Paternar, também se aprende

Minha mãe sempre nos falou: “eu posso ser uma ótima mãe, mas nunca serei nem um péssimo pai”. Lá em casa, com a separação dos nossos pais, nunca teve essa história da minha mãe, virar “pãe”, com a ausência do meu pai.
A falta dele foi sentida e sofrida… E ela, sempre foi o que é, uma fortaleza. Cuidou, acolheu e tentou sarar nosso sofrimento com amor e como mãe, só como mãe, seu melhor papel. E o que cabia ao nosso pai, ficava ali, guardado (jamais esquecido) esperando o telefone tocar, os finais de semana chegarem, as datas comemorativas, as férias, feriados… Ela nunca tentou substituí-lo. Lembram da frase: “Eu nunca serei nem um péssimo pai”? Pois é, esse é o grande ensinamento que trago para o meu maternar, mesmo tendo o meu marido e pai dos nossos filhos presente, só conseguirei ser uma ótima mãe!
A relação mãe e filho é simbiótica, não só por causa biológica, mas, também, pelas questões socioculturais e psicológicas, sem esquecer, claro, que se falarmos em função materna, isso é também uma escolha e uma construção diária. O pai e sua função paterna, é uma construção social, o vínculo é criado através do contato, da convivência.
Culturalmente, e na grande maioria dos casos, quando vemos pais exercendo seu papel, vamos logo adjetivando o feito, como sendo algo extraordinário e o chamamos de SUPER PAI, quando, na verdade, participar da rotina dos filhos, dividindo os cuidados como alimentar, dar banho, levar pra escola, ensinar tarefa, brincar, acordar na madrugada, levar ao médico e tudo o mais permeia a criação dos filhos, como se não fizesse parte do repertório de um pai.
O homem que cuida, educa, protege, orienta, brinca, não é um SUPER PAI, ele é, simplesmente, pai. E nós, mães, exercendo nosso maternar real, com erros e acertos, inseguranças, medos, poderíamos ajudar os pais no seu PATERNAR. Para além do estereótipo imaginário do super herói, deveria ser normalizado ao homem ser pai e assumir esse compromisso como um processo pleno de desenvolvimento e amadurecimento contínuo na vida dos seus filhos.
Ser pai é ação, amor, cuidado, presença, direção, afeto, exemplo. Uma mulher tendo essas características na criação dos seus filhos, ela não é uma “Pãe”, ela é só mais uma mãe solo, assumindo, integralmente, os cuidados emocional, educacional e financeiro de suas crias.

Se deixar o medo te para

Por Roberta Bonfim

Faz um tempo que não escrevo, não sei exatamente quanto, mas pelo fluxo da vida, creio que meu último texto tenha sido o de junho, ou mesmo  maio. É que fugi do meu curso, me distrai, me trai por tentação e reconhecimento de lugares e afetos. Tudo absolutamente fundamental e gratificante. Tudo feito com muito amor e entrega e essa (des) construção me faz radiar. Estar em meio aos que fazem arte, poder falar com a turma do Poço da Draga ali e fazê-los protagonista de um festival lindo e com patrocínio da Coca-cola sem açúcar, e na semana seguinte outro festival realizado no e pelo Poço da Draga.

Mas, o fato é que tanto tive de me observar, entender e acolher a mim, a minha filha e a nossa relação, a percepção sobre rede de apoio e questões tão mais profundas, tudo dentro do cotidiano comum e toda sua dantesca complexidade. Mas, neste texto vou me ater ao medo.

Isso é o medo profundo e potente resistência à vida que precisa seguir. Sou mãe desde o dia 28 de maio de 2017, quando admiti para mim e aceitei com amor e gratidão o fato de estar gerando um ser de lá até aqui, eu que sempre amei viajar, diminui bastante as viagens, engordei 27 quilos depois que a cria já estava no mundo, crises profissionais, humanas e existenciais. Uma viagem internacional com a cria a lado, e poucas de carros nas proximidades da cidade. E teve uma pandemia no caminho, o que nos deu a chance de vivermos muito de perto eu e minha pequena.

