Aquele papo clichê

Mayane Andrade

Algumas mulheres sonham desde criança em ser mãe, outras, nunca se imaginaram nesse papel até se tornar uma. Para algumas a maternidade é idealizada, perfeita e incrível, para outras, a maternidade real é intensa e difícil. Histórias únicas com coisas em comum: o peso e o amor de ser mãe.

Esse até parece mais um daqueles assuntos clichês que a gente não para de ler por aí, mas não é. Aqui em casa a maternidade real é fogo, mas na vida de muita gente não. Até mesmo aqui, vez ou outra a maternidade romantizada dá as caras, afinal, é enraizada.

Aqui nossa “rotina real” é cansativa, porém colorida, estressante, mas é feliz e barulhenta, a gente dá muita gargalhada, cada progresso de qualquer um dos três, nos deixa imensamente agradecidos, e faz valer à pena todo esforço e amor empenhados a essas três criaturinhas que eu amo além da vida.

Divido essa rotina com meu esposo e pai das crianças, esse, que usufrui de todo seu direito paterno, brinca, banha, ensina, alimenta, só na hora da bronca que sobra pra mim, e cá pra nós, esse cargo de ser a chata da história não me incomoda nem um pouco, mas na frente irão me agradecer (ou não) por cada bronca dada. 

Amo meus filhos, de uma forma que quando me ausento 10 minutos sinto que esqueci de calçar minhas maravilhosas havaianas que não me largam por nada, sinto que ando com pés descalços, daí você imagina a lacuna que se torna essa ausência. Por outro lado, vejo a necessidade de ser a mulher que sou, e nos últimos tempos a ida ao dentista se torna um passeio incrível e libertador até meu subconsciente me sabotar e me fazer imaginar que minha sogra vai me ligar e dizer que um deles vai precisar dar um pulinho na emergência porque aconteceu algum acidente, é maluco, mas real.

A pandemia me fez amar e respeitar mais ainda minha casinha, me fez agradecer mais pela vida, muuuito mais do que já agradecia, pelo alimento a mim doado, pela saúde dos meus familiares e pela vida, sabemos que foram dias difíceis pra muita gente e estarmos protegidos e com saúde, pra mim, de longe foi a maior riqueza da vida, me senti privilegiada por passar esses últimos meses rodeada de natureza e com meus pequenos, embora João com sua bateria sem fim e por algum tempo Davi cheio de perguntas sem respostas, Marina ainda é café com leite diante da esponja que é a cabeça dos irmãos, são três crianças em fases diferentes, eu que lute pra dar conta de cada uma delas. 

Terei muito o que contar para meus netos, embora muitos não tenham noção do que realmente é uma pandemia, eu via as novelas pela metade, o jornal e o desgoverno se matando, os hotéis, as comemorações, o nascimento da minha princesa, os aniversários, os planejamentos tudo indo por água abaixo, que loucura essa doença que parou o mundo e fez 2020 virar um “ano fantasma”. Muito desemprego, famílias perdendo seus entes queridos, pessoas lutando por leitos, muita coisa triste, de uma coisa tive certeza diante de tanto caos, o governo pode fazer muito além pela população, na maioria das vezes se encontra de braços cruzados atrás de um birô esperando um cafezinho, eu espero de coração que esse ano sirva de lição pra todo mundo, independente de raça, classe social e religião, fomos todos criados pela mesma natureza, na hora que o bicho pega não tem pra onde correr, todos no mesmo mar, embora alguns em navios, outros em canoas, mas todos à deriva sem saber pra que lado remar. 

Decidi que precisava trabalhar, resolvi garimpar clientes que necessitassem de uma ajuda nas vendas virtuais, criando conteúdo, atualizando e harmonizando o Instagram dos pequenos negócios, achei que poderia unir o útil ao agradável já que vivo acompanhada do celular, tá dando certo, 1 mês depois, 4 contas, o que me deixa muito feliz, além do financeiro, é estar produzindo, ser mãe é massa, mas ser eu, também é.  Amo trabalhar, seja com o que for, pra muita gente isso é quase nada, mas pra mim é uma luz acesa que estava apagada há muito tempo, nunca dispensei nada que fosse trabalho e hoje precisei me reinventar, decidi desligar o piloto automático e estou com muitas ideias que aos poucos e no nosso tempo vai se encaixando, preciso usar minhas ferramentas e me encaixar na minha realidade, de uma coisa eu tenho certeza, eu e meu celular somos uma dupla e tanto, sai cada coisa dele que me deixa feliz e orgulhosa, encontro cada pérola nele, tudo e qualquer coisa aqui tem, muitas vezes estou na cozinha quando aparece um cliente indicado por outro cliente, pedindo pra criar uma logo, rapidinho aciono meus apps e uso minha criatividade e sai cada coisa linda, Bruno acompanha tudo isso muitas vezes sem nem acreditar que consegui ganhar alguma coisa sem sair de casa, um dos clientes é um perfil de empadas, que são maravilhosas! Foi a primeira que acreditou no meu trabalho e sou muito grata, planejo cada conteúdo com muito carinho e fé que vai “bombar”. 

“A única forma de chegar no impossível é acreditar que é possível”

Uma das maiores dificuldades é o tempo, que é corrido, geralmente todo preenchido então na madrugada anterior já preparo todas as publicações do dia seguinte depois que minha tropa dorme, mas não todo dia, às vezes eles que me colocam pra dormir e tá tudo bem! Amanhã é um novo dia e como sempre digo vai dar tudo certo, assim vamos vivendo um dia de cada vez na esperança de dias melhores, essa pandemia me tirou do casulo e me fez criar asas, essas, que pretendo mantê-las abertas por muito tempo. 

