sim

Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita (foto da internet)

na hipótese de um poema nunca ter passado

pela palma e os dedos da mão,

apesar da insistência, apesar da fome,

ao contrário dos planos e das dicas,

apesar do medo forte, que,

todo mundo sabe, abre as bocas dos outros pra nada

e depois sugere a ideia de uns versos,

apesar da carne viva, das horas

em que o sangue sorri debaixo da pele;

considerando essa hipótese,

tua vida, como esta zona da cidade,

é perpendicular a si mesma, é uma dobradiça,

e você já entendeu isso ou está quase entendendo;

aliás, os cadeados continuam autossustentáveis.

Existe uma pessoa escondida na casa abandonada,

outra pessoa por perto, mas não nos falamos

ou não nos conhecemos: sabemos da verdade-clichê,

que nossos pertences em comum garimpam ferrugem

em algum armazém não se sabe onde.

Asas beijam flocos de ar, enquanto pessoas confrontam

seu excesso pessoal de ureia, pela milionésima vez ao dia,

preferindo não fazer,

contratando alguma catalepsia portátil,

como um jeito sonso de só dizer sim,

algo diferente de Maria Gomes, Yoko ou Molly,

por exemplo: quando nós dissemos sim,

essa era a única palavra a dizer,

e não foi o sim convencional da resposta:

nossos sins de algum modo se tornaram

a primeira palavra que já dissemos

em todas as nossas vidas

Tchau, Amor

Por Roberta Bonfim @lugarartevistas 

Quando vi a chamada quis ir, mas imaginei outra coisa. Quando vi a chamada, já ri, mas só pela identificação. Já estava neste movimento de querência, mas com tempo reduzido e dando conta de poucas interferência em uma existência que corre no 220 como a voltagem do estado. Eu, por outro lado, ando querendo outra coisa. E isso talvez tenha inclusive deturpado a minha percepção sobre o espetáculo como um todo. Pois é isso, vemos e sentimos os lugares a partir de nós e da sopa emocional que trazemos. 


@feirinhadopoco

Antes de chegar ao espetáculo questões simples e complexas, simples como conseguir que minha avó fique com minha cria por duas horas para eu ir ao teatro. Depois o como ir, moro perto, mas o caminho é escuro por demais o que o deixa inóspito para qualquer um, imagine a uma mulher. Mas, não queria ir de carro, acabei por ir, deixei-o no Poço da Draga, fiquei de longe observando a Feirinha do Poço, uma realização de Djeyne Roundoff e Mariana Vasconcelos, duas mulheres incríveis que eu amo ter na vida como  minhas amigas. Olhava a feirinha linda, linda e cheia de tanto amor de longe e tive a mesma reflexão sobre o caminho a chegar até ali ser desiluminado de luz pública pela qual cada um de nós obrigatoriamente paga um valor bem salgado por mês. Mas o fato é que depois de uns minutos parada ali, dentro do carro olhando a feira, entendi que já era mesmo a hora de seguir para o teatro e fui na hora certinha, como que cronometrada. 

Então parei o carro na altura da Caixa Cultural e segui andando até o teatro, no caminho gente festando na calçada, em frente a uma casa que já foi um barzinho. Do lado direito encostados no centro cultural, jovens homens estão sentados no chão, alguns se agridem, outros se observam, e alguns só esperam que a praça seja liberada para que eles possam voltar a ocupá-la e quem sabe só dormir. Isso porque a praça central do centro de arte e cultura, virou morada para muitos no decorrer dos anos, cabe um texto todinho sobre isso. E se falo deles e sobre isso tudo, porque trata-se do caminho, do meu que é pertinho para se chegar até o teatro. E quando se crer que já estou quase chegando sou lembrada pelas grades do teatro que preciso andar um tanto mais. Os acessos foram sendo fechados para evitar a apropriação do espaço, aqui cabe outro texto. No caminho, três pedintes, duas mulheres trans e um homem com um cartaz feito a mão com o número do seu pix. De algum modo garante a mim que este tem registro, já que tem conta no banco. E agora cruzando as grades verdes que me permitem chegar ao teatro penso: agora com o pix começa a se entender o quanto de dinheiro roda no mundo. 

Com as grades cruzadas, é como se entrássemos em outro lugar atmosférico, até o ar parece menos denso, de modo prático; há luzes. E há as cores das roupas ousadas dos cearenses, dos artistas e seus admiradores. Aqueles que se sentem convocados a em um domingo às 20 horas, assistir teatro na cidade de Fortaleza, apesar dos caminhos. Mais que isso, assistir dança. Dança, teatro, movimento, política, cidadania, pertencimento… 

Lembram que eu disse ter tomado a decisão de ir ao teatro na hora certa, pois foi, logo que cheguei peguei a fila para compra do ingresso que custa 30 reais inteira, e 15 a meia – aqui fiquei curiosa mas não havia tempo para muita conversa na bilheteria, se há algum abatimento para moradores do centro e praia de iracema, ou mesmo da cidade, como um estímulo do equipamento para ocupação qualitativa do espaço, bem como, lembrei de um valor de meia aos artistas sindicalizados. Será que esses abatimentos existem? Se você que está lendo este texto souber me avisa, por gentileza. E já aviso aos leitores mais ácidos, que não estou reclamando do valor, o espetáculo vale tanto mais, mas em meio a situação financeira do país, é fundamental políticas públicas para estímulo de plateia. Pois pensa comigo que se eu conseguir atingir minha meta de assistir 3 espetáculos e um filme por mês, cada um a 30 reais, gastei só de bilheteria 120 reais, isso fora o caminho até chegar e o qualquer coisa que se venha a consumir neste caminhar, em uma cidade bem desequilibradas financeiramente. Mas, volta comigo para a fila. Neste domingo inclusive peguei duas filas que me deixaram bastante feliz, uma na livraria cultura no shopping Rio Mar, onde muitos jovens compravam livros e figurinhas do álbum da copa. E ali  na fila do teatro, onde desde sempre começa para mim o espetáculo. 