O fato é que finalizadas algumas etapas, recebi um convite irrecusável de ir à Manaus, e com este convite veio a euforia, da realização de um interesse antigo de conhecer Manaus, onde tenho um primo querido, que nem estava lá no ato na minha visita, a relação com a água doce que eu também amo e as pessoas do norte. Enfim, era tudo euforia, até que chegou o medo. E ele chegou no meio de um café da manhã, próximo a porta de casa, e foi tão profundo que me levou às lágrimas, uma prospecção pessimista sobre o que poderia ser. 

Pensar sobre a morte e como a vida se configura sem mim, deu-me pânico, não por pretensão mas por valores e só sofri pela minha ausência ao tange o processo de formação da minha cria. Não tive medo de perder nada além do desenvolvimento da minha filha e lembrei de Fernanda Montenegro e tantes outres que dizem não ter medo da morte, só peninha. Me reconheço neste lugar como ser, mas como mãe ainda sinto medo de não estar. E mesmo crendo que tudo cumpre o seu papel, senti um medo feroz. 

Cheguei a compartilhar o medo para ver se justificava, mas não se justifica para mim que passei a vida viajando e rindo de quem tinha medo de voar, e estava ali em pânico pensando em desistir, em resistir ao fluir da minha própria caminhada. O fato é que viajei e foi incrivel, como foi uma viagem curta de 4 dias, não deu nem para sentir saudades roxas, mas de certo sentimos nossas ausências, no momento positiva. Pois eu pude conversar com meu amigo de vida sem interrupções por atenção, e pude também conhecer e ouvir outras histórias. Resolvi gravar como registro de viagem e já que não há mais uma revista, que ninguém segura esse lugar, que seja ele minha morada virtual a quem não me é íntimo, mas sendo meu, eu, com minha cara e jeito, eu vivendo, vendo, sendo, querendo arte onde estiver. 

E minha filha, bem, ela também sentiu a ausência, apesar de nos falarmos virtualmente todos os dias. Mas se divertiu horrores, com madrinha, avô, bisaavó, primes e amigues. Uma grande farra. 

E eu fui e voltei, sem nenhum arranhão, agora imagina se eu tivesse deixado o medo tomar de conta… Teria perdido de visitar o paraíso.

Celebrar a vida das minhas vidas

Julho é um mês cheio de simbolismos, mês das férias, metade do ano e mês dos meus aniversariantes preferidos, no mundo.
Cresci aprendendo a amar o dia do meu aniversário. E das tradições que trago de família, e que fiz questão de manter na educação dos meus filhos, uma delas, foi a alegria da celebração da vida, principalmente, no dia da nossa virada de ano particular, nosso aniversário.

Do dia 10 de dezembro, tenho as melhores lembranças, algumas, de quando eu era muito pequena, mas que renderam bons micos, até muitos anos depois de casada: eu era acordada com os “patinhos” cantando parabéns, no disco de vinil, amarelo. Claro que quando entramos na adolescência, eu e meu irmão, dizíamos que odiavamos, mentira! Eu esperava a noite inteira por esse momento e, enquanto não escutava aquela voz rouca e desengonçada dos patinhos cantando, eu não levantava da cama. Tempo bom!
E não ficava por aí, não. Tínhamos um dia especial: com comida preferida, presentes, surpresas, roupa nova, cartinha, festinha e muito, muito carinho. Sigo assim, até hoje, sem os “patinhos” cantando parabéns (o que é uma pena) mas, fazendo valer o aprendizado de celebrar a vida, com tudo que a gente tem direito.
É tão engraçado, vê-los, cada um à sua maneira, esperar por seu dia… João Pedro, comemorando, no próximo dia 24, seus 20 anos, querendo reunir os amigos (só os amigos), numa pegada informal, regada a vodka, música alta e gente legal (escolhida a dedo). Nada de família, por favor! “Minha mãe, quero comemorar, esse ano, só com meus amigos”. Diz, sem o menor pudor. E, achando isso, tipo assim… mega normal… sem estress!
Eu aqui do outro lado, pensando que fazia parte também dos amigos… mera ilusão, ledo engano! A parte que nos cabe, enquanto pais, é o famoso: ”pai trocínio”, no máximo um café da manhã ou almoço.
Que viva sua vida, meu menino grande! João Pedro, já nasceu pronto. Tão maduro, sensato e seguro. Dono de uma personalidade forte, carismático, engraçado, líder nato. Tem o melhor ombro do mundo, o abraço mais acolhedor, ele é agregador e lindo, lindo de corpo e alma. Mas a beleza desse corpo, vem sendo construída, porque assim, ele desejou e vem esculpindo com dois traços da sua invejável personalidade: disciplina e determinação. JP é divertido e solidário, jamais servil. Tem a generosidade dos bons e a inteligência de poucos.
João Vítor, é o dono do nosso dia 19 de julho. É emoção pura, energia pulsante, efêmero. Sorriso solto, abraço espontâneo e uma mente cheia de ideias. Com ele não tem meio termo, nem meias palavras. Ama todos os animais, as cores e tem todo barulho do mundo dentro dele. Ama e odeia pessoas e situações, como quem pisca os olhos. Típico comportamento desafiador, dessa fase divertida, dos seus 4 anos. É lindo de viver! Conversador, sempre com uma história nova para contar e nos encantar. É quem faz meus stories bombar.
Seu dia de virada para o novo ciclo, tem que acompanhar esse ritmo. E o representante da vez, vai ser o Homem Aranha.
Vocês não imaginam como é movimentada a vida dos pais nessa fase, haja imaginação. Passamos os dias entre super-heróis, animais, carros, dinossauros e, sinceramente, eu não sei se existe como ser mais feliz.

