“É preciso uma aldeia inteira para criar um filho”

Por Janira Alencar

Toda mulher, ao longo de sua vida, ouviu pelo menos uma vez (senão muitas) a falácia da rivalidade feminina. Aprendemos que homens são amigos, companheiros, leais e que nós, mulheres, estamos sempre julgando ou competindo umas com as outras. Esse discurso, tão impregnado de intenção, é uma das armas mais poderosas de que o patriarcado dispõe, pois nos induz a olhar para a outra não como par, não como amparo, mas com desconfiança. 

Talvez muitas de nós, durante parte das nossas vidas, tenhamos acreditado nisso; talvez até tenhamos reproduzido essa fala. Mas, posso apostar, quem dá voz a esse discurso certamente não vivenciou a experiência da maternidade. (Antes de prosseguir, quero deixar claro que a maternidade a que aqui me refiro é a que é escolha, e não imposição social. Sei que muitas mulheres não comungam desse desejo e que há outras centenas de vivências por meio das quais podemos sentir a força que tem a união feminina. Só para dar um exemplo bem raso, experimente ser mulher e precisar de um absorvente, que você vai saber o que é uma rede de apoio).   

Voltando ao tema, uma das coisas incríveis com que a maternidade nos presenteia é uma teia de força, amparo, escuta e empatia que se entrelaça entre as mulheres que partilham dessa vivência. Hoje, digo e repito que só topo ter outro filho se for no mesmo tempo e espaço das mulheres que dividem comigo a primeira experiência de maternagem. Algumas, vozes da experiência, já sabem de cor minhas angústias e medos. Outras estão trilhando essa mata fechada comigo, abrindo um caminho que não tem destino certo. Muitas já eram amigas; outras têm-se feito agora, amizade que rebentou junto com nossos rebentos. Seja como for, o sentimento é um só: que sorte a minha tê-las comigo nessa jornada! Que bênção das deusas é ter pra onde correr a qualquer hora que se precise (e aqui falo literalmente, já que os grupos de recém-paridas funcionam 24h por dia, dadas as madrugadas de mamadas infindas). Como é bom ouvir relatos, partilhar experiências, ser amparada e, também, poder ajudar uma amiga num momento de aflição. São experiências que transbordam afeto e gratidão.

Em tempos idos, ter um filho era sempre uma experiência coletiva: era comum que as mulheres tivessem mais filhos e que suas gravidezes ocorressem conjuntamente com irmãs, primas, vizinhas. As experiências eram partilhadas, as trocas ocorriam de forma natural, formando, mesmo sem saberem, o que hoje chamamos de rede de apoio. Felizmente os tempos mudaram! A maternidade compulsória não é mais uma realidade absoluta – embora ainda tenhamos um longo caminho de desconstrução social a trilhar, no que se refere a isso. Em contrapartida, ônus dos novos tempos, parimos e criamos nossos filhos (muitas vezes únicos) cada vez mais sós, trancadas em nossos apartamentos, contando com pouco ou quase nenhum apoio. 

Dizem que é preciso uma aldeia inteira para criar um filho; desconheço a autoria dessa frase, mas poucas falas me fazem hoje tanto sentido quanto essa. É preciso que o mundo receba essa criança, que seja amoroso com ela, que não olhe feio para a mãe que com ela chega a um restaurante, que não solicite aos comissários sentar-se longe dela em um voo. É preciso, também, que a cria e sua mãe sejam amparadas em seus primeiros meses, tudo tão novo para ambas as partes. E é transformador, e não menos necessário, que essa mãe, pessoa nova que nasce junto à cria, tenha com quem dividir toda a ambiguidade que compõe a maternidade, esse misto de força x fraqueza, medo x coragem, saudade da vida antiga x não querer outra senão a de agora.   

Ser uma mãe de primeira viagem em tempos pandêmicos tem sido desafiador, mas o mesmo barco que nos distancia ~ de corpos ~ da nossa gente traz pra perto aqueles que são realmente nossos, e faz âncora em nossas relações de afeto verdadeiro. O primeiro círculo social do Tom é herança de amizades bonitas, sinceras e tão necessárias ante tudo que temos enfrentado. Herança da força e do poder transformador que as mulheres emanam quando se unem. Que todo esse amor escorra, transborde, inunde, encharque. Que seja presente na vida dessa nova geração. Que seja regra e que prevaleça. E que sejamos sempre a aldeia que recebe, acolhe e cria os novos filhos do mundo.

Tom e Bento, um de seus amigos herdados da mãe: porque nós fazemos amigos bebendo leite, sim!
  • Dedico esse relato a Fátima’s, Ana, Aline, Carol, Cíntia, Dani, Ellen, Larissa, Lili, Nádia, Paula, Pedrita, Roberta’s, Samya, Suyanne, Thereza (em ordem alfabética e rezando para que a minha memória não me traia e me faça esquecer alguém). 

Janira Alencar é educadora e mãe do Tom, de 7 meses

Alimentação e autoconhecimento

Manuela Ramos

“Doutora, ainda bem que apareceu a senhora, porque eu tenho dez (10) dietas lá em casa, e nenhuma presta. As nutricionistas são horríveis”.

