Minha amiga violência,

Tu flertas comigo desde tão cedo, né? Quando cheguei tu já fazia morada e sentava na cabeceira, como convidada de honra. Não lembro exatamente a primeira vez que nos vimos frente a frente, mas lembro-me bem do medo que sempre tive de ti, mesmo quando a vejo pulsando em mim. 

Tu tens sempre os mesmos olhos e o mesmo timbre base na voz, independente do soprano, contralto, barítono, ou grave da voz humana que te é posse, que tu faz parte.  Outro dia dancei, como se fosse o Rio Jaguaribe um de nossos encontros, daqueles que deixam memórias inesquecíveis no corpo/alma. Dancei para liberar, para partiturizar, dancei porque dançando me alcanço em lugares que adestrei minha mente para não acessar., o bom é que hoje te reconheço mais rápido. Outro dia te vi no rosto de uma colega, acho que ela nem percebeu que você tomou a frente, o protagonismo. Te vi já em muitos rostos, das mais diversas idades e muitas vezes no meu próprio.

Um dos nossos encontros mais marcantes, foi em uma trans linda, típica dos anos 90, ali na frente do Domínio Público e Órbita Bar ela me olhou, ela me viu e eu a vi e você estava lá, me olhou, mas não era eu seu foco. Mas… Eu te via, e mesmo hoje quando rememoro esta cena, chego quase a ver seu rosto violentado, pois tu, tu querida é o resultado dos afetos tristes, que geram ódio que te produzem violência(s). 

Já te vi em tantos rostos, e também nos meus, nos rostos que me vestem, dos que  eu dou conta para o momento. Como escreveu um amigo sobre mim, “vivo meus momentos e mesmo quando o tempo aperta faço questão de ser feliz. Sabe porque querida violência? Porque te aceito e reconheço seu papel no rolê, só não desejo mais te permitir protagonismos na minha história, a senhora já roubou muita cena por aqui, e eu sou criativa, sou boa em transformar, em (des)construir, em mudar, de rumo, cidade, vida, perspectivas, corpos, lugares de existência. 

Sabe o que percebi outro dia? Que meu corpo codificou-te como ato de amor, creia, felizmente fui e sou salva por minha essência e pelas artes que me rodeiam e não me permitem aceitá-la, minha cara. Tenho hoje consciência que pelo justo equilíbrio da substância, posso viver longe de ti, ao percebê-la mesmo quando invade a casa, por outros corpos externos ao meu.

Não te quero mal, apenas não te quero mais. Flertarei contigo de longe, apenas para conhecer com antecedência sua chegada, e não mais para oferecer-te a cadeira de honra, mas apenas a permanência para estar, por ter consciência que és parte de mim, do todo e até em ti existe Deus.

Roberta Bonfim 09 de maior 2022

Ontem foi dia das mães

Ontem foi dia das mães e minha filha disse que não me amava e não precisava de mim, sorri pelo meu desejo interno de que ela realmente não precise mais mais de mim, assim estaremos juntas só pelo desejo pré-existente do nosso amor profundo amor.Se compartilho essa intimidade é para dizer que somos todes humanes, crianças e nós “adultos, todos cumprindo seu papel fundamental de lutar para existir como somos..
A bem da verdade é que vamos crescendo nessa estranha relação de gratidão pela vida e luta pelo direito de ser sem a sobras dos que vieram antes, buscando descobrir por conta própria e buscando seus próprios meios para demonstrar suas frustrações e medos.
Eu por minha vez falo grosso e me disponho ao abraço, contraditoriamente, como é o existir, respiro fundo acalento minhas crianças. Respiramos juntas e vamos nos equalizando. A avó estava em casa, ela queria brincar e não dormir, eu precisava fazê-la dormir e também me possibilitar esse descanso.
No sábado fui à baladinha porque sou mãe mas como tudo que aqui há, sou também Deusa, sou mulher. 😀

Ideias também envelhecem

Gosto muito do exercício de revisitar meus antigos escritos para conferir se minhas ideias evoluíram de alguma forma. 

