Uma conversa com Maria Vitória

Hoje nosso encontro é com gostinho de saudade.

Vamos relembrar esse papo para lá de delicioso com a maravilhosa e talentosa atriz Maria Vitória, no querido Theatro José de Alencar.

Uma conversa sobre arte, teatro, maternidade e vida.

É só dar o play.

Rosana

Monique Cordeiro

Rosana chorou ao assistir a mulher no teatro. Olhou atenciosa para cada gesto, ouviu com cuidado cada palavra, mergulhou profundo na poça de água rasa que a atriz fez no chão. Meus olhos acompanhavam Rosana em todos os seus movimentos. Fiquei intrigada com aquela lágrima e com seu leve sorriso, mas as pessoas que a acompanhavam não se surpreenderam com o seu jeito de olhar.

Conheci Rosana, quando fui comemorar o aniversário de minha prima. A comemoração atravessou a noite inteira. Talvez eu fosse a única com dezesseis por ali, oscilei a noite inteira na preocupação de chegar muito tarde em casa e minha mãe brigar comigo. Na oportunidade que tive de ficar cara a cara com ela, não consegui falar direito. Eu gaguejava quando tentava dizer alguma palavra. Me sentia pequena diante daquela mulher gigante. Quando fiquei sabendo que ela amava gatos, sonhei que me enroscava em suas longas pernas. Era bom pensar que eu, uma pequena gatinha, poderia subir em suas pernas e chegar até seu colo. 

Certa vez, Rosana chegou mais alta que de costume, mas não usava salto. Era como se tivesse crescido aos meus olhos e ali estava majestosa. Ouvi sua conversa, sua gargalhada, que me chegava junto com o vento fresco naquele luau. Ela falou do tarot e dos astros. Rindo alto disse que tinha um grande caldeirão. Eu fiquei confusa, um pouco assustada, pois ela falava sem medo de assombros ou de magias. Mesmo assim, eu fiquei hipnotizada olhando sua boca vermelha mexer. Não consegui ouvir nenhuma das palavras, só fiquei sentindo um arrepio subindo pelo meu ventre, tomando conta do meu peito. Quando notei minha respiração ofegante e o coração batendo forte, saí para comprar um guaraná. Minhas pernas estavam um pouco bambas, lembrei que tinha de voltar logo para casa porque no outro dia eu tinha aula. 

Aos meus olhos, Rosana era imensa. Exuberante. Tinha cheiro de uma mistura de ervas e flores que eu não sabia dizer qual. Se movia como bailarina, pisava como uma leoa. Eu imaginava poder dançar enganchada nela numa noite que entraria pela madrugada. Pendurada no seu colo, eu sentiria o seu calor e fluiria com seu movimento. Nossos corpos ficariam suados e estaríamos unidas, envolvidas num abraço ritmado. Eu tinha certeza de que Rosana sabia dançar todas as músicas e dominava os conhecimentos sobre o céu, a terra, a água e o ar. Eu desejava ser como ela, eu desejava Rosana. 

Foi quando a encontrei, por acaso, sob a luz do dia. Jamais imaginei que tomaríamos café juntas. Na lanchonete, ela sentou ao meu lado. Meu coração acelerou um pouco quando pude olhar para os olhos daquela mulher longe da penumbra, mas bem perto dos meus. Pude ver as linhas do seu rosto. Vencendo qualquer vergonha, continuei olhando. Percebi com cuidado sua boca com a cor natural e uma cicatriz que falava sobre o tempo em que era estudante na mesma escola que eu. Me surpreendi porque achei que Rosana já tivesse chegado nesse mundo grande e com todos os planetas tatuados nas costas. Ali envolta por guardanapos, saleiros, copo de vidro com café, eu andava num território conhecido. Parei de olhar, puxei conversa. Contando da vida, eu sentia que esses planetas pesavam em suas palavras, pois ela falava de dor, de dúvida e de medo. Surgia na minha frente uma mulher extremamente cansada.

