Trilhas sonoras, caminhos e arquitetura

Fortaleza me desperta lembranças de infância.

Não cresci aqui, não sabia praticamente nada do estado do Céu de Suely e que eu pintava imagens mentais com base nos clipes de Selvagens e Cidadão Instigado, mas antes de toda uma vivência de juventude de músicas indies, era meu sonho com 8 anos morar aqui. Especificamente sozinha num apartamento com plantas. Esse foi meu primeiro critério procurando moradia aqui, uma tentativa de me identificar na natureza e da necessidade de me sentir em casa. Não é pelo fato de morar seguindo esse sonho que as lembranças são vividas ou nascem baseadas nesse aqui.

Mas sim em todo caminhar feito, minhas memórias passam pela morada no centro de Aracaju, nas contínuas idas ao interior e na mudança para um residencial aberto. Fortaleza me lembra Aracaju, me lembra Salvador, me lembra das viagens compridas e longas que hoje em dia sei que eram curtas até demais. Fortaleza é uma contínua playlist de músicas que tocavam no carro de meu pai em 2007 com Fagner, Belchior, Amelinha e pela visualização de minha mãe empolgada botando o vinil de Falcão pra tocar esperando minha reação de risada.

As casas conjugadas, o neoclássico junto com os azulejos portugueses, os portões de ferro com design curvado, os restaurantes que possuem muito espaço vazio e ao mesmo tempo são ocupados por aquela sequência de mesas e cadeiras retilíneas.

Eu consigo sentir o cheiro dessa lembrança. O inhame e o jabá. Nunca gostei muito de tomar café no mercado. Não gosto de acordar cedo. Mas gosto das vozes desse restaurante.

Escuto o barulho dos ônibus parando no sinal, quase como um momento suspiro intenso em que eles fazem um “tcha”. Passar na frente das praças. O contraste. Casa conservada. Casa conservada. Abandonada. Pixo. Pixo. Pixo. Mais Pixo. Muitas lojas de móveis.

O verde. O demolido. As avenidas que sempre parecem mal planejadas. Os carros que são cinzas, brancos, pretos e a contagem de quantos carros vermelhos passam. Minha mãe lendo as placas e falando “Olhe, essa sequência de números que engraçada”.

E volto pro cheiro, em Fortaleza, me faz falta sentir falta do rio Sergipe.

A beira-mar, realmente beira um mar, isso ainda é estranho.

O Siqueira não é Campos, o Circular virou um dos meus ônibus favoritos e a linha do 074 é usada com o mesmo intuito de ir pra universidade. Não toca Edson Gomes nos ônibus.

E eu gosto de Fortaleza, de conversar com o segurança do mercadinho, de escutar os sotaques, de não entender algumas palavras, da quantidade de museus, das músicas, das pessoas e todos os clichês que eu posso imaginar quando eu caminho pelo bairro.

Mensagens Não Enviadas #1

(Escrito dia 19/05/2022, ao som de Bethânia, porque ela me lembra você) 

Andei vendo as coisas da sua vida, muitos sites apontaram que estou errada em fazer isso e sobre a necessidade de aprender a deixar o passado no passado. Entretanto, a sua não resposta ao fim associada com as várias playlists com influência sua me fazem querer saber minimamente sobre onde anda você. Até agora, parece uma declaração para um amor não superado, e bom, talvez seja mesmo, não superei os planos de meu nome aparecer na sua monografia, da gente escrever aquele livro infantil juntas e de como planejava administrar um cinema com você. Não superei que você não supriu minhas expectativas de amizade. Não superei que eu te impus expectativas de amizade. Não sou boa delimitando o fim nas afeições de amigos.