 E aqui você como eu está pensando: – Era um texto sobre o espetáculo Tchau, Amor e essa gata já falou de tudo no mundo, já escreveu uma lauda inteira e ainda nem entrou no teatro.

Eu ainda uso máscara apesar da melhor da situação da Covid 19, me sinto segura e meio invisível. Na fila sem ser vista vi e ouvi um papo bonito e forte de Silvia Moura e Marina Brizeno, duas artistas fundamentais na nossa cidade Fortaleza. Aqui vale inclusive dizer que nos dias 23 e 24 de setembro vai ter espetáculo dessa deusa. Na mesma fila presenciei o encontro de dois rapazes com nomes idênticos, vi também Sara Síntique, linda de viver e Silvânia de Deus e mais alguns. Consegui comprar meu ingresso e as portas do teatro foram abertas. Entrei! Sim, tá no singular, eu estava sozinha, tenho me percebido gostando muitíssimo de sair sozinha – aqui também fica a deixa para um outro texto, pois agora que entrei no teatro, o ambiente se transforma mais uma vez. De modo que da minha casa, até aquele momento, em que eu passava pela passarela na frente do teatro, que gera a mim como público a sensação que que vou subir no palco, penso que como atriz essa mesma entrada me incomodava e eu fazia mesmo piada com a criação de Fausto Nilo. O fato é que a luz avermelhada, com os refletores soltos, já nos apresentam a estética diferencia desses Inquietos. 

Passada a passarela segui para o meu cantinho no teatro Dragão do Mar, gosto dele desde que entrei nele pela primeira vez no ano 2000. Sentada no meu canto observada as pessoas entrando, para um espetáculo de dança no domingo às 20 horas a casa estava linda, tinhamos ali uma meia casa mais ou menos. Muitos amigos de Gyl, me senti menos especial percebendo que todos ali tinham recebido uma mensagem do mesmo seresteiro que eu, é do seu personagem. hihihihi…

Dado momento logo que as luzes da plateia apagam percebo as pernas dos atores sentados na orelha do palco, penso na emoção deles ali, fecho os olhos, respiro e quando abro, o tal do seresteiro já está no seu teclado. surrado, de cara já me tirou do teatro. Eu já estava no barzinho do Montese, mas podia ser do Centro, do Vila União ou ali mesmo do entorno do Dragão. 

“Porque você se esconde?

Eu vou te procurar!

oh lua! oh lua cor de prata.

Me diga por favor por onde anda aquela ingrata.” 

A luz muda, outros três artistas ganham a cena junto com uma porção de cadeiras de plástico. E afirmam que estão ali três pessoas que já não estão: Cacilda Becker, Nina Simone e Pina Bausch , mas vi outres ali como Stanislavski, Spinoza e Vigotiski, ou ainda Dona Josy,  Michele, Fabim, Julim e tantes, tantes…

Antes de seguir preciso ser franca com você que me leu até aqui, eu tenho muito respeito aos que fazem arte na vida, e estes que fazem no nosso estado trabalhos tão primorosos eu sou tipo fã, e é com este olhar de fã que já a algum tempo assisto alguns por aqui como é o caso dos trabalhos da Andreia Pires, e da Inquieta que sempre, invariavelmente me afetam. Grata Andreia por ser essa artista tão inspirada, disponível, plástica e multi. E aqui o óbvio, todas essas competências só se realizam em palco porque há uma equipe que não vemos personificada, mas que são tão cheios de personalidade que logo é possível identificá-los. Falo da luz, sempre afinada e afetiva de Walter Façanha, que posso está enganada, mas penso que seja iluminador do teatro Dragão do Mar desde sua inauguração em 1999. A luz de Waltinho tem uma identidade e sua competência possibilita realizar as viagens imagéticas desse coletivo tão criativo, que brinca com a luz e os corpos. Quem também diz que está é Netinho Nogueira, esse multiartista solar, e o único que deixo me maquiar nesta vida. Né Netim? O que me chamou muita a atenção foi o cenário, ou, devo dizer os elementos cênicos? Enfim, estes elementos conseguem ambientar o palco e nos levar ao barzinho, chego quase a sentir o cheiro do lugar, das vantagens de assistir o espetáculo mais de perto, sentir os odores do palco, que no segundo dia de apresentação de estreia, pela emoções e dinâmicas, deve ser quase o do bar. O que também nos leva sensorialmente para este ambiente, são os sons (a trilha sonora é assinada por Pedro Madeira), que estão no ambiente teatral desde a entrada do público, sendo de algum modo um convite a nós – público, a sermos parte deste lugar, os clientes, e aqui imagino que no processo experimental da companhia, vão acabar por vivenciar também este formato. E já deixo o convite aqui para experimentarmos no Coletivo Fundo da Caixa, no Poço da Draga este formato do público neste lugar. Enfim…

Ali sob todas essas camadas se desenrola a trama. São quatro pessoas, que convivem num bar, eles não têm nomes, são a A Dona (Geane Albuquerque), O Seresteiro (Gyl Giffony), O Garçom (Well Fonseca)  A Cliente (Melindra Lindra) e as coisas que são todos esses elementos cênicos, que vão de engradados de cerveja, cadeiras, fardinhos de água. Propaganda gratuita para ambientação do bar. E aqui bem que podia entrar apoio de uma água mineral da cidade, né? Essas quatro pessonas vivem ali um jogo de tentativas e risco, um caminhar em labirintos na percepção móvel no que diz respeito à vida. 

Mas é quando uma das personagem ameaça sair, que a trama se desenrola, e tomam a cena o amor, as relações de oposição e extrema co-dependência que fazem levar a percepção de que não é possível a sustentação sem as quatro paredes que sustentam a ficção. 