Cheguei a ver Rosana faminta uma outra vez. Ela se alimentava de uma comida suculenta: caldos, queijos e cremes. Comia com as mãos e lambia os dedos. Eu já conseguia lhe fazer perguntas e o meu ventre já não vibrava tanto. Passei para ela o guardanapo. Olhei de perto, ela me pareceu muito mais humana com aquela fome verdadeira. 

Parece que ela estava sempre por ali porque, certo dia, eu a vi de novo da porta da minha escola. Ela chegou numa mansidão felina e viu na entrada da lanchonete um monte de gatinhos. Sentou-se no chão, pegou um a um em suas mãos. Olhou nos olhos de cada bicho e observou o que eles precisavam. Eu me aproximei. Notei que, sem a luz da lua, ela se tornava uma mulher comum. Deixava os mistérios, as estrelas e seus planetas dentro de uma pequena bolsa que carregava. Na clareza do dia, Rosana era muito mais humana e provavelmente seguia como uma mulher igual a todas as outras: lavando pratos, cuidando de gatos, sofrendo de amor. Talvez até gostasse de assistir a novelas. Eu tentava juntar aquelas duas: a que era mulher gigante à noite e a que era mulher comum de dia. E me perguntava: a que horas essa transformação acontecia ? 

Monique Cordeiro é Educadora da rede estadual de ensino, leitora, mediadora de leitura. Também conta e escreve histórias. 

Instagram: @niquemaria_cm 

Lugar de respiro

Roberta Bonfim

Mais uma terça e eu por aqui, para minha alegria e espero que para a sua também. Se tá aqui me lendo, quero crer que é por gostar do que encontra por aqui. E trago boas novas e lindas. Hoje vou dividir por formato. Começo por onde estou, esse Blog lindo diverso e necessário pelo respeito. Assim, te convido a viver este blog como eu mesma vivo, com leituras diárias, a última de todos os dias, ou a primeira do posterior. Nos enriquece enquanto seres. Mas, se quiser ler só o segmento que te interessa também é sucesso.

Vou apresentar agora cada um individualmente, a partir da minha percepção, claro. 😀

Começamos com o domingo ou com a segunda? Vou começar pelo que entendo como começo na rotina por aqui. Segunda, dia de acordar mais cedo, fazer a prece de benção da semana, dia de encarar o mar e a Mãe que Sou, seja na primeira segunda, quando compartilho a brincadeira séria daqui de casa, ou nos textos dessas mães que tanto me inspiram, Lara Leôncio, a Mãe da Íris Luz (8 meses), multiartista, aquariana, teimosa e apaixonada pelos seus, essa figurinista responsável pelas nossas camisas aqui da Lugar ArteVistas, junto com seu companheiro e Artevista Klebson Alberto, Janira Alencar, Mãe do Tom, formada em Letras, apaixonada por literatura e música, sobretudo a brasileira. Coordenadora Pedagógica e recém-aventureira na viagem da maternidade. Mariana Trotta, coreógrafa, bailarina, videomaker e escritora. Autora do livro “O discurso da Dança: uma perspectiva semiótica” (Editora CRV) e autora do blog “Na espera de um novo amor: sobre maternidade adoção e devaneios”. Professora Associada do Departamento de Arte Corporal da UFRJ e do Programa de Pós-graduação em Dança da UFRJ (PPGDan), coordena o Laboratório de Linguagens do Corpo (LALIC/UFRJ), pesquisa em criação em dança contemporânea e videodança, com enfoque no corpo político e ativista. Mãe da Alice e Mayane Andrade, Mãe de Davi, João e Marina, vendedora nata e criativa.

Roberta Bonfim
Lara Leôncio
Janira Alencar
Mari Trotta
Mayanne Andrade

As terças somos nós aqui e as quartas são poesia, vento, experimento e alma de Marcelina Acácio, atriz, escritora, performer, poeta e produtora cultural. Autora do nosso primeiro livro como editora, na Lugar ArtevIstas, “De Vento em Poesia”, com lançamento previsto para dezembro deste ano.

