Frestas do mundo dos outros

A luz cheia, caída do
sol sobre as folhas das
árvores que fazem do
terreno baldio um
remendo de floresta, folhas,
microtelas multidirecionais, filtros
verdes, a alguns metros acima das
crianças sentadas no chão em círculo assim
étrico. Há sapos-cururus dormindo por
ali, escondidos, invisíveis como aquelas
crianças quando elas caminham pelas
ruas, quer dizer, quase invisíveis, porque
as pessoas às vezes as veem e as
temem ou sentem seus territórios in
vadidos por elas, crianças como
cachorros ferais em forma
humana. Um homem (segredo: esse
cara sou eu) mora
numa biblioteca onde
só há livros e uísque, o que
pra ele não deixa de ser uma
situação de alguma sorte, já
que ele gosta dos livros e do
uísque. Sempre sozinho naquela
biblioteca, esquecido de desde
quando. Não tinha sobrado
ninguém além dele naquela
cidade. Muito longe do homem e
de sua biblioteca, as crianças do
terreno baldio não dispõem de livros nem
de uísque, mas sim de pequenos
cachimbos de lata de cerveja ou refrigerante
em que fumam um tipo de
farofa grossa com cara de
encardida. Essa é uma das
primeiras vezes em que
essas crianças se divertem desse
jeito: estão animadas e têm a
vaga sensação de estarem diante
de um monte de trilhas
atraentes, sem saber qual
escolher. Por um lon
go período, o homem da
biblioteca preferiu livros que
detalhassem personagens parecidos
com ele, caras distantes dos
outros porque queriam e porque não
queriam: Fausto, Brás Cubas, o
escritor sem nome do
porão de Dostoiévski, o
escritor com fome, de Knut Hamsun, o
animal sem nome na
toca que escavou, como
contou Kafka. As garotas e
garotos brincam eufóricos após
os cachimbos, o dia é de
luz atravessando todos os poros, mas
não está tão quente, talvez porque
ainda seja manhã. O homem
na biblioteca não tem
noção clara do tempo, ele
já nem tenta mais medir a
passagem do tempo, e,
falando em tempo, faz um
tempo que ele tem preferido
ler obras com personagens femininas
e bem diferentes dele: as
mulheres de Clarice, de Virginia, de Cassandra, de Marília Gabriela, de Orides, de
Maria Carolina, de Ana Cristina.
De dia, ele lê, de noite,
bebe uísque: homem rotineiro.
Em lugar de ler livros-espelho, de se buscar nas
páginas lidas, ele agora lê livros
com personagens que acolhe
como filhas, esposas, amigas, ou me
lhor, ele acolhe a ausência delas como
se fosse uma filha, uma esposa, uma
amiga. Simultaneamente, eu não sou
esse homem, nem estou
aqui. Convenceram você a
ver, às vezes, felicidades possíveis de
alguém apenas como tristeza e
pessimismo: isso, sim, é que é
triste, alguém poderá responder. Quem
sabe? Os sapos-cururus são
pequenos hipopótamos, porquinhos
provavelmente felizes em
seu aparente mau-humor. Pode
acontecer: quando alguém chega
perto
deles, eles viram as costas e
cagam e mijam da maneira mais
rude e sonora que conseguem, talvez
até não estejam sendo
sinceros, mas, quando fazem
isso, estão expressando uma
irritação repentina. Sapos-cururus se
parecem um pouco com ratos, caramujos,
tilápias, javalis, gatos, cachorros, coelhos, gente:
se adaptam a qualquer lugar e
vencem fácil a disputa pela vida que
houver com as espécies nativas. Se
bem que os sapos se limitam a
comer insetos: sua ambição é
modesta. Uma noite, depois de
um sexo intenso e gostoso, você
dormiu e sonhou que, por uma
infelicidade qualquer, os sa
pos-cururus simplesmente foram
extintos, fim, pra eles, da aventura
de viver. Não foi um sonho bom, foi
um sonho triste, mas logo
você acordou e constatou, aliviada,
que nenhuma má-notícia tinha
chegado e, portanto, os
cururus provavelmente continuam
seu próprio mundo nas
frestas, ou em torno, do
mundo dos outros

Vivo antes de 7h30 da manhã

Um ou dois anos depois da época em que eu dava aulas particulares em bairros diversos de Fortaleza e voltava pra casa a pé, consegui uma vaga para ensinar num curso de graduação em Letras em Iguatu-CE. Aulas de literatura de língua portuguesa. A maior oportunidade que já tive na vida. No sertão bonito e áspero do cacto. Dar aulas, se aporrinhar, ter umas alegrias imprevistas, ser professor, quem sabe. Desde então, em geral, o tempo escorrendo sem alarde, sem problemas de menção especial: a vida em Iguatu, resumindo.

