas teorias que fizeram do negro o meio do caminho no desenvolvimento do macaco até o homem. São evidências objetivas que dão conta da realidade” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Mês passado prometi aprofundar meus comentários aqui para Peles negras, máscaras brancas, do psicanalista martinicano Franz Fanon (1926-1961), e isso vem na seguinte forma, que penso ser a melhor de alcançar a tarefa: vou trazer trechos do livro como para um fichamento, uma urgência de leitura, com poucas palavras como indisciplinada lambugem.

“Conhecemos muitas compatriotas, estudantes na França, que nos confessaram com toda a candura, uma candura toda branca, que não poderiam casar-se com um negro (ter escapado e voltar atrás? Ah, não, obrigada!) Aliás, acrescentavam, não é que neguemos ao negro qualquer valor, mas é melhor ser branco” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Discussões da situação negra e da situação de colonizado se confundem. Vontade induzida de ser branco como o impulso habitual do domínio colonizador.

“Jean Veneuse [personagem do romance Um homem parecido com os outros (1947), de René Maran (1887-1960)] é um destes intelectuais que querem tomar posição apenas no plano das idéias. É incapaz de realizar um contato concreto com seu semelhante. Se alguém é amistoso com ele, cordial, humano, é certamente porque está a fim de bisbilhotar. Ele “conhece esse tipo de gente”, e se mantém na defensiva” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Fanon questiona autores europeus (Hegel, Freud, Sartre etc.) por não conseguirem, em sua maioria, enxergarem pontos imprescindíveis da materialidade e das práticas de linguagem e pensamento negros. Por confundirem colonialismo com universalismo.

“[…] situação colonial – fazendo aparecer um conjunto de ilusões e malentendidos que somente a análise psicológica pode situar e definir.” Ora, sendo este o ponto de partida de Mannoni, por que fazer do complexo de inferioridade algo pré-existente à colonização?” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

As percepções da psicanálise com foco individual alimentam e são alimentadas pelo pressuposto de que o acesso a recursos materiais por uma coletividade é fundamental para entender a condição negra martinicana e provavelmente em outros recantos desse mundo capitalista de meu Deus (embora o modelo marxista não seja necessariamente o homogeneizador (palavra pesada) entre negros e brancos.

“É preciso dizer que, em certos momentos, o social é mais importante do que o individual. Penso em P. Naville escrevendo: ‘Falar dos sonhos da sociedade como se fossem os sonhos do indivíduo, dos desejos coletivos de potência como se fossem o instinto sexual pessoal, é inverter ainda uma vez a ordem natural das coisas, uma vez que, pelo contrário, são as condições econômicas e sociais das lutas de classes que explicam e determinam as condições reais nas quais se exprime a sexualidade individual, e que o conteúdo dos sonhos de um ser humano depende também, no fim das contas, das condições gerais da civilização na qual ele vive’” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

48 ideias de Frantz Fanon (1925-1961). | psiquiatra, filósofo,  revolucionário
Foto da internet.

Divagações que instauram um poema no geral do riscado analítico da obra.

“O preto é um brinquedo nas mãos do branco; então, para romper este círculo infernal, ele explode. Impossível ir ao cinema sem me encontrar. Espero por mim. No intervalo, antes do filme, espero por mim. Aqueles que estão diante de mim me olham, me espionam, me esperam. Um preto-groom vai surgir. O coração me faz girar a cabeça. Um estropiado da guerra do Pacífico disse a meu irmão: ‘Aceite a sua cor como eu aceito o meu cotoco; somos dois acidentados’. Apesar de tudo, recuso com todas as minhas forças esta amputação. Sinto-me uma alma tão vasta quanto o mundo, verdadeiramente uma alma profunda como o mais profundo dos rios, meu peito tendo uma potência de expansão infinita. Eu sou dádiva, mas me recomendam a humildade dos enfermos… Ontem, abrindo os olhos ao mundo, vi o céu se contorcer de lado a lado. Quis me levantar, mas um silêncio sem vísceras atirou sobre mim suas asas paralisadas. Irresponsável, a cavalo entre o Nada e o Infinito, comecei a chorar” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

A beleza exuberante das civilizações negras, em suas localidades e ritmos, contraposta ao ato branco de concentrar esforços em amontoar poder (com suas armas de alta destruição, suas gargantas cheias de dinheiro e mercadorias, sua ciência, sua racionalidade, sua indústria).

“O preto se universaliza, mas do Liceu Saint-Louis, em Paris, um deles foi expulso: teve a ousadia de ler Engels. Temos aqui um drama, e os intelectuais negros correm o risco de atolar-se nele. Como? Apenas abri os olhos que tinham vendado e já querem me afogar no universal? E os outros? Aqueles que “não têm boca”, aqueles que “não têm voz”. Tenho necessidade de me perder na minha negritude, de ver as cinzas, as segregações, as repressões, os estupros, as discriminações, os boicotes. Precisamos botar o dedo em todas as chagas que zebram a libré negra” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Fanon mostra que (1) ter medo do negro gera uma (2) reação parecida ao ato de subestimá-lo: duas formas de segregação.

“O branco como senhor diz ao preto: ‘A partir de agora você é livre.’ Mas o preto ignora o preço da liberdade, pois ele não lutou por ela. De tempos em tempos ele luta pela Liberdade e pela Justiça, mas se trata sempre de liberdade branca e de justiça branca, de valores secretados pelos senhores. O antigo escravo, que não encontra na sua memória nem a luta pela liberdade nem a ânsia da liberdade de que fala Kierkegaard, fica com a garganta seca diante do jovem branco que brinca e canta na corda bamba da existência. Quando acontece de o preto olhar o branco com ferocidade, o branco lhe diz: “Meu irmão, não há mais diferença entre nós”. Entretanto o negro sabe que há uma diferença. Ele a solicita. Ele gostaria que o branco lhe dissesse de repente: ‘Preto sujo!’ Então ele teria uma oportunidade única de ‘lhe mostrar’ … Porém normalmente não acontece nada, nada além da indiferença, ou da curiosidade paternalista” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Ter força, lutar, trazer.

“Não levamos a ingenuidade até o ponto de acreditar que os apelos à razão ou ao respeito pelo homem possam mudar a realidade. Para o preto que trabalha nas plantações de cana em Robert só há uma solução, a luta. E essa luta, ele a empreenderá e a conduzirá não após uma análise marxista ou idealista, mas porque, simplesmente, ele só poderá conceber sua existência através de um combate contra a exploração, a miséria e a fome. Jamais pensaríamos em pedir a esses pretos que corrijam sua concepção da história. Aliás, estamos persuadidos de que, sem o saber, eles comungam com o nosso ponto de vista, habituados que estão a falar e a pensar em termos de atualidade. Os poucos companheiros operários que tive a ocasião de encontrar em Paris nunca se preocuparam com a descoberta de um passado negro. Sabiam que eram negros, mas, diziam-me, isso não muda nada de nada. No que tinham totalmente razão” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Franz Fanon: “Pele negra, máscaras brancas” (1)

Continuo aqui meus “fichamentos” em torno de obras que só li recentemente e que tratem de olhares de algum modo mal-tratados, subalternizados, mundo afora. Obras fora da minha situação social, racial e de gênero. Este mês, comento e procuro resumir Pele negra, máscaras brancas (1952), do psicanalista e ensaísta antilhano Franz Fanon (1925-1961). Ao lê-lo, pensava quase a cada página que deveria já tê-lo percorrido há muito tempo. Colegas deste Blogue Artevistas já o evocaram e abordaram em diversas oportunidades; estas linhas tentam acrescentar, se tiverem sorte, algo para um diálogo com essa obra ou, ao menos, dar-lhe um espaço que seria destinado a palavras “puramente” minhas.

Em um trajeto multidisciplinar, que colhe diversas vozes para sua prosa, Fanon realiza um contraponto à tese de que não existe racismo e ao embasamento implícito que ela oferece a um ponto de vista racista e branco. Dizer que não existe racismo se ampara na percepção de um eu ou um nós que não sofre as consequências do preconceito de pele. Que nega as feridas causadas por este pelo motivo de nunca ter estado sujeito a isso. E que coloca a branquitude como sinônimo tácito de um acordo convencionado (entre brancos) para uma suposta universalidade multirracial, pretensamente não racista, invisibilizada e normativa, que desaba tão logo se põem em pauta percepções de mundo não-brancas.

A virada descolonial da psicose: Frantz Fanon, inventor da esquizoanálise
Franz Fanon. Foto da internet.

O livro de Fanon é um pioneiro de uma discussão que enfrenta de modo mais incisivo a tradicional ânsia de validade universal do pensamento europeu. Na Europa, nas décadas posteriores à publicação desse livro, o conceito de diferença foi formulado e enfatizado por autores como Jacques Derrida e Gilles Deleuze. Aqui, a ideia da diferença nasce aplicada a um contexto material específico, de um olhar racial e assumidamente político. Pensamento que surge como diferença e se situa resolutamente à margem ou na contramão do espaço dos “iguais” – os “iguais a nós”, no caso dos colonizadores.