Maternar e Maternar-me

Por Roberta Bonfim

O mantra do só damos o que temos é dos meus preferidos, apesar de eu em mim o achar às vezes bastante contraditório, mas ainda sim não o largo e no final agradeço por ter cedo percebido que faço parte de um todo que que ficar lutando não me leva muito longe, nem os gritos, pedidos de socorro, cenas, ou criação de realidades paralelas, tudo que seja resistência uma hora ou existe ou desiste. 

Eu no ato e exercicio diaria da maternagem, venho me maternando, ando cuidando e acarinhando minha criança, e vez ou outra perguntando como cheguei até aqui, como resistir, ou a a melhor: o que eu teria sido se na base eu tivesse recebido todo amor e leveza que mereço no que teria me tornado? Passei 27 anos da minha vida resistindo e lutando para prestar, mesmo acreditando que eu não tinha nem muita serventia e nem muito valores, apesar de mim, hoje sei que tudo é exatamente como precisa ser para sermos e agradeço, ao me maternar, ao me cuidar, ao cuidar da minha cria, ou ao delimitar espaços que sejam meus em absoluto, pois apesar de mãe, ainda sou eu, e venho aprendendo isso com a maternidade que me mostra de modo muito escancarado nossas diferenças e complexidades. Hoje aos 40 começo a identificar lindezas em mim e na minha caminhada até aqui, para tá pronta para ser a mãe que minha filha precisa que eu seja e para acarinhar minha crianças ainda nesta existência, e por reafirmar com palavras e na vivência que o amor é transformador é fundamental para que consigamos buscar a melhor versão de cada um de nos e entendermo nos como o todo que somos juntes.

Não sei como ficará este blog, se fica ou se acaba, se gue ou adormece, então registro minha alegria e gratidão por ter podido registrar fragmentos do meu maternar por aqui.

Sobre o privilégio de ter com quem caminhar

Nossos caminhos foram traçados bem antes da maternidade,assim acredito. Nunca caminhei só, é verdade. Mas, antes do maternar, meu caminhar era mais descomprometido. Depois que tive filhos, a caminhada se tornou surpreendentemente desafiadora e cheia de significados, sou responsável por orientar e conduzir os primeiros passos dessa caminhada, na estrada da vida, para dois seres humanos incríveis que coloquei no mundo: João Pedro e João Vítor.

Se eles soubessem o quão importante é caminharmos juntos…

O quanto eles tornam meu caminhar mais prazeroso, mais firme, com mais determinação… Porque como dizia Clarice Lispector: “Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado, com certeza, vai mais longe”.

