Não Consigo Respirar!

Nas últimas semanas a sociedade brasileira viu boquiaberta e com algo parecido com revolta o caso de Jorge Floyd nos Estados Unidos, e se emocionou enquanto um policial branco lhe tirava a vida com seu joelho esmagando a traqueia de um homem que não reagia, impedindo o mesmo de respirar e aliado a problemas respiratório temos mais um assassinato de um homem preto, por um homem branco representante do estado.
As redes sociais, sobretudo a comunidade negra mundial se revolta e repercute esse caso de Minneapolis para o mundo, o que vimos foram imensos protestos de pessoas negras, dizendo que vidas negras importam, que se seguiu por um número cada vez maior de países e um número grande de pessoas brancas antirracistas, clamando por justiça social e racial.

No Brasil pela primeira vez presenciei âncoras sabidamente racistas, narrando as manchetes e racionalizando o assassino de Floyd, e se seguiu uma série de coberturas internacionais e nacionais sobre a morte de pessoas negras pelas forças policiais de diversos países e de forma mais discreta falando dos nossos casos de racismo e assassinatos por parte da força policial do estado brasileiro.
Na sequência as redes foram ocupadas com avatares #antifascistas, e por fim a onda passou, deixamos de segurar essa pauta e esfriou, esse breve relato dos movimentos das redes e das pessoas foram aqui exposto de forma meio desordenada, mas que serve para falar que nada mudou, porque nada existiu para a sociedade branca brasileira e rica, habitantes das torres das áreas ditas nobres, nem mesmo quando um garoto, uma criança cai do 9º andar de um prédio, Miguel Otávio Santana da Silva, tinha 5 anos, morreu; esse roteiro criado pela crueldade do destino acontece, tendo como personagens centrais o menino Miguel, negro de periferia, uma Mãe, negra de periferia, que devia estar em casa se protegendo de uma pandemia e protegendo seu filho, a mãe se chama Mirtes, não tem marido, luta para criar seu filho, mas uma pandemia e o fato de ter que comer, e morar lhe tira de casa, da periferia de Recife, até às torres gêmeas onde mora uma patroa branca, loira, primeira dama de uma cidade qualquer na qual ela não mora, que leva o pomposo sobrenome de Corte Real, que teve pela imprensa seu nome e imagem preservada, e que com R$20 mil reais pagou pelo corpo morto de Miguel e teve sua liberdade e direito de ir para uma das Torres Gêmeas em Recife para terminar sua manicure; R$20 mil reais, agora sabemos o valor de um corpo negro morto caído do 9º andar.
Aqui fica evidente um enredo trágico de como a sociedade brasileira entende a população negra, incluindo os anti-racistas pseudo estadunidenses, que só conseguiram por uns dias falar sobre racismo, e nem falo dos extremistas, falo do cara e da mulher instruídos, bons cidadãos que votaram em Haddad para presidente, que importam discursos raciais, que não viram o racismo estrutural nesse enredo macabro que continua, com uma criança de 5 anos indo para o trabalho da mãe no meio de uma pandemia, porque não tinha com quem ficar, a mãe que teve que se submeter às demandas de uma patroa cansada de ficar em casa, e que num rompante de benevolência fala, pode trazer o menino com você, afinal ela tinha manicure, não poderia borrar suas unhas… e que não conseguia descer de sua torre para que seu pet desse uma cagada aristocrática pelos jardins das Torres Gêmeas… e essa mesma sociedade que mostrou algum tipo de reação com a morte de Floyd penalizou a mãe por ter levado seu filho de 5 anos para o trabalho e que portanto a culpa seria dela, não viram o ato como mais um ato de violência contra um corpo negro, viram apenas uma mãe descuidada, irresponsável, muitos desses comentários aliás feito por mulheres.
E assim vamos levando, sufocados por joelhos ideológico, estrutural, conceitual, estético e míope, vemos pessoas pretas seguidamente sufocadas, vocês negam nossa existência e dor, negam nossa cultura, negam nossa vida, negam a vida, e nesse estado de negação vamos sufocando a cada dia um pouco mais, e segue difícil respirar, com as mortes físicas como visto nas estatísticas, e a morte social, seguimos tentando respirar e nos manter aqui para o desespero de vocês, seguimos falando sobre racismo estrutural, sobre racismo recreativo, falando que sim vocês têm privilégios e que por vezes seus privilégios nos encerram em presídios lotados, em hospitais sem estrutura, em casas de palafita, sem saneamento básico, comida, conforto para coisas básicas, não conseguindo dormir por que temos que pensar em como matar o dragão de amanhã… amanhã estaremos tentando respirar em sinais de trânsito da cidade, vamos continuar tentando respirar, abrindo seus portões, subindo silenciosos em elevadores de serviço, limpando seu chão, colhendo seu lixo, cozinhando sua comida, estaremos tentando respirar no rosto e corpo da matriarca vendendo pano de prato nas ruas de Fortaleza, caquética, esquálida pela fome, com olhos fundos, ou sentados nas ruas sobre colchões sujos com nossas crianças o futuro morto desse país, e também vamos tentando respirar te afrontando, dizendo que sim você é racista, ocupando espaços mesmo quando no auge da tua hipocrisia tu sorri para mim.
Caro amigo branco, eu continuarei a tentar respirar, mesmo que às vezes não tenha sucesso, encarando todos os dias a hipocrisia branca, em não debater comigo e com os pretos desses país, eu vou continuar tentando respirar, mesmo quando um jovem preto tem no seu pescoço o joelho de um PM, e isso não ser relevante para o debate que você diz ser anti racista, eu continuarei tentando mesmo quando você me perguntar se …ele não era envolvido?… Mesmo quando você me matar eu continuarei tentando respirar, porque a nossa ancestralidade é isso, continuarei respirando nas minhas pessoas, nos que vêm depois de mim e criarei condições para que a respiração deles seja mais longa, e não cessarei de respirar, mesmo que o seu mundo acabe.


Kiko Alves, Narrativas do Fim do Mundo
Fortaleza – 25 de Junho de 2020

Foto: Kiko Alves | Título: Buscando Sonhos.

Kiko Alves

Coletivo Afrofuture

Jornalista, Pesquisador das questões raciais e condição social das periferias do brasil. Realizador, Professor e Produtor Audiovisual. Especialista em Antropologia da Imagem – UFC.  Mestrando em Sociologia – Pós – UECE ( CE) –  linhas de pesquisa: Cultura, Diferença e Desigualdade. Escreve para o blog às quintas-feiras, em “Qual é o seu Lugar de fala?”

