“Dormir no teu colo é tornar a nascer…”

Na minha existência A.T. (antes do Tom), não havia preocupação, problema, trabalho ou dor de cotovelo que valesse uma noite de sono. Sempre me admirei com insones, e me compadecia ao imaginá-los rolando na cama enquanto os ponteiros do relógio teimavam em correr. Questionava-me sobre como faziam para aguentar o amanhã, com suas urgências e novas preocupações e novos problemas e novos trabalhos e novas dores. Pra mim, não havia solução para qualquer coisa que houvesse, que não passasse pelo aconchego da minha cama.

                Hoje, na vida D.T. (depois do Tom), sigo resistindo, mesmo após 1 ano e 3 meses de pouco e picotado sono. Me surpreendo, também, com o quanto todo o nosso corpo se prepara e se transforma para gerar e acolher a cria – o que inclui acordar a cada mexida ou respirar mais profundo dela e sobreviver com pequenas e intervalados cochilos.

                Já ouvi relatos de bebês que desde pequerrotos engatam horas a fio abraçados a Morfeu, mas, definitivamente, dormir não é o forte do daqui de casa. Dizem que o gramado do vizinho é sempre mais verde; eu digo que o filho do vizinho é sempre mais sonolento. Desde os primeiros meses, ao tentar arrumar a rotina diária do Tom, as sonecas e o sono noturno foram as ações que mais se demoraram a organizar. Aos poucos, claro, as coisas foram melhorando, mas não ao ponto de nos possibilitar – a mim e a ele – um descanso ininterrupto, ou algo perto disso. Para completar, se durante o dia todos os cuidados com o Tom são justamente divididos entre mim e o pai, à noite o protagonista dessa história decide que só a minha companhia serve, possivelmente porque trago em mim a fonte de toda e qualquer solução para os seus probleminhas de bebê: o tetê da mamãe!

                Sigo resistindo e resistente, certa e feliz pela escolha que fiz pela livre demanda, mas carregando comigo toda a exaustão de 1 ano de privação de sono. Guerreira? Não, e nem faço conta desse rótulo. Apenas uma mulher (como tantas) atravessando os limites do seu corpo pelo bem da cria, buscando soluções e alternativas para conseguir continuar (como muitas) e que vai se corroer de culpa quando não mais conseguir (como todas!).

                Até quando conseguirei? Por quanto tempo pretendo amamentar? Não sei. Assim como todos ao redor, também me faço essas perguntas diariamente. Todos os dias penso em desistir, mas todos os dias escolho continuar, e assim seguiremos até quando for bom pra ele e possível pra mim. A ideia de não estabelecer meta e depois dobrar a meta tem funcionado até aqui e com ela que seguiremos. Sei que muito em breve sentirei falta do meu colo ser o melhor lugar do mundo para ele e das noites intermináveis sendo seu abrigo e alimento. A cada gota sorvida, sei que Tom é inundado de amor, aconchego, proteção e saúde, e isso é meu combustível, força e moeda que paga qualquer noite em claro.          

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano e 3 meses.

Mãe: Meu egoísmo e minha vaidade.

Por Alana Alenacr

Começo fazendo uma retrospectiva de como foi meu começo. A primeira gestação. O que me fez/faz ser MÃE. O egoísmo aumentava conforme a barriga. Não para alimentar meu ego com sua pequenez, mas para suprir a direção das forças à minha nova responsabilidade, aos meus cuidados e desafios; afinal, tudo em mim se preparava, tudo em mim exigia a habilidade de proteger e assegurar o bem-estar de um milagre acontecendo a todo instante no meu ventre. Acontecendo no realizar compulsório do meu maior sonho. Eu entendia, meio sem explicações, o quanto a minha vida mudava com a certeza de uma nova vida sendo gerada em mim… uma outra vida que dependia totalmente da minha condição estética, genética e intelectual… um filho. Não no sentido estreito de limitá-lo ao sexo masculino, mas em toda a grandiosidade de ser entendido como um Ser. Também, não era apenas um filho, mas o MEU filho que em absolutamente tudo seria e é parte de mim… desde o que representa o amor materno até o sentimento de ainda não interpretá-lo em suas particularidades. Pedro Antônio. Não porque tem cara de Pedro, não pelo dever de ser santo, muito menos por ser fruto de uma promessa. Pedro Antônio por ser o ato de um desejo, do meu desejo; por ser de mim tudo aquilo que considero sadio e forte e vivo. Por ter a emoção entrelaçada em uma canção de amor, por ser parte da minha poesia, da minha inspiração, por exigir de mim a irreverência de lidar com a sensibilidade de ouví-lo a todo e qualquer questionamento. A vaidade também aumentava conforme a barriga. Não aquela vaidade estética corporal e individualista, mas a vaidade que se confunde com o orgulho, com a decência de poder encher a boca e dizer:

