Sendo…

Por Roberta Bonfim

Os dias passam lentamente apressados. E a vida passa e vamos vivendo tantas novidades cotidianas, aprendizados surpreendente óbvios, a cada novo instante, além dos testes de reação e todo o ambiente que somos e nos cerca. Por aqui estamos a 3 anos e 8 meses aprendendo a nos separar e com um desejo profundo de união.

Tão pouco conseguimos ser só nós, e logo ela já será a garota sociável que nasceu para ser e a mãe aqui vai ficar só observando e buscando fazer as escolhas mais acertadas por nós até que ela esteja preparada para tomar suas próprias decisões.

Outro dia enquanto conversávamos ela me apresentou questões tão pertinentes e profundas que cheguei mesmo a entender os medievais e agradeci por vivermos no agora e por termos a grata alegria de passamos por esta vida podendo ser mãe e filha.

Esses dias, talvez por conta das reaberturas e diminuição das distâncias, comecei a pensar sobre o quanto mudei desde que me tornei mãe. Uma das coisas que me chama muita atenção é a relação com os amigos, e mesmo com a cidade. 

Quando vamos ser mãe até sabemos que muito vai mudar, mas só no viver entendemos real o que isso quer dizer, e diz. E daí para frente a perene brincadeira de escolher a todo instante de modo consciente e responsável, mas sem culpa. Porque a culpa é peso e eu estou deixando os meus no caminho. Seguindo com o que me cabe e onde caibo.

Descobrindo Mundos

Por Roberta Bonfim

OI! Me chamo Roberta Bonfim, desfiz 39 anos, sou mãe de uma criança maravilhosa que é sobre quem escrevo neste blog. O nome dela é Ana Luna, minha filha, hoje com 3 anos e cheia de descobertas sobre si e o mundo. E eu venho embarcando junto com ela nesse desconhecido de descobrir-me ao descobri-la em transformação, ao tempo que ela igualmente se descobre nas minhas transformações. Somos dois seres buscando harmonização.

Não tenho nenhum desejo de romantizar ou seu oposto a maternidade. E quando lá atrás sonhei esse espaço para falarmos e compartilharmos as Mães que somos, era esse desejo de encontrar outras mães como eu que vivem esse lugar da maternidade. 

Pois quem é mãe sabe que qualquer que sejam as escolhas elas estarão recheadas de conflitos, culpas, medos, alegrias, risadas, brincadeiras, ou escândalos fora do contexto. Ser mãe é em parte entender nossos pais, ou melhor nos entender apesar deles. Cada qual nos seus contextos, a maternidade nos muda de lugar, pois deixamos de ser só. E o que isso quer dizer pode sim ser a maior das alegrias e a mais dolorosa das barreiras sociais que colocam sobre nós mães. Uma série de pesos sobre as mães, que precisam como quase tudo na sociedade humana está categorizado e nomeado. 

Aqui venho para compartilhar processos e vivências e não venho só, há outras mães inclusive você se quiser compartilhar suas histórias. Mas, aqui estamos com periodicidade eu na primeira segunda de cada mais, seguida pela maravilhosa ArteVista Alana Alencar, que mãe de dois sempre acha momentos para se alimentar das artes que a constituem, na terceira segunda esse lugar é cantinho de Tontom, com sua mãe tão maravilhosa Janira Alencar, que sempre encontra modos e as vezes até atrasa, mas sempre nos presenteia com seus compartilhar. Tínhamos neste elenco Lorena Aragão mãe do geniozinho Inácio e dona de uma personalidade inspiradora, e também Mayane Andrade, minha comadre e mãe de três e empreendedora nata, essas ArteVistas maravilhosas, neste momento estão com uma vida muito agitada para escrita, então, a não ser que você mãe escreva e nos envie para fortalecer este lugar, vocês que lutem pois teremos muitos textos meus. Pois escrever me liberta, então nunca é muito deixar os dedos dançar sobre o telhado.