A gente parece ter tudo sob controle, quando sabemos que não é bem assim, mesmo já tendo vivido a experiência de outros filhos a gente nunca sabe de tudo, seria muito mais fácil se no meu cérebro tivesse uma pasta com respostas pra tudo. Mas não, o que temos são julgamentos e  esquecimentos.

Como disse Alice no País das Maravilhas, não posso voltar para ontem porque lá eu era uma outra pessoa.

A maternidade cansa, e isso não quer dizer que eu não ame os meus filhos. Pelo contrário. Quando falamos sobre romantização, falamos justamente de nos colocarem como guerreiras, quando na verdade, somos pessoas sobrecarregadas, mesmo dividindo a criação com o pai, não somos guerreiras por ter que suportar tudo sozinhas. Quando não se tem apoio, a carga é enorme. E vemos as pessoas que têm esse apoio falar que é fácil. Precisamos parar de julgar as pessoas. Nenhuma vivência é igual a outra.

O que me conforta em tudo isso é que um dia eles vão crescer e não serão mais esses bebês que fazem da minha vida um paraíso, nesse momento só quero continuar com esse dia a dia colorido e barulhento, vendo eles crescerem e se transformando em pessoas do bem. 

Seguimos firmes e deixando alguns assuntos pra um outro texto, deixem nos comentários do blog sobre qual assunto vocês querem que eu escreva. 

Beijos de luz, 

Mayane Andrade.

Mayane Andrade tem 26 anos, é mãe de três e vendedora de tudo e qualquer coisa nas horas vagas, de Fortaleza, mas fugiu para uma vida mais tranquila no Aquiraz

Até as bruxas sentem cócegas

Era uma vez uma bruxa que sentia cócegas. Ela tinha muita consciência do seu corpo. Era seu próprio corpo.

Não era uma bruxa qualquer, via o mundo de outra maneira. Dentro dos seus maiores poderes estava a possibilidade de tirar as palavras do eixo.

Sim salabim! Transforme as nádegas em pétalas, plim! O nariz em escorrega de óculos, plim! O verbo brigar em bringar, plim!

Quando vai dar um passeio em sua vassoura, e sente seus cabelos ao vento, não é o seu chapéu que balança é o ar que está dançando com ele. Ao tomar um banho de mar, não se molha. Afinal o mar a entende muito bem!

Hahahahahahahhahahaha!!! Risada de bruxa? Não, foi meu corpo que rio.

A bruxa nasceu com um livro inteiro na cabeça, somente virava as páginas. Sabia um pouco de tudo, era uma sabiá. Uma verdadeira abentoá.

No outono, seu coração e as estrelas viram folhas. Ela é como a cobra de 20 corações. E não duvidem: ela estudou muito sobre esse assunto.

Outra peculiaridade é que a bruxa em questão dá aula de yoga para cachorros, ensina-os a subir com maestria na bola de pilates, assim eles se acalmam e não latem tão forte… Bruxazen!

Não havia nenhuma polêmica: o cachorro é que é o verdadeiro dono da lua, não o dragão! A nossa bruxa viu o cão mordendo a lua e, num passe de mágica, ela ficou minguante!

A mãe da bruxa era eletrônica, não desligava nunca, mesmo quando a bruxinha dormia. Um dia foi ao quarto de sua filha e a pequena bruxa estava colocando a ponta do fone de ouvido na boca de uma de suas bonecas. O que é isso, filha? Eu estou lendo os pensamentos dela, mamãe! Foi assim que a bruxa aprendeu a ler as mentes humanas.

Algo bastante curioso também chama a atenção: para a bruxa não existe mar aberto, já que o mar nunca fecha.

Para revelar o mundo a bruxa precisa somente do sol e da lua. Ah,,, tinha me esquecido… ela necessita também das linhas da mão, aonde ficam escritas as nossas saudades.

Sempre antes de dormir, a bruxa conversa com seus sonhos. Diz para ele exatamente o que quer sonhar. Se não falar com ele, pode até ter um pesadelo com um terrível monstro que cospe fogo.

Em seu mundo tão particular, o da linguagem de bruxa, não existe última chance. Ela passa logo para a outra última vez.

Quando não sabe como fazer um novo poema, a bruxa tem uma poção mágica infalível: deixa dito o que as palavras sentem!

Opa.. pera aí… está faltando uma informação muito importante para a leitora e o leitor… Quem é essa bruxa que enfeitiça as palavras?

Suspense… Rufam tambores… É a minha filha e tudo o que levo em meu caderno, anotações de como ela vê o mundo.