EU SOU MÃE! Não uma mãe qualquer, e sim a mãe do filho mais lindo do mundo, mais inteligente de todos e com isso continuar numa série de elogios tão propriamente verdadeiros de mães como eu; Um Rinoceronte Fêmea. De pele grossa, ousada, de defesa selvagem. Aquela mãe que no primeiro ultrassom sem qualquer vestígio de ser, já consegue deduzir que não há sombra de dúvidas quanto à fortaleza de quem virá; que na segunda ultrassom, num pinguinho de forma, afirma que é a cara da mãe (e é). Talvez, ao primeiro impacto, estes “pecados capitais” (fragilizadores), tão delicados que passam a ser intensamente decididos, como a vaidade e o egoísmo, sejam “perdoados”/compreendidos à medida que são descobertos como fonte de amor. Amar um filho não requer uma medida exata posto que vai além de qualquer sensação tátil, de qualquer motivo óbvio;  Senti ser uma dádiva que não deve ser comparada, e que não se dá pela poesia apenas, mas pela parte Divina de um todo em mim. 

Dia 12 de abril de 2011 Pedro Antonio nasceu.

atenta as agressões fantasiadas de alegrias

Por Roberta Bonfim

Chegou abril, passamos um ano nesse lugar de praticamente não sair de casa. E em tempos tão contraditórios, aqui em casa só temos o que agradecer, temos casa, gatas, plantas, comida, saúde e amor. Temos tudo, trancado em alguns metros quadrados. E nesse meio tempo para não parar a vida, tive de abrir concessões, fazer escolhas ao que tange a educação da minha cria. 

Não dou conta da minha rotina e da dela, juntas, e aqui somos nós duas, então a TV que antes tinha tempo determinado agora é som constante por um turno inteiro, e tudo bem, são ali outras falas e realidades. Um tipo estranho de companhia, mas uma companhia, e lembro que também a tive, só que em meus tempos era mesmo a TV aberta, aqui pelo menos timidamente é feita uma curadoria do que é possível assistir e ficamos menos expostas às infinitas propagandas. E ainda sim, vez ou outra ela me lembra que preciso nos inscrever, que isso é importante. 

E aí vem uma questão, 98% dos desenhos tem a presença real ou imagética do pai, e sempre o pai sendo o cara massa, que brinca, troca sorrir, mas também o que espera a comida ser servida. Até nos desenhos em homenagem a mãe tá lá a figura paterna. O desenho é de um mundo mágico, mas o boneco de lata, repete algumas vezes por episódio, “como diria meu pai e algum belo adjetivo”. 

Só que isso no contexto atual, especialmente no Brasil, beira a crueldade, pois o número de famílias sem essa presença física, emocional e/ou afetivamente, isso sem falar dos abandonos, estupros e outras agressões possíveis. Gente, sério, mais da metade das famílias do país são de mães solo.

E aí vem a tona uma série de valores patriarcais que são impostos de todos os modos. Há quase zero de desenho sem a presença dos pais, os desenhos ditos educativos, então exploram a estrutura da família tradicional em suas máximas e ensinam inclusive esse padrão. Estão lá. Até nos desenhos que exaltam a mãe o pai tá ali, no desenho, da fotografia, na mesa sentado, enquanto a mulher mãe, heroína serve a família de sorriso no rosto. 