Estou cansada deste mundo, de aparências e hipocrisia.

O vento embala a noite

Embala a copa da árvore

Embala o sonho da menina.

Ainda era 19 de junho, quando eu já estava cansada. Naquele dia quase como uma revelação, recebi:

– Você não é mais uma escritora, agora é uma vendedora de livros.

Só se é escritora enquanto se está escrevendo.

Entro em exaustão.

Um dia após o lançamento do livro, desativei as redes sociais.

Me isolei ainda mais no meu quarto e chorei até ficar sem ar.

O acúmulo de tensão antecipou minhas regras, e eu menstruei na lua nova.

Um desânimo profundo.

Meu único silêncio possível tem sido a leitura de Poesia Completa, Orides Fontela.

Me demoro em cada verso, porque sua poesia é densa, e muito cheia.

Choro também por Orides.

E penso se escreverei ainda alguns livros, e se findarei paupérrima, internada como louca, e se no dia de minha morte me livrarei de ser enterrada como indigente graças à caridade de um médico.

Há muito trabalho, mas há quem já nasce em berço esplêndido, e para essas pessoas, a arte lhes é uma mulher boa.

Abro mão do tempo da criação, do ócio, da leitura, da escrita, do estudo, porque há mais três projetos, é trabalho, e é o que me mantém.

Jamais haverá igualdade.

Talvez esta seja uma oportunidade para pensarmos no quanto já vivemos adoecidos pelos sistemas controladores.

Estou cansada deste mundo, de aparências e hipocrisia.

Da supremacia branca.

Da hegemonia do falo.

Do D., do R., do A, do J…

Do alfabeto inteiro de homens que usaram o meu corpo, e ignoraram minha subjetividade.

HIPÓCRITAS! HIPÓCRITAS! HIPÓCRITAS!

Que ao me ver, me ignoram, porque eu sei muito de vocês.

“Passai por baixo do meu desprezo”. F.P

Estafada deste mundo que agora acontece apenas na virtualidade.

Cansei do amor.

Na realidade, não o sei.

Agora estou trabalhando no apagamento da minha memória.

Marcelina Acácio

Atriz, escritora, performer, poeta e produtora cultural. Autora do livro “De Vento em Poesia”. Escreve às quartas-feiras para o blog, “Coisas de Tempo e Vento”.

Confio e Agradeço

Mais uma semana que corre e quase não me deixa ver, mas esta foi mais feliz que a anterior, ou menos angustiada. Algumas reuniões, com assessoria de imprensa que me disse o que eu já sabia, mas detestei ouvir, a imprensa não abre espaço para geradores de conteúdo, pois independente do que esteja sendo dito, ou da relevância de se falar sobre e com os artistas, eles nos veem apenas como concorrentes, e eu, logo eu, que acredito que não há concorrentes, e sim parceiros, quando o objetivo é gerar e compartilhar o melhor conteúdo possível, cada um na sua linha e caminho. Mas, enfim, eu já sabia, e exatamente por saber nunca me dispus a fazer a assessoria da revista, mesmo sendo eu assessora. Outras questões e muitos respiros.

Vi os números, outro lugar que em nada combina comigo, mas a pessoa aqui fez uma promessa, e nunca faço promessas porque me nego a quebrá-las, e prometi a mim que se não chegássemos aos mil inscritos até o final deste mês eu encerraria a revista, não a Lugar ArteVistas, mas esse lugar de tanta doação. Pois é isso, muita doação, noites em claro cortando, pensando, desenhando caminhos, buscando interseções para continuarmos existindo. Enfim, é importante entender para onde a vida nos leva e eu faz um tempo escolhi não brigar com a vida, apenas aceitar, exercitar a adaptação e agradecer. E por falar em aceitar… O exame deu positivo, aqui em casa, neste momento mais que em outros estamos presas, ando acumulando lixo, logo em época de lua nova,quando devemos nos desapegar, ando apegada até as fraldas sujas, para minimizá-las e também inspirada pelo texto de Janira Alencar, no Lugar de Mãe, vamos usar mais as ecológicas, os sacos já estão separados para irem para Flavia Muluc, vidros todos enfileirados desde o início da quarentena para depois encontrar o melhor descarte ou reaproveitamento. Potes de iogurte e rolos de papel viraram brinquedos preciosos por aqui, as latas de leite viram tambor, os potes de yakult chocalhos. A cada ida ao banheiro, banho, pois melhor que lavar só as mãos é lavar o corpo todo. E a alimentação que de modo geral é boa foi reforçada com a receita de suco verde compartilhada no domingo por Matheus Prestes.  A mente se mantém plena e ocupada com  o lançamento do livro da nossa colunista das quartas Marcelina Acacio que presenteou o mundo com ˜De Vento em Poesia˜, disponível para venda em nosso site (www,lugarartevistas,com,br). No sábado ganhamos enquanto revista um lindo e carinhoso texto de All Franca, sobre nossos 8 anos de Lugar ArteVistas – arte onde estiver e só isso já seria motivo suficiente para celebrar a vida.

Imagem de divulgação

E celebramos mesmo, valendo. No sábado esqueci que precisava de repouso e me joguei em 8 horas de live pelo Youtube, com papos, música e afetos, com tantos ArteVistas queridos. Abrimos com Gustavo Portela na saudosa e querida Varanda Criativa, então veio o padrinho desse lugar, Felipe Romano e nossa poesia personificada Marcelina. E era hora dos queridos da Laranjeletric, que são responsáveis pela nossa trilha original que amamos. Na sequência vem Samya Kassia, a sambista mais sambista que o Poço da Draga nos oferece, ela só arrasa, e para se somar, Felipe de Paula e seu sorriso inspirador e para fechar essa tarde com luz transbordante, um papo musical com Isabela Moraes. Grata William Mendonça por esse presente. 

De noite a festa começa com Felipe Barros, que é uma verdadeira borboleta que leva carinho e arte para todos. Eu não pude tá lá pois era hora de ser só de Ana Luna, mas agora assistindo choro de tão lindo Felipe cantando os Artevistas estão chegando e falando lindezas de amor para esse lugar que tanto nos faz bem. Klebson e Lara me emocionam e nos presenteiam com atualização da nossa bonequinha. Lara que também escreve no nosso Blog, no Lugar de Mãe. Grata gente! Grata seus ArteVistas queridos. Na sequência vem poesia de Marci, com Ivina e Junior Barreira. E ai já estou assistindo em off. Na sequência entramos eu e Romano para esse lugar celebrar e renascer e juntos recebemos amores Diego Moraes, Daniel Chaudon e Isabela Moraes. E ai perdemos a linha e curtimos esse encontro de amor.  Se perdeu e deseja assistir, basta clicar nos links abaixo.

