Vejo o Tempo Incerto

por Júlio @casamentopoetico

Dia após dia uma pergunta filosófica buberiana atravessa meu pensamento, como um relógio sem pilha na parede. Sem corda, sem força, sem propulsão para a vida. Estático, sem brio nem vigor. “O que faz com que você seja você”?

O relógio parado não marca as horas, não define o tempo, apenas se propõe a existir, semelhante a um quadro na parede.
Então, vejo o tempo incerto, de um presente estagnado, sem passado declarado, sem futuro alcançável. Estático. Mecânico. Árido e interminável é o tempo, afirmava Neruda.
Nenhum ponteiro se mexe.
Basta uma pilha e todo elã vital se recompõe, basta uma vontade de existir para que tudo se refaça, basta um mecanismo e todo movimento se renove. Marcadores, numeração, o fato de dar corda faz acordar, faz a cor dar, faz a cor de ar, invisível, intermitente, renovado. Como que vindo de dentro. Eu sou eu e as minhas circunstâncias, nos lembra Ortega y Gasset, independente se o mundo não está bem e o tempo pareça incerto, escolho estar feliz. Outra questão fundamental: por que as horas difíceis demoram a passar enquanto os momentos felizes voam ligeiramente? O poeta Virgílio aponta uma resposta plausível (ars longa, vita brevis) a vida é breve e arte longa, a oportunidade fugaz.

Mãe: Meu egoísmo e minha vaidade.

Por Alana Alenacr

Começo fazendo uma retrospectiva de como foi meu começo. A primeira gestação. O que me fez/faz ser MÃE. O egoísmo aumentava conforme a barriga. Não para alimentar meu ego com sua pequenez, mas para suprir a direção das forças à minha nova responsabilidade, aos meus cuidados e desafios; afinal, tudo em mim se preparava, tudo em mim exigia a habilidade de proteger e assegurar o bem-estar de um milagre acontecendo a todo instante no meu ventre. Acontecendo no realizar compulsório do meu maior sonho. Eu entendia, meio sem explicações, o quanto a minha vida mudava com a certeza de uma nova vida sendo gerada em mim… uma outra vida que dependia totalmente da minha condição estética, genética e intelectual… um filho. Não no sentido estreito de limitá-lo ao sexo masculino, mas em toda a grandiosidade de ser entendido como um Ser. Também, não era apenas um filho, mas o MEU filho que em absolutamente tudo seria e é parte de mim… desde o que representa o amor materno até o sentimento de ainda não interpretá-lo em suas particularidades. Pedro Antônio. Não porque tem cara de Pedro, não pelo dever de ser santo, muito menos por ser fruto de uma promessa. Pedro Antônio por ser o ato de um desejo, do meu desejo; por ser de mim tudo aquilo que considero sadio e forte e vivo. Por ter a emoção entrelaçada em uma canção de amor, por ser parte da minha poesia, da minha inspiração, por exigir de mim a irreverência de lidar com a sensibilidade de ouví-lo a todo e qualquer questionamento. A vaidade também aumentava conforme a barriga. Não aquela vaidade estética corporal e individualista, mas a vaidade que se confunde com o orgulho, com a decência de poder encher a boca e dizer:

EU SOU MÃE! Não uma mãe qualquer, e sim a mãe do filho mais lindo do mundo, mais inteligente de todos e com isso continuar numa série de elogios tão propriamente verdadeiros de mães como eu; Um Rinoceronte Fêmea. De pele grossa, ousada, de defesa selvagem. Aquela mãe que no primeiro ultrassom sem qualquer vestígio de ser, já consegue deduzir que não há sombra de dúvidas quanto à fortaleza de quem virá; que na segunda ultrassom, num pinguinho de forma, afirma que é a cara da mãe (e é). Talvez, ao primeiro impacto, estes “pecados capitais” (fragilizadores), tão delicados que passam a ser intensamente decididos, como a vaidade e o egoísmo, sejam “perdoados”/compreendidos à medida que são descobertos como fonte de amor. Amar um filho não requer uma medida exata posto que vai além de qualquer sensação tátil, de qualquer motivo óbvio;  Senti ser uma dádiva que não deve ser comparada, e que não se dá pela poesia apenas, mas pela parte Divina de um todo em mim. 

Dia 12 de abril de 2011 Pedro Antonio nasceu.

Sobre uma pergunta que me fizeram

Por Alicia Pietá

“O que você já teve/deixou de fazer por ser mulher?”