Estamos falando de um espetáculo físico e aqui eu preciso dizer que esses quatro corpos são potentes, muito potentes. E que brincam com seus ambientes, seus corpos, o espaço, os corpos uns dos outros, é bonito de assistir, ao mesmo tempo que é triste e divertido, contraditoriamente. Do elenco só conhecia conscientemente o trabalho cênico de Gyl, que amo por sua capacidade de ser-se multi e inteiro, mas ao final tive a sensação de já ter visto Well Fonseca em algum outro trabalho, assim como Melindra Lindra, sem muitas certezas. Mas, quem eu nunca tinha visto, certeza, mas me afetou com sua presença, mas especialmente sua agilidade e voz, é a atriz e bailarina Geane Albuquerque. 

Para mim a única questão de modo geral é o áudio das cenas, que talvez pelo meu lugar ou pelo novo do espetáculo, ou pela fadiga dos corpos para equilíbrio respiratório para as falas eu perdi algumas coisas, o que também acaba por se resolver a medida que se apresentem. O fato é que o jogo cênico está lindo e a cenas como uma que parece imagens de filmes em câmera-lenta ou mesmo na integração de todos os elementos presentes no palco. Simples e resumidamente um espetáculo. Que alegria assistir teatro! Que delicia assistir a inquietude de vocês! 

Aos final os aplausos de pé, a fala sobre a relevância de divulgarmos juntes as artes da cidade, o teatro de grupo se refazendo por si, para abrir novos caminhos, mas ali também estampada sob os olhos de todos nós o pedido por ajuda de uma classe, de um setor fundamental para formação do pensamento crítico, mas também do lúdico e tantos outros lugares de afeto. 

Luzes da plateia acesas, o publico vai cumprimentar os atores e eu saio correndo, há uma pequena caminhada até o carro e marquei de pegar a cria as 21:30 e já era 21:08. Já no carro vejo Sil e outra, andando por onde eu não vim/ fui por medo de andar e ofereci-lhes carona, falamos sobre o trecho sem iluminação, que impede a apropriação, que faz distante o perto, que dificulta caminhos de acesso à cultura e ao entretenimento da cidade. E falamos da maravilhosa apresentação.

E se você chegou até aqui na leitura te agradeço pela disponibilidade e te convido a ir ao teatro e a levar aos seus, te convido também a ir à feirinha do Poço da Draga que acontece uma vez ao mês. Vamos ocupar a cidade para fazê-la a cidade que nos abraça. E vamos abraçar nossas artes e artistas. 

Tchau, amor tem texto e direção de Andreia Pires e segue em cartaz no dias  24 e 25 de setembro 20 horas – Teatro Dragão do Mar – $15 / $30 @inquietacia

Cochicho

Acervo pessoal.

Disseram, num cochicho, que não faz

bem ao cavalo galopar no asfalto, sem

esclarecerem se o cochicho era um utensílio

de segurança ou de teatro. Cada coisa

mexendo em outras tantas perto ou longe,

e a imprevisibilidade do efeito disso

parece que ainda é assunto do dia e,

convenhamos, merece ser. Não merece?

Não sei. Talvez não. Quando abro a boca

pra falar, alguém fala mais alto,

e eu me calo: com isso eu penso,

de qualquer modo, que ainda tem esperança por aí.

Continuo achando, até quero que você

ache também, que alguém por perto

vai dizer algo que distraia, tipo:

desejar muito é acreditar que os nutrientes

alimentares precisam de nós.

A paisagem vista do chão, pelo pião girando,

é imprevisivelmente previsível? A propósito,

O humano se acomete esquecendo

as palavras sábias logo de antes, caso tenham

acontecido; viver é impensável, meu amor,

diz a propaganda do seu

analgésico açucarado preferido.

A literatura europeia em geral

tem uma predominância de tristeza ou uma

fusão instável entre alegria e tristeza;

Boca do inferno e seus amigos dizem,

olhando para os lados, que a alegria é

mais urgente que a tristeza, menos engaiolável,

embora toda alegria tenha uma pitada secreta

de boca amarrada, de cara de parede:

prefiro assim, disse a ruiva, sem dizer nada.

O vampiro vive material e emocionalmente

às custas de quem sente muito;

o vampiro é leve, a sensibilidade é pesada

como uma porta emperrada; o vampiro

tem uma gaveta de privilégios

e por isso envelhece devagar,

polindo o mito de que nunca envelhece.

Prometeram que tudo ia ficar bem, mas ainda estamos

fazendo vistoria nessa hipótese, enquanto moramos

num quarto alugado, nossa casca

colorida de ovo de tartaruga:

nem temos tanto do que reclamar,

exceto de uma ou trinta coisas que nem te conto.

Acervo pessoal.

O mangue

Acervo pessoal.

Engraçado como incertas

mudanças chegam aqui, rastejando

imperceptíveis, embaixo dos

pés, ou suspensas no ar, coadas na

poeira, que sempre é parte do corpo,

mesmo depois de um maravilhoso banho numa

banheira com água quente e sais aromáticos.

Alguém por perto, tão coberto

de lama quanto você, esse alguém é

rude, mas encontra e devolve

imagens que a anestesia dos

outros condôminos não

vê; insuportável, esse alguém continua

tendo algo a te dizer, algo

que você talvez não queira escutar,

e isso diz muito sobre você.

Já não tem mais rabecas por

aqui, nessa terra de calor grosseiro; nunca

houve um berimbau por aqui.

A fumaça do cigarro, com sua temperatura

previsivelmente alta, passa por

dentro do pulmão como uma brisa fresca, assegurando

que essa vida hoje não te sustenta sem algum veneno.

E da próxima vez em que você resolver

rastejar pra dentro do cofrinho de louça

da sua mente, diga a si mesma(o): fiz

isso em prol de um mundo melhor, não foi?  

Debochar ou levar a sério não faz

diferença pra 5% da população mundial e seu

acordo particular com o Deus Tempo.

Alguém dirá que há compensações,

daqui a alguns dias alguém te consolará

assim: se não pode destruir o mundo, você

sempre pode destruir a si mesmo,

ou algo em si mesmo, fazer disso festa.

Não é que às vezes se possa

prever o futuro; é que a vida humana é

previsível demais, embora em

geral a gente não perceba.