E isso se estende também aos livros infantis, e todos os clássicos que criam contextos cruéis a quem não cabe nesse formato enquadrado, formatado definido e seguido. Fico pensando que somos todes sobreviventes de um mundo que foi desenhado, só que na vida real a pancada machuca.

Deixo aqui meu pedido aos criativos, que criem histórias mais respeitosas, sem agressão disfarçada de felicidade padrão. E fico por aqui, pois os dias estão curtos e as exigências crescentes.

E deixo também dica de livro infantil, “Sinto Muinto, mas eu sinto o que sinto”e “Betina”

Mãe!

Por Alana Alencar

Enquanto pensava em como começar a escrever esse texto… ouvi incontáveis e incansáveis vezes essa palavra que me torna cada dia maior. Maior no sentido abstrato da importância que a palavra carrega; maior no sentido figurado diante de sua função estrutural que é ser mãe. Cada vez que me sinto implicada a responder ao apelo do meu filho, sinto um desdobramento que requer o assumir de uma nova persona; uma persona capaz de lidar com a exigência que se faz necessária naquele instante. A persona professora, protetora, psicóloga amadora, cozinheira, costureira, outras eiras e a persona que também fracassa. A que limpa, que alisa, que atende, e que ignora. A que não cansa, não dorme, não cede, mas que também se sabe exausta. A que grita, chora, canta e que também sorri por horas tentando “segurar a barra” de ser, de alguma forma, sempre a mesma. Aquela que transmite pelo olhar uma compreensão que, apesar de tudo, compreende… porque alimenta o ser da cria em cada responder, incontáveis e incansáveis vezes.
Escrever sobre esse lugar de mãe, me instiga a pensar sobre a importância de não separar a minha construção, dos outros lugares que também ocupo. Escrevi no poema Materna que meu seio, parte do meu corpo dado a existir, é, além de maternal, luxuriante; e que minhas necessidades estão para além de dar colo.


Costumo dizer que mãe boa é mãe feliz; que tentar acertar sempre é o maior erro que podemos cometer. Tenho traçado diversos paralelos ao longo da minha experiência de filha e mãe e percebo o quanto é necessário que nos desapeguemos das exigências (i)morais que a sociedade nos coloca de como “uma mãe deve ser”. Penso que mãe só tem que ser a mãe que pode ser; e isso é pulsional. Cada um responde de uma forma diferente. Não é jogo, portanto, não há regra.

Alana G. Alencar

Poetisa 

Ser mulher: lugar de bênção e gratidão

Por Roberta Bonfim

Ser mulher para mim é lugar de bênção e gratidão. Gosto de ser mulher, não me imagino não sendo mulher, principalmente depois de ter descoberto a maternidade, que não tem qualquer romantismo, mas pra mim individualmente, tem sido a universidade do amor e do que podemos fazer e/ou deixar de fazer por esse amor, mas também o que não podemos deixar de fazer para que não vire desamor a nós. E todas essas linhas são muito tênues, e os dedos, mesmo a distância, seguem apontados tendo a mulher como mira.

E neste texto vou me colocar e falar sobre esse lugar de ser mulher-mãe e no caso da nossa família especial, não temos uma forte rede relacional raíz, o que se agrava com a pandemia e eu sou essa pessoa que quero fazer mil coisas e ter tempo livre para ler um bom livro deitada na rede, de pernas pro ar, mesmos que seja madrugada. Estou sobrecarregada e isso tem me provocado reflexões muito pungentes sobre tudo isso. Mas, essa é pauta para um outro texto, pois nesse eu vim resolvida a pedir perdão a todas a minhas amigas mães que eu julguei por voltarem as relações, que aceitaram, que se dispuseram a esse papel bisonho de ter de educar uma criança e um marmanjo, para conseguirem dividir, mas também porque a cultura social nos dita a regras, que absorvemos sem nem perceber. Acha que não? Vamos testar?