Se eles tivessem uma dimensão de que percorrer os caminhos lado a lado, às vezes misturado, noutras seguindo meus passos, tornariam o caminho, mais seguro, mais divertido, mais tranquilo…

Se eles soubessem que nossa caminhada teve começo, mais nunca vai ter fim, porque mesmo depois de chegado meu fim, seguirei guiando-os, emanando vibrações de amor e proteção. O amor de mãe, transcende.

Se eles soubessem que no caminho irão ocorrer algumas paradas, mudança de direção, que eles irão seguir caminhos independentes, distintos, mas em todos eles o meu passo vai estar no compasso da torcida, da oração, da certeza de que eles verão que a nossa caminhada valeu a pena e que sempre, sempre vão ter pra onde voltar. Mãe é ninho, é porto partida, chegada e porto, novamente. Eles vão e voltam para um abraço, para matar a saudade, para ficar um tempo ou simplesmente pegar impulso para mais uma nova caminhada….

#mãededois #mãedemeninos #mãedenovo #amormaiorqueeu

Filho doente Mãe Aflita

Não importa o tipo de mãe que se seja, a cria adoeceu a mãe começa a ver tudo ao seu redor mudando o tônus, e aqui é para além das culpas sociais, que todas,e em maior ou menor proporção vivemos, É que filho doente é sinônimo de noites mal dormidas, dias intermináveis, se longe pela ausência , se perto por ver o bem querer dodói. 

Quando a cria adoece, restabelecemos rotas e a prioridade fica singular. Eu crio minha filha para suportar a minha ausência, caso eu não esteja em algum momento importante, mas assim também respeito os espaços seguros de mim, os espaços dos meus silêncios e barulhos internos.

Tento manter minha filha sempre protegida, inclusive de mim e dos meus possíveis excessos, não que eu não erre, claro que erro e muito , só sigo, pois a vida segue e eu sou como ela.  Depois de uma noite longa venho aqui dizer que o mais incrível da maternidade é exatamente essa mudança do plural para o singular. Grata vida!

Útero não define maternar

Vocação materna sempre foi uma fonte inesgotável de inspiração para as mais diversificadas linguagens literárias, artísticas e culturais, responsáveis por um acervo “simplesmente” incalculável de obras sobre a sublime condição que pariu todas as civilizações conhecidas.

É impossível, portanto, pensar esta condição materna como se fosse uma condição apenas para as mulheres que possuem útero. Mas é possível pensarmos esta sublime condição a partir da subjetividade de cada uma de nós. 

Minhas gestações, por exemplo, foram os períodos que mais me amei! A mágica da vida acontecendo dentro de mim… uma benção, um privilégio e um desafio, sem dúvida alguma. A mistura mais louca de sentimentos e hormônios.

Sentir meu corpo mudando para abrigar outro ser, não teve preço, mas teve enjoo, azia, fome, desejos, refluxo, medos e muita ansiedade. 

O canal lacrimal também funcionou com mais facilidade… bastando passar um comercial de margarina na TV para desencadear o choro.

 Agora, teve muito mais mimos, carinhos, cuidados, ânimo (sim, eu fui uma mãe/grávida cheia de disposição!) 

O sono que a maioria das mães sentem, não veio no meu “pacote gestacional”. Talvez por isso, meus filhos durmam tão pouco… mas isso é outra história. 

E beleza, é claro! Modéstia à parte: fui uma grávida muito bonita! E sabe qual a razão? Eu estava completamente feliz e apaixonada pela ideia de ser mãe. Passei os meses da gestação em pleno estado de graça. Lógico que, na gravidez do caçulinha, esses sentimentos só apareceram depois que me recuperei do susto. Afinal, outra gestação, 16 anos depois, não é brincadeira, não!  

Amava estar grávida, sentir nossos corações pulsando juntos, nosso vínculo cada dia mais forte… os chutes que me acordava na madrugada, quando eles não gostavam da posição que eu dormia… E até os soluços que faziam meu ventre pulsar…

Gestações completamente diferentes: na gravidez do João Pedro, fiz massagens, hidroginástica, ioga, curso de gestante… na segunda gravidez do João Vítor, foi o que podemos chamar de “selva”… Enfrentamos uma reforma em casa e todo caos que vem no pacote. E, acreditem, foi a melhor coisa que fizemos. Nosso ninho ficou maravilhoso para recebê-lo.