Marcelina Acácio
De Vento em Poesia

As quintas são um estouro de falas incríveis e necessárias, aqui no Lugar de Fala, temos Rebeca Raso que atualmente, vive na Galiza (Espanha) de onde nos escreve. É ativista feminista, praticante de teatro des oprimides no grupo 100Tolas e tem doutorado em Educação, Gênero e Igualdade e trabalha como formadora em temas de gênero e feminismo por meio de metodologías participativas. Saulo Lemos, professor de literatura, gosta de ouvir e conversar coisas diversas. Mora em Fortaleza e sonha com outros lugares. Bárbara L. Marias, é atriz, performer, professora de teatro e escreve para a cena e tem Kiko Alves, do Coletivo Afrofuture e projeto A Invenção do Lugar, com atuação no Poço da Draga. O jornalista, pesquisador das questões raciais e condição social das periferias do Brasil. Realizador, Professor e Produtor Audiovisual. Especialista em Antropologia da Imagem – UFC.  Mestrando em Sociologia – Pós – UECE ( CE) –  linhas de pesquisa: Cultura, Diferença e Desigualdade.

Bárbara L. Matias
Kiko Alves
Rebeca Raso
Saulo Lemos

E então as sextas. Esta até bem pouco tempo era lindamente alimentada de conteúdos ricos e fundamentais da nossa ArteVista Indyra Gonçalves, que foi bem ali e volta já para mais amor. E hoje temos uma sexta recheada de Artevistas incríveis, como a jornalista e escritora Celma Prata, que eu já sonhava por aqui fazia um tempo, mas tudo acontece só no tempo de acontecer, né? Ela que é autora do romance “O Segredo da Boneca Russa” e membro efetivo da Academia Fortalezense de Letras, é também mãe da nossa querida Camila Bitar. Gustavo Xavier, é um virginiano incrível e muito especial na minha vida, como muitos do que neste blog escrevem, é ator, capoeirista e historiador. Licenciado pela UFC em História Social, mestrado pela PUC-Rio em Relações Internacionais. Tem Rafa, é artista de dança, performer, pedagoga, especialista em Gestão Cultural, integrante da Cia Balé Baião, Produtora cultural no Galpão da Cena e Artista docente na Escola Livre Balé Baião (escolas da cultura do Estado do Ceará). E pra deixar a sexta mais linda nesse lugar de descontruir-se, convidamos você a escrever conosco.

Celma Prata
Rafaela Lima
Gustavo Xavier

O sábado é o respirar, é o aceitar, o seguir e se perdoar e não é nada disso e tanto mais. E nele temos Daniel Hamido, terapeuta Tântrico formado pela Comunna Metamorfose, Instrutor de Delerium Privativa – Treinamento Multiorgástico para Casais com as (Sensitive Massagem, Êxtase Total Massagem, Yoni Massagem e Lingam Massagem, G-Spot e P-Spot Massagem). Formado como mestre reiki, radiestesia e apometria – técnicas de identificação, limpeza e correção energética- ministra cursos na área para uso pessoal. Formado como Master em Eneagrama pelo Ibeth(Instituto Brasileiro de Eneagrama e terapias holísticas). Formando em Educação Física pela Universidade Federal do Ceará. Junto e se somando temos Douglas Miranda, um Cearálista, um misto de paulista, lugar como nasceu e cearense, por ser em Fortaleza que sua alma se encontra. Pai do Gabriel, amante da arte de viver, é estudante de psicologia, iniciando atendimento. E tem a maravilhosa All Franca, essa mulher massa que acredita que a forma como vemos o mundo é o que cria nossa realidade. Pesquisadora ativa de técnicas energéticas (Thetahealing, Reiki, Terapias Multidimensionais), e pra deixar os sábados mais encantados ainda, a bruxa Natália Coehl, atriz, cantora, performer, pensadora crítica, mestranda em artes pela UFC e graduada em Licenciatura em Teatro pelo IFCE. Pesquisa técnicas de movimento, como: dança, mímica, artes marciais, meditação e derivas urbanas.