Feche seus olhos e imagine uma família feliz. Se você não pensou, a mãe, os filhes e o pai, então me liga, pois você pensa fora da caixinha, quero te ter como colega nesta vida. Pois a maioria de nós tem esse desenho familiar. Pois é esse o formato que nos é imposto à todos os momentos, ali de fácil acesso e cheio de cores. São infinitas histórias que narram a mesma perspectiva, e transformam músicas tradicionais em didatismo do que deve ser a família, com o papai dedo, a mamãe dedo e os irmãos dedos. Outro dia minha filha de 3 anos, tinha menos que isso quando me fez o questionamento, perguntou: – “Mamãe, na família do tatu tem papai, e na do tubarão. E na nossa não tem? Ao que tive de responder tranquilamente que não. Mas, sugeri que se ela quisesse escolhesse um brinquedo para chamar de papai. E assim ela fez, escolheu um brinquedo, para ser mais exata escolheu o pateta. E depois desse dia, ele que era dos seus brinquedos favoritos passou a ficar no canto. E desde este dia sempre que ela me pergunta sem ser de onda me ofereço inteira para responder com todo amor do mundo e narrar sua história, de que ela como mais da metade da população do nosso país tem apenas um progenitor e que tudo bem, que temos uma família especial. E  arremato perguntando se ela é feliz ao que ela responde, sim, e sorrindo já começa uma outra questão. 

Porque contei tudo isso? Para que você que por ventura chegou a esse texto quando vir uma mãe em sufoco ofereça ajuda e já chegue colaborando. A mãe vai se acostumando tanto ao “deixar que eu resolvo”, que quando percebemos já não nos resolvemos. A alegria consoladora é que o ser filho esteja bem. Mas, e quando mesmo com todos os esforços não rola? E quando tem as particularidades no campo da saúde? E tantos outros, eu poderia levantar aqui. E o meu desejo com esse texto é só pedir perdão as mulheres que eu não soube ser parceira e as que eu não saberei. Uma das nossas problemáticas, além das ausências de tempo, contato, é que mesmo depois de tomarmos consciência sobre as limitações não conseguimos alterá-la de imediato, mas podemos seguir no exercício e é ao exercício da empatia além do esofago que te convido a viver.

E mulheres, mães, inclusive a que eu sou, me perdoem por favor.

1101

Por Roberta Bonfim

Não sei como isso acontece com você, mas por aqui tem sido um doce, mas nem sempre, fácil, na real é normalmente bastante conflituosos e contraditório, mas repleto de amor e risadas, esses 1101 dias em que sou para além de mim mesma, o que por si já me é bem trabalhoso. O fato, é que a exatos 1101 dias sou mentora de um ser, responsável pelas suas memórias fundamentais, necessidades básicas e alguns excedentes.

Como ela completou 3 anos neste mundo no dia 25 de janeiro, vou aproveitar esse espaço para escrever para ela, vai que um dia ela se esbarra com esse texto e sorrir. Espero também que você que por aqui chegou, sinta brotar no canto da boca um doce sorriso discreto de quem espia o amor pela brecha da porta.  

Faz 1101 que chegou no mundo você, chegou silenciosa, mas logo disse a que vinha e lançou sua voz no ventre do mundo, alertando ao mundo todo que você chegará. Chegou descamando, não queria sair da barriga e eu queria respeitar seu tempo. Chegou já mamando, já sorrindo, sem qualquer dificuldade me reconheceu. Me olhou nos olhos tão profundamente, que estou certa que naquele momento nossas almas se abraçaram fortemente entendendo que dali pra frente eu só poderia tá contigo, mas nunca, em absoluto ser ou estar em você, como você também daquele momento em diante não estaria mais em mim. E assim seguimos.

Você se alimentou de mim por quase três anos, mas preciso assumir que também me alimentei de você ainda me alimento, do seu amor, sorriso, me alimento da sua alegria, do seu carinho. E até das birras quando respiro e lembro do tanto que ainda temos para aprender. E te agradeço por ter escolhido a mim e a nossa história, para ser a sua história ou o seu caminho das paragens daqui. Te amo filha, amo ser sua mãe, amo te chamar de minha filha, amo quando me chama de minha mãe e não há qualquer relação com posse é só identificação de linhagem. Grata meu amor.

