Gayatri Chakravorty Spivak: “Pode o subalterno falar?” (1)

A crítica literária e filósofa indiana Gayatri Chakravorty Spivak (1942) contrapõe e costura, em suas obras, a tradição marxista, a filosofia desconstrucionista do franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004), os estudos feministas, as discussões pós-coloniais. Seu ensaio Pode o subalterno falar? (1985) desenvolve a questão imediata do título conforme a tese de que, em muitos contextos fora das áreas “civilizadas” e economicamente privilegiadas do capitalismo contemporâneo, as pessoas desprestigiadas e oprimidas têm como arma de luta política imprescindível a comunidade, mesmo que restrita ao pensamento, com aqueles que ecoam suas vozes ou mesmo as inventam. Isso não resultaria numa representatividade ingênua e idealizada, mas num campo de forças e relações complexo e em contínuos rearranjos e desarranjos.

“Este texto se deslocará, por uma rota necessariamente tortuosa, a partir de uma crítica aos esforços atuais do Ocidente para problematizar o sujeito, em direção à questão de como o sujeito do Terceiro Mundo é representado no discurso ocidental. Ao longo deste percurso, terei a oportunidade de sugerir que uma descentralização ainda mais radical do sujeito é, de fato, implícita tanto em Marx quanto em Derrida. E recorrerei, talvez de maneira surpreendente, ao argumento de que a produção intelectual ocidental é, de muitas maneiras, cúmplice dos interesses econômicos internacionais do Ocidente” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Pensadores franceses da segunda metade do século XX, na trilha da noção espinozana de afeto e da vontade de potência nietzscheana, propuseram o conceito de desejo, encarnação de vitalidade e força transformadora, como questão mais aguda para a filosofia recente. Gayatri, entretanto, vai enxergar numa louvação em coro que Gilles Deleuze (1925-1995) e Michel Foucault (1926-1994) fazem, desse conceito, um descuidado retorno a uma subjetivização simplificadora e antiquada: o desejo teria sido tratado pelos autores referidos como uma via absolutamente benéfica de práticas políticas; com interferência marxista (por intérpretes como Walter Benjamin e Louis Althusser), a indiana matiza a pulsão desejante como intensidade produtiva, mas também como desejo por aquilo que se sabe ou se descobre prejudicial, fenômeno comum tanto em indivíduos dispersos (como ressaltado na psicanálise freudiana) como em coletividades subalternizadas na periferia do capitalismo mundial. É como se o sujeito unitário e essencialista que Deluze e Foucault tanto criticam (tradicionalmente cristalizado na figura do indivíduo como simplicidade e essência), fosse recuperado por eles mesmos, inadvertidamente, na formulação de um desejo triunfal e homogeneizado.

Gayatri C. Spivak | The Department of English and Comparative Literature
Gayatri Chakravorty Spivak. Foto da internet.

“Esses filósofos não admitem a ideia da contradição constitutiva – e é aí que eles se separam de comum acordo da esquerda. Em nome do desejo, eles introduzem novamente o sujeito indivisível no discurso do poder. Foucault frequentemente parece atrelar “indivíduo” e “sujeito”; e o impacto disso em suas próprias metáforas é talvez intensificado em seus seguidores. Devido ao poder da palavra “poder”, Foucault admite usar a “metáfora do ponto que progressivamente irradia suas adjacências”. Tais deslizes tornam-se a regra em vez da exceção, em mãos menos cuidadosas. E esse ponto radiante, que anima um discurso efetivamente heliocêntrico, preenche o espaço vazio do agente com o sol histórico da teoria – o Sujeito da Europa” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Tida como difícil, a prosa ensaística de Gayatri pode ser descrita como um jeito singular de escrita e, desse modo, de tentativa de chamar a atenção do leitor para um posicionamento político participante a partir de sua própria linguagem: é preciso sacudi-la, deslocá-la, por opção, por vontade de viver melhor, como modo de situar práticas possíveis de subjetividade frente ao que é estagnação socioeconômica, cultural e existencial, da vida nas zonas precarizadas da linguagem, da geografia e do corpo mundo(s) afora. Próximo mês, continuo citando e comentando a prosa de provocação que Gayatri assume em seu ensaio.