Respondi:

Por ser mulher transexual eu não tive a chance de escolher meu sexo quando nasci (claro) e por isso fingi, por vinte e tantos anos, ser uma pessoa que eu não era.
Por ser uma mulher transexual eu não tinha a chance de ter um relacionamento amoroso comum por vários anos, desses bem padrãozinho mesmo, isso por que a sociedade não nos enxerga, os homens nos vêem como objeto sexual, marginais ou simplesmente somos invisíveis à maioria das pessoas.
Mas… Nunca deixei me abater por isso e sempre dei minha cara à tapa.

“Quem não veio ao mundo para incomodar, não deveria ter vindo ao mundo.” Dias Gomes.

Buscando memórias

por Roberta Bonfim

Memória Social, uma perspectiva psicossocial, vendo esse título, de cara penso em sair correndo, pois tem algumas coisas que se formos buscar entender demais sem preparação psíquica corremos o risco de não entender nada  e cairmos em um limbo paralisante, sem fim. E eu não me sinto psiquicamente preparada para muito, dessa imensidão informacional. E quanto mais leio mais aprendo e quanto mais aprendo, mas me distancio do que eu pensava saber a princípio, e pluft! – Fui pega de novo pela bola de neve da vida que nos gera essa imensidão externa a nós, mas que precisamos por qualquer razão nos relacionar, mas nem sempre sabemos como. Todos esse conceitos acadêmicos me são novos, porém a filosofia me é companheira antiga, como gosto de salientar, sou do teatro, e o teatro é também filosofia e tanto mais que podemos conversar em um outro estar.

https://www.youtube.com/watch?v=_NeBJ_ONV30&ab_channel=DanielMedina

Para esse instante impessoal que já passou, tornando-se outro, e se reconheceu esse trecho como sendo de alguém és já conhecedor de alma do que se trata a quebra de tempo e espaço que apesar deles, tempo espaço estamos aqui, de Fortaleza, São Paulo, Aracaju, Beberibe, Jaguaruana, Mato Grosso, Bahia, somos de todas essas cidades e podemos falar sobre ela ao falarmos sobre nós. Nossas rotinas, relação com nossos resíduos sólidos, com o que produzimos de orgânico, como tratamos nossos vizinhos ou o cara que passar gritando pedindo comida para filha. Se temos janela, começamos uma relação mais estreita com ela e talvez comecemos a entender, pelo menos no lugar de memória feminina, essa partitura feminina de espionar, já que fora durante todo patriarcado proibida de participar, e ainda hoje, onde ainda vivenciamos esse sistema em reação, somos ainda proibidas de participar sem termos nossas memórias maculadas, sem nos culparem pelo ato agressor do outro. Nos agredimos constantemente. Não assisto big brother, mas Susi, que é parceira por aqui assiste e nos compartilhou um relato sobre sua relação com os cabelos, que teve com gatilho a fala de algum participante, na repetição dessa agressão cotidiana, essa em que o outro não percebe de fato que tá cometendo a agressão, e é por isso que chamamos de estrutural, por estar na base alicerçante do ser que somos. 

https://youtu.be/-2fJa9wlgeY

E por que falo sobre isso? Para te perguntar, o que me pergunto: quais têm sido as minhas agressões, e quais eu tenho sofrido, e as que tenho reagido, como o tenho feito, com qual reação. Por que a física confirma que a cada ação uma reação, mas essa reação é absolutamente imprevisível, e pode ser pessoal ou estar dentro da memória social, mas pode também estar em você por conta dessa mesma memória que não nos foi contada, mas exemplificada nos cotidianos, nos ambientes onde vivenciamos ou atravessamos e existir neles não necessariamente é habitá-los, mas ainda sim alterá-los, porém habitá-los é se responsabilizar por ele, falar em seu nome, defendê-los do opressor, mas quem é esse opressor, que não o outro diferente que como você se vestido de habitante protetor com suas próprias memórias sociais, algumas mesmo idênticas as suas, mesmo que você tenha vivido toda sua vida em Beberibe, e ou outro em São Paulo, capital ou interior,  Somos, de acordo com Jung esse universo interno e externo. Um ser humano que começa retirando da sua própria sombra de seu vizinho está fazendo um trabalho de imensa, imediata importância política e social” (Jung). Mas, por aí seguimos na caça às bruxas, ao diferente, não ao extraordinário, pois esse vira exotico e o exotico vende, haja vista negros sequetrados e vendidos indiscriminadamente, indigenas expuulsos e escravizados em seu território, isso sem falar nos portadores de deficiencia, que precisam viver em uma cidade de ca;çadas egoistas, e p[essoas pouco dadas a colaboração, na minha cidade Fortaleza, quando chore, parecem Lágrimas de índio (Daniel Medina), que cata os bairros e exausta os nomes indigenas para deixar as claras a relação estreita do estado com os povos originários. Aqui, pasmem, tiveram sua existência negada e isso tem tudo haver com memória e também com a música de Medina que “arrasta Mondubim, Maraponga corda tonta e toda Aldeota se alaga, e diz que Jurema tá de mal de Iracema, que tá grávida da América do Sul”. Celso Pereira de Sá, ressalta que “finalmente, o interesse pela memória invade hoje a vida cotidiana de uma maneira talvez nunca antes , como já diagnosticado por diversos autores”. E diz mais, diz que “é nesse sentido que, a partir do exame de diferentes formulações – de variadas origens e níveis de análise – sobre a memória e construção de afins,  selecionados por sua especial pertinência para reconstrução psicossocial , propõe-se a presente circunscrição conceitual do domínio da memória social (…) e tal proposta envolve três preocupações principais, arrolam-se cinco princípios unificadores básicos, no campo da memória social que tem no conceito a segunda, onde “Memória social ” designa interior conjunto de fenômenos psicossociais da memória na sociedade e a terceira é que sugerem-se sete principais instâncias, sem serem excludentes para constituição de um mapeamento inicial”.