Nós poderíamos iniciar essa conversa falando sobre diversas vertentes ligadas à nutrição. No entanto, vim aqui convidá-los a fazer um breve passeio sobre o mundo que eu percorri como profissional, nesses temas, e sua aplicabilidade na vida das pessoas. Peço a você que, junto comigo, possamos pensar em propostas sobre uma nutrição aplicada à sua realidade. Como eu, realmente, posso te ajudar?

Quando iniciei a faculdade de nutrição, em 1992, ficava encantada com a possibilidade de entender como funciona nosso organismo. Pensava em como o alimento iria constituir o nosso corpo. Vi muita bioquímica, fisiologia, fisiopatologia. Algumas aulas relacionadas à saúde pública. Uma disciplina de psicologia. Confesso que, naquele momento, as pessoas iam se transformando em um conjunto de reações químicas, e eu, cada vez mais querendo entender aquele mundo. Fiz iniciação científica em bioquímica, segui o fluxo, indo parar no mestrado/doutorado em Fisiologia Humana, na USP. Fui para estudar suplementação e câncer.

Cada vez mais, eu estudava muita bioquímica. Sabia muito de nutrição, do funcionamento do organismo, de fisiologia e a dita bioquímica. E Isso tudo é, sim, muito importante, mas, para mim havia um longo caminho até os indivíduos, eu queria chegar mais perto. 

Dei muitas aulas de Fisiologia Humana em universidades, até que, em 2005, em Fortaleza, recebi o convite da Professora e psicóloga Ângela Andrade, para estruturar e criar o projeto de extensão PRONUTRA, Programa de Nutrição aos Transtornos Alimentares e obesidade, da Unifor – Universidade de Fortaleza. E foi lá que comecei a deixar os ratos, sapos e células de lado, e comecei a ouvir pessoas. Desde então, quando comecei a ouvir aquelas falas, nunca mais consegui deixar de ouvi-las. Entendi que existe muita coisa para além da comida ou do peso, da Fisiologia ou Bioquímica, ou até mesmo da própria nutrição. Percebi, dentro do contexto da nutrição, que o ato alimentar é um ato relacional, que há um elo entre os alimentos e os sentimentos.

Também trabalhei no IPREDE, onde acompanhei a mudança de um Instituto de Prevenção à Desnutrição, ao Instituto de Desenvolvimento Humano. Trabalhei com desnutrição e, na época, com crianças obesas e suas famílias. Tive a oportunidade de estudar, na instituição, sobre desenvolvimento humano e outros projetos relacionados. Fui conhecer muitas moradias dessas famílias, que são completamente carentes. E as falas que eu ouvia, só iam se multiplicando, e ficando mais complexas. Agora teríamos que auxiliar as pessoas no desenvolvimento de competências relacionadas à mudança de hábitos alimentares, assim como no Pronutra, mas aqui tudo ficou bem mais complexo: autoconhecimento, auto-estima, autoconfiança, visão confiante de futuro(?), sentido de vida(?), plenitude(?), reconhecimento do outro, convívio com a diferença, comunicação, interação, resolução de problemas, leitura e escrita (?). As pessoas não entendem o que você está falando. Aprender a aprender? Sim! São também objetivos!

Com uma equipe interdisciplinar, com uma nutrição focada na escuta, na empatia; com ações assistencialistas? Também! Fui parar em um doutorado em Psicologia – Desenvolvimento humano, na UNB. Por incrível que pareça, era muita matemática, mas isso é outra história.

Assim, para além da academia e com minha experiência de vida, segui percebendo corpos psíquicos, sociais, físicos, mentais, emocionais e espirituais. Seres que, muitas vezes, manifestavam seus limites de suportabilidade, por meio de sintomas alimentares, alguns utilizando canais de expressão oral e corporal, como uma maneira de manifestar conflitos e dificuldades emocionais. Por meio de aspectos como oralidade, voracidade, impulsividade, compulsividade, transgressão, agressividade, passividade, dentre outros, podia-se tentar compreender as relações que o corpo estabelecia com o mundo exterior. Sem delimitações de inclusão, exclusão e sem uma identificação do que é meu e o que é do outro, a realidade e seus próprios afetos, assim como as relações com os alimentos, tornam-se complexas e angustiantes.

     O profissional, mesmo com todo esse conhecimento, se vê amarrado diante da complexidade do que o outro trás.

“Nos primeiros dias, foi mais difícil. Final da primeira semana, eu estava confusa. No final de semana, foi mais difícil. Comi docinhos num churrasco, só 3, foi um avanço, mas com muito sofrimento. Me senti feliz ao levar a lancheira com temperos para o trabalho, mas desconto minhas raivas na comida. Gosto de comer. Associo a comida a todos os sentimentos, felicidade, impaciência.”

Daí trazermos, também, essa responsabilidade para você. E a consciência de que caminharemos juntos, pensando na sua realidade, na sua vida, em toda sua amplitude.

