Paternar, também se aprende

Minha mãe sempre nos falou: “eu posso ser uma ótima mãe, mas nunca serei nem um péssimo pai”. Lá em casa, com a separação dos nossos pais, nunca teve essa história da minha mãe, virar “pãe”, com a ausência do meu pai.
A falta dele foi sentida e sofrida… E ela, sempre foi o que é, uma fortaleza. Cuidou, acolheu e tentou sarar nosso sofrimento com amor e como mãe, só como mãe, seu melhor papel. E o que cabia ao nosso pai, ficava ali, guardado (jamais esquecido) esperando o telefone tocar, os finais de semana chegarem, as datas comemorativas, as férias, feriados… Ela nunca tentou substituí-lo. Lembram da frase: “Eu nunca serei nem um péssimo pai”? Pois é, esse é o grande ensinamento que trago para o meu maternar, mesmo tendo o meu marido e pai dos nossos filhos presente, só conseguirei ser uma ótima mãe!
A relação mãe e filho é simbiótica, não só por causa biológica, mas, também, pelas questões socioculturais e psicológicas, sem esquecer, claro, que se falarmos em função materna, isso é também uma escolha e uma construção diária. O pai e sua função paterna, é uma construção social, o vínculo é criado através do contato, da convivência.
Culturalmente, e na grande maioria dos casos, quando vemos pais exercendo seu papel, vamos logo adjetivando o feito, como sendo algo extraordinário e o chamamos de SUPER PAI, quando, na verdade, participar da rotina dos filhos, dividindo os cuidados como alimentar, dar banho, levar pra escola, ensinar tarefa, brincar, acordar na madrugada, levar ao médico e tudo o mais permeia a criação dos filhos, como se não fizesse parte do repertório de um pai.
O homem que cuida, educa, protege, orienta, brinca, não é um SUPER PAI, ele é, simplesmente, pai. E nós, mães, exercendo nosso maternar real, com erros e acertos, inseguranças, medos, poderíamos ajudar os pais no seu PATERNAR. Para além do estereótipo imaginário do super herói, deveria ser normalizado ao homem ser pai e assumir esse compromisso como um processo pleno de desenvolvimento e amadurecimento contínuo na vida dos seus filhos.
Ser pai é ação, amor, cuidado, presença, direção, afeto, exemplo. Uma mulher tendo essas características na criação dos seus filhos, ela não é uma “Pãe”, ela é só mais uma mãe solo, assumindo, integralmente, os cuidados emocional, educacional e financeiro de suas crias.

CULTURA DO ESTUPRO

E se alguém revelar a narrativa segundo a qual, de alguma forma, todos nós já fizemos parte da cultura do estupro?

Como mulher, numa festa, alguém já falou que “com esse decote, você vai pegar geral”? Que “com saia curta, você está dando mole”? E que “bebendo muito, vai dar pra quem quiser”?

Já escutaram de uma amiga ou da própria mãe, que, “se o marido quiser sexo e você disser não, ele vai buscar na rua”? Pois é… essa é a triste realidade dessa cultura.

Cultura do estupro é a lógica que diz que o estupro contra a mulher pode ser justificado, através do seu comportamento e da cultura, da educação que tivemos. É quando se diz que: :homem pode tudo mas, para mulher, nem tudo lhe convém”.

Só para que a gente entenda como funciona essa cultura, ela nada mais é, senão o ambiente que incentiva a banalização da violência de gênero contar a mulher. É a objetificação do seu corpo.

É aquela historinha de colocar uma mulher com corpo escultural de biquíni, para fazer propaganda de bebida, a novela do horário nobre encenando um homem branco, rico, bom pai, bom marido, tendo caso com garotinhas.

Tudo isso é campo fértil, minado e programado, para o surgimento de abusadores e estupradores, como esse caso hediondo e inimaginável a que sofreu essa mulher num momento de total vulnerabilidade feminina.

