O voo do pássaro sem asas

Comprei livros e também recebi a minha primeira prova do De Vento em Poesia.

Que tesão vê-lo em minhas mãos. As ilustrações de Thyara ficaram lindas.

Eu ainda acho que a melhor escrita é a carta em lugar de prefácio de nina rizzi.

Pela primeira vez li o livro, assim, físico, palpável, e a materialidade me trouxe uma nova perspectiva. Consegui me distanciar, e não devo dizer o que penso.

Isto foi motivo para reaproximações.

Enviei mensagem para “A”. Ele respondeu.

Não avançamos. Ficamos nos emojis de coraçãozinho.

Não escrevo mais, também não me angustio.

Gosto mais que antes de ser leitora, é o que o tempo me tem exigido.

Pra começar

Por Roberta Bonfim

Ser a mãe que sou é meu exercício diário e permanente, e isso por vezes me exige olhar pra dentro e mergulhar em profundezas de mim, e me curar ou pelo menos aceitar que há ali questões que precisam ser melhor trabalhadas, para que eu me mantenha o mais próximo possível do ser humano que desejo, e me trabalho para ser, sem qualquer pretensão de perfeito, só desejo deixar vir à tona o ser humano que sou, sem as amarras e barreiras imaginárias. Desejo cumprir meu papel de ponte, de passante e de absolutamente responsável pela minha existência e as escolhas que faço. Estamos a todo instante fazendo escolhas e é preciso se ter consciência disso, para aprendermos a assumirmos as responsabilidades decorrentes de nossas escolhas. Já deu da cultura em que encontramos o culpado, e nos vestimos de vítima, não cabe mais, assim penso. Por outro lado não tenho qualquer interesse de convencer ninguém de nada, apenas e simplesmente busco os melhores caminhos para eu existir o mais próximo que consigo de mim e respeitando as etapas.

Quantos somos capazes de ser no decorrer de nossas vidas? Tenho refletido bastante sobre esse lugar de ser, mas também e especialmente de estar, aceitando a transitoriedade da vida e como ser a melhor mãe que posso ser, sem deixar de ser quem sou, para além da inquisição que existe sobre a mulher mãe, que nunca mais lhe é dado o direito de sair sem seu tamagotchi. Se você é mãe e se aventura a viver sua vida, escute algumas vezes no dia a pergunta: E a filha onde está? Ou cadê a neném? Isso por vezes antes do educado, boa tarde, ou boa noite. Desde que minha filha nasceu, eu exercito a empatia para compreensão da extrema empatia que a criança gera.

Mas, como eis aqui o primeiro texto deste ano de 2021, e eu o escrevo exatamente no dia primeiro, vou me ambientar. Estamos eu e minha cria na casa de Lorena e Jether, com Katiana e Suzy, Ana Luna tá lá fora com esse povo todo enquanto escrevo para este blog coisas sobre esse lugar de ser a A Mãe que Sou, por ser a única que posso ser. E ser a mãe que sou passa por esse lugar de não abrir mão de mim e de compartilhar com o contexto verdadeiramente. Sou mãe solo, mas felizmente vivemos em sociedade e vamos encontrando nossos bandos. 

Ontem quando o relógio marcou meia noite, minha filha dormia lindamente no colchão muito bem preparado pelos tios. enquanto a mãe estourava espumante e misturava com um bom gin, bebida que conheci verdadeiramente ontem. Bebi, sorri, agradeci, celebrei mais um ano e pedi bênçãos ao que cá estamos para construir. Fui dormir às 3h 40 min, e às 4h e 30 min Ana Luna acordou. Eu que jã saio de ecasa com a cesta de brinquedos e livros me pus a lutar contra os olhos que fechavam e contava a história dos três porquinhos pela terceira vez entrando em cochilos interrompidos, por um – “e aí mãe o lobo, so…” 

E espera eu completar, garantindo fisgar a atenção desta mãe que vos escreve ainda com cara de ontem e com o mesmo pijama. Brincamos, comemos, e eu experimentei oferecer a ela leite de amêndoas com toddy e a garota amou e eu com sono oferecido na mamadeira e ela meio estranhando não ser no copo, tomou no ritmo de quem bebe no copo, aos poucos, deliciando-se. Acho bonito esse paladar dela. Acho ela toda muito maravilhosa e sou muito grata por ser a mãe da minha filha e poder compartilhar vida com ela.