“Meu argumento é que Marx não estátrabalhando para criar um sujeito indivisível, no qual o desejo e o interesse [como aquilo que é interessante, antiopressor, para um indivíduo ou um grupo] coincidem. A consciência de classe não opera”- com esse objetivo. Tanto na área econômica (capitalista) quanto na política (agente histórico-mundial), Marx é compelido a construir modelos de um sujeito dividido e deslocado cujas partes não são contínuas nem coerentes entre si” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Franz Fanon: Pele negra, máscaras brancas (2)

“O negro tem duas dimensões. Uma com seu semelhante e outra com o branco. Um negro comporta-se diferentemente com o branco e com outro negro. Não há dúvida de que esta cissiparidade é uma consequência direta da aventura colonial… E ninguém pensa em contestar que ela alimenta sua veia principal no coração das diversas teorias que fizeram do negro o meio do caminho no desenvolvimento do macaco até o homem. São evidências objetivas que dão conta da realidade” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Mês passado prometi aprofundar meus comentários aqui para Peles negras, máscaras brancas, do psicanalista martinicano Franz Fanon (1926-1961), e isso vem na seguinte forma, que penso ser a melhor de alcançar a tarefa: vou trazer trechos do livro como para um fichamento, uma urgência de leitura, com poucas palavras como indisciplinada lambugem.

“Conhecemos muitas compatriotas, estudantes na França, que nos confessaram com toda a candura, uma candura toda branca, que não poderiam casar-se com um negro (ter escapado e voltar atrás? Ah, não, obrigada!) Aliás, acrescentavam, não é que neguemos ao negro qualquer valor, mas é melhor ser branco” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Discussões da situação negra e da situação de colonizado se confundem. Vontade induzida de ser branco como o impulso habitual do domínio colonizador.

“Jean Veneuse [personagem do romance Um homem parecido com os outros (1947), de René Maran (1887-1960)] é um destes intelectuais que querem tomar posição apenas no plano das idéias. É incapaz de realizar um contato concreto com seu semelhante. Se alguém é amistoso com ele, cordial, humano, é certamente porque está a fim de bisbilhotar. Ele “conhece esse tipo de gente”, e se mantém na defensiva” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Fanon questiona autores europeus (Hegel, Freud, Sartre etc.) por não conseguirem, em sua maioria, enxergarem pontos imprescindíveis da materialidade e das práticas de linguagem e pensamento negros. Por confundirem colonialismo com universalismo.

“[…] situação colonial – fazendo aparecer um conjunto de ilusões e malentendidos que somente a análise psicológica pode situar e definir.” Ora, sendo este o ponto de partida de Mannoni, por que fazer do complexo de inferioridade algo pré-existente à colonização?” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

As percepções da psicanálise com foco individual alimentam e são alimentadas pelo pressuposto de que o acesso a recursos materiais por uma coletividade é fundamental para entender a condição negra martinicana e provavelmente em outros recantos desse mundo capitalista de meu Deus (embora o modelo marxista não seja necessariamente o homogeneizador (palavra pesada) entre negros e brancos.

“É preciso dizer que, em certos momentos, o social é mais importante do que o individual. Penso em P. Naville escrevendo: ‘Falar dos sonhos da sociedade como se fossem os sonhos do indivíduo, dos desejos coletivos de potência como se fossem o instinto sexual pessoal, é inverter ainda uma vez a ordem natural das coisas, uma vez que, pelo contrário, são as condições econômicas e sociais das lutas de classes que explicam e determinam as condições reais nas quais se exprime a sexualidade individual, e que o conteúdo dos sonhos de um ser humano depende também, no fim das contas, das condições gerais da civilização na qual ele vive’” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

48 ideias de Frantz Fanon (1925-1961). | psiquiatra, filósofo,  revolucionário
Foto da internet.

Divagações que instauram um poema no geral do riscado analítico da obra.

“O preto é um brinquedo nas mãos do branco; então, para romper este círculo infernal, ele explode. Impossível ir ao cinema sem me encontrar. Espero por mim. No intervalo, antes do filme, espero por mim. Aqueles que estão diante de mim me olham, me espionam, me esperam. Um preto-groom vai surgir. O coração me faz girar a cabeça. Um estropiado da guerra do Pacífico disse a meu irmão: ‘Aceite a sua cor como eu aceito o meu cotoco; somos dois acidentados’. Apesar de tudo, recuso com todas as minhas forças esta amputação. Sinto-me uma alma tão vasta quanto o mundo, verdadeiramente uma alma profunda como o mais profundo dos rios, meu peito tendo uma potência de expansão infinita. Eu sou dádiva, mas me recomendam a humildade dos enfermos… Ontem, abrindo os olhos ao mundo, vi o céu se contorcer de lado a lado. Quis me levantar, mas um silêncio sem vísceras atirou sobre mim suas asas paralisadas. Irresponsável, a cavalo entre o Nada e o Infinito, comecei a chorar” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

A beleza exuberante das civilizações negras, em suas localidades e ritmos, contraposta ao ato branco de concentrar esforços em amontoar poder (com suas armas de alta destruição, suas gargantas cheias de dinheiro e mercadorias, sua ciência, sua racionalidade, sua indústria).