Fisiologicamente, se pensarmos que impulsos irresistíveis podem tornar-se compulsivos, vindos de pensamentos que não conseguem ser habilmente afastados da mente; que obsessões, em condições patológicas, perturbam a vida, tornando-se estímulos constantes; que nossos comportamentos tornam-se automáticos pelas repetições, e que esses, tornar-se-ão, muitas vezes, nossos hábitos diários, como o de escovar os dentes. Se pensarmos que nosso cérebro regula o comportamento motivado classificando nossas ações em boas ou ruins, e, fazendo, assim, milhões de associações, muitas vezes não por alterações estruturais, mas por excesso de ativação, podemos concluir que esses estímulos constantes, compulsivos, repetitivos, relacionados à comida, poderão virar um hábito. Ou seja, para reverter a formação de um hábito, teremos que começar pela sua auto observação.  

Você acredita na existência de um caminho de autoconhecimento, quando falamos de alimentação? Quais suas relações de afeto, emoções, desejos, fantasias, quando falamos de alimentação? 

Voltamos a tal escuta que falei anteriormente, mas que, agora, está relacionada ao seu corpo. Você terá que ouvir o seu corpo em todos os seus contextos, para chegar ao tão sonhado e tirano peso ideal, ou qualquer que seja seu objetivo relacionado à nutrição.

Aí retornamos para aquele profissional Nutricionista, o mesmo a quem demos o poder de modificação de nossos hábitos. E chegamos lá entendendo que tudo parte de nós, de como nos vemos, nos observamos, nos escutamos. De como a relação entre comida e corpo perpassa pelo auto-cuidado, pela conexão consigo mesmo. Preciso da sua ajuda para entender a sua verdadeira motivação, assim, as dietas não serão mais acumuladas. Você saberá diferenciar fome física, de fome emocional. Você se libertará da tirania das dietas, comerá intuitivamente, com atenção plena, se reinventará. E o profissional fará uma verdadeira Terapia Nutricional, tendo como objetivo a criação de um conceito positivo para com o alimento, mobilizando o melhor de nós, para lidar com nossas escolhas. Será um sucesso!

 “A experiência de comer devagar foi ótima, me senti saciada e só comi a metade do chocolate, estou feliz!”

Cliente após uma vivência sobre comportamento alimentar.

Manuela Ramos é nutricionista, doutora em Fisiologia Humana pela USP e doutoranda em Psicologia – Desenvolvimento Humano pela UNB.

Não está exercendo no momento nenhuma dessas atividades.

Não desistir também é uma vitória!

All Franca

Essa quarentena tem sido muito desafiadora para todos nós, já se passaram dias e dias desde que tudo começou e estamos aqui, fortes porém não tão firmes. Para mim está sendo um momento um pouco tenso, a produção já não está no mesmo gás, já não sei mais quais são minhas prioridades, inclusive vos escrever não é algo muito confortável. Há pouco ainda pensei em desistir umas 50 vezes antes de sentar aqui para escrever, mas me dei mais uma chance, uma chance de seguir, de ter esperança que essa fase vai passar, de que conseguirei me reencontrar.

Acho um pouco difícil esse reencontro, pois já nem me lembro mais quem eu era antes dessa pandemia, não lembro qual eram meus gostos, nem minhas prioridades, muito menos meus planos para o ano de 2020. Sinto que vivi uns 10 anos em 8 meses e estou vivendo, me reinventando e seguindo.

O caminho do autoconhecimento também é isso, passar por suas sombras, ressignificar seus desejos e entender cada vez mais o real sentido de ser adulto. Certas horas só queria voltar às preocupações que tinha enquanto criança, que geralmente estavam relacionadas às férias escolares ou qual seria o próximo episódio de Dragon Ball Z.

Por hoje me sinto vitoriosa, por decidir sentar e escrever, sei que alguns de vocês se identificarão com esse texto e quem sabe ele fará alguma diferença em sua vida. Saiba que está tudo bem também não dar conta, assumir seus limites e nem sempre estar na maior de suas inspirações. Essa é a vida aqui na Terra, cheia de dualidades, situações controvérsias e tudo isso que estamos acostumados a viver. Não pense que maturidade emocional está relacionada a não passar perrengues e desconfortos e sim, em como você lida com essas situações. Esse é o diferencial, saber que tudo irá passar, inclusive seus momentos de baixa vitalidade. Por isso, quando eles se instaurarem, apenas observe, deixe as coisas se desenrolarem, ainda que lentamente, deixe as decisões para serem tomadas em tempos mais amenos. Às vezes só não desistir já é uma grande vitória, continue seguindo e reencontrando sua motivação, ela está aí em algum lugar.

Com amor

All Franca

Quem somos nós “brasileiros”?

Gustavo Xavier

Quem é o brasileiro? Como se define a identidade desse Brasil como sujeito internacional? E principalmente, quem sou eu dentro desse coletivo a que pertenço e do qual outras vezes me distancio?

Essas talvez sejam das perguntas existenciais as que mais inquietam o coração e a mente do cidadão brasileiro. Aliás, vale dizer que ser “brasileiro” até os fins do século XVIII nem mesmo era considerado como alguém que pertencia a uma nação, quanto menos um conceito de cidadania. Ser “brasileiro” naquela época era sinônimo de profissão “internacional”, significava ser comerciante de pau-brasil, como deixa entrever o sufixo “eiro”, de carpinteiro, marceneiro, sapateiro, costureira, pedreiro, quitandeira, cozinheiro, entre outros. A ideia de “brasilianidade” ou “brasilidade” de um povo foi construída a partir do século XIX, época em que eventos históricos concorreram para a criação dos estados-nacionais.

