Um dia por Vez

Por Roberta Bonfim

Já faz tempo que nem lembro bem, mas a mim parece sempre que foi ontem que toda essa brincadeira começou a partir desse desejo crescente de mundo. De conhecer lugares tangíveis e intangíveis. Demorei a me entender como bicho, e um pouco mais como lugar, e só agora venho percebendo que não passamos de grão de areia que podem voar. Então, alcemos vôo rumo aos afetos honestos, e ao desejo por uma caminhada em que a prática ande de mãos dadas com os discursos. O oposto a esse exercício, hoje, me parece hipocrisia.

Na semana tivemos nossa primeira atividade no Poço da Draga e iniciamos em um dia mágico e especial. Dia que iniciou a construção da Composta Comunitária do Poço, um projeto do qual amamos e somos parceiros. Neste dia também conversamos com a maravilhosa Izabel Lima (ONG VelauMar), com Ruan, filho do artista multi Robinho, e também com moradores desse lugar de tantos artistas. E com João, responsável por essa ação.

HOJE AS 18:30 vai rolar a inauguração, bora lá?

Conseguimos mandar os computadores ao conserto e trabalhamos nos detalhes internos, ao tempo que desenvolvemos e compartilhamos planejamentos para o futuro. Lorena tá aqui montando no lambe de fotos que narram nossa história, tá ficando tão lindo. Essa semana vamos trazer nossa cadeira amarela para deixar nossa salinha ainda mais a nossa cara.

E por falar nas obras de Lores, você já viu nosso calendário lindo de bonito? Adquirindo o seu você colabora com ações no Poço da Draga – só falar com a gente no direct do instagram.

Quem também tá dando show é Martinha, com seus convidados mágicos. Na última sexta, Ana e Carri só nos encantam e ensinam ao lado dessa ArteVista tão querida.

Estamos organizando mais novidades, fica ligade, acreditamos que você curtir.

Seguir.

Por Flor Amarela

Sabe aqueles sentimentos que te impulsionam para frente, mesmo quando teu corpo quer parar? Ou ainda aquele pensamento que te faz parar, mesmo quando você sabe com absoluta certeza que o melhor é seguir? São ambos amigos próximos, com quem se convive todos os dias. Quantas vezes quis fazer algo, construir alguma coisa, escrever, ler, viver e mesmo sabendo que era preciso continuar e fazer valer, não tinha forças psíquicas para seguir, ao contrário voltava ao estado de repouso e comodismo. Parece cruel quando escrevo, mas é ainda pior quando se percebe sendo, fazendo, deixando de viver o que deveria ser vivido. E quando falo isso, nem falo das obrigações sociais, falo das necessidades do ser ainda humano que sou. E quando meu corpo padece, implora repouso e eu simplesmente não consigo desacelerar, privando-o do descanso merecido. Banho, meditação, chazinho e bons pensamentos… Nada parece funcionar então me deixo levar pela situação.
Busco meu equilíbrio, o controle em busca da simetria dos meus sentimentos, busco o meio termo dos meus sentimentos e essa busca rotou-se uma estrada comprida, onde seu percurso eu trilho absolutamente sozinha, com meus anseios, dúvidas, medos. Se tenho minhas dúvidas por ser humana, demasiada humana, quem não é? Quem não se questiona sobre si, o universo em que vive. O que faz de um terapeuta um conhecedor da mente humana? Ele pensa mais que os demais, seu cérebro é diferente? Pois por mais que saibamos teoricamente o como proceder, estamos todos absolutamente vulneráveis ao momento, sentimentos, sensações, pessoas, somos vulneráveis a nós mesmos. Quem de fato se conhece?
Eu mudo de gosto, de idéia e de opinião de acordo com o que aprendo, vivo e vejo. Mas quem me ensinou a ser assim? O que nos difere tanto? E o que nos faz tão iguais? Estamos cada um com pensamentos tão nossos, que não sabemos o que pensamos uns aos outros. Será que todos de fato são assim, ou serei eu com meus pensamentos tão meus que sigo em frente, sem saber se alguém trilha comigo os mesmos caminhos e porque os que aqui estão, os são.

A caminhada é linda

Por Roberta Bonfim

O ano virou e se movimentou, mudou a maré, os rumos dos ventos ao tempo que tudo segue no caminho. É que aqui escrevemos a história vivendo, tipo novela, uma obra aberta e repleta de boas surpresas no caminho. 