Daniel Hamido
Douglas Miranda
All Franca
Natália Coehl

E pra fechar ou começar temos o domingo que é tudo misturado mesmo, onde temos o Coletivo Abayomi, que são um coletivo de artistas/ arte-educadores dedicados ao estudo das performances, teatralidades negras e epistemologias afrocentradas que sentiu o desejo e a urgência de transformar nossos estudos em um conteúdo que pudesse ser acessado para além dos cânones sagrados e embranquecidos das universidades, Manuela que vai trazer a arte da nutrição, Janaina Alencar, advogada, amante de rock, arte, filme, vinhos e viagens. A atriz, diretora, escritora, compositora, filósofa e pesquisadora de teatro e música Juliana Veras. O produtor cultural, estudante de publicidade e amante pesquisador de musical Adonai Elias e o ator e jornalista Karlos Aires pesquisador sobre música e artes cênicas. Escreve aos domingos para o blog.

Janaina Alencar
Juliana Veras
Karlos Aires

Ficamos pendentes com as fotos de Manuela Ramos, Adonai e Coletivo Abayomi.

Esses somos nós aqui deste blog. Semana que vem apresento a turma do canal, até lá.

Alimentação e autoconhecimento

Manuela Ramos

“Doutora, ainda bem que apareceu a senhora, porque eu tenho dez (10) dietas lá em casa, e nenhuma presta. As nutricionistas são horríveis”.

Nós poderíamos iniciar essa conversa falando sobre diversas vertentes ligadas à nutrição. No entanto, vim aqui convidá-los a fazer um breve passeio sobre o mundo que eu percorri como profissional, nesses temas, e sua aplicabilidade na vida das pessoas. Peço a você que, junto comigo, possamos pensar em propostas sobre uma nutrição aplicada à sua realidade. Como eu, realmente, posso te ajudar?

Quando iniciei a faculdade de nutrição, em 1992, ficava encantada com a possibilidade de entender como funciona nosso organismo. Pensava em como o alimento iria constituir o nosso corpo. Vi muita bioquímica, fisiologia, fisiopatologia. Algumas aulas relacionadas à saúde pública. Uma disciplina de psicologia. Confesso que, naquele momento, as pessoas iam se transformando em um conjunto de reações químicas, e eu, cada vez mais querendo entender aquele mundo. Fiz iniciação científica em bioquímica, segui o fluxo, indo parar no mestrado/doutorado em Fisiologia Humana, na USP. Fui para estudar suplementação e câncer.

Cada vez mais, eu estudava muita bioquímica. Sabia muito de nutrição, do funcionamento do organismo, de fisiologia e a dita bioquímica. E Isso tudo é, sim, muito importante, mas, para mim havia um longo caminho até os indivíduos, eu queria chegar mais perto. 

Dei muitas aulas de Fisiologia Humana em universidades, até que, em 2005, em Fortaleza, recebi o convite da Professora e psicóloga Ângela Andrade, para estruturar e criar o projeto de extensão PRONUTRA, Programa de Nutrição aos Transtornos Alimentares e obesidade, da Unifor – Universidade de Fortaleza. E foi lá que comecei a deixar os ratos, sapos e células de lado, e comecei a ouvir pessoas. Desde então, quando comecei a ouvir aquelas falas, nunca mais consegui deixar de ouvi-las. Entendi que existe muita coisa para além da comida ou do peso, da Fisiologia ou Bioquímica, ou até mesmo da própria nutrição. Percebi, dentro do contexto da nutrição, que o ato alimentar é um ato relacional, que há um elo entre os alimentos e os sentimentos.

Também trabalhei no IPREDE, onde acompanhei a mudança de um Instituto de Prevenção à Desnutrição, ao Instituto de Desenvolvimento Humano. Trabalhei com desnutrição e, na época, com crianças obesas e suas famílias. Tive a oportunidade de estudar, na instituição, sobre desenvolvimento humano e outros projetos relacionados. Fui conhecer muitas moradias dessas famílias, que são completamente carentes. E as falas que eu ouvia, só iam se multiplicando, e ficando mais complexas. Agora teríamos que auxiliar as pessoas no desenvolvimento de competências relacionadas à mudança de hábitos alimentares, assim como no Pronutra, mas aqui tudo ficou bem mais complexo: autoconhecimento, auto-estima, autoconfiança, visão confiante de futuro(?), sentido de vida(?), plenitude(?), reconhecimento do outro, convívio com a diferença, comunicação, interação, resolução de problemas, leitura e escrita (?). As pessoas não entendem o que você está falando. Aprender a aprender? Sim! São também objetivos!