E então veio o lançamento e celebração digital do livro ˜De Vento em Poesia˜, com apresentação de Jão, Bárbara Leite e Maria Vitória e até eu ganhei a honra de ler Ser Tão. E que emoção esse momento, que alegria essa realização e quando o mundo deixar vamos lá, celebrar o físico em festa e abraços. Na sequência vem a lindeza da Rhaissa Bittar, que é uma das ArteVistas mais cuidadosas que já conheci e junto veio Daniel Groove e plotamos e eles cantaram e encantaram. Teve até São Jorge para nos proteger e abrir caminhos. Foi delicioso. Grata a todos e cada um.  Terminei mais disposta e energizada do que quando comecei. ❤ E por falar em live, hoje conversamos com Bagaceira, amanhã com Silvia Moura, na quinta com Cia do Tijolo e fechamos a semana com nosso ArteVista KIko Alves.

Imagem de divulgação.

Mas, foi ontem assistindo a parte 3 dessa temporada de aniversário que as lágrimas escorreram de vez, ao tempo que eu sorria e agradecia por ter podido viver, encontrar, trocar e aprender, tanto, isso sem contar os abraços sorrisos e a honra pela confiança de cada um que se dispôs a ser-se neste lugar de arte onde estiver. Esse programa mexeu comigo porque começa em São Paulo e essa ida a Sampa foi repleta de tanto, que nem consigo expressar em palavras, muitas questões, encontros, emoções, provocações, descobertas, e … encontros. Conversamos com Naty depois de uma performance sobre a carne humana e uma longa caminhada pela Paulista acelerada, o papo com Rodolfo, foi 10 minutos antes de uma performance forte e honesta, com Thamara no frio, pensando nos moradores de rua. Com Léo caminhando junto a tantos no dia exato da exoneração de Dilma. E com Diego, o respirar, um sentir-se em casa, tudo, ou quase tudo acompanhada por Felipe Romano e Natan Garcia, seres tão caros pra minha história e pra esse Lugar Artevistas. Daí retorno pra Fortaleza e de cara encontro com João Artigos e quem conhece João sabe que encontrá-lo é sempre um convite a sair da caixinha. E então Flávio Renegado, que se dispôs a ir conosco para Barra do Ceará e lá falou sobre tanto, e exaltou os ventos de Iansã fortes ali no encontro do Rio com o Mar.O papo com Cangaias, além de ser leve, doce e felino é no saudoso Teatro das Marias, lugar de tantas histórias e amor. E então vem Erivan que eu havia conhecido em outro momento e que amei reencontrar, conversar, aprender e passear pelo Castelo Encantado em sua doce companhia. E pra fechar, o Serviluz, o Farol, som do mar e uma papo com Danchá e a turma do Servilost. Sou só gratidão, por tudo, por tanto.

 

Programa de ontem que tá lindão.

Próxima segunda tem mais, mas por hora, vou respirar. grata!

ENTREGO, CONFIO, ACEITO E AGRADEÇO!

Roberta Bonfim 

Atriz, jornalista e agitadora cultural, idealizadora e realizadora da revista eletrônica cultural Lugar ArteVistas – arte onde estiver. Escreve às segundas no Lugar a mãe que sou e às terças sobre a revista Lugar ArteVistas.

Dois nascimentos

Por Mari Trotta.

Minha filha nasceu dia 24 de junho de 2015 pela primeira vez. Dia de São João, tarde fria. Eu não soube do seu nascimento.

Senti que ela nasceu, escrevi no mesmo dia no meu diário de gravidez invisível, aonde eu registrava as sensações da espera, enquanto aguardava na fila da adoção, um devaneio: “Não sei se meu bebê já nasceu. Com os olhos fechados vi uma pequena passarinha. É você, Alice? Meu corpo piou.”

Começou uma nova história paralela enquanto eu piava.

Era uma vez uma menina que teve dois nascimentos. Um nascimento, desses de barriga, que todo mundo tem. Outro, que só as pessoas que precisam fazer novos nascimentos têm. Quando se nasce duas vezes, duplica-se a existência.

No primeiro nascimento da menina, o de todo mundo, espera-se que a criança, recém-nascida, chore. Chorar é estar viva e saudável. Depois de chorar, recebe um nome para ser indivíduo, alguém diferente de qualquer outra pessoa, mesmo tendo elas todas o primeiro nascimento.

Não dá para não nascer, nascer é o primeiro ato de chegar no mundo, de colocar o corpo para fora da mãe e ser único. Assim foi: a menina nasceu, chorou, recebeu um nome e tornou-se única. 

O segundo nascimento é bem diferente, há quem não tenha. Nascer de novo pode ser uma escolha ou não. Nascer de novo é sempre um grande acontecimento, um alívio, uma revolução. Uma determinante metáfora. Quando se nasce de novo não se chora, se ri. Pensando melhor, às vezes se chora, de tamanha emoção, um chorar rindo.

Foi com um sorriso de olho e uma leve extensão na boca, esticando os lábios, que minha filha nasceu pela segunda vez. No segundo nascimento, eu estava lá: gestei, pari e dei a ela um nome. Quase o mesmo nome do primeiro nascimento.

Quando engravidei sem barriga, tudo que estava a minha volta também engravidou: as palavras, os poemas, a lua, os sonhos, a dança e as pessoas ao meu redor. Todo mundo grávido!!! Esperando comigo. Comecei com os poemas e devaneios da espera ansiosa “Será Alice ou Valentim?”, sobre o tempo que não passava, sobre a vontade de estar junto. Preparando quartinho, colando nuvens na parede. “Quando a barriga é no coração, a gestação não se conta por semanas. Contam-se os batimentos cardíacos. Os meus andam a mil por hora. Nos meus batimentos, a pressa. Passo o dia a gerar o coração. Pulso. Pulsa. Palpita. Devaneios do coração.”