Se você nos acompanha pelas redes sociais, tá sabendo que estamos dentro de uma salinha roxa paixão incrível, onde teremos muito a trabalhar para realizar, pelo nosso querido Poço da Draga. Estamos ajeitando ela toda com muito carinho, para logo que a vida deixar,vamos amar te receber para pensarmos caminhos juntos com arte e afeto, sempre.

Enquanto organizamos a sala, organizamos também as demandas e prioridades, além da nossa grade de programação do canal que está ficando cada dia mais linda.

E se quer se certificar chega junto na sexta às 19 horas, que Marta Aurélia tá dando show e convidando ArteVistas especiais, na última sexta foi Bené Fonteles, e na próxima teremos Carri Costa.

No sábado tivemos programa de Ivina Passos, onde fomos nos os ArteVistas convidados para construção desse plano mental e foi lindo, por tudo, mas especialmente por ser Ivina.

E seguimos com a venda dos calendários, agora temos bem poucos, então se tiver interesse, pede o seu já no direct do instagram.

No mais, até logo menos, com mais arte, amor e afeto.

“ano passado morri, mas, esse ano eu não morro”

Por Roberta Bonfim

O ano acaba daqui dois dias, e o que isso muda de fato, além do 1 no lugar do 0 final do descritivo. Ao que se refere o tempo? Ele que passa sem nos deixar mais tempo que o preciso para tomadas rápidas de atitude. E não sei vocês, mas eu tomei muitas decisões este ano. Abri mão de coisas e abracei outras com uma força que eu nem supunha ter.

Começar a aceitar que minha história é o que tenho e o que me constitui e que se existiram cenas que exigiam mais, também foram elas fortalecedoras. E não foi nem de longe um ano fácil, mas pessoalmente (individualmente) foi longe de ser o mais difícil em que vivi. 

Neste ano, todes em casa celebramos pela primeira vez a existência desse lugar que no ano que vem que é depois de depois de amanhã, completará 9 anos. E como gravamos já a próxima temporada, de certo existiremos. E isso me alegra.

Quando todos os planos foram suspensos em março, pensei que seria o fim e dai renascemos, ouvi tantos incríveis que disseram carinhos. Ouvi, vi, vivi percepções que me mataram em algum lugar. Experimentei o sentimento de traição, de crer profundamente e ser traída, a ausência de solo é quase física. Mas, também vivi entrar no mestrado, ouvir eu te amo várias vezes ao dia, algumas seguidas de fortes abraços e poder dizer com toda leveza de amar – eu também te amo. Senti o aquecer do coração quando pude retornar ao Poço da draga e viver encontros. Entendi no erro, que o barato às vezes pode sair muito caro, e que ouvir a intuição é mais leve e prático, do que especular sobre caminhos e possibilidades. E assim venho me aceitando espontânea, e para tanto buscando me nutrir de lindezas com os ArteVistas com os quais trocamos. E neste ano realizamos uma live de 10 horas e outra de 8, e eu toda trabalhada na corona. Este ano, o que firmamos lá atrás começa a ganhar corpo e mais uma vez reconheço e agradeço pelos processos. Gosto mais deles as vezes do que se concebe de fato, por isso me frustro quando o processo teima em pensar, pois gosto mesmo é de brincar com responsabilidade. Mas, seguindo Zeca Baleiro, ˜eu demiti o meu patrão”. 

Este blog vem se tornando um lugar cada vez mais lindo e estou certa que logo menos terá respiração própria. E como chega 2021, aviso com profunda alegria que conseguimos depois de 5 anos realizar a construção de um calendário, onde as fotos foram feitas por Jether Junior, Lorena Armond que generosamente deixaram entrar umas fotinhas minhas. Grata! Com 99% das fotos no Poço da Draga resolvemos entregar aos que fazem parte do calendário, de modo que só ficamos com 15 pra venda. Se tiver interesse, fala com a gente no privador do instagram.

Que 2021 possa ser uma explosão de arte e afeto onde estivermos.

Estou exausta, mas estou feliz… apesar dos perigos seguimos vivos e entraremos 2021 cantando. Ano passado eu morri, mas, esse ano eu não morro.

No corpo de uma mulher que foi mutilada virgem

Por Katiana Monteiro

Minha amiga confidente e Dinda de meu Namir, Roberta Bonfim, me desafiou a falar da maternidade. Eu, que no dia 11 de fevereiro de 2021, completo uma década como mãe. 