Podemos entender pela leitura da obra que o colonialismo não é uma questão aguda apenas para quem habita regiões antes colonizadas pelo poder europeu, mas, de um modo diaspórico, para quem carrega o adesivo simbólico e pejorativo da situação colonial pelo fato de ser negra ou negro. Onde houver populações negras, o colonialismo racista é um problema urgente e permanente, a urgência de um debate permanente.

A influência do pensamento de Fanon, veterano da Segunda Guerra Mundial e da luta pela libertação colonial da Argélia, é vasta: desde Paulo Freire, em sua Pedagogia do oprimido (como enfatizado no prefácio do filósofo Lewis R. Gordon), passando pela Teologia da Libertação e pelo arco heterogêneo dos estudos pós-coloniais e decoloniais desenvolvidos na África, na Ásia e na América Latina, por exemplo, ao longo do século XX, e tão oportunamente em voga na atualidade.

“Todo povo colonizado — isto é, todo povo no seio do qual nasceu um complexo de  inferioridade devido ao sepultamento de sua originalidade cultural — toma posição diante da linguagem da nação civilizadora, isto é, da cultura metropolitana. Quanto mais assimilar os valores culturais da metrópole, mais o colonizado escapará da sua selva. Quanto mais ele rejeitar sua negridão, seu mato, mais branco será. No Exército colonial, e especialmente nos regimentos senegaleses de infantaria, os oficiais nativos são, antes de mais nada, intérpretes. Servem para transmitir as ordens do senhor aos seus congêneres, desfrutando por isso de uma certa honorabilidade” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Próximo mês, aprofundarei meus comentários em torno das análises realizadas por Fanon em seu livro.

Fatos reais

Um grupo de pessoas humanas ou inumanas vendo uma personagem que, parece, vai crescer em imponência, poder e desenvoltura, talvez como um assassino ou um sábio, mas que logo após os primeiros indícios disso envelhece rapidamente e morre.

Eu tinha uma namorada e escrevi histórias fantasiosas sobre pessoas que se perdiam pelo mundo, mundo que sempre as levava para um lugar diferente do que planejaram. Ela leu as histórias e disse: pare de escrever essas coisas, senão isso vai acontecer com você. Era uma garota agradável, de qualquer modo.

Uma mulher pintou criaturas feias em diversos quadros. Seu marido se assustou e a deixou. Quando esse abandono não podia mais ser revertido, quando ela já não o queria mais de volta, ele se arrependeu por um longo tempo.

Pai e filha, índios, diante de uma área de floresta, fora do seu limite, no limiar entre floresta e cidade, vendo de longe o que parecem ser olhos enormes e cheios de raiva por detrás das árvores. Como de uma criatura gigantesca, mas humana, demasiado humana.

Existia, dentro de uma mente, uma ideia de escrita que, essa mente sentia, era revolucionária. Mas não soube torná-la texto fora de si mesma, e a ideia morreu com ela.

Minha mãe, meu pai, outros parentes e um monte de animais domésticos e selvagens virão me buscar. Eu estou esperando por eles e vou continuar esperando. Quando eles vierem, nós todos vamos nos encontrar num campo aberto, coberto de grama, numa manhã de sol. Muito sol, e tal hora nós estaremos dentro do sol, da neve, da pedra.

Um grupo de escritores. Parece que não gostavam muito uns dos outros. Desconfiados mutuamente, como quase toda a espécie humana em relação a si mesma. Mas sempre conversavam e riam muito durante as conversas.

Homem, pra que esse drama todo, é só se matar logo e pronto, disse ela, rindo, com aquele sotaque cearense característico. Ele entortou a boca de um jeito engraçado e sabia ou acreditava que ela não falava por mal, porque gostava daquele humor.

Eu não conseguia distinguir se via uma cena cujos limites minha percepção abrangia, organizava em um corpo oco de luz, quer dizer, uma manada de grãos na água, ou se via um círculo ou uma espiral ou uma rede de linhas emaranhadas ao meu redor, que tanto pressionava minha pele e pelos, mesmo sem um acionamento ostensivo do tato, como fugia em direção aos horizontes de que a visão mal suspeitava.

A dificuldade de memorizar pode ser resultado de uma forte tendência ao devaneio; você não memoriza o que acabou de ler ou ouvir porque está devaneando, tomada por uma cena mental que insiste em ecoar, sem você ter pedido racionalmente por isso. Mesmo quando você não está devaneando com nada específico, nenhuma cena mental em particular, sua mente não memoriza porque está em espera por devaneio, em pré-disposição para devaneio, sem cena mental, mas com a sensação de deslizamento, de que algo fora de você mesma lhe move. Isso pode acontecer em qualquer idade, mas é mais comum quanto mais velho se fica, talvez pelo impulso frequente de, após muitos anos de vida, querer ser outro, estar em outro lugar, ser um corpo impróprio.

O gesto de coletar pequenos fragmentos de cenas pra serem juntados em histórias mais longas e elaboradas, estratégia de espera por algo indefinido. Mas essas cenas informaram que, curtas de palavras, são longas de espanto ou deslumbramento para as pessoas vivas, mortas ou inexistentes que as vivem, viveram, viverão ou viveriam.

Davi Kopenawa: A queda do céu (3)

Este mês eu encerro meu resumo com citações para A queda do céu, relato do xamã yanomami Davi kopenawa, como tenho feito em fevereiro e março (mês passado o tempo me abandonou, e substituí a continuação da tarefa por pretensos poemas escritos por mim). A ideia é entregar às palavras bonitas e agudas do xamã o espaço de fala que me emprestaram.

“Foi Titiri, o espírito da noite, que no primeiro tempo ensinou o uso do wayamuu e do imuu [modos discursivos yanomami assemelhados a cânticos ou orações]. Fez isso para que pudéssemos fazer entender uns aos outros nossos pensamentos, evitando assim que brigássemos sem medida. Po­rém, antes disso, Titiri, furioso, devorou Xõemari, o ser da alvorada, para que ele parasse de voltar sem parar desde a jusante do céu, caminhando à frente de sua trilha de luz. Desde então, o fantasma de Xõemari só pode interromper a escuridão uma única vez, no raiar do dia. Então, Titiri disse a nossos ancestrais: “Que essa fala da noite fique no fundo de seu pensamento! Graças a ela, vocês serão realmente ouvidos por aqueles que vierem visitá-los”. É por isso que continuamos a discursar desse modo em nossas festas reahu, do anoitecer até o amanhecer, primeiro fazendo o wayamuu e depois o imuu. Assim, as pa­lavras desses diálogos não pararam de crescer em nós até hoje. Titiri as fez se multiplicarem, para que pudéssemos conversar entre as casas e pensar direito. São o âmago de nossa fala. Quando dizemos as coisas só com a boca, durante o dia, não nos entendemos de fato. Escutamos o som das palavras que nos são dirigidas, mas as esquecemos com facilidade. Durante a noite, ao contrário, as palavras ditas em wayamuu ou em imuu vão se acumulando e penetram no fundo de nosso pensamento. Revelam-se com toda a clareza e podem ser efe­tivamente ouvidas” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Hoje é impossível dizer que ainda haja algum lugar do mundo que escape ao capitalismo. Triste de constatar: tampouco escapou dele o cosmos que é a floresta, esse lugar para onde a humanidade europeoide deveria, mas não mereceria voltar.