Também pode parecer mais uma das coisas intimistas que escrevo e que são frutos de uma tentativa terapêutica de algo. Minha escrita, você sabe, virou terapia. Saiu de longos contos, para observações internas e externas. Queria te falar que você gostaria de ler Annie Ernaux, faria sentido pra você, fez bastante sentido pra mim. É dessas leituras que de repente você se vê obcecada e se identifica com a autobiografia mais do que deveria. Uma parte minha sente vontade de conversar sobre os podcasts de política e escutar suas opiniões que, normalmente, eu nem concordava, mas não falava nada. Queria saber sobre suas produções acadêmicas e quais livros você tem lido ou comprado. Disso tudo eu sinto falta, de uma forma esquisita, existe ainda um apego. Talvez pelas conversas ou pelas lembranças dos seus gatos. Fico pensando nas piadas de humor duvidoso e de como eu gostava de ficar olhando pros seus livros. Gostava das suas falas e do meu silencio.

Queria criticar as coisas que acontece pra você enquanto estaria recebendo olhares de julgamento. Mas não queria falar mal das pessoas, só de lembrar, isso me repele todas as partes boas e me faz lembrar o porque a gente não é a gente mais. Bethânia me lembrar você é algo complicado pra mim. Eu escuto muito. Lembro de te mandar foto dos lp’s e o planejamento das noites de você ficar escutando eles comigo. Ela é a abelha rainha, você também me lembra abelhas, eu sou alérgica a elas. Ela me faz chorar e sentir muita coisa, e não preciso fazer outro comparativo pra ficar óbvio que você também fez.

Apesar de tudo citado e das saudades não ditas, não existe um interesse de retorno. Ou planejamento de reabertura de ciclos. Ou até mesmo de que você leia isso. A entrega dessas lembranças é um saudosismo quase de um Alceu Valença retratando um Pernambuco perfeito, quando na verdade a realidade está mais para Chico Science e a Manguetown. Se fosse um filme, essas lembranças que surgiram hoje, estariam aparecendo com cores quentes, em seguida por uma imagem minha escrevendo isso com cores azuladas. Mas passa, as cores quentes existem mais na lembrança do que pelo que realmente foi.

Acabo enfim, com 5 parágrafos esse texto, número que no tarot representa dificuldades. Conflitos, problemas, discórdia e dependendo se for o 5 de paus, é preocupação excessiva com coisas pequenas. Nesse fim, lembrando do tarot que você nunca me mostrou e eu sempre te pedi, você é esse simbolismo do 5.

Clarice ficaria triste pela romantização da insônia

(O adulto é triste e solitário)

2 da manhã é normalmente o horário em que a sensação de ter 15 anos novamente me invade, sendo dessa vez insônias possíveis de se beber vinho. E, sinto muito a qualquer pessoa que venha ler isso, mas preciso usar a cacofonia “já que”. Pois, já que nas noites em que eu me amenizava e ficava romantizando a insônia, nos meus pensamentos, sempre olhava pela janela e me imaginava bebendo vinho, lidando com o mesmo problema, mas em qualquer outra cidade. 

Se você, leitor, pudesse me ver nessas horas para além dessas palavras, ficaria impressionado que meu semblante se torna extremamente calmo nesses momentos. Imagem que eu nunca passo. A mente pensa tanto que arrisco dizer que não estou pensando em nada. Mas esse nada sempre me impede de dormir. É estranhamente caótico como já tentei várias “técnicas de melhorar a saúde do sono” fruto de pesquisas ineficientes de madrugada, acho que meu corpo realmente acredita que está em outro fuso horário nessa busca por estar em outras cidades.

Nunca sei exatamente o momento que eu vou dormir, é a grande surpresa do meu dia, creio que de todos. Mas é como se existisse esse ponto de virada que se eu pensar demais nele, ele não acontece. Então como encarno uma super-heroína nesses momentos, resolvo solucionar toda a minha vida numa simples noite. Cacofonia novamente. Já que não durmo, penso que ao menos produtiva serei, enquanto se deseja um vinho e vivenciar outras realidades. Não numa taça, pois não temos, mas em qualquer recipiente possível. Talvez numa tentativa falha de me aproximar de Drummond, porque ele já se aproximou muito de mim. 

Talvez eu queira ficar comovida como o dito cujo citado na poesia, trocando o conhaque pelo vinho.