E sobre a mãe que sou, sigo no mantra de que é a que posso ser. Aqui em casa não peço perdão pelo tempo não compartilhado e por ela respeitado, mas peço compreensão e compartilho com ela como estou pensando e solicito ajuda. Se ela entende? Se associa? Se acolhe? Ai são outros 500 (se), mas busco ter essa relação e com isso tenho vivido gratas alegrias ao ver a formação de alguns valores que considero fundamentais nas ações da minha pequena, já nem tão pequena assim.

E aí é uma pauta, é difícil crescer, entender a cada passo que se cresce é uma nova responsabilidade que se abraça, sem muito tempo para escolhas. Um exemplo muito interessante é o colinho. 

Ela foi uma criança de muito colo, depois que aprendeu a andar começou a negar o meu colo e lutar pelo direito de ir no chão e se possível de mãos soltas, livre, na orla, mas eu que conheço a curiosidade e rapidez da criança que tenho poucas vezes aceitei as mãos soltas perto de carros. Mas, agora ela tá grande, amo dar colinho mas meu fisioterapeuta tá louco para se ver livre de mim e das minhas dores nas costas permanentes e constantes. É só ela? Claro que não. Tem meu sedentarismos. Mas comecei ainda que muito timidamente o processo de voltar a me olhar e me cuidar para dar conta de cumprir a promessa que fiz a ela de que vamos rodar por todo esse país. 

Ser a mãe que podemos ser é lindo!

Entrando no mundo das letras e números

Eu pisquei e chegou o dia de o Tom começar na escola. Assim mesmo, um piscar de olhos. Eu, que ainda me flagro incrédula diante dele, que não consigo entender como meu bb já está desse tamanho, nem como ele faz e diz e mostra tudo o que ele faz, diz e mostra, me vi emocionada, mãos dadas com ele, levando-o ao primeiro lugar em que vai existir longe de mim. Ao lugar em que ele vai interagir olhando as pessoas de frente, e não erguendo o pescoço.

As vivências que antecederam esse momento trouxeram um misto de sensações: ansiedade, euforia, expectativa, alegria… e medo. Penso eu que o medo deve-se tão somente ao fato de meu filho iniciar sua vida escolar em meio a uma pandemia, decisão que carrega consigo uma responsabilidade enorme pelo que pode vir a ser. Mas como ‘a gente se ilude dizendo já não há mais coração’, há grandes chances de que o medo estivesse presente qualquer que fosse o contexto.

O julho foi todo expectativa e preparos: comprar uniforme, os materiais, organizar e etiquetar tudo, conversar com ele, tentando fazê-lo minimamente entender… Friozinho bom no estômago, que há tempos não sentia. Eu, amante dos livros e das letras e cria do ambiente escolar (lá fui aluna, cresci, aprendi e voltei para trabalhar), já imagino o Tom vivendo ali boa parte de suas melhores experiências.

E assim fomos, em nosso primeiro dia! Aquele 2 de agosto, dia do meu natalício, dia que sempre foi só meu, transformou-se magicamente no primeiro dia de aula do Tom. Nada me faz sentir mais mãe do que os momentos em que me esqueço e despeço-me de mim para dar lugar ao meu filho e, não por acaso, meus dois aniversários desde que ele nasceu deram lugar a alguma nova gracinha, palavra ou experiência dele.

Os primeiros dias não têm sido fáceis! Muito choro, conversas, tentativas… Mas é também muito prazeroso vê-lo entender que, agora, aquele universo faz parte da sua rotina. É lindo vê-lo explorar cada canto do espaço e chamar o nome dos coleguinhas: ‘Nham’ (Ian), ‘I-da’ (Davi), ‘Au’ (Álvaro). É de encher o olho d’água quando ele pega a mochilinha e convoca: ‘tudá!’. É emocionante vê-lo dizer que o melhor do dia foi brincar na areia (‘êia’) e ver a tartaruga (‘tatá’). Tudo naquele idioma que só os pais compreendem.