Até hoje ainda me surpreendo com a indagação. – Eu sou mãe? 

O nome soa tão doce e ao mesmo tempo carrega um peso de chumbo. 

Namir não foi planejado como tudo na minha vida, Mas, por ser contra ao uso da pílula no meu corpo e por ter cedido as vontades de quem me prometia amor. Ele veio, no corpo de uma mulher que foi mutilada virgem, um ovário lhe foi tirado quando tinha apenas 18 anos.  Era eu, ou o ovário. A  vida por um fio.O outro era valente com seus policísticos impetuosos. E, aos 30 me trouxe Namir. 

Juro que quando peguei o exame perdi o chão. Fui tomada por um medo tão grande, afinal apesar de estar na idade da maturidade, eu era ainda meninona no corpo de uma mulher. E pensei, com todos os limites que eu acreditava que meu corpo  tinha, ele  está aqui no ventre, porque era pra ser meu. Encontrei na minha família paterna o alicerce. 

Como é bom ouvir: 

Pode contar comigo. 

Eu

mulher grávida,

 grávida de vida.

Tive a gravidez mais louca e saudável que uma mulher poderia suportar. O abandono, a vida como animadora de um park Aquático, muitos zombavam da palhaça grávida e os puros de coração se encantavam, uma turnê com um espetáculo, dois meses, subindo e descendo avião, de cidade em cidade, uma paixão avassaladora por um carioca. E um segundo abandono. 

Mas a nega aqui, estava firme e forte para dar luz ao seu menino. Que veio de baixo de um dilúvio, o céu de Fortaleza trovoava e o clarão dos raios tomava conta da enfermaria. Nasceu meu Luiz Namir, um ser tão grandioso, de espírito tão sábio que todos os dias me ensina a viver.

Katiana Monteiro – atriz, pedagoga, mãe do Namir e tanto mais.

E o amanhã ??

Por Douglas Miranda

Quem nunca quis saber o futuro? Talvez ir a uma cartomante para descobrir se vai conhecer o amor da sua vida, ou quem sabe ser promovido no trabalho… Vai dizer que não é tentador? Mesmo os mais céticos não escapam das previsões do futuro, afinal, até aquele jornal que você assiste todas as noites faz questão de tentar prever o que vai acontecer: será que vou precisar levar guarda-chuva amanhã? Ou talvez um casaco…
De uma maneira ou de outra o futuro é algo que nos desperta interesse. Talvez pelo mistério de não sabermos o que vem pela frente, talvez pela magia de podermos fazer dele tudo que imaginarmos. A espera por esse tempo que parece tão certo molda nossas ações, nossos planos, nossos desejos.


Preciso economizar dinheiro para ter uma velhice confortável…”
“Pretendo me casar por volta dos 30, o primeiro filho com 33 e o segundo com 36…”
“Vamos esperar o dólar baixar para ir à Disney, ok? Ano que vem já melhora…”.


O futuro está sempre lá, se aproximando, e nós estamos sempre aqui, aguardando sua chegada ou imaginando como será. O problema é justamente esse: aguardar e imaginar enquanto ele pode nem chegar. Diferente do que pensamos, o futuro é incerto, e deixar tudo para depois não é a melhor saída. A única certeza é o hoje, o agora, o já, e ele deve ser encarado como se não houvesse amanhã – afinal ele pode realmente não existir.
Ainda assim, as preocupações com um tempo que está por vir não cessam em nossas cabeças. São pessoas buscando a fonte da juventude de um lado, cartomantes sendo consultadas de outro. Preocupações com o futuro da crise e com a situação do mercado também são frequentes. “Será que as previsões econômicas tem alguma lógica de fundamento?”.
O imaginário não para no que vai acontecer amanhã, dentro de poucos anos ou quando estivermos velhinhos. É possível também imaginar as relações em um futuro bem mais distante, com os homens se tornando cada vez mais parecidos com máquinas e se esquecendo das relações pessoais. O futuro pode estar se transformando em uma distopia..

O Tesão está no ar…

Por Ana Argentina Castro

“Acho um pouco íntimo, mas preciso de informações kkkk. Como tu fez para sair com teu namorado atual e manter relações sexuais nessa pandemia!?”