Até aí tudo bem. Então, o “leitor-cidadão-filósofo-entre-tantos-outros-adjetivos“ de hoje pode se perguntar: “quando estamos falando de questões existenciais, haveria algo mais importante do que a preocupação com os meios para prover sustento e a segurança num país pobre, desigual e corrupto?” E ele tem razão. Afinal, essa é a pauta do dia. Aliás, de todos os dias. Aliás, desde que o Brasil é Brasil. Aliás, desde quando ele não era “o Brasil”. E eu posso responder afirmativa que sim, há uma questão tão ou mais fundamental a ser feita quanto a questão da infra-estrutura ou dos meios materiais para prover a vida. E esse campo de debate se chama identidade.

Para além das questões de determinação econômica, penso que essa questão existencial perpassa pelo campo do encontro. O encontro com o outro e mesmo com os outros que habitam dentro de nós. Como questão existencial – sim, “I love Shakespeare”! – saber quem “Eu sou” diz respeito a um campo conflituoso. Um campo muitas vezes minado, bombardeado com percepções distintas, um campo de ideias e linguagens que insistem em buscar uma definição.  Pergunte-se a si mesmo: “quem é você?”. Diga em voz alta: “Quem sou eu?”. Agora imagine-se numa sala de entrevista, como você responderia? Como você responderia a esta pergunta em múltiplos contextos. Na sala de reunião? Na entrevista de emprego? Para a família do seu(sua) namorado(a)? Para “todxs aquelxs” – com a gramática internauta e libertária mesmo – que não se enquadram em definições predeterminadas e se sentem desconfortados na pele do estereótipo. 

Para ajudar nessa reflexão, coloco à título de exame, as seguintes imagens:

  1. Uma criança cujos pais estão à beira do divórcio se encontra de frente a um psicólogo. A criança fala. O psicólogo fala. De tudo o que foi dito, uma simples frase pode mudar a significação de todo o jogo. O psicólogo diz: “Não se preocupe, você não tem culpa alguma pelos seus pais estarem se separando”. Pausa. Momento para reflexão. A criança responde: “Bem, eu não estava pensando nisso, mas agora que você falou pode ser que eu tenha alguma culpa”.
  2. Agora um exemplo histórico. Diante de um tribunal, no século XIX, um trabalhador é acusado de fazer greve e dessa maneira prejudicar a ordem social – algo similar como a ausência de caminhoneiros e dos correios nos dias de hoje – sendo então inquirido pelo juiz para que se apresente e diga quem é. (Momento crucial na vida desse homem). Ele poderia ter respondido: “Sou João, 35 anos, carpinteiro”, descrição comum em processos judiciais. Não foi o que ele fez. Ele responde: “Sou operário”. Pausa dramática. O tribunal nunca havia ouvido essa palavra antes.

Estas duas imagens servem para ilustrar o peso que a linguagem tem nas nossas vidas. A criança, mesmo que alguns insistam no fato de que ele seja incapaz de confabular tal raciocínio –  ideia contemporânea de todos aqueles que gostam de “infantilizar” permanentemente a criança – portanto incapaz de se expressar, pode incorporar inconscientemente o “fato”. Não o fato dos pais estarem se separando, não o fato de ser subestimada por pais inadvertidos, mas o fato da palavra dita, aquela que foi atribuída pelo especialista na comunicação e na ordem do ritual de trabalho do psicólogo ou psicanalista. O segundo exemplo, é uma gota no oceano daquilo que se chamou “luta de classes”. Muito mais do que expressando uma identidade submissa ao Estado que pudesse ser identificada por “nome, idade e profissão”, a palavra “operário” surge naquele contexto com nova carga simbólica. Carrega em si a emergência de um novo sujeito histórico, não o indivíduo mas o coletivo, ou melhor, a classe. Em vez de uma ordem nacional, há o reconhecimento de insatisfação com a ordem da maneira que é colocada: a exploração.

É como eu costumo dizer: “Não se sabe que você é pobre até quando lhe dizem que você o é”. Nesse aspecto, quem somos nós, os “brasileiros”? Eu gostaria de deixar no ar esta pergunta. Gostaria que o “leitor-cidadão-filósofo-entre-tantos-outros-adjetivos“ me ajudasse a responder. Ou que pelo menos procure responder para si, no seu íntimo.

Então, coloco algumas perguntas que considero inteligentes (não se enganem, não fui eu que as formulei):

  • Quem é o “nós” desse sujeito gramatical coletivo? Isto é, quem se define dentro e quem é excluído? Como ocorre essa cisão?
  • O dramaturgo Nelson Rodrigues uma vez disse que temos um “complexo de vira-lata”, sendo narcisistas ao revés, com baixa auto-estima, preferindo tudo aquilo que vem de fora. Isso é verdade? Onde vemos esse complexo acontecer?
  • Sendo a identidade uma construção múltipla (psicológica, social, afetiva, material, simbólica) como ela se desconstrói e, no seu reverso, como se reconstrói para sobreviver?

Gus Xavíer é ator, historiador e capoeira. Gosta de muitas coisas e por isso se considera um generalista que vive num mundo que insiste em se especializar.