“Depois de Manaus e Brasília, conheci São Paulo. Foi a primeira vez que viajei tão longe por cima da grande terra do Brasil. Compreendi então o quan­to é imenso o território dos brancos para além de nossa floresta e pensei: ‘Eles ficam agrupados numas poucas cidades espalhadas aqui e ali! Entre elas, no meio, é tudo vazio! Então por que querem tanto tomar nossa floresta?’. Esse pensamento não parou mais de voltar em minha mente. Acabou por fazer sumir o que restava de meu medo de falar! Tornou minhas palavras mais sólidas e lhes permitiu crescer cada vez mais. De modo que eu costumava declarar aos bran­cos que me escutavam: ‘Suas terras não são realmente habitadas! Seus grandes homens resguardam-nas com avareza, para mantê-las vazias. Não querem ceder nem um pedaço delas a ninguém. Preferem mandar sua gente esfomeada comer nossa floresta!’. E acrescentava: ‘No passado, muitos dos nossos morreram por causa das doenças de vocês. Hoje, não quero que nossos filhos e netos morram da fumaça do ouro! Mandem os garimpeiros embora de nossas terras! São seres maléficos, de pensamento obscuro. Não passam de comedores de metal cober­tos de epidemia xawara. Vamos acabar por flechá-los e, se for assim, muitos ainda vão morrer na floresta!’. Era difícil. Eu tinha de dizer tudo isso numa fala que não é a minha! Contudo, movida pela revolta, minha língua ia ficando mais ágil e minhas palavras menos enroladas. Muitos brancos começaram a conhecer meu nome e quiseram me escutar. Incentivaram-me, dizendo que achavam bom que eu defendesse a floresta. Isso me deixou mais confiante. Alegrava-me que eles me entendessem e se tornassem meus amigos. Naquela época, falei muito nas cidades. Achava que se os brancos pudessem me ouvir, acabariam convencendo o governo a não deixar saquear a floresta. Foi com esse único pensamento que comecei a viajar para tão longe de casa” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Alvos de ataques de garimpeiros, índios Yanomami pedem socorro - Notícias -  R7 Brasil
Crianças yanomami (foto da internet)

A voz encontra uma fala, que por sua vez encontra uma música. Um tipo de música para um tipo de fala para um tipo de voz, e assim quanto às vozes, falas e músicas possíveis. As vozes, falas e músicas dos marginalizados, dos mortos injustamente (o mundo humano, a injustiça, a norma) são mais bonitas que no caso dos opressores? Não sei dizer. Sei que a voz, a fala e a música do meu povo, do povo a que pertenço, são o que eu quero que viva.

“Nossas palavras para defender a floresta nos foram dadas por Omama. Sua força provém da imagem dos ancestrais do primeiro tempo, de quem somos os fantasmas. Foram eles que nos ensinaram a valentia que me per­mite falar com firmeza aos grandes homens dos brancos. Por isso, ficam preo­cupados quando minhas palavras invadem seu pensamento: ‘Hou! Essa gente da floresta não tem medo! Suas palavras são duras e eles não recuam!’. Na primeira vez em que me dirigi ao presidente do Brasil [José Sarney, em encontro ocorrido em 1989], pedi a ele que expul­sasse os garimpeiros de nossa floresta. Ele me respondeu, com hesitação: ‘São numerosos demais! Não tenho nem aviões nem helicópteros suficientes para tanto! Não tenho dinheiro!’. Repetiu-me essas mentiras como se eu fosse des­provido de pensamento! Eu trazia em mim a revolta de minha floresta des­truída e de meus parentes mortos. Retruquei que com aquelas palavras tortas ele só queria nos enganar e deixar que nossa terra fosse invadida. Depois acres­centei que para falar assim ele devia ser um homem fraco com o espírito cheio de esquecimento, de modo que não podia pretender ser um grande homem de verdade” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Caminho contigo na floresta, meu amor. Não enxergamos o sol, cuja luz nos chega coada, em fios e nós emaranhados, pelas árvores, seus galhos e suas folhas. Caminhamos para sempre, felizes, juntos, na floresta mais linda que existe, meu amor: faz tempo que não te vejo, nunca te vi, mas caminho contigo, para sempre, enquanto houver essa floresta, e creio, e sei, que ela não deixará de existir, sobreviverá a nós, a tudo. A floresta comerá o mundo humano, e então ela soará sua risada de vitória, seu rumor polivocal, seu mundo dela, esse céu-e-terra só nosso.

“Quando eu era mais jovem, costumava me perguntar: ‘Será que os brancos possuem palavras de verdade? Será que podem se tornar nossos amigos?’. Des­de então, viajei muito entre eles para defender a floresta e aprendi a conhecer um pouco o que eles chamam de política. Isso me fez ficar mais desconfiado! Essa política não passa de falas emaranhadas. São só as palavras retorcidas daqueles que querem nossa morte para se apossar de nossas terras. Em muitas ocasiões, as pessoas que as proferem tentaram me enganar dizendo: ‘Sejamos amigos! Siga o nosso caminho e nós lhe daremos dinheiro! Você terá uma casa, e poderá viver na cidade, como nós!’. Eu nunca lhes dei ouvidos. Não quero me perder entre os brancos. Meu espírito só fica mesmo tranquilo quando estou rodeado pela beleza da floresta, junto dos meus. Na cidade, fico sempre ansioso e impaciente. Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente deles. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não consegue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. Ficam tomados de vertigem, pois não param de devorar a carne de seus animais domésticos, que são os genros de Hayakoari, o ser anta que faz a gente virar outro. Ficam sempre bebendo cachaça e cerveja, que lhes esquentam e esfumaçam o peito. É por isso que suas palavras ficam tão ruins e emaranhadas. Não queremos mais ouvi-las. Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham com eles mes­mos. Seu pensamento permanece obstruído e eles dormem como antas ou ja­butis. Por isso não conseguem entender nossas palavras” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Alguns lugares às vezes

Hoje eu deveria publicar a última parte do meu fichamento para o belo relato de Davi Kopenawa em A queda do céu (que fica, portanto, adiada). Mas às vezes a correria absurda do cotidiano discorda das intenções… Compartilho aqui, então, pequenos objetos bem longe da urgência da fala de Kopenawa, mas perto de lugares que não existem ou só existem às vezes, fingindo, na cara de pau, que essa troca seria uma compensação. Para o caso de alguém estar transitando por esses supostos lugares no momento em que leia o abaixo. Quem sabe?

*

complicação

.

não, meu amigo,

é uma onça

uma onça naquele

terreno baldio

cercado de prédios altos por todos os

                                                   lados

.

no meio

da merda

da cidade

.

um quem qualquer que

visse aquela

.

cena apoiado em ponto

de vista seguro, quer dizer,

de gente,

.

veria naquela onça o corpo vivo dum

grito no

silêncio tenso do

.

olhar grito pra ondular a anestesia

da gente ao redor,

sem ciência de onça por perto

.

não um leão, esse tipo

de gringo extraviado por

circo ou zoológico

.

uma onça de amazônia remota

ou pantanal de língua cortada

uma onça imprevista

talvez pintada ou suçuarana

.

não, você deve ter certeza

é onça-pintada

.

o cachorro latindo sem

parar na vizinhança fica o

dia inteiro encoleirado, sem

que possa correr um

mísero metro, ou

trancado numa casinha

escura em que mal

cabe o seu corpo.

Eu dou o que eu sou, ela disse

.

enquanto isso

no prédio alto

uma trança de ondas desfiadas

sem pressa sem cor

sacode de leve uma antena

.

longe das antenas, a onça urra alto e forte

e é aí que o terreno

baldio se complica

é aí que a terra arregala o olho

*

se faz algo

.

montanhas longe

se escondem sob o solo da noite

.

cidade cerca iluminada

de prédios

em torno de um

.

resto espaço tempo de verde

telhados feitos

com fios enrolados entre

.

si

caixa d’água meio vazia

o céu

.

muro alto que alguém pula

mexe as patas, caminha

ânimo de acordado

faz tempo

*

roubo

.

a ansiedade te pede um

acordo, qualquer moeda de

troca que seja

.

aí, você inventa uma

magia: você olha o

contador de minutos

do relógio: se estiver

par, é sim, é o que

você quer; ímpar, é

não, significa algo que

é não-você.

.

daí que, sem se dar conta,

ao longo dos anos, você

foi trocando sua

anônima ansiedade

por alegriazinhas

pares e chateações ímpares.

.

o número de ricos no

mundo continua diminuindo, e

alguém aguarda que eles sejam

totalmente extintos, mas

esses alguéns infelizmente se

esquecem de que em

torno da mesa da santa

ceia tem uma cerca de

candidatos prontos, cada

um, pra tomar o lugar do primeiro apóstolo que cair

.

morto. Mas, voltando

ao que interessa,

um dia, já meio

tarde, você percebe que

se deixou manipular pelo

relógio, que nem sequer

estava te manipulando.

.

finalmente, você pensou

em transformar essa treta

em poesia, mas a

preguiça te autorizou a

se contentar em

anotar o poema na

mente, pronto, até que

ele fosse

abduzido ao pisar numa

poça de esquecimento

*

zé ninguém

.

veja o lado bom de

ser um zé ninguém: ninguém

vai querer medir as

escrotices que você

fez na vida

.

veja o lado ruim de

ser um zé ninguém: ninguém

vai querer medir as

escrotices que você

fez na vida:

indiferença

.

veja o lado ruim de

ser um zé alguém: alguém

vai querer medir as

escrotices que você

fez na vida

.

veja o lado bom de

ser um zé alguém: alguém

vai querer medir as

escrotices que você

fez na vida:

qual a diferença

.

veja o lado ruim de

ser um zé muita gente: muita gente

vai querer medir as

escrotices que você

fez na vida

.

veja o lado bom de

ser um zé muita gente: muita gente

vai querer medir as

merdas que você

fez na vida:

entenda, aceite e goste. grato(a).