Pensar que poderia ser qualquer uma de nós, QUALQUER UMA, naquela mesa de parto. Exatamente, a vítima estava parindo, no mesmo momento em que sofria um estupro, uma violência inominável.

Choro por ela, choro por todas nós, que NÃO TEMOS UM ÚNICO DIA DE PAZ.

Choro por nossas crianças, choro por essa sociedade doente. Me revolto, tenho medo, mas não podemos permitir que esse medo, nos paralize. Precisamos falar sobre isso, precisamos tomar providências, precisamos de justiça.

Mas, muito antes disso, necessitamos acabar com a cultura do estupro, educar nossos filhos para respeitarem as mulheres, seu corpo e suas escolhas. Acabar com o machismo. E falar sobre educação sexual em casa e nas escolas.

Precisamos empoderar mulheres!

Precisamos salvar-nos dessa sociedade machista e misógina.
Uma mulher foi estuprada enquanto estava parindo, por um médico. Vocês entenderam onde chegamos?

Digo e repito: não é a nossa roupa, não é por causa do horário, se estamos sozinhas ou acompanhadas, ou o local que frequentamos.

É SOBRE A CULTURA DO ESTUPRO, e está tudo muito mal.

Celebrar a vida das minhas vidas

Julho é um mês cheio de simbolismos, mês das férias, metade do ano e mês dos meus aniversariantes preferidos, no mundo.
Cresci aprendendo a amar o dia do meu aniversário. E das tradições que trago de família, e que fiz questão de manter na educação dos meus filhos, uma delas, foi a alegria da celebração da vida, principalmente, no dia da nossa virada de ano particular, nosso aniversário.

Do dia 10 de dezembro, tenho as melhores lembranças, algumas, de quando eu era muito pequena, mas que renderam bons micos, até muitos anos depois de casada: eu era acordada com os “patinhos” cantando parabéns, no disco de vinil, amarelo. Claro que quando entramos na adolescência, eu e meu irmão, dizíamos que odiavamos, mentira! Eu esperava a noite inteira por esse momento e, enquanto não escutava aquela voz rouca e desengonçada dos patinhos cantando, eu não levantava da cama. Tempo bom!
E não ficava por aí, não. Tínhamos um dia especial: com comida preferida, presentes, surpresas, roupa nova, cartinha, festinha e muito, muito carinho. Sigo assim, até hoje, sem os “patinhos” cantando parabéns (o que é uma pena) mas, fazendo valer o aprendizado de celebrar a vida, com tudo que a gente tem direito.
É tão engraçado, vê-los, cada um à sua maneira, esperar por seu dia… João Pedro, comemorando, no próximo dia 24, seus 20 anos, querendo reunir os amigos (só os amigos), numa pegada informal, regada a vodka, música alta e gente legal (escolhida a dedo). Nada de família, por favor! “Minha mãe, quero comemorar, esse ano, só com meus amigos”. Diz, sem o menor pudor. E, achando isso, tipo assim… mega normal… sem estress!
Eu aqui do outro lado, pensando que fazia parte também dos amigos… mera ilusão, ledo engano! A parte que nos cabe, enquanto pais, é o famoso: ”pai trocínio”, no máximo um café da manhã ou almoço.
Que viva sua vida, meu menino grande! João Pedro, já nasceu pronto. Tão maduro, sensato e seguro. Dono de uma personalidade forte, carismático, engraçado, líder nato. Tem o melhor ombro do mundo, o abraço mais acolhedor, ele é agregador e lindo, lindo de corpo e alma. Mas a beleza desse corpo, vem sendo construída, porque assim, ele desejou e vem esculpindo com dois traços da sua invejável personalidade: disciplina e determinação. JP é divertido e solidário, jamais servil. Tem a generosidade dos bons e a inteligência de poucos.
João Vítor, é o dono do nosso dia 19 de julho. É emoção pura, energia pulsante, efêmero. Sorriso solto, abraço espontâneo e uma mente cheia de ideias. Com ele não tem meio termo, nem meias palavras. Ama todos os animais, as cores e tem todo barulho do mundo dentro dele. Ama e odeia pessoas e situações, como quem pisca os olhos. Típico comportamento desafiador, dessa fase divertida, dos seus 4 anos. É lindo de viver! Conversador, sempre com uma história nova para contar e nos encantar. É quem faz meus stories bombar.
Seu dia de virada para o novo ciclo, tem que acompanhar esse ritmo. E o representante da vez, vai ser o Homem Aranha.
Vocês não imaginam como é movimentada a vida dos pais nessa fase, haja imaginação. Passamos os dias entre super-heróis, animais, carros, dinossauros e, sinceramente, eu não sei se existe como ser mais feliz.