https://open.spotify.com/track/60giWQsgqHmX5C0hdmV6FQ?si=YAIwAvC7QjG0yKTOPhzglA&utm_source=whatsapp

E penso que haja aqui outras tantas questões, é que a memória é uma necessidade e por isso também um apelo. Mas, mas que memórias são essas, se não as das pessoas que contam essas histórias.  E Pereira de já não nos deixa esquecer que “o que é lembrado do passado está sempre mesclado com aquilo que se sabe sobre ele.”O mero conhecimento de que os fatos aconteceram e Cidadão Instigado, fala em Fortaleza que a  conhece desde o dia em que nasceu, e conta histórias de ser cria da varjota, bairro nobre da cidade e aí a música traz a tona essas “memórias no pensamento do tipo de “representações sociais”e daí temos Tião Carreiro e Pardinho cantando os Encantos da Natureza, ou No Dia em que saí de casa, de Zezé de Camargo , que tem o filme com direção de breno Silveira, que é bom em contar histórias e memórias, é dele tb o do Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, que também mata a gente de chorar. E são essas “histórias do grupo e suas memórias coletivas que desempenham papel importante na constituição do sistema central de uma representação.”

https://www.facebook.com/watch/?v=478934446068032

E o mais complexo dentro disso penso que seja pensar em todas as variantes motivacionais. Dizer que eu particularmente já conversei gravando, afora os infinitos e intensos papos sem câmera, com mais de 300 ArteVistas, e são diversos os contextos. Mas, para que fique mais claro vou compartilhar com vocês o quem chamamos de ArteVistas, você, por exemplo, que está aqui nesta terça, buscando entender melhor a cidade, para buscar os melhores caminhos para ela a partir dos agentes motivacionais de cada um.  Mas, é também ArteVista Telma Tremembé, qua lançou um livro narrando a percepção de uma indigena sobre o que aprendemos na escola a chamara de descobrimento do Brasil e mesmo hoje alguns ainda o celebram com entusiasmos de conquista, quando se trata de múltiplas derrotas, da natureza que somos, mas ai é outra pauta. O que me parece fato é que estou formada a muitos anos e quando entrei na faculdade já tinham alguns bons profissionais estudando esse lugar, mas ouvir um indigena falando sobre o seu lugar, me é novo e essa experiência cada vez mais constante, muito por que no processo de sermos esse lugar somos coletivos, e Marta Aurélia tem deixado o legado de muitos papos potentes incluindo muito indígenas, e como eu que recebo todes, tenho mesmo me preenchido de muitas histórias e assim também de muitas cidades e de mim, que faço parte dessa cidade, e da minha casa que faz parte dessa cidade e volto Jung e a relação com nossos vizinhos, sem transformá-los em nossas sombras. Não é que tudo esteja ruim, é que existem algumas estruturas solidificadas no caminho, mas ao contrário do que eu mesma disse não pode ser a base, pois as bases são elementares, quem traz o conceito é o homem, nós e nosso nessecidade de memórias, de construção de narrativa para busca desenfreada de explicar o que tá no campo do mistério. E a difícil aceitação sobre o óbvio de que somos uma totalidade, o entretenimento e meio de comunicação entenderam essa fórmula faz tempo. E nós gostamos de boas histórias, então espero que ainda haja alguém aqui. 