Escolhi dessa vez um texto de forte valor afetivo que inspirou o título da coletânea de crônicas e outras narrativas [“Viver, Simplesmente”], lançada em 2016, mimo da minha editora pelo meu ingresso na chamada terceira idade.

Trata-se de tema espinhoso – a morte – abordado bem antes de vivenciarmos uma das maiores tragédias sanitárias do planeta que dizimou mais de seis milhões de pessoas no curto espaço de dois anos, o equivalente à população todinha do estado de Goiás, sendo o Brasil o segundo país com mais mortes por Covid-19 no mundo, atrás apenas dos EUA.

Transcrevo a seguir alguns trechos:

“Viver desapegadamente para não sofrer com afastamentos ou viver intensamente e sofrer – mais intensamente ainda – com os afastamentos inevitáveis? Fiz essa pergunta dia desses para alguém bem próximo e a singeleza da resposta me surpreendeu: ‘Viver, simplesmente’.

A Tanatologia, ciência relativamente nova que estuda a nossa relação com as perdas – incluída aí a mais traumática delas, a morte –, afirma que o sentimento ou ‘luto’ causado pelo desaparecimento de um ente querido – potencializado, quando em caso de mortes prematuras – lidera a lista dos maiores sofrimentos de grande parte da humanidade. Mesmo para os que afirmam crer na eternidade da alma, a dor da perda – de um filho, por exemplo – é insuportável e, muitas vezes, insuperável.

Não me sinto imune, e também não escondo o medo, mas gostaria muito de aprender a encarar a morte da forma mais natural possível. Aceitar que tudo se acaba, que nada é para sempre”.

Tanta coisa vi e vivi nesses últimos dois anos, perdas, decepções e sofrimento. Mas descobri também solidariedade e compaixão. Assim como o corpo, a mente acumula rugas, flacidez e manchas. Envelhecer, contudo, pode ser bastante positivo, na medida em que traz maturidade e aceitação. É remoçador perceber que não sou mais a mesma pessoa de anos atrás, que adquiri novos valores e passei a enxergar o mundo sob outros prismas.

A procura do bairro que satisfeito sorri

(Não leia caso você seja o Nando Reis)

Esse texto pode parecer muito específico e talvez seja. 

Ia dormir, me lembrei que escrevi para uma pessoa sobre o fato de all star combinar ou não com priquitinha (para quem não é de Sergipe, é um termo para sandália de couro.). Resolvi revisitar, mudar tudo e publicar aqui no Artevistas. Então, esse texto é a conversa que ficou pra hoje. Ou para um tempo atrás, já que essa pessoa não se faz mais presente e isso aqui é apenas um monólogo modificado e caótico.

Fiquei pensando sobre a ideia de comprar os dois all stars, o azul e o preto de cano alto, e se isso não acaba sendo muita expectativa. Isso de ser um ser completo e inteiro em termos filosóficos e amorosos. Talvez me deixe nervosa e sinto, mais uma vez, que vou ficar repleta de talvez, sendo a confusão minha única certeza em praticamente tudo que escrevo.

Lembro de uma vez que escutei “Nossa você é tudo que eu imaginava”, essa situação me dá um pouco de pavor, porque não sei na verdade quem eu sou e quem eu imagino que eu sou, então pensar que eu estou sendo a imaginação perfeita de alguém sem ao menos ser a minha, me deixa apavorada. Se eu estou em contínuo processo de autorreflexão e descobrimento, como essa pessoa consegue acompanhar essas mutações? Como essa ideia fica se adaptando a esse ser que não sabe ao certo para onde está indo? E de onde surgiu essa pessoa que você imaginava? Quem é essa pessoa?