Minha gestação começou no coração, surgiu um embrião na cavidade interna, chegou pelas artérias e foi crescendo até não ter mais espaço, subiu para a cabeça, ativou neurônios e tomou o corpo todo e depois de uma grande explosão: duplicou minha existência. Nasci de novo junto com ela no dia 19 de dezembro de 2015. Tatuei nosso nascimento.

Com imensa alegria anunciei para o mundo o nascimento da minha filha Alice! Pisei em São Paulo, meu irmão me buscou, fomos pegar meu pai no metrô, era dia 18 de dezembro, sexta-feira à noite, quando: BUM!!! A bolsa estourou!!! Me ligaram da Vara da Infância. Peguei o primeiro voo de volta para o Rio. Foram 14 horas de contrações no corpo… Fui para o abrigo no dia 19 de manhã, sem dormir nada, muito ansiosa para conhecer a Alice. Vesti minha melhor roupa. Olhamos uma para a outra e profundamente nos reconhecemos. A minha pequena, inclusive, já se chamava mesmo Alice!!! E era a cara do pai!

Dia em que a Alice foi para casa (23/12/2015)

Fotografia Anderson Lins (o pai)

Quando se fala de adoção utilizam a expressão “mãe de coração”, ela não me representa. Sou mãe de corpo inteiro. Acordo e vou dormir mãe. Embora eu, certamente, não me chamo mãe. Não fui rebatizada. Mariana é mãe, professora, coreógrafa, amante do samba, militante. As enumerações são infindas. Gosto de me ver plural. As Marianas que me habitam conversam muito com as Alices sobre ter coragem de nascer sempre que for preciso. Mas muito melhor é nascer de mãos dadas.

Fotografia Anderson Lins (o pai)

No país das maravilhas a gente fica minúsculo, depois cresce. Descobre as sensações de sermos tantos e até antagônicos. As duas Alices, que tanto amo, conversam, brincam, choram, comemoram seus dois aniversários. E lá estou eu em todas as celebrações das suas existências, piando e preparando a festa.

Mariana Trotta é coreógrafa, bailarina, videomaker e escritora. Autora do livro “O discurso da Dança: uma perspectiva semiótica” (Editora CRV). Mãe da Alice. Escreve às segundas-feiras para o blog Lugar ArteVistas no Lugar a mãe que sou.

COMO PARA ME NUTRIR E PRINCIPALMENTE PARA FAZER A RECONEXÃO.

Por Matheus Prestes.

Começo o texto com a pergunta: Por que você se alimenta?

Algumas respostas podem ser: “para matar a fome”, “para suprir alguma emoção”, “por conforto”, “por obsessão”, “vício”, “por prazer” e por aí vai. As respostas são várias. Se me fizessem essa pergunta anos atrás eu responderia “como porque tenho fome e por hábito”, simples assim. Hoje a resposta é: COMO PARA ME NUTRIR E PRINCIPALMENTE PARA FAZER A RECONEXÃO. Minha relação com os alimentos é outra. Já não busco o prazer comum da mesa mas ele vem pela funcionalidade dos alimentos. Claro que também faço minhas receitas apetitosas mas a felicidade vem em sentir as sensações mais sutis no meu corpo como leveza, bem estar, vibrações leves. Acho lindo saber que através do que coloco em minha boca eu estou alimentando as minhas células e que essas irão formar de tempos em tempos novos tecidos. Alguns estudos sugerem que temos um corpo novo a cada 7/10 anos. Impressionante essa ideia né?!! Será que a teoria dos setênios tem ligação com essa renovação do nosso ser? Enfim, se for assim, podemos a todo momento, escolher a matéria prima, os tijolos, que edificarão esse organismo de alta tecnologia que é nosso veículo por essa jornada que se chama vida. E esse veículo já me levou a tantas e tantas experiências que meu desejo é que ele siga íntegro e com potência para que nossa aventura termine quando tiver que terminar e com dignidade. A alimentação mudou minha forma física, mas principalmente minha forma de pensar, pois a transformação se fez a nível celular, de dentro pra fora. Nosso corpo responde rápido a uma nutrição de qualidade. Se as escolhas alimentares duvidosas nos alertassem logo no primeiro contato nossa relação com nosso alimento seria outra, porém o normal é que leve um bom tempo que varia de alguns anos até décadas para que nosso organismo sinta as consequências de uma alimentação antinatural. Aí quando chegamos a terceira (melhor) idade onde temos nossa bagagem cheia de experiências  e mais seguros, já nos conhecemos o bastante para sabermos o que queremos fazer, falar, pensar, quem somos de verdade a ponto de não perdermos mais tempo remoendo julgamentos e opiniões externas, nesse momento que poderemos descansar de uma vida de doação para o sistema, nesse exato momento chegam as “doenças dessa fase” e junto com elas vários potinhos de remédios, horários e limitações. NÃO. NÃO PRECISA SER ASSIM. Apesar de estarmos acostumados com esse tipo de cenário a realidade pode e deve ser outra. Os italianos dizem “malattia di vecchiaia” para se referirem as doenças da velhice. Com o passar do tempo, nosso organismo vai diminuindo sua potência porém isso não significa que devemos virar dependentes da indústria farmacêutica e presos a um corpo disfuncional e sim que se antes corríamos atrás do ônibus por estarmos atrasados para o trabalho, agora iremos dar um passo de cada vez até chegar a casa de um amigo, se antes carregávamos um saco de cimento nos braços para a reforma da casa, agora levaremos nossa netinha nos ombros para ver o pôr do sol. O ser humano pode gozar de energia até altas idades. Se tiverem curiosidade e tempo deem uma olhada nos povos mais longevos do mundo: Abecásia, Cáucaso no sul da Rússia, Vilcabamba no Equador, Hunza no norte do Paquistão e os centenários de Okinawa no Japão. Os três primeiros vivem em áreas mais afastadas porém Okinawa é um local com as características da sociedade moderna. E falando em modernidade, quando a cultura moderna (progresso) com seus hábitos chegou a Vilcabamba, ao vale dos Hunza e a Abecásia a saúde se retirou aos poucos. A sociedade atual priorizou a praticidade em razão do natural e do saudável. Pense no miojo (já comi muitos), nos alimentos congelados, nos processados…. todos eles sem informação nutricional de qualidade porém no formato ideal para uma vida corrida sem tempo de respiro e de reflexão. Alimentos que se encaixam como uma luva na escravidão moderna. E pensando nisso tudo eu comecei a me desligar aos poucos do que o sistema me ofereceu e fui buscando a reconexão com meu berço que é a natureza. E como fazer isso vivendo numa cidade como São Paulo? Primeiro diminuindo as ambições que me foram impostas sem minha aprovação, e segundo diminuindo o ritmo que eu pensava ser natural. Com esses dois pontos claros em minha mente eu pude começar a olhar e perceber melhor o meu redor. Vi que estava vivendo algo superficial e tóxico mesmo defendendo minhas “verdades” da época. Busquei então a simplicidade no ter e no ser. Desde então uso os alimentos naturais , a flora, o ar (que por aqui não encontro puro), a água, o sol e a terra como pontes entre a selva de pedra e meu lar original. Quando eu tomo meu suco verde pelas manhãs eu entro em contato com a energia do Sol que viajou por 150 milhões de quilômetros até nós e se armazenou nas folhas, frutos e frutas, assim como a energia telúrica que chega através das raízes, a energia dos ventos e da água, entro em contato com a vibração de um alimento fresco, integral que não existe num produto de prateleira. É muito rico poder contar com a sabedoria da natureza que através de zilhões de anos vem nos dando suporte de forma gentil e amorosa através do processo simbiótico de evolução. A indústria desvirtuou meu paladar desde a infância a ponto de eu não perceber quando criança o doce de uma cenoura ou de uma beterraba e buscar essa sensação apenas em produtos com açúcar refinado, pois o leque de possibilidades naturais não tinha como competir com um ramo que gasta milhões de dólares para viciar um cidadão desde as fraldas. Mas como tudo é um processo constante de evolução, tudo está sempre em movimento, hoje posso dizer que minha felicidade habita na simplicidade. E vou aproveitar o momento de pandemia onde focam muito no isolamento social, álcool gel e máscaras e quase nada no fortalecimento da imunidade para deixar aqui a receita do meu suco verde que é uma ferramenta necessária para darmos minerais que alcalinizam nosso organismo, promovem a desintoxicação e a imunidade, trazem vida, vitaminas, enzimas, sai minerais e bactérias benéficas pra dentro de nós e tudo isso dentro de um copo de sangue verde de fácil ingestão. Essa é a minha receita de hoje em dia, caso nunca tenha tomado um suco verde (exceto aquele de abacaxi com couve) comece reduzindo o número dos ingredientes para ver como seu corpo reage. Sempre o tomo em jejum, é assim que desperto carinhosamente meu organismo. Coar o suco (uso um tecido para isso, voal) é uma forma de facilitar e aumentar a velocidade de absorção dos nutrientes.

