Desmistificando o feminismo

Nós, mulheres, existimos! “Existimos, mas a que será que se destina?”
Existimos para quê? Para assegurar a perpetuação da espécie? Para casar, criar e educar os filhos? Poupem-nos de tão limitado destino!
Nascemos para ser o que somos e sermos muito mais! Ser tudo quanto pudermos e quisermos, ser. Somos para ser e viver!
Vamos começar falando o que não é feminismo: não é simbologia de mulher mal amada, não é mulher que odeia homem, nem tão pouco mulher que quer ser como homem.
Feminismo é um movimento emancipacionista, nascido no século XIX, que tem socialmente como principal característica a luta pela igualdade de gênero entre homens e mulheres, no âmbito do trabalho, dos direitos civis, da justiça. Prevê a participação da mulher de forma efetiva na sociedade e na política. Com paridade de salários, quando ocupam os mesmos cargos e funções que os homens, o incentivo para exercer cargos políticos e em profissões que são desempenhadas, majoritariamente, por homens.
Precisamos normalizar a presença da mulher onde ela quiser, sem sermos constrangidas com piadas machistas ou comentários que nos menosprezam. Parar de enxergar a mulher como um objeto de prazer ou defini-la pelo tamanho da bunda ou do decote.
Faz-se necessário empoderar mulheres, desde a educação básica, ainda na infância, para que cresçam, seguras, fortes e livres de preconceito, com visão de futuro para além da maternidade, do casamento, dos cuidados domésticos e com os filhos.
É preciso empoderar as mulheres nas escolhas. Cada uma de nós com a prerrogativa de escolher, ser e fazer o que quiser. Livre das pressões sociais, dos padrões do patriarcado, em que elas têm que casar e ter filhos, caso contrário, não serão vistas como pessoas bem sucedidas.
Somos mulheres, somos multidão. Somos múltiplas, com realidades bem diferentes, educação, meio social, orientação sexual e pensamentos distintos, mas com o desejo comum de sermos aceitas, respeitadas e livres.
Mais didático, impossível!

Sobre o privilégio de ter com quem caminhar

Nossos caminhos foram traçados bem antes da maternidade,assim acredito. Nunca caminhei só, é verdade. Mas, antes do maternar, meu caminhar era mais descomprometido. Depois que tive filhos, a caminhada se tornou surpreendentemente desafiadora e cheia de significados, sou responsável por orientar e conduzir os primeiros passos dessa caminhada, na estrada da vida, para dois seres humanos incríveis que coloquei no mundo: João Pedro e João Vítor.

Se eles soubessem o quão importante é caminharmos juntos…

O quanto eles tornam meu caminhar mais prazeroso, mais firme, com mais determinação… Porque como dizia Clarice Lispector: “Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado, com certeza, vai mais longe”.

Se eles tivessem uma dimensão de que percorrer os caminhos lado a lado, às vezes misturado, noutras seguindo meus passos, tornariam o caminho, mais seguro, mais divertido, mais tranquilo…

Se eles soubessem que nossa caminhada teve começo, mais nunca vai ter fim, porque mesmo depois de chegado meu fim, seguirei guiando-os, emanando vibrações de amor e proteção. O amor de mãe, transcende.

Se eles soubessem que no caminho irão ocorrer algumas paradas, mudança de direção, que eles irão seguir caminhos independentes, distintos, mas em todos eles o meu passo vai estar no compasso da torcida, da oração, da certeza de que eles verão que a nossa caminhada valeu a pena e que sempre, sempre vão ter pra onde voltar. Mãe é ninho, é porto partida, chegada e porto, novamente. Eles vão e voltam para um abraço, para matar a saudade, para ficar um tempo ou simplesmente pegar impulso para mais uma nova caminhada….

#mãededois #mãedemeninos #mãedenovo #amormaiorqueeu

Estranha seria a derrota

Vamos, após decantar, falar do BBB, sim! Ou melhor, vamos falar da final e debulhar a vitória do Arthur.
Alguém tem ideia do ocorrido? Consegue imaginar, ou suspeita, de alguma lógica e do real motivo desse desfecho?