 Com a devida autorização, o fragmento acima faz parte de um diálogo, as sete da manhã, no meu caminho para o trabalho, com uma jovem amiga. Mensagens indo e vindo (risos também) e, lá no fundo, o que permeou meu juízo foi o seguinte pensamento: Eles já nos matam tanto, vale à pena correr o risco em dar de cara com o Covid-19 que, muito provavelmente, habita as entranhas do cheiro único e incomparável de desinfetante de quarto de motel?

Com vibrador debaixo do travesseiro (para não ter preguiça de levantar e pegar no escondido dos armários), com a vitoriosa consciência do poder da masturbnação feminina e da “liberdade” de fazer bom uso, por que diabos essa demoníaca necessidade de beijar e ser beijada, tocar e ser tocada não pode ser menor que a nossa insana coragem de se aventurar nos braços de um ou mais crush que, insistentemente, nos quer fazer comer a maçã do “paraíso? Depois, culpam a Eva…

Enquanto isso, a nossa Lilith, afrontosa que só ela, segue tentada, mas se aconselhando com a amigas que, ironicamente, depois de alguns anos solteira, inventou de engatar um namoro em plena pandemia de Corona Virus, Covid-19. O coração tem rações que até a presença do Covid, desconhece. 

Certo é que, com ou sem Covid, ainda somos afeitas ao amor, ao sexo, aos gemidos, líquidos, suor, ao contato mais íntimo de nossos corpos com outros corpos. 

Talvez (e apesar das situações de violência doméstica terem aumentado drasticamente), para alguns, nunca foi tão bom ter um amor pra chamar de seu como agora, nessa pandemia. Sabe como é aquela coisa de querer provar do proibido. Quanto mais isolamento, mais desejo, mais tesão? Pois é! 

Nessa pandemia há quem foi pedida em casamento por homem que nunca  beijou, ex de amigas mostrando as unhas e, assim, caminha a ala “homice”da humanidade. 

É bom demais ter um amor pra chamar de seu! Porém, bem melhor é ter saúde pra chamar de sua e, paz de espírito, para dar uma apimentada. Cuidemo-nos mulheres! Eles estão com a corda toda e, não poupam esforços para a manutenção de suas realidades sexuais. Claro que, em toda regra, há exeção! E não vou me deixar levar por pensamento generalista onde todos podem ser categorizados como farinha do mesmo saco. Ou não? Bom, só nós, mulheres, sabemos como essas coisas se dão na ordem do  dia a dia dos assédios aos nossos corpos.    

Aqui com meus botões, penso que não vale à pena o risco, mas se você nao resistir e quiser, eu não lhe julgo e lhe apoio. Afinal, se o nosso querer é sagrado, o corpo é nosso e as regras também, saberemos tomar a melhor decisão. Mas nunca é demais lembrar que entre nosso corpo e o do outro(a) há o espaço para o bom senso. O importante é a sua, a minha, a nossa saúde. Afinal, sem saúde, nenhum corpo é capaz de gozar! Gozemos! E seja lá de que forma for, álcool em gel e uso de máscara não tem feito mal para ninguém. Tô rindo, mas é de nervoso!

Sou Ana Argentina Castro canceriana com ascendente em áries afinal, a gente também precisa ser de ferro!
Gosto de escrever poesia, contos, crônicas.
Escrever é como sentir o ar voltando depois de uma crise asmática que nunca tive.
Vivo em companhia do meu cãopanheiro Marley. Gosto mais de cachorro que de gente. Família é meu céu e meu inferno.
Amo demais, nunca de menos. Isso é péssimo.
Tô tentando manter o humor na vida, mas tá puxado. Gosto dos meus olhos e sorriso, mas mais ainda da minha personalidade e coração sensível. Pari a Biblioteca Comunitária Papoco de Ideias, mas crio ela com a família e amigos.

XIRÊ é grande e a gira não para… Nossos passos vêm de longe.

Por Coletivo Abayomi

Pensar em 2020 é pensar num ano onde tudo foi – e ainda está – muito atípico, ano de tensões e crises do macro ao micro nas várias áreas, nos vimos confinados em nossas casas tendo de reaprender a fazer tudo, reorganizar o tempo de fazer as coisas. Nunca estivemos tão virtualmente conectados quanto estamos agora, enquanto assistimos à vida se tornar ainda mais permeada pelas funções digitais do fazer e conviver. Embora essa virtualização do cotidiano pareça ser “o novo normal”, 2020 também nos apresentou um grande desafio: é preciso reumanizar a vida, visto que emergi então o que nunca foi sutil ou oculto, o racismo e as desigualdades

Transbordam diante dos olhos negacionistas o sistema colonial com “up” do século XXI; camaleônico, o racismo (estrutural e institucional) cotidianamente não tira o pé de nossas gargantas, porém mal sabem eles que nossos corpos não são de luto e sim o primeiro território de lutas, que somos imbuídos de valores e práticas que compreendem a conduta social e política, vivências que perpassam nosso modo de ser, fazer e interagir com o outro e com a natureza. 