https://www.youtube.com/watch?v=OV4StlQh4ik

E tais as tais memórias pessoais onde cabe um Mucuripe de Belchior e Fagner, que não há nenhum problema não conhecer, mas essa música foi durante quase uma década um símbolo distante do que já foi Fortaleza, hoje com seu jangadeiros apertados em brechas de areia, e um Mucuripe que luta para existir, frente ao setor imobiliário de prédios altos na orla da cidade. 

https://youtu.be/evSIj_MkpKs

É que a memória social tem variadas instâncias, podendo ser vista como um conceito, mas pode também ser espontânea, e tem as memórias pessoais, que logicamente vão para além do indivíduo, já que habitamos um lugar e o compartilhamos, assim também compartilhamos memórias, diversas. E tem ainda as memórias comuns. O fato é que existe uma infinidade de memórias e todas elas passam por nós para ganhar, adeptos em ação, na construção das memórias do por vir. 

http://www.youtube.com/c/LugarArteVistasarteondeestiver

Mas, agora vou fechar dizendo que cada passo nesse espaço é nosso ex-passo e seguimos na geração de novos. Então vamos de atualizações, esse mês já temos 5 programas no canal e isso é lindo e de um conhecimento profundo. Neste mês de abril Martinha tá fazendo abril originário e Lorena Armond pensou em uma comunicação mais indigena, então eu estou aqui extasiada só absorvendo tantos conhecimentos e me percebendo em ações nesses lugares todos. Qual o meu papel no mundo eu não sei, mas o da Lugar ArteVistas é ser lugar para todes. que queiram chegar para contribuir com o lugar que habitamos de modo respeitoso. Silvinha vem arrasando com suas conversas que buscam desatar nós, e ontem eu conversei com uma mulherada linda. 

E tem mais chegando. Olha esse convite! Fui!

https://youtu.be/_z3dGWXcGIY

Gratidão a todos do grupo de estudo Ser Cidade É Coletivo, que compartilharam músicas.

O DESEJO É UM CORPO ILHADO

DERIVAS SOBRE O DESEJO, E A CRIAÇÃO DE UM FILME SOBRE RAÇA 

Por Kiko Alves

A construção do projeto saudade por vezes é interrompida por pura falta de perspectiva, cada vez que olho o problema ele se atualiza e cria uma série de outras reflexões, todas elas passam pela possibilidade de pensar um mundo, de recriar um mundo, que luta contra o racismo. 

Recentemente conheci uma personagem que me trouxe uma série de reflexões sobre o lugar da narrativa negra na literatura e sobretudo no cinema, mas antes ainda em contato com outro texto de Fred Moten e Stefano Harney, sobre a possibilidade do estudo como uma ferramenta para se pensar o futuro, a ideia central são os estudos negros, em “The Undercommons”, os autores criam uma brecha para repensarmos o estudo. 

Nessa ideia de repensar o estudo preto, compreendido aí como o estudo “sem finalidade”, o estudo que possibilita a fuga, que cria espaços de reflexões sobre a condição vivida por negras e negros sobretudo em torno do estudo, a fuga indefinida em meio a noite negra dos subcomuns. Estudar é fugir, como quando nos damos conta que há algo de condenado nessa realidade, e que não há portanto para onde fugir se não rumo à própria fuga, ao domínio opaco e impreciso, especulativo, que vai a todo momento confrontando o mundo visto e entendido. 

Voltando portanto ao desejo, encontro na personagem de Octavia Butler uma certa pulsação em busca dessa fuga, ou ela incorpora a fuga para permanecer e por tanto o desejo de vida, ou de habitar o pós apocalipse me coloca em estado de reflexão sobre por onde seguir na busca desse corpo e desse desejo. Lauren Olamina, personagem central do livro, “Parable of the Sower “, dá-se conta de que o mundo como lhe foi dado conhecer está por um fio. Lauren é hiperempata Isto é, tem a habilidade de absorver as dores e intensidades de todas as coisas vivas à sua volta, e isso, ao mesmo tempo em que a enfraquece parece permitir que ela se conecte com as forças que lhe cercam de maneira singular – uma conexão que se faz pela dor, num espaço afetivo compartilhado onde os efeitos das violências, dos eventos traumáticos, ainda que sufocantes, guardam também possibilidades de aprendizado. De estudo. 