Ok! Ele seguiu à risca o objetivo do programa, foi jogador e estrategista, manipulou, dentro e fora da casa…

Pois, vou arriscar dizer-vos que a resposta é simples e que ela é jogada em nossa cara diariamente: porque vivemos numa sociedade patriarcal, machista e misógina. E o Arthur é a cópia fiel disso tudo. Cara de bom moço, inteligente, macho alfa arrependido das traições conjugais, por pura falta de “amadurecimento”. É, gente, traição para o homem não é falta de caráter, não, é adolescência tardia, leve deslize, autoafirmação.

O Arthur representa toda a cultura de regalias, do manipulador de voz mansa, eterno adolescente que requer cuidados das mulheres “sobrecarregadas”, ops!, “guerreiras”, que dão todo suporte para que cheguem sempre ao pódio e ocupem o primeiro lugar.

É exatamente assim na vida das mulheres comuns, que abrem mão da carreira, abandonam faculdade, vida social, se colocam sempre em segundo plano e assumem os cuidados com os filhos para que seu parceiro, o pai do seu filho, siga com sua vida e colha vitórias, promoções e ascensão funcional.

Segue o baile para nós, mulheres. E sabe quando tudo isso vai mudar? Quando nós mudarmos primeiro. Quando deixarmos de ser pano de fundo e palco doméstico para que os homens pintem e bordem com nosso total e irrestrito apoio.

E basta de ser plateia, torcida ou escada.
Sejamos protagonistas!
Vamos subir no palco, no pódio, na mesa!
Vamos chutar o balde, soltar a voz, o grito, as amarras que nos tolhem e nos impedem de vencer!

Obs. Antes de começar o show de horrores, o teatro das ilusões, um pouco antes, ainda quando Arthur estava confinado no hotel, sua esposa descobriu outra traição… Ela poderia ter trazido os holofotes para si e acabado com a festinha dele no comecinho ainda, mas preferiu guardar sua dor, a humilhação, a vergonha e fazê-lo vencedor.

É sobre isso… E não está tudo bem.

Útero não define maternar

Vocação materna sempre foi uma fonte inesgotável de inspiração para as mais diversificadas linguagens literárias, artísticas e culturais, responsáveis por um acervo “simplesmente” incalculável de obras sobre a sublime condição que pariu todas as civilizações conhecidas.

É impossível, portanto, pensar esta condição materna como se fosse uma condição apenas para as mulheres que possuem útero. Mas é possível pensarmos esta sublime condição a partir da subjetividade de cada uma de nós. 

Minhas gestações, por exemplo, foram os períodos que mais me amei! A mágica da vida acontecendo dentro de mim… uma benção, um privilégio e um desafio, sem dúvida alguma. A mistura mais louca de sentimentos e hormônios.

Sentir meu corpo mudando para abrigar outro ser, não teve preço, mas teve enjoo, azia, fome, desejos, refluxo, medos e muita ansiedade. 

O canal lacrimal também funcionou com mais facilidade… bastando passar um comercial de margarina na TV para desencadear o choro.

 Agora, teve muito mais mimos, carinhos, cuidados, ânimo (sim, eu fui uma mãe/grávida cheia de disposição!) 

O sono que a maioria das mães sentem, não veio no meu “pacote gestacional”. Talvez por isso, meus filhos durmam tão pouco… mas isso é outra história. 

E beleza, é claro! Modéstia à parte: fui uma grávida muito bonita! E sabe qual a razão? Eu estava completamente feliz e apaixonada pela ideia de ser mãe. Passei os meses da gestação em pleno estado de graça. Lógico que, na gravidez do caçulinha, esses sentimentos só apareceram depois que me recuperei do susto. Afinal, outra gestação, 16 anos depois, não é brincadeira, não!  