Aproveito este texto para falar sobre algo que precisamos falar, e é urgente. Precisamos falar sobre desrespeito e maldade, precisamos falar e entender a gravidade da pedofilia, do tamanho da agessão e dos pessos ancestrais que isso tras. 

E declaro meus mais profundos sentimentos a Danuza Pimentel e Marcelus Rena, pela perda da filha tão querida que vocês trouxeram ao mundo. N”ao consigo mensurar o tamanho da dor de vocês, mas deixo meus abraços e desejos de que saibam transformar essa dor em amor e luta por respeito e pela prisão imediata ao ser que cometer pedofilia. Denuncie!

AXÉ PARA NÓS E PARA OS NOSSOS!

Por Coletivo Abayomi

Ao redescobrirmos os valores civilizatórios afro-brasileiros, princípios que proporcionam novas possibilidades de produzir epistemologias, modos de ser, fazer e interagir, podemos compreender a natureza do pensamento africano. Através dos saberes ancestrais entendemos que a vida é cíclica, que somos parte integrante do sagrado presente na natureza de todas as coisas e que a energia, força motriz, que possibilita a experiência da vida em comunidade e a manutenção do saber é o Axé. 

Axé, ou Asè em iorubá, palavra repleta de sonoridade e encantamento. Pequena e, ao mesmo tempo, tão potente que, como fagulha, acende a vida dos assentamentos e dinamiza o cotidiano nos terreiros. É por meio das iniciações que damos os primeiros passos para o entendimento do mundo e que se revelam as complexas cosmologias que transcendem o visível e invisível, material e imaterial, Orum e Ayiê. 

Imagem: @poe_cole

Energia que se troca no abraço, elo que une a roda, força que move a gira, é cumprimento e saudação, benção, força, senioridade e potencialidade do ser. Axé, é essa força que assegura a dinâmica da vida, força invisível — mágico-sagrada — da realização e do movimento, é o poder de criar e transmitir conhecimento, pois cada palavra proferida carrega a energia vital de transformação, como dizia Mestre Dalua “asè vem da boca”. Axé é tudo e tudo é axé. Axé se tem, se usa, se renova, se acumula. E então, qual o axé desejamos acumular?

As diferentes culturas nos apresentam inúmeros prismas e nomes para o que aqui chamamos de axé: paz, equilíbrio, expansão, natureza, bem-estar, ki, prana, chi, ka e tentam interpretá-lo por diferentes vieses seja através da espiritualidade, ciência, filosofia, ética, etc., mas todas possuem um ponto em comum: a certeza da renovação dessa força ser um novo modo de estar no mundo, devir, e de novas possibilidades de compreender e apreender sobre a pluralidade de nossas existências.

Imagem: @sinistar22x2

Todas as passagens são momentos propulsionadores que nos permitem refletir e firmar intenções positivas porvir. Um respiro, convite ao discernimento que pode estimular a compreensão e a auto confiança. Durante a famosa contagem regressiva, em que nos despedimos de um ano já cansado e nos preparamos para receber um outro ano novinho em folha, de forma contagiante nos nutrimos e vibramos carga positiva e 3…2…1…! Os fogos de artifícios nos dão a dimensão, a materialização, do que se passa por dentro. Isso é axé.

Ao nos permitir canalizar e multiplicar esta potência nos tornamos condutores de toda essa fertilidade e a direcionamos para as diferentes áreas da vida. A energia não mente! Quando buscamos elevar nossas ações e pensamentos, uma reforma íntima e apurada nos auxilia a reformular conceitos éticos nos permitindo buscar por uma consciência mais ampla de si e da sociedade. Tudo sobre a lente da sabedoria ancestral do amor e da benevolência.

“O REINO DOS CÉUS ESTÁ DENTRO DE VOCÊ, E TODO AQUELE QUE CONHECE A SI MESMO DEVE ENCONTRÁ-LO” Provérbio Egípcio.

Sonhar é resistência

Neste 2021 quero sonhar todos os sonhos impossíveis, como os autênticos sonhos devem ser.

Planar entre os pássaros como se um deles fosse. 

Correr mais veloz que o jamaicano Bolt.

Trocar de roupa em três, dois, um…

Atravessar a nado, em seis horas, o Canal da Mancha.

Bailar como Odette no Lago de Tchaikovski.