Desmistificando o feminismo

Nós, mulheres, existimos! “Existimos, mas a que será que se destina?”
Existimos para quê? Para assegurar a perpetuação da espécie? Para casar, criar e educar os filhos? Poupem-nos de tão limitado destino!
Nascemos para ser o que somos e sermos muito mais! Ser tudo quanto pudermos e quisermos, ser. Somos para ser e viver!
Vamos começar falando o que não é feminismo: não é simbologia de mulher mal amada, não é mulher que odeia homem, nem tão pouco mulher que quer ser como homem.
Feminismo é um movimento emancipacionista, nascido no século XIX, que tem socialmente como principal característica a luta pela igualdade de gênero entre homens e mulheres, no âmbito do trabalho, dos direitos civis, da justiça. Prevê a participação da mulher de forma efetiva na sociedade e na política. Com paridade de salários, quando ocupam os mesmos cargos e funções que os homens, o incentivo para exercer cargos políticos e em profissões que são desempenhadas, majoritariamente, por homens.
Precisamos normalizar a presença da mulher onde ela quiser, sem sermos constrangidas com piadas machistas ou comentários que nos menosprezam. Parar de enxergar a mulher como um objeto de prazer ou defini-la pelo tamanho da bunda ou do decote.
Faz-se necessário empoderar mulheres, desde a educação básica, ainda na infância, para que cresçam, seguras, fortes e livres de preconceito, com visão de futuro para além da maternidade, do casamento, dos cuidados domésticos e com os filhos.
É preciso empoderar as mulheres nas escolhas. Cada uma de nós com a prerrogativa de escolher, ser e fazer o que quiser. Livre das pressões sociais, dos padrões do patriarcado, em que elas têm que casar e ter filhos, caso contrário, não serão vistas como pessoas bem sucedidas.
Somos mulheres, somos multidão. Somos múltiplas, com realidades bem diferentes, educação, meio social, orientação sexual e pensamentos distintos, mas com o desejo comum de sermos aceitas, respeitadas e livres.
Mais didático, impossível!

Sobre o privilégio de ter com quem caminhar

Nossos caminhos foram traçados bem antes da maternidade,assim acredito. Nunca caminhei só, é verdade. Mas, antes do maternar, meu caminhar era mais descomprometido. Depois que tive filhos, a caminhada se tornou surpreendentemente desafiadora e cheia de significados, sou responsável por orientar e conduzir os primeiros passos dessa caminhada, na estrada da vida, para dois seres humanos incríveis que coloquei no mundo: João Pedro e João Vítor.

Se eles soubessem o quão importante é caminharmos juntos…

O quanto eles tornam meu caminhar mais prazeroso, mais firme, com mais determinação… Porque como dizia Clarice Lispector: “Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado, com certeza, vai mais longe”.

Se eles tivessem uma dimensão de que percorrer os caminhos lado a lado, às vezes misturado, noutras seguindo meus passos, tornariam o caminho, mais seguro, mais divertido, mais tranquilo…

Se eles soubessem que nossa caminhada teve começo, mais nunca vai ter fim, porque mesmo depois de chegado meu fim, seguirei guiando-os, emanando vibrações de amor e proteção. O amor de mãe, transcende.