Amava estar grávida, sentir nossos corações pulsando juntos, nosso vínculo cada dia mais forte… os chutes que me acordava na madrugada, quando eles não gostavam da posição que eu dormia… E até os soluços que faziam meu ventre pulsar…

Gestações completamente diferentes: na gravidez do João Pedro, fiz massagens, hidroginástica, ioga, curso de gestante… na segunda gravidez do João Vítor, foi o que podemos chamar de “selva”… Enfrentamos uma reforma em casa e todo caos que vem no pacote. E, acreditem, foi a melhor coisa que fizemos. Nosso ninho ficou maravilhoso para recebê-lo.

Ah! Como autocuidado, fiz acupuntura: foi o que me manteve sã durante todo esse período de mudanças.

Ok! Falei da MINHA gestação. Mas, muito antes de gerar meus filhos no útero, eles foram gestados, desejados e ansiosamente esperados na minha cabeça, no meu coração e na vontade de ser mãe, que me acompanhou desde criança, brincando de boneca e mais tarde, quando me percebi como mulher e com essa possibilidade.

Não mais importante do que as mulheres que gestam seus filhos no desejo e no coração. Porque, muito mais que um útero, para SER mãe, é preciso primeiro QUERER ser mãe. Uma mulher para ser mãe precisa ter o “chip” da doação, da entrega, da resiliência, da paciência e do amor incondicional. 

Precisa ter o desejo de cuidar, proteger, educar, ser modelo, incentivar, conduzir, orientar, nos primeiros anos, e amar, ser colo e abrigo, o resto da vida. E isso não vem com o útero.

Nasce um filho, mas nem sempre nasce uma mãe… Mãe, a gente aprende a ser na caminhada desafiadora do maternar.

E assim, de mãe em mãe, com suas características e peculiaridades, caminha a gestação da humanidade.

Esse governo não me representa!

Se alguém no mundo olha para o Brasil atual, vê uma sociedade de moral adoecida.
E sentencia: o fascismo venceu, a hipocrisia reina soberana .
É inevitável não ouvir ecoar o grito do Cazuza, quando ele canta: “Brasil mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim”…
Porque fomos vencidos pela falsa sensação de segurança; passivos, deixamos sair do “armário ” preconceitos, o machismo mais primitivo, a homofobia, a misoginia e o desejo masoquista de escravizar o outro para nosso bel- prazer.
Deixamos claro nossa necessidade mesquinha de : justiça com as próprias mãos. Nos deixamos levar pela desculpa esfarrapada do: ” sou antipetista”.
Me poupe, se poupe e nos poupe.
Discordo com veemência da célebre frase: ” cada povo tem o governo que merece”… Não merecemos esse governo doente e fascista. Egos inflados, ausência absoluta de empatia, falso moralismo e egoísmo, não fazem um bom governo.
O que me conforta é saber que o tempo todo eu (e os meus) estávamos do lado certo da história, que não compactuei com o fim da nossa Democracia, nem com o fim dos direitos das minorias, não ajudei a destruir o sonho do filho da empregada doméstica de virar “doutor” . Nem me incomodei em dividir a poltrona do avião com o zelador do meu prédio…
Estou de luto pelo meu país e com pena do nosso povo. Desejei do fundo do meu coração estar errada e desejo mais ainda sorte para quem continua comigo nessa luta. Prometo seguir resistente, me manter firme e vigilante.
E lá vem Cazuza novamente: “grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair. Não, não vou te trair”!
Não darei um único minuto de trégua para nossa luta por liberdade, igualdade e fraternidade.
Também por vocês, meus filhos João Pedro e João Vitor, não desistirei nunca. Como diria meu pai: ” eu envergo, mas não quebro”.
Quando “outubro chegar, saudade já não mata a gente”… E com ele venha a renovação da esperança de um governo melhor, e de um país mais justo e igualitário.
Que a máxima: governo do povo, feita pelo povo e para o povo, prevaleça.