Perguntar ao meu pai o motivo da sua risada, enquanto ele se enxágua lá no chuveiro. 

Ouvir da minha irmã os perrengues hilários nas suas viagens com colegas e amigos.

Levar a Buba e a Babu para caminhar no calçadão da Beira-mar de Fortaleza.

Dar corda na bicicletinha que ganhei da minha madrinha no aniversário de cinco anos.

Desembaraçar o cabelo sintético da minha boneca “Xodó”. 

Dividir com Lygia o prêmio sueco de literatura. 

Ser derrubada por um filhote brincalhão de Rott e não sofrer um arranhão.

Chegar ao topo da cordilheira himalaia.

Conversar com a criança que fui um dia. 

Acordar e perceber, entre aliviada e aflita, que tudo não passou de um sonho.

Feliz 2021, metade real, metade fantasia!

Embelezamento com sangue menstrual

“Quem dera o sangue fosse só o da menstruação”. Via um perfil de antologias poéticas e de artes visuais no Instagram.

registro da minha primeira hidratação facial com sangue menstrual (na lua cheia).
30.12.20

há cura
a cura é o sangue.

um de muitos processos até aqui, aceitar o sangue e curar.
nosso útero acumula muitas tensões desde nossas ancestralidades, mulheres que não foram curadas, homens violentadores, e isto se repete por gerações.
falo como alguém que conhece bem essas dores.

aprendo com outras mulheres
do poder do sangue para a nossa cura.

“ano passado morri, mas, esse ano eu não morro”

Por Roberta Bonfim

O ano acaba daqui dois dias, e o que isso muda de fato, além do 1 no lugar do 0 final do descritivo. Ao que se refere o tempo? Ele que passa sem nos deixar mais tempo que o preciso para tomadas rápidas de atitude. E não sei vocês, mas eu tomei muitas decisões este ano. Abri mão de coisas e abracei outras com uma força que eu nem supunha ter.

Começar a aceitar que minha história é o que tenho e o que me constitui e que se existiram cenas que exigiam mais, também foram elas fortalecedoras. E não foi nem de longe um ano fácil, mas pessoalmente (individualmente) foi longe de ser o mais difícil em que vivi. 

Neste ano, todes em casa celebramos pela primeira vez a existência desse lugar que no ano que vem que é depois de depois de amanhã, completará 9 anos. E como gravamos já a próxima temporada, de certo existiremos. E isso me alegra.

Quando todos os planos foram suspensos em março, pensei que seria o fim e dai renascemos, ouvi tantos incríveis que disseram carinhos. Ouvi, vi, vivi percepções que me mataram em algum lugar. Experimentei o sentimento de traição, de crer profundamente e ser traída, a ausência de solo é quase física. Mas, também vivi entrar no mestrado, ouvir eu te amo várias vezes ao dia, algumas seguidas de fortes abraços e poder dizer com toda leveza de amar – eu também te amo. Senti o aquecer do coração quando pude retornar ao Poço da draga e viver encontros. Entendi no erro, que o barato às vezes pode sair muito caro, e que ouvir a intuição é mais leve e prático, do que especular sobre caminhos e possibilidades. E assim venho me aceitando espontânea, e para tanto buscando me nutrir de lindezas com os ArteVistas com os quais trocamos. E neste ano realizamos uma live de 10 horas e outra de 8, e eu toda trabalhada na corona. Este ano, o que firmamos lá atrás começa a ganhar corpo e mais uma vez reconheço e agradeço pelos processos. Gosto mais deles as vezes do que se concebe de fato, por isso me frustro quando o processo teima em pensar, pois gosto mesmo é de brincar com responsabilidade. Mas, seguindo Zeca Baleiro, ˜eu demiti o meu patrão”. 

Este blog vem se tornando um lugar cada vez mais lindo e estou certa que logo menos terá respiração própria. E como chega 2021, aviso com profunda alegria que conseguimos depois de 5 anos realizar a construção de um calendário, onde as fotos foram feitas por Jether Junior, Lorena Armond que generosamente deixaram entrar umas fotinhas minhas. Grata! Com 99% das fotos no Poço da Draga resolvemos entregar aos que fazem parte do calendário, de modo que só ficamos com 15 pra venda. Se tiver interesse, fala com a gente no privador do instagram.

Que 2021 possa ser uma explosão de arte e afeto onde estivermos.