E falando nele, ando me sentindo mais hedonista do que nunca. Presenciando todos os prazeres possíveis e me vendo obcecada por todos eles. O que facilmente renderia algumas explicações da minha histeria psicanalítica.

Acho que sempre me bate vontade de escutar Gal Costa nesses momentos. Aquele ao vivo que tem a música do Jards, Hotel de Estrelas, ou talvez seja das. É dessas músicas que combina com o clima de madrugada reflexiva numa cidade grande. Poderia ser qualquer música de Selvagens também, tudo deles é muito Fortaleza pra mim, mas estranhamente também acho que é tudo muito eu. Ando me perdendo nesses achismos e erros gramaticais. Ando me confundindo com essa cidade. 

Isso pode ser algo bom. 

As coisas estão boas, mesmo que pareça confuso falar isso depois do relato inicial de insônia. Mas é uma caixa de pandora com quase tudo expulso ou acalmado. Quase.

A procura do bairro que satisfeito sorri

(Não leia caso você seja o Nando Reis)

Esse texto pode parecer muito específico e talvez seja. 

Ia dormir, me lembrei que escrevi para uma pessoa sobre o fato de all star combinar ou não com priquitinha (para quem não é de Sergipe, é um termo para sandália de couro.). Resolvi revisitar, mudar tudo e publicar aqui no Artevistas. Então, esse texto é a conversa que ficou pra hoje. Ou para um tempo atrás, já que essa pessoa não se faz mais presente e isso aqui é apenas um monólogo modificado e caótico.

Fiquei pensando sobre a ideia de comprar os dois all stars, o azul e o preto de cano alto, e se isso não acaba sendo muita expectativa. Isso de ser um ser completo e inteiro em termos filosóficos e amorosos. Talvez me deixe nervosa e sinto, mais uma vez, que vou ficar repleta de talvez, sendo a confusão minha única certeza em praticamente tudo que escrevo.

Lembro de uma vez que escutei “Nossa você é tudo que eu imaginava”, essa situação me dá um pouco de pavor, porque não sei na verdade quem eu sou e quem eu imagino que eu sou, então pensar que eu estou sendo a imaginação perfeita de alguém sem ao menos ser a minha, me deixa apavorada. Se eu estou em contínuo processo de autorreflexão e descobrimento, como essa pessoa consegue acompanhar essas mutações? Como essa ideia fica se adaptando a esse ser que não sabe ao certo para onde está indo? E de onde surgiu essa pessoa que você imaginava? Quem é essa pessoa?

Além de que fico um pouco nervosa de pensar que já tenho em minhas mãos os dois all stars, sabe? Esse fato de já ser esses dois e eu não sei, Nando Reis, se eu estou tendo uma crise de ansiedade, se quero ter esses dois, se esses dois se completam realmente, se isso tudo é um motivo importante para crise e talvez eu devesse só escutar a música e imaginar cenários românticos como qualquer pessoa. Mas esse tanto de questionamento e o não saber as coisas me deixa nervosa pensando que se eu já tenho esses dois, talvez eu não precise procurar mais all star nenhum. Então os gregos estavam errados, Zeus não dividiu ninguém no meio e a gente não precisa ficar buscando nada. Fábio Júnior, você também tem culpa nisso, mas não vou entrar nessa música, no momento estou apenas justificando o que vem a seguir com base em meu mapa astral ser praticamente igual ao dele.

E por ter nascido no mesmo dia que o “Carne e unha, alma gêmea, bate coração” eu preciso assumir que gosto da ideia de que a gente vive numa constante busca desse outro all star, ou de priquitinhas, ou de havaianas azul e branca ou de um scarpin vermelho, e enfim sapatos falam muito sobre pessoas. Nunca liguei muito para eles, Chorão estaria orgulhoso desse antigo eu, mas só comecei a prestar atenção nas minhas roupas, de modo geral, quando eu senti vontade de passar uma imagem mais séria e talvez eu tenha me perdido um pouco nessa visão de seriedade e misturado com uma sensualidade que eu nem queria ter, mesmo sem usar os sapatos certos para isso. Mas isso é pauta pra outro texto e talvez vocês se sintam como minha terapeuta se sente agora.