Tattoo na alma

Lógico que todos sabem que essa imagem significa uma tatuagem… E que tatuagem é uma escolha, um estilo de vida, uma representação figurativa da nossa personalidade. Faz quem quer e nem todos curtem. Ok!

Fazer uma tattoo é, em si, uma escolha, mas alguém tatuar o próprio corpo em homenagem a outra pessoa é algo emocionante e inexplicável. Foge à regra. O pensamento é o seguinte: eu estou sendo eternizada na pele de alguém! É como se ela, Leticia, passasse um recibo, mostrando, para quem quiser ver, nossa história de cumplicidade e amor.

Leticia sempre esteve marcada na minha alma, desde quando ainda era um grãozinho de areia no “forninho” da sua mãe, Xambioá, filha do meu marido. Minha neta veio como um presente da vida e eu a acolhi, exatamente assim, como avó. E que se dane, o sangue, o DNA, a lógica. Eu sou avó da Letícia e ponto.

Porque, assim como mãe, pai ou qualquer outra relação, o que vale é a entrega, o compromisso, a dedicação, o amor, comprometimento, a ação. Não existe essa de avó do coração, filho de criação, meio- irmão. Existem os papéis, os vínculos, a representatividade de cada um em nossas vidas.

Temos tantas histórias lindas,divertidas e desafiadoras pra contar dessa relação…

Uma das minhas preferidas, é de quando, num parque, eu acompanhava a brincadeira no pula-pula do meu filho João Pedro, na época com 5 anos, e a Leticia, com 2 anos, me chama, persistente: “Vó, olha aqui…” ” Vó, num sei o quê”… ” Vó”…
Uma senhora olhava admirada aquela cena…
Ela estranhou ao me ouvir, atenta, responder prontamente a todos as demandas da Leticia, se aproxima e pergunta:
… me desculpe, mas por que essa menina esta lhe chamando de vó? E continuou:
…você é muito nova pra ser avó!
Eu, prontamente, orgulhosa, respondi:
… Porque sou sua avó!!
Simples assim.
Mania que as pessoas têm em querer enquadrar todo mundo dentro da sua caixinha limitada, mania de pensar cheio de regras imutáveis e nada flexíveis. Mania de seguir o padrão que essa sociedade nada inclusiva , impõe, sobre às relações sociais e humanas. Desde quando, é preciso ser, “sangue do meu sangue” para que se ame incondicionalmente?

E, para além de títulos (que eu amo!), ser avó da Letícia, eu sou e sempre serei sua amiga, sua cúmplice, confidente e parceira. E serei tudo mais que ela quiser ou precisar, pois o que realmente importa é estar em sua vida e, a partir de agora, tatuada na sua pele, minha neta.
Letícia, te amo, infinito e além.