Mas fecha logo o blog, se não as palavras caem…

Ouro Branco

Janira Alencar

Agosto dourado, SMAM, Dia da amamentação. O mês de agosto traz consigo a bonita e árdua missão de conscientizar as pessoas acerca da importância e da sublimidade do ato de amamentar. Em tempos de redes sociais, chegam a nós campanhas, fotos, informes, depoimentos e tudo aquilo que deveria ser sempre chegado, de janeiro a janeiro. Como todo ‘dia disso’, ‘dia daquilo’, essas campanhas nos trazem a sensação de ‘que bom que há essa mobilização, mas que pena que ainda é preciso’. É o famoso Deus me livre, mas quem me dera!
Explico: fosse em nossos grupos, em nosso dia a dia, em nossa sociedade comum, natural e valorizado o amamentar, não seriam mais necessárias tais mobilizações. Mas, ao contrário, o que vivenciamos é uma luta difícil e solitária. Ainda hoje, 2020, há debates sobre poder ou não amamentar em público. Além de medieval, isso é de uma crueldade absurda, porque, se eu sou o alimento do meu filho e não posso fazê-lo, só me restam duas opções: ficar encarcerada em casa ou não ser mais o seu alimento.
Aí entramos na questão chave do problema, que é o fato de sermos uma sociedade culturalmente moldada para ser oposição ao ato de amamentar, ainda que não percebamos isso. O símbolo da maternidade não é o peito, é a mamadeira. Basta lembrar de nossas
bonecas na infância e das lembrancinhas de maternidade e chás de bebês. Médicos (felizmente não todos!) prescrevem fórmulas ante qualquer adversidade ou pseudo- necessidade do bebê. Os fabricantes dessas fórmulas, milionários, penetram nos consultórios, TV’s e mercados de maneiras que nem podemos imaginar. O Estado nos impõe retornar ao trabalho aos 4 meses de ‘nascidas’, quando a amamentação, por vezes, ainda nem está totalmente estabelecida.
Some-se a isso todos os percalços pessoais com os quais nos deparamos e para os quais nem sempre se encontram soluções fáceis: peito rachado, hiperlactação,
ingurgitamento, ductos obstruídos, mastites…
Daí o razão pela qual ainda precisamos de agostos dourados e todos os meses e cores de informação e acolhimento. Entretanto, além de informar e acolher mães e bebês, que são um só organismo, é necessário uma reconstrução social do ato de amamentar. O peso da persistência ou do ‘fracasso’ recai única e exclusivamente sobre a mulher. Amamentar é um assunto nosso, um problema nosso e uma luta nossa, exclusivamente. É um eterno remar
contra a maré!
Se diante de cada dificuldade mãe e bebê fossem amparados; se amamentar, em público ou não, fosse celebrado e reverenciado com a grandeza que significa; se nos tornássemos aldeia pra ensinar, conversar e intervir junto a uma nova mãe, todos os meses seriam agosto e todas as cores seriam ouro. Ouro branco! Ouro rico, líquido, corrente.
Enquanto ainda caminhamos nessa busca, que venham os agostos! Que inundemos nossos murais de fotos, que não nos cubramos nem aos nossos filhos, que ajudemos umas às
outras, seja com palavras, com ações ou com abraços.
Sugestões de músicas:

  • A manga rosa (Ednardo)
  • É você (Tribalistas)
    Sugestões de canais (Youtube):
  • Macetes de mãe
  • Revista Crescer
    Sugestões de Instagram:
  • Mãe do Corpo
  • Amamenta Fortaleza
  • AmaAmamentação
Tom sendo amamentado.

Janira Alencar é Coordenadora Pedagógica de uma escola infantil em Fortaleza e mãe do
Tom, de 6 meses.

Corpo feminino dentro de um corpo materno.

Lara Leôncio

Esse mês fiquei sem saber o que escrever, é tanta coisa nesse mundo chamado Maternidade que fica difícil escolher. Já fazem 06 meses do nascimento da Íris Luz, começamos a introdução alimentar e tudo mais. Mas ainda não me vejo com repertório para falar sobre isso… tá tudo muito novo, com suas dificuldades e belezas. Prometo que daqui a alguns meses venho com esse assunto tão importante.

Então hoje decidi não falar da minha cria, decidi falar de mim. Às vezes deixamos o protagonismo da maternidade nas mãos dos nossos bebês, tudo gira em torno deles. Nosso tempo agora é ditado pelo dormir ou não dormir, nosso banho segue um cronograma de quando posso lavar o cabelo. Nosso almoço dias fica frio esperando, no meu caso, o parceiro terminar de comer para pegá-la e eu poder comer, ou comer mais rápido pois ele que está com a tarefa de comer depois. Namorar é preciso e incrível, quando não estamos exaustos e dormimos, é ela que acorda bem na hora. E assim vamos dia a dia entendendo esse novo tempo e nos modificando.

No meu caso dei um tempinho na mulher e assumi a mãe. Nesse momento preciso que entenda que essa mulher ou mãe não está sendo pensada em relação a segundos e terceiros, tô falando em um universo muito mais interno, muito mais pessoal. Estou falando desse corpo feminino com todas as suas dores e amores que por 06 meses deixou o corpo materno aflorar sem nenhuma briga ou recusa. Estou falando desse corpo feminino que deu para esse corpo materno hormônios de amor suficiente para alimentar um ser. Estou falando desse corpo feminino que adormeceu para poder acalentar as incertezas desse corpo materno. 

Mas precisamos entender que esse corpo feminino está ali, ele não foi embora para nascer outro, mas sim ele deu espaço, depois disso ele vai voltar trazendo consigo uma característica única que só ele tem, e vem em formato de sangue menstrual. Duas potências dentro de um corpo, duas lideranças, duas forças que precisarão ser encaixadas, abraçadas para poder criar uma grande potência de MULHER. 