Com uma equipe interdisciplinar, com uma nutrição focada na escuta, na empatia; com ações assistencialistas? Também! Fui parar em um doutorado em Psicologia – Desenvolvimento humano, na UNB. Por incrível que pareça, era muita matemática, mas isso é outra história.

Assim, para além da academia e com minha experiência de vida, segui percebendo corpos psíquicos, sociais, físicos, mentais, emocionais e espirituais. Seres que, muitas vezes, manifestavam seus limites de suportabilidade, por meio de sintomas alimentares, alguns utilizando canais de expressão oral e corporal, como uma maneira de manifestar conflitos e dificuldades emocionais. Por meio de aspectos como oralidade, voracidade, impulsividade, compulsividade, transgressão, agressividade, passividade, dentre outros, podia-se tentar compreender as relações que o corpo estabelecia com o mundo exterior. Sem delimitações de inclusão, exclusão e sem uma identificação do que é meu e o que é do outro, a realidade e seus próprios afetos, assim como as relações com os alimentos, tornam-se complexas e angustiantes.

     O profissional, mesmo com todo esse conhecimento, se vê amarrado diante da complexidade do que o outro trás.

“Nos primeiros dias, foi mais difícil. Final da primeira semana, eu estava confusa. No final de semana, foi mais difícil. Comi docinhos num churrasco, só 3, foi um avanço, mas com muito sofrimento. Me senti feliz ao levar a lancheira com temperos para o trabalho, mas desconto minhas raivas na comida. Gosto de comer. Associo a comida a todos os sentimentos, felicidade, impaciência.”

Daí trazermos, também, essa responsabilidade para você. E a consciência de que caminharemos juntos, pensando na sua realidade, na sua vida, em toda sua amplitude.

Fisiologicamente, se pensarmos que impulsos irresistíveis podem tornar-se compulsivos, vindos de pensamentos que não conseguem ser habilmente afastados da mente; que obsessões, em condições patológicas, perturbam a vida, tornando-se estímulos constantes; que nossos comportamentos tornam-se automáticos pelas repetições, e que esses, tornar-se-ão, muitas vezes, nossos hábitos diários, como o de escovar os dentes. Se pensarmos que nosso cérebro regula o comportamento motivado classificando nossas ações em boas ou ruins, e, fazendo, assim, milhões de associações, muitas vezes não por alterações estruturais, mas por excesso de ativação, podemos concluir que esses estímulos constantes, compulsivos, repetitivos, relacionados à comida, poderão virar um hábito. Ou seja, para reverter a formação de um hábito, teremos que começar pela sua auto observação.  

Você acredita na existência de um caminho de autoconhecimento, quando falamos de alimentação? Quais suas relações de afeto, emoções, desejos, fantasias, quando falamos de alimentação? 

Voltamos a tal escuta que falei anteriormente, mas que, agora, está relacionada ao seu corpo. Você terá que ouvir o seu corpo em todos os seus contextos, para chegar ao tão sonhado e tirano peso ideal, ou qualquer que seja seu objetivo relacionado à nutrição.

Aí retornamos para aquele profissional Nutricionista, o mesmo a quem demos o poder de modificação de nossos hábitos. E chegamos lá entendendo que tudo parte de nós, de como nos vemos, nos observamos, nos escutamos. De como a relação entre comida e corpo perpassa pelo auto-cuidado, pela conexão consigo mesmo. Preciso da sua ajuda para entender a sua verdadeira motivação, assim, as dietas não serão mais acumuladas. Você saberá diferenciar fome física, de fome emocional. Você se libertará da tirania das dietas, comerá intuitivamente, com atenção plena, se reinventará. E o profissional fará uma verdadeira Terapia Nutricional, tendo como objetivo a criação de um conceito positivo para com o alimento, mobilizando o melhor de nós, para lidar com nossas escolhas. Será um sucesso!

