Siririca

Por Indyra Gonçalves

Sextou e hoje o papo é quente, molhado e gostoso. É de deixar mente e corpo leves, soltos e felizes. É uma conversa sobre corpo, autoconhecimento e prazer. Um massagear de dedos, vários toques lentos ou acelerados, uma valsa para a felicidade por meio do clitóris. Então, sejam muito bem-vindas, mulheres, em especial, para um mergulho na masturbação feminina. Um lugar que está, cada vez mais, sendo descoberto e explorado por nós, mesmo que ainda encontre alguns tabus, medos, vergonha e desconhecimento. Acima de tudo, quero que possamos repensar o feminino, no caso, através da sexualidade.

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Foto: banco de imagens gratuitas

A escolha do tema para esta semana é resultado da leitura do livro “Coisa de menina? Uma conversa sobre gênero, sexualidade, maternidade e feminino” publicação de uma conversa entre os psicanalistas Maria Homem e Contardo Calligaris.

Quero ainda compartilhar com vocês a minha experiência como mulher nesse processo de conhecimento sobre o meu próprio corpo e a prática da masturbação. Mesmo sendo uma mulher feminista, falar da minha sexualidade, especialmente de forma tão aberta, é um desafio. Porém, é importante. A naturalização dos processos que temos com o nosso corpo precisa ser conversado, seja num blog, em um vídeo na rede social, em um podcast ou numa roda de conversa na universidade é fundamental que nós mulheres tenhamos um diálogo aberto e franco sobre este lugar.

O título para este post é resultado de um papo offline com outras mulheres em uma noite de risadas, cervejas e cigarros, onde debatemos várias questões sobre sexualidade da mulher e a siririca foi citada como o mais prazeroso e autêntico nome para a masturbação feminina. Então, em respeito a voz delas (a nossa) eis que vamos falar da deliciosa siririca.

Antes de iniciarmos o papo sobre as maravilhas para corpo e alma da masturbação na vida de nós mulheres, relembro aqui um pouco de alguns capítulos sem nenhum prazer sobre o tratamento perverso dado à masturbação feminina ao longo dos séculos. Por muitas e muitas gerações, infelizmente até hoje em alguns países, o nosso prazer foi e é severamente encarado pelas sociedades e pelas religiões como algo negativo e diabólico. No livro, Contardo detalha como a psiquiatria, no início do século XIX “curava” a masturbação feminina: “queimando com um ferro quente, um ferro vermelho, o clitóris das meninas de 10 ou 11 anos. E sem anestesia”. Para os garotos que praticavam a masturbação as mãos eram amarradas, “embora ninguém tenha pensado em queimar os pintos deles com um ferro quente”.

Um outro processo perverso citado pelos psicanalistas no livro é a clitoridectomia: circuncisão feminina, praticada até hoje. No início dessa década, Waris Dirie, modelo e ativista contra a mutilação genital feminina, lançou, em parceria com Cathleen Miller, o livro Flor do deserto. A obra conta a cruel, dolorosa e perversa realidade de Waris, que aos cinco anos foi circuncidada em um pequeno vilarejo na Somália, a sua fuga de um casamento com um homem bem mais velho aos 13 anos, os diversos abusos sexuais e físicos, a escravidão na Inglaterra, além da relação negativa que ela criou com o próprio corpo por muito tempo devido às brutais violências sofridas ao longo de sua vida. A modelo conta que teve dificuldade de mostrar seu corpo para ser fotografado e também de expor ao mundo que era vítima de mutilação feminina.

livro flor do deserto

Livro Flor do Deserto. Waris Dirie e Cathleen Miller

Não é possível nem imaginar o tamanho da dor, da humilhação, da falta de respeito e humanidade que todas essas mulheres passaram e passam em processos bárbaros de mutilação genital. Infelizmente, o sofrimento com essa violência ainda é uma realidade para cerca de 200 milhões de meninas e mulheres, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU),  principalmente na África e no Oriente Médio.

A masturbação feminina é, portanto, muito mais do que um caminho de prazer para nós mulheres. É um ato político, de coragem e de libertação. Tocar o próprio corpo, se ver no espelho é revolucionário. Ela representa a construção e desconstrução das várias mulheres que somos, que desejamos ser. É um caminho importante de autoconhecimento do nosso corpo. Aprendemos a decidir o que nos traz prazer e o que existe apenas para agradar o outro. 