Quando menos espera o corpo feminino dá sinais de que está na sua hora de se juntar ao corpo materno e você vai ter que entender e recebê-lo, porque afinal aquele corpo também é seu. O seio que até então dava de mamar está intocável, porém minha filha ainda precisa se alimentar, a lombar responde em formas de uma dor cansada que desce nas pernas deixando o corpo todo muito pesado, mas ela quer colo, quer brincar. A temperatura do meu corpo subiu, febre, e mesmo assim está na hora do banho, por termos uma rotina, e tudo que mais quero é que não fique enjoada e durma, pra eu poder descansar. 

Sempre tive problema com a aceitação desse meu momento, pois desde os 12 anos sentia cólicas absurdas, normalmente ouvia “Quando tiver relação sexual vai passar” e nada, “Quando engravidar vai passar”, engravidei, abortei e nada, agora depois de 06 meses sem menstruar não sei se a cólica vai passar, mas esse corpo feminino com todas as dores, frustrações, alegrias e milagres está sendo muito bem acolhido. E aí vamos percebendo o encaixe dos corpos dentro de uma só mulher.

Lara Leôncio é mulher, aquariana, mãe, atriz, figurinista, formanda em design de moda e produtora cultural. Escreve às segundas-feiras falando um pouco da aventura de ser mãe da Íris Luz.

O Presente do Agora

Texto de Roberta Bonfim

Começo dizendo que fui mãe velha, para mim a hora certa, mas socialmente ainda vista como uma mãe velha. E por que digo isso? Porque agradeço esse tempo, a cada birra que vivo aqui em casa, quando me percebo respirando fundo e tranquilamente enquanto minha filha grita plenos pulmões, pelos motivos mais sem pé, como não conseguir desmontar peças, ter de ir tomar banho, ou não querer vestir a calcinha, dentre outras razões, sem qualquer razão para o tamanho da cena. E sempre pergunto se ela é dramática ou dramista, ela normalmente responde que dramática, sem saber o que isso venha a ser. Aí nesta hora agradeço, pois há 5 anos atrás corria o sério risco de ficar louca só pelo grito, mas como fui mãe na minha hora, tá tudo certo por aqui. E por que falo sobre isso? Porque agora neste lugar de mãe constato e reafirmo que não somos máquina, ao contrário, e por mais que alguns queiram negar, somos bichos, e como tais podemos ser adestrados. O que quero dizer com isso? Que a repetição é amiga leal, a rotina companheira fiel e a respiração indispensável para vida.

 

É que é assim, nascemos, choramos e ali, naquele momento os profissionais humanos já entregam o ser ao colo da mãe, pronto, silêncio, ali é quase tão quentinho e confortável quanto útero, apesar da frieza gélida de uma sala de cirurgia. Minha filha nasceu depois de uma cesariana rápida realizada por uma equipe incrível que ama muito o que faz, sou e serei sempre muito grata por todo cuidado, comigo e com minha filha. Especialmente agradeço à Sabrina Sabry, a doula, aquela que escolhi, mediante indicação de Suênia, minha referência na vida em muitos lugares, a quem tenho tanto a agradecer que nem tento para não cair na plena pieguice. Mas, voltando à cesariana rápida, na realidade um pouco antes dela, coisa de uns três dias, comecei a sutilmente sentir umas pontadas, lembro como se fosse hoje. Fomos gravar, com Grafiteiros que deixavam a Tenente Benévolo mais bonita. O bucho nas tampas e lá estávamos gravando, depois comemos, e eu comi muito, tudo que eu não havia conseguido comer na gestação, já que só nesta última semana tive a grata alegria de comer sem vomitar. Comi horrores, dirigi muito pela cidade. Na manhã seguinte comecei o dia fazendo faxina, ela cada vez mais indicava que estava chegando a hora. Pós-faxina um banho de mar. O bicho foi começando a pegar e ali pela primeira vez senti medo de estar só. Senti medo de cair, de a bolsa estourar e eu desequilibrar, senti medo de não aguentar a dor, de não conseguir ser a mãe que eu desejava, de o progenitor aparecer do nada, senti medo que avisassem à minha avó, ou a qualquer pessoa da família. Liguei para duas amigas que amo, e claro que elas logo apareceram. Katiana Monteiro e Ivina Passos, as melhores piores companheiras que eu podia ter escolhido para sentir dor na frente. As caras delas possivelmente nunca sairão de minha memória. Elas estavam se sentindo absolutamente impotentes e me olhavam deixando claro que se não faziam nada era só impotência e eu claro que sabia disso, por isso no meu plano de parto, sim tive a ingenuidade de fazer um plano de parto, como se tivéssemos qualquer controle sobre o próximo instante. Mas, o fato é que nele eu teria segurado e vivido essa história sozinha, eu iria na hora que a bolsa estourasse para o hospital com a doula que estava sempre a postos. Gente ela é incrível! Seu marido também, porque lá para o meio da madrugada, lá estava ele dirigindo para nós para que Sabrina pudesse estar comigo, já que eu sentia a contração e vomitava. Mas, apesar disso tudo, do hospital lotado, o outro com um médico no mínimo bizarro que soltou logo na nossa entrada um “eu preferia ser corno a obstetra”, ali olhei para a Sabry, antes de tomar adrenalina e disse que não queria que minha filha nascesse pelas mãos daquele homem.  E ela lógico agiu com responsabilidade e profissionalismo ímpares, entrou em contato com meu obstetra que rapidamente tomou providências para realização desta cesariana, agendada às 5h da manhã e que foi realizada às 7:00, e às 7:45 Ana Luna solta seu primeiro choro e é acolhida, começa neste instante nossa relação de poder. O amor vem se construindo a cada novo instante.