5 tipos de folhas – alface, acelga, couve manteiga, radíchio, ramas da cenoura. Costumo  usar de 7 a 10 folhas das mais doces como alface e rama da cenoura e de 4 a 7 das mais amargas como rúcula e almeirão. Você pode usar quais folhas estiverem ao seu alcance e de acordo com seu paladar.

1 raiz – cenoura OU 1 batata yacon MAIS 1 fruto – 1 pepino OU 1 abobrinha OU 1 chuchu.

1 a 3 maçãs para adoçar.

1 naco de uns 2cm de raiz de cúrcuma.

Bater tudo no liquidificador e depois coar. Caso você tenha um liquidificador sem um bastão pilador você pode usar um biosocador  para empurrar os alimentos sentido a hélice ajudando assim seu liquidi, mas sempre com muito cuidado por amor. Esse biosocador pode ser a cenoura por exemplo. Para facilitar o processo, coloco primeiro a maçã picada, seguida pelo pepino. Bato esses dois para extrair a água estruturada dos alimentos e só depois bato as outras folhas, dando prioridade as mais moles como a alface. Nesse suco não vai um pingo de água, todo o líquido virá de dentro dos vegetais. Esse líquido é mais equilibrado da face da terra. Se puderem consumam alimentos orgânicos mas não deixem de tomar seu suco caso só tenham acesso aos alimentos cultivados de forma tradicional.

Se quiserem conhecer um pouco mais sobre meu trabalho e estilo de vida acesse o Instagram do Begodverde.

Desejo ótimos passos a cada um de vocês e lindas reconexões!

Felicidades, teimosia e parabéns – oito anos do Lugar Artevistas

Olá, caro leitor!

Hoje é um dia muito especial para a Lugar ArteVistas, 20 de junho de 2020, data em que comemoramos oito anos de seu nascimento. Fui convidada pela nossa Artevista Roberta Bonfim a trazer algumas palavras em vista dessa comemoração. Me senti honrada e ao mesmo tempo nervosa, pois como poderei passar em um simples texto o que esses oito anos representam? Garanto que me esforçarei para trazer um pouco do amor que tenho por esse lindo Lugar.

Mais por teimosia e sem muita pretensão, em junho de 2012 iniciou-se esse projeto. Seu nome veio como um presente através de uma confusão da Roberta (fundadora), ao ouvir a música de Jorge Ben Jor, “Os alquimistas estão chegando”, mas para ela o que ouvia era “Os artevistas estão chegando”… E de fato os Artevistas estavam chegando, pois estamos aqui hoje para celebrar toda essa caminhada. Eu digo que o Universo dá Spoilers, sempre algo que será importante  em nossas vidas, ele dá um jeito de apresentá-lo antes, de uma maneira simplória e desapercebida, e só nos damos conta depois que a transformação já aconteceu.

No início apenas como uma revista eletrônica no Youtube, e a cada nova experiência, a cada novo conteúdo criado, a Lugar Artevistas foi ganhando forma, notou-se a importância do lugar em que estavam inseridos e sua representatividade. Seja no cortiço de artistas, seja na feira nordestina no Rio, seja em tantos outros lugares que foram de extrema importância para a consolidação dessa teimosia de Roberta, o Lugar Artevistas estava lá, embrionário, sendo gestado com muito amor e persistência. Um desses lugares que não poderia deixar de citar foi o Poço da Draga, em Fortaleza-CE, onde nasce campanhas sociais de revitalização artística, apoio aos moradores, entrega de cestas básicas e tantas intervenções proporcionadas pela existência da revista.

Houve tempos de altas, hiatos, reinvenções, mudanças, que aos poucos foram moldando-o até o surgimento do nosso blog em 2018. Hoje contamos com 16 ArteVistas produzindo textos com diversas frentes de conteúdo, e  já vos digo que é apenas o começo, muito ainda está por vir. 