Violência velada

Há bastante tempo, lemos, nos meios de comunicação e nas redes sociais, sobre violência contra as mulheres. Mas, não obstante a saturação, ainda é pouco, muito pouco. É pouquíssimo! Esses dias, acompanhei uma campanha muito inteligente, intitulada “Ele não te bate, mas…” Aproveitei a deixa para usar esse jargão e conversar com vocês. Pois bem! Nós, ainda, precisamos falar sobre esse assunto. E, talvez, a gente tenha mesmo que falar, falar e falar, até que entendam que, em pleno século XXI, nós, mulheres, temos o direito de sermos respeitadas, andar na rua sem ser importunadas com piadas, sem assédio na escola e no trabalho. Que, inclusive, temos direito a ocupar os mesmos cargos e receber os mesmos salários e mais uma infinidade de direitos, que nada tem a ver com a questão de gênero e, sim, com o preconceito dessa sociedade tóxica e machista.
Muito mais que falar sobre esse assunto, mostrar causas, estatísticas e formas de prevenção, se faz urgente, empoderar mulheres para não se submeter a isso. É absurdamente surpreendente, perceber que muitas mulheres ainda acham que estão sob cuidados, quando ele reclama de uma saia curta ou de um decote mais ousado.
Violência física não é a única forma de violência vivenciada por nós mulheres, não. Algumas delas são tão veladas, travestidas de supostos cuidados, “amor”, que, na maioria das vezes, temos dificuldades de identificá-las, mas que, geralmente, tem um dano psíquico tão forte que compromete nossa autoestima, autoimagem e autoconfiança.
Violência velada geralmente vem em forma de brincadeira ou uma simples “briguinha” de casal e são invasões sutis, patrocinadas normalmente por seus familiares, seu companheiro, seu chefe, colega de trabalho e que não faz uso da agressão física, mas usa e abusa da pressão psicológica, constrange, humilha e impõe o medo.
Ele nunca te bateu, mas disse que você não precisa trabalhar porque ele banca tudo. De uma maneira subliminar, o que ele está querendo dizer é que não acredita na sua capacidade de se autosustentar, que seu trabalho não é relevante, que mulher não tem que trabalhar fora, que ambiente corporativo é lugar de homens. Babaca, lugar de mulher é onde ela quiser.
Ele chegou da farra com os amigos e te forçou a fazer sexo, mas ELE NÃO TE BATEU.
Ele não te bate, mas reclama que você engordou, sugere (exige) que você emagreça, que não corte os cabelos e um monte de outras exigências, como se ele fosse dono do SEU corpo. Caso contrário, você será uma forte candidata a ser “trocada” (isso mesmo, muitas vezes, somos tratadas como objeto) por outra, dentro dos seus padrões de beleza.
Ele não te bate, mas diz que você não vai sair sozinha e exige a senha do teu celular…
Um dia ele chega estressado do trabalho, distribui gritos e grosserias, quebra coisas, te xinga, chuta o cachorro, mas ELE NÃO TE BATEU!
Quem nunca se pegou cantando, dançando, sozinha ou com uma turma de amigos, sem se dar conta dos absurdos que contém a letra de uma música? Besteira! Muitos dirão. Afff! Isso é coisa de feminista mal-amada…. Não, não é besteira. E, sim, é coisa de feminista muito cheia de amor próprio.
Prestenção! Olha o que diz a letra da música: “Vidinha de balada:”
“Vai namorar comigo, sim”… Oi? Típico autoritarismo do macho alfa. E a gente nem percebe que estamos validando esse comportamento. Se parássemos para pensar, o quão nocivo para nós, mulheres, é autorizar homens, mesmo que em tom de brincadeira, falar (cantar) legitimando essa autoridade.
“Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada e dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca”
Mas claro, impossível! Como se não bastasse a autoridade, eles ainda detêm a ilusão de que são donos do nosso corpo.
“Ele não te bate”… Mas quer que você acredite que essa música é só de brincadeira…

Abraços, Samya Régia.

Segurem suas cabras que meu bode está solto.