A grande musa da Ficção científica, Octavia Butller, mesmo que não creditada pelo mundo branco, aponta uma ideia e uma possibilidade de mundo para os povos pretos, habitamos a diáspora desde 1500, mas como sugere Octávia precisamos fazer um exercício de pensar o

futuro de pensar a realidade que dura e que ao durar podemos ir raqueando a realidade para que possamos existir nesse mundo, pensar o futuro parte de uma reflexão e ação no presente. 

Nossa ancestralidade na apontava essa ideia, já narrado pelos contos Yorubá já existente no Brasil desde que começou o tráfico negreiro por essas terras, que fala “ Exù matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje””, essa saudação feita para o Orixá do movimento nós da pista de caminhos a se pensar sobre a construção de um mundo preto, narrar o passado, criando no presente para então que possamos criar um futuro para o povo preto. 

Este texto podia considerar-se o fecho de uma uma pequena série sobre a ideia da busca por um desejo não erotico de um diretor negro na esteticas cinematográfica, fico no entanto sempre “desejando” contiuar a analisar minhas errancias sobre o que poderia ser esse corpo posto em cena, e nesse fluxo questionar o que seria cinema negro e quem racializa meu cinema? Quem racializa minhas imagens? Eu ou o mundo que me coloca no lugar de falar apenas quanto narro a minha dor, sou autorizado a falar apenas de raça, quero continuar pensando com alguma profundidade a problemática da descolonização numa perspetiva decolonial. 

Em Crítica da Razão Negra, numa paródia à Crítica da Razão Pura de Kant, onde se demonstra a ligação estrutural entre o conceito da modernidade e o da colonialidade, e onde Mbembe teoriza sobre o que caracteriza como a negrificação do mundo e a planetarização desta condição que, segundo ele, extravasaria as fronteiras cromáticas cristalizadas nas identidades biológicas e sociológicas dos sujeitos racializados – e em que o negro é, no fundo, todo o deserdado do mundo como todos os colonizados eram os “danados da terra”, na acepção fanoniana e cesairiana. 

No entanto, apesar das várias encruzilhadas em que vou e levo meu texto, quero tentar terminar voltando a ideia da busca pelo desejo, para a construção desse filme, voltemos ao estudo como estratégia possível. 

Todo capítulo de Parable of the Sower inicia com versos de um outro livro, escrito por Lauren e chamado Earthseed: o livro das coisas que vivem . É uma teologia experimental que reorganiza a ideia de Deus e o narra como Mudança, força tão irresistível e inexorável quanto maleável e caótica: Deus existe para ser moldado, assim como o futuro. Narrar aqui as ideias da ficção especulativa pode parecer desconectado da ideia central que busco pelo desejo, no entanto aqui encontro uma possibilidade de pensar o desejo, como projeto futuro, criando narrativas nas encruzas do pensamento, repovoar o mundo de uma ideia diferente do desejo, (seria possível?), pode parecer anacrônico querer pensar repensar o

desejo em uma perspectiva negra, ainda assim tem me parecido o caminho mais correto nesse processo de busca pelo pertencimento, olho para o mundo e por vezes o vejo com olhos desencantados, e as questões surgem como pensar o desejo em um contexto de pandemia global, seria esse o caminho, qual quesão a comunidade negra deveria debater? O que interessa nesse momento da união? Unificar forças para combater o mal presente? Devemos aderir ao movimento goodvibes de apartamentos e lutar para o retorno a ideia de normalidade que estava posta? Normalidade para quem? 

Meu cinema é cinema, mas é também negro na medida que olho o mundo com esse marcador, não deixo de ser negro quanto penso, por tanto penso como negro, ou esse é o desejo pensar como negro, quanto penso o desejo no cinema e sobretudo no meu cinema ele é essecilamente politico por que o corpo negro no mundo e localizado, pelo estado, pela morte pela libido do branco e da branca, mas nenhum desses desejos salva a população negra ou de forma mas simples, esses desejos que são externos não lhe colocam nem mesmo como humanos se não sub humanos, mesmo quanto não narrado, então pensando por esse caminhos essas encruzilhadas do meu texto talvez reflita um pouco a dificuldade de pensar um mundo não branco, um desejo que não animaliza, de um desejo de potência, um desejo das coisas vivas e que habitam esse mundo. 

Minha atitude perante essa ideia tem sido a mesma de Lauren perante os livros velhos da biblioteca de casa: retorno a essas ideias, e autores, com a aposta de aprender, sempre com a ideia do estudo para a fuga, nas linhas e entrelinhas dos debates e nas zonas cinzentas da vida, perceber coisas que possam me ajudar a passar pelos tempos que se desenham. 