Davi Kopenawa: A queda do céu (2)

“Antigamente, os brancos não existiam. Foi o que me ensinaram os nossos antigos, quando eu era criança. Omama vivia então na floresta, com seu irmão Yoasi e sua esposa, Thuëyoma, que os xamãs também chamam de Paonakare. Seu sogro, Tëpërësiki, morava numa casa no fundo das águas. Não havia mais ninguém. Assim era. Omama deu-nos a vida muito antes de criar os brancos, e era também ele que, antes deles, possuía o metal. As primeiras peças de ferro utilizadas por nossos ancestrais foram as que Omama deixou para trás na flo­resta, quando fugiu para longe, a jusante de todos os rios” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Continuo a resumir e comentar trechos do riquíssimo relato do xamã Yanomami Davi Kopenawa ao antropólogo francês Bruce Albert. Em sua longa e poética narrativa, Kopenawa delineia a cosmologia mítica Yanomami, rememora as relações que ele e outros membros de seu povo estabeleceram com os brancos e associa os mitos apocalípticos de sua cultura à destruição da floresta amazônica e de seu povo. Considerando que o livro é enorme, resolvi abordar, desta vez, a segunda parte do livro, “A fumaça do metal”, composta por oito capítulos, e deixar o comentário à terceira, “A queda do céu”, para o próximo mês.

“Os nossos passam muito tempo ansiosos em obter mercadorias: facões, machados, anzóis, panelas, redes, roupas, espingardas e munição. Os jovens passam o tempo todo jogando futebol na praça central da casa, enquanto os xamãs estão trabalhando ali ao lado. Eles não prendem mais o pênis com um barbante de algodão amarrado em torno da cintura, como os nossos maiores faziam. Usam bermudas, querem escutar rádio e acham que podem virar brancos. Esforçam-se muito para balbuciar a língua de fantasma deles e às vezes até pensam em deixar a floresta. Mas não sabem nada a respei­to do que os brancos realmente são. O pensamento desses jovens ainda está obstruído. Por mais que tentem imitar os forasteiros que encontram, isso nun­ca vai dar nada de bom. Se continuarem nesse caminho escuro, vão acabar só bebendo cachaça e se tornando tão ignorantes quanto eles” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O contato com os brancos remonta a acontecimentos ocorridos antes do nascimento de Kopenawa, contados a ele por outros Yanomami. Foram relações habitualmente marcadas por autoritarismos, exigências e tratamento injustos, sem contar epidemias (metaforizadas como “fumaças” mortíferas) a manipulação étnica sob a forma de catequese cristã, a devastação de áreas extensas, povoadas, devido à obsessão pelo ouro. Doenças como o sarampo ou a tuberculose matavam dezenas, centenas de índios de etnias diversas. Ainda criança, Kopenawa se viu apartado de seus parentes consanguíneos, mortos pelo sarampo, tendo que ser criado pelo padrasto e outras pessoas.

“Vimos os brancos espalharem suas epidemias e nos matarem com suas espingardas. Vimo-los destruírem a floresta e os rios. Sabemos que podem ser avarentos e maus e que seu pensamento costuma ser cheio de escuridão. Esqueceram que Omama os criou. Perderam as palavras de seus maiores. Esqueceram o que eram no primeiro tempo, quando eles também tinham cultura. Omama depositou a espuma com a qual criou os antigos brancos muito longe de nossa floresta. Deu-lhes uma outra terra, distante, para nos proteger de sua falta de sabedoria. Mas eles copularam sem parar e tiveram mais e mais filhos. Então, foram tomados de euforia, fabricando um sem-número de mer­cadorias e máquinas. E acabaram achando sua própria terra apertada” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Kopenawa trabalhou com os brancos realizando diversos tipos de serviços: atuou como intérprete, realizou atividades braçais na floresta, afazeres domésticos em escritórios da Funai e até prestou cuidados de saúde que aprendera. Tudo isso, tanto em Manaus, no meio da zoada e do clarão urbanos, bem como no verde-escuro dourado do murmúrio amazônico. Observava as camisas, as calças, os óculos e os relógios de pulso, e o fato de esses objetos esconderem o corpo ante o olhar lhe pareceu atraente. Sentiu e praticou, o quanto quis e conseguiu, uma vontade de ser branco, gradualmente decepcionada pela constatação de que nunca conseguiria fazer uma transformação completa.

“Aprendi a imitar o modo de falar deles. Mas isso não deu em nada de bom. Mesmo embrulhado dentro de uma bela camisa, dentro de mim eu continuava sendo um habitante da floresta! Por isso costumo repetir aos rapazes de nossa casa: ‘Talvez vocês estejam pensando em virar brancos um dia? Mas isso é pura mentira! Não fiquem achando que bas­ta se esconder nas roupas deles e exibir algumas de suas mercadorias para se tornar um deles! Acreditar nisso só vai confundir seus pensamentos. Vocês vão acabar preferindo a cachaça às palavras da floresta. Suas mentes vão se obscu­recer e, no final, vocês vão morrer por isso!’” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Floresta Amazônica: um lugar para visitar ao menos uma vez
Vista da Floresta Amazônica. imagem da internet

A cosmologia Yanomami absorve a cristã. O Iavé judaico-cristão, para eles, é Teosi, irmão de sua principal divindade, Omama. De caráter ambíguo, frequentemente hostil aos Yanomami, Teosi desperta neles uma natural desconfiança. Os missionários de Teosi, pai de “Sesusi” (isso, Jesus), falavam em bondade e salvação, mas frisavam mesmo era o pecado e a punição. Kopenawa, assim como outros de seu povo, aderiu ao cristianismo, sob os incentivos e a persuasão dos missionários. Porém testemunhando que as promessas de Teosi eram vagas e os maus-tratos de seus emissários brancos eram um fato cotidiano, ele se afasta gradualmente dos cultos evangélicos e retoma os caminhos do mundo de sonho xapiri da fé Yanomami.

“Após a morte, nosso fantasma não vai viver junto de Teosi, como dizem os missionários. Ele se separa de nossa pele e vai morar noutro lugar, longe dos brancos. Nossos defuntos moram nas costas do céu, onde a floresta é bela e rica em caça. Suas casas lá são muitas e suas festas reahu nunca param. Vivem felizes, sem dores nem doenças. Vistos de lá de cima, somos nós que causamos dó! Os mortos ficam tristes por nos terem abandonado na terra, sozinhos, com fome e ameaçados pelos seres maléficos. Por isso minha mágoa é um pouco aplacada quando penso que minha mãe vive feliz na floresta dos fantasmas, na companhia de todos os nossos parentes falecidos. É verdade. Somos nós, os poucos humanos que sobraram, que ficamos sofrendo na floresta, longe de nossos mortos” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Na fala de Kopenawa, o xamanismo se fundamenta com importância política na luta por uma especificidade, pela diferença, pela irredutibilidade de um nós a um vocês-outros dominador. O xamã Yanomami, antes de reemaranhado em seu mundo de floresta, exercitou uma percepção atenta, estarrecida e frustrada das paisagens brancas para, finalmente, voltar a sua terra e entendê-la com outra nuance: a urgência de sobreviver, de se manter fio de coletividade. Longe do branco, mas ciente do provável destino tragicômico deste, o culto aos xapiri na floresta fantasma é a arma de um heroísmo em processo de silenciamento.

“Foi quando os garimpeiros chegaram até nós que realmente entendi de que eram capazes os napë [brancos]! Multidões desses forasteiros bravos surgiram de repente, de todos os lados, e cercaram em pouco tempo todas as nossas casas. Buscavam com frenesi uma coisa maléfica da qual jamais tínhamos ouvido falar e cujo nome repetiam sem parar: oru — ouro. Começa­ram a revirar a terra como bandos de queixadas. Sujaram os rios com lamas amareladas e os enfumaçaram com a epidemia xawara de seus maquinários. Então, meu peito voltou a se encher de raiva e de angústia, ao vê-los devastar as nascentes dos rios com voracidade de cães famintos. Tudo isso para encon­trar ouro, para os outros brancos poderem com ele fazer dentes e enfeites, ou só para esconder em suas casas! Naquela época, eu tinha acabado de aprender a defender os limites de nossa floresta. Ainda não estava acostumado à ideia de que precisava também defender suas árvores, seus animais, seus cursos d’água e seus peixes” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O xamanismo, no caso dos Yanomami, é um tipo de visão de mundo dita mágica, estimulada pela interação do corpo humano com substâncias psicotrópicas, envolvendo experiências alucinatórias e um modo específico de se relacionar com elas. Nada importa se as vivências envolvidas nisso não seriam comprováveis de um ponto de vista lógico e experimental; elas são plenamente adequadas a um modo de vida integrado à floresta e incomparavelmente mais saudável (para o indivíduo, para a coletividade) que na cartilha urbanizada ocidental. Um xamã politicamente conscientizado e progressista tem, com toda a probabilidade, muitíssimo mais a oferecer que certa atitude logocêntrica, pseudointelectual, que se encontra de prontidão por aí.