Siririca faz muito bem à saúde. É um momento de conexão entre nós e o nosso corpo. Ela nos faz trilhar o caminho para o orgasmo, alivia tensões causadas pelo estresse, melhora o libido e, especialmente, libera a puta reprimida de nossas almas. A puta é a nossa liberdade sexual. A decisão de nós com os nossos corpos.

O primeiro passo, como cita Maria Homem em seu canal no YouTube (vídeo abaixo), onde fala sobre masturbação feminina, é o olhar para o corpo diante do espelho. É mapear, conhecer. É olhar para o nosso corpo e descobrir o que nos dá prazer, quem somos.

Vídeo: Sexualidade feminina – masturbação https://www.youtube.com/watch?v=ckRTD5km7nI 

Assim como numa dança, a masturbação é um passo a passo. Mesmo para quem não sabe dançar, aprende, se entrega à melodia. De repente, liberamos o “putão” eufórico que está dentro de nós. Daí, quando vemos, estamos dançando, em delírio, relaxamento, sentindo prazer. 

Dedos suaves que dançam no clitóris. Passos rápidos e leves. Sobe, desce. A música começou. É poesia, prazer, entrega. É você caminhando pelo seu corpo numa aventura cheia de conhecimento. É você sabendo a grandeza que tem. É liberdade. 

Coisa mais bonita – Flaira Ferro (https://www.youtube.com/watch?v=4W8Jo-4IqcQ

Tempestade

Por Marcelina Acácio

Posso eu queixar-me do vento?!

Se os ventos de agora

são sempre os melhores,

apesar dos tempos.

Como os ventos de outrora

eram os melhores à época

em que corriam

entre o ondular

dos meus cabelos.

Como posso eu queixar-me do vento?!

Se é o vento que me alimenta

as tempestades.

 

Nota: Quando preciso ser prática, acabo por escrever um poema, não é intencional, eu sofro disso. Eu sento com um propósito, aí se passa um vento, eu falho no propósito, subitamente me distraio. É que eu nasci com excesso de vento, excesso de coisas. Não cabe dentro. Espirro, cago, cuspo, respiro, jogo o ar pra dentro, encho o peito, jogo tudo pra fora.

E repito isso, excessivas vezes.

O Cinema por Janaina Alencar

Sou Janaina Alencar, e desde que Roberta voltou do Rio para Fortaleza, já faz alguns anos, faço parte do Lugar ArteVistas. Neste Lugar sou responsável pelo jurídico, mas também ajudo Beta com maquiagem, figurino e apoio moral para a gravação dos programas! rsrsrsrsrs

Amo a 7ª arte! Sou frequentadora assídua das salas de cinema, e semanalmente me esforço para assistir os filmes em cartaz, de variados gêneros.

Em 2020, recebi o desafio de escrever uma resenha semanal, aos domingos, sobre CINEMA.
E já que estamos na temporada de premiações: Golden Globe, Critic’s Choice, Sag Awards e o Oscar, principal premiação do Cinema, não faltará resenha para as próximas semanas.
Nesta época, fico numa corrida maluca para conseguir ver todos os filmes indicados até o dia da entrega do Oscar, que este ano será dia 09 de fevereiro. São muitos filmes, alguns têm estreia prevista para depois da cerimônia do Oscar, então procuro em streamings e em todos os meios possíveis de conseguir ver, pelo menos os indicados a melhor filme,
porque o ideal, para mim, é conseguir ver, também, os que levam indicação de melhor atriz, melhor ator, melhor atriz coadjuvante, melhor ator coadjuvante e melhor diretor.
São 09 os indicados para melhor filme: O Irlandês, Ford vs Ferrari, 1917, Coringa, Era uma Vez em… Hollywood, Parasita, História de um Casamento, Jojo Rabbit e Adoráveis Mulheres.
Dos 09 indicados, já vi 05 (O Irlandês, Coringa, Era uma Vez em… Hollywood, História de um Casamento e Parasita) e verei os outros 04 em breve.
Aqui trarei para vocês comentários sobre os filmes, como telespectadora, (não tenho expertise para ser critica!), com opiniões sobre os mesmos e dando nota de 0 a 10.
Até aqui, minha torcida fervorosa é para o Coringa! Melhor filme que vi nos últimos tempos! Um retrato real e cruel da nossa sociedade, de como podemos destruir as pessoas quando as desprezamos, de como a invisibilidade e a falta de empatia podem minar a esperança de alguém.
Joaquim Phoenix, um dos indicados ao prêmio de melhor ator, está espetacular! Nos fazendo sentir dor e dó somente em olhar para ele! Ele já ganhou o Golden Globe e o Critic’s Choice, e eu espero que o Oscar seja dele. Nota 10!
Por hoje é só! Até a próxima!