Meu passarinho tá alçando voo! Eu só peço às deusas sabedoria, paciência e discernimento para ensiná-lo a voar e dar-lhe norte sem no entanto podar suas asas. Voa, meu Tom, que teu colo-ninho está sempre aqui, pronto pra ser sempre teu pouso ou tua morada.

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano e meio

Tom brincando na ‘êia’, em seu primeiro dia de aula ❤

Agosto das Deusas

Por Roberta Bonfim

A turma adora romantizar a maternidade e tirar todos os méritos da mãe. Eu por mim, abro mão de qualquer mérito na vida, mas ninguém me tira a certeza de que sou a melhor mãe que posso. É que a maternidade por aqui, mesmo tendo a “prisão” física, especialmente em tempos pandêmicos, muito mais me liberta. 

A maternidade é uma das vivências mais fluidas da minha existência, não planejo para ser mãe, sou, vivo, estou, a que dou conta, a que rola, flue e cara minha filha vai ter de entender e me amar com isso, como eu a amo e entendo mesmo quando ela faz uma cena que parece que estão arrancando um dente dela, apenas e tão somente porque eu disse que estava na hora de ir tomar banho. 

MInha filha teima e testa o grito como caminho para conquistas, aqui em casa o truque não funciona, mas minha rede de apoio é minha vó e ela cai como sardinha na rede e aí seguimos preparando os ouvidos para as cenas e a serenidade para o ensinar do melhor modo que eu conseguir no momento.

Gosto de repetir isso, porque vivo a maternidade de um jeito onde até o momento não abracei com força as culpas maternais e acho legítimo que eu lute e lute sorrindo. E não para romantizar, mas porque é melhor ser alegre que ser triste e eu aqui escolhi não abri mão dos meus projetos particulares e tenho até me aventurado a sonhar, é que a maternidade não nos impede de nada, se pá até nos fortalece. 

Tiramos férias, meias férias, tenho uma dissertação para escrever, mas a parte a isso estarei sem telas, sem internet, sem coleiras eletrônicas sugadoras de tempo e energia.Vivo, cotidianamente ouvindo o povo dizer para eu ser influencer, outra opção recorrente é que eu faça um instagram para Ana Luna. Eu ouço e sempre me faço as mesmas duas perguntas como respostas a essas perguntas. Como posso eu decidir influenciar o outro? Acho real valendo essa coisa de se auto denominar influencer. A segunda pergunta é; Homi tu não tem nada o que fazer e acha que eu passo o dia com as pernas para cima, porque eu quase não durmo, média por auto de horas de sono sequenciada caiu para 3 horas, pois fujo e na madrugada a filha me procura. Tenho dissertação para parir, agora todos entregues mais estava com centos trabalhos para entregar, editando um livro, pensando, criando e compartilhando conteúdo, editando e operando streaming, escrevendo para blog, instagram e projetos paralelos, além de trabalhos para o Poço da Draga. E aí a pessoa me aluga o ouvido na cruzada e ainda me vem com esse tipo de sugestão. Agora me veio uma pergunta inteligente para próxima vez, perguntar se assiste e/ou ler a Lugar ArteVistas. 

Enquanto isso a filha ama mesmo fazer uns videozinhos, não para mostrar ou bombar no instagram, mas para se ver, e eu acho incrível observá-la se observando.

As telas estiveram comigo, mas também vivemos momentos de liberdade delas. Foi lindo!

E dentre os muitos registro compartilho aqui lindezas de Lorena Armond.

A construção do amor

Por Roberta Bonfim

Ilude-se quem pensa no amor constante. Quem pensa que somos finitos. Ilude-se quem pensa que somos todes estranhos uns aos outros. Quem pensa que existe uma verdade única. Ilude-se quem pensa que tudo é a partir da mente. Quem não silencia para se ouvir. Ilude-se quem pensa que o pensamento é exato e que as ditas verdades são construídas a partir dele. Ilude-se quem pensa que por saber pensar é melhor. Quem não se sente à vontade em si, com o que não se permite sentir. Ilude-se quem pensa que a mente silencia. Quem aprendeu a calar a alma. Ilude-se quem se leva tão a sério, ou quem pensa ser o detentor do saber universal. 