“Se eu tivesse ficado só trabalhan­do para os brancos, se meu sogro não tivesse me chamado para perto dele, meu pensamento teria ficado curto demais. É por isso que agora quero que os brancos, por sua vez, ouçam estas palavras. Trata-se de coisas das quais nós, xamãs, falamos entre nós muitas vezes. Não queremos que extraiam os miné­rios que Omama escondeu debaixo da terra porque não queremos que as fu­maças de epidemia xawara se alastrem em nossa floresta. Assim, meu sogro costuma me dizer: ‘Você deve contar isso aos brancos! Eles têm de saber que por causa da fumaça maléfica dessas coisas que eles tiram da terra estamos morrendo todos, um atrás do outro!’. É o que agora estou tentando explicar aos brancos que se dispuserem a me escutar. Com isso, talvez fiquem mais sensatos? Porém, se continuarem seguindo esse mesmo caminho, é verdade, acabaremos todos morrendo. Isso já aconteceu com muitos outros habitantes da floresta nesta terra do Brasil, mas desta vez creio que nem mesmo os bran­cos vão sobreviver’” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Davi Kopenawa: A queda do céu (1)

“Hoje, os brancos acham que deveríamos imitá-los em tudo. Mas não é o que queremos. Eu aprendi a conhecer seus costumes desde a minha infância e falo um pouco a sua língua. Mas não quero de modo algum ser um deles. A meu ver, só poderemos nos tornar brancos no dia em que eles mesmos se transformarem em Yanomami. Sei também que se formos viver em suas cida­des, seremos infelizes” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Em dezembro de 2020, tive uma ideia que gostaria de pôr em prática na parte que me cabe neste blogue. Ler obras escritas por ou pelo menos com mulheres, indígenas, negras e negros, pessoas lgbt+, enfim, pessoas vindas de contextos distintos de minha situação de branco de classe média. Daí, trazer para cá essa coleta, essa leitura, à maneira de resumos, de fichamentos daqueles de curso universitário de graduação. Quer dizer, procurando interferir o mínimo nos comentários que vierem. Mal sou habilitado a falar de mim mesmo, esse meu inevitável desconhecido, imagine de pessoas e coletividades cujas condições materiais, simbólicas, espaçotemporais de existir estejam ou sempre estiveram fora da minha tênue experiência.

“As máquinas dos brancos fazem delas peles de imagens [registros impressos ou audiovisuais] que os seus cantores olham, sem saber que nisso imitam coisas vindas dos xapiri. Por isso os brancos escutam tanto rádios e gravadores! Mas nós, xamãs, não precisamos desses papéis de cantos. Preferimos guardar a voz dos espíritos no pensamento” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Então, por que me propor a isso? Vários colegas de blogue já comentaram algumas obras, ou outras afins, que gostaria de trazer para cá. A intervenção deles foi oportunamente crítica, participativa, acrescentando sua insubstituível corporeidade existencial, visto que se tratavam de discussões próximas de seus contextos de vida. Quanto a aqui, em vez de remoer a mim mesmo ou coisas habitualmente próximas a minha percepção, este lugar de fala seria direcionado a algo que, em agosto passado, comentei neste blogue como meu interesse em praticar: um lugar de escuta. Um registro da descoberta de livros que ainda não li, que tenho procurado ler. Algo que talvez seja útil para alguém que ainda não os tenha lido. E que se aproxime de olhares em alguma medida dissidentes do que há de ranço na receita europeia-iluminista-racional-branca-classe-média a que acabei me habituando ao longo dos anos sem me dar conta clara do que estava fazendo.

Resultado de imagem para davi kopenawa
Davi Kopenawa. Foto da internet.

“Não pensem que a floresta é vazia. Embo­ra os brancos não os vejam, vivem nela multidões de espíritos, tantos quantos animais de caça. Por isso suas casas são tão grandes. Tampouco pensem que as montanhas estão postas na floresta à toa, sem nenhuma razão. São casas de espíritos; casas de ancestrais. Omama [entidade espiritual maior, para os Yanomami] as criou para isso. São muito valiosas para nós. É do topo delas que os xapiri descem para as terras baixas, por onde andam e se alimentam, como os animais que caçamos. É também de lá que eles vêm a nós quando bebemos yákoana para chamá-los e fazê-los dançar” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Já havia comentado minha prática, desde que cheguei aqui, de tentar exercitar uma utopia do texto (sugerida, por exemplo, por escritores românticos alemães do final do século XVIII ou Roland Barthes em O prazer do texto): escrever sem gênero definido, sem compromisso binário com ficção ou texto verídico, usando o direito de não ter assunto definido, de mudar de assunto quando houvesse desejo nisso, de explorar o potencial político de questionamento anticonservador que consigo ver em tal prática. A proposta de agora parece interagir de um jeito válido com a proposta de antes, então. Suponho.

“É verdade que os xapiri às vezes nos apavoram. Podem nos deixar como mortos, desabados no chão e reduzidos ao estado de fantasmas. Mas não se deve achar que nos maltratam à toa. Querem apenas enfraquecer nossa cons­ciência, pois se ficássemos apenas vivos, como a gente comum, eles não pode­riam endireitar nosso pensamento. Sem virar outro, mantendo-se vigoroso e preocupado com o que nos cerca, seria impossível ver as coisas como os espí­ritos as veem” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Pensei então em inaugurar a intenção mencionada com A queda do céu, relato em parceria do xamã e líder político Yanomami Davi Kopenawa com o antropólogo marroquino Bruce Albert. Albert conviveu com Kopenawa durante muitos anos, e o resultado é tanto o relato de uma biografia como o de uma convivência. Em uma série de capítulos com a duração de um conto ou um ensaio, as palavras de Kopenawa, misturadas à escrita de Albert, abordam e avaliam a prática xamânica, que é um modo específico de viver nesse cosmos chamado floresta (amazônica). Hoje, com a ajuda das citações presentes, estou comentando a primeira parte do livro, “devir outro”, composta por oito capítulos. Já que o livro é enorme, deixarei as partes seguintes, “A fumaça do metal” e “A queda do céu”, para o próximo mês.

“Então, de tanto prestar atenção, comecei a poder ouvir as palavras dos espíritos. Eles trocaram minha língua e minha garganta pelas deles. E assim, aos poucos, seus cantos foram se revelando a mim e se tornando claros. Comecei a cantar como eles. Mas foi tudo muito devagar. Não se pode ser impaciente nesse caso. Deve-se tentar pouco a pouco imitar a última parte das palavras do canto dos espíritos. É assim que se consegue começar a escutá-los de verdade, e foi o que eu fiz. E finalmente eles livraram minhas orelhas de tudo o que as entupia” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

No provocativo ensaio-prefácio que se antecipa às memórias de Kopenawa, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro comenta uma posição defendida por Albert quanto ao modo de se relacionar com os dados etnográficos recolhidos na pesquisa: manter a orientação conceitual e a cosmovisão das pessoas que atuaram como fontes e informantes. Manter as expressões de linguagem, as imagens, o jeito de ver visibilidades e invisibilidades de coisas. É isso que o texto concretizado faz.

“Quando, às vezes, o peito do céu emite ruídos ameaçadores, mulheres e crianças gemem e choram de medo. Não é sem motivo! Todos tememos ser esmagados pela queda do céu, como nossos ancestrais no primeiro tempo. Lembro-me ainda de uma vez em que isso quase aconteceu conosco. Eu era jovem na época. Estávamos acampados na floresta, perto de um braço do rio Mapulaú. Tínhamos saído, com alguns homens mais velhos, à procura de uma moça do rio Uxi u que tinha sido levada por um visitante de uma casa das terras altas, a montante do rio Toototobi. Anoitecia. Não havia nenhum ruído de trovão, nenhum raio no céu. Tudo estava em silêncio. Não chovia, e não se sentia nenhum sopro de vento. No entanto, de repente, ouvimos vários estalos no peito do céu. Foram se sucedendo, cada vez mais violentos, e pareciam bem próximos. Era mesmo muito assustador!” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Kopenawa mistura, na parte do livro tratada nesta fala, os mitos de origem de seu povo com sua experiência iniciatória como xamã. Como se fossem texturas emaranhadas num mesmo plano: real e imaginário, essas camadas do real, gerando essa coisa sem nome certo que, de um jeito inexato, poderia ser chamada de percepção-experiência. Mas isso, obviamente, não numa visão europeia, branca, racional, mercadológica, cientificista, e sim, numa visão Yanomami, outra em relação ao branco e até a si própria.

Resultado de imagem para davi kopenawa
Davi Kopenawa. Foto da internet.