Seja forte

Por Indyra Gonçalves

Estou muito feliz em voltar a este Lugar que está no meu coração e na minha vida. Especialmente por meio das palavras, que são o meu refúgio, a minha força e o meu sentir sobre a vida. Voltar com um novo ano começando é ainda mais gostoso, porque naturalmente também estamos reiniciando os nossos planos, sonhos e passos. Também estamos começando o que será a primeira vez em nossa jornada, o que ainda precisa ser conquistado, os tantos caminhos a serem feitos e uma nova vida. Entendo que a despedida de um ano significa gratidão por tudo o que foi vivido e aprendido. E o ano novo, bem, ele é um caminho novo.

As ideias estão como frutas sendo batidas em um liquidificador em minha cabeça: sobrando assunto para desenhar em forma de texto, mas tudo misturado e sem organização. Então, em um deslizar no feed, nas redes sociais, me deparei com o trecho da novela Amor de mãe, da Globo, em que Lourdes (interpretada por Regina Casé) conversa com a filha Camila (interpretada por Jéssica Ellen) num quarto de hospital, após a filha sofrer um tiro e descobrir que está grávida. A mãe, na tentativa natural de consolar a filha, diz: Camila, tu vai aguentar. Tu é forte! Em lágrimas, numa mistura de revolta e tristeza, a personagem Camila faz um forte e emocionante desabafo, onde reconhece sua força, mas, especialmente, mostra que está cansada desse lugar e questiona: Eu não vou poder ser fraca? Nenhum dia? Nem uma vez na minha vida? Não vou poder? Eu estou cansada.

Assista ao trecho completo do diálogo na novela Amor de mãe. Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=d7arTaUGe1A.

O vídeo já viralizou na internet. Minha torcida é que pessoas que compartilharam, em especial as minorias citadas nele, tenham sido afetadas pelos questionamentos de Camila de forma a refletir e, acima de tudo, se perguntar o que está sendo feito, realmente, para mudar essa realidade. Desejo ainda que as pessoas que não fazem parte de nenhum dos universos citados por ela abracem essas dores de forma empática. Acredito que não é possível se colocar no lugar do outro. Esse é um lugar individual. Mas é extremamente possível construir uma espaço mais justo e com perspectivas de coletivo.

Retomando as problemáticas do vídeo aqui na minha cabeça e na minha alma, cada pergunta da personagem está martelando. Elas vêm e voltam na reflexão sobre essa força que nos é colocada diariamente, o tempo todo. É quase um mantra universal: “Você é forte. Você é forte. Você é forte”. E para cada nova queda, decepção, vidas perdidas, perda dos sonhos nos dizem que somos fortes. Por algumas experiências e pelos tantos desafios que a vida nos coloca cotidianamente, eu acredito muito nisso. Sou uma mulher muito forte e conheço outras tantas mulheres (pessoas) fortes. Mas o tempo todo é impossível manter tal linearidade ou ter os mesmos sentimentos. Vivo dizendo: para sempre e nunca são muito tempo.

De vez em quando, a gente cansa. Talvez, nosso cansaço seja maior do que aquele que mostramos, pois, ao usar os filtros de embelezamento das redes sociais, mascaramos o nosso verdadeiro estado de cansaço. Não há vida perfeita. Não há felicidade eterna, assim como tristeza. Não há quem suporte às tantas pancadas da vida o tempo todo. Uma hora, um dia ou vários a gente cansa. A nossa mente e o nosso corpo cansam. Aos montes pessoas procuram profissionais porque sofrem de esgotamento emocional. Estamos exaustos de ficarmos sem tempo para uma pausa, um colo, um abraço, admitir que dói, que machuca. Fadados de ter que lutar todos os dias para comer, receber, ser respeitados, não ter medo. Então, estamos cansados. 