“O preto se universaliza, mas do Liceu Saint-Louis, em Paris, um deles foi expulso: teve a ousadia de ler Engels. Temos aqui um drama, e os intelectuais negros correm o risco de atolar-se nele. Como? Apenas abri os olhos que tinham vendado e já querem me afogar no universal? E os outros? Aqueles que “não têm boca”, aqueles que “não têm voz”. Tenho necessidade de me perder na minha negritude, de ver as cinzas, as segregações, as repressões, os estupros, as discriminações, os boicotes. Precisamos botar o dedo em todas as chagas que zebram a libré negra” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Fanon mostra que (1) ter medo do negro gera uma (2) reação parecida ao ato de subestimá-lo: duas formas de segregação.

“O branco como senhor diz ao preto: ‘A partir de agora você é livre.’ Mas o preto ignora o preço da liberdade, pois ele não lutou por ela. De tempos em tempos ele luta pela Liberdade e pela Justiça, mas se trata sempre de liberdade branca e de justiça branca, de valores secretados pelos senhores. O antigo escravo, que não encontra na sua memória nem a luta pela liberdade nem a ânsia da liberdade de que fala Kierkegaard, fica com a garganta seca diante do jovem branco que brinca e canta na corda bamba da existência. Quando acontece de o preto olhar o branco com ferocidade, o branco lhe diz: “Meu irmão, não há mais diferença entre nós”. Entretanto o negro sabe que há uma diferença. Ele a solicita. Ele gostaria que o branco lhe dissesse de repente: ‘Preto sujo!’ Então ele teria uma oportunidade única de ‘lhe mostrar’ … Porém normalmente não acontece nada, nada além da indiferença, ou da curiosidade paternalista” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Ter força, lutar, trazer.

“Não levamos a ingenuidade até o ponto de acreditar que os apelos à razão ou ao respeito pelo homem possam mudar a realidade. Para o preto que trabalha nas plantações de cana em Robert só há uma solução, a luta. E essa luta, ele a empreenderá e a conduzirá não após uma análise marxista ou idealista, mas porque, simplesmente, ele só poderá conceber sua existência através de um combate contra a exploração, a miséria e a fome. Jamais pensaríamos em pedir a esses pretos que corrijam sua concepção da história. Aliás, estamos persuadidos de que, sem o saber, eles comungam com o nosso ponto de vista, habituados que estão a falar e a pensar em termos de atualidade. Os poucos companheiros operários que tive a ocasião de encontrar em Paris nunca se preocuparam com a descoberta de um passado negro. Sabiam que eram negros, mas, diziam-me, isso não muda nada de nada. No que tinham totalmente razão” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Franz Fanon: “Pele negra, máscaras brancas” (1)

Continuo aqui meus “fichamentos” em torno de obras que só li recentemente e que tratem de olhares de algum modo mal-tratados, subalternizados, mundo afora. Obras fora da minha situação social, racial e de gênero. Este mês, comento e procuro resumir Pele negra, máscaras brancas (1952), do psicanalista e ensaísta antilhano Franz Fanon (1925-1961). Ao lê-lo, pensava quase a cada página que deveria já tê-lo percorrido há muito tempo. Colegas deste Blogue Artevistas já o evocaram e abordaram em diversas oportunidades; estas linhas tentam acrescentar, se tiverem sorte, algo para um diálogo com essa obra ou, ao menos, dar-lhe um espaço que seria destinado a palavras “puramente” minhas.

Em um trajeto multidisciplinar, que colhe diversas vozes para sua prosa, Fanon realiza um contraponto à tese de que não existe racismo e ao embasamento implícito que ela oferece a um ponto de vista racista e branco. Dizer que não existe racismo se ampara na percepção de um eu ou um nós que não sofre as consequências do preconceito de pele. Que nega as feridas causadas por este pelo motivo de nunca ter estado sujeito a isso. E que coloca a branquitude como sinônimo tácito de um acordo convencionado (entre brancos) para uma suposta universalidade multirracial, pretensamente não racista, invisibilizada e normativa, que desaba tão logo se põem em pauta percepções de mundo não-brancas.