Se eles soubessem que no caminho irão ocorrer algumas paradas, mudança de direção, que eles irão seguir caminhos independentes, distintos, mas em todos eles o meu passo vai estar no compasso da torcida, da oração, da certeza de que eles verão que a nossa caminhada valeu a pena e que sempre, sempre vão ter pra onde voltar. Mãe é ninho, é porto partida, chegada e porto, novamente. Eles vão e voltam para um abraço, para matar a saudade, para ficar um tempo ou simplesmente pegar impulso para mais uma nova caminhada….

#mãededois #mãedemeninos #mãedenovo #amormaiorqueeu

Estranha seria a derrota

Vamos, após decantar, falar do BBB, sim! Ou melhor, vamos falar da final e debulhar a vitória do Arthur.
Alguém tem ideia do ocorrido? Consegue imaginar, ou suspeita, de alguma lógica e do real motivo desse desfecho?

Ok! Ele seguiu à risca o objetivo do programa, foi jogador e estrategista, manipulou, dentro e fora da casa…

Pois, vou arriscar dizer-vos que a resposta é simples e que ela é jogada em nossa cara diariamente: porque vivemos numa sociedade patriarcal, machista e misógina. E o Arthur é a cópia fiel disso tudo. Cara de bom moço, inteligente, macho alfa arrependido das traições conjugais, por pura falta de “amadurecimento”. É, gente, traição para o homem não é falta de caráter, não, é adolescência tardia, leve deslize, autoafirmação.

O Arthur representa toda a cultura de regalias, do manipulador de voz mansa, eterno adolescente que requer cuidados das mulheres “sobrecarregadas”, ops!, “guerreiras”, que dão todo suporte para que cheguem sempre ao pódio e ocupem o primeiro lugar.

É exatamente assim na vida das mulheres comuns, que abrem mão da carreira, abandonam faculdade, vida social, se colocam sempre em segundo plano e assumem os cuidados com os filhos para que seu parceiro, o pai do seu filho, siga com sua vida e colha vitórias, promoções e ascensão funcional.

Segue o baile para nós, mulheres. E sabe quando tudo isso vai mudar? Quando nós mudarmos primeiro. Quando deixarmos de ser pano de fundo e palco doméstico para que os homens pintem e bordem com nosso total e irrestrito apoio.

E basta de ser plateia, torcida ou escada.
Sejamos protagonistas!
Vamos subir no palco, no pódio, na mesa!
Vamos chutar o balde, soltar a voz, o grito, as amarras que nos tolhem e nos impedem de vencer!

Obs. Antes de começar o show de horrores, o teatro das ilusões, um pouco antes, ainda quando Arthur estava confinado no hotel, sua esposa descobriu outra traição… Ela poderia ter trazido os holofotes para si e acabado com a festinha dele no comecinho ainda, mas preferiu guardar sua dor, a humilhação, a vergonha e fazê-lo vencedor.

É sobre isso… E não está tudo bem.

Útero não define maternar

Vocação materna sempre foi uma fonte inesgotável de inspiração para as mais diversificadas linguagens literárias, artísticas e culturais, responsáveis por um acervo “simplesmente” incalculável de obras sobre a sublime condição que pariu todas as civilizações conhecidas.

É impossível, portanto, pensar esta condição materna como se fosse uma condição apenas para as mulheres que possuem útero. Mas é possível pensarmos esta sublime condição a partir da subjetividade de cada uma de nós. 

Minhas gestações, por exemplo, foram os períodos que mais me amei! A mágica da vida acontecendo dentro de mim… uma benção, um privilégio e um desafio, sem dúvida alguma. A mistura mais louca de sentimentos e hormônios.