 “A experiência de comer devagar foi ótima, me senti saciada e só comi a metade do chocolate, estou feliz!”

Cliente após uma vivência sobre comportamento alimentar.

Manuela Ramos é nutricionista, doutora em Fisiologia Humana pela USP e doutoranda em Psicologia – Desenvolvimento Humano pela UNB.

Não está exercendo no momento nenhuma dessas atividades.

Não desistir também é uma vitória!

All Franca

Essa quarentena tem sido muito desafiadora para todos nós, já se passaram dias e dias desde que tudo começou e estamos aqui, fortes porém não tão firmes. Para mim está sendo um momento um pouco tenso, a produção já não está no mesmo gás, já não sei mais quais são minhas prioridades, inclusive vos escrever não é algo muito confortável. Há pouco ainda pensei em desistir umas 50 vezes antes de sentar aqui para escrever, mas me dei mais uma chance, uma chance de seguir, de ter esperança que essa fase vai passar, de que conseguirei me reencontrar.

Acho um pouco difícil esse reencontro, pois já nem me lembro mais quem eu era antes dessa pandemia, não lembro qual eram meus gostos, nem minhas prioridades, muito menos meus planos para o ano de 2020. Sinto que vivi uns 10 anos em 8 meses e estou vivendo, me reinventando e seguindo.

O caminho do autoconhecimento também é isso, passar por suas sombras, ressignificar seus desejos e entender cada vez mais o real sentido de ser adulto. Certas horas só queria voltar às preocupações que tinha enquanto criança, que geralmente estavam relacionadas às férias escolares ou qual seria o próximo episódio de Dragon Ball Z.

Por hoje me sinto vitoriosa, por decidir sentar e escrever, sei que alguns de vocês se identificarão com esse texto e quem sabe ele fará alguma diferença em sua vida. Saiba que está tudo bem também não dar conta, assumir seus limites e nem sempre estar na maior de suas inspirações. Essa é a vida aqui na Terra, cheia de dualidades, situações controvérsias e tudo isso que estamos acostumados a viver. Não pense que maturidade emocional está relacionada a não passar perrengues e desconfortos e sim, em como você lida com essas situações. Esse é o diferencial, saber que tudo irá passar, inclusive seus momentos de baixa vitalidade. Por isso, quando eles se instaurarem, apenas observe, deixe as coisas se desenrolarem, ainda que lentamente, deixe as decisões para serem tomadas em tempos mais amenos. Às vezes só não desistir já é uma grande vitória, continue seguindo e reencontrando sua motivação, ela está aí em algum lugar.

Com amor

All Franca

Quem somos nós “brasileiros”?

Gustavo Xavier

Quem é o brasileiro? Como se define a identidade desse Brasil como sujeito internacional? E principalmente, quem sou eu dentro desse coletivo a que pertenço e do qual outras vezes me distancio?

Essas talvez sejam das perguntas existenciais as que mais inquietam o coração e a mente do cidadão brasileiro. Aliás, vale dizer que ser “brasileiro” até os fins do século XVIII nem mesmo era considerado como alguém que pertencia a uma nação, quanto menos um conceito de cidadania. Ser “brasileiro” naquela época era sinônimo de profissão “internacional”, significava ser comerciante de pau-brasil, como deixa entrever o sufixo “eiro”, de carpinteiro, marceneiro, sapateiro, costureira, pedreiro, quitandeira, cozinheiro, entre outros. A ideia de “brasilianidade” ou “brasilidade” de um povo foi construída a partir do século XIX, época em que eventos históricos concorreram para a criação dos estados-nacionais.

Até aí tudo bem. Então, o “leitor-cidadão-filósofo-entre-tantos-outros-adjetivos“ de hoje pode se perguntar: “quando estamos falando de questões existenciais, haveria algo mais importante do que a preocupação com os meios para prover sustento e a segurança num país pobre, desigual e corrupto?” E ele tem razão. Afinal, essa é a pauta do dia. Aliás, de todos os dias. Aliás, desde que o Brasil é Brasil. Aliás, desde quando ele não era “o Brasil”. E eu posso responder afirmativa que sim, há uma questão tão ou mais fundamental a ser feita quanto a questão da infra-estrutura ou dos meios materiais para prover a vida. E esse campo de debate se chama identidade.