A virada descolonial da psicose: Frantz Fanon, inventor da esquizoanálise
Franz Fanon. Foto da internet.

O livro de Fanon é um pioneiro de uma discussão que enfrenta de modo mais incisivo a tradicional ânsia de validade universal do pensamento europeu. Na Europa, nas décadas posteriores à publicação desse livro, o conceito de diferença foi formulado e enfatizado por autores como Jacques Derrida e Gilles Deleuze. Aqui, a ideia da diferença nasce aplicada a um contexto material específico, de um olhar racial e assumidamente político. Pensamento que surge como diferença e se situa resolutamente à margem ou na contramão do espaço dos “iguais” – os “iguais a nós”, no caso dos colonizadores.

Podemos entender pela leitura da obra que o colonialismo não é uma questão aguda apenas para quem habita regiões antes colonizadas pelo poder europeu, mas, de um modo diaspórico, para quem carrega o adesivo simbólico e pejorativo da situação colonial pelo fato de ser negra ou negro. Onde houver populações negras, o colonialismo racista é um problema urgente e permanente, a urgência de um debate permanente.

A influência do pensamento de Fanon, veterano da Segunda Guerra Mundial e da luta pela libertação colonial da Argélia, é vasta: desde Paulo Freire, em sua Pedagogia do oprimido (como enfatizado no prefácio do filósofo Lewis R. Gordon), passando pela Teologia da Libertação e pelo arco heterogêneo dos estudos pós-coloniais e decoloniais desenvolvidos na África, na Ásia e na América Latina, por exemplo, ao longo do século XX, e tão oportunamente em voga na atualidade.

“Todo povo colonizado — isto é, todo povo no seio do qual nasceu um complexo de  inferioridade devido ao sepultamento de sua originalidade cultural — toma posição diante da linguagem da nação civilizadora, isto é, da cultura metropolitana. Quanto mais assimilar os valores culturais da metrópole, mais o colonizado escapará da sua selva. Quanto mais ele rejeitar sua negridão, seu mato, mais branco será. No Exército colonial, e especialmente nos regimentos senegaleses de infantaria, os oficiais nativos são, antes de mais nada, intérpretes. Servem para transmitir as ordens do senhor aos seus congêneres, desfrutando por isso de uma certa honorabilidade” (Franz Fanon, Pele negra, máscaras brancas).

Próximo mês, aprofundarei meus comentários em torno das análises realizadas por Fanon em seu livro.

Ser mulher…

Por Alicia Pietá

O que te faz mulher?


Essa pergunta ecoa, essa pergunta ronda, essa pergunta abrange tempo, culturas e seres, mulheres.


Alguém tem direito de se afirmar mulher, se sentir mulher?

Ou a sociedade que define o que é uma mulher, se você é mulher? O que acontece no mundo ideal onde todos podem ser livres e ser o que quiserem e o que acontece na prática? Sim meus amigos e amigas estou aqui a lançar diversas perguntas para que juntos pensemos sobre esse ser tão julgado ao longo da história e mais recentemente amplamente abrangente enquanto diversidade e existências/resistências.

Eu enquanto mulher trans, ou simplesmente mulher, penso nisso todos os dias, nas mais diversas ocasiões, desde me olhar no espelho quando acordo até quando vou dormir isso por que a sociedade ainda me nega o direito de SER, o direito de me ver como sempre fui: Mulher.


Para ser mulher é preciso útero, ovários, vagina, biologia? Isso resume e aprisiona o conceito de Mulher ou é muito mais amplo e diverso? Num mundo ideal deveria ser diverso, num mundo mais cruel e machista vemos outra realidade cruel, nossa condição e existência sendo negada até por quem deveria estar lado a lado, não deveria haver separações, vemos um movimento completamente cego e ignorante em suas limitadas convicções de mulheres cisgeneras, famosas Radfem, assumindo o papel de opressoras, usando a luta feminista para negar a condição/existência trans dentro do próprio movimento, negando o transfeminismo, negando assim nossas existências!


A pergunta que faço é: dentro do seu argumento “querida” Radfem, uma mulher cis que não possui mais útero e ovários deixa então de ser mulher também? O que define uma mulher? Continuam usando o mesmo discurso opressor para limitar a ampla existência e pluralidade feminina? Até quando continuarão apagando existências e fazendo um verdadeiro desserviço a grande luta feminista?


O poder de agregar sempre será maior do que limitações cegas e egoístas baseadas em conceitos criados pelos mesmos que sempre nos oprimiram.


Então… De que lado você está? Deveriam existir lados dentro dessa luta?