E se você veio até aqui, te convido a amar mais, sorrir mais e compartilhar afetos e arte por onde estiveres.

Pra começar

Por Roberta Bonfim

Ser a mãe que sou é meu exercício diário e permanente, e isso por vezes me exige olhar pra dentro e mergulhar em profundezas de mim, e me curar ou pelo menos aceitar que há ali questões que precisam ser melhor trabalhadas, para que eu me mantenha o mais próximo possível do ser humano que desejo, e me trabalho para ser, sem qualquer pretensão de perfeito, só desejo deixar vir à tona o ser humano que sou, sem as amarras e barreiras imaginárias. Desejo cumprir meu papel de ponte, de passante e de absolutamente responsável pela minha existência e as escolhas que faço. Estamos a todo instante fazendo escolhas e é preciso se ter consciência disso, para aprendermos a assumirmos as responsabilidades decorrentes de nossas escolhas. Já deu da cultura em que encontramos o culpado, e nos vestimos de vítima, não cabe mais, assim penso. Por outro lado não tenho qualquer interesse de convencer ninguém de nada, apenas e simplesmente busco os melhores caminhos para eu existir o mais próximo que consigo de mim e respeitando as etapas.

Quantos somos capazes de ser no decorrer de nossas vidas? Tenho refletido bastante sobre esse lugar de ser, mas também e especialmente de estar, aceitando a transitoriedade da vida e como ser a melhor mãe que posso ser, sem deixar de ser quem sou, para além da inquisição que existe sobre a mulher mãe, que nunca mais lhe é dado o direito de sair sem seu tamagotchi. Se você é mãe e se aventura a viver sua vida, escute algumas vezes no dia a pergunta: E a filha onde está? Ou cadê a neném? Isso por vezes antes do educado, boa tarde, ou boa noite. Desde que minha filha nasceu, eu exercito a empatia para compreensão da extrema empatia que a criança gera.

Mas, como eis aqui o primeiro texto deste ano de 2021, e eu o escrevo exatamente no dia primeiro, vou me ambientar. Estamos eu e minha cria na casa de Lorena e Jether, com Katiana e Suzy, Ana Luna tá lá fora com esse povo todo enquanto escrevo para este blog coisas sobre esse lugar de ser a A Mãe que Sou, por ser a única que posso ser. E ser a mãe que sou passa por esse lugar de não abrir mão de mim e de compartilhar com o contexto verdadeiramente. Sou mãe solo, mas felizmente vivemos em sociedade e vamos encontrando nossos bandos. 

Ontem quando o relógio marcou meia noite, minha filha dormia lindamente no colchão muito bem preparado pelos tios. enquanto a mãe estourava espumante e misturava com um bom gin, bebida que conheci verdadeiramente ontem. Bebi, sorri, agradeci, celebrei mais um ano e pedi bênçãos ao que cá estamos para construir. Fui dormir às 3h 40 min, e às 4h e 30 min Ana Luna acordou. Eu que jã saio de ecasa com a cesta de brinquedos e livros me pus a lutar contra os olhos que fechavam e contava a história dos três porquinhos pela terceira vez entrando em cochilos interrompidos, por um – “e aí mãe o lobo, so…” 

E espera eu completar, garantindo fisgar a atenção desta mãe que vos escreve ainda com cara de ontem e com o mesmo pijama. Brincamos, comemos, e eu experimentei oferecer a ela leite de amêndoas com toddy e a garota amou e eu com sono oferecido na mamadeira e ela meio estranhando não ser no copo, tomou no ritmo de quem bebe no copo, aos poucos, deliciando-se. Acho bonito esse paladar dela. Acho ela toda muito maravilhosa e sou muito grata por ser a mãe da minha filha e poder compartilhar vida com ela.

Aproveito este texto para falar sobre algo que precisamos falar, e é urgente. Precisamos falar sobre desrespeito e maldade, precisamos falar e entender a gravidade da pedofilia, do tamanho da agessão e dos pessos ancestrais que isso tras. 