E eu bem humana, afundada em pensamentos e ilusões. Quando me percebi grávida, não acreditei e fui atestar. Quando me percebi da grávida e “abandonada”, não senti qualquer medo. E comecei a perceber que nunca tinha estado tão acompanhada e assim começamos conscientemente o processo de construção do amor. Vivemos muitos meses juntas e Ana Luna não queria sair de mim e precisamos da ajuda de uma equipe incrível que a ajudou e logo me deram ela no colo e sorrimos com esse encontro externo. Um sorriso tímido, mas sorrimos e eu desejei as boas vindas dando-lhe o melhor de mim e assim seguimos, buscando potenciar nossos melhores. Nunca senti medo de ser mãe da minha filha e não o tenho agora. 

Mas, nem sempre me senti assim tomada de amor, como me sinto neste momento que olho ela bagunçando tudo que acabei de arrumar e acho bonito, pois ela tá descobrindo o mundo e eu com ela aprendo a descobrir o mundo. Minha criança se diverte com minha filha, juntas aprendem o alfabeto escrito e o dos afetos. Esse amor que se constrói em nosso cotidiano que não é tranquilinho, pois sou uma geminiana nata, como bem sabem e faço mil coisas, e a ela peço compreensão e a convido a brincar perto, é ser parte desse movimento de sermos do modo que ela achar mais massa, desde que também saiba que as vezes vou precisar que ela silencie, ou mesmo que se afaste e há também os momentos em que ela sem qualquer pudor diz; “Com Licença mamãe, vai pro seu quarto. vai!”. E o meu exercício é confiar que ela só quer privacidade e que não vai aprontar nenhuma novidade e essa confiança tem dado certo, porque nós confiamos e aí é melhor arriscar junto de quem se confia e assim vamos arriscando junto nessa construção e nutrição desse amor que construímos juntas.

É no olhar da minha cria que vejo mais nitidamente a luz do amor. E é no seu chamado que começo a perceber o quanto me perdi. Guardei-me tão bem guardada em medos e emoções tolhidas que neste momento em que venho sido chamada a um encontro mais sério comigo mesma tenho encarado lembranças que transformei em fantasmas aterrorizantes e que ao ter coragem de encará-los apesar das lágrimas e novas percepções venho mais uma vez constatando que os medos são maiores quando são só sombras da mente. 

É no abraço, no carinho, no chamego, no papo reto quando sentamos para trocar ideia que minha criança vem aprendendo a não ter tantas questões. Grata universo por me afagar com esse amor tão bom.

Sobre esperança: de vacinas a pessoas melhores

1 ano e 5 meses. Tomtom se aproxima dessa marca e, por aqui, muitas novidades e coisas boas acontecendo. A começar pela tão esperada, desejada e precisada vacina. Depois de mais de ano, a gente se pega voltando a fazer planos, voltando a ter esperança! Poder rever a família  (ainda com cuidados, distância e máscara. Sim!! Não caiamos na falácia de que ela não é necessária. Não há, ainda, vacina ou contaminação anterior que dispense seu uso) é um alento em tempos de tantas saudades e incertezas. Nos passeios pelas redes sociais, os lutos, lamentos e pesares dão lugar às agulhadas, sorrisos e – não menos importantes – protestos, o que renova o nosso fôlego e dá aquele quentinho no peito…

Nessa maré de esperança e possibilidades, meu bb começa, lentamente, a extrapolar as fronteiras de casa e explorar novos mundos: o jardim do prédio, as casas das vovós, a futura escolinha. Decidimos, William e eu, após muitas conversas, combinados e ponderações, iniciar Tomtom no mundo das letras e das ciências agora no segundo semestre. Estou em contagem regressiva e já explodindo de ansiedade! Escola sempre foi, para mim, espaço de alegrias, encontros e amizade. Tirando o tempo de faculdade, não consigo nem lembrar a minha vida longe de uma escola: saí de aluna a professora; da carteira para a lousa, mas nunca de lá de dentro, nem corpo nem cabeça nem coração.