Eu, Alicia, MULHER trans ou simplesmente mulher sigo acreditando que não e sempre carregarei essa luta e identidade até meu fim, para que não seja o fim de sonhos e existências como a minha.

Fatos reais

Um grupo de pessoas humanas ou inumanas vendo uma personagem que, parece, vai crescer em imponência, poder e desenvoltura, talvez como um assassino ou um sábio, mas que logo após os primeiros indícios disso envelhece rapidamente e morre.

Eu tinha uma namorada e escrevi histórias fantasiosas sobre pessoas que se perdiam pelo mundo, mundo que sempre as levava para um lugar diferente do que planejaram. Ela leu as histórias e disse: pare de escrever essas coisas, senão isso vai acontecer com você. Era uma garota agradável, de qualquer modo.

Uma mulher pintou criaturas feias em diversos quadros. Seu marido se assustou e a deixou. Quando esse abandono não podia mais ser revertido, quando ela já não o queria mais de volta, ele se arrependeu por um longo tempo.

Pai e filha, índios, diante de uma área de floresta, fora do seu limite, no limiar entre floresta e cidade, vendo de longe o que parecem ser olhos enormes e cheios de raiva por detrás das árvores. Como de uma criatura gigantesca, mas humana, demasiado humana.

Existia, dentro de uma mente, uma ideia de escrita que, essa mente sentia, era revolucionária. Mas não soube torná-la texto fora de si mesma, e a ideia morreu com ela.

Minha mãe, meu pai, outros parentes e um monte de animais domésticos e selvagens virão me buscar. Eu estou esperando por eles e vou continuar esperando. Quando eles vierem, nós todos vamos nos encontrar num campo aberto, coberto de grama, numa manhã de sol. Muito sol, e tal hora nós estaremos dentro do sol, da neve, da pedra.

Um grupo de escritores. Parece que não gostavam muito uns dos outros. Desconfiados mutuamente, como quase toda a espécie humana em relação a si mesma. Mas sempre conversavam e riam muito durante as conversas.

Homem, pra que esse drama todo, é só se matar logo e pronto, disse ela, rindo, com aquele sotaque cearense característico. Ele entortou a boca de um jeito engraçado e sabia ou acreditava que ela não falava por mal, porque gostava daquele humor.

Eu não conseguia distinguir se via uma cena cujos limites minha percepção abrangia, organizava em um corpo oco de luz, quer dizer, uma manada de grãos na água, ou se via um círculo ou uma espiral ou uma rede de linhas emaranhadas ao meu redor, que tanto pressionava minha pele e pelos, mesmo sem um acionamento ostensivo do tato, como fugia em direção aos horizontes de que a visão mal suspeitava.

A dificuldade de memorizar pode ser resultado de uma forte tendência ao devaneio; você não memoriza o que acabou de ler ou ouvir porque está devaneando, tomada por uma cena mental que insiste em ecoar, sem você ter pedido racionalmente por isso. Mesmo quando você não está devaneando com nada específico, nenhuma cena mental em particular, sua mente não memoriza porque está em espera por devaneio, em pré-disposição para devaneio, sem cena mental, mas com a sensação de deslizamento, de que algo fora de você mesma lhe move. Isso pode acontecer em qualquer idade, mas é mais comum quanto mais velho se fica, talvez pelo impulso frequente de, após muitos anos de vida, querer ser outro, estar em outro lugar, ser um corpo impróprio.

O gesto de coletar pequenos fragmentos de cenas pra serem juntados em histórias mais longas e elaboradas, estratégia de espera por algo indefinido. Mas essas cenas informaram que, curtas de palavras, são longas de espanto ou deslumbramento para as pessoas vivas, mortas ou inexistentes que as vivem, viveram, viverão ou viveriam.

Existe criança trans?

Por Alicia Pietá


Essa pergunta se propaga durante décadas, por que pouco se fala sobre? Quem dera fosse um questionamento na minha época, quem dera houvesse a mínima luz sobre essa pergunta nos anos 80/90 (meus)! Cresci exatamente como um peixinho fora d’água, clichê? Não, pois ainda não se fala sobre isso.
A resposta é óbvia, a resposta sou eu e tantas outras ao meu redor, infâncias felizes, trágicas, mágicas, assustadoras como tantas outras infâncias cisgeneras, porém inclusiva não.
Eu guardei pra mim a minha doçura e sonhos por toda infância e adolescência, imaginava diversas outras situações, criava e engolia essas criações/sonhos, me deparava com a sobrevivência e a máscara social construída pra isso, eu sabia o que “podia e não podia”, o que era aceito, o que me era negado. Minha salvação foi o humor e a arte, sempre! Sem isso eu afundaria como tantas outras afundam ainda na infância, reverberando pra sempre, como uma ferida, uma lacuna, momentos simples que não vivi, não me deram essa direito, coisas básicas como o primeiro beijo, namoro, roupas etc, coisas realmente muito básicas para uma pessoa cisgenera e padrão.