E declaro meus mais profundos sentimentos a Danuza Pimentel e Marcelus Rena, pela perda da filha tão querida que vocês trouxeram ao mundo. N”ao consigo mensurar o tamanho da dor de vocês, mas deixo meus abraços e desejos de que saibam transformar essa dor em amor e luta por respeito e pela prisão imediata ao ser que cometer pedofilia. Denuncie!

No corpo de uma mulher que foi mutilada virgem

Por Katiana Monteiro

Minha amiga confidente e Dinda de meu Namir, Roberta Bonfim, me desafiou a falar da maternidade. Eu, que no dia 11 de fevereiro de 2021, completo uma década como mãe. 

Até hoje ainda me surpreendo com a indagação. – Eu sou mãe? 

O nome soa tão doce e ao mesmo tempo carrega um peso de chumbo. 

Namir não foi planejado como tudo na minha vida, Mas, por ser contra ao uso da pílula no meu corpo e por ter cedido as vontades de quem me prometia amor. Ele veio, no corpo de uma mulher que foi mutilada virgem, um ovário lhe foi tirado quando tinha apenas 18 anos.  Era eu, ou o ovário. A  vida por um fio.O outro era valente com seus policísticos impetuosos. E, aos 30 me trouxe Namir. 

Juro que quando peguei o exame perdi o chão. Fui tomada por um medo tão grande, afinal apesar de estar na idade da maturidade, eu era ainda meninona no corpo de uma mulher. E pensei, com todos os limites que eu acreditava que meu corpo  tinha, ele  está aqui no ventre, porque era pra ser meu. Encontrei na minha família paterna o alicerce. 

Como é bom ouvir: 

Pode contar comigo. 

Eu

mulher grávida,

 grávida de vida.

Tive a gravidez mais louca e saudável que uma mulher poderia suportar. O abandono, a vida como animadora de um park Aquático, muitos zombavam da palhaça grávida e os puros de coração se encantavam, uma turnê com um espetáculo, dois meses, subindo e descendo avião, de cidade em cidade, uma paixão avassaladora por um carioca. E um segundo abandono. 

Mas a nega aqui, estava firme e forte para dar luz ao seu menino. Que veio de baixo de um dilúvio, o céu de Fortaleza trovoava e o clarão dos raios tomava conta da enfermaria. Nasceu meu Luiz Namir, um ser tão grandioso, de espírito tão sábio que todos os dias me ensina a viver.

Katiana Monteiro – atriz, pedagoga, mãe do Namir e tanto mais.

Por Roberta Bonfim

A maternidade real, não é nem de longe um conto de fadas, há gritos estridentes, privação da plena solidão, nunca mais despreocupação com a vida, inclusive, estar viva , tornou-se meta diária por aqui.

Em tempos de pandemia, tivemos muitas mudanças. Como já sabem voltei a estudar, e tem a Lugar ArteVistas em seus múltiplos lugares, e o Poço da Draga, mas tenho estado mais em casa. Mas, também desmamamos, e estamos firmes nos exercício do desfralde. Tenho tido menos tempo do que gostamos de ter juntas e em atividade, apesar de animada, o corpo às vezes não me obedece e dorme. 

Quem também tem treinado muito o desobedecer é a pequerrucha aqui de casa, testa os caminhos e às vezes minha vontade é mesmo virar e sair, mas ela precisa de mim, então fico. Outras vezes tenho vontade de dar-lhe um bom cascudo. Mas, preciso dela, então respiro. Somos absolutamente necessárias e importantes uma para outra e sabemos disso, cada uma ao seu modo, claro.

Nesses tempos eu voltei a dançar e quando ela tá afim, brincamos de ballet pela sala, outras vezes aproveitamos o look só para uma boa foto e o mais constante é simplesmente dançar outros ritmos. Hoje por exemplo a trilha sonora era uma galinha pintadinha, mas silenciei e joguei algo de Clarice Lispector (Água Viva). Ficou assim:

E como este é meu último texto do ano neste lugar “mãe que sou”, aproveito para desejar a você que me ler amor e saúde.