Talvez por me perder em mim mesma é que fico nervosa de ser esses dois all stars e não estar mais buscando por ele ou pela priquitinha. Inclusive, não busco mais priquitinhas, já tive a que passou em minha vida e acho desesperador pensar em ter algo próximo daquele estilo de novo. Acredito que é preciso de novos sapatos e é preciso experimentar novas combinações, mas no momento me encontro longe da busca do sentido amoroso da coisa, pois a combinação já foi encontrada.

No fundo isso tudo faz parte daquela ideia de que o desejo é o maior dos sentimentos e afins, porque a ideia de querer ter os dois é um desejo. Você deseja encontrar o bairro das laranjeiras que satisfeito sorri, sendo que é tudo uma visão idealizada e fruto de um Nando Reis que talvez não tenha superado Marisa Monte. Desculpa Nando, avisei para você não ler, pode ser um gatilho.

Por fim, acho intrigante ter os dois ou querer comprar os dois porque no final a gente é tudo isso, né? O all star, ou priquitinhas, ou havaianas azul e branca ou o scarpin vermelho. É muito mais do contexto, do desejo e da coragem do que sobre o sapato em si.

Textos que escrevi aos 12 anos de idade

Arquivo pessoal

nome

.

homenagem a
pessoas anônimas de ocasião
(homenagem a beldades anônimas):

.

tem hora em que ela se perde
um pouco,
e isso faz bem

.

tem hora em que ela se perde
muito,
e isso faz mal

.

tem hora em que ela se perde
um pouco,
e isso faz mal

.

tem hora em que ela se perde
muito,
e isso faz bem,
sorte é ser forte

.

tem hora em que ela se perde
mesmo,
e até agora não entenderam o nome
que ainda não inventaram pra isso

.

poetas

.

Uma poeta escreveu
contra jeitos gastos de pensar
porque precisava combater;
ficou famosa pelo tempo que pôde, até desaparecer

.

Outra poeta escreveu
contra jeitos gastos de falar
porque pensava em se destacar;
ficou famosa pelo tempo que teve, até morrer

.

outra poeta escreveu
contra jeitos gastos de viver
porque podia desestabilizar
Ficou famosa tipo sempre, mas só depois de morrer

.

E outra poeta, a que alguém mais amou, escreveu
contra jeitos gastos de interferir
porque sabia bagunçar;
nunca ficou famosa,
sua voz ecoa solta, anônima, silenciosa, mesmo depois de morrer

Acervo pessoal

Oscar 2022!

Oscar 2022!

Olá, povo!

Como estão todos?

Tomara que estejam todos bem, aproveitando esse climinha gostoso que a chuva traz!

O Oscar 2022 aconteceu no dia 27 de março, e voltou aos moldes antigos, no Teatro Dolby, com tapete vermelho e com público presencial, como era antes de eclodir a pandemia da Covid-19.

Foi uma cerimônia linda, com acontecimentos polêmicos e inusitados! Will Smith meteu um tapão na cara do apresentador Chris Rock, por causa de uma piada feita com sua esposa, Jada Smith. Ninguém entendeu nada na hora que aconteceu! Eu achei que fazia parte do script… foi babado! E em consequência disso, Will Smith foi banido do Oscar pelos próximos 10 anos!

Mas vamos aos filmes e aos premiados, né?

Ficaram faltando 3 filmes da lista dos indicados a melhor filme para que eu gabaritasse a indicação. Vou falar do que eu vi, pois sobre os três que faltaram (Drive My Car, Licorice Pizza e Belfast), como diria Glória Pires, não sou capaz de opinar.

Já trouxe a vcs meus comentários sobre “Não Olhe Para Cima” na coluna de Janeiro desse ano. Recapitulando, um ótimo filme, com elenco e interpretações incríveis, que merece muito ser visto, mas que, na minha opinião, não merecia indicação a melhor filme. Não recebeu nenhuma premiação.