Hoje essa criança habita em mim, nem tudo foi espinho mas nem tudo foi flor, no espelho ainda posso vê-la e hoje ela me agradece por não ter afundado, lágrimas e sorrisos afloram nesse exato instante.
Essa criança trans vive.


Eu Estou Presa na Lua Cheia

Por Barbara Matias

A lua não morre, migra.

Eu morri e nasci na noite de 27 de maio de 2021. 

arte da parenta Drika Kariri.

É o vírus invisível que tenta paralisar minha espiração, meu sopro tá vagaroso.  Me arrebanhou, tirou um pouco da minha braveza que questiona as linhas retas.  Estou meio sonsa, murcha – fisicamente falando, fora isso tudo também a falta de buscar o pô do sol, de se encantar com o mistério.

Se encantar com o mistério está na delicadeza de correr com os pés descalços masturbando as pedras. 

Em casa – Eu caminho de um cômodo a outro e me canso, pronto. Me deito e invento de contar as horas. É um fracasso, honestamente perdoe essas palavras, estou com preguiça de tatear caminhos e atalhos para chegar ao coração.

Caminhos e atalhos leva ao coração.

 Busco ainda que exausta o silêncio, o espontâneo.  

Estou meio concreto, cimento, borracha, plástico e planta sintética.

Minha melhor amiga passou três meses aguando um pé de cacto de plástico.  

Estou sem graça desse estado. Em algum instante quero romper. Vou romper, aproveitei a lua para me engordar de fora pra dentro. E mesmo exausta, vou cuspir a dor quando tomar banho de rio pelada, eu sou como a lua – eu não para de existir, eu migro por oceanos desertos. 

É verdade, estou cansada, a noite vou abrir um vinho que comprei vou beijar na boca mesmo que seja na imaginação, vou beijar a sereia de cabelos encaracolados e unhas afiadas, a serei que eu vi na praça da Sé do Crato. Eu preciso beijar na ficção/realidade que as palavras me costuram,  a tempos minha escrita dorme no “estou cansada”, descosturada, tecido cheio de buraco, rasgado, frágil.    Ando péssima mas passo bem.  Está noite eu beijo ainda que com o vírus a sereia invisível da praça da sé do Crato.

No Crato não tem mar.

Hahaha  eu estou péssimo mas ri o rio de mim . Eu me faço sereia cabôca de rio. Eu nasço jurema. Agora estou bem. 

Viva. 

Sugestão: bebe um álcool aproveita a ideia de maior de 18 anos, acende um fogo em algum lugar.

Abraço virtual, Barbara Matias

Davi Kopenawa: A queda do céu (3)

Este mês eu encerro meu resumo com citações para A queda do céu, relato do xamã yanomami Davi kopenawa, como tenho feito em fevereiro e março (mês passado o tempo me abandonou, e substituí a continuação da tarefa por pretensos poemas escritos por mim). A ideia é entregar às palavras bonitas e agudas do xamã o espaço de fala que me emprestaram.

“Foi Titiri, o espírito da noite, que no primeiro tempo ensinou o uso do wayamuu e do imuu [modos discursivos yanomami assemelhados a cânticos ou orações]. Fez isso para que pudéssemos fazer entender uns aos outros nossos pensamentos, evitando assim que brigássemos sem medida. Po­rém, antes disso, Titiri, furioso, devorou Xõemari, o ser da alvorada, para que ele parasse de voltar sem parar desde a jusante do céu, caminhando à frente de sua trilha de luz. Desde então, o fantasma de Xõemari só pode interromper a escuridão uma única vez, no raiar do dia. Então, Titiri disse a nossos ancestrais: “Que essa fala da noite fique no fundo de seu pensamento! Graças a ela, vocês serão realmente ouvidos por aqueles que vierem visitá-los”. É por isso que continuamos a discursar desse modo em nossas festas reahu, do anoitecer até o amanhecer, primeiro fazendo o wayamuu e depois o imuu. Assim, as pa­lavras desses diálogos não pararam de crescer em nós até hoje. Titiri as fez se multiplicarem, para que pudéssemos conversar entre as casas e pensar direito. São o âmago de nossa fala. Quando dizemos as coisas só com a boca, durante o dia, não nos entendemos de fato. Escutamos o som das palavras que nos são dirigidas, mas as esquecemos com facilidade. Durante a noite, ao contrário, as palavras ditas em wayamuu ou em imuu vão se acumulando e penetram no fundo de nosso pensamento. Revelam-se com toda a clareza e podem ser efe­tivamente ouvidas” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Hoje é impossível dizer que ainda haja algum lugar do mundo que escape ao capitalismo. Triste de constatar: tampouco escapou dele o cosmos que é a floresta, esse lugar para onde a humanidade europeoide deveria, mas não mereceria voltar.