Estou exausta, mas estou feliz… apesar dos perigos seguimos vivos e entraremos 2021 cantando. Ano passado eu morri, mas, esse ano eu não morro.

No corpo de uma mulher que foi mutilada virgem

Por Katiana Monteiro

Minha amiga confidente e Dinda de meu Namir, Roberta Bonfim, me desafiou a falar da maternidade. Eu, que no dia 11 de fevereiro de 2021, completo uma década como mãe. 

Até hoje ainda me surpreendo com a indagação. – Eu sou mãe? 

O nome soa tão doce e ao mesmo tempo carrega um peso de chumbo. 

Namir não foi planejado como tudo na minha vida, Mas, por ser contra ao uso da pílula no meu corpo e por ter cedido as vontades de quem me prometia amor. Ele veio, no corpo de uma mulher que foi mutilada virgem, um ovário lhe foi tirado quando tinha apenas 18 anos.  Era eu, ou o ovário. A  vida por um fio.O outro era valente com seus policísticos impetuosos. E, aos 30 me trouxe Namir. 

Juro que quando peguei o exame perdi o chão. Fui tomada por um medo tão grande, afinal apesar de estar na idade da maturidade, eu era ainda meninona no corpo de uma mulher. E pensei, com todos os limites que eu acreditava que meu corpo  tinha, ele  está aqui no ventre, porque era pra ser meu. Encontrei na minha família paterna o alicerce. 

Como é bom ouvir: 

Pode contar comigo. 

Eu

mulher grávida,

 grávida de vida.

Tive a gravidez mais louca e saudável que uma mulher poderia suportar. O abandono, a vida como animadora de um park Aquático, muitos zombavam da palhaça grávida e os puros de coração se encantavam, uma turnê com um espetáculo, dois meses, subindo e descendo avião, de cidade em cidade, uma paixão avassaladora por um carioca. E um segundo abandono. 

Mas a nega aqui, estava firme e forte para dar luz ao seu menino. Que veio de baixo de um dilúvio, o céu de Fortaleza trovoava e o clarão dos raios tomava conta da enfermaria. Nasceu meu Luiz Namir, um ser tão grandioso, de espírito tão sábio que todos os dias me ensina a viver.

Katiana Monteiro – atriz, pedagoga, mãe do Namir e tanto mais.

O ano que descobri Stevie Wonder

Stevie Wonder

Apesar de tudo o que aconteceu em 2020, eu descobri Stevie Wonder. Há alguns meses tenho escutado nos fones de ouvido o álbum “Song in the key of life”, um dos mais importantes da sua carreira e um dos mais reveladores, para mim, sobre a música de muita gente aqui no Brasil e no mundo todo.

O álbum, lançado em 1976, continua super atual. Influenciou nitidamente quase toda a música preta do Brasil a partir dos anos 1980 até hoje. Sandra de Sá, em seu disco mais reverenciado (“Sandra Sá 1982”), é quem diz: “preciso urgentemente falar com Cassiano, sobre o som que Stevie Wonder faz…”. No mesmo ano, Moraes Moreira lança o “Coisa Acesa” e canta:

“Estive ouvindo

Stevie Wonder

Tentando assim

com muito tato andar

Andar na onda que ele anda

Num sentido, sentido assim

Mais abstrato

E o mundo prá que ele nos leva

Eleva a alma e o espírito

Num espaço infinito

Seu universo musical

Pois tudo que ele respira

É música e oxigênio

E assim como todo gênio

É cósmica sua visão

É música e oxigênio

É cósmica sua visão”

E digo que o álbum continua atual porque, apesar de não ser muito ligado a cultura pop contemporânea, assisti recentemente na Netflix o “documentário” sobre o show da Beyoncé no Coachella. Todos aqueles metais (Sax, trompete, etc.) parecem ter saído de “I wish”, música presente em “Song in the key of life”. 

Além dos que citei aqui, ouvindo o disco, lembrei de Carlos Dafé, Mano Brown (principalmente no seu solo “Boogie Naipe”), Hyldon e diversos outros. Ah, sabe aquela música “Pé na tábua”, da Marina Lima? É quase uma versão (linda) em portugûes de “Ordinary Pain”, do Stevie, também presente no disco.

A música mais famosa do álbum é “Isn’t she lovely”, é também a minha preferida, por hora. Estou pensando aqui, talvez, depois de Beatles e João Donato, Stevie Wonder será uma paixão duradoura, com vários discos preferidos.