Para além das questões de determinação econômica, penso que essa questão existencial perpassa pelo campo do encontro. O encontro com o outro e mesmo com os outros que habitam dentro de nós. Como questão existencial – sim, “I love Shakespeare”! – saber quem “Eu sou” diz respeito a um campo conflituoso. Um campo muitas vezes minado, bombardeado com percepções distintas, um campo de ideias e linguagens que insistem em buscar uma definição.  Pergunte-se a si mesmo: “quem é você?”. Diga em voz alta: “Quem sou eu?”. Agora imagine-se numa sala de entrevista, como você responderia? Como você responderia a esta pergunta em múltiplos contextos. Na sala de reunião? Na entrevista de emprego? Para a família do seu(sua) namorado(a)? Para “todxs aquelxs” – com a gramática internauta e libertária mesmo – que não se enquadram em definições predeterminadas e se sentem desconfortados na pele do estereótipo. 

Para ajudar nessa reflexão, coloco à título de exame, as seguintes imagens:

  1. Uma criança cujos pais estão à beira do divórcio se encontra de frente a um psicólogo. A criança fala. O psicólogo fala. De tudo o que foi dito, uma simples frase pode mudar a significação de todo o jogo. O psicólogo diz: “Não se preocupe, você não tem culpa alguma pelos seus pais estarem se separando”. Pausa. Momento para reflexão. A criança responde: “Bem, eu não estava pensando nisso, mas agora que você falou pode ser que eu tenha alguma culpa”.
  2. Agora um exemplo histórico. Diante de um tribunal, no século XIX, um trabalhador é acusado de fazer greve e dessa maneira prejudicar a ordem social – algo similar como a ausência de caminhoneiros e dos correios nos dias de hoje – sendo então inquirido pelo juiz para que se apresente e diga quem é. (Momento crucial na vida desse homem). Ele poderia ter respondido: “Sou João, 35 anos, carpinteiro”, descrição comum em processos judiciais. Não foi o que ele fez. Ele responde: “Sou operário”. Pausa dramática. O tribunal nunca havia ouvido essa palavra antes.

Estas duas imagens servem para ilustrar o peso que a linguagem tem nas nossas vidas. A criança, mesmo que alguns insistam no fato de que ele seja incapaz de confabular tal raciocínio –  ideia contemporânea de todos aqueles que gostam de “infantilizar” permanentemente a criança – portanto incapaz de se expressar, pode incorporar inconscientemente o “fato”. Não o fato dos pais estarem se separando, não o fato de ser subestimada por pais inadvertidos, mas o fato da palavra dita, aquela que foi atribuída pelo especialista na comunicação e na ordem do ritual de trabalho do psicólogo ou psicanalista. O segundo exemplo, é uma gota no oceano daquilo que se chamou “luta de classes”. Muito mais do que expressando uma identidade submissa ao Estado que pudesse ser identificada por “nome, idade e profissão”, a palavra “operário” surge naquele contexto com nova carga simbólica. Carrega em si a emergência de um novo sujeito histórico, não o indivíduo mas o coletivo, ou melhor, a classe. Em vez de uma ordem nacional, há o reconhecimento de insatisfação com a ordem da maneira que é colocada: a exploração.

É como eu costumo dizer: “Não se sabe que você é pobre até quando lhe dizem que você o é”. Nesse aspecto, quem somos nós, os “brasileiros”? Eu gostaria de deixar no ar esta pergunta. Gostaria que o “leitor-cidadão-filósofo-entre-tantos-outros-adjetivos“ me ajudasse a responder. Ou que pelo menos procure responder para si, no seu íntimo.