Oitos anos… Aos que me acompanham sabem que falo sobre autoconhecimento e não poderia deixar de falar desse tema em minha escrita, portanto podemos extrair um pouco de informação que número oito nos trás, o qual chega como um grande vigor para ampliar nossa força. Podemos citar a numerologia como base, pois segundo ela os números trazem potências energéticas que podem ser aplicados em nosso dia-a-dia. Sendo assim, devido às comemoração dessa data tão especial, trarei algumas informações desse número para nós, para que assim possamos nos preparar para esse próximo ano que se inicia hoje.

O número 8 na numerologia está ligado ao equilíbrio e à justiça. Ele é um número de mediação, visto que tem valor entre círculo e quadrado, céu e terra, o que confere a ele uma posição intermediária no mundo. É comum que o número seja lembrado junto ao infinito, cujo símbolo é o 8 deitado. Devido a esse simbolismo o 8 representa o ilimitado, o fluxo sem início ou fim. No Tarot ele se refere à completude, ao caráter totalizador, também o considera como símbolo de equilíbrio e de justiça — sendo a carta VII, que indica ponderação, análise, racionalidade e rigor, sendo que o desafio move quem é influenciado pelo número 8. E todo o empenho no campo profissional, além disso, é também empregado com sucesso no âmbito espiritual. Percebe-se que esse número na numerologia se traduz em equilíbrio e é relacionado a líderes dedicados e bons gestores. As energias que emanam dele devem ser usadas para tomar decisões ponderadas, dirigir uma organização com equilíbrio e usufruir da autoridade com justeza. Quem recebe influência do número 8 tem como destino a prosperidade econômica. 

Fonte: https://www.iquilibrio.com/blog/oraculos/numerologia/numero-8-significado/).

Ou seja, é hora de arregaçar nossas mangas e expandir, criar, crescer e desenvolver com muito amor nosso Lugar Artevistas. Para mim tem sido encantador estar na equipe, me reinventar a cada novo texto, atravessando meus limites internos e criativos, compreender que a arte e o autoconhecimento caminham juntos. E também não podemos deixar de citar a grande transformação, humana, que trouxe a fundadora a todos nós que aqui estamos. Para ela, o Lugar Artevistas deixa de ser uma simples teimosia e passa a ser um legado, no qual poderá deixar registrado tudo aquilo em que acredita, a princípio para sua filha, mas sabemos que é para todos que por aqui passarem. O meio da arte precisa ser levado a mais lugares e estaremos aqui, sempre nos reinventando, nos desenvolvendo e criando. São momentos ímpares de superação, dedicação e mão na massa, em que deixa de ser apenas uma projeto e passa a ser um compromisso com a sociedade, que está tão carente de um novo olhar para a vida. Obrigada aos oitos anos, sejam bem vindos os novos anos que estão por vir.

Com amor,

All Franca

Especial oito anos

Por Roberta Bonfim.

Começo agradecendo a sua participação nesta celebração de oito anos da Lugar ArteVistas – arte onde estiver, onde além de arte, música e bons papos, pretendemos conseguir fortalecer a campanha em prol da comunidade do Poço da Draga, que iniciamos a convite da ONG Velaumar, logo no começo da Pandemia. Já nos relacionamos há algum tempo com o Poço, buscando caminhos de alteração de narrativas a partir da arte, mas neste momento o que precisamos é manter a comunidade alimentada e segura, por isso chamamos todos a fortalecer esta campanha chamando os seus a acompanhar a live e ajudar ao Poço da Draga, com doações de cestas, material de higiene geral e/ou pessoal, ou transferência de dinheiro. Colocarei a tarja com dados bancários na live.

Desenhamos a programação buscando por diversidade de estilos, estados e caminhos que se encontram todos na relação com a arte. Serão oito horas de live divididas em tarde (14:30 às 18:30) e noite (20 às 00:00), e neste entre teremos ainda o lançamento do livro de nossa Artevista Marcelina Acácio, e nossa primeira assinatura neste Lugar de editora, uma realização que nos alegra bastante.

É lindo celebrar este momento com vocês, em uma programação tão rica e repleta de seres queridos.

Segue peças com programação completa:

Inscrevam-se no nosso canal do Youtube e simbora que vai ser um dia lindo e divertido.

A transmissão será pelo Youtube

https://www.youtube.com/c/LugarArteVistasarteondeestiver

 , enviaremos o código do stream 10 minutos antes do seu horário previsto.

Hoje à tarde faremos uma passagem técnica  rapidinha seguindo esta sequência, tá?

Gustavo Portela  15:00 Unidos_venceremos
Marilac Lima (João) 15:05
Laranjeletric  15:10 multi tela
Samya Kassia 15:20 transição em multi
Felipe de Paula 15:25
Isabela Moraes 15:30
Felipe Barros 15:35 Os alquimistas estão chegando…”
Equipe

Felipe Romano

Marcelina Acácio

Lorena Armond

Jether

Lara e Klebson

Allana Peixoto

15:40 multi tela
Marcelina, Junior e Roberta 16: 00 multi tela
All França 16:05
Daniel Chaudon 

Diego Moraes 

16:10 multi tela
Lançamento De Vento em Poesia, de Marcelina Acácio 16:20 multi tela
Rhaissa Bittar 

Daniel Groove

16:30 multi tela
Poemas De Vento em Poesia (eróticos) – Maria – Andrea Del Castel –  16:40 multi tela

E a partir da próxima sexta-feira, voltamos com a nossa programação normal de textos.

 

Bilhetes: interferências

Saulo Lemos

Para Thássya

Quando eu tive você, o nome dessa “posse” era o labirinto em que fui poeira. Eu “tinha” você apenas no sentido em que eu era um pedaço de nós, éramos um clube, uma gangue, bando de bichos ariscos. Você também me tinha, tinha meu autodesconhecimento, meu desistir de mim mesmo até segunda ordem, meus beijos, meus braços, meu olfato, minha incapacidade inexplicável para me deixar perder na tua selva. Li teu poema e pensei ter entendido tudo. Você não era meu espelho, não era o seletor de imagem da sarcástica vossa-senhoria-sabe-tudo, e isso tremeu miseravelmente a corda velha em que eu me equilibrava e onde percebi o quanto eu precisava e precisaria de você.