E você, o que descobriu em 2020?

Sobre o Autor:

Sou Adonai Elias, Comunicador, Dj e amante dos discos. Escrevo mensalmente sobre música para a “Lugar Artevistas” e semanalmente na @itaperidiscos. Para dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

Até a próxima! 🙂

Ballet Filosófico

Experimentar novos movimentos na cidade tem sido práticas as quais tenho vivenciado dentro do contexto urbano. Minha primeira pergunta nessa pesquisa é se é possível alterar campos energéticos de cultura? Já venho escrevendo neste blog sobre a fórmula da teoria da relatividade, E=MC², e suas possíveis pistas, que nos diz que para alterar frequência energética é preciso alterar movimento e/ou massa/corpo. Neste rastro, farejo sinais preciosos que me colocam em diálogo entre a criação de existência e as fissuras deixadas pelo urbanismo colonial. 

Acabo de assistir ao documentário da Netflix chamado “O Começo da Vida”. Falar sobre o agora é falar sobre a energia de descobrimento da vida que existe na criança, pois elas estão em estado de criação constante. Gosto de conversar com minha amiga e parceira Livia Rios sobre o brincar. Já trabalhamos muito tempo juntas. Pesquisamos e vivemos o estado de palhaço, este que nos faz buscar o movimento das crianças como fonte de inspiração, nos ajudando a mergulhar no período de nossa infância, para assim resgatar esse estado de curiosidade tão importante para vida que experiencia. Confesso, tenho percebido em mim movimentos de minha criança e adolescente, esse contato se manifesta como um dispositivo o qual aciono para ter novas possibilidades de viver a energia criacional destes estados de presença. Esse documentário, fala sobre a importância da presença dos pais e da comunidade para valorizar e levantar a autoestima das crianças, para que elas, assim, não tenham medo de experimentar, nem de errar. Por que perdemos esse estado quando nos tornamos adultos? Por que temos tanto medo de viver novos movimentos? Somos adultos que foram pouco influenciados positivamente? Sem querer gerar culpas… Existem também os medos dos pais, pois estes também foram crianças. Existe um padrão que está criando adultos com baixa autoestima. Como alterar esse movimento?

Ao observar o movimento urbano, percebo que a experimentação do corpo está aprisionada e para soltá-la é preciso encontrar o devir-criança, devir-animal, devir-vegetal, devir-elemental… Como seria ser vento na rua? Por onde escorro ou penetro nesses espaços se for água? O que meus instintos dizem para mim quando ando pelo espaço urbano? Observando a cidade com outros olhares, começo a perceber o sentido das estruturas criadas. Sinceramente, não vejo nenhum, porém se olharmos e sentirmos esses espaços por meio dos devires acima, vamos ter outras possibilidades de vivências e alterar esses espaços. Alteração de movimento amplia o campo existencial. 

Outro dia, em meio as minhas pesquisas e práticas de Pranayama, exercícios de respiração da Yoga, quis testar como seria realizar um destes exercícios andando pelo espaço urbano. Criei um programa performativo, este tinha dispositivos de investigação para o pré-caminhar, caminhar e pós-caminhar. O tempo que estive na rua respirei um ciclo longo e profundo, confesso que a máscara dificultou essa experimentação, porém este acessório não me distanciou de resultados interessantes. Trabalhei com a respiração Ujjayi, técnica utilizada nas práticas de Yoga. Ela tem um som particular, porque a glote é acionada como um quase bocejo de boca fechada. Essa respiração é profunda e duradoura, acontece sempre pelo nariz e tem relação com o movimento operado pelo corpo. Escolhi uma respiração lenta e longa, como forma de contrapor o ritmo veloz da cidade. Achei interessante, pois meu ciclo respiratório estava sempre querendo mudar para o ritmo mais rápido, como se o fluxo da cidade quisesse me colocar no movimento padrão, porém minha intenção trabalhava para que continuasse com o exercício. O que mais alterou no meu campo de consciência foi que meu corpo não estava com pressa de realizar nenhum movimento, mas também não perdia tônus e nem presença. Nesse mesmo caminho, trabalhei também a relação com o olhar. Olhar nos olhos de alguém que passava por mim, para lembrar a forma interiorana de cumprimentar os que nos atravessava. Olhar nos olhos de alguém em um contexto urbano pode ser uma afronta, nesse contexto aconteceram: desvio de olhar, desconfiança, não percepção que eu estava olhando e possível clima de paquera. Com a respiração em ciclos lentos e profundos, a ansiedade para agir rapidamente é alterada, colocando o meu corpo para pensar sobre meu movimento, conseguindo alcançar um transe meditativo neste processo.