Além de que fico um pouco nervosa de pensar que já tenho em minhas mãos os dois all stars, sabe? Esse fato de já ser esses dois e eu não sei, Nando Reis, se eu estou tendo uma crise de ansiedade, se quero ter esses dois, se esses dois se completam realmente, se isso tudo é um motivo importante para crise e talvez eu devesse só escutar a música e imaginar cenários românticos como qualquer pessoa. Mas esse tanto de questionamento e o não saber as coisas me deixa nervosa pensando que se eu já tenho esses dois, talvez eu não precise procurar mais all star nenhum. Então os gregos estavam errados, Zeus não dividiu ninguém no meio e a gente não precisa ficar buscando nada. Fábio Júnior, você também tem culpa nisso, mas não vou entrar nessa música, no momento estou apenas justificando o que vem a seguir com base em meu mapa astral ser praticamente igual ao dele.

E por ter nascido no mesmo dia que o “Carne e unha, alma gêmea, bate coração” eu preciso assumir que gosto da ideia de que a gente vive numa constante busca desse outro all star, ou de priquitinhas, ou de havaianas azul e branca ou de um scarpin vermelho, e enfim sapatos falam muito sobre pessoas. Nunca liguei muito para eles, Chorão estaria orgulhoso desse antigo eu, mas só comecei a prestar atenção nas minhas roupas, de modo geral, quando eu senti vontade de passar uma imagem mais séria e talvez eu tenha me perdido um pouco nessa visão de seriedade e misturado com uma sensualidade que eu nem queria ter, mesmo sem usar os sapatos certos para isso. Mas isso é pauta pra outro texto e talvez vocês se sintam como minha terapeuta se sente agora.

Talvez por me perder em mim mesma é que fico nervosa de ser esses dois all stars e não estar mais buscando por ele ou pela priquitinha. Inclusive, não busco mais priquitinhas, já tive a que passou em minha vida e acho desesperador pensar em ter algo próximo daquele estilo de novo. Acredito que é preciso de novos sapatos e é preciso experimentar novas combinações, mas no momento me encontro longe da busca do sentido amoroso da coisa, pois a combinação já foi encontrada.

No fundo isso tudo faz parte daquela ideia de que o desejo é o maior dos sentimentos e afins, porque a ideia de querer ter os dois é um desejo. Você deseja encontrar o bairro das laranjeiras que satisfeito sorri, sendo que é tudo uma visão idealizada e fruto de um Nando Reis que talvez não tenha superado Marisa Monte. Desculpa Nando, avisei para você não ler, pode ser um gatilho.

Por fim, acho intrigante ter os dois ou querer comprar os dois porque no final a gente é tudo isso, né? O all star, ou priquitinhas, ou havaianas azul e branca ou o scarpin vermelho. É muito mais do contexto, do desejo e da coragem do que sobre o sapato em si.

Mês de Amor

Por Roberta Bonfim

Ser Mãe não é pensar ser, mas ser-se. Não há quaisquer padrões para os caminhos construídos na relação mãe e cria, seja o tipo de mãe que seja, assim como o tipo de cria. Existem infinitos, mas o que é comum a todes é o desejo de que a cria seja-se, mesmo que isso às vezes os mantenha distantes por toda uma vida.

E se a gente muda a perspectiva do abandono, para a de extrema humildade em assumir que não se consegue. Ser mãe, querides leitores não é tarefa fácil. É o pleno exercício de amor. Ser mãe faz mais potentes na batida do coração e algumas, como eu, apresentam medos nunca antes minimamente flertados.

Desde que começamos este blog algumas mães já compartilharam vivências por aqui e com todas tanto aprendi, e às vezes em momentos nada a ver com o que elas relatam, lembrei do como e deu certo. Ando mesmo pensado que toda ideia concebida é de algum modo uma ideia compartilhada e as vivências se entrecruzam para que percebamos o óbvio de que somos juntes, que é esta união que nos fortalece, a percepção de que podemos ser rede uns aos outros, ou no caso de nós, mães, umas às outras.

É bonito ver amigues com filhes brincando com a minha filha, mas a maternidade não é uma tribo, ou uma mudança de fase no videogame da vida, é apenas um outro lugar, nem melhor , nem pior, mas com suas próprias questões, frutos de nossas próprias questões. E amo os amigues sem filhes que estão só o gás para serem bons parceiros de boas trocas sobre a mãe, e temas que por mais liberais que sejam serão tabus. Eu sou particularmente feliz por ter amigos de vida, assim me ajudam a escrever com detalhes os caminhos do existir em conjunto, aprendendo juntes.