(Antes, aqui não havia esse asfalto, essas calçadas, paredes, lâmpadas prontas para maltratar o segredo das sombras. Antes havia aqui uma multidão de folhas, desordem acesa de corpos vegetais mutuamente atravessados, muitos galhos, alguns troncos embrulhados em folhas de todos os tons possíveis de verde, às vezes cinzas, marrons, amarelas, roxas. Flores eventuais, belas, ásperas e talvez intratáveis, a não ser para aqueles que elas deixam tocá-las: os que voam sobre elas, os que as destroem com suas bocas. Animais pequenos e médios andavam por ali. Raramente, alguém maior, apreciador da carne alheia, mas não humanos: durante um longuíssimo tempo, não havia sinal deles por aqui.)

A visão é mesmo o mais frágil e fútil dos sentidos e não podia me ajudar a ver que a minha narrativa precisava da tua, de teus becos sem saída, de teu corpo insatisfeito. Eu estava solto em tua geografia, perdido nela, precisava de ti como só entenderia muito tempo depois. A punição para essa demora em entender foi uma maciça fusão de vida e morte no corpo supostamente vivo. Você me chamou por um tempo na cidade vazia, até que um dia o mundo se fantasiou de cidade vazia, essa que veio me buscar; você então já não estava mais em lugar nenhum num raio de cinco sentidos quadrados.

(Animais de aparência triste, quase sem pelos, posição bípede que instaura uma ambiguidade: seu poder de trânsito multidirecional se faz poder contra o mundo, mas é também o risco de eles não conseguirem ou não quererem mais parar, poder de caminhar inconscientemente (e até que ponto conscientemente?) em direção à própria extinção. Esses animais um dia inventarão coisas, o que quer dizer: eles transformarão. Inventarão nomes para si mesmos. Reinventarão a vida e a morte uns dos outros de inumeráveis maneiras.)

A tua ausência me injetou a lição final do amor e do esfarelamento dessa água-viva chamada mim mesmo. Patético, eu soube finalmente o que era o teu trajeto, o que era o teu chão, esse que um dia não consegui enxergar (minhas doenças, embora eu precisasse tanto de saúde, eram uma cegueira e uma morte temporárias, à espreita para me roubar os chocolates meio amargos que tinha escondido pra mais tarde). Soube das infinitas massagens que minhas mãos esconderam milímetros acima dos teus ombros, dos teus pés, das tuas mágoas. 

(Nas narrativas dos povos que a miopia mental do Ocidente chama de primitivos, conta-se que todas as coisas vieram de uma mesma matéria indiferenciada da qual o corpo humano também teria vindo. O corpo humano e os outros corpos que orbitam paralelamente a ele seriam bifurcações de uma vasta farinha do caos. Do big bang, da célula-ovo, do caldo quente e proteico veio a diferença, a multiplicidade, porque afinal a homogeneidade, a cor, o plano fractal, tudo isso é multidão de moléculas, de disparidades, disseminação, poeiras.)

Gotas invisíveis de chuva em dia ensolarado me cochicharam que, onde você estivesse, tudo estaria melhor porque resistindo e querendo estar vivo. Logo, as plantas, as pedras, os bichos (com quem eu sempre me comuniquei melhor que com pessoas), o concreto, o asfalto, os prédios e seus encanamentos carrancudos repetiam que você era teimosia de vida se reprogramando longe de mim. Mas aquela mesma ausência me deu outras lições, como a de que a morte era em mim a possibilidade, ainda, de viver de novo. A morte misturada à vida era pressão insuportável, que magoava e inchava a vida e lhe tornava obrigatório se expandir mais uma vez. Eu caminhei por tempo indeterminado através de matas e morros, terrenos baldios de milhares de quilômetros entre uma cabana e outra. Baldias, falando sério, eram mesmo as cabanas, as casas, prédios, condomínios e shoppings. 

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Imagem da Internet.

(Acontece que os humanos não são uma raça nada homogênea, e isso se manifesta comumente como um tipo de autólise cancerígena: o homem é o vírus do homem, da mulher, dos homens etiquetados como não-homens, o que infelizmente se sabe com exemplos excessivamente repetidos diariamente. O que chamam de “este mundo” é multiplicação contínua de mundos que se interferem, que se ignoram, se cheiram, se avizinham, se destroem. Os humanos destroem povos humanos e povos não humanos: ser povo por aqui e por aí é perigoso demais.)

Matas e morros que abriram meus poros e meus extravios, que haviam se fechado desde não sei quando. E, finalmente, trancado em minha própria cabeça enquanto tudo lá fora era doença e vontade de morrer, cansado e com a pele gasta, escutei teu beijo, o teu nariz dedilhando meu pescoço, teus gemidos baixos, pouco antes de se tornarem os gritos que dois silêncios, o meu próprio e o do ar, recusaram me trazer. 

 

(Aquele homem alto e pálido que vai seguindo ali, coluna reta, roupa cara moldada ao corpo saudável: um vencedor, dizem. E é o que diz a si próprio, é o nome que gostaria de ter, que acredita ter. sua vida lhe soa interessante, seus desafios vencidos lhe convencem de que ele merece se sentir especial. Sempre teve sorte. Até determinado momento não saberá que a vida gosta de sacudir as pessoas de repente, que ele pode perder tudo inesperadamente, apesar de todos os cálculos, apólices e equipamentos de segurança, que sua confortável coragem não o protege do grito silencioso que se escancara só no mais desconfortável desespero: saberá disso apenas quando sua espécie bugada cumprir seu destino, ou melhor, seu rastro de pólvora: um futuro colapso geral da paisagem e dos olhares.)

O quase castigo de lembrar do teu amor denso e longe me toca como um semissilêncio que não se cala: contra tua vontade, talvez, mas não contra a vontade dos dias, não contra a vontade do sol. Talvez eu precise apenas sofrer, talvez eu precise apenas morrer, talvez eu precise apenas correr. Mesmo quando eu não existir mais, haverá ainda alguns vagalumes onde estivemos: nossos nomes silenciosamente emaranhados em seu piscar, mas é apenas de mim que esses vagalumes estarão rindo, ainda. Como se fosse profecia: uma lembrança alegre por vir, por acontecer, morando no silêncio que circula pelo tempo como se fosse sangue. Quando eu voltei pra casa, esse lugar tão longe de tudo, consegui pelo menos trazer comigo um grão da tua voz, um grão da tua pele, um grão do teu gesto.

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Imagem da Internet.