Pelo amor das Deusas não me leiam mal, ao contrário, observem, se não é neste instante que esses pequenos seres entendem que ao chorarem algo acontece, e o que acontece é melhor do que a situação anterior. Daí pra frente até que aprendam minimamente a falar nós mães logo aprendemos a identificar tipos de choros, tem os imbuídos de razão, nos primeiros 3 meses o intestino tá terminando de se formar, gente isso deve ser absolutamente incômodo, tem a peleja de aprender a mamar. E a amamentação é um livro à parte, eu por exemplo tive um dia que tava tão pirada, que por mais estímulo,  não saia uma gota sequer de leite do meu peito. Tá tudo na cabeça e se a gente não está com a cabeça bem, e com uma rede que te apoie verdadeiramente, nada funciona. E eu que tinha um plano de parto, também tinha um plano de primeiros meses, onde a ideia era ficar eu e minha filha, sem visitas, sem barulho, sem interferências, e vivemos o extremo oposto a isso. E minha filha entendeu rapidamente o poder do grito, da cena. Na pior das hipóteses atiça a plateia e ela ama público. 

E por que retorno a isso, é que é neste momento, lá no primeiro choro que começam muitas outras relações importantes, ali um amor completamente novo, começa a se desenvolver fora do corpo da mulher/mãe, a relação com o mundo dessa mulher e deste ser e deles juntos, e é importante também iniciar a relação com as rotinas. Rotina para dormir, passeios, acordar… comer só a partir dos sexto mês. Aqui em casa, hoje a filha dorme às 20:30, mas até 1 ano e meio era às 18:30, a partir dos dois anos às 19:30 e agora chegamos ao limite do horário de criança ir pra cama. E tem dado certo. Em tempos de pandemia, onde passamos o dia juntas e isso não minimiza nenhuma das minhas outras funções, ao contrário, sem as rotinas eu certamente não daria conta nem de um terço. 

E neste texto como em outros reafirmo meu amor pelas rotinas, um algo que só comecei timidamente a ter com prazer em idade adulta, e que nos ajuda enormemente a melhor aproveitar os tempos e os presentes do instante já, que é o agora. 

Bem, de acordo com minha rotina é findado o momento dessa escrita pois agora é hora da leitura com frutas com a filha. O livro do dia ”Sinto o que Sinto, de Lázaro Ramos. Um mês de agosto de amor e construção de novos hábitos para todos nós.

Par tida

Mariana Trotta

Abro uma cerveja. Puro malte. Ligo o computador e vejo que as letras estão partidas. Divididas numa lógica que exigem delas junções. Novas formações. Palavras de poucas letras ou frases extensas se esquecem de que o alfabeto é partido. Me vejo par tida. A par e em par de mim, tida como uma aproximação do “e” com o “u” fazendo o eu.

Sou eu quem estou partida. Até as palavras de uma letra só precisam de outras letras para serem vistas como palavras. Caso contrário, são apenas letras. Parto a pa lavra. Parto no sentido de parir e no sentido de lavrar, semear novas ressignificações. Também no sentido de partir, cortar ao meio e, ao mesmo tempo, partir, ir embora.

Minha mãe partiu muito cedo. Ela tinha 47 anos. Linda e cheia de vida. Foi. Partiu sem volta. Sem outra chance de junção. Partiu minha casa. Paro de escrever. Choro. Ainda choro muito depois de 24 anos sem ela.

Estou hoje há mais tempo sem ela do que com ela. Tenho poucas, pouquíssimas lembranças da minha infância. Talvez o trauma da separação ou por ter estado a infância toda com ela e doer demais não tê-la mais. Paro de novo. Molho o teclado. Não enxergo as letras. Lágrimas ofuscam a visão.

Voltei. Conseguia manter meu luto no esquecimento até o dia em que fui mãe. Projeto que adiei até os trinta e cinco anos. Depois de muita luta, provavelmente comigo mesma, pessoa partida, demorei para conseguir ser mãe. Após o mais triste revés de um parto, que foi ter uma perda gestacional avançada, fui mãe aos trinta e oito anos. Ganhei a luta que travei. E enfrento hoje as sombras da maternidade.

Iniciei um árduo caminho de tentar descobrir o que restava da minha mãe em mim. Ser mãe é também redescobrir a sua mãe. Processo lindo. Não quando se interrompe bruscamente. Muitas vezes me vejo agindo com a minha filha como agia a minha mãe. Também como agia a minha vó. Passei a entender que minhas referências eram fortes. Tentei recuperar minha infância.

Minhas melhores lembranças de infância são de viagens. Estar em outro ambiente faz com que possamos ver a nossa casa de longe. Tive uma casa feliz, acolhedora, cheia de cheiros e colo quente.

Veio a quarentena e minha maior preocupação, ao saber que o isolamento iria durar muito, foi pensar que as descobertas da minha filha estavam desprovidas da necessária distância de casa. Resolvemos nos deslocar. Partir. Sair para criar boas memórias desse período. Começamos a observar o casulo. Percebemos que ele está virado para baixo. Até o dia em que mudou de cor. Instante exato que em que virou borboleta. Partiu.

Na hora em que a borboleta voou para fora de casa, fiz um vídeo semente, que mostra uma pesquisa embrionária da criação de um espetáculo de dança, que estou criando com minhas alunas e alunos, utilizando as nossas memórias com a terra, que agora são junções das memórias da minha filha:

Imediatamente lembrei do meu casulo e do momento em que virei borboleta. Cheia de nós na garganta, choros descontrolados e lembranças chegando, fiz as pazes com a partida da minha mãe. 