Outro dia depois de uma reunião conversando com um colega sem filhes, e relatando da demora na recuperação de uma cirurgia simples como a de apendicite e rindo digo; com criança pequena é difícil ter descanso. E ele disse algo como: a eterna relação de amor e odio” mãe e filho. Sai refletindo a respeito e cheguei a conclusão que na minha relação com a cria de modo geral tem-se o amor, o que dificulta a relação, ás vezes são as influência diretas, ou indiretas do ambiente, e há momentos em que rola tudo junto.

São duas vidas, vivendo muitas vidas, vivendo ao tempo que se aprende a viver, experimentando a existência, buscando de algum modo consciência para melhor selecionar as experiências. E aqui na casa que sou e habito, busca-se equilibrar o sistema, entre a criança que sou e a que educo e o ser que sou no hoje e o que desejo viver no amanhã. Assim, a maternidade foi para mim caminho da quebra real do tempo espaço, onde eu preciso me revisitar para me acolher, trabalho para ser o ser que desejo ao tempo que trabalho para outra vida diretamente, e dialogo com a senhora cheia de gatos, que serei.

Ser mãe me acalma e enlouquece, ser mãe me liberta e prende e evidência todas as minhas humildes contradições, que são tão nossas. Gratidão a cada mãe que me acolheu na estrada da vida e as tantas que me inspiram e ensinam. Grata!

Efeitos de Elena Ferrante.

Gostaria muito de terminar esse texto. Esse início já não é o planejado e nem o que a priori
seria escrito no computador, já que ele surge de uma necessidade tremenda de escrever
em qualquer papel que tenha pela frente e vem com letras mais bagunçadas e confusas
que o usual. Dessas letras que, talvez algum dia, se olhem, seria motivo de desistência de
leitura. E graças a essa última fala, inicio então como previsto no bloco de papel: Sempre
tive uma ótima rotina de leitura. A construção dessa frase ressalta algumas coisas que
podem ser supostas. Em primeiro, logo me vem que pode parecer uma certa presunção ou
tentativa de me gabar sobre um passado que pode estar presente ainda. Em segundo, me
lembra que esse “tive” é um pretérito seguido de um sempre, sendo assim, não existe mais,
não seria motivo de glorificação. Então esses livros que sempre me arrebataram, me
compreenderam e até me ajudaram a me esquecer de mim, de alguma forma foram
alocados em outra posição na minha vida.


A necessidade que existia desse prazer, passou a se tornar uma perda. Perdi a vontade de
me reconhecer no olhar do outro. A leitura se tornou mais lenta, mais densa, pode-se dizer até dolorosa de se lidar. Sendo feita apenas quando necessária por motivos acadêmicos.
Nunca tinha entendido direito esse sentimento até “A amiga genial” e, infelizmente, esse texto não é sobre o livro. Muito menos algum tipo de resenha. Mas é sobre um dos assuntos que ele trouxe à tona ao longo da leitura: eu. E isso pode parecer mais egocêntrico do que realmente é.


“—Não quero mais ler nada do que você escreve.
Por quê?
Pensou um pouco.
__ Porque me faz mal.”


Esse texto poderia também ser uma sequência de trechos retirados desse livro, sendo apenas um compilado dos momentos que existiu um sentimento mais intenso, para quem precisasse ler apenas sentir, ou até mesmo numa tentativa de justificar um comportamento individual. E para além de identificações pessoais, me veio a necessidade de escrita. Essa que também eu abandonei.


Por medo.