Duna é um filmaço, cheio de efeitos especiais, com uma fotografia belíssima, e uma ficção futurista muito bem elaborada e super bem produzido, tanto que foi indicado a quase todos os prêmios técnicos e levou 05 estatuetas: Melhor Trilha Sonora Original, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Fotografia, Melhor Montagem e Melhor Direção de Arte, todos merecidíssimos. Disponível no HBO Max, merece demais ser assistido. Filme lindo.  

Ataque dos Cães, o filme com maior número de indicações ao Oscar (foram 11 indicações), é um filme belíssimo, profundo, intenso e de interpretações sensacionais! Mas nem de longe era o meu preferido. Na verdade eu não entendi a ovação que deram ao filme. Ele era a grande expectativa desse ano, mas, mais uma vez, não pra mim. Não estou desmerecendo o filme, pelo contrário, é um filme maravilhoso, que vale muito ser visto e que mereceu as indicações que teve, mas não era o melhor entre os indicados. Das 11 indicações o filme conquistou apenas um, Melhor Direção, com a magnífica Jane Campion. Disponível na Netflix.

King Richard: Criando Campeãs, nos conta a história do pai de Serena e Vênus Williams, de tudo o que ele fez para transformar suas filhas nas maiores campeãs do tênis da história. Will Smith, que interpretou Richard brilhantemente, levou o Oscar de Melhor Ator. O filme é emocionante, lindo, excelente. Está disponível no HBO Max.

Amor, Sublime Amor, uma regravação dirigida pelo genial Steven Spielberg, é um musical que se passa no subúrbio de Nova York dos anos 50. Conta uma história de amor que surge entre pessoas de gangs diferentes, e que gera uma confusão entre essas gangs. Recebeu 7 indicações e angariou uma, para Melhor Atriz Coadjuvante com Ariana DeBose. Um filme muito bem produzido, com boas atuações, cenário incrível, mas que não me tocou. Não gostei do filme, achei bobo e exagerado! Talvez eu não esteja numa fase muito romântica. Disponível na Disney+.

O Beco do Pesadelo, um filme de época, dirigido pelo magnífico Guillermo Del Toro, conta a história de um telepata picareta, que se perde em sua mentira, passa a se sentir intocável e faz um monte de bobagem. Filme lindo, emocionante e impactante, que mostra como a ambição pode levar um ser humano à ruína. Amei o filme, na minha opinião era o melhor de todos os indicados, mas, infelizmente, não levou nenhum dos 04 Oscars aos quais foi indicado. Vale muito assisti-lo. Disponível no Star+.

E, por fim, o grande campeão desse ano, No Ritmo do Coração! Filme lindo, tocante e emocionante, que foi tema da coluna do mês passado. Além do Oscar de Melhor Filme, ganhou também, Melhor Ator Coadjuvante, com Troy Kotsur, que foi o primeiro homem surdo a ganhar um Oscar. A atuação dele é uma obra prima! Fiquei emocionadíssima com a premiação dele. Muito merecido. O filme não era o meu preferido, mas fiquei feliz pelo prêmio. Vejam! É belíssimo.

Até mês que vem!

Cuidem-se!

Forte abraço!

Janaina Alencar.

Murillo João Ramos Acácio Ferreira da Costa – um Artista da Luz Vermelha. 

Por Roberta Bonfim @lugarartevistas

Olá! Não estou certa se me conhece, chamo-me Roberta. Roberta Bonfim. Mas pode me chamar como quiser porque se eu quiser atendo por qualquer nome, e do contrário nem pelo meu. Até porque ele ainda me causa estranheza. Parece mais forte que eu, mas tento agarrá-lo, crer e agradecer porque o hoje tá mais massa que o ontem e estou certa de como for, o amanhã me fará melhor.