Dessa forma, enquanto pessoas pretas, reumanizar a vida parece meio redundante, afinal, lutamos pela humanização e desobjetificação dos nossos corpos “carne mais barata do mercado” há alguns séculos, mas no caso do Coletivo Abayomi, foi neste ano, em meio a esta pandemia, que coletivamente encontramos um sul epistêmico para nos conduzir artística, ética e politicamente nesta ação proprioceptiva de reumanização da vida, a africanização do olhar.

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Nosso movimento é ancestral, demarca e estabelece espaços criativos que expressam como somos e sentimos o mundo. Pensar a circularidade da vida, onde tudo é começo-meio-começo, nos ajuda a mensurar que cada etapa dela, cada encontro, felicidade e infortúnio, faz parte de um ciclo eterno de aprendizagem, onde o caminho percorrido é mais importante que o objetivo final. Donos de uma musicalidade que lhe é própria, esses saberes cantam, dançam, são contados, recontados, vividos e teatralizados na luta pelo legado do encantamento inerente à gramática corporal mantenedora da energia vital. Com a estratégia de nos ensinar fazendo, percebemos de maneira lúdica que a vida é cíclica. 

A África é o berço da humanidade e neste espaço/tempo nasceram diversas civilizações, que por sua vez, desenvolveram variadas tecnologias, valores civilizatórios, modos de estar no mundo, que, apesar do imenso esforço para seu apagamento, resistiram ao tempo e aqui, nos vários territórios da diáspora, se reinventaram e ressignificaram. Somos descendentes dos pioneiros, comprometidos da pele ao coração com a força vital que nada deixa estático.

Algumas das cosmologias africanas apontam a circularidade como uma metodologia social e filosófica que potencializa  as trocas, a sensibilidade, o entendimento do individual/coletivo e a expansão. Nossa produção intelectual e artística é correlacionada com nossa ética e estética. Sabemos muito antes dos registros em livros que a arte é um instrumento potente, entendemos seu poder dinamizador na preservação da memória de um povo, na (re)construção de si, no despertar crítico de consciência, no questionamento dos padrões e narrativas que ainda não nos contemplam, na emancipação do povo preto e enquanto dispositivo de luta anti genocídio e antirracismo da população negra. 

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São por estes motivos que apesar de todas as adversidades deste ano, nos aquilombamos em um terreiro digital, fizemos de nossa arte plataforma para corporificar, expandir e compartilhar os saberes, memórias, vozes, vidas e signos africanos e afrodiaspóricos,  não apenas em números e estatísticas de engajamento nas redes sociais, mas projetando e viabilizando encontros precisos – e preciosos – através da afrocentricidade. 

Desejamos construir um futuro honroso, digno e pleno aos nossos que virão. É nessa gira que os saberes ancestrais se corporificam para (orí)entar nossas vidas, fundimos o presente,  o passado e o futuro para cessar aquele (dis)sabor de sermos invisibilizados e apagados da história e para tal é preciso tecer os fios partidos ou soltos da nossa identidade a partir da nossa própria óptica. 

Pedimos a benção à nossa ancestralidade para fazer a gira continuar a girar…

Axé!

Desconstruções sobre o amor romântico.

Silvia Helena de Amorim Martins.

Se eu queria enlouquecer esse é o romance ideal. 

(Paralamas do Sucesso)

Era uma vez…. não sei se você já observou, mas todo conto romântico inicia da mesma forma, hahahahah e detalhe tem um príncipe e uma princesa, geralmente brancos e dentro do padrão eurocêntrico, raramente um casal inter-racial. Na vida real quando duas pessoas se encontram apesar do encantamento, os sinos não tocam, não tem sons de violino ao fundo, você não esta no alto de uma torre e ele não está montado em um cavalo branco. È tudo bem real, não tem esse glamour todo produzido pelo cinema, literatura e músicas. Observa-se as imperfeições:aquele dentinho torto, aquele cabelinho branco que teima em aparecer. Nada mais comum, afinal somos humanos e não saímos de um conto da Disney.