Camila também está cansada. E em seus questionamentos, ela chama atenção sobre o desafio de estudar e ser pobre. Em situação de muita dignidade e dificuldades, a minha família sempre pode pagar pelos meus estudos. Em outros momentos, trabalhei e eu mesmo paguei. Mas esta é uma realidade de poucos, infelizmente. Agora, imagine você, a evasão escolar no Brasil é oito vezes maior entre jovens de famílias pobres, que vivem nas regiões Norte e Nordeste. Um dos maiores motivos para isso é a falta de condições dignas dessas famílias de mandar os filhos para a escola ou, não menos pior, essas crianças pararem de estudar para trabalhar e ajudar em casa. É uma realidade cruel e desonesta. Mesmo diante desse cenário de desigualdade muitos sobrevivem fortes. Sobrevivem porque isso não é viver. Dignidade não pode ser uma opção. É um direito universal, que nem viver. Porém, é cansativo numa balança social tão desigual. Ser forte é um ato de coragem.

Camila segue, dentre tantos outros pontos importantes para reflexão e ação, e coloca seu lugar de mulher, mulher preta. Mulheres negras e pobres são as maiores vítimas de violência doméstica no Brasil. Na lista de horrores, elas também lideram como maiores vítimas de homicídio e feminicídio. São elas que também estão em maior número denunciando as constantes agressões sofridas. De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública,1.206 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2018, dessas, 61% eram mulheres negras. As diversas Camilas são muito fortes, mas estão cansadas. É uma luta desigual. Os números contra são altos, especialmente para mulheres negras.

Em seu desabafo, melhor grito, Camila fala com todas nós. Ela fala desse nosso lugar de mulher que não tem tempo para pausar a luta por respeito. Eu tenho que ser forte porque eu sou mulher. Eu sou mulher e pra mulher é tudo mais difícil. Tem sempre que aguentar um babaca olhando pro meu peito, ao invés de prestar atenção no que tenho a dizer. Camila, tamu junta! A gente é forte mesmo! Na verdade, somos mais fortes do que podemos imaginar. Mas o tempo todo é puxado. Respeito e dignidade são direitos básicos. Não deveríamos estar exigindo isso o tempo todo. Isso nos leva à exaustão. Precisamos estar fracas em alguns momentos, “humano demasiado humano”, como descreve Nietzsche. As limitações fazem parte do nosso DNA, seja branco ou preto; homem ou mulher. Mas o direito de estar esgotado é para quem pode.

As lágrimas de Camila parecem não ter fim. E eu entendo você, Camila. A cena de novela, mas tão real, é curta, mas o desabafo de Camila é histórico. Imagine você, Camila é mulher, pobre, preta e professora na periferia. Em mais um ranking de maus lençóis, o Brasil lidera também o maior índice de violência contra professores. Em São Paulo, uma pesquisa do Sindicato de Professores, realizada em 2018, mostra que 50% dos docentes da rede estadual já sofreram algum tipo de agressão. Gal Costa, na música Divino maravilhoso diz: ”É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte”. Mas quanto tempo ainda aguentaremos ser fortes?

música Divino Maravilhoso, interpretação Gal Costa: https://www.youtube.com/watch?v=QkiPSMrFoG0

A Ilha Solitária

Por Marcelina Acácio.

Sábado, 11 de Janeiro de 2020.

Entrei num café na Ana Bilhar, e encontrei boa parte dos clientes escrevendo ou lendo alguma coisa, de modo que eu também quis fazê-lo. Saquei da bolsa caneta e caderno e pus-me a escrever.

Pedi um bolo de cenoura com calda de chocolate e um cappuccino com cobertura de chocolate e canela, o excesso se explica porque eu estou numa TPM infernal, e em crise.

Na verdade eu saíra de casa a fim de me reunir com duas amigas, para tratar dentre outras coisas de assuntos relacionados a trabalho. No entanto, não me senti bem e quis ficar sozinha.

Lembrei de uma vez na Praça do Ferreira, quando eu invadi o silêncio de um rapaz sentado num banco. Ele me disse não se sentir bem naquele dia, e que teria ido à praça para ficar sozinho, e mais, que era um hábito seu ir a locais de fluxo para estar consigo. Eu o entendi perfeitamente. Ocorre que, especialmente nas grandes capitais, não passamos de ilhas solitárias. E eu me sinto essa imensidão de areia branca e água salgada, isolada do resto do mundo.

Essa era a intenção quando decidi sair de um encontro a três, num sábado à tarde, para ir a um café, ficar sozinha.

E além do mais, eu não confio em quem não suporta a própria companhia, e não aprecia a solidão.