Então, coloco algumas perguntas que considero inteligentes (não se enganem, não fui eu que as formulei):

  • Quem é o “nós” desse sujeito gramatical coletivo? Isto é, quem se define dentro e quem é excluído? Como ocorre essa cisão?
  • O dramaturgo Nelson Rodrigues uma vez disse que temos um “complexo de vira-lata”, sendo narcisistas ao revés, com baixa auto-estima, preferindo tudo aquilo que vem de fora. Isso é verdade? Onde vemos esse complexo acontecer?
  • Sendo a identidade uma construção múltipla (psicológica, social, afetiva, material, simbólica) como ela se desconstrói e, no seu reverso, como se reconstrói para sobreviver?

Gus Xavíer é ator, historiador e capoeira. Gosta de muitas coisas e por isso se considera um generalista que vive num mundo que insiste em se especializar.

Normalizamos

Por Roberta Bonfim

Me foram ofertadas 6 palavras para escrita deste texto. 

Normalizamos, o outro e tudo que o mortifica, isso não é novo, é tudo parte desse espetáculo cruel pseudamente irracional pela sobrevivência. E se há algo que é fato, é que todos morreremos e grande parte de nós seremos facilmente esquecidos em até duas, ou três gerações posteriores. Mas, temos como humanos que somos a pretensa ilusão de que é indispensável. Penso que talvez precisemos disso, para resistirmos a tirania do outro, que também o somos.

Tomar consciência sobre as próprias responsabilidades, gera em alguma instância uma rebeldia, com a tirania, com a teimosia, desses seres que somos. E talvez essa rebeldia faísque dando luz a uma raiva justa, que atrelada à sabedoria, pode ser a mola necessária para o nascimentos da utopias e construção de caminhos outros para quebra dos padrões impostos.

E, assumir-se ambiente é também lutar pela sua preservação ambiental que é também comunitária, vamos juntos?

Estamos montando nosso quadro de ação adaptado para tempos de pandemia, se quiser trocar, se somar, sugerir, participar, é só chegar, contato@lugarartevistas.com.br ou @lugarartevistas, ou ainda pelo nosso canal no Youtube e se passar por lá, aproveita pra se inscrever.

A existência atual

Douglas Miranda

Imagem da Internet.

Dar voz, ter voz …

Ter ou não ter …

Quantos seriam os dilemas existenciais?

Diria que um tempo sombrio paira sobre nossas cabeças e inevitavelmente acabamos por questionar nossa existência.

Que pulsão seria essa, segundo Freud?

Qual é a essência dessa existência, diria Kierkegaard?

Que tipo de diálogos teríamos se esses referenciais ainda estivessem entre nós?

Quando falamos sobre existencialismo os questionamentos são tantos.

Mundo líquido? Bauman me ajuda, “please” !!!!

E então, caimos na pergunta mor.

O que é existencialismo?

Na minha concepção é um tanto quanto estranho falar sobre esse assunto, particularmente me dá um certo nó na garganta, porque a vida vai passando e, sei lá, fica cada vez mais difícil reavaliar significados.

Imagino que a suavidade seja um caminho.

Fazer da existência uma afirmação constante de alteridades, se a realidade da mesma nos aprisiona ao compasso ritmado da vida, talvez seja preciso experimentar a imprecisão do acontecimento.

Caminhar num passo peripatético e mutante e a cada passo um traço de nós se (des)faz.

Talvez encontrar encanto no acaso.

Dizer sim à vida.

Viver é movimento!!!

Viver é possiblidades!!!

Quiçá poesibilidade, não é mesmo?

Gosto de uma frase de Soren Kierkegaard que diz “A vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada”.

Voltando aos dias atuais, penso que a modernidade é a era em que nossa existência (social) depende do olhar dos outros: acabamos por ser o que conseguimos fazer que os outros acreditem que somos.

Se você não ganha likes suficientes, você acaba não se reconhecendo.

No final das contas seu espelho e seu travesseiro não bastarão.

A filosofia do contente é uma armadilha de consumo. A existência tem amplitude, que inclui: medos, perdas e dores.

E aí, quem é quem para dizer quem é o quê?

Douglas de Miranda, uma mistura de paulistano de nascença, cearense de alma, pai do Gabriel.

41 anos. Estudante de psicologia. Amante das Artes