“Depois de Manaus e Brasília, conheci São Paulo. Foi a primeira vez que viajei tão longe por cima da grande terra do Brasil. Compreendi então o quan­to é imenso o território dos brancos para além de nossa floresta e pensei: ‘Eles ficam agrupados numas poucas cidades espalhadas aqui e ali! Entre elas, no meio, é tudo vazio! Então por que querem tanto tomar nossa floresta?’. Esse pensamento não parou mais de voltar em minha mente. Acabou por fazer sumir o que restava de meu medo de falar! Tornou minhas palavras mais sólidas e lhes permitiu crescer cada vez mais. De modo que eu costumava declarar aos bran­cos que me escutavam: ‘Suas terras não são realmente habitadas! Seus grandes homens resguardam-nas com avareza, para mantê-las vazias. Não querem ceder nem um pedaço delas a ninguém. Preferem mandar sua gente esfomeada comer nossa floresta!’. E acrescentava: ‘No passado, muitos dos nossos morreram por causa das doenças de vocês. Hoje, não quero que nossos filhos e netos morram da fumaça do ouro! Mandem os garimpeiros embora de nossas terras! São seres maléficos, de pensamento obscuro. Não passam de comedores de metal cober­tos de epidemia xawara. Vamos acabar por flechá-los e, se for assim, muitos ainda vão morrer na floresta!’. Era difícil. Eu tinha de dizer tudo isso numa fala que não é a minha! Contudo, movida pela revolta, minha língua ia ficando mais ágil e minhas palavras menos enroladas. Muitos brancos começaram a conhecer meu nome e quiseram me escutar. Incentivaram-me, dizendo que achavam bom que eu defendesse a floresta. Isso me deixou mais confiante. Alegrava-me que eles me entendessem e se tornassem meus amigos. Naquela época, falei muito nas cidades. Achava que se os brancos pudessem me ouvir, acabariam convencendo o governo a não deixar saquear a floresta. Foi com esse único pensamento que comecei a viajar para tão longe de casa” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Alvos de ataques de garimpeiros, índios Yanomami pedem socorro - Notícias -  R7 Brasil
Crianças yanomami (foto da internet)

A voz encontra uma fala, que por sua vez encontra uma música. Um tipo de música para um tipo de fala para um tipo de voz, e assim quanto às vozes, falas e músicas possíveis. As vozes, falas e músicas dos marginalizados, dos mortos injustamente (o mundo humano, a injustiça, a norma) são mais bonitas que no caso dos opressores? Não sei dizer. Sei que a voz, a fala e a música do meu povo, do povo a que pertenço, são o que eu quero que viva.

“Nossas palavras para defender a floresta nos foram dadas por Omama. Sua força provém da imagem dos ancestrais do primeiro tempo, de quem somos os fantasmas. Foram eles que nos ensinaram a valentia que me per­mite falar com firmeza aos grandes homens dos brancos. Por isso, ficam preo­cupados quando minhas palavras invadem seu pensamento: ‘Hou! Essa gente da floresta não tem medo! Suas palavras são duras e eles não recuam!’. Na primeira vez em que me dirigi ao presidente do Brasil [José Sarney, em encontro ocorrido em 1989], pedi a ele que expul­sasse os garimpeiros de nossa floresta. Ele me respondeu, com hesitação: ‘São numerosos demais! Não tenho nem aviões nem helicópteros suficientes para tanto! Não tenho dinheiro!’. Repetiu-me essas mentiras como se eu fosse des­provido de pensamento! Eu trazia em mim a revolta de minha floresta des­truída e de meus parentes mortos. Retruquei que com aquelas palavras tortas ele só queria nos enganar e deixar que nossa terra fosse invadida. Depois acres­centei que para falar assim ele devia ser um homem fraco com o espírito cheio de esquecimento, de modo que não podia pretender ser um grande homem de verdade” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Caminho contigo na floresta, meu amor. Não enxergamos o sol, cuja luz nos chega coada, em fios e nós emaranhados, pelas árvores, seus galhos e suas folhas. Caminhamos para sempre, felizes, juntos, na floresta mais linda que existe, meu amor: faz tempo que não te vejo, nunca te vi, mas caminho contigo, para sempre, enquanto houver essa floresta, e creio, e sei, que ela não deixará de existir, sobreviverá a nós, a tudo. A floresta comerá o mundo humano, e então ela soará sua risada de vitória, seu rumor polivocal, seu mundo dela, esse céu-e-terra só nosso.