“As árvores da floresta e as plantas de nossas roças também não crescem sozinhas, como pensam os brancos. Nossa floresta é vasta e bela. Mas não o é à toa. É seu valor de fertilidade que a faz assim. É o que chamamos në rope. Nada cresceria sem isso. O në rope vai e vem, como um visitante, fazendo cres­cer a vegetação por onde passa. Quando bebemos yákoana, vemos sua imagem que impregna a floresta e a faz úmida e fresca. As folhas de suas árvores apa­recem verdes e brilhantes e seus galhos ficam carregados de frutos. Vê-se tam­bém grande quantidade de pupunheiras rasa si, cobertas de pesados cachos de frutos, pendurados na parte de baixo de seus troncos espinhosos, e imensas plantações de bananeiras e pés de cana-de-açúcar. Esse valor de fertilidade da terra está ativo por toda parte” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

A sensorialidade “fantasma”, xamânica, é uma sensorialidade outra, de quem se tornou outro. Tornar-se xamã, segundo Kopenawa, é ganhar acesso a um mundo paralelo povoado pelos xapiri, espíritos de forma variável, humana, animal, vegetal, mineral, ora minúsculos, ora gigantescos (no início dos tempos, toso os seres eram uma espécie de meio-termo, de pontes morfológicas entre o corpo humano e outras formas). Em geral, são benfeitores e, por intermédio dos xamãs, protegem a humanidade de entidades sobrenaturais ameaçadoras. Os muitos xapiri auxiliam na caça, na pesca, na coleta, na agricultura. Auxiliado pela yákoana, substância vegetal alucinógena similar ao LSD, o xamã se torna “fantasma” e consegue enxergar os xapiri e perceber suas danças e cantos.

“Os xapiri nos protegem contra todas as coisas ruins: a escuridão, a fome e a doença. Afastam-nas e combatem-nas sem descanso. Se não fizessem esse trabalho, nós daríamos dó! O vendaval, os raios e a chuva não nos deixa­riam um momento de trégua; a cheia dos rios inundaria a floresta continua­mente. Ela ficaria infestada de cobras, escorpiões e onças, invadida pelos seres maléficos das epidemias. A noite envolveria tudo. Teríamos de ficar escondidos em nossas casas, esfomeados e apavorados. Começaríamos, então, a virar ou­tros, e o céu acabaria caindo novamente. Por isso nossos ancestrais começaram a fazer dançar os xapiri no primeiro tempo. Sua preocupação, desde sempre, foi proteger os seus, como Omama havia ensinado ao seu filho. Nós apenas seguimos suas pegadas. Os xamãs Yanomami não trabalham por dinheiro, co­mo os médicos dos brancos. Trabalham unicamente para o céu ficar no lugar, para podermos caçar, plantar nossas roças e viver com saúde” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O xamã Yanomami deverá aprender os cânticos dos espíritos protetores e, no mundo-fantasma, construir para eles uma casa espiritual que sediará os encontros mágicos. Espécie de espelho não-idêntico do nosso, o mundo espiritual Yanomami é descrito como uma “floresta no pensamento”; um mundo que não existiria sem o mundo material em que vivemos e sem o qual não existe. A narrativa de Kopenawa funde os mitos compartilhados por seu povo com as impressões recebidas na pele do indivíduo. Seu texto acompanha o assunto por meio de um clima de sonho, que é propriamente o do mundo espiritual xamânico, muitas vezes alcançado durante o sono, bem como pelo estado onírico induzido pelo ritual. Cheio de fatos heroicos, míticos, o relato do Yanomami é poesia e prosa, realidade e imaginação, sonho e vigília, mundo e mundos.

“[…]No entanto, quando se diz o nome de um xapiri, não é apenas um espíri­to que se nomeia, é uma multidão de imagens semelhantes” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Tipo uma trilogia autobiográfica

Cocó e Sabiaguaba: um olhar socioambiental sobre a criação do Parque -  Renato Roseno
Fonte: Google

Meu amigo Ivo, tempos antes de morrer, compartilhou comigo seu plano de escrever uns três livros, segundo ele, mais ou menos autobiográficos. Morreu sem ter tido disciplina, paciência ou perseverança suficientes pra sentar a raba numa cadeira simbólica qualquer e pôr na palavra o que sua cabeça pensava em ditar. Como homenagem ou gesto oportunista, tanto faz, resolvi confiscar as cenas que ele imaginou e redigi-las como se fossem minhas, mas logo desisti do fingimento e deixo claro de onde elas vieram.

Por uma questão de, vamos dizer, honra, procurei acrescentar algo de meu antes de as palavras caírem no teclado e na tela. O que não foi difícil, já que convivi longos anos com esses acontecimentos de mentira na minha cabeça, até que eles começaram a parecer inventados ou mesmo experimentados por mim. Talvez isso se deva ao fato de que, da mesma maneira que o Ivo, eu tenho ao longo da vida misturado o vivido e o imaginado graças à esquizofrenia nossa de cada dia. Ele, inclusive, dizia brincando que nem eu, nem ninguém nunca saberia se os fatos a seguir aconteceram de verdade ou não, o que talvez seja o mesmo que dizer: aconteceram ou acontecerão em breve. Quem conta essas histórias, quem diz “eu” nelas? Ivo, eu? Não sei.

O quarto.

Aos 30 anos de idade, eu deixei meu quarto e saí de casa. Ou foi aos 20? Vamos dizer que foi aos 30. Até então, morei com minha mãe, minha irmã e meu avô numa casa pequena da periferia de Fortaleza. Eu nunca ouvi falar no meu pai ou em outros parentes ou pessoas próximas. Minhas lembranças mais antigas eram naquele quarto: minha mãe passava algum tempo comigo nele até eu completar seis ou sete anos de idade. A realidade é uma colcha de retalhos costurada. Retalhos de banalidade costurados com fios do absurdo. Um gato morou com a gente durante parte desse tempo: enquanto viveu. A casa tinha três quartos: um para meu avô, um para mim, um dividido entre minha mãe e minha irmã, mais jovem que eu uns cinco anos. Nunca soube o porquê desse privilégio masculino, e só consegui refletir a respeito quando já não estava mais morando ali. Talvez tivesse a ver com o fato de que ninguém nunca entrava no quarto do vovô nem no meu. Tampouco eu saía do quarto; não me lembro de ter feito isso alguma vez ou, nas vezes em que achei que saí e andei pela casa, não sei se isso aconteceu mesmo ou se estava sonhando ou se isso tinha a ver com os remédios psiquiátricos que minha mãe me dava. Quanto ao vovô, um dia, quando eu tinha 15 ou 16 anos, o gato entrou no quarto dele por um buraco no canto inferior da porta que, segundo elas, estava velha e quebradiça; minha mãe e minha irmã gritavam desesperadas para o que o bicho voltasse, mas ele nunca mais saiu do quarto em que entrou. Elas não sabiam o que tinha acontecido com ele, já que não entravam nunca no recinto do vovô; tampouco descobri o porquê disso: só minha mãe parecia saber o que aconteceria se alguém entrasse no quarto do vovô, mas ela simplesmente se recusava a falar sobre. O vovô não falava com ninguém, não respondia nada; apenas, que nem eu, recebia a comida e o penico por debaixo da porta e devolvia prato vazio e penico cheio em horários em que ninguém tava observando. Eu fazia quase o mesmo, com a diferença de que, nos momentos de recepção ou devolução dos utensílios de comer e evacuar, eu conversava um pouco com minha mãe e minha irmã caçula pela fresta no canto inferior da porta. Talvez as portas desses dois quartos fossem emperradas: a do meu quarto estava, eu descobriria um dia. Depois de falar com minha mãe e minha irmã por uns minutos e receber ou devolver os itens necessários, eu fechava a tal fresta com o pedaço inferior da porta que servia como uma portinhola, uma microporta na porta. O vovô machucou o gato? Ele o convenceu a nunca mais sair dali? Eu não sei. Nunca soube. Eu não sabia sequer por que não podia sair do meu quarto; minha mãe apenas dizia que isso não me faria nada bem. Então, por amor a ela, eu me acomodei àquela situação, até porque ter um quarto só para mim não deixava de ser um privilégio. Ou algum tipo de precaução? Minha mãe tinha me dado um pequeno gravador de voz, além de letras e palavras desenhadas em papéis amassados. Assim, os anos seguindo, eu fui aprendendo a ler. Minha mãe era professora. Ela passava, cada vez mais, por baixo da fresta da porta, livros que pegava emprestado numa biblioteca. Assuntos variados, coisas do mundo inteiro, modos de tentar saber das coisas, histórias reais ou inventadas. O quarto sempre parecia um pouco escuro, mesmo no claro do interruptor acionado. Eu não tinha amigos, não via ninguém: eu lia o tempo todo, sob a lâmpada fraca e amarela que me iluminava. Se bem que dizer que eu estava sempre só seria exagero: sempre tinha alguém comigo: eu sempre estava lá com você. Com muita frequência, eu via e conversava comigo mesmo; um eu da minha idade, ou muitas vezes mais novo, criança ou idoso, quando eu já estava quase adulto, por exemplo. Eu falava pra você coisas em que você nunca havia pensado ou coisas que você achava cruéis e agressivas, que te tiravam a vontade imensa que você sentia, apesar da resignação, de sair daquele quarto. Outras vezes, o duplo de mim mesmo, que dizer, eu, tu, aparecia e te apoiava, dizendo que você precisaria tentar ter a força que talvez nem eu nem você tivesse. Algumas vezes o carneiro aparecia e passava algum tempo caminhando pelo pequeno quarto. Depois sumia. O carneiro apareceu pela primeira vez num sonho: tinha o corpo de um carneiro comum, uma cabeça com rosto humano e quatro chifres. Eu sabia que não deveria olhá-lo, principalmente olhar diretamente seu rosto insuportável pra qualquer pessoa: sabia ou temia que, se fizesse isso, provavelmente nunca sairia daquele quarto. Uma pequena janela alta me dava sol, me dava lua, me dava ruídos da rua. Um dia, 30 anos haviam se passado e, no dia do meu aniversário, esse dia bem no meio do ano, minha mãe abriu a porta e disse que eu estava pronto. Eu nunca a entendi bem, mas até ali minha vida era só aceitar, talvez por não saber claramente que haveria outras opções. Aos 30 anos de idade, eu saí do quarto e de casa.