É lógico que esta regra simples não se aplica só a mim, mas a nós. Basta olhar com carinho. Olhar-se afetuosamente, se chamegar um cadinho. Dizer-se: “ei gates tu arrasa viu?”. Chegou até aqui e consegue manter-se com esta alegria, caraca, você é fera. Ou ainda: Cara que dia em, normal tá destruíde, normal querer sumir, só não suma. Vai pintar um quadro, dançar a sua música preferida ou fazer qualquer algo que goste muito. Se não rolar, apenas feche os olhos por um minuto e vá para onde aquieta seu espírito, lá tome fôlego, ou se conseguir viva os dois lugares. O importante é se acolher com respeito e carinho. Bem como fazemos com quem dizemos amar, ou amamos, mas, melhor, por se tratar de nós. E quem somos é só nosso e nosso grande tesouro. 

E é sobre a multiplicidade de eu`s que sou que fico pensando ao sair do delicioso espaço da Casa Absurda, onde domingo assisti a segunda apresentação do novo espetáculo de Murillo Ramos, Murillo João Ramos Acácio Ferreira da Costa – um Artista da Luz Vermelha. 

O espetáculo é um mosaico de informações que tem a cor vermelha como ícone relevante. Eu pessoalmente me pergunto se é o vermelho a cor da Manada de Teatro, que estreou com o espetáculo Aquelas, com as atrizes Juliana Veras e Monique Cardoso, também com a preponderância do vermelho. O sangue.Voltemos ao Artista da Luz Vermelha. 

Se você tá vivo foi afetado direta ou indiretamente com as histórias do lendário Bandido da Luz Vermelha, uma produção midiática, sobre o terror e o medo, que consumimos ainda hoje em qualquer noticiário.  Uma construção midiática, mas não uma mentira. De imediato, no ato do espetáculo lembro do garoto do hoje 410, 174.Talvez. Que só queria ser visto. Mas, o pensamento vai embora rápido, pois a cena segue e logo o personagem a minha frente me apresenta outras facetas, o ator está emocionalmente envolvido com o todo que vive e isso também me emociona enquanto público. 

O espetáculo é forte e tá quase em sua totalidade no auto, felizmente dada hora o ator pede 3 minutos, eles são sagrados e conflituosos, trazem infinitas questões, pois mesmo a encenação de Murillo e a dramaturgia de Yuri deixando nítido que João Acácio Pereira da Costa, tinha alma, que o sangue que corria em sua veias era vermelho como o nosso. Tem outras coisas… Outras complexidades, contradições e reflexões sobre os sistemas; de saúde mental, o prisional, o social, e os choques, as torturas, o ambiente, 

Para que não haja dúvidas sobre a relevância desta figura, o Bandido da Luz Vermelha /João Acácio, está para São Paulo como Jack, o Estripador está para Londres. Entendeu? E João entendeu lá nos anos 60 que se estivesse arrumado passaria “despercebido”, tática usada por golpistas de várias épocas. Mas o fato é que João Acácio mudou a relação do paulistano com sua cidade, e logo todo o país, parte disso, trabalho de João, que levou nas costas infinitos crimes e mais 300 anos de detenção, que ele cumpriu 30 e foi assassinado com um tiro na cabeça quatro meses após ser “liberto”.

Não creio que o desejo do espetáculo seja justificá-lo, como também não é o meu, mas cabe sim a reflexão, de; o que eu faria no lugar dele? Vivendo aquele ambiente, aquela realidade. O passado  de João Acácio foi violento e solitário. Treinado no inóspito da rua, em tempos de crescimento das fronteiras sociais, este foi o ambiente que recebeu e criou este ser, em um tempo em que os veículos de comunicação se desenvolviam, o Bandido da Luz Vermelha tornou-se o pop star do crime, e mudou os hábitos ambientais da cidade e mais tarde do país. A TV chegava, o perigo estava na rua, o lema era  trabalhar e ficar em casa. A TV é sua amiga e você pode pensar em meios de segurança. Com o estresse, vai beber e fumar, o mercado se aquece. Nada acontece isoladamente. 