Vivo antes de 7h30 da manhã

Um ou dois anos depois da época em que eu dava aulas particulares em bairros diversos de Fortaleza e voltava pra casa a pé, consegui uma vaga para ensinar num curso de graduação em Letras em Iguatu-CE. Aulas de literatura de língua portuguesa. A maior oportunidade que já tive na vida. No sertão bonito e áspero do cacto. Dar aulas, se aporrinhar, ter umas alegrias imprevistas, ser professor, quem sabe. Desde então, em geral, o tempo escorrendo sem alarde, sem problemas de menção especial: a vida em Iguatu, resumindo.

Muitos anos depois de começar a trabalhar lá, numa noite, final de turno, eu conversava um pouco com Manfredo, a poucos dias da colação de grau de sua turma, num corredor do campus. Ele não parecia muito interessado na minha preferência por literatura contemporânea, mas acho que gostava de conversar comigo sobre livros em geral. Passou por nós o Rômulo, concludente em breve, assim como o que papeava comigo. Interessou-se, parou por ali, injetou umas frases na conversa. Propôs então que continuássemos, num bar, a tratar dos assuntos que viessem. Já havia notado que Manfredo não era próximo de Rômulo, mas não necessariamente o evitava; em todo caso eram bem diferentes. Manfredo me olhou com ar de: não tou fazendo nada melhor mesmo. Opinei: vamos beber.

Manfredo me lembrava aqueles desenhos do rosto do Cruz e Sousa, cuja poesia gosto tanto, mas sem a barba, com um rosto mais arredondado e a pele um pouco mais clara do que parecia ser a do meu poeta brasileiro preferido no século XIX. Esse nome, Manfredo, foi homenagem do pai, falecido, que gostava do romantismo europeu e particularmente do belo poema teatral de Lord Byron em que o heroico personagem Manfred desafiava, ao mesmo tempo, Deus e o diabo (“esses dois sujeitos indignos de confiança”, dizia divertidamente Manfredo). Rômulo era policial, branco, uns 40 e poucos ou tantos, rosto meio detonado pelos anos e talvez por muitas farras. Tinha um sorriso fácil e que me parecia meio idiota; provavelmente era alguém dado a autoritarismos e talvez agressividade. Acho que era bolsominion enrustido (ainda não havia sido eleito o pior presidente que nosso pobre país já teve).

Então, essa pequena comunidade de três machinhos fomos ao bar e restaurante da rodoviária, mesa sob céu com algumas estrelas. Estava tocando forró no aparelho de som; conseguimos que trocassem por Belchior, repertório dos primeiros discos. Manfredo gostava de roupas escuras, meio formais, botões. Seu jeito de falar também tinha uma certa formalidade na escolha das palavras, no tom de voz. Sempre a coluna muito ereta, meio sério. Pareceria caricatural, talvez, se não fosse a atitude sarcástica com que encarava tudo. Rômulo fazia o papel do gente boa conversador, cheio de sabenças que considerava úteis ou impressionantes. Era alguém trivial. Apesar das impressões que me causava, tinha uma atitude em geral amistosa. Ambos iam se graduar em breve. Animados. Um clichê do bar é uma certa tendência espontânea de que as conversas primeiro toquem assuntos “sérios” para depois alcançarem tudo aquilo que classificações variáveis incluem na rubrica “putaria”. Um clichê, isso, mas a cerveja estava geladíssima. Dava até uma dorzinha perto da úvula.

Pois então. Manfredo me perguntou o que há de interessante na literatura hoje, mas não parecia interessado na resposta. Falei de obras que me agradam, das inquietações políticas de linguagem que me cobram a atenção; ele queria, entretanto, a névoa e os tons de voz do que lhe parecia ser a Europa no século XIX. De qualquer modo, me parecia importante, até imprescindível, que aquele rapaz tivesse aqueles modos naquela cidade. Era um deslocamento, uma saída do banal e do massivo, um anacronismo no melhor sentido da palavra, em que se traz algo de antes como uma coisa nova, que cutuca o que houver de pasmaceira no presente: o anacronismo de Jorge Luis Borges ou até o de Oswald de Andrade. Manfredo era interessante porque irônico e reflexivo, porque não se deslumbrava com cânones, exceto aqueles que admirava (basicamente, a arte clássica, da Antiguidade, e a do século XIX); a atualidade contaminava a impressão passadista que parecia querer causar de si mesmo. Não se dava conta, e preferi deixar que um dia percebesse isso sozinho, do quanto era fruto do agora, do hoje. Que nem todo mundo que estiver vivo, diretamente ou por tabela, queira ou não.

Aliás, Manfredo contou o resumo de uma peça teatral que pretendia escrever. Gostei tanto que consegui guardar na memória. Era ambientada na Grécia mitológica que os gregos construíram e tinha, como um dos personagens, Medusa, lendária criatura cujo olhar, quando visto, multiplicava ao extremo a porção de pedra que cada pessoa carrega em suas emoções. Um jovem cego é abandonado na ilha de Medusa por marinheiros debochados, sem saber onde estava, nem sobre quem morava ali. Começa a caminhar sem rumo, já que não conhecia o lugar, e acaba por entrar no palácio onde Medusa arrastava seu corpo de serpente sem descanso, dia e noite. Ela o fareja e vem a seu encontro. Logo percebe que ele não se transformará em pedra, já que é cego. O jovem percebe a chegada de alguém e pergunta se seu interlocutor pode ajudá-lo. Medusa se mantém em silêncio observador. Uma das cobras venenosas em sua cabeça, resquício dos belos cabelos que um dia teve, arma um bote para picar o rapaz no rosto.