A Cidadela.

Fora do quarto, fora de casa, eu tentava entender o mundo, percebendo nos começos daquele novo tempo de existência que ele, o mundo, era bem diferente do que os livros contavam. Pra pior, muitas vezes. Mas era o mundo que eu tinha, era o mundo que se tinha, e existia uma vida querendo continuar, e coisas e pessoas bonitas também, e logo eu perceberia o quanto. Me tornei professor de crianças e adolescentes depois de algum tempo atuando em reforço escolar. Era um péssimo professor no começo. Sabia que precisava rapidamente aprender a interagir com pessoas, coisa complicada, cheia de cascas falsas e soluções ausentes, diferente dos bichos, das plantas, das pedras, da água e da areia, com quem era tão fácil me entender. Eu queria tanto falar, achava que tinha muito a falar, mas com pouco percebi que me sentia melhor me calando e deixando as pessoas falarem. Não por humildade, mas por insuficiência e, em seguida, por prudência. Depois dos procedimentos supletivos pra poder dizer que eu tinha algo parecido com uma escolaridade, consegui ingressar numa faculdade de filosofia. Gente de todo tipo, isso era atraente, mas a maioria estava mais preocupada com coisas que me cansavam logo: ser dono de muito, fazer um nome, ser alguém, ser notado. O mundo era assim, não era? Fazer o quê com isso? Conheci duas garotas com quem gostava de conversar: Mariana e sua namorada. Sempre rodeadas de gente que amava seu humor, sua esperteza, sua sutileza e sua rudeza eventual. Eram gentis comigo, apesar de melhores que eu em praticamente tudo. Eu me sentia inferiorizado, mas também fascinado pela energia intensa que elas jogavam no ar, na cara da sociedade. Elas me contaram de um projeto que tinham: Lucrécia, a namorada, possuía um terreno que herdara, próximo à rua da Sabiaguaba, e, junto com outras pessoas, estavam construindo banheiros, um galpão coberto, cozinha, áreas comuns, o suficiente para estabelecer ali uma comunidade. O mundo não é do jeito que a gente queria, mas a gente pode criar um mundo próprio que tenha olhos, ouvidos e braços abertos pra outros mundos, elas diziam. Comecei a frequentar festinhas, reuniões de grupos de estudo e de meditação que rolavam na Cidadela, era assim que chamavam o local arborizado que sediava a comunidade e sua vila de barracas de camping. Logo, eu tinha largado a faculdade e tava morando por lá. O grupo era composto principalmente por mulheres, uns poucos homens, algumas pessoas que não se identificavam com nenhum sexo e transexuais. Mais da metade, pessoas negras. Como produzir e manter uma sociedade, pouco numérica que seja, com práticas de potencialização de tudo o que cada uma ou um gostaria de ser? Como experimentar cotidianamente a liberdade? Como vivenciar o corpo, a mente, de maneira coletiva e inclusiva? Com essas pautas na cabeça e no corpo, estudávamos, festejávamos, todo mundo fazia sexo com todo mundo, ou pelo menos com quem quisesse, e farreávamos; tocávamos música, arrumávamos dinheiro de formas variadas: tempos depois, pouco antes do fim, ainda pude ouvir alguém comentar que aquela época era estranhíssima: depois de uma certa prosperidade econômica, veio uma tremenda crise. De tudo. De qualquer modo, enquanto pôde, houve uma grande afinidade entre aquele pessoal. Vinha gente de fora, interagíamos com o mundo, líamos poesia em locais diversos da cidade, nos reuníamos por aí, zombávamos da cidade, do gênero humano, amávamos o gênero humano. Todos muito ou mais ou menos jovens, mais jovens que eu em geral. Percebi que na privação remediada que era a vida que eu tinha levado com meus poucos parentes, no isolamento inexplicado em que tinha ocupado um quarto por 30 anos de vida, no ato mental de achar que eu tinha algo a oferecer ao mundo, percebi com isso o quanto eu estava iludido: o mundo é que teria algo a me oferecer, e eu precisava desesperadamente disso. Aquele matriarcado, em que enfrentar a incerteza e o risco de morte se tornaram valores exaltados, me impressionava profundamente. Fora da Cidadela, as pessoas eram comumente frágeis demais, ou muito carentes de aprovação, ou inconscientemente conservadoras e apegadas à autoridade, ou simplesmente mimadas; era incrível, mas eu tinha encontrado um lugar em que a atitude melindrosa e a vontade de ser famoso ou de levar uma vidinha domesticada e inserida no jogo do “aceitável” praticamente não existiam. Vivi tempo suficiente, alguns anos, no mundo ao redor, pra saber que um lugar daqueles só podia ser bom demais pra ser verdade, e, no entanto, tudo aquilo era real. Eu não acreditava, eu tinha medo de perder aquilo, porque sentia que ali tava rolando um tipo de equilíbrio frágil, provavelmente passageiro, e foi passageiro. Na Cidadela, tinha fragilidade, sensibilidade, tinha, sim, e muito, mas quem ali usasse essas qualidades como desculpa para comodismos ou prepotências logo se desencorajava a permanecer lá. Aconteciam rituais sincréticos, embora a maioria dos membros fosse ateia. Ateias e ateus espiritualizados, quer dizer, corporalizados, como se dizia. Um tempo depois, a Cidadela foi se esvaziando, e pequenos grupos dispersos resolveram levar o estilo de vida dali a outros lugares da cidade onde gente se aglomerasse, públicos, privados ou onde esses adjetivos se confundissem. A preocupação participante era evidente, mas se sabia ou se sentia que de pouco adiantava propor atuações em política partidária ou mesmo protestos pacíficos; logo, chegou-se à conclusão de que atos terroristas radicais eram uma urgência. Mas Mariana e Lucrécia, além de outras mulheres do bando, não queriam atos homicidas, que consideravam de uma grosseria real e simbólica desnecessária. Era preciso algo mais efetivo e mais sutil: destruir mecanismos de transações comerciais, financeiras, tipo. O mundo andava agitado, mais caótico que o habitual, naquela época, e isso podia significar acontecimentos inesperados e empolgantes… O colapso ambiental previsto fazia tempos por órgãos científicos veio antes do esperado: um esgotamento aparente dos recursos ambientais. De repente, tudo ruiu. De repente, pareceu que a sabotagem que o pessoal da Cidadela fez no sistema financeiro online da cidade se ligou misteriosamente a um blackout geral acompanhado de barulhos de explosão nem sempre ao longe. Tínhamos nos reunidos na Cidadela, depois de meses sem nos encontrar, e saímos de madrugada pra sabotar o sistema financeiro a partir de uma sala com computadores ligados num tipo de escritório mobiliado e alugado. Uma vaquinha imensa, entre gente desconhecida, pra fazer aquilo. Algo que não podia ser real, mas estava acontecendo. No escritório, ficaram poucos de nós. Mariana, Lucrécia e outras pessoas. O resto, pelas ruas, fazendo atos de agitação. Eu estava nas ruas, e até hoje não sei dos que ficaram no escritório. O blackout e as explosões começaram aí. Naquela noite, eu estava muito bêbado e chapado, e tudo foi ficando confuso: lembro apenas vagamente que cometi algum erro, algo como ajudar a incitar a parte do bando com que eu estava, junto de outros caras do bando, a atacar um grupo de policiais armados e nervosos em alguma esquina. Todo mundo tenso e nervoso. Depois, amnésia, cortes e saltos de cenas, escuro e silêncio. Acordei, não sei quanto tempo depois, só, sem lembrar de nada. Tava vivo? Numa cidade deserta. Era sonho? Não parecia. A vida, estranha.