Todas as memórias boas que estou criando com a minha filha nesse momento tão duro para a humanidade, e que muitas mães e avós estão partindo, me forçaram a pedir o colo da minha mãe de volta. Ele está quentinho. 

Todo o cafuné e o momento de afago na Alice reavivam minhas células e me fazem constatar com o coração que a minha mãe me deu muito, me deu demais. A vida que pulsa em mim com entusiasmo. A mãe que me tornei.  

Perdi o medo de me perder de mim.

Mariana Trotta é coreógrafa, bailarina, videomaker e escritora. Autora do livro “O discurso da Dança: uma perspectiva semiótica” (Editora CRV) e autora do blog “Na espera de um novo amor: sobre maternidade adoção e devaneios”. Professora Associada do Departamento de Arte Corporal da UFRJ e do Programa de Pós-graduação em Dança da UFRJ (PPGDan), coordena o Laboratório de Linguagens do Corpo (LALIC/UFRJ), pesquisa em criação em dança contemporânea e videodança, com enfoque no corpo político e ativista. Mãe da Alice. Escreve às segundas-feiras para o blog, no Lugar a mãe que sou.

Somos todas incríveis

Janira Alencar

Uma coisa que sempre me chamou a atenção, ao ouvir ou ler alguma entrevista com mulheres que admiro é a onipresença da pergunta ‘Como você faz para conciliar a carreira e os filhos?’. O que me incomoda, diante de tal pergunta, é o machismo a ela atrelado: não há um só homem famoso que ao conceder entrevista, para quem quer que seja, tenha que responder a algo do tipo. Parece que os filhos, o ser pai, não fazem parte da rotina ou das atribuições masculinas.
Hoje, fosse eu a perguntadôra, ante qualquer mulher, colocaria a impressão machista no bolso e a questionaria, com real interesse: como você faz para conciliar a carreira e os filhos. Faria a pergunta e sentaria, caderninho na mão, a fim de aprender e tomar nota de qualquer coisa que pudesse orientar, ajudar ou ensinar como trilhar agora essa nova jornada que se apresenta. Ouviria atentamente as respostas que eu sempre pulei, por puro desinteresse, ou por pensar que as mulheres não têm mais que responder a esse tipo de pergunta, não.
O fato é que voltei a trabalhar e hoje sinto na pele o quão difícil é conciliar a dupla função. Ao saber que, após a minha licença-maternidade, não voltaria ao trabalho presencialmente, a sensação primeira foi de alívio – apesar da terrível situação que levara a isso. A certeza de ter mais tempo em casa, pertinho dele, garantiria o aleitamento exclusivo por mais um tempo e o acompanhamento integral dessa fase tão rica de descobertas. (Por falar em aleitamento, nada mais contraditório do que o Ministério da Saúde orientar 6 meses, no mínimo, de aleitamento exclusivo e termos que voltar a trabalhar aos 4 meses do bebê. Mas isso já é pauta pra outro texto).
Ainda nutrida pela alegria de ter mais uns diazinhos ao lado do Tom, organizei meu ambiente de trabalho, chequei todo o arsenal que agora faria parte da nova rotina (câmera, fones, computador…) e, no dia 28 do mês passado, voltei às minhas atividades – volta essa que veio cercada de muita alegria! Pra mim, minha profissão ocupa uma parte muito significativa da vida. Eu tenho muito orgulho de trabalhar com Educação e sou muito feliz trabalhando com crianças e num organismo vivo como é uma escola. Toda admiração e respeito a quem escolhe dar uma pausa na carreira pra viver integralmente a maternidade, mas essa é uma escolha que eu nunca conseguiria fazer. Seria viver a eterna sensação de que algo está faltando, exatamente como eu me sentia antes de ser mãe.
Pois bem, mesmo com todo o amor pelo Tom, pela maternidade e pela profissão, tem sido exaustivo dar conta da nova jornada. Eu disse dar conta? Acho que não é exatamente isso que vem acontecendo! rs. Tem dias em que me vejo, ainda de pijama, com menino numa mão, teclado do computador na outra, celular na orelha, tentando resolver mil coisas ao mesmo tempo. O combo pode ser também menino no peito, fazendo a comida do cachorro, no intervalo entre uma e outra reunião. Mas nunca é uma coisa só a ser feita, e na maioria das vezes não consigo terminar todas.
Então, recebo mais uma aprendizagem da maternidade: é assim mesmo, pegue leve consigo! Às vezes vai dar certo, vai dar tempo de fazer tudo e noutras você vai dormir (morta de cansada!) sem ter cumprido metade da lista de pendências.
Vejo muitas mulheres em sofrimento, por se sentirem não dando conta ou pela exaustão em que se encontram. Porque há uma romantização de que se você ama seu filho e desejou ser mãe, todos os dias vão ser nuvens e você vai atravessá-los com um sorriso no rosto. Não! Ser mãe cansa, amamentar cansa, trabalhar cansa, cuidar da casa cansa, e isso não é sinal de desamor. As coisas boas (dançar, noitada com os amigos, fim de semana na praia, viajar pra onde sonhou, sexo com ou sem amor), mesmo com todo o prazer que nos proporcionam, também delas precisamos descansar.
Por isso, cada vez mais, eu queria ouvir mulheres. Ouvi-las e com elas aprender como fazem para conciliar (ou não) tantas funções que escolheram ou que lhes foram designadas, mesmo sem escolha. Queria saber como fazem para se perdoar e ter uma noite de sono tranquila, ainda que as 24 horas diárias não bastem para tantas atribuições. Queria também dizer-lhes que não sei como, mas hoje eu consegui; já ontem não deu muito certo, não, e tudo bem! Mas queria, principalmente, dizer o quanto são/somos incríveis.
Sugestões de músicas:

  • Mamãe coragem (Gal)
  • Só as mães são felizes (Cazuza)
  • Ela é bamba (Ana Carolina)
    Sugestões de filme:
  • Que horas ela volta?