Essa gente, aliás, assombrada

Por aqueles traços de suas

personalidades que chamam de boletos,

enquanto fios de alta tensão eletrocutantes

passam foram do alcance de seus

crânios, mas obviamente não de outros.

Três quartos da folhagem verde na árvore

escondidos do sol pelo prédio em frente.

Três quartos da folhagem

não se tornaram naquele momento tela verde vivo

por causa do prédio ao lado e, além disso,

por perto tem muita gente morrendo mal, vivendo mal.

A cidade, marmorizada como algum

pedaço de carne bovina japonesa,

coleciona suas epidemias de carência de atenção

por tempo indeterminado.

O mangue virou uma extensão da predialhada,

um quintal, mas ainda é mangue,

ainda é um tipo de floresta, ou seja, mais ou menos,

terra emendada em plantas emendadas em bichos.

Para um cidadão visitante, o mangue é

um paraíso por algumas horas

ou um inferno, caso o visitante venha

morar ali definitivamente.

O mangue, esse lugar para outras ocorrências do concreto,

tão invisíveis quanto você,

mas de outro jeito. E afinal

essas coisas continuam sem

importância alguma, e talvez seja preciso

que você escreva que elas continuam

sem importância, sem esquecer que

poucas coisas têm ou tiveram alguma importância hoje

ou nos últimos quatro ou dez milênios.

Existem apenas uns 500 tigres da Sibéria

 vivos; enquanto isso, um

anúncio comercial antigo supõe

que exista um animal selvagem

incluso, opcional, em cada

cidadão, pronto pra uma utilidade

eventual; outro comercial revela que

um mendigo embriagado é o

guardião do multimetaverso,

pelo bem da minha segurança

e da minha felicidade, amém.

Aquela frase, que tinha sido guardada uma vida inteira

num armário, ela caiu no chão, se despedaçou e,

quando colaram seus cacos, virou outra frase, virou

algo que nem dá pra chamar de frase, de imagem,

algo que passou pelo corpo e pegou rumo de mundo,

que passou pela vida como

uma coisa muito boa de que alguém já não se lembra.

Alguém, aliás, que sugeriu que a história

deve ser levada a sério, mas não demais.

Acervo pessoal.

Opções de vida

Arquivo pessoal

Animal selvagem ou animal doméstico: seriam, no momento, as únicas opções de vida, especialmente pra você, mas você não vai voltar às àrvores, às tocas subterrâneas.

.

O açude ou a poça d’água, boiando sobre a terra e embaixo do ar. Sem lugar certo, como gases extraviados pelo corpo.

.

Sair do útero, sair debaixo do viaduto, começar o passeio diário. O viaduto nem sempre é sua casa, mas sempre, quer dizer, no sempre do às vezes, o viaduto é seu palácio, a arquitetura que alguém parece ter te dado. Dado, não, emprestado. Lixeiras de bairro chique, comida quase não é estragada. Eu também como camarão; enquanto isso, as guerras são menos gafanhotos que um tipo de cupim, com todo o respeito e admiração pelos gafanhotos e cupins. Alguém dotado de pequenos poderes materiais pensa o que você pensa: você é a imagem, o recipiente plástico. Você nem sabe que ou se está lá. Mas você está, e o nome disso é insônia, teimosia, mal-entendido. Por exemplo. Um longo passeio a pé na parte da cidade em que transitar não é proibido, isso é sua 3×4, seu portfólio, endereço, código de barras, presente, futuro e, depois, passado. Uma das duas ou três certezas: a que diz e constata: “depois, passado”.

a vida e a louça

Acervo pessoal.

a vida

.

disse assim: nesse mundo nosso (?) de cada dia, a vida só se segura por acaso ou, óbvio, por dinheiro. A encrenca mundial de hoje continua sendo os bilionários de amanhã, mas eu continuo mesmo é devota de Iemanjá, chegue aí, que talvez a gente converse, ou bye-bye e boa sorte.

.

a louça

.

até agora não tendo sido

escrito algo sobre uma

mulher lavando louça

.

ela ou alguém seja

quem for lavando

louça

.

imagem-cliché,

tão a cara deste

mundo ainda: uma mulher lavando louça

.

outra imagem, viável,

seduz: a louça virou arma branca

na mão da mulher, que tal

.

louça tal-tal-tal:

recebe as receitas mais gostosas

e racha o couro do seu marido

.

a louça, líquida mesmo

depois de lavada e enxuta

.

(orides teria pensado

assim sem

precisar anotar),

.

a louça importa mais

enquanto está sendo

lavada do que depois disso

.

enquanto corre o

rio tímido da torneira:

a louça sendo esse rio,

a louça levada um pouco por ele;

por onde passa, esse rio

deixa um pouco da louça,

da água invisível que a louça solta

.

a louça suja

lembrando uma ordem

guardada em palavra ou costume:

a chatice de obedecer,

de lavar louça

.

alguma vez por um ou

dois segundos lavar

louça foi banho de rio sob o céu

.

ou o gosto de

viver sob a cachoeira daquela

esquina escondida:

água e pedra, louças mútuas

Acervo pessoal.

Resgate cultural e outros assuntos

Foto da internet

resgate cultural

.

o resgate

cultural mais

bem-sucedido da

história da

humanidade e dos

golfinhos e orcas:

.

quando ninguém parece

te amar exceto

a canção, algum

rumor de mundo, que

você escuta

nesse seu agora aí,

.

onde um

chão se afirma, mesmo

se você estiver

esquecida de precisar dele

.

pausa

.

a luz amarela, a

cor azul, a cor

.

verde, a pele,

seu subsolo quente,

.

a mão-dupla entre

quem veem, entre quem

.

escutam, as células que

sentem muito, a

.

mão invisível montada no

seu crânio, as

.

células que sentem

demais, as

.

antenas capturadas

pela cena, véspera

.

de um agir que

você pode adiar por hora até

.

quando?

.

a máquina coletora

.