A cidade.

Agora, naquele agora, eu vivia sozinho na cidade abandonada. Ainda existia gente por aí? Tinha comida em lugares diversos da cidade. Enlatada. Mais que o suficiente. Sem precisar limpar ou consertar, eu tinha a cidade inteira pra gastar; sempre tinha lugar pra conseguir comida e deixar merda sem precisar passar nunca mais por ali de novo. A cidade era suficiente pra uma pessoa avulsa. Passei a morar numa casa abandonada perto do mangue do Cocó, depois de perambular pela cidade algumas vezes entre a cidadela e a casa onde tinha morado antes, tentando achar o pessoal do bando ou minha mãe, minha irmã, meu avô desconhecido. Eu sempre tinha adorado histórias de personagens inevitavelmente diante de si mesmos, mas agora que vivia uma com essa intensidade, recusava, queria de todo jeito desfazer atitudes passadas na esperança de reverter o que tinha acontecido. Como se o que tivesse acontecido comigo, como se o que acontecesse com uma só pessoa, fosse resultado apenas das ações dela. Com o tempo, fui me resignando, e um tipo de serenidade às vezes alegre virou minha companhia. Nasceram árvores enormes pela cidade, de um tamanho que eu nunca tinha visto. Começou a haver estações do ano bem distintas, uma coisa que eu nunca tinha imaginado acontecer ali: inverno muito frio e sombrio. Seca, verão de semiárido. Outras estações, com climas intermediários entre esses dois. O inverno parecia um inverno nuclear passageiro, aquele tipo de situação em que a luz do sol é encoberta por gases ou fumaça por longos períodos. Dizem que os dinossauros morreram assim, não foi? Se tivesse alguém aí pra me responder. Depois de algumas semanas, a luz do sol voltava, e eu sabia então que provavelmente não morreria em breve. Eu sentia falta demais da Cidadela, da época em que eu era tão invisível quanto agora, mas era feliz. Passaram-se anos, e eu continuei vivo: quanto mais tempo continuava vivo, mais me impressionava com isso. Um dia, apareceu uma menina inesperadamente. Uma menina sozinha numa cidade daquele tamanho. Cada vez menos eu acreditava no que acontecia. Uns seis anos de idade. Tinha se perdido da mãe desde algum tempo, não lembrava quando. Muito danada, como se dizia, sorridente, linda, cativante. Fazia anos que eu não tinha companhia de pessoa alguma. Fiquei alegre como há muito tempo não ficava. Sem opções, a menina passou a viver comigo, primeiro meio assustada, mas confiando em mim gradualmente. A solidão compartilhada foi se transformando em confiança. A filha que nunca tive nem tinha pensado em ter? Procurávamos comida, conversávamos, eu a ensinava a ler melhor. Eu falava das minhas experiências estranhas, ela falava de sua mãe sendo mãe e pai no dia a dia. A princípio, Letícia, aquela filha postiça, mostrou alegria, energia, carisma e inteligência; na quase inocorrência de fatos a cada dia, algo foi mudando num quase imperceptível. A menina foi se mostrando irônica. Primeiro eu duvidava disso, achava que estava me enganando, tendo alucinações, como desde a infância suspeitava que tinha. Foi ficando clara uma relativa crueldade, da garota, em comentários nos quais analisava a minha vida diante de mim: meus fracassos. Estranhíssimo. Depois de tudo, era só que me faltava. Por que isso? Eu contava minha história pra ela, e a reação, antes amável e atenta, era essa, a de uma análise fria, precisa, pontuda. Eu não conseguia acreditar, não conseguia, não acreditava como tudo o que eu vivia era tão irreal, tão daquele jeito. Cheguei ao entendimento de que a menina tava frustrada e agressiva por não estar com a mãe. Pensei muitas vezes em me livrar dela, inclusive em deixá-la trancada num cômodo de casa abandonada, mas com o tempo me resignei como alguém que se resigna a um domínio; os dias não pararam de passar, não pararam. Houve um longo silêncio, de dias, meses. Aos poucos, sem opções melhores pra ambos, nossa relação foi melhorando. Se tornou amizade, parceria por carência afetiva e pela expectativa da vinda da mãe da menina. Era essa uma das nossas conversas frequentes: a mãe dela deveria estar em algum lugar da cidade, e deveríamos procurá-la, esperar que aparecesse. Elas moraram sozinhas, como eu vinha fazendo, por um tempo. A mãe dela estava por aí. Se tornou nossa meta: encontrá-la. Esperávamos, procurávamos. Letícia dizia: minha mãe é linda. Pra nós, ela era ansiosamente, sonhadamente, alguém por vir.

Fuja, se for o caso, por favor!

No outubro deste ano sem paralelo, como a aventura de Hans Pfaall, eu estava em Iguatu, sertão do Ceará, preparando material didático para lecionar uma disciplina de poesia brasileira contemporânea.

Arquivo pessoal

Escolhia autores conforme uma equação entre política e linguagem, inquietação de mundo e busca de uma voz própria. Procurava colocar na seleção de textos o máximo de vozes femininas, negras e fora dos cânones comuns.

Arquivo pessoal

Confortavelmente protegido na parte de cima de uma casa duplex, alugada junto com colegas professores, meu corpo se depositava ali, desconhecedor de tantos corpos femininos, negros, índios, pobres, sendo agredidos naquele mesmo instante Brasil afora, mundo afora, de tantas maneiras que, com elas, se poderia até fazer um manual geral da agressão.

Arquivo pessoal

Meu lugar preferido na tal casa é uma varanda, no piso em que durmo, o de cima, que dá uma boa vista dos arredores. Oferta de um pôr-do-sol bonito, uma vista de uma lagoa quase seca, de tão maltratada pelo sol e principalmente pelas mãos do bicho mais autodestrutivo que existe.

Arquivo pessoal

Ao lado da varanda, a gente pode ver um terreno baldio. Sou decididamente monótono, como diria Jorge Luis Borges: adoro conversar sobre terrenos baldios, adoro o fato de que nele não há pessoas, e quando há, é gente que provavelmente sabe desfrutar a beleza e o refúgio ali oferecido por ninguém. O terreno baldio ao lado da varanda da casa alugada em Iguatu, em outubro, abrigava um rebanho de carneiros ou ovelhas. Ovelhas, digamos.

Arquivo pessoal

As ovelhas, juntas, são comunidade, partilha. Quando uma delas berra, as outras costumam berrar juntas, em concordância, geralmente. É o seu jeito de dizer: estou com fome. Estou aqui. E eu também estou aqui. E eu também estou viva, tenho minha voz, meu orgulho, minha beleza, minha saúde, meu tempo.

Arquivo pessoal

As ovelhas, obviamente, não eram donas das próprias vidas no terreno baldio embrulhado em muros altos e uma cerca de madeira na frente, que dá pra rua. O terreno tinha muita vegetação rasteira, capim, arbustos. Alguém, obviamente, mantinha as ovelhas trancadas ali, para que comessem a vegetação e depois fossem assassinadas e tivessem sua carne vendida e devorada.

Arquivo pessoal

Num dos dias do referido outubro, eu estava na dita varanda, dez ou onze horas da noite, ouvindo música e remoendo quinquilharias empoeiradas na cabeça. De setembro a outubro, o clima fica mais árido no semiárido, e só melhora um pouco com um vento fresco que chega na cidade mais ou menos no horário em que eu tava na varanda naquele dia.  O vento foi tão forte que derrubou as tábuas que tapavam a saída das ovelhas. Todos os dias, durante o dia, vinha alguém pra abrir esse portãozinho e levá-las pra pastar na área seca da lagoa, do outro lado da rua.

Arquivo pessoal

Tábuas ao chão. As ovelhas, depois de alguns minutos de hesitação ou ponderação, começaram a fugir pelo buraco aberto. Foi lindo. Gravei a cena como pude com vídeos e fotos toscas, amadoras. Claro, as ovelhas seriam depois recapturadas, se não fossem atropeladas pelas montarias automóveis do bicho autodestrutivo que logo somos. Mesmo assim, não tenho palavras pra descrever o sentimento de desforra e beleza que me dominou naquele momento. Parte do rebanho (muitas não quiseram se aventurar e preferiram a gaiola) correndo para fora do terreno baldio, para a rua, num barulho lindo. Nós e as pequenas ilusões de que precisamos pra continuar vivendo, como disse um europeu aí num livro.

Arquivo pessoal

Então, minhas palavras de fim de ano e ano novo seriam, caso alguém se beneficiasse com elas e quisesse escutá-las: se precisar, mate em legítima defesa ou, pelo menos, fuja! Fuja o máximo possível, que fugir também é um jeito, às vezes o único disponível, de lutar. Suponho.