Ah! Como autocuidado, fiz acupuntura: foi o que me manteve sã durante todo esse período de mudanças.

Ok! Falei da MINHA gestação. Mas, muito antes de gerar meus filhos no útero, eles foram gestados, desejados e ansiosamente esperados na minha cabeça, no meu coração e na vontade de ser mãe, que me acompanhou desde criança, brincando de boneca e mais tarde, quando me percebi como mulher e com essa possibilidade.

Não mais importante do que as mulheres que gestam seus filhos no desejo e no coração. Porque, muito mais que um útero, para SER mãe, é preciso primeiro QUERER ser mãe. Uma mulher para ser mãe precisa ter o “chip” da doação, da entrega, da resiliência, da paciência e do amor incondicional. 

Precisa ter o desejo de cuidar, proteger, educar, ser modelo, incentivar, conduzir, orientar, nos primeiros anos, e amar, ser colo e abrigo, o resto da vida. E isso não vem com o útero.

Nasce um filho, mas nem sempre nasce uma mãe… Mãe, a gente aprende a ser na caminhada desafiadora do maternar.

E assim, de mãe em mãe, com suas características e peculiaridades, caminha a gestação da humanidade.

Ontem foi dia das mães

Ontem foi dia das mães e minha filha disse que não me amava e não precisava de mim, sorri pelo meu desejo interno de que ela realmente não precise mais mais de mim, assim estaremos juntas só pelo desejo pré-existente do nosso amor profundo amor.Se compartilho essa intimidade é para dizer que somos todes humanes, crianças e nós “adultos, todos cumprindo seu papel fundamental de lutar para existir como somos..
A bem da verdade é que vamos crescendo nessa estranha relação de gratidão pela vida e luta pelo direito de ser sem a sobras dos que vieram antes, buscando descobrir por conta própria e buscando seus próprios meios para demonstrar suas frustrações e medos.
Eu por minha vez falo grosso e me disponho ao abraço, contraditoriamente, como é o existir, respiro fundo acalento minhas crianças. Respiramos juntas e vamos nos equalizando. A avó estava em casa, ela queria brincar e não dormir, eu precisava fazê-la dormir e também me possibilitar esse descanso.
No sábado fui à baladinha porque sou mãe mas como tudo que aqui há, sou também Deusa, sou mulher. 😀

Mês de Amor

Por Roberta Bonfim

Ser Mãe não é pensar ser, mas ser-se. Não há quaisquer padrões para os caminhos construídos na relação mãe e cria, seja o tipo de mãe que seja, assim como o tipo de cria. Existem infinitos, mas o que é comum a todes é o desejo de que a cria seja-se, mesmo que isso às vezes os mantenha distantes por toda uma vida.

E se a gente muda a perspectiva do abandono, para a de extrema humildade em assumir que não se consegue. Ser mãe, querides leitores não é tarefa fácil. É o pleno exercício de amor. Ser mãe faz mais potentes na batida do coração e algumas, como eu, apresentam medos nunca antes minimamente flertados.

Desde que começamos este blog algumas mães já compartilharam vivências por aqui e com todas tanto aprendi, e às vezes em momentos nada a ver com o que elas relatam, lembrei do como e deu certo. Ando mesmo pensado que toda ideia concebida é de algum modo uma ideia compartilhada e as vivências se entrecruzam para que percebamos o óbvio de que somos juntes, que é esta união que nos fortalece, a percepção de que podemos ser rede uns aos outros, ou no caso de nós, mães, umas às outras.

É bonito ver amigues com filhes brincando com a minha filha, mas a maternidade não é uma tribo, ou uma mudança de fase no videogame da vida, é apenas um outro lugar, nem melhor , nem pior, mas com suas próprias questões, frutos de nossas próprias questões. E amo os amigues sem filhes que estão só o gás para serem bons parceiros de boas trocas sobre a mãe, e temas que por mais liberais que sejam serão tabus. Eu sou particularmente feliz por ter amigos de vida, assim me ajudam a escrever com detalhes os caminhos do existir em conjunto, aprendendo juntes.