Medusa [dirigindo-se à serpente que iria picar o rosto do rapaz. Era a primeira vez, em séculos, que a Medusa falava, voz rouca, inumana, mas parecida com a de uma mulher]: não.

O cego: está falando comigo?

Medusa: Não.

O cego [hesitante]: apenas quero ir embora.

Medusa: para onde?

O cego: qualquer lugar. Para mim, todos os lugares são quase o mesmo, e estar em casa e estar perdido não são coisas tão diferentes.

Medusa: o que você quer?

O cego: eu?… Tenho fome. Quero comer.

Medusa: aqui não há nada que lhe agrade, a não ser que goste de carne podre [silêncio com olhar sarcástico]. De um banquete recente…

O cego: preferiria talvez algumas frutas.

Medusa: [o olhar dela mistura contrariedade e curiosidade, se é que um olhar humano pode conter isso] por aqui não há frutas.

O cego: parece que invadi sua casa. Me perdoe. Sabe se eu poderia conseguiria frutas em algum lugar perto? [ouvindo o arrastar do corpo de serpente, enquanto ela se movia ao seu redor] Posso fazer uma pergunta?

Medusa: sim.

O cego: você é humana?

Medusa: o que você acha?

O cego: acho que sim.

Medusa: por quê?

O cego: porque… você me escuta. Sei que me observa enquanto espera que eu fale. Sinto uma paz estranha. Creio que não exagero em dizer que você é a melhor companhia que tenho tido em muito tempo. Seu silêncio me acaricia melhor que a maioria das palavras piedosas que me deram como esmola.

Um fio de tristeza ecoa do olhar de Medusa, na imensidão daquele palácio de pedra, que na verdade era um labirinto, que na verdade era um palácio. Ao ar livre, depois de longa caminhada, chegam perto de uma macieira. O cego acha as maçãs deliciosas. Come e adormece recostado no tronco. A medusa se sente ressensibilizada, mas também irritada pela inquietação sentimental que aquele frágil e jovem rapaz provocara em alguém ressentida como ela. Seduzida ou estuprada, não se sabe ao certo, por Posêidon no templo de Atena, foi castigada por esta devido à profanação de seu altar: transformada naquele monstro: Medusa. A paixão, naquele momento, lhe inspira horror contra o ódio que sentia. Ódio à humanidade e a todos os deuses, carregado consigo há tanto tempo. A medusa sabe que só poderia voltar a ter a paz ressentida em que vivia se o jovem desaparecesse. Entretanto, sabe-se incapaz de atentar contra a vida do rapaz, apesar da intranquilidade odiosa que ele involuntariamente lhe traz. Ela precisa comer; apenas seres sem olhos poderiam lhe servir de alimento. Quando Perseu e seus companheiros chegam à ilha para matar Medusa, poucos dias depois, simplesmente não encontram o rapaz cego dormindo sob a macieira. Ele não está mais lá. Seu corpo desaparecera por completo, e só Medusa sabe o que acontecera. Uma última fala dela, dirigida ao público, ecoaria antes de o pano cair:

Medusa: vocês são ridiculamente limitados… Acham que destruí meu redentor! Meu redentor de vidro fino. São incapazes de pensar que eu possa ter dado a ele o paraíso que nenhum humano ou deus lhe daria!

Algo que eu não sabia colocar em palavra no momento me agradava naquela ideia de teatro. Mudamos de assunto, e Rômulo, já meio alterado, iniciou o relato do fora que sua namorada havia lhe dado, já que ele era assumidamente um cara muito controlador e ciumento. Inconsolável, ele tinha impulsos de agredi-la e disse isso a ela, que deixara claro, com isso, que dele queria apenas distância. Tinha vontade de esmurrá-la ou pior. Manfredo olhou pro lado e fez uma cara de desânimo sarcástico ao ouvir isso. Olhei pra baixo e torci a boca meio involuntariamente. E agora, essa. Manfredo cortou o silêncio de alguns segundos: Olha, isso não tem futuro, não. Se tu não tá nem aí pro que vai acontecer com ela, pensa no monte de problema que tu vai arranjar pra ti mesmo. Mais alguns segundos de silêncio. Peguei a deixa e falei um pouco sobre como ele poderia lidar com aquele sentimento, como poderia talvez tentar negociar com a namorada (embora eu achasse que ela não aceitaria mais ter contato com ele, pelo menos não a curto prazo) e como poderia lidar com a rejeição definitiva caso isso fosse uma certeza. Falei de improviso, mais por tensão que por confiar de fato naquelas palavras. Mas vai que ajudassem, ué. Eu espero que tenham servido pro cara se aquietar. De qualquer modo não tive nenhuma notícia dele depois da colação de grau, nem boa, nem ruim.