Muitos anos depois de começar a trabalhar lá, numa noite, final de turno, eu conversava um pouco com Manfredo, a poucos dias da colação de grau de sua turma, num corredor do campus. Ele não parecia muito interessado na minha preferência por literatura contemporânea, mas acho que gostava de conversar comigo sobre livros em geral. Passou por nós o Rômulo, concludente em breve, assim como o que papeava comigo. Interessou-se, parou por ali, injetou umas frases na conversa. Propôs então que continuássemos, num bar, a tratar dos assuntos que viessem. Já havia notado que Manfredo não era próximo de Rômulo, mas não necessariamente o evitava; em todo caso eram bem diferentes. Manfredo me olhou com ar de: não tou fazendo nada melhor mesmo. Opinei: vamos beber.

Manfredo me lembrava aqueles desenhos do rosto do Cruz e Sousa, cuja poesia gosto tanto, mas sem a barba, com um rosto mais arredondado e a pele um pouco mais clara do que parecia ser a do meu poeta brasileiro preferido no século XIX. Esse nome, Manfredo, foi homenagem do pai, falecido, que gostava do romantismo europeu e particularmente do belo poema teatral de Lord Byron em que o heroico personagem Manfred desafiava, ao mesmo tempo, Deus e o diabo (“esses dois sujeitos indignos de confiança”, dizia divertidamente Manfredo). Rômulo era policial, branco, uns 40 e poucos ou tantos, rosto meio detonado pelos anos e talvez por muitas farras. Tinha um sorriso fácil e que me parecia meio idiota; provavelmente era alguém dado a autoritarismos e talvez agressividade. Acho que era bolsominion enrustido (ainda não havia sido eleito o pior presidente que nosso pobre país já teve).

Então, essa pequena comunidade de três machinhos fomos ao bar e restaurante da rodoviária, mesa sob céu com algumas estrelas. Estava tocando forró no aparelho de som; conseguimos que trocassem por Belchior, repertório dos primeiros discos. Manfredo gostava de roupas escuras, meio formais, botões. Seu jeito de falar também tinha uma certa formalidade na escolha das palavras, no tom de voz. Sempre a coluna muito ereta, meio sério. Pareceria caricatural, talvez, se não fosse a atitude sarcástica com que encarava tudo. Rômulo fazia o papel do gente boa conversador, cheio de sabenças que considerava úteis ou impressionantes. Era alguém trivial. Apesar das impressões que me causava, tinha uma atitude em geral amistosa. Ambos iam se graduar em breve. Animados. Um clichê do bar é uma certa tendência espontânea de que as conversas primeiro toquem assuntos “sérios” para depois alcançarem tudo aquilo que classificações variáveis incluem na rubrica “putaria”. Um clichê, isso, mas a cerveja estava geladíssima. Dava até uma dorzinha perto da úvula.

Pois então. Manfredo me perguntou o que há de interessante na literatura hoje, mas não parecia interessado na resposta. Falei de obras que me agradam, das inquietações políticas de linguagem que me cobram a atenção; ele queria, entretanto, a névoa e os tons de voz do que lhe parecia ser a Europa no século XIX. De qualquer modo, me parecia importante, até imprescindível, que aquele rapaz tivesse aqueles modos naquela cidade. Era um deslocamento, uma saída do banal e do massivo, um anacronismo no melhor sentido da palavra, em que se traz algo de antes como uma coisa nova, que cutuca o que houver de pasmaceira no presente: o anacronismo de Jorge Luis Borges ou até o de Oswald de Andrade. Manfredo era interessante porque irônico e reflexivo, porque não se deslumbrava com cânones, exceto aqueles que admirava (basicamente, a arte clássica, da Antiguidade, e a do século XIX); a atualidade contaminava a impressão passadista que parecia querer causar de si mesmo. Não se dava conta, e preferi deixar que um dia percebesse isso sozinho, do quanto era fruto do agora, do hoje. Que nem todo mundo que estiver vivo, diretamente ou por tabela, queira ou não.

Aliás, Manfredo contou o resumo de uma peça teatral que pretendia escrever. Gostei tanto que consegui guardar na memória. Era ambientada na Grécia mitológica que os gregos construíram e tinha, como um dos personagens, Medusa, lendária criatura cujo olhar, quando visto, multiplicava ao extremo a porção de pedra que cada pessoa carrega em suas emoções. Um jovem cego é abandonado na ilha de Medusa por marinheiros debochados, sem saber onde estava, nem sobre quem morava ali. Começa a caminhar sem rumo, já que não conhecia o lugar, e acaba por entrar no palácio onde Medusa arrastava seu corpo de serpente sem descanso, dia e noite. Ela o fareja e vem a seu encontro. Logo percebe que ele não se transformará em pedra, já que é cego. O jovem percebe a chegada de alguém e pergunta se seu interlocutor pode ajudá-lo. Medusa se mantém em silêncio observador. Uma das cobras venenosas em sua cabeça, resquício dos belos cabelos que um dia teve, arma um bote para picar o rapaz no rosto.