Sentir meu corpo mudando para abrigar outro ser, não teve preço, mas teve enjoo, azia, fome, desejos, refluxo, medos e muita ansiedade. 

O canal lacrimal também funcionou com mais facilidade… bastando passar um comercial de margarina na TV para desencadear o choro.

 Agora, teve muito mais mimos, carinhos, cuidados, ânimo (sim, eu fui uma mãe/grávida cheia de disposição!) 

O sono que a maioria das mães sentem, não veio no meu “pacote gestacional”. Talvez por isso, meus filhos durmam tão pouco… mas isso é outra história. 

E beleza, é claro! Modéstia à parte: fui uma grávida muito bonita! E sabe qual a razão? Eu estava completamente feliz e apaixonada pela ideia de ser mãe. Passei os meses da gestação em pleno estado de graça. Lógico que, na gravidez do caçulinha, esses sentimentos só apareceram depois que me recuperei do susto. Afinal, outra gestação, 16 anos depois, não é brincadeira, não!  

Amava estar grávida, sentir nossos corações pulsando juntos, nosso vínculo cada dia mais forte… os chutes que me acordava na madrugada, quando eles não gostavam da posição que eu dormia… E até os soluços que faziam meu ventre pulsar…

Gestações completamente diferentes: na gravidez do João Pedro, fiz massagens, hidroginástica, ioga, curso de gestante… na segunda gravidez do João Vítor, foi o que podemos chamar de “selva”… Enfrentamos uma reforma em casa e todo caos que vem no pacote. E, acreditem, foi a melhor coisa que fizemos. Nosso ninho ficou maravilhoso para recebê-lo.

Ah! Como autocuidado, fiz acupuntura: foi o que me manteve sã durante todo esse período de mudanças.

Ok! Falei da MINHA gestação. Mas, muito antes de gerar meus filhos no útero, eles foram gestados, desejados e ansiosamente esperados na minha cabeça, no meu coração e na vontade de ser mãe, que me acompanhou desde criança, brincando de boneca e mais tarde, quando me percebi como mulher e com essa possibilidade.

Não mais importante do que as mulheres que gestam seus filhos no desejo e no coração. Porque, muito mais que um útero, para SER mãe, é preciso primeiro QUERER ser mãe. Uma mulher para ser mãe precisa ter o “chip” da doação, da entrega, da resiliência, da paciência e do amor incondicional. 

Precisa ter o desejo de cuidar, proteger, educar, ser modelo, incentivar, conduzir, orientar, nos primeiros anos, e amar, ser colo e abrigo, o resto da vida. E isso não vem com o útero.

Nasce um filho, mas nem sempre nasce uma mãe… Mãe, a gente aprende a ser na caminhada desafiadora do maternar.

E assim, de mãe em mãe, com suas características e peculiaridades, caminha a gestação da humanidade.

Esse governo não me representa!

Se alguém no mundo olha para o Brasil atual, vê uma sociedade de moral adoecida.
E sentencia: o fascismo venceu, a hipocrisia reina soberana .
É inevitável não ouvir ecoar o grito do Cazuza, quando ele canta: “Brasil mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim”…
Porque fomos vencidos pela falsa sensação de segurança; passivos, deixamos sair do “armário ” preconceitos, o machismo mais primitivo, a homofobia, a misoginia e o desejo masoquista de escravizar o outro para nosso bel- prazer.
Deixamos claro nossa necessidade mesquinha de : justiça com as próprias mãos. Nos deixamos levar pela desculpa esfarrapada do: ” sou antipetista”.
Me poupe, se poupe e nos poupe.
Discordo com veemência da célebre frase: ” cada povo tem o governo que merece”… Não merecemos esse governo doente e fascista. Egos inflados, ausência absoluta de empatia, falso moralismo e egoísmo, não fazem um bom governo.
O que me conforta é saber que o tempo todo eu (e os meus) estávamos do lado certo da história, que não compactuei com o fim da nossa Democracia, nem com o fim dos direitos das minorias, não ajudei a destruir o sonho do filho da empregada doméstica de virar “doutor” . Nem me incomodei em dividir a poltrona do avião com o zelador do meu prédio…
Estou de luto pelo meu país e com pena do nosso povo. Desejei do fundo do meu coração estar errada e desejo mais ainda sorte para quem continua comigo nessa luta. Prometo seguir resistente, me manter firme e vigilante.
E lá vem Cazuza novamente: “grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair. Não, não vou te trair”!
Não darei um único minuto de trégua para nossa luta por liberdade, igualdade e fraternidade.
Também por vocês, meus filhos João Pedro e João Vitor, não desistirei nunca. Como diria meu pai: ” eu envergo, mas não quebro”.
Quando “outubro chegar, saudade já não mata a gente”… E com ele venha a renovação da esperança de um governo melhor, e de um país mais justo e igualitário.
Que a máxima: governo do povo, feita pelo povo e para o povo, prevaleça.