Conversamos por mais um tempo, assuntos amenos, alfinetadas no Bolsonaro ouvidas por Rômulo em silêncio, talvez por sonsice. Manfredo ocasionalmente encorajava Rômulo a fazer yoga, meditação ou, em caso de diagnóstico, a tomar pílulas e banhos gelados à noite, e o outro ria aparentemente sem perceber o tom de deboche. Depois falamos de coisas aleatórias, relacionamentos. As historinhas de cada um. Contei da minha vida amorosa incerta. Diversas vezes, só gostava das namoradas depois que eu terminava os namoros, e elas arrumavam alguém. Eu queria então reverter as coisas, mas era tarde. Transei com caras, também, numa suruba, foi bom, tranquilo e sem afetos especiais. Rômulo franziu a testa e apertou os olhos. Fiquei feliz por ele ter se chocado. Pequenas alegrias a que a gente não renuncia. Então, desde um tempo relativamente longo, estava só. Só, numa espécie de inércia. Como numa espera desenganada, sem tanta pressa. Lou Andréas Salomé ensinou algo a Nietzsche: as mudanças importantes muitas vezes precisam de pequenos movimentos retomados a longo prazo. Raríssimo, desde criança, eu falar assim de mim pra gente que conhecia pouco. De repente, soube que muitas horas tinham se passado, e talvez eu tivesse bebido mais do que percebia. Gosto de algumas de suas aulas, não de todas, disse Manfredo, sem que eu percebesse claramente se estava de zoeira ou não, se o provável deboche era um jeito de tentar animar o ambiente. Em alguns momentos da noite, eu me perguntava até que ponto contribuí para aqueles caras chegarem ali. Até que ponto houve nas aulas que ministrei alguma contribuição que prestasse pra algo. Algo que parecesse válido. Difícil saber, mas estar ali com aquelas pessoas tão diferentes de mim não era mau. Nada mau. A cerveja possivelmente ajudava a manter o clima de boas. Tanto melhor.

Hora de buscar um rumo. Rômulo sumiu logo em sua moto. Manfredo era adepto e usuário de uma bicicleta. Me acompanhou por um quarteirão, antes de seguir seu caminho, enquanto nos perguntávamos: Esse Rômulo tem jeito na vida? Rapaz, sei não. Caminhei pra casa em que ficava quando estava na cidade, aluguel dividido entre colegas professores. Depois que andei dois quarteirões e seguia por um trecho de poucas casas, todas as luzes ao redor apagaram. A eletricidade e seu rumor sumiram. Escuridão densa e desafiadoramente silenciosa: por uns segundos, tudo deixou de existir. Não estava tão longe e conseguia me guiar até a casa pelas estrelas e pelo risco de lua no céu. Lembrei do Ivo, um amigo falecido de câncer há uns dois anos que tinha uma história amorosa parecida com a minha, avulsa, sem chegar a lugar nenhum. Tinha a minha idade. Lembrei também dos relatos de experiências de quase morte que doentes ou acidentados fazem, às vezes, quando acordam de seus comas: tomada por uma tranquilidade inédita, a pessoa encontra, em um salão iluminado, parentes mortos antes dela e que vieram recebê-la. Não consigo acreditar em vida após a morte: isso pra mim é contar com o ovo no cu da galinha. Pensei então que talvez o paraíso fosse uma experiência neurológica que durasse poucos minutos ou segundos, mas sendo percebida, nem que por um instante, com um gosto de eternidade. Ivo talvez tenha tido seu céu: tomara. Eu continuava vivo e estava chegando na casa em que dormia em Iguatu, quase às três da manhã. Sono. Tinha que dar aula às 7h30. Mas a aula às 7h30 não entra nesta história e, portanto, é um lugar e um horário que nem existem, pura ficção.

Normalizamos

Por Roberta Bonfim

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Normalizamos, o outro e tudo que o mortifica, isso não é novo, é tudo parte desse espetáculo cruel pseudamente irracional pela sobrevivência. E se há algo que é fato, é que todos morreremos e grande parte de nós seremos facilmente esquecidos em até duas, ou três gerações posteriores. Mas, temos como humanos que somos a pretensa ilusão de que é indispensável. Penso que talvez precisemos disso, para resistirmos a tirania do outro, que também o somos.

Tomar consciência sobre as próprias responsabilidades, gera em alguma instância uma rebeldia, com a tirania, com a teimosia, desses seres que somos. E talvez essa rebeldia faísque dando luz a uma raiva justa, que atrelada à sabedoria, pode ser a mola necessária para o nascimentos da utopias e construção de caminhos outros para quebra dos padrões impostos.

E, assumir-se ambiente é também lutar pela sua preservação ambiental que é também comunitária, vamos juntos?

Estamos montando nosso quadro de ação adaptado para tempos de pandemia, se quiser trocar, se somar, sugerir, participar, é só chegar, contato@lugarartevistas.com.br ou @lugarartevistas, ou ainda pelo nosso canal no Youtube e se passar por lá, aproveita pra se inscrever.

Novos caminhos

Lara Leoncio

Comemorando hoje, dia 13 de setembro, 8 meses de uma profissão incrível que é ser mãe da Íris Luz. Nossa! Como é louca essa nova profissão, como é incrível poder acompanhar o crescimento e como é exaustivo um dia após o outro.