E enfim, surge Elena Ferrante, na minha vida. Que nem sei quem é. Nem sei quantas pessoas sabem quem é. E que junto com seu anonimato, veio a exposição de várias pessoas. Eu me senti exposta naquelas páginas, quase de maneira violenta, afinal como seria me identificar com a brutalidade da realidade dessas pessoas nessa cidade italiana pós-guerra e com características de selvageria humana. Me expõe que não conheço quem escreve esse texto da mesma forma como não conheço ela, mas sou capaz de um reconhecimento mínimo pelas palavras. As mesmas que geram medo. Expõe que se essa Bárbara batesse na minha porta, me convidando para algo ou pedindo para entrar, eu bateria a porta na sua cara.


Ela que não é revelada, me faz escutar músicas de quando tinha 12 anos numa tentativa de transparecer algo que já existiu aqui e me agarrar numa imagem mais leve de mim mesma.
Uma imagem que permeia entre as duas personagens principais da história, uma amada,
outra vista como cruel. Essas duas sendo retrato de fases de mim mesma e talvez de toda
mulher. A competição e a necessidade de ser qualquer outra coisa além de mim, é relatado
pela adolescência das meninas, mas ainda está aqui.


Talvez, esse texto não seja sobre nada. E não informe nada. Seja fruto apenas de uma
necessidade de entender que não preciso de uma Lila, ou uma Lenu, ou de alguma
amizade para sentir conflitos. Já que esses me permeiam tal qual se estivesse uma cidade
toda morando dentro de mim. No mais, peço desculpas a uma pessoa em específico, que
não citarei o nome, mas que sinto muito por toda a competição gerada e tudo que foi
vivenciado de ruim graças a comentários alheios e necessidade rótulos como se fossemos
produtos de mercado qualificados como próprios para consumo ou não. Que existem
critérios a cumprir. Como se não fossemos tudo dentro de nós mesmas e não apenas
“amadas ou cruéis”. Sinto muito por ter sido conivente com isso, e até mesmo alimentado
uma competição pessoal de que seria melhor em algo que você ou você ser melhor na
maioria das coisas que eu. Talvez precise da reflexão se esse amor gera admiração que
pode ser confundido com inveja facilmente se não minimamente racionalizado.

Esse governo não me representa!

Se alguém no mundo olha para o Brasil atual, vê uma sociedade de moral adoecida.
E sentencia: o fascismo venceu, a hipocrisia reina soberana .
É inevitável não ouvir ecoar o grito do Cazuza, quando ele canta: “Brasil mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim”…
Porque fomos vencidos pela falsa sensação de segurança; passivos, deixamos sair do “armário ” preconceitos, o machismo mais primitivo, a homofobia, a misoginia e o desejo masoquista de escravizar o outro para nosso bel- prazer.
Deixamos claro nossa necessidade mesquinha de : justiça com as próprias mãos. Nos deixamos levar pela desculpa esfarrapada do: ” sou antipetista”.
Me poupe, se poupe e nos poupe.
Discordo com veemência da célebre frase: ” cada povo tem o governo que merece”… Não merecemos esse governo doente e fascista. Egos inflados, ausência absoluta de empatia, falso moralismo e egoísmo, não fazem um bom governo.
O que me conforta é saber que o tempo todo eu (e os meus) estávamos do lado certo da história, que não compactuei com o fim da nossa Democracia, nem com o fim dos direitos das minorias, não ajudei a destruir o sonho do filho da empregada doméstica de virar “doutor” . Nem me incomodei em dividir a poltrona do avião com o zelador do meu prédio…
Estou de luto pelo meu país e com pena do nosso povo. Desejei do fundo do meu coração estar errada e desejo mais ainda sorte para quem continua comigo nessa luta. Prometo seguir resistente, me manter firme e vigilante.
E lá vem Cazuza novamente: “grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair. Não, não vou te trair”!
Não darei um único minuto de trégua para nossa luta por liberdade, igualdade e fraternidade.
Também por vocês, meus filhos João Pedro e João Vitor, não desistirei nunca. Como diria meu pai: ” eu envergo, mas não quebro”.
Quando “outubro chegar, saudade já não mata a gente”… E com ele venha a renovação da esperança de um governo melhor, e de um país mais justo e igualitário.
Que a máxima: governo do povo, feita pelo povo e para o povo, prevaleça.