A grande sacada da ficção especulativa é a de representar do futuro aquilo que está já em jogo no presente, e o que está em jogo no presente é o futuro. 

Kiko Alves 

Março de 2021

Meu texto Sobre a Existência

Por Júlio César Martins Soares

O poeta Schiller numa série de cartas sobre a Educação estética do homem enfatiza que “a natureza não trata melhor os homens do que as demais obras, age em seu lugar, onde ele não pode agir por si mesmo como inteligência livre. O que o faz homem, porém, é justamente não bastar com o que dele a natureza fez”.

No sentido estrito da arte Schiller apontar para a ideia de que “nas asas da imaginação o homem abandona os limites estreitos do presente, em que o encerra a mera animalidade, para empenhar-se por um futuro ilimitado”, onde encontra toda a busca do existir em plenitude, em toda a busca pela perfeição. Por perfeição aqui não se entende no sentido estrito da palavra e como julga o senso comum, como algo pronto e acabado, mas numa vertente em afirmar que a junção de per + facere (por+ fazer) indica-nos o caminho de verificar que é algo que está por fazer, em construção, ad aeternum, em contínuo fazimento. De que o sujeito está produzindo constantemente sua história de vida.

Noção parecida, no entanto, pode ser encontrada na afirmação heraclitiana que nos propõe uma possibilidade ainda maior no sentido de que tudo é um constante devir e um eterno vir a ser, esse pensamento aponta para o conceito de uma construção gradativa e perene, de uma fabricação permanente que renovando permanece, que constantemente se afirma e se constrói. Desta forma, retornamos aos primeiros filósofos na concepção de vida como uma luta constante, de um eterno embate de forças contrárias do finito em relação ao infinito, do uno em relação ao todo, do homem em relação à vida.

Ainda, recordo Nietzsche que afirmava a ideia do filósofo deixar ressoar em si a consonância do mundo, para então extraí-lo em conceitos tornando-se contemplativo como o artista plástico, compassivo como o religioso e ansioso por fins e causalidades como o homem da ciência. Ao pensar essa tripartição: homem, filosofia e existência, acredito cada vez mais a necessidade de não ser possível um autoconhecimento que ultrapasse os caminhos da filosofia, sendo mais exato, creio não haver autoconhecimento que não palmilhe as sendas filosóficas, mas acredito mais ainda que não adianta conhecer-se muito ou ter uma existência longa sem ter tido o prazer de amar o outro.

Não sou feio nem bonito, nem artista, nem poeta, tenho o rosto do infinito e uma alma sempre inquieta. Sou inquieto o tempo inteiro, canção nenhuma me revela, sei que o amor não dorme, nem cochila, sempre vela.
Sou goiano. Poeta. Filósofo. Casado. Marido da Alana. Pai do Pedro Antônio e Benjamim. Psicanalista e mestre em educação. Tenho um perfil no Instagram @casamentopoetico em que falo de amor e poesia, porque acredito que o amor jamais morre, sempre vence.

Mãe!

Por Alana Alencar

Enquanto pensava em como começar a escrever esse texto… ouvi incontáveis e incansáveis vezes essa palavra que me torna cada dia maior. Maior no sentido abstrato da importância que a palavra carrega; maior no sentido figurado diante de sua função estrutural que é ser mãe. Cada vez que me sinto implicada a responder ao apelo do meu filho, sinto um desdobramento que requer o assumir de uma nova persona; uma persona capaz de lidar com a exigência que se faz necessária naquele instante. A persona professora, protetora, psicóloga amadora, cozinheira, costureira, outras eiras e a persona que também fracassa. A que limpa, que alisa, que atende, e que ignora. A que não cansa, não dorme, não cede, mas que também se sabe exausta. A que grita, chora, canta e que também sorri por horas tentando “segurar a barra” de ser, de alguma forma, sempre a mesma. Aquela que transmite pelo olhar uma compreensão que, apesar de tudo, compreende… porque alimenta o ser da cria em cada responder, incontáveis e incansáveis vezes.
Escrever sobre esse lugar de mãe, me instiga a pensar sobre a importância de não separar a minha construção, dos outros lugares que também ocupo. Escrevi no poema Materna que meu seio, parte do meu corpo dado a existir, é, além de maternal, luxuriante; e que minhas necessidades estão para além de dar colo.


Costumo dizer que mãe boa é mãe feliz; que tentar acertar sempre é o maior erro que podemos cometer. Tenho traçado diversos paralelos ao longo da minha experiência de filha e mãe e percebo o quanto é necessário que nos desapeguemos das exigências (i)morais que a sociedade nos coloca de como “uma mãe deve ser”. Penso que mãe só tem que ser a mãe que pode ser; e isso é pulsional. Cada um responde de uma forma diferente. Não é jogo, portanto, não há regra.