Escutei muito esse ditado popular e sou fruto da educação de um pai machista, que chegou ao ponto de propor, no meu primeiro emprego, aos 17 anos, pagar-,me o mesmo valor do salário para eu não assumir o emprego. Na sua cabeça, essa atitude pode até parecer cuidado, mas, na minha, para além do excesso de zelo, ainda havia o sentimento de posse, ciúme e dominação embutidos (0 amo mais que tudo, mesmo assim).
Na minha família, nós, mulheres somos a maioria ( e são mulheres incríveis) e crescemos ouvindo pérolas do tipo: ” Eita! Fulano só trabalha para os outros”, ” Sicrano, só faz o que gosta”, sempre que uma de nós engravidava de meninas. E isso sempre me incomodou. Mas, ao contrário do pai machista, tive uma mãe a frente do seu tempo, dona de si, muito batalhadora e visionária. Ela sempre foi minha referência e meu modelo. Talvez, esse tenha sido o motivo para que eu não sucumbisse e me tornasse, apenas, esposa e mãe dedicada (nada contra as mulheres que fizeram e fazem essas opção por livre escolha) e tenha estudado e trabalhado, desde muito cedo, o que me permitiu ter, hoje, um pensamento mais avançado e mais justo sobre a vida e as pessoas.
Eu, a todo momento, soube que seria mãe de meninos! Não me perguntem o porquê. Não sei explicar, mas eu sempre tive essa certeza. Deve ser essas coisas de mãe e seus superpoderes secretos.
Ou, talvez, tenha sido a minha vontade de criaram filhos mais justos, educados para conviver nessa sociedade como iguais, respeitando a mulher em sua essência . E assim foi feito!
Hoje, eu sou mãe de dois meninos, João Pedro, de 19 anos, e João Vitor, de 3 anos. Nós, eu e meu marido, os educamos para serem homens do bem e, desde que tomei consciência do desafio e da responsabilidade que seria conduzí-los no caminho da igualdade, dentro dessa sociedade machista, pensamos muito nesse questão da fala, dos comportamentos e das atitudes. E eu tenho a honra de dizer, em alto e bom som, que educamos um grande homem e que João Vitor tem a sorte de ter mais um exemplo dentro de casa pois João Pedro tem uma visão de mundo linda, respeitando a liberdade, a diversidade de gênero, de credo, de raça, de cultura ou de sexualidade.
Então, eu digo, sem medo de errar: Podem soltar as “cabras” de vocês, porque os meus “bodes” são criados e educados para respeitar, cuidar e amar, não somente as mulheres, mas as pessoas, sem distinção. Eles sabem que “não é não e ponto”, que o “não” é uma resposta completa, portanto, não precisa de justificativa.
E, se vale uma dica: mães e pais de meninas, fujam da educação limitante e opressora de vida de princesa. É muito mais divertido, dinâmico e libertadora criar meninas para serem super-heroínas, valentes, corajosas e acima de tudo, mulheres donas de si e protagonistas da sua própria história.

Abraços, Samya Régia.

Eu quero é botar meu bloco na rua

Esse ano não vai ser igual aquele que passou, eu não brinquei, você também não brincou…
Nós vamos brincar separados… Pela Pandemia do Coronavírus, pela H3N2, Omicron e por milhares de negacionistas desse desgoverno. Infelizmente.
Eu sou cria do carnaval de Beberibe/Morro Branco, Aracati, Iguape, Canoa Quebrada, Cascavel, Paracuru, Salvador…
Já fiz poupança um ano inteiro para garantir o carnaval, fiz dieta da moda pra não fazer feio com a fantasia, até já entrei no curso de dança para decorar direitinho as coreografias do momento. Amo esse período!
Quem nunca acordou arrependido numa quarta-feira de cinzas, de ressaca ou já fazendo planos para o carnaval do próximo ano, não curtiu o carnaval direito.
Se você não ficou rouco de tanto cantar as músicas que detestava ( que são moralmente ridículas e politicamente incorretas), surdo de curtir “paredão” e não sabe todas as coreografias da moda decoradas, você nunca esteve numa festa de carnaval.
Sim, eu desci na boquinha da garrafa, passei embaixo da corda, segurei o tchan, fiz peixinho nadando pra trás, imitei uma onda .. e se duvidar, hoje, ainda dou meus pulos kkkk
Carnaval que se preze tem que ter aglomeração, samba, suor e cervejas. Pode ser com a família, com amigos ou com a turma do trabalho. A gente pode alugar uma casa ou invadir a de um parente, mas é obrigatório fazer a “base” durante o dia, comer um bom churrasco e ensaiar as coreografias para fazer bonito na praça a noite, fantasiados ou não.
Quem nunca usou a célebre frase: ‘ se eu não lembro, eu não fiz!” Depois de emendar o “mela-mela” com a pracinha, não sabe o que é carnaval.
Se ao voltar pra casa você não estava com as roupas sujas de maizena, você curtiu tudo, menos o carnaval.
E, por fim, se você nunca inventou uma desculpa para não trabalhar na quarta-feira de cinzas, você não viveu o carnaval como deveria.
E “eu quero é botar meu bloco na rua, brincar, botar pra gemer…
Eu quero é botar meu bloco na rua, gingar, pra dar e vender”.
Mas, isso agora faz parte dos projetos para o próximo ano. Simbora, gente! Começar a poupança, a dieta, vender as milhas e refazer os planos.