Nesse texto quero enfatizar que o outro, aquele seu crush (paixão súbita), gatinho(a), que faz seu coração batucar igual escola de samba no carnaval, infelizmente não vai lhe completar. É triste eu sei, acredite nas minhas palavras eu realmente sei hahahahah. O sofrimento amoroso, as frustrações são democráticas atingem a todos abaixo do céu, assinalo que os homens também sofrem por amor e como sofrem esses rapazes, mas devido uma estrutura social machista não é tão aceitável permitir que as lágrimas rolem. Vamos rasgar o véu e o verbo?!

Desde a infância é fomentado esse ideal romântico, esse imaginário fabuloso de que alguém vai nos completar. Isso me lembra Fabio Júnior : Carne unha, alma gêmea, bate coração, a metade da laranja e por ai vai hahahahaha.O psicanalista, Daniel Omar Perez afirma: O outro não vai me completar nunca, por que esse outro é faltoso e desejante, ele pode até caminhar junto, lado a lado masjamais suprir todas as expectativas, por que isso é pesado demais para qualquer ser humano na terra. É exatamente essa falta que eu tenho, você tem e a galera geral tem também, que a psicanálise chama de falta estruturante, em uma tentativa de satisfazer essa falta nos endereçamos a vida social, trabalho, amor, atividade física, lazer, dentre outras coisas que você pode nomear enquanto acompanha esse texto.

Será que não está na hora de se permitir descansar da angústia e da ansiedade gerada pelos ideias do amor romântico? Em 2019, de acordo com o IBGE 60% dos brasileiros e brasileiras estavam solteiros, suponho que imersos nessa pandemia que não acaba, esse número deve ter aumentado. Viu!!! Não é só você, tem todo um movimento que está desconstruindo o amor romântico. Seu eu sou contra o amor? Não, jamais só tenho uma visão crítica e reflexiva sobre o tema. O que você acha de enxergar o amor e o afeto como algo mais amplo, para além do par romântico? Será que amor de amigos, família são menores que o amor romântico? Eu sei que você está ai do outro lado dizendo: Há mais são amores diferentes. Concordo com você meu bem, são amores diferentes e provavelmente você quer um amor caliente que faça seu coração bater mais forte, pulsando só de emoção, que te faz acordar no meio da noite, que deixa você ansioso (a), com os olhos grudados na tela do celular a espera de uma resposta ahhahahahah. Mas esse é a questão, o amor romântico está pautado na impossibilidade, em um amor idealizado, que aponta o outro como perfeito (algo que não existe). Então acorda pra vida bebê!!!! Isso aqui é Brasil hahahhaha. O que você acha de um amor possível? De primeiro cuidar da sua casa interna / coração, antes de convidar alguém para entrar? Vai que nesse enclausuramento você se descobre como alguém bastante interessante e digno de amor?

Não estou dizendo para você se fechar, longe disso eu estou dizendo é para você se abrir para a vida, apreciar cada momento sem estar se martirizando com as pressões sociais que apontam que você precisa estar com alguém. A vida é agora, não se prenda a padrões, seja gentil consigo hoje!!!! E se aparecer um crush, que não fecha com ossonhos/ ideais? Mas é claro que ele/ela não vai fechar hahahahah a vida não é uma novela. E não estou dizendo que se jogue nos braços do primeiro que quiser hahahahaha. Mas apenas sai do alto da torre, fura a bolha de expectativas e se permite conhecer, conversar, deixar as coisas fluírem no seu tempo. Aproveitando a experiência no presente.

Mas claro sem deixar de focar em você, lembra!?Somos seres faltosos, quando nos acolhemos, nos cuidamos e acarinhamos passamos a ser menos exigentes com o outro e a enxergar as coisas como de fato são. Vale ressaltar a importância da rede de apoio: família, amigos e demais grupos. Bora, acalmar esse coração cansado(a)?!colocar as pernas para o alto, se espreguiçar e apreciar as dores e sabores de ser quem se é. Apesar das adversidade a vida é bem gostosa. Será que você não está vendo a vida passar, a espera de alguém que não vai chegar ( príncipe e princesa). O que você não pode é perder saúde em busca de ideais inalcançáveis. Um grande abraço!!! E até a próxima. Se cuida daí que eu me cuido daqui!!!