Alana G. Alencar

Poetisa 

Terça de Não Carnaval

Nesta terça carnavalesca do não carnaval, o texto não é meu mas de Leo Machado, com quem conversei, na segunda da semana passada, junto com Zé Filho e Robinho e foi massa. Fiquemos com a reflexão de Leo, que mesmo em ano não carnavalesco faz sentido.

A gliterização do carnaval de Salvador

Por Leonardo Machado

Quarta feira de cinzas. O último trio passou. Só dá tempo para uma saideira e um pouco de descanso para voltar a dura realidade da vida. Tudo vai embora junto com o último trio da quarta, menos o glitter. A porra do glitter não sai. Já estamos no segundo dia pós carnavral e eu ainda não consegui me livrar dessa zorra.

Já foi carnaval, cidade. Satanás vai pra Porto Seguro e Jesus volta pra Salvador para começar a reorganizar as coisas. A primeira coisa que ele faz é dialogar com o prefeito para convencê-lo a não esticar a festa. Uma boa ação. Acredite: o prefeito não te ama e quer te matar de cirrose.

A cada término do carnaval vem uma polêmica a ser discutida no trabalho, em bares, redes sociais e coletivos.

A bola da vez é: A viadagem no carnaval de Salvador.

O velho e cansado papo que sempre começa assim: eu não tenho nada contra gay, maaaaaaas….

Eu já fui um desses caras, heteronormativo privilegiado que fazia cara feia quando o Crocodilo passava. Até descobrir que alguns amigos de infância já tinham se assumido gay para as amigas e escondido dos amigos, tipo eu.

Diante do exposto eu comecei a questionar.

Porque eles estão fazendo isso?

Será que eles não confiam em mim?

Aos poucos eu fui percebendo o quanto era difícil para meus amigos gays essa aproximação. E que nós (héteros) levantamos esse muro.

Minha primeira empatia com a causa foi tomando uma cerveja com um amigo que conheço desde molequinho, lá no condomínio que eu morava. Francisco, apelidado por mim como Chicão, estava abalado psicologicamente por um namoro mal sucedido que ele teve com um cara. Estávamos lá. Apenas eu e ele. Bebendo uma cerveja e dialogando sobre o romance que acabou. Ouvindo meu amigo atentamente me vejo levemente emocionado porque estava passando pelo mesmo cenário. Tava recém terminado com Gabi(minha namorada na época), relacionamento de 7 anos. A dor de Chicão era a minha dor, éramos todos iguais naquela noite.
Chico falou sobre o sexo deles, o que eles gostavam de fazer juntos, das brigas e das resenhas. E eu na gaiatice disse:

  • Porra Chico é a primeira vez bato um papo gay. Que estranho, né?

E ele riu.

Outra personagem que me fez ter sensibilidade sobre a causa foi Carol. Ela tinha uma marca de camisa chamada “Oxe Véi” e eu comprava sempre alguma novidade na mão dela. Teve um dia que eu fui na casa dela para pegar uma das milhares de camisas que eu tenho. Sou convidado para entrar e vejo uma casa toda cheia de cor. Estava ela e Geo(sua namorada) no cantinho da varanda finalizando uma embalagem. Não sei porque, mas ao entrar na casa delas eu senti uma leveza surreal. Não demorei muito lá, mas foi o suficiente para entrar no carro pensando: que bacana o namoro dessas meninas.

Eu vi a beleza em uma forma de amor pelo qual eu não estou inserido. E afirmo queridos ouvintes: É possível!

Um tempo depois Carolzinha descobriu um câncer e com a firmeza de uma mulher partiu pra dentro dessa doença escrota. Eu via tudo de longe porque nunca fui íntimo das meninas, mas ficava numa torcida grande. Parecia que eu tava vendo uma novela. Eu só queria que no final tudo desse certo e elas ficassem juntas. E ficaram. Carol venceu o câncer, casou com Geo e escreveu um livro lindo sobre tudo isso.

E eu comprei, claro!

https://gramho.com/explore-hashtag/CarolinaMagalh%C3%A3es

Tem uma passagem dedicada só ao amor das duas, que ao ler, chorei.