Medusa [dirigindo-se à serpente que iria picar o rosto do rapaz. Era a primeira vez, em séculos, que a Medusa falava, voz rouca, inumana, mas parecida com a de uma mulher]: não.

O cego: está falando comigo?

Medusa: Não.

O cego [hesitante]: apenas quero ir embora.

Medusa: para onde?

O cego: qualquer lugar. Para mim, todos os lugares são quase o mesmo, e estar em casa e estar perdido não são coisas tão diferentes.

Medusa: o que você quer?

O cego: eu?… Tenho fome. Quero comer.

Medusa: aqui não há nada que lhe agrade, a não ser que goste de carne podre [silêncio com olhar sarcástico]. De um banquete recente…

O cego: preferiria talvez algumas frutas.

Medusa: [o olhar dela mistura contrariedade e curiosidade, se é que um olhar humano pode conter isso] por aqui não há frutas.

O cego: parece que invadi sua casa. Me perdoe. Sabe se eu poderia conseguiria frutas em algum lugar perto? [ouvindo o arrastar do corpo de serpente, enquanto ela se movia ao seu redor] Posso fazer uma pergunta?

Medusa: sim.

O cego: você é humana?

Medusa: o que você acha?

O cego: acho que sim.

Medusa: por quê?

O cego: porque… você me escuta. Sei que me observa enquanto espera que eu fale. Sinto uma paz estranha. Creio que não exagero em dizer que você é a melhor companhia que tenho tido em muito tempo. Seu silêncio me acaricia melhor que a maioria das palavras piedosas que me deram como esmola.

Um fio de tristeza ecoa do olhar de Medusa, na imensidão daquele palácio de pedra, que na verdade era um labirinto, que na verdade era um palácio. Ao ar livre, depois de longa caminhada, chegam perto de uma macieira. O cego acha as maçãs deliciosas. Come e adormece recostado no tronco. A medusa se sente ressensibilizada, mas também irritada pela inquietação sentimental que aquele frágil e jovem rapaz provocara em alguém ressentida como ela. Seduzida ou estuprada, não se sabe ao certo, por Posêidon no templo de Atena, foi castigada por esta devido à profanação de seu altar: transformada naquele monstro: Medusa. A paixão, naquele momento, lhe inspira horror contra o ódio que sentia. Ódio à humanidade e a todos os deuses, carregado consigo há tanto tempo. A medusa sabe que só poderia voltar a ter a paz ressentida em que vivia se o jovem desaparecesse. Entretanto, sabe-se incapaz de atentar contra a vida do rapaz, apesar da intranquilidade odiosa que ele involuntariamente lhe traz. Ela precisa comer; apenas seres sem olhos poderiam lhe servir de alimento. Quando Perseu e seus companheiros chegam à ilha para matar Medusa, poucos dias depois, simplesmente não encontram o rapaz cego dormindo sob a macieira. Ele não está mais lá. Seu corpo desaparecera por completo, e só Medusa sabe o que acontecera. Uma última fala dela, dirigida ao público, ecoaria antes de o pano cair:

Medusa: vocês são ridiculamente limitados… Acham que destruí meu redentor! Meu redentor de vidro fino. São incapazes de pensar que eu possa ter dado a ele o paraíso que nenhum humano ou deus lhe daria!

Algo que eu não sabia colocar em palavra no momento me agradava naquela ideia de teatro. Mudamos de assunto, e Rômulo, já meio alterado, iniciou o relato do fora que sua namorada havia lhe dado, já que ele era assumidamente um cara muito controlador e ciumento. Inconsolável, ele tinha impulsos de agredi-la e disse isso a ela, que deixara claro, com isso, que dele queria apenas distância. Tinha vontade de esmurrá-la ou pior. Manfredo olhou pro lado e fez uma cara de desânimo sarcástico ao ouvir isso. Olhei pra baixo e torci a boca meio involuntariamente. E agora, essa. Manfredo cortou o silêncio de alguns segundos: Olha, isso não tem futuro, não. Se tu não tá nem aí pro que vai acontecer com ela, pensa no monte de problema que tu vai arranjar pra ti mesmo. Mais alguns segundos de silêncio. Peguei a deixa e falei um pouco sobre como ele poderia lidar com aquele sentimento, como poderia talvez tentar negociar com a namorada (embora eu achasse que ela não aceitaria mais ter contato com ele, pelo menos não a curto prazo) e como poderia lidar com a rejeição definitiva caso isso fosse uma certeza. Falei de improviso, mais por tensão que por confiar de fato naquelas palavras. Mas vai que ajudassem, ué. Eu espero que tenham servido pro cara se aquietar. De qualquer modo não tive nenhuma notícia dele depois da colação de grau, nem boa, nem ruim.