“Quando eu era mais jovem, costumava me perguntar: ‘Será que os brancos possuem palavras de verdade? Será que podem se tornar nossos amigos?’. Des­de então, viajei muito entre eles para defender a floresta e aprendi a conhecer um pouco o que eles chamam de política. Isso me fez ficar mais desconfiado! Essa política não passa de falas emaranhadas. São só as palavras retorcidas daqueles que querem nossa morte para se apossar de nossas terras. Em muitas ocasiões, as pessoas que as proferem tentaram me enganar dizendo: ‘Sejamos amigos! Siga o nosso caminho e nós lhe daremos dinheiro! Você terá uma casa, e poderá viver na cidade, como nós!’. Eu nunca lhes dei ouvidos. Não quero me perder entre os brancos. Meu espírito só fica mesmo tranquilo quando estou rodeado pela beleza da floresta, junto dos meus. Na cidade, fico sempre ansioso e impaciente. Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente deles. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não consegue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. Ficam tomados de vertigem, pois não param de devorar a carne de seus animais domésticos, que são os genros de Hayakoari, o ser anta que faz a gente virar outro. Ficam sempre bebendo cachaça e cerveja, que lhes esquentam e esfumaçam o peito. É por isso que suas palavras ficam tão ruins e emaranhadas. Não queremos mais ouvi-las. Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham com eles mes­mos. Seu pensamento permanece obstruído e eles dormem como antas ou ja­butis. Por isso não conseguem entender nossas palavras” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Sobre desrespeito à identidade de gênero…

Por Alicia Pietá

Se alguém usa todos os signos e símbolos de um determinado gênero, ou não usa mas pede pra ser tratada(o) como tal, qual a dificuldade?


Eu vivo essa chatice a um certo tempo , mesmo depois da minha prótese, por exemplo, ainda me deparo com situações desrespeitosas como essa, o ELE ao meu ver não se justifica! Nenhuma dessas desculpas “Ah é novo pra mim”, “eu não entendo sobre isso”, “estou me acostumando”, “ah mas não se operou ainda”… NÃO cola!


Já ouvi/li mil “justificativas” e justamente nesse momento social, com tanta informação e multiplicidade de pessoas é que eu entendo como preguiça desses que usam as tais desculpinhas, apenas acomodam-se, não vejo empatia nenhuma de uma pessoa que se nega a compreender e respeitar, por que sim é um desrespeito, eu simplesmente me nego a ter qualquer contato com gente desse tipo.


Então o grande problema é ficar dando desculpas pra algo óbvio e simples, somente.
Trabalho com esse tema, VIVENCIO dia a dia.

Minha Primeira História de Amor

Por Jamil

Esses dias eu escrevi uma história de amor…. Ela estava na fila do banco, cabelos cacheados, volumosos com um laço de tecido rosa amarrado na cabeça. Blusa azul, saia jeans branco, sandálias japonesa branca. Olhar atento, olhar curioso, sobrancelhas vivas, sorriso fácil, corpo entregue. Pele alva, limpa, serena. Ela cabelos curtos, pretos ondulados. Olhar forte, atento, traços marcantes lábios hostis. Pele aveludada feito onça pintada, fala mansa como rio, sorriso profundo como um açude. Calça jeans azul até a canela, cintura alta, blusinha básica branca, fio de contas. ALL star preto, óculos retangulares pequeno, de oncinha Âmbar, brincos de semente. Seus olhares se cruzam, por alguns milésimos de segundo o coração acelera como se passou uma vida. Elas se despedem…. Te amo…

E foi assim que eu escrevi minha primeira história de amor.

Jamal

Você é dia de texto de Barbara Matias, mas este mês ela resolver nos presentear a todos com Jamil.

E também falas potentes em seu papo com Marta Aurélia no nosso canal Lugar ArteVistas.