Esse mês ela começou a engatinhar e aqui em casa todos reaprendemos também, mamãe, papai e vovó sempre no chão acompanhando cada movimento da pequena. No começo era muito difícil, e muito doloroso pra todos, porque ela ainda não tinha tanto eixo e coordenação motora para poder engatinhar, às vezes a mãozinha não acompanhava a velocidade do corpo, então a cada dois passinhos era uma desequilibrada pra frente e se não estivéssemos SUPER atentos era queda de cara e seguida de choro. E então era colo, conversa dizendo que sabia que estava doendo, mas iria passar, e conversar com as plantinhas pra dor ir embora, esses são alguns métodos que super funciona por aqui, a conversa com as plantinhas é a mais eficaz, rsrsrs.

Depois novamente para o chão e o ciclo do engatinhar até o choro recomeçava, e como é doloroso pra mim essa dúvida se estamos no caminho certo. Pessoas chegavam dizendo ” – Tira ela do chão, ela é muito pequena pra tá no chão.” outras diziam ” – Deixa no chão que ela vai desenvolver mais rápido.”, e mais ” – Tá colocando a menina no chão porque não quer ficar com ela no braço, num inventou de ter criança agora não quer mais segurar…” Nossa como eu fico passada como as pessoas têm palpite e podemos nos proteger de todas as formas, dizer que não vamos escutar ou que já estamos acostumadas, mas como isso ainda nos atinge, pois sempre temos a dúvida e será que “ela”, a senhora palpite está certa? Mas uma coisa que estamos fazendo muito aqui em casa é observar o que para nós e para ela vai ser melhor e vamos em frente na decisão podendo rever essa decisão e voltar atrás a qualquer momento, sem dor, e muito menos sem nos dizer “eu disse”.

Então, mesmo sendo cansativo e até doloroso decidimos seguir e continuar colocando no chão e agora ela já tá bem desenrolada, vai pra todo canto e gosta de desafios, não pode ver um degrau, ou o ferro da mesa que quer subir ou passar por cima, e já se levanta em todos os cantos sozinha, precisa apenas de um apoio e as desequilibradas e quedas de cara cada dia vão acontecendo menos, então menos choros e mais palminhas, porque ela é dessas, quando consegue uma coisa nova ou difícil pede palmas.

E aí vem uma lembrança, não faz muito tempo que a comemoração era que ela está reagindo aos estímulos de voz ou já reconhece quem tá falando com ela, depois começou a se virar só, aí começou a sentar com ajuda inicialmente e depois sozinha e agora engatinhando… Não paro de falar que são os dias mais longos, mas os que passam mais rápidos da minha vida.

Poder acompanhar cada momento dela é incrível, estimular o desenvolvimento motor, estimular a fala e fazer festa a cada conquista é um dos momento mais incríveis da minha vida.

Essa é minha maternidade real, com todas as dificuldades, choros e cansaços, mas repleta de amor, cuidado e muita gargalhada.

Ass: Mãe da Íris Luz

Primeiro registro engatinhando.
Foto: Roberta Bonfim

A existência atual

Douglas Miranda

Imagem da Internet.

Dar voz, ter voz …

Ter ou não ter …

Quantos seriam os dilemas existenciais?

Diria que um tempo sombrio paira sobre nossas cabeças e inevitavelmente acabamos por questionar nossa existência.

Que pulsão seria essa, segundo Freud?

Qual é a essência dessa existência, diria Kierkegaard?

Que tipo de diálogos teríamos se esses referenciais ainda estivessem entre nós?

Quando falamos sobre existencialismo os questionamentos são tantos.

Mundo líquido? Bauman me ajuda, “please” !!!!

E então, caimos na pergunta mor.

O que é existencialismo?

Na minha concepção é um tanto quanto estranho falar sobre esse assunto, particularmente me dá um certo nó na garganta, porque a vida vai passando e, sei lá, fica cada vez mais difícil reavaliar significados.

Imagino que a suavidade seja um caminho.

Fazer da existência uma afirmação constante de alteridades, se a realidade da mesma nos aprisiona ao compasso ritmado da vida, talvez seja preciso experimentar a imprecisão do acontecimento.

Caminhar num passo peripatético e mutante e a cada passo um traço de nós se (des)faz.

Talvez encontrar encanto no acaso.

Dizer sim à vida.

Viver é movimento!!!

Viver é possiblidades!!!

Quiçá poesibilidade, não é mesmo?

Gosto de uma frase de Soren Kierkegaard que diz “A vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada”.

Voltando aos dias atuais, penso que a modernidade é a era em que nossa existência (social) depende do olhar dos outros: acabamos por ser o que conseguimos fazer que os outros acreditem que somos.

Se você não ganha likes suficientes, você acaba não se reconhecendo.

No final das contas seu espelho e seu travesseiro não bastarão.

A filosofia do contente é uma armadilha de consumo. A existência tem amplitude, que inclui: medos, perdas e dores.

E aí, quem é quem para dizer quem é o quê?

Douglas de Miranda, uma mistura de paulistano de nascença, cearense de alma, pai do Gabriel.

41 anos. Estudante de psicologia. Amante das Artes