Conversamos por mais um tempo, assuntos amenos, alfinetadas no Bolsonaro ouvidas por Rômulo em silêncio, talvez por sonsice. Manfredo ocasionalmente encorajava Rômulo a fazer yoga, meditação ou, em caso de diagnóstico, a tomar pílulas e banhos gelados à noite, e o outro ria aparentemente sem perceber o tom de deboche. Depois falamos de coisas aleatórias, relacionamentos. As historinhas de cada um. Contei da minha vida amorosa incerta. Diversas vezes, só gostava das namoradas depois que eu terminava os namoros, e elas arrumavam alguém. Eu queria então reverter as coisas, mas era tarde. Transei com caras, também, numa suruba, foi bom, tranquilo e sem afetos especiais. Rômulo franziu a testa e apertou os olhos. Fiquei feliz por ele ter se chocado. Pequenas alegrias a que a gente não renuncia. Então, desde um tempo relativamente longo, estava só. Só, numa espécie de inércia. Como numa espera desenganada, sem tanta pressa. Lou Andréas Salomé ensinou algo a Nietzsche: as mudanças importantes muitas vezes precisam de pequenos movimentos retomados a longo prazo. Raríssimo, desde criança, eu falar assim de mim pra gente que conhecia pouco. De repente, soube que muitas horas tinham se passado, e talvez eu tivesse bebido mais do que percebia. Gosto de algumas de suas aulas, não de todas, disse Manfredo, sem que eu percebesse claramente se estava de zoeira ou não, se o provável deboche era um jeito de tentar animar o ambiente. Em alguns momentos da noite, eu me perguntava até que ponto contribuí para aqueles caras chegarem ali. Até que ponto houve nas aulas que ministrei alguma contribuição que prestasse pra algo. Algo que parecesse válido. Difícil saber, mas estar ali com aquelas pessoas tão diferentes de mim não era mau. Nada mau. A cerveja possivelmente ajudava a manter o clima de boas. Tanto melhor.

Hora de buscar um rumo. Rômulo sumiu logo em sua moto. Manfredo era adepto e usuário de uma bicicleta. Me acompanhou por um quarteirão, antes de seguir seu caminho, enquanto nos perguntávamos: Esse Rômulo tem jeito na vida? Rapaz, sei não. Caminhei pra casa em que ficava quando estava na cidade, aluguel dividido entre colegas professores. Depois que andei dois quarteirões e seguia por um trecho de poucas casas, todas as luzes ao redor apagaram. A eletricidade e seu rumor sumiram. Escuridão densa e desafiadoramente silenciosa: por uns segundos, tudo deixou de existir. Não estava tão longe e conseguia me guiar até a casa pelas estrelas e pelo risco de lua no céu. Lembrei do Ivo, um amigo falecido de câncer há uns dois anos que tinha uma história amorosa parecida com a minha, avulsa, sem chegar a lugar nenhum. Tinha a minha idade. Lembrei também dos relatos de experiências de quase morte que doentes ou acidentados fazem, às vezes, quando acordam de seus comas: tomada por uma tranquilidade inédita, a pessoa encontra, em um salão iluminado, parentes mortos antes dela e que vieram recebê-la. Não consigo acreditar em vida após a morte: isso pra mim é contar com o ovo no cu da galinha. Pensei então que talvez o paraíso fosse uma experiência neurológica que durasse poucos minutos ou segundos, mas sendo percebida, nem que por um instante, com um gosto de eternidade. Ivo talvez tenha tido seu céu: tomara. Eu continuava vivo e estava chegando na casa em que dormia em Iguatu, quase às três da manhã. Sono. Tinha que dar aula às 7h30. Mas a aula às 7h30 não entra nesta história e, portanto, é um lugar e um horário que nem existem, pura ficção.

Lugar de escuta

Por que deveria existir a obrigação de se adequar a classificações de gênero, quaisquer que sejam? Tenho na cabeça o exemplo dos gêneros textuais, discursivos. Por que um texto deveria se adequar à exigência de que ele seja trilhado por certas características fixas? Isso, ok, tem sua utilidade em muitas situações. Acredito, porém, que a liberdade de desobedecer, alterar e desrespeitar regras para composição de texto no arco de um mesmo texto pode ser um tipo de prazer. Lembrei daquele livro tão bonito do Roland Barthes, O prazer do texto; o que é revolucionário não é a dor, a renúncia, o trágico, os normativismos morais. O que pode mudar o mundo é o prazer, o gozo como limiar do prazer, o desejo não como um se manter longe, mas como contínuo querer estar perto, diferença sutil, mas creio que relevante.