Janira Alencar é formada em Letras, apaixonada por literatura e música, sobretudo a brasileira. Coordenadora Pedagógica, trabalha há 13 anos em uma escola infantil em Fortaleza. Mãe do Tom, de 2 meses, recém-aventureira na viagem da maternidade. Escreve às segundas-feiras no Lugar a mãe que sou.

Desabafo de uma mãe negra

Lara Leôncio

Primeiro preciso dizer que sou uma mulher negra de pele clara, cabelos compridos e cacheados com o cacho aberto, magra, olhos castanhos escuros, altura mediana. Sei que dentro da minha etnia sou bastante privilegiada , mas sim, sou negra e sofro racismo.

No dia que tive a notícia da minha gravidez, fiquei explodindo de felicidade, da mesma forma quando descobri o sexo. Sabia que estava gestando uma pequena guerreira. Mas dentro de tanta felicidade me trabalhava e estudava, lia exemplos de vida de como é colocar uma filha mulher negra no mundo. Pois eu e todos os que me cercavam acreditávamos que a Íris Luz seria negra. Então tinha medo que essa nossa sociedade racista machucasse minha menina.

No dia em que ela nasceu uma surpresa, minha menina era tão branquinha que chegava a ser rosa. Puxou a alguns ancestrais brancos. Em relação ao meu amor nada mudou, mas não pude não pensar que na sociedade em que vivemos ela veio privilegiada e alguns medos diminuíram drasticamente. Sabia que ela iria ter representatividade em tudo que está ao nosso redor, que ela iria poder andar por uma loja sem ser seguida por ninguém, ou ser bem atendida ao chegar em qualquer estabelecimento, ou não ia passar pelo constrangimento de mudarem de cômodo em uma casa porque não iriam ficar no mesmo cômodo que o dela, ou que não ia escutar alguém dizendo que ela não era “boa” o suficiente para namorar com alguém porque ela era negrinha (forma pejorativa), ou até mesmo acharem que ela não iria ter capacidade de gerir uma empresa. Enfim, fiquei aliviada por ela ter esse privilégio que a mãe dela não teve. Sempre queremos proteger nossas crias do que nos fez mal né?!. Pois é!

Com esse sentimento fui para casa e vivi meus meses de resguardo dentro da minha bolha. Segura por estar rodeada por pessoas amorosas. Até que comecei a sair com a minha filha. Ir ao mercado comprar alguma coisa, enfim, fazer coisas comuns do dia-a-dia, e fui surpreendida pelo meu esposo me chamando para uma conversa. Ele começou falando:

— o que eu preciso te falar parece mentira, mas não é, e você precisa tá preparada.

Eu tomei logo um susto, perguntei o que era de tão grave que eu precisava tá preparada, então ele continuou:

—  vivemos numa sociedade racista, machista e que maltrata., 

Ele  não falou nenhuma novidade, mas continuou:

—  quando você estiver com a Íris Luz nos cantos, você vai escutar muito que ela não parece com você por conta da cor, ou que graças a Deus ela é branquinha, ou perguntar se ela é realmente sua filha, se tem certeza disso, ou confundi você com babá.

Eu escutei atenta, mas pensei, ele pode tá exagerando por querer nos proteger, e ele ainda completou: 

—  porque se ela tivesse nascido negra iam perguntar se você tinha certeza do pai, mas como ela nasceu branca você é apenas a babá. A sociedade sempre julga a mulher independente do que seja. Eu fiquei pensativa, mas como ele disse era pra me preparar, enfim, me preparei, mas ainda pensando que era demais.

Finalmente chegou o dia de sair pela primeira vez de casa com a Íris Luz. E todas as frases que foram ditas pelo meu esposo foram ditas por pessoas diferentes nessa ida ao mercadinho, que durou no máximo meia hora. Fiquei assustada e me senti com o coração em pedaços e percebi que de qualquer forma o racismo vai estar presente na vida da minha filha, e aí vem mais uma culpabilidade, pois ela poderia sofrer racismo por conta da minha cor de pele. Na hora que percebi isso deu vontade de chorar e de não querer aceitar minha cor, essa cor que sempre me orgulhei e sempre dei voz, sempre lutei por ela, nesse momento que vi que podia prejudicar minha filha, não queria mais.

Então mais uma vez fui procurar refúgio. Mais uma vez fui aos livros, artigos, vídeos, amigas, relatos de mulheres incríveis para poder dar as mãos e irmos juntas. E percebi que não é negando minha cor que vou protegê-la (como parece que é para ser), mas ensiná-la que somos lindas, inteligentes, fortes, corajosas e que juntas ainda somos mais, independente da raça ou gênero, tenho que ser a minha melhor versão para poder ser referência para ela, e no momento que ela puder lutar contra o racismo, seja por quem for, ela tenha como lutar. É mostrar à ela que eu poderia ser babá e isso não iria me diminuir, mas neste momento sou Mãe, e ela não ter vergonha ou medo de me apresentar dessa forma.