Às vezes, De noite, Escuta-se (por exemplo: Num prédio alto abandonado, Uma mãe com três filhos) a máquina coletora de matéria orgânica passar ao longe de onde estamos/estão Ela fareja coisas mortas enterradas ou vivas escondidas: Plantas, bichos, adultos e crianças Captura todos Com aquele rumor motorizado e sons periódicos de um tipo de sirene, como um caminhão de lixo de antigamente, como no século XXI Para que ela coleta, Captura, Mata, Come matéria orgânica? Esse mundo é assim: ninguém que eu conheça (sobrou pouca gente) sabe a resposta, Mas os longos silêncios dos intervalos também são (além dos cochilos e orgasmos eventuais), Uma boa companhia, Estou/estamos falando sério

.

não, não

.

não é assim, não, vamos

parar com esses papos

.

estamos aqui, na

verdade (eu, pelo

menos), e essa é a

verdade, em um amoroso

apartamento de não

sei quantos muitos

metros quadrados, paredes e decoração claras, geladeira

felizmente prevenida

.

lá fora, deve estar tudo

bem com toda aquela

gente, tenho fé

Foto da internet

Foi assim!

Rabiscos relaxantes..conhece? - Soraia Casal
Desenho da internet

Eu ia publicar hoje minhas percepções em torno de um livro de Simone de Beauvoir, mas contratempos, esses tempos atravessados nessa confusão de tempos em contraste que cada um de nós é, contratempos me atrapalharam, então vou contar o sonho que uma aluna de Iguatu registrou na avaliação de uma disciplina ministrada por mim, fugindo totalmente do assunto solicitado, literatura realista brasileira, século XIX; então, como eu estava dizendo, a tal aluna sonhou com uma comunidade da qual ela fazia parte, uma comunidade composta por seres que não conseguiam definir o que eram, se humanos, animais, vegetais, minerais ou algo intermediário entre essas etiquetas, seres que se comunicavam sem falar ou talvez falassem e não se dessem conta e viviam numa caverna ou casa em um mundo, de resto, inóspito; indivíduos que não pareciam se alimentar, evacuar, interagir, gozar, sofrer com a solidão, com o ruído, com a tensão que pode anunciar, mesmo que com excessiva antecedência, tanto o êxtase quanto a extinção, ou nem nada disso. Apenas naquele lugar, naquela pequena área de um mundo mundo, vasto mundo, naquela casa/caverna, havia seres vivos, cercados por um planeta de matéria inanimada do que costumamos chamar vida, mas animada de alguma maneira, porque chuvas, poeira, variações de temperatura, descargas de eletricidade, atividade vulcânica e marés são modalidades do animado, mesmo se também do não-vivo. Concorda, Sabrina? No sonho, essa comunidade, com seus indivíduos sempre imóveis, ou cujo movimento nenhum deles identificava, nem de si, nem dos outros, a tal comunidade vivia ali, em seu isolamento do mundo fora da caverna ou casa, isolamento que, de certo modo, ainda era um tipo remoto de conexão, ou de expectativa, em relação ao fora. Isolamento exceto pelo fato decisivo de que alguém de vez em quando vinha visitá-los e passava um pouco de tempo junto a alguns deles ou delas, individualmente, um de cada vez, depois se ausentava por período indefinido. O alguém, assim como ocorria entre os membros daquela comunidade, cujo corpo ou aparência não podia ser percebida, esse alguém se aproximava dos indivíduos dali por algum tempo (dizia-lhes algo? Alimentava-os? Contava-lhes a verdade individual decisiva de cada um?) e isso lhes dava vitalidade ou lhes enfraquecia, tornando-os mais fortes (força como uma alegria inexplicável e inconsciente de viver, sem vestígio de motivo) ou chegando a matá-los desse jeito, só pela proximidade e, isso, de modo totalmente imprevisível. Quem era esse alguém? Naquele mundo a aluna de Iguatu não era mais ou por enquanto a aluna de Iguatu, mas um membro daquela comunidade, e ela não podia dizer com segurança que possuía esse alguém vitalizante e ao mesmo tempo mortal. Talvez não fosse visível. Provavelmente, não. Era alguém? Ela acreditava que era alguém. Ou não seria ninguém, e sim uma fatalidade sempre à espreita daqueles corpos em silenciosa ou inaudível assembleia? Era alguém, só podia ser, dizia-lhe um sentimento de esperança que lhe povoou o sonho, segundo relatou. Esse alguém seria algum dos membros da comunidade? Era ela mesma que fazia aquilo? Na prova, a prova que transformara em qualquer outra coisa que não uma prova de literatura brasileira, ela relatou que acreditava não ser ela o alguém de vida e morte, mas que não tinha certeza; e se ela fosse o tal alguém, mesmo sem saber disso? Acrescentou que, logo antes de acordar, pensou com melancolia e um ligeiro horror: mesmo que esse alguém não seja eu, de certo, modo eu/ela auxiliava aquele alguém e não tinha antes me/se dado conta do fato, auxiliava porque sabia do que estava acontecendo ali desde tempos muito antigos, ao passo que seus companheiros de casa/caverna talvez ignorassem isso que ela sabia, percebendo então que precisaria conseguir um jeito de dizer isso a eles, para que se posicionassem sobre a situação; melancolia e horror porque sabia que daquele momento em diante precisaria me/se posicionar e assumir uma responsabilidade quanto àquele alguém e aos companheires de comunidade. Mas subitamente ela acordou e teve que enfrentar outros problemas, outros dilemas, outros tesões. Ela então terminou o texto da “prova” citando as já meio ou quase totalmente esquecidas palavras cênicas de Lobsang Rampa, compartilhadas em contexto diferente pela Mara Maravilha: foi assim! Você deve estar curiosa, oso, para saber que nota a aluna recebeu por um relato desses; pois respondo que pensei muito, pensei em dar um zero, um dez, um sete e finalmente decidi pedir um trabalho extra por escrito e marquei uma data para recebê-lo, mas esse dia ainda não chegou.