Nesta coluna, gosto de praticar um dos meus prazeres: a digressão. Mudar de assunto. Não obrigar o texto que escrevo a ter unidade temática. Não ter a obrigação de continuar falando da mesma coisa. Num mesmo texto, gosto às vezes de, sem aviso, passar do ensaístico ao ficcional, do cotidiano ao absurdo, da ânsia de conversar ao gesto de me calar. Não sei até que ponto isso pode interessar a possíveis leitores, mas é algo que me desperta prazer, animação. Hoje, então, resolvi enunciar algumas coisas de pensamento que me interessam e, espero, possam interessar a você(s). Um pequenino trajeto pessoal de descobertas e expectativas.

Além da literatura, que procuro levar para as salas de aula em que vou buscar a manutenção da minha materialidade, tenho muito interesse pela filosofia. Especificamente, por um certo ramo da filosofia que busca se desviar dos ritualismos e normativos habituais da área, especialmente na academia. A filosofia que não tem medo de se confundir com outras áreas de saber. A filosofia que corteja uma abertura de seu próprio corpo à fusão desapropriadora com outros corpos de linguagem e práticas não linguísticas. Isso tudo, como opção, não como regra de ouro ou coleira. Nesse sentido, creio que os escritos de Friedrich Nietzsche (1844-1900) são um momento muito feliz do chamado pensamento ocidental.

Partindo de acontecimentos pessoais, como a doença que o impediu de continuar lecionando, o desânimo motivado por isso e a retomada da vontade de viver e pensar, bem como históricos e estéticos, como o conjunto artístico e filosófico da cultura grega da Antiguidade, Nietzsche antecipa o inconsciente psicanalítico, enfatiza a irracionalidade e a antimoralidade como componentes do desejo humano de estar vivo e, principalmente, sustenta uma ideia que, décadas depois, seria amplamente aceita pelas ciências humanas: a de que inexistem verdade cultural unificada e válida para a espécie humana inteira. Não adianta você esperar que seus valores sirvam automaticamente para o outro; é preciso que você estabeleça uma luta existencial e política para que o seu pensamento faça sentido e prazer ao outro também. Que você convença, debata, argumente e encontre ou construa a sua comunidade, aqueles que compartilharão pensamento e práticas com você.

O pensamento de Nietzsche vem, assim, não puramente de afirmações prévias e categóricas que pretendam enunciar uma verdade pretensamente universal, mas em uma escrita aberta, interpretável de muitas maneiras, em que ecoa uma afirmação: estou aqui falando para os meus amigos, para aqueles que queiram concordar comigo, fazendo lembrar, talvez, que linguagem não é caminho definido, mas dispersão, desencontro, luta pela sobrevivência. Nietzsche diz também que não espera que concordem com tudo o que ele diz, mas que espera que queiram frequentá-la e colher nela o que desejarem: isso pode servir, inclusive, como modo de leitura de sua obra, já que pessoalmente considero impossível concordar com todos os posicionamentos dele. O exercício de buscar pontos de vistas diferentes dos convencionais gerou muita polêmica para a obra nietzschiana; diante da acusação de precursores do nazismo, seus textos seriam antes a recusa em dar automaticamente o status de coisa ruim à crueldade e de coisa boa à bondade. Operação arriscada, mas que pelo menos em certos âmbitos pode gerar debates maduros e lúcidos. Por que não procurar compreender algo criticamente, pela maior parte de ângulos possíveis, antes de adotar posições simplesmente porque disseram que seriam válidas?

Certamente, considerando o contexto eurocêntrico, machocêntrico, caucasocêntrico do século XIX, a obra de Nietzsche não está isenta de conservadorismos, machismo, hipóteses equivocadas ou meramente aberrantes em geral. Elas me ajudam a produzir pensamento, não para me tornar discípulo, mas para exercitar aquilo que o filósofo alemão escreveu num poema: “quer me seguir? Siga a si mesmo!” Com o tempo, muitos começaram a defender que a obra nietzschiana não era uma apologia do nacionalismo e de tudo que nele é autoritário, mas, por exemplo, o ato de perguntar: você está de fato convicto de que quer ou não quer ser autoritário? Qual resposta você se dá quanto a isso? Nietzsche parece ter estimulado um pouco daquilo que houve de mais transformador e anticonservador no pensamento europeu do século XX: Georges Bataille, mistura de antropólogo, economista, ensaísta, ficcionista e não sei o que mais, é um dos primeiros deles. Jacques Derrida, que quis ver a matéria como um tipo de imensa linguagem, e Gilles Deleuze e Félix Guattari, que disseram que a linguagem humana é a base de qualquer abuso de poder, preferindo atentar para as linguagens que preferem exprimir afetos a significados inteligíveis, trouxeram também algumas linhas boas para repensar permanentemente o humano como transformação e potência.