É um caminho longo, não sei como vai ser, não sei se vou conseguir, a única coisa que sei é que sou grata a essas pessoas que disseram essas coisas logo bem no início de tudo, pois elas me muniram de estudo e amor pela minha cor e minha filha, e me mostraram por onde posso ir. 

Acredito que o racismo só vai acabar quando as mães e pais dessas novas gerações mudarem isso na criação e esse vai ser o meu caminho.   

Arquivo pessoal.

Lara Leoncio é mulher, aquariana, mãe, atriz, figurinista e produtora cultural. Atualmente estudando designer de moda. Escreve às segundas-feiras falando um pouco da aventura de ser mãe da Íris Luz.

30 meses não são 30 dias, e é só o começo.

Neste mês completam-se 30 meses que minha filha deixou de morar em mim e ganhou o mundo. 30 meses que virei a mãe da Ana Luna. 30 meses em que aprendo e desaprendo várias coisas, e parece que o tempo não passa por mais que pareça estar voando. Ela, minha filha cresce a olhos vistos e me surpreende a cada segundo com uma novidade, seja uma palavra nova. Esses dias ela me mandou um: “a Clarice (a gata) é sorrateira”. Ou com frases de efeito revigorantes, como: “Mamãe, mamãe, eu te amo”. Ou quando pede por favor, com licença ou agradece espontaneamente. Ou ainda quando pede para ir para o mar e eu digo que não podemos e ela se conforma e me faz prometer que tudo passará, e andaremos por todo o país, como na canção de Luiz Gonzaga.

 

Tão linda, né? Mas, não se engane ela é também uma criança de 30 meses e tem como melhor diversão contrariar todas as regras, há quem diga que é a adolescência infantil. Quando tá em vídeo chamada com a avó, então faz tudo ao contrário do que é dever aqui por casa. E em épocas de quarentena, a cada nova birra faz-se necessário usar da criatividade para que o clima não fique bizarro, e vale tudo, dançar, fingir que cai, olhar formato de nuvens, fazer voz de personagens, encarnar alguns, conversar com brinquedos, fazer a reboladinha da Baby do Brasil, ou prometer banho no chuveiro já nas últimas da paciência e criatividade. Ela detesta banho de chuveiro em casa, só gosta do chuveiro da barraca de praia, aqui ela curte mesmo tomar banho na lavanderia. E o motivo é óbvio, pensa que assim pode minimizar as lavagens de cabelo, o que acaba sendo uma verdade. Espertos eram os medievais que diziam não haver crianças, mas sim adultos pequenos. 

Aqui seguimos buscando nos descobrir e reconfigurar, nesse lugar de mãe e filha e depois de já nem sei quantos dias, há momentos em que eu tenho real desejo de deixá-la na casa da avó e com os tios e sumir pelo menos por 12 horas. Nem sei o que eu faria, acho que deitaria numa rede em lugar silencioso para ler um livro, sem celular nem por perto e depois dormiria profundamente sem medo de a filha acordar. 

Contudo, ainda estamos aqui, eu, ela e Clarice Lispector. Deixarei essa escapadinha para quando pudermos sair tranquilamente e farei ela estendida, algo como uns 30 dias. Porque sonhar não custa nada e todo mundo pode, em algum momento, penso. E no mais estamos bem, saindo de uma covid familiar, já que ficamos doentes juntas e estamos nos curando juntas e com muito amor e gratidão, por ter sido leve e tranquilo. E felizmente, até agora sem surtos, pesar ou desespero.

Mas, devo admitir que muito desse não desespero é fruto de algumas tomadas de decisões anteriores e em processo. Aqui quem educa sou eu e não abro muito espaço para desserviço, não assistimos jornal e a tv tem limite de uma hora por dia em desenhos e 2 horas com show de músicas, como; Novos Baianos, Chico César, Bob Marley, Rhaissa Bittar, Luiz Gonzaga, Cidade Negra. Telefonemas de vídeo diários para nossa vó e quinzenal com mais umas poucas pessoas. Muito floral e óleos essenciais, além dos chás de fim de tarde e das músicas de meditação nos dias mais turbulentos. Massagens e meditação são peças chave para o equilíbrio em uma casa como a nossa, em que somos três fêmeas, além das plantas. Onde a fêmea mãe, no caso eu, sofre de toc e não consegue ver a casa suja e bagunçada, onde a fêmea filha adora uma bagunça e a fêmea gata é a única que se permite surtos diários, sempre no mesmo horário. Gosto de crer que ela tá limpando o ambiente para que tenhamos uma noite de sono mais leve.

Há quem me chame de rígida, mas eu é que sei o que acontece quando a rotina é mexida. De modo que temos atividades diferentes por dia, mas nos mesmos horários, e claro que no domingo jogamos todas as regras na gaveta e nos permitimos passar o dia vivendo o chamego, fazemos cinema em casa, contando histórias, comendo pizza e pipoca.

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São 30 meses de um amor lindo que nutrimos todos os dias. São 30 meses de inúmeras questões e muita dedicação. São 30 meses de nós duas juntas, e é só o começo, pois temos uma vida inteira pela frente, juntas nesse lugar incrível de sermos mãe e filha.