O que é círculo? - Brasil Escola
Desenho da internet

Para Maria na lagoa e o entulho ao redor

O céu imperceptivelmente pendurado em si mesmo como sempre esteve poderia até cair e esmagar a lagoa e seus arredores Mas visto de tão longe parece mesmo é estar às vezes prestes a se soltar das cordas que o domam e flutuar se afastando até desaparecer dentro de outro céu mais largo e sem cor definida Uma inespera Uma desespera Uma extravia Como quando um dia vacas de rua entraram pelo portão aberto na casa de uma parente rica onde uma criança pobre estava passando algum feriado ou finde semana Depois as vacas foram embora Eu gostei da presença das vacas Vi da janela Queria que ficassem morando conosco embora eu sequer morasse ali Eu tinha três ou quatro anos de idade Tinha grama no pequeno terreno entre o portão e a casa Elas comeram a grama e foram embora Eu fiquei triste porque foram Supôs que elas pudessem ter gostado dele mesmo sem tê-lo visto O que provavelmente não quer nem deveria querer dizer nada Sentimentos do inimigo não pagam a carne dos nossos parentes mortos Mas Maria Maria minha amiga (nunca trocamos uma palavra Mas a considero minha amiga) Maria mendiga de cabelo enrolado dando voltas em torno da lagoa do Porangabuçu Não pelo objetivo de perder peso ou ganhar o que supostamente ganham os espécimes de classe média que circulam por ali Mas pelo gosto de caminhar sentindo talvez uma alegria sem par Desnecessária Inevitável Não como quem descobre o sentido da vida Mas como quem nunca vai precisar descobrir Aquela alegria da carência Que só escolhe poucos Alegria tão incontestável Tão capitalizável Alegria sem ter Quase sem ser Estar viva diante de nada Dessa tontura chamada tudo Estar viva puramente diante de si mesma Só por estar viva sem ter nada pra comemorar mas por respirar e caminhar rápido Podendo correr ou voar pra dentro de um buraco no chão (e são muitos e enormes os buracos no chão ou no teto São quase a mesma coisa) Enquanto que em uma sapientíssima quase indiferença aos caminhantes humanos ao redor da lagoa garças brancas ou baças voam ao entardecer pra fora da lagoa Rumo aos prédios ou casas ao redor da lagoa pelos poros da pele urbana ao redor da lagoa Como quem pisca os olhos em bando e assim insinua que tem um segredo que não vai ser revelado Garças rumo à pele urbana manchada de casas Prédios Negócios Bizinês Trambelhos Destrambelhos Sucata nova em folha Filhas da puta e/ou do puto Endividamentos sem fraude ou por fraude Mas o endividamento sem fraude já traz embutida sua pitada de fraude E mais Atravessando fraudes e outros quase nadas Sons misturados da natureza Sons mestiços da urbanidade Sons peristálticos da vida muda Os robôs que provavelmente um dia assumirão conduta humana vão se drogar e ser deslumbrados pelo poder Hedonistas Enquanto muito antes disso vc sente uma vontade quase irresistível de ser levado(a) pela onda Pelo bueiro Não se culpe Isso não quer dizer quase nada Mas por um motivo qualquer vc recusa no último instante Vc quer sobreviver Não que isso seja melhor ou faça alguma diferença Mesmo que gostem tanto de quem quer viver Dizem que querer viver e não querer são coisas parecidas Vontades Aliás Gestos Trejeitos Mas também vc sentiu E a Maria dando voltas na lagoa sentiu vontade de continuar viva Vivas Vivos Piscos Silvos Salvos Logaritmos Gente junta de algum jeito à noite Um bando de mulheres posando pra fotos e outro bando de mulheres vivas posando pra foto nenhuma Então não reza mais pra Deus Não Mas pra Deusa Pras Deusas pras Plantas pras Pedras pras Merdas Pra quem nunca foi ou nunca será ajudado(a) pela tua precisa mão Deus virou mulher Mudou de sexo Como rã na seca Como morto ressuscitado em filme pra toda a família Deus é um sapo-cururu Lamento avisar Mas não lamento nem um pouco Foi mal Bacurau A amiga cega que vê mais do que teus olhos retinosos conseguem ver Teus olhos retinosos vendo só o que cutuca teu nariz Porra E plurilhões de coisas mais Ou menos importantes acontecendo no mundo arredor em lugares tão longe Onde cacos de nação misturados viram comprimidos pelo agora Mas o pensamento sério e importante Supondo que seja sério e importante Escorre da palavra ou nunca é nela presença garantida E tudo bem ou tudo mal Já que a política começa ou termina desde a pessoa mais desprevenida ou mesmo desde aquela pedrinha que ninguém vê Embora a mera pedrinha já seja bem mais que uma questão de política Um hoje pior que o previsto em todas as profecias desde antigamente E enquanto isso Antes ou Enquanto Quase a mesma coisa o vírus Quer dizer A poeira Sempre se antecipando ou vindo depois Sempre por perto Na sombra Como na sombra debaixo de um teto de folhas de uma árvore bem copada no Nordeste as pessoas ficam à sombra do sol Sombra verde e luz tbm Mas menos agressiva que o sol cutucando a pele diretamente Mas no chão sob a copa da árvore tem muitas folhas caídas e por entre elas aranhas Escorpiões Formigas Lacraias e outros povos As pessoas querem a sombra da árvore Mas não querem conviver com aranhas Escorpiões Formigas Lacraias e outros povos Moral da História Ou seja A ordem é Cortem a porra da árvore Matem os inúteis Mas se puder em segredo Se não puder É a vida E não se engane nem por descanso Quase todas as pessoas são inúteis Desúteis Que nem vc e eu Vamos brincar de ser desúteis juntes por favor Por amor Por sei lá Por mais Ou menos Conseguir um pelo menos Alguma obsessão Ou menos E aquela velha obsessão humana por robôs Inteligências redundantemente artificiais que sabem que são superiores a nós ou se sentem assim Por isso nos menosprezam e querem mesmo nos encerrar Embora a maioria deles prefira nos ignorar A espécie humana precisaria mudar Praticar novos padrões Para ser admirada pelas inteligências artificiais que gostaria de criar Engraçado como as inteligências artificiais nascidas em nossas historinhas dentro e fora do papel quase mandam em nós E isso ainda é uma saúde Somos uma casa delas Enquanto quem nos domina pra valer nem diz nada ou diz baixo o que precisa dentro desse tipo de língua Quer dizer De sonho chamado realidade E se ainda der vontade de lembrar Tem alguém por aí puxando as nossas cordas e concedendo gentilmente mais um lixinho pra cutucar nossos narizes retinosos Mas boas festas e feliz ano novo!