Já que estou falando de gentes e ideias, mas estou também falando de mim mesmo, de certo modo, não quero deixar de lado a contribuição indispensável de Karl Marx. Não pela aposta heroica, embora cada vez mais duvidosa, de que uma revolução radical esteja garantida, mas pelo gesto politicamente intenso de pensar outro mundo e outra materialidade; pela argumentação decisiva na sustentação de que os espaços humanos não são natural e inevitavelmente imutáveis, mas que mudam com a história, e com isso podem mudar rumo a uma dinâmica libertadora e desierarquizadora de coisas que muitos desejam, mas temem não ser possível.

Não poderia, de jeito nenhum, dizer que as ideias acima sejam o que há de melhor e mais importante no pensamento construído pelo grande ciclo das modernidades (que continua contemporaneidade adentro). São só algumas posturas que chamaram minha atenção. Entretanto, elas me parecem próximas de um interesse que tenho tido desde alguns anos: o de sair da tendência canônica e afinal mercadológica (mesmo que eu não queira) de ler obras escritas por homens brancos de classe média. Sair da zona de conforto mental. Ler coisas que não se pareçam com o que já li. E, sobretudo, buscar as vozes de quem secularmente foi tratado na base do “cala a boca”, mas que sempre teve e cada vez mais tem muito o que dizer, da forma que puderem: mulheres, negros, “povos não ocidentais”, animais, plantas.

Cânone, Norma, periferia, zona de desterritorialização, todos esses são conceitos brancos, europeus ou europeizados. Muito provavelmente aquelas vozes que começam a ser ouvidas vão propor categorias que desloquem essas aí. Isso não terá reconhecimento da elite acadêmica branca, ou terá de modo limitado, mas poderá atuar como fonte de práticas políticas de elaboração de comunidades de tamanho variável. Essa percepção me tem dado vontade de calar e escutar as vozes de todos esses grupos.

E tem é coisa para quem se interessa. Pensamento feminista em suas diversas vertentes, negro, pós-colonial ou decolonial, queer etc. Uma grande multidão de autores mundo afora trazendo suas vivências e seus dialetos (o que é uma língua senão uma multiplicidade de dialetos?), oferecendo-me percepções que eu jamais terei se me mantiver lendo europeus ou europeizados. Sueli Carneiro, Helena Vieira, Milton Santos, Judith Butler, Franz Fanon, Anibal Quijano, María Lugones, Donna Haraway, tantas falas. O interessante, para mim, é que vejo pontos de contato entre os europeus citados e comentados acima e muitas das discussões, por exemplo, nos autores latino-americanos da proposta decolonial ou nos que se dedicam às discussões queer. Aqueles autores dos primeiros parágrafos acima têm, para mim, uma contribuição de que gosto muito: não aceitam compreensões simplificadoras, esquemáticas, do real, mas tentam abrir olhos e ouvidos para sua complexidade, para as complicações do humano, no fundo atuando como forças contínuas de confrontação ante tudo que é conservador, tudo que tenta manter privilégios e noções preconcebidas. De qualquer modo, eles são um limite, um insuficiência, são o anúncio do que precisa ir adiante. São algo que este texto mesmo está tentando fazer: admitir que li vários europeus, mas quase nada, ainda, do que tem me interessado ultimamente. É a confissão de um desejo, mas também de uma falta.

Condições materiais favoráveis de espaço e tempo é que propiciaram, naquele ciclo de modernidades mencionado, o desenvolvimento de um pensamento complexo, que una o lado estético da linguagem à preocupação com práticas políticas de vida em grupos. Um pensamento que começou a ser formulado por brancos, pelo menos no campo de parte das práticas envolvidas por ele, mas que, quem sabe, consiga combater minimamente valores excludentes do mundo branco habitual.

Talvez a origem racial, de gênero ou de outras circunstâncias de um pensamento não determine completamente os percursos e performances com que ele vai se conectar. Talvez o lugar de fala não seja um perímetro inequívoco; o lugar de escuta, imagino, não é; é fluido, aberto e amoroso ao outro, não como norma e virtude, mas como proveito, viço de experiência, categoria que tem suas cascas europeias, mas que também existe em outras diversas culturas, como alegria de viver o próprio corpo e prazer com o prazer do outro. O prazer naquela imprevisível medida revolucionária, inquietante, embora sempre em risco de ser usado para anestesiar e dominar. Complexidade e simplicidade, categorias também brancas, podem ser bagunçadas pelas vozes novas de modo que elas construam pensamento politicamente transformador, democrático, mas crítico da democracia, com possibilidades produtivas e encorajadoras.

Essas observações, contudo, não se propõem como explicação ou previsão de nada, mas apenas como vontade e aposta. As vozes novas é que vão decidir e estão decidindo o que querem dizer. Toda esta escrita aqui tentou não mais que chegar a este lugar: o do silêncio e da atenção. E se houvesse um pensamento que produzisse movimento pelas vozes de que gosto, pensamento que privilegiasse a escuta das corporalidades e transcorporalidades que escapam a ele? Como a opção pelo silêncio e por uma longa escuta, por eventuais intromissões na conversa, pensamento em que a escuta é uma escritura, cuja singularidade é, numa conversa, propor como fala predominantemente a ação dos ouvidos? O meu lugar de pensamento, hoje, é um lugar de escuta, de quem se cala para escutar, não por mérito, mas para um aprendizado contínuo.