Abraços,
Samya Régia.

Todos os dia, o dia todo

Só mais um dia na rotina de uma mulher, brasileira, nordestina, trabalhadora e mãe.
O bip do celular avisa a entrada de uma mensagem da escola. O coração dispara automaticamente.

  • Boa tarde, d. Samya!
  • Oi, tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
  • O João Vitor está com o nariz escorrendo e reclamando de dor na garganta.
  • Vou buscá-lo! – Não pensei duas vezes. Atitude como mãe e como cidadã em meio à Pandemia. – Vamos fazer o que tem que ser feito. Imediatamente começo o processo de desligar computador, fechar agenda, comunicar aos colegas e jogar as coisas na bolsa com a pressa que só as mães com o coração apertado conhecem.
    Ah, se a gente tivesse o poder de se teletransportar…
    Quem é mãe sabe: tudo, tudo, menos filho doente, por favor! – Dói neles, dói mil vezes mais na gente. Mas não é sobre isso…
    Estou com raiva, sim! Eu precisava trabalhar e mais que isso: eu queria ter ficado trabalhando. Estou p.. Porque não só voltei mais cedo do trabalho, como sei que amanhã, depois de amanhã e depois, depois e sempre, sou eu quem vai ter que faltar ao trabalho para cuidar do filho.
    Estou exausta porque durmo 1h, e levanto às 5h, e se o pequeno acordar nesse intervalo sou eu quem vai acalentá-lo.
    Estou com muita raiva por ter que adiar a manutenção das unhas, desmarcar o café com as amigas e ficar sem a sessão de acupuntura da semana.
    Nada disso tem a ver com meu amor pelo meu filho e ou é culpa dele ter adoecido, não é sobre isso. Ele, aliás, eles, sempre serão minhas prioridades. A questão aqui é outra. É sobre o papel do maternar solo, mesmo tendo um pai presente.
    É sobre o que foi enraizado em nós mulheres/mães quanto à responsabilidade desse cuidado quase que simbiótico entre mãe e filhos.
    É sobre a cômoda exclusão voluntária do pai nesse processo, principalmente quando nossas crias são pequenas.
    Tenho responsabilidade nisso, claro. Afinal, eu me permito viver dessa maneira sobrecarregada.
    A sociedade na qual estou inserida e fui educada, dentro dos padrões machistas, ensinou/ensina a reforçar crenças limitantes nos papéis da mulher enquanto mãe, dona de casa, esposa, que precisam ser priorizados.
    Já a vida da mulher, enquanto profissional deve ficar em segundo, terceiro plano, ou pior, se sobrar tempo.
    Como não pensar em Helena, a protagonista do filme A filha perdida?, – Esse filme veio mesmo para incomodar, para nos convidar a pensar no papel da mulher. Se fosse para encantar, a gente assistia à Sessão da tarde da Disney. Quem nunca viveu na pele da Helena? Quem nunca precisou fazer uma escolha difícil que fizesse bem só para si? Qual mãe nunca sentiu vontade de fugir (mesmo que por alguns instantes)? Jogar tudo para o alto e correr atrás de um sonho, da carreira profissional ou de um grande amor proibido?
    Helena fez. Abandonou as filhas, o marido e a vida cheia de frustrações. E foi julgada, impiedosamente, por isso. Mas Helena não foi sozinha. A culpa, a saudade, o julgamento, o medo, sempre foram seus “aliados”.
    Só mais um dia na rotina de uma mulher, brasileira, nordestina, trabalhadora e mãe.

Samya Régia
Mãe de João Pedro 19a e João Vitor 3a