Tattoo na alma

Lógico que todos sabem que essa imagem significa uma tatuagem… E que tatuagem é uma escolha, um estilo de vida, uma representação figurativa da nossa personalidade. Faz quem quer e nem todos curtem. Ok!

Fazer uma tattoo é, em si, uma escolha, mas alguém tatuar o próprio corpo em homenagem a outra pessoa é algo emocionante e inexplicável. Foge à regra. O pensamento é o seguinte: eu estou sendo eternizada na pele de alguém! É como se ela, Leticia, passasse um recibo, mostrando, para quem quiser ver, nossa história de cumplicidade e amor.

Leticia sempre esteve marcada na minha alma, desde quando ainda era um grãozinho de areia no “forninho” da sua mãe, Xambioá, filha do meu marido. Minha neta veio como um presente da vida e eu a acolhi, exatamente assim, como avó. E que se dane, o sangue, o DNA, a lógica. Eu sou avó da Letícia e ponto.

Porque, assim como mãe, pai ou qualquer outra relação, o que vale é a entrega, o compromisso, a dedicação, o amor, comprometimento, a ação. Não existe essa de avó do coração, filho de criação, meio- irmão. Existem os papéis, os vínculos, a representatividade de cada um em nossas vidas.

Temos tantas histórias lindas,divertidas e desafiadoras pra contar dessa relação…

Uma das minhas preferidas, é de quando, num parque, eu acompanhava a brincadeira no pula-pula do meu filho João Pedro, na época com 5 anos, e a Leticia, com 2 anos, me chama, persistente: “Vó, olha aqui…” ” Vó, num sei o quê”… ” Vó”…
Uma senhora olhava admirada aquela cena…
Ela estranhou ao me ouvir, atenta, responder prontamente a todos as demandas da Leticia, se aproxima e pergunta:
… me desculpe, mas por que essa menina esta lhe chamando de vó? E continuou:
…você é muito nova pra ser avó!
Eu, prontamente, orgulhosa, respondi:
… Porque sou sua avó!!
Simples assim.
Mania que as pessoas têm em querer enquadrar todo mundo dentro da sua caixinha limitada, mania de pensar cheio de regras imutáveis e nada flexíveis. Mania de seguir o padrão que essa sociedade nada inclusiva , impõe, sobre às relações sociais e humanas. Desde quando, é preciso ser, “sangue do meu sangue” para que se ame incondicionalmente?

E, para além de títulos (que eu amo!), ser avó da Letícia, eu sou e sempre serei sua amiga, sua cúmplice, confidente e parceira. E serei tudo mais que ela quiser ou precisar, pois o que realmente importa é estar em sua vida e, a partir de agora, tatuada na sua pele, minha neta.
Letícia, te amo, infinito e além.