Dona Tantinha, Alyne e a iguana

Aquele dia bem comum, por exemplo. Eu estava desempregado e, portanto, quase sempre sem dinheiro. Na época, tinha gostado muito de ler uma novela chamada A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro. Um cara ocioso, sem família, ocupado em perambular pela cidade em que morava. Uma das melhores histórias contadas pelo autor, que dessa vez evitou criar aquele tipo de personagem convencional que “todos” os caras hétero querem ser e serviu pra transformar vários de seus livros em best sellers com pose cult. Vai, Saulo, ser nordestino no Rio, mas só um pouquinho: eu já tinha visitado a capital carioca e sabia que Fortaleza e ela eram bichos diferentes.

Após as poucas “aulas” de reforço escolar que eu “ministrava” naquele tempo, voltava pra casa a pé. Andava às vezes quilômetros. Fortaleza é muito chão. Mariana às vezes me fazia companhia. Ela curtia as longas vagabundagens a pé, mas, no dia de que tou falando, eu tava só, retornando pra casa depois de ensinar as tarefas escolares de uma garota ansiosa, de lágrimas fáceis, sempre repetindo que não sabia, não sabia. Na altura daquele canal que atravessa a comunidade do Lagamar, quase no cruzamento da Raul Barbosa com a Capitão Aragão, eu caminhava pela calçada olhando a comunidade e lembrando de filósofos e num sei quê. De repente, uma intuição óbvia: a filosofia tá num lado, a favela tá em outro, apesar da urgência de aproximá-las e dos esforços de alguma eventual gente boa em fazer isso. Pois é. Parece que não existe uma só humanidade, não estamos necessariamente interligados; somos uma espécie em que cada grupo pode ser de uma espécie diferente, em geral inimiga.

Enquanto eu pensava nisso, momento certo pra susto, um rapaz mais baixo que eu e muito mais musculoso, me abordou com a fórmula básica do assalto: ei, bróder, me empresta cinco reais? Não tenho, vou ficar te devendo (eu não tinha mesmo; a mãe da menina ia pagar depois). Ele espiou rápido pro lado, me olhou nos olhos de novo e avisou ríspido: bora, playboy, passa a carteira e o celular. O celular tava pifado há uns dias; a carteira carregava nada, “carteira do ladrão”, pro caso de ser assaltado durante as andarilhanças recentes. Quando eu quis abri-la pra mostrar que o dinheiro tava ausente, ele tentou pegá-la da minha mão. Eu não quis soltar, e a resposta a isso foi um murro no queixo como eu nunca tinha levado. Fiquei zonzo, quase caí sentado, mas pude ver o cara correndo rumo a um beco qualquer daquele Lagamar enorme, com minha carteira vazia e fechada.

Uma mulher ia passando e me olhou com um jeito de “difícil, hem? Mas que bom que não foi nada grave”. Depois do olhar, uns fios de conversa. Você tá bem? Mora aqui perto? Sim, no final da Murilo Borges, essa rua que passa por dentro do mangue. Ela me olhou por alguns segundos e, como não conseguia passar muito tempo sem agir logo, me convidou pra tomar um café em sua casa e perguntou se não queria que seu filho, que estava perto de chegar do trabalho, me levasse em sua moto aonde eu morava. Admito que aceitei o café e a carona.

A casa de dona Tantinha (eu lhe digo logo é meu apelido, que todo mundo me chama assim mesmo) era um só cômodo. Ali moravam cinco filhos e ela, sem marido ou nada parecido: tipo a receita clássica da composição familiar brasileira (embora do desagrado do general que era vice-presidente e depois seria presidente da república). Naquele momento, tava ali apenas Alyne, sentada numa cadeira bem no centro do recinto. Adolescente ou jovem adulta. Me olhou me investigando. Perguntando com o olhar quem eu era, mas como se não esperasse resposta. Dona Tantinha me apresentou à garota e logo começou a preparar o café e a fazer outras coisas ao mesmo tempo. O lugar tinha umas duas camas e algumas redes, além de uma série de utensílios empilhados nos cantos. Me sentei ao lado de Alyne e reparei que ela, além de ter pernas e braços atrofiados, tinha uma condição facial que lhe entortava a boca ao falar, o que fazia com alguma dificuldade pra articular sons, mas com agilidade mental e sintática.