Estamos falando dos anos 60 (ou mesmo da atualidade), onde doido e pobre não era bem vindo entre a sociedade, e esses rasgos sociais vão ficando maiores e mais evidentes, e o Bandido da Luz Vermelha foi feito sob medida para o espetáculo que se construía e para execução das mudanças em prol da segurança. A sociedade havia achado quem culpar e se são os culpados, tudo bem não estarem assistidos pelos direitos básicos?!

João Acácio deve ter também inspirado a canção conhecida por nós de Renato Russo, ou talvez eu tenha apenas sido convencido da humanidade de João. Não me reconheço, mas se ele me pedisse eu cuspiria sim em sua cara. Não que ele seja digno de nada, é que eu também não sou, e ninguém é. Mas, eu fui lembrada por Murillo que não nos cabe ser o dedo que aponta, pois todes temos nosso lado sombra. Né?

Por fim, só agradeço a todes. Muito lindo de existir o espaço da Casa Absurda, que vou querer logo menos conhecer melhor, pois estava meio tumultuado por ter sido uma noite chuvosa. Grata Manada, Yuri, mas especialmente grata Murillo por sempre, – não houve uma única vez em que eu tenha te assistido, mesmo em ensaio, que eu não tenha sentido essa potência que és. Para minha alegria, faz anos que te assisto, coisa de uma vida, e te acompanho como quem acompanha novela. Mais e mais luz seja de qual cor, mas que brilhe!  

E próximo final de semana tem espetáculo sábado e domingo, então já garante o ingresso pelo simpla, e esteja preparado para fortes questões humanas e para sorrisos e aplausos que te causarão estranheza no ato. É que na simbologia os programas de auditório e as questões da ação induzida, são também sinalizados e geram reflexão.

E na esquina tem o bar resto, onde o atendimento é massa, a cerveja é gelada, mas a cozinha fecha cedo, mas é preciso mesmo muito estômago para dar conta de comer após este espetáculo. 

Sim… O Grupo é jovem mas já oferece exemplos de caminhos para o empreendedorismo cultural e sustentabilidade, sem deixar de pontuar em realidade aberta a relevância das artes e das leis de incentivo para construção e manutenção de uma cultura que vise democracias.

Vamos ao Teatro!

Sábado e Domingo – Casa Absurda, 20 horas. 15 meia 30 inteira. 

O Bandido já inspirou também na telona:

O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968)

Rádio Bandeirantes – entrevista

Fantástico

Há tb uma versão com Ney Matogrosso no papel do lendário Bandido da Luz Vermelha.

Temporada de premiações!

Olá, povo!

Como estão todos?

Espero que estejam todos bem, com saúde e conseguindo sobreviver com essa caristia….

Como diz o título da coluna de hoje, estamos em temporada de premiações do cinema e das produções de TV.

Hoje acontece o Critcs Choice Awards 2022.

Ainda não consegui ver todos os filmes indicados ao Oscar de melhor filme, pois muitos só serão exibidos no cinema e, por causa da Covid-19, ainda não me sinto segura para ir ao cinema, infelizmente. Sinto muita falta! Muita mesmo, mas paciência.

Me lembro com saudades da loucura que era a corrida para conseguir ver todos os filmes indicados a melhor filme antes do Oscar. Esperando as estréias, saindo de uma sessão e correndo para outra, vendo dois ou três filmes por dia! Bom demais!

Mas, para meu consolo, muitos dos filmes estão disponíveis nos streamings, e esses eu já vi todos, inclusive os indicados a outras estuetas.

Dos filmes indicados a maior premiação do cinema mundial desse ano, trago hoje para vcs “No Ritmo do Coração”! Um filme belíssimo, emocionante e que seus principais atores são deficientes auditivos.

O filme concorre a 03 estatuetas: melhor filme, melhor roteiro adaptado e melhor ator coadjuvante com o Troy Kotsur como Frank, o pai da protagonista; ele é o primeiro ator surdo indicado ao Oscar. Troy contracena com Marlee Matlin, que interpreta sua esposa – Jackie, que é a única atriz deficiente auditiva a ganhar um Oscar (por Filhos do Silêncio, em 1986, no seu primeiro trabalho no cinema, aos 20 anos).