Chico, Geo e Carol indiretamente me fizeram ter sensibilidade. Já não sou o cara que fazia cara feia ao ver o trio de Daniela Mercury. Eu sou o cara que ao som de Maimbê Dandá, com um lata de cerveja quente na mão, dança e mentalmente fala para os foliões do bloco: arrasem, amem, pulem, vibrem, sintam. O carnaval é de vocês também.

A polêmica sobre a vultosidade do gay na folia é a trágica fala privilegiada de quem quer manter seu privilégio.

Antes o carnaval era palco da chuparinação dos héteros, hoje o bolo está sendo repartido.
E isso incomoda.

Vazou um vídeo de uma mulher de outro estado que veio para Bahia curtir o carnaval. Ela, revoltada grita que nunca mais vem pra terra da folia porque só tem viado. Provavelmente ela gastou uma boa grana para curtir o carnaval, mas não comeu ninguém.
Essa senhora deveria seguir os conselhos do velho Raul Seixas.

Tente outra vez!

Até porque há uma voz que CANTA, uma voz que DANÇA e uma voz que GIRA pairando no ar.

Reparem…

Essa frase de Raulzito é bem “Largadinho” né?

Um velho amigo conversando comigo disse que se incomodava com a putaria que a comunidade LGBT tava promovendo no carnaval.
Beijo de tripo, quádruplo. Um em cima, um em baixo, um puxando e o outro vai, aí ai ai.

Rindo, questiono ele daquela vez que a gente pegou 3 mulheres de vez na Ondina no carnaval de outras épocas e ele fica sem resposta. Não satisfeito pergunto daquela vez que a gente ajudou um amigo a escalar um camarote para beijar uma menina que tava lá em cima e ele meio que sem graça responde:

  • Mas aí é diferente.

E eu retruco:

  • Isso se chama privilégio masculino. Bem vindo ao seu mundo.

Entendam…
A inserção do gay na avenida é um ato revolucionário, político, de amor.

É um grito!

De forma extrovertida eles e elas estão dizendo: Não nos machuquem, nos respeitem, não nos mate, é só amor, a gente EXISTE.

É só isso. Enxerguem o belo. Como eu havia dito: é possível.

É tão bom cair na folia e encontrar com Chicão, Thiagão, Luis, Jorge, Pitoco, Thales e outros mais.
Eles estão sempre com uma fantasia foda, uma mensagem bacana, 1 kg de purpurina no corpo e quase bêbados(que nem eu).

Fica a dica: Se você não é capaz de aceitar que essa galera veio pra ficar creio que seja melhor procurar outros locais para curtir a temporada de festa. Soube que no Alaska o carnaval é bem bacana. Fica bem pertinho. Fica lá na casa da disgraça a direita.
Não pense duas vezes, reúna seus amigos, dividam a passagem em 40 vezes no Hipercard e sintam o calor do carnaval do Alaska.

Eu sou a favor da gliterização do carnaval.

Essa galera é massa.

Você já viu uma linha de 10 viado de frente pra uma linha de 15 esperando Ivete largar um “vai buscar Dalila” pra sair na mão? Eu nunca vi!

Você já viu a polícia ter que atuar numa briga generalizada de gays? Nunca houve!
Nem o programa do Bocão conseguiu mostrar.

Você já viu um taxista, moto taxista, Uber, dono de hostel, hotel ou apartamento reclamar porque boa parte dos seus clientes são gays?

Entendam…
A moeda tá circulando na cidade. Isso gera emprego e renda. Essa galera, inclusive, tá ajudando a melhoria da financeira da tia do isopor que tá lá ralando pra caramba sob condições humilhantes.

Portanto, largue de ser trouxa e saia da bolha. E digo mais: Não ouse contrapor essa rapaziada fisicamente. Eles são muitos, aprenderam arte marcial e estão fazendo academia.

O mundo machista não irá perdoar ver você voltando pra casa marcado por um cruzado de purpurina na ponta do queixo ou uma chave de glitter. Seria um nocaute e tanto.

Por fim…

Voltando pra casa na segunda de carnaval, no final do circuito Barra – Ondina, mais precisamente conhecido como monumento das gordinhas, ao abaixar as cordas do trio de Daniela Mercury presenciei um turma de 30 abraçados e gritando algo do tipo: aí que delícia, que delícia é ser viado.

Eu, com minha cerveja quente, observo tudo e solto um riso de aprovação. Que massa. Isso é carnaval.

Sabe o que eu quero?

Eu quero tudo!

Ou melhor…

Não quero nada!

Não quero 8 nem 80, eu quero o bloco do prazer.

E quem não vai querer?

Texto de Léo Machado – Eterno folião, hétero e apoiador da gliterização do carnaval de Salvador.