Defesa Civil retira 630 toneladas de resíduos do Canal do Lagamar
Canal do Lagamar. Imagem da internet

Perguntou quem eu era e o que fazia ali. Expliquei, basicamente com as informações do primeiro parágrafo, mas mais resumido. Seu olhar era interrogativo, distraído e reconfortante, tudo junto. Não deixe de andar por aí só por causa de um murro, ela disse com um sorriso. Eu ri um pouco, espontâneo. Ela segurava seu documento de identidade, que tinha sido expedido na semana anterior. Me mostrou. Eu adorei a minha foto. Tou linda. Sorri de novo, sem pensar, como antes. Me contou em seguida como gostava quando amigas da mãe e amigos dos irmãos vinham visitá-los. Que gostava de observá-los, de conversar com cada um, saber do que gostavam e do que não gostavam. E você, Alyne, gosta de quê? Gosto de comer, de dormir, de cantar e de ouvir gente falando. E de falar também, né?

Alyne disse: meu mundo sabe ser meu. Repetia isso. Apesar de todas as dificuldades dos últimos tempos, ela não tinha perdido o ânimo pelo prazer, pela festa: esperá-la, aproveitá-la, falar dela, falar durante. Isso se entendia indiretamente, no somado de suas falas e gestos. O que ela parecia esperar dos outros era que acompanhassem seu exemplo, na sua opinião, o melhor exemplo possível: eu digo pra minha mãe e meus irmãos, Saulo, festa é o que faz. Nesse calor, eu só entendo a festa. Entendi que as tardes de Alyne, enquanto a mãe e os irmãos estavam fora, eram esperas. Dona Tantinha ficava animada perto da filha, que lhe dava conselhos e broncas inúteis, absurdos, pra fazer graça. Mãe, vá limpar a sujeira do canal, vá. Antes de me despedir, ela me disse: A gente faz uma troca: você volta aqui, e eu te faço dar risada de novo. Combinado, Alyne.

Australiano captura iguana de 1,5 metro debaixo da cama da criança (VÍDEO)  - Sputnik Brasil
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De repente, João Pedro chegou junto com o barulho de sua moto. Entrou e me olhou sério, quase inexpressivo. A mãe lhe explicou a situação. Quer ir logo? Pegamos a Murilo Borges, meio longa, com árvores do mangue separadas de cada calçada por duas cercas altas de metal. O engarrafamento das cinco da tarde tava caprichado; a moto mal conseguia se infiltrar pelas frestas entre os carros. Na metade do trajeto, tivemos que parar mesmo. Olhei para a grade e a vegetação logo depois dela. A gente tava perto da calçada esquerda. Vi numa árvore uma iguana enorme, naquela beleza só dela, perto da cerca. De perfil. Parecia ter reparado em mim. Era capaz, quem sabe, de observar o mundo dos humanos e, calmamente, analisá-lo, talvez achá-lo esquisito ou condenável. Por impulso, eu disse ao João que voltasse, dali para a minha casa era uma caminhada que eu fazia muitas vezes, e o engarrafamento seria um tipo de guarda-costas. Ele insistiu. Sugeri dizer a sua mãe que havia me deixado na porta do prédio em que eu morava. Isso lhe pareceu convincente, ele partiu, e em um instante eu estava de pé próximo à grade olhando a iguana.

Lembrei da ex-namorada a quem eu chamava de iguana às vezes. Você é linda como uma iguana, mas de um jeito diferente. O olhar da iguana do mangue parecia a pergunta, aquela pergunta silenciosa e específica, mas também meio confusa, que pode ecoar na mente de cada pessoa ao longo de sua existência: cada uma costuma ter a sua. Um olhar amarelado, uma pupila negra, espécie de agulha, sob o atrito do vento e da luz, que pronunciava a minha pergunta, aquela que me acompanha. Parece que, pra muitas pessoas, a pergunta é assim: como/quando eu vou alcançar tal coisa, tal situação? A minha versão da pergunta era um pouco diferente, era tipo a pergunta do Kafka: quando vou forçar a entrada pela porta que se faz pra mim, mas por onde não me deixam passar? Pensar um tanto nisso. A iguana inclinou um pouco a cabeça pro meu lado e depois começou a andar lentamente pelos galhos, logo invisível, sua cauda fina sumindo no verde como se entrasse numa lagoa coberta de folhas. A memória me trouxe, sem aviso, uma música de que gostava muito, sobre um extraterrestre que amava uma terráquea, mas tinha, por algum motivo, que voltar pro seu planeta. na letra, ele confessava: eu não sou um corpo contínuo, é verdade. Partes de mim caminham pelas árvores. Lembrei ainda de outra música, em cuja letra um personagem dizia: costumava juntar os meus cacos e ir pra casa. Entendi aquela lembrança como uma sugestão: caminhei pela calçada, perto da cerca, olhando as árvores do mangue, e logo tava no apartamento onde morava com três tios.

Naquele dia, eu tive três alegrias: conheci dona Tantinha, Alyne e uma iguana sem nome aparente.