Disponível no Prime Vídeo e no Apple TV, o filme retrata a história de uma adolescente, que tem seus pais e seu único irmão surdos e que é a única da família que ouve. Ela se divide entre o último ano da escola e com o trabalho com pesca marítima com seu pai e seu irmão.

No currículo escolar, os alunos precisam fazer uma atividade extra, fora as matérias curriculares obrigatórias, e ela escolhe participar do coral. Essa escolha muda toda a sua vida e define suas decisões para o futuro, nesse ínterim a película retrata seus medos, inseguranças, dúvidas, a descoberta do amor e os conflitos típicos da adolescência.

Façam sua pipoca, peguem seus lencinhos e se deliciem com esse filme incrível!

No próximo mês falarei de todos os filmes indicados a melhor filme que eu conseguir ver. Darei conta das premiações.

O Oscar 2022 acontecerá no dia 27 de março, e será transmitido ao vivo na TNT.

Até abril!

Cuidem-se!

Forte abraço!

Janaina Alencar.

Brincando de Aprender

Por Roberta Bonfim

No texto deste mês resolvemos falar sobre o brincar e todos os seus benefícios para nossas crias e também para nós. Aqui em casa, por exemplo, o exercício é fazer da rotina uma brincadeira. Eu que cresci sem muitas rotinas, e em muitos lugares e sinto hoje a necessidade delas, para concluir as metas desejadas, e assim inspirar minha filha a ter suas próprias rotinas. Lembro de um espetáculo de Elisa Lucinda, que tive a grata alegria de fazer assessoria de imprensa, quando aqui em Fortaleza-ce; “Parem de falar mal da rotina”. espetáculo incrível. Grata Lucinda por isso também. 

Voltando a brincadeira, aqui por casa brincamos de aprender, de modo que o alfabeto não é um momento em que paramos para estudá-lo, mas brinquedos, alguns, entre jogo da memória, quebra-cabeças, jogo de montar, garrafas de encaixar que geram emoções ao final da atividade, e palavras e declarações espalhadas pelas paredes. Aqui em casa é uma casa riscada, literalmente, e nós gostamos bastante e aprendemos. E coloco mesmo no plural, pois tenho aprendido tanto e muito do que eu julgava saber, e não sabia, inclusive. De acordo com Vygotsky “o aprendizado é mais que uma aquisição de capacidade para pensar; é a aquisição de muitas capacidades especializadas para pensar sobre várias coisas” e segue dizendo que “que o aprendizado e o desenvolvimento coincidem em todos os pontos”. 

Aqui brinquedo Remes Rede – feito com reuso de papelão e garrafas e tampas de pet.

Aqui vamos criando histórias, assistindo e lendo outras que nos inspiram novas criações e aqui compartilho alguns queridinhos por aqui Ämora de Emicida, Sinto Muito de Lázaro Ramos, Betina de… esqueci o nome da autora, mas é lindo e sempre que lemos lembro das tranceiras lindas que conheço, outro que lemos bastante é a Mágica da Respiração, que me ajuda a aprender e ensinar a respirar ao mesmo tempo. hihihi…

Neste momento precisei fazer aquelas cirurgias inesperadas de apendicite e a brincadeira que vale é a Dra. Ana Luna, que me cuida, e da gatinha Frita que foi castrada nesta mesma semana. E o filme Encanto que encenamos e assistimos repetidas vezes por aqui, é exatamente um encanto e eu agradeço por minha filha ter nascido em um tempo em que grandes empresas como a Disney já trabalham com mais carinho sobre as diversidades que somos e da importância das representatividades. 

Pois bem, agora vamos brincar de ir ao troninho. E até o mês que vem para mais trocas tão nossas deste lugar de ser as mães que somos. 

xero.

Roberta Bonfim