Esse treinamento de alteração respiratória, induziu meu estado energético, trazendo espaço para que meu campo emocional aja sem pressão; aumentou meu campo de percepção do espaço-tempo, ampliando meu estado de atenção, sem tensionar o corpo; e organizou os encontros sincrônicos de uma forma bem particular.

Tenho estudado a sincronicidade por Jung e também pela filosofia do povo maia. É interessante observar esses acontecimentos e como eles vão acontecendo a partir das intenções criadas. Jung fala que a sincronicidade se relaciona com os afetos, estes podem ser múltiplos, pois são campos emocionais que criamos e com isso atraímos o que vibra na mesma frequência que nós. Por exemplo, sabe aquele dia que tudo dá certo? Estamos vibrando numa certa frequência que atrai os acontecimentos da vida, pensar sobre o que estamos passando é pensar sobre como estamos vibrando. Nosso campo emocional é o mais sensível e rápido de todos, age imediatamente aos acontecimentos. É importante saber disso para entender o que estamos atraindo para o nosso espaço-tempo de vida. Ao trabalhar a respiração em um tempo longo e profundo, percebi que os encontros que tive ao andar no espaço urbano foram, de certa forma, tranquilos. Carros esperaram eu atravessar a rua tranquilamente, sem buzinar ou acelerar para que apressasse o meu passo. Achei esquisito esse momento, pois passei um longo período de tempo urbano para começar a atravessar a rua. 

Reflito, diante desses pontos os quais apresento a vocês, possíveis pistas que podem nos ajudar a criar vida diferente. Passamos por um ano de muita provação, nosso campo emocional, psicológico, físico se desestabilizou. A rua virou um lugar de passagem rápida, sem muitos encontros. Ficamos em casa por muito tempo, nossos olhos cansaram de telas, nossa cabeça quase explodiu de tanto pensar. A tristeza chegou, foi difícil se relacionar com a carência, o vazio assolou a vida, o sentido se perdeu. Porém diante de crises existe sempre a experiência de se recriar. Sabemos que os nossos movimentos estão sem sentido e agora é o momento de abrir o campo de visão para ver a multiplicidade que existe no mundo e começar a se relacionar com ela de formas menos exploradoras. Estamos também sendo explorados. O que fazer? Essa é a busca.

Um dia desses estava conversando com minha a Livia em um banquinho da Praia de Iracema, vendo as ondas bater nas pedras e se espalhar pelo ar, formando um belo desenho de espuma branca. Falávamos sobre os sábios que andam e moram nas ruas, de repente um catador de latinhas parou ao nosso lado para dizer que deus tinha enviado uma missão pra ele, a de catar as latinhas que deixamos na praia para que nós possamos utilizar uma praia limpa. Disse que era esse o serviço dele, portanto ele precisava de dinheiro como pagamento pelo trabalho que estava prestando para nossa sociedade. Em nossa sociedade um catador de latinhas ganha uma miséria pelas latinhas que cata, porém a importância social deste trabalho é enorme. Por que ainda realizamos serviços à nossa comunidade que não tem sentido para ela? Se paga muito bem para serviços que aumentam a quantidade de lixo no mundo, que aumentam a diferença social, enquanto o serviço deste homem não era valorizado? Ele é um sábio, enxerga a existência sem véus. Para onde estamos apontando o nosso pensamento criacional? Como pensamos em serviços que sejam realmente importantes para a vida em comunidade?

Enquanto caminho pela cidade danço outras danças, para pensar sobre a vida neste agora. Sou uma bailarina filósofa, sou brisa, água e furacão. Minha expiração soltada num tempo maior que a inspiração é sem dúvidas um avanço tecnológico ancestral, que retoma a percepção que somos natureza. Nossa programação é impermanente, não podemos controlar a vida, somos partículas desse todo. O que temos é a experiência, nossa professora, que nos ensina pelo movimento. Axé para os dias que virão e, sem deixar de lembra-los, que o ano vira sempre no agora, não precisamos esperar datas comemorativas para atravessar portais, as sincronicidades já estão acontecendo.