Textos que escrevi aos 12 anos de idade

Arquivo pessoal

nome

.

homenagem a
pessoas anônimas de ocasião
(homenagem a beldades anônimas):

.

tem hora em que ela se perde
um pouco,
e isso faz bem

.

tem hora em que ela se perde
muito,
e isso faz mal

.

tem hora em que ela se perde
um pouco,
e isso faz mal

.

tem hora em que ela se perde
muito,
e isso faz bem,
sorte é ser forte

.

tem hora em que ela se perde
mesmo,
e até agora não entenderam o nome
que ainda não inventaram pra isso

.

poetas

.

Uma poeta escreveu
contra jeitos gastos de pensar
porque precisava combater;
ficou famosa pelo tempo que pôde, até desaparecer

.

Outra poeta escreveu
contra jeitos gastos de falar
porque pensava em se destacar;
ficou famosa pelo tempo que teve, até morrer

.

outra poeta escreveu
contra jeitos gastos de viver
porque podia desestabilizar
Ficou famosa tipo sempre, mas só depois de morrer

.

E outra poeta, a que alguém mais amou, escreveu
contra jeitos gastos de interferir
porque sabia bagunçar;
nunca ficou famosa,
sua voz ecoa solta, anônima, silenciosa, mesmo depois de morrer

Acervo pessoal

Tattoo na alma

Lógico que todos sabem que essa imagem significa uma tatuagem… E que tatuagem é uma escolha, um estilo de vida, uma representação figurativa da nossa personalidade. Faz quem quer e nem todos curtem. Ok!

Fazer uma tattoo é, em si, uma escolha, mas alguém tatuar o próprio corpo em homenagem a outra pessoa é algo emocionante e inexplicável. Foge à regra. O pensamento é o seguinte: eu estou sendo eternizada na pele de alguém! É como se ela, Leticia, passasse um recibo, mostrando, para quem quiser ver, nossa história de cumplicidade e amor.

Leticia sempre esteve marcada na minha alma, desde quando ainda era um grãozinho de areia no “forninho” da sua mãe, Xambioá, filha do meu marido. Minha neta veio como um presente da vida e eu a acolhi, exatamente assim, como avó. E que se dane, o sangue, o DNA, a lógica. Eu sou avó da Letícia e ponto.

Porque, assim como mãe, pai ou qualquer outra relação, o que vale é a entrega, o compromisso, a dedicação, o amor, comprometimento, a ação. Não existe essa de avó do coração, filho de criação, meio- irmão. Existem os papéis, os vínculos, a representatividade de cada um em nossas vidas.

Temos tantas histórias lindas,divertidas e desafiadoras pra contar dessa relação…

Uma das minhas preferidas, é de quando, num parque, eu acompanhava a brincadeira no pula-pula do meu filho João Pedro, na época com 5 anos, e a Leticia, com 2 anos, me chama, persistente: “Vó, olha aqui…” ” Vó, num sei o quê”… ” Vó”…
Uma senhora olhava admirada aquela cena…
Ela estranhou ao me ouvir, atenta, responder prontamente a todos as demandas da Leticia, se aproxima e pergunta:
… me desculpe, mas por que essa menina esta lhe chamando de vó? E continuou:
…você é muito nova pra ser avó!
Eu, prontamente, orgulhosa, respondi:
… Porque sou sua avó!!
Simples assim.
Mania que as pessoas têm em querer enquadrar todo mundo dentro da sua caixinha limitada, mania de pensar cheio de regras imutáveis e nada flexíveis. Mania de seguir o padrão que essa sociedade nada inclusiva , impõe, sobre às relações sociais e humanas. Desde quando, é preciso ser, “sangue do meu sangue” para que se ame incondicionalmente?

E, para além de títulos (que eu amo!), ser avó da Letícia, eu sou e sempre serei sua amiga, sua cúmplice, confidente e parceira. E serei tudo mais que ela quiser ou precisar, pois o que realmente importa é estar em sua vida e, a partir de agora, tatuada na sua pele, minha neta.
Letícia, te amo, infinito e além.