Gayatri Chakravorty Spivak: Pode o subalterno falar? (3)

Pode o subalterno falar? Pode falar a mulher subalterna, a mulher residente em países e culturas na periferia do capitalismo globalizado e de sua ainda divisão internacional do trabalho? Gayatri Chakravorty Spivak (1942), em seu livro homônimo, de 1985, propõe cuidado ao tentar responder essas questões, mas sua escrita é de qualquer modo o gesto de debatê-las, no contexto do suicídio ritual de mulheres na índia colonial como exemplo de ocultamento do corpo e silenciamento de voz no universo feminino subalterno. Ao longo da discussão, ela também apresenta algumas perspectivas teóricas metodológicas de uma coletividade de estudiosos indianos conhecida como Grupo de Estudos Subalternos, da qual parcialmente se desenvolveu a perspectiva conhecida como “pós-colonial” nas ciências humanas, a partir do final da década de 1970.

“Para o ‘verdadeiro’ grupo subalterno, cuja identidade é a sua diferença, pode-se afirmar que não há nenhum sujeito subalterno irrepresentável que possa saber e falar por si mesmo. A solução do intelectual não é a de se abster da representação. O problema é que o itinerário do sujeito não foi traçado de maneira a oferecer um objeto de sedução ao intelectual representante. Na linguagem um tanto arcaica do grupo indiano [de estudos subalternos], a questão que se apresenta é: como podemos tocar a consciência do povo, mesmo enquanto investigamos sua política? Com que voz-consciência o subalterno pode falar? Seu projeto, afinal, é o de reescrever o desenvolvimento da consciência da nação indiana” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Gayatri critica o afastamento de filósofos franceses, Michel Foucault e Gilles Deleuze, dos conceitos marxistas de dialética e ideologia, bem como da perspectiva especificamente econômica, na crítica ao capitalismo, que eles praticaram. Esses questionamentos não intentam negar a contribuição ao pensamento em épocas recentes pelos autores mencionados, mas a sugerir que categorias conceituais não focadas por eles podem ser as mais urgentes para uma discussão em torno da questão difícil sobre como e se pessoas subalternas, especialmente mulheres, podem ter voz e representatividade políticas relevantes, produtivas, no panorama dos circuitos e torniquetes da subalternização econômica e social mundo afora.

“Quando passamos à questão concomitante da consciência do subalterno, a noção daquilo que o trabalho não pode dizer se torna importante. Na semiose do texto social, as elaborações de insurgência permanecem no lugar da ‘declaração’. O emissor – ‘o camponês’ – está marcado apenas como um indicador de uma consciência irrecuperável. Quanto ao receptor, devemos perguntar quem é ‘o real receptor’ de uma ‘insurgência’? O historiador, transformando a ‘insurgência’ em um ‘texto para o conhecimento’, é apenas um ‘receptor’ de qualquer ato social pretendido coletivamente. Sem qualquer possibilidade de nostalgia pela origem perdida, o historiador deve suspender (tanto quanto possível) o clamor de sua própria consciência (ou consciência-efeito, como sendo operada pelo treinamento disciplinar). Para que a elaboração da insurgência, empacotada em uma consciência-insurgente, não se congele em um ‘objeto de investigação’ ou, pior ainda, em um modelo de imitação. ‘O sujeito’, inferido pelos textos de insurgência, pode servir apenas como uma contrapossibilidade para as sanções narrativas conferidas ao sujeito colonial nos grupos dominantes. Os intelectuais pós-colonialistas aprendem que seu privilégio é sua perda. Nisso, eles são um paradigma dos intelectuais” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar? Grifos da autora).

Para Gayatri, a mulher subalterna é duplamente silenciada e ocultada frente ao imperialismo e a episteme (o conhecimento racional e científico no Ocidente): por ser subalterna, residente em uma área periférica da hierarquia capitalista mundial, e por ser mulher, em uma sociedade patriarcal de longa idade. Como será enfatizado a seguir, essa mulher é alvo de disputas ideológicas tanto pelo ponto de vista de hábitos nativos como do oportunismo colonizador, sendo útil a seus confrontos ao longo da história e em nenhum dos casos tendo uma voz ou uma performance corporal que vislumbre de fato interesses que poderiam ser considerados como parte de uma agenda coletiva de classe para mulheres subalternas (no caso, a ser desenvolvida por elas mesmas).

“É bem conhecido que a noção do feminino (mais do que a do subalterno do imperialismo) foi usada de maneira semelhante na crítica desconstrucionista e em certas variedades da crítica feminista. No caso anterior, uma imagem da ‘mulher’ está em questão – uma imagem cuja predicação mínima como algo indeterminado já está disponível para a tradição falocêntrica. A historiografia subalterna traz à tona questões de método que a impediriam de usar tal artifício. Com respeito à ‘imagem’ da mulher, a relação entre a mulher e o silêncio pode ser assinalada pelas próprias mulheres; as diferenças de raça e de classe estão incluídas nessa acusação. A historiografia subalterna deve confrontar a impossibilidade de tais gestos. A restrita violência epistêmica do imperialismo nos dá uma alegoria imperfeita da violência geral que é a possibilidade de uma episteme. No contexto do itinerário obliterado do sujeito subalterno, o caminho da diferença sexual é duplamente obliterado. A questão não é a da participação feminina na insurgência ou das regras básicas da divisão sexual do trabalho, pois, em ambos os casos, há ‘provas’. É mais uma questão de que, apesar de ambos serem objetos da historiografia colonialista e sujeitos da insurgência, a construção ideológica de gênero mantém a dominação masculina. Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Gayatri Chakravorty Spivak and Liah Greenfeld Confirmed as Plenary Speakers  for the 2020 IPSA World Congress | IPSA
Gayatri Chakravorty Spivak. Foto da internet.