Dos momentos de plenitude que eu já vivi, e eu me lembro bem, eu estava sozinha, um deles foi em Jericoacoara, em 2016, quando fiz paragem de 10 meses na ilha do amor ou da perdição, para viver um estilo de vida diferente do que até então eu vivera. Eu morava só, numa casa subterrânea, cujas janelas davam para um imenso terreno, ao lado de enormes dunas brancas. Eu era feliz só em olhar através da janela. Armava a rede, e me punha a balançar. Quando não, ficava a observar o tempo, esperando um poema passar.

E um dia, enquanto exercitava o olhar e contemplava a beleza de tudo que ali estava, me dei conta de que o que eu precisava não estava no outro, ou no mundo, que a minha questão não era geográfica, como eu pensava, mas que tudo estava em mim, que o meu corpo era a minha casa no mundo, e eu me senti sublime. Foi irreversível porque eu sempre me lembrarei desse dia.

De volta ao café, aos poucos o ambiente foi se enchendo e já não me apetecia mais estar ali.

Os 30 minutos, aproximadamente, que eu passei lá, em que experimentei ficar numa ilha solitária, foram o suficiente para eu encontrar comigo naquela mesa, sem que tivéssemos marcado, como eu sempre faço. E foi o melhor que eu pude fazer por mim aquela tarde.

Coisas de Tempo e Vento

Por Marcelina Acácio.

Quero começar me apresentando.

Sou uma ArteVista a long time a go, minha natureza ventaniosa me faz voar, daí eu voo e volto pelos ares, e pelas artes.

Foi em 2015 quando fui apresentada e convidada para integrar o projeto/sonho Lugar ArteVistas, naquele ano decidira deixar para trás a carreira nada promissora na administração, coisa para a qual não nasci, já que me descobri demasiadamente humana para exercer as funções que me designavam.

Levei um bom tempo acreditando que seria feliz tendo uma casa própria, trabalhando exaustivamente, com filhos e marido, sendo administradora de um lar. Essas coisas que a sociedade prega e você acredita.

No entanto, minha alma de poeta, nada feliz, e sempre inquieta me fez mudar o rumo do caminho. Sabia que a arte precisava de mim, e eu não poderia mais viver sem ela.

Hoje, com 31 anos, integro o coletivo de teatro feminista As Filhas da Mãe, escrevo poesias para não sucumbir, e escreverei a partir de hoje para o blog Lugar ArteVistas, escritas que chamarei de “COISAS DE TEMPO E VENTO”.

E a partir daqui, o que de fato interessa…

Confesso que levei dias pensando sobre o tema do meu primeiro texto para o blog. Pensar na escrita e desenvolver um texto é uma tarefa árdua, pois ela, a palavra, tem vontade própria, nem sempre sai quando queremos, mas quando necessitamos é que ela vem.

Aproveitei o feriado de final de ano e viajei para o sertão onde nasci, com o intuito de fugir da agitação da urbe, e voltar às minhas raízes.

Levei comigo “O Quarto de Despejo – diário de uma favelada” de Carolina Maria de Jesus, convicta que a leitura me ajudaria no processo criativo do texto, o livro é muito inspirador, sem dúvida, mas ainda não era sobre ele que queria falar.

Foram sete dias sem nenhuma comunicação, sinal de celular, ou mensagem pelo Whatsapp, Instagram ou Facebook.

Aproveitei para contemplar as pequenas coisas.

O trabalho das formigas, as cores do céu, as folhas que brotaram com as primeiras chuvas do solstício de verão etc. Eu não podia fazer nada, a não ser ver a vida acontecendo. A paz me era tão incomum que eu não sabia o que fazer com ela. Na observação, percebi que a matéria viva para a escrita é a própria vida acontecendo, e que é difícil diante da vastidão da vida eleger fatos para discorrer sobre eles, é preciso estar sensível para a delicadeza dessa descoberta.

Depois desta descoberta, recebi um presente de ano novo do João, meu sobrinho de 07 anos, depois de tê-lo feito uma pergunta, me respondeu:

– Eu não tenho tempo!

A resposta me estarreceu, ao que eu respondi:

– Mas o que você faz tanto para não ter tempo?

Ele imediatamente:

– Eu brinco com os cachorros, jogo, assisto desenho, brinco com o Gabriel e mais um monte de coisa.