Violência velada

Há bastante tempo, lemos, nos meios de comunicação e nas redes sociais, sobre violência contra as mulheres. Mas, não obstante a saturação, ainda é pouco, muito pouco. É pouquíssimo! Esses dias, acompanhei uma campanha muito inteligente, intitulada “Ele não te bate, mas…” Aproveitei a deixa para usar esse jargão e conversar com vocês. Pois bem! Nós, ainda, precisamos falar sobre esse assunto. E, talvez, a gente tenha mesmo que falar, falar e falar, até que entendam que, em pleno século XXI, nós, mulheres, temos o direito de sermos respeitadas, andar na rua sem ser importunadas com piadas, sem assédio na escola e no trabalho. Que, inclusive, temos direito a ocupar os mesmos cargos e receber os mesmos salários e mais uma infinidade de direitos, que nada tem a ver com a questão de gênero e, sim, com o preconceito dessa sociedade tóxica e machista.
Muito mais que falar sobre esse assunto, mostrar causas, estatísticas e formas de prevenção, se faz urgente, empoderar mulheres para não se submeter a isso. É absurdamente surpreendente, perceber que muitas mulheres ainda acham que estão sob cuidados, quando ele reclama de uma saia curta ou de um decote mais ousado.
Violência física não é a única forma de violência vivenciada por nós mulheres, não. Algumas delas são tão veladas, travestidas de supostos cuidados, “amor”, que, na maioria das vezes, temos dificuldades de identificá-las, mas que, geralmente, tem um dano psíquico tão forte que compromete nossa autoestima, autoimagem e autoconfiança.
Violência velada geralmente vem em forma de brincadeira ou uma simples “briguinha” de casal e são invasões sutis, patrocinadas normalmente por seus familiares, seu companheiro, seu chefe, colega de trabalho e que não faz uso da agressão física, mas usa e abusa da pressão psicológica, constrange, humilha e impõe o medo.
Ele nunca te bateu, mas disse que você não precisa trabalhar porque ele banca tudo. De uma maneira subliminar, o que ele está querendo dizer é que não acredita na sua capacidade de se autosustentar, que seu trabalho não é relevante, que mulher não tem que trabalhar fora, que ambiente corporativo é lugar de homens. Babaca, lugar de mulher é onde ela quiser.
Ele chegou da farra com os amigos e te forçou a fazer sexo, mas ELE NÃO TE BATEU.
Ele não te bate, mas reclama que você engordou, sugere (exige) que você emagreça, que não corte os cabelos e um monte de outras exigências, como se ele fosse dono do SEU corpo. Caso contrário, você será uma forte candidata a ser “trocada” (isso mesmo, muitas vezes, somos tratadas como objeto) por outra, dentro dos seus padrões de beleza.
Ele não te bate, mas diz que você não vai sair sozinha e exige a senha do teu celular…
Um dia ele chega estressado do trabalho, distribui gritos e grosserias, quebra coisas, te xinga, chuta o cachorro, mas ELE NÃO TE BATEU!
Quem nunca se pegou cantando, dançando, sozinha ou com uma turma de amigos, sem se dar conta dos absurdos que contém a letra de uma música? Besteira! Muitos dirão. Afff! Isso é coisa de feminista mal-amada…. Não, não é besteira. E, sim, é coisa de feminista muito cheia de amor próprio.
Prestenção! Olha o que diz a letra da música: “Vidinha de balada:”
“Vai namorar comigo, sim”… Oi? Típico autoritarismo do macho alfa. E a gente nem percebe que estamos validando esse comportamento. Se parássemos para pensar, o quão nocivo para nós, mulheres, é autorizar homens, mesmo que em tom de brincadeira, falar (cantar) legitimando essa autoridade.
“Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada e dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca”
Mas claro, impossível! Como se não bastasse a autoridade, eles ainda detêm a ilusão de que são donos do nosso corpo.
“Ele não te bate”… Mas quer que você acredite que essa música é só de brincadeira…

Abraços, Samya Régia.