(O privilégio branco: poder, pensar, transitar, gozar, ferir, tudo isso de um jeito próprio. Embora em geral não usufrua dessas opções todas: pensar, por exemplo, só de forma pragmática, cautelosa, demarcada, quase supersticiosa, embora tantos brancos queiram nomear suas tristes superstições, sua vontade trágica de superioridade como elegância. A materialidade tem estado do lado deles. Existe um cordão de isolamento sofisticado, multidimensional, virtual, antieuclidiano. Negras, negros, índias, índios, mulheres brancas, até, vão continuar fora do cordão de isolamento por décadas, séculos. Considerando que a espécie humana sobreviva tanto tempo, lógico. Ou?)

Dentro do fio rapidamente enferrujado entre um vagalume e outro, rodava um filme infinito, ou que se repete constantemente, não tenho certeza. Nós dois de pé, eu toco teu ventre, depois teus ombros, teu rosto, só para fazer suspense, e logo me ajoelho, rosto no teu ventre, no teu sexo, todo na minha boca, você tenta cobri-lo com as mãos, só pra me provocar, porque afinal teu sexo é um alto-relevo petulante, saliente, é a urgência do encaixe, você em mim, eu em você, tuas costas que eu mordo, você morde as minhas, mordemos nossas línguas, você diz: ai!, depois aperta um pouco os olhos com tesão e me beija com gosto e certa raiva, raiva talvez de ter tão pouco corpo, esse teu corpo robusto, pra tanta vontade.

(Existe uma montanha em que eternamente é noite de luar. Às vezes chove, lá. Árvores, arbustos, capim, mato ralo achegados coabitando a pele dessa montanha. Em cima de uma pedra alta e nua, um sapo cururu maior que qualquer outro observa a lua initerruptamente. Seus olhos têm aquilo que o olhar humano, em suas gramáticas miseráveis, só entende como severidade, ressentimento, dureza, repulsa. Mas esse olhar aparentemente vazio é a contemplação mais intensa: o lugar escuro e suave onde consciência e inconsciência, vida e morte, são a mesma frequência de onda; um onde sem onde, onde a matéria esqueceu a diferença entre fluxo e imobilidade. Sobrevoando o topo da montanha sem nunca pousar, ziguezague no ar, sombreado pelo luar distante, um urubu-rei tem no olhar que ninguém vê (exceto ele mesmo) a mesma expressão do sapo eternamente imóvel. O sono interminável da montanha foi ouvido como música pelos feiticeiros que conseguiram há milênios visitá-la em sonho e viram, distantes, o sapo e o urubu.)

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Imagem da Internet.

Sim, teu brinquedo, este corpo aqui, corpo que por hora ou por tempo indiscriminado nem precisa mais da coleira em que ronca aquela palavra escrita: eu. Este teu brinquedo triste, agora e sempre exalando calor, exalando teu cheiro, sou um terreno ciscado por teus beijos, tuas mãos me desarmam, me batem, sim, e eu ou este ou isto ou tal corpo sem lado nem quadro te retribui te apertando embaixo e em cima. Para te mostrar que tudo isso é sério, seriíssimo, embora tuas gargalhadas ecoem repetidamente nos entalhes adequados para a surpresa, minhas ou estas ou tais mãos te assanham profundamente, assanham tua alma, puxam teu cabelo crespo. 

(A transgressão é muitas vezes um ato que ameaça a própria integridade física do indivíduo, do sujeito tradicional. Numa época como a atual, toda pretensa transgressão se esteriliza e vira mercadoria quase que instantaneamente, como quem vira pedra sob o olhar da Medusa. Porém, correr riscos, experimentar a incerteza, deixar o outro ver esse ato, isso ainda é uma possibilidade relativa de transgressão, embora politicamente ambígua, já que usada tanto para exaltar a liberdade como para garantir aprisionamentos. Transgredir é se pôr em risco extremo: não nas sociedades antigas ou clássicas ou tradicionais, porque aí se tratava de uma questão de sobrevivência, mas sim, em parte, nas modernidades ocidentais, nos recentes disso. O movimento conservador atual usa esse pôr-se em risco a seu favor. A pobreza é fator que ajuda isso, ao passo que também é, por si, uma questão de sobrevivência.)

E você diz: ai!, como se fosse uma voz de mulher na última palavra de um livro dizendo: sim!, e me aperta mais, e não se trata mais de dois corpos, isso nem faz mais sentido, mas pulsação, ponte, tremor, susto (susto delicioso), jatos de eletricidade sob a pele, jatos líquidos dentro dessa confusão, o fora e o dentro que, desde o início de tudo, desde a primeira palavra e o primeiro som, o primeiro filete de água, a primeira fagulha, a primeira alça entre o morto e a vida, não, melhor dizendo, desde antes disso tudo, são a única e mesma coisa: um mundo. Não, quem sabe?: mundos. Em comum. Esse tanto que cabe numa espera, nos tempos que dentro dela se aproximam.

Venha a mim tudo o que for movimento.

Pensei escrever sobre qualquer coisa, sobre as intensas e macias cortinas alaranjadas que o J. quer comprar pra casa, assunto do nosso ritualístico café da manhã de hoje. Desacompanho a política brasileira para cuidar da minha imunidade, porque sinceramente, resistir ao vírus e ao governo autoritário e genocida daquele senhor, requer muita saúde, mental e física.

O J. disse que está me sentindo mais leve nos últimos dois dias.

Uma confissão pessoal, sinto que um ciclo se fecha, e outro desponta.

A semana corre intensamente e há o lançamento de um livro previsto para o próximo dia 20, às 22h00, pela Lugar ArteVistas, revista eletrônica e editora.

Este livro é o “De Vento em Poesia”, minha primeira obra, que será lançada em meio à pandemia de covid-19, reafirmando a vida e a arte. O livro tem isso, esse morrer e renascer. Ao tempo que nasce uma obra, morre parte da autora.

É um convite ao íntimo do ser que sou.

Me desnudo mais com a palavra, do que quando desço a roupa fora.

O livro é sobre L I B E R D A D E. Eu falo sobre L I B E R D A D E.

Minhas avós não falaram. Minhas bisavós não falaram. Gerações de mulheres não falaram.

Eu pertenço à geração das mulheres que falam. E eu sou vingativa! Não sou pacífica.

Volto às coisas práticas, porque estou atrasada com elas.

Tenho ainda que fazer um bom marketing para este produto.

Acompanhem a Lugar ArteVistas ( @lugarartevistas) e também a mim ( @marmaracacio) no Instagram. Lá saberão de mais informações sobre o lançamento e como adquirir o livro.

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Ilustrações: Thyara Costa

Projeto gráfico: Jão

Coisas de Tempo e Vento por Marcelina Acácio.