As crianças sempre falam a verdade, porque dizem o que sentem, e senti, ouvindo o João, que era sobre o tempo que eu queria falar. O tempo é um Orixá, que detém a força da própria vida, nasceu junto com a existência do mundo, e todas as respostas estão nele, então, desejo que gastemos bem o nosso tempo, neste e nos anos vindouros. Feliz travessia para todos nós, e um próspero ano todo.

Mel e fel de respeitar

                                                                                                                       Por Indyra Gonçalves

Respeitar é uma prática difícil. É um exercício que exige olhar para si mesmo e olhar o outro. Leva tempo para aprender a respeitar, sem nunca chegar a perfeição (na minha opinião, ela não existe em nenhuma situação. Também é uma condição de opressão). É doloroso ao mesmo tempo em que é libertador.

Dos aprendizados e das vivências que a vida tem me dado, o respeito é o mais complicado de colocar em prática. Naturalmente, temos o instinto de querer moldar, determinar e achar que a nossa verdade é a verdade certa para viver a vida (será que que existe uma certa?). Grande engano. Aliás, um engano que nos coloca no lugar do opressor, porque assim como quem quer nos impor suas preferências, fazemos o mesmo com os outros quando impomos as nossas sobre eles. Com respeito criamos trocas. Construímos relações. Possibilitamos crescimento.

Lembro de ter lido um desabafo da atriz Taís Araújo, atuante na defesa dos direitos das mulheres e do povo negro, além de outras bandeiras das minorias, sobre a preferência de sua filha por bonecas e princesas. Ela descreveu como “parece piada” que a filha aja de maneira contrária ao que ela defende. Na fala da atriz foi possível sentir um pouco da sua falta de compreensão de tal prática e também um tanto de desespero pelas escolhas da filha.

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Tradução: silêncio e respeito​
Ao mesmo tempo em que a atriz se via naquela situação contrária ao que defende, ela também falou da importância de respeitar, aprender e ensinar com tudo aquilo. Eis a grande chave dessa nossa passagem por esse mundo, o respeito.

Amar e estar perto daquilo que parece com a gente é bom e fácil. Afinal, todos temos um pouco de Narciso, somos auto admiradores do que somos e temos, onde o espelho é o melhor e mais fiel companheiro. Respeitar entra como a quebra do espelho ou, pelo menos, um olhar mais amplo do que a própria imagem. É complicado. É difícil. Exige se reinventar.respeito 4

E é sobre esse processo de se reinventar que escrevo. Desejo colocar para fora esse sentimento de confusão entre teoria e prática do respeito, além de minha vontade de se reinventar. Na teoria, respeitar é algo simples. Você convive, fica perto do outro, mas sempre respeitando as escolhas dele. Sem julgamento, sem colocar a sua verdade como absoluta, respeita. Na prática, a vontade de moldar grita. E falar não é assim, mais sim, dessa maneira. De mostrar que alguém está errado e que você está certo. Daí, começa o duelo. Porque entender os desejos do outro é difícil. Porque antes de entender o outro, não nos permitimos nos entender, nos respeitar. Então nos perdemos.

Há sofrimento no processo de respeitar. Porque ele é doloroso. Seria incrível se a gente pudesse receber uma receita, como aquelas bem simples de bolo, dizendo a quantidade, o tempo de preparado e os ingredientes certos para respeitar os outros. Para nos respeitar. Mas não existe. Respeitar é como a maior parte de tudo que acontece na vida, você descobre vivendo. Observando. Testando. Admitindo.

“Mas eu o (a) amo”, “É difícil não falar minha opinião”, ”Eu sei que ele está escolhendo errado”. É difícil não reagir, não sofrer, não ficar desesperada. Mas respeitar tem dessas coisas, mesmo que você possa estar certo em alguns conselhos ou avaliações, respeitar é uma importante maneira de ganhar confiança e de também receber respeito.

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Sim, sofro para respeitar, mas o bom de construir respeito é que os laços e diálogos são fortalecidos. A partir desse lugar há uma relação de troca, uma abertura para conversar, uma comunicação que corre poucos riscos de ser mal interpretada. Posso te mostrar minha opinião e ser ouvida como alguém que é respeitada e que pratica o respeito. Da mesma maneira que ouço sem que me sinta violada.

O respeito é uma transformação nas relações. É um caminho aberto. É a construção de espaços com diversidade. É a celebração de diferenças que convivem, se reinventam e se encontram em um espaço comum, de igualdade, mesmo sem semelhanças.