O foco do ensaio de Gayatri, seu “estudo de caso”, é uma disputa de visões sobre suicídios rituais de viúvas no momento da cremação pública do cadáver de seus maridos. Considerava-se um ato de honra que a viúva se deitasse sobre a fogueira funerária e assim partilhasse do destino do esposo. Sabe-se entretanto que em muitos casos, devido ao interesse em herdar os bens do morto pelos familiares, elas eram praticamente pressionadas a esse gesto. Em 1829, o sacrifício de viúvas é oficialmente proibido pela lei imposta pela autoridade colonial britânica (a Índia, como se sabe, foi gradualmente capturada pelo domínio inglês desde pelo menos o século XVIII, o que se manteve até a metade do século XX). Gayatri discute então como essa proibição representou uma propaganda positiva do domínio imperial britânico e do capitalismo colonial no século XIX, como se os bondosos homens brancos ingleses estivessem simplesmente salvando mulheres indefesas diante de um costume questionável: o problema não era a legitimidade dessa compreensão (“Obviamente não estou advogando a matança de viúvas”, diz Gayatri), mas o fato assinalado por ela de que, no transcurso entre o costume hindu e a lei “moderna”, a fala e a visão da mulher sobre seu corpo sempre se mantiveram silenciadas por discursos masculinos que decidiam e interpretavam, sem lhes dar de fato escolha ou fala, o que elas podiam ou deviam fazer.

“A viúva hindu sobe à pira funerária do marido morto e imola-se sobre ela. Esse é o sacrifício da viúva- a transcrição convencional da palavra sânscrita para a viúva seria sati. Os primeiros colonos britânicos a transcreveram como suttee. O ritual não era praticado universalmente e não era relegado a uma casta ou classe. A abolição desse ritual pelos britânicos foi geralmente compreendida como um caso de ‘homens brancos salvando mulheres de pele escura de homens de pele escura’. As mulheres brancas – desde os registros missionários britânicos do século 19 até Mary Daly – não produziram uma interpretação alternativa. Em oposição a essa visão está o argumento indiano nativo – uma paródia da nostalgia pelas origens perdidas: ‘As mulheres realmente queriam morrer.’ As duas sentenças vão longe na tentativa de legitimar uma à outra. Nunca se encontra o testemunho da yoz-consciência das mulheres. Tal testemunho não seria ideológico transcendente ou ‘totalmente’ subjetivo, é claro, mas teria constituído os ingredientes para se produzir uma contrassentença. Ao passar os olhos pelos nomes grotescamente maltranscritos dessas mulheres – as viúvas sacrificadas – nos relatos policiais incluídos nos registras da Companhia das Índias Orientais, não se pode destacar – uma ‘voz’. O máximo que se pode notar é a imensa heterogeneidade que atravessa um relato tão esquelético e ignorante (castas, por exemplo, são normalmente descritas como tribos). Diante de sentenças dialeticamente entrelaçadas que podem ser construídas como ‘homens brancos estão salvando mulheres de pele escura de homens de pele escura’ e ‘as mulheres queriam morrer’, a mulher intelectual pós-colonial faz uma pergunta de simples semiose – o que significa isso? – e começa a traçar uma história” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Como um contraponto de significado e gesto político ao sati, o suicídio ritual de viúvas na Índia, Gayatri relata, no encerramento de seu livro, o caso de Bhuvaneswari Bhaduri, adolescente que participava de um movimento de luta armada para a libertação nacional indiana durante a década de 1920. Ela havia sido encarregada de cometer um assassinato político; incapacitada para fazê-lo por motivo hoje desconhecido, enforcou-se. Certos casos de suicídio feminino no país se motivavam por uma ideia de desonra devido a uma gravidez fora do casamento. Assim, parentes e próximo à jovem, em registros colhidos na época, alegaram abandono de noivo ou coisa do tipo. Gayatri, entretanto, detalha que a garota tirou a própria vida durante a menstruação, o que era rigidamente proibido em qualquer ritual de suicídio feminino na Índia, e enfatiza nisso uma intenção: a de deixar claro que seu ato não era símbolo do arbítrio masculino sobre seu corpo, mas de sua liberdade, limitada, silenciada e ocultada que fosse, de ter uma atuação política pertinente, ao mesmo tempo, à sua condição feminina e a seu repúdio ao colonialismo. A forte possibilidade de que Bhuvaneswari tenha se matado como forma de concretizar o assassinato político que lhe cabia é legível como um contraponto irônico, dialético, paródico, crítico, à falta de voz e decisão da mulher indiana, por mais que não tenha sido assim; por mais que as versões habituais daquela narrativa, embebidas no sólido patriarcalismo indiano, não aceitassem essa interpretação insurgente.

“Nessa leitura, o suicídio de Bhuvaneswari Bhaduri é uma reescrita subalterna, ad hoc, não empática, do texto social do suicídio sati tanto quanto o é o relato hegemônico da resplandecente, lutadora e familiar Durga [deusa que, na mitologia hindu, suicida-se em protesto ao assassinato do marido]. As possibilidades discordantes que emergem desse relato hegemônico da mãe lutadora estão bem documentadas e são popularmente bem lembradas pelo discurso dos líderes e participantes masculinos do movimento pela independência. O subalterno como um sujeito feminino não pode ser ouvido ou lido. […] O subalterno não pode falar. Não há valor algum atribuído à ‘mulher’ como um item respeitoso nas listas de prioridades globais. A representação não definhou. A mulher intelectual como urna intelectual tem uma tarefa circunscrita que ela não deve rejeitar com um floreio (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?)”.