Outro dia depois de uma reunião conversando com um colega sem filhes, e relatando da demora na recuperação de uma cirurgia simples como a de apendicite e rindo digo; com criança pequena é difícil ter descanso. E ele disse algo como: a eterna relação de amor e odio” mãe e filho. Sai refletindo a respeito e cheguei a conclusão que na minha relação com a cria de modo geral tem-se o amor, o que dificulta a relação, ás vezes são as influência diretas, ou indiretas do ambiente, e há momentos em que rola tudo junto.

São duas vidas, vivendo muitas vidas, vivendo ao tempo que se aprende a viver, experimentando a existência, buscando de algum modo consciência para melhor selecionar as experiências. E aqui na casa que sou e habito, busca-se equilibrar o sistema, entre a criança que sou e a que educo e o ser que sou no hoje e o que desejo viver no amanhã. Assim, a maternidade foi para mim caminho da quebra real do tempo espaço, onde eu preciso me revisitar para me acolher, trabalho para ser o ser que desejo ao tempo que trabalho para outra vida diretamente, e dialogo com a senhora cheia de gatos, que serei.

Ser mãe me acalma e enlouquece, ser mãe me liberta e prende e evidência todas as minhas humildes contradições, que são tão nossas. Gratidão a cada mãe que me acolheu na estrada da vida e as tantas que me inspiram e ensinam. Grata!

Tattoo na alma

Lógico que todos sabem que essa imagem significa uma tatuagem… E que tatuagem é uma escolha, um estilo de vida, uma representação figurativa da nossa personalidade. Faz quem quer e nem todos curtem. Ok!

Fazer uma tattoo é, em si, uma escolha, mas alguém tatuar o próprio corpo em homenagem a outra pessoa é algo emocionante e inexplicável. Foge à regra. O pensamento é o seguinte: eu estou sendo eternizada na pele de alguém! É como se ela, Leticia, passasse um recibo, mostrando, para quem quiser ver, nossa história de cumplicidade e amor.

Leticia sempre esteve marcada na minha alma, desde quando ainda era um grãozinho de areia no “forninho” da sua mãe, Xambioá, filha do meu marido. Minha neta veio como um presente da vida e eu a acolhi, exatamente assim, como avó. E que se dane, o sangue, o DNA, a lógica. Eu sou avó da Letícia e ponto.

Porque, assim como mãe, pai ou qualquer outra relação, o que vale é a entrega, o compromisso, a dedicação, o amor, comprometimento, a ação. Não existe essa de avó do coração, filho de criação, meio- irmão. Existem os papéis, os vínculos, a representatividade de cada um em nossas vidas.

Temos tantas histórias lindas,divertidas e desafiadoras pra contar dessa relação…

Uma das minhas preferidas, é de quando, num parque, eu acompanhava a brincadeira no pula-pula do meu filho João Pedro, na época com 5 anos, e a Leticia, com 2 anos, me chama, persistente: “Vó, olha aqui…” ” Vó, num sei o quê”… ” Vó”…
Uma senhora olhava admirada aquela cena…
Ela estranhou ao me ouvir, atenta, responder prontamente a todos as demandas da Leticia, se aproxima e pergunta:
… me desculpe, mas por que essa menina esta lhe chamando de vó? E continuou:
…você é muito nova pra ser avó!
Eu, prontamente, orgulhosa, respondi:
… Porque sou sua avó!!
Simples assim.
Mania que as pessoas têm em querer enquadrar todo mundo dentro da sua caixinha limitada, mania de pensar cheio de regras imutáveis e nada flexíveis. Mania de seguir o padrão que essa sociedade nada inclusiva , impõe, sobre às relações sociais e humanas. Desde quando, é preciso ser, “sangue do meu sangue” para que se ame incondicionalmente?

E, para além de títulos (que eu amo!), ser avó da Letícia, eu sou e sempre serei sua amiga, sua cúmplice, confidente e parceira. E serei tudo mais que ela quiser ou precisar, pois o que realmente importa é estar em sua vida e, a partir de agora, tatuada na sua pele, minha neta.
Letícia, te amo, infinito e além.