Mas, voltando ao assunto, os novos mundos que se apresentam ao Tom não abrandam sua infinda curiosidade por conhecer e explorar cada cantinho da casa. Cada manchinha na parede, folha caída no chão ou artefatos do cotidiano são objetos de um rico e minucioso estudo. Texturas, cores, funções; tudo cabe no interesse desse Sherlock bebê. Ocorre que, além de exímio investigador, meu filho traz também habilidades de alpinista. Não existem obstáculos para o Tom, todo cantinho serve de apoio e impulso para chegar ao lugar almejado, sejam cadeiras, armários ou janelas. Aí, papai e mamãe que lutem para alcançar a rapidez e a agilidade do bb escalador. A palavra mais pronunciada aqui em casa atualmente é NÃO – inclusive por ele, que já começa a arte se autoadvertindo que não pode. Não pode! Na boca não! No sofá não! Não puxa a televisão! Tomada não é brinquedo!

Como todas as etapas atravessadas até aqui, fui atrás de ler um pouco e conhecer possíveis abordagens para orientá-lo. Sempre em busca de uma educação mais afetiva, confesso que me surpreendi com o quanto se condena o NÃO. O que mais encontrei foram maneiras de ‘camuflar’ esse não para os filhos, seja trocando-o por outras palavras, seja nas estratégias de ação. Exemplo: Se o filho não pode pular no sofá, não diga isso a ele, aponte um lugar onde ele pode pular: ‘Olha, filho, aqui é mais legal!’. Tenho me policiado pra não fazer da minha vivência parâmetro para todos os seres, como o fazem os injustificáveis defensores da palmada, mas, pra mim, o NÃO também é afeto. Criança precisa de limite, precisa de borda, isso é estruturante para elas. Não se trata de tudo proibir, nem do ‘não porque não’ (embora eu saiba que em algum momento vou me valer dele, ainda. rsrs), mas de conversar, explicar os porquês, orientar a criança. Trata-se de diálogo, paciência e educação. E educar, meus caros, faz-se com muitos mais NÃOS do que SINS. É cansativo, trabalhoso e diário.

Deparo-me rotineiramente com o quanto a falta do NÃO pode interferir no desenvolvimento de uma criança, desde a fragilidade e pouca resistência diante de frustrações à ausência do próprio entendimento do sentido dessa palavra. Não à toa, hoje temos que repetir exaustivamente e explicar a marmanjos, que nem filhos nossos são, que NÃO É NÃO! Com o Tom, eu faço questão de mostrar desde cedo: os limites do corpo do outro, dos espaços que não lhe pertencem, daquilo que pode lhe fazer mal. Sempre de forma dialogal e afetiva, acolhendo suas birras e frustrações.

Acredito que, assim, estou formando uma pessoa atenta ao mundo ao seu redor, empática às dores do outro. Acredito que esse bebê, que tão pouco transita pelo mundo e entre as gentes, quando puder fazê-lo, vai ser sempre de maneira cuidadosa e amorosa. Porque sim, pode ter muito amor no NÃO também.

Tom conhecendo a futura escolinha dele.

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano e 5 meses

Uma vontade de Aninhar

Por Roberta Bonfim

Junho! Quase férias, penso em comemoração silenciosa, vai rolar uma folga, vamos poder nos curtir mais eu minha filha, nos regularmos e reequilibrarmos. Tenho como mãe refletido muito sobre a saúde mental da minha filha de três anos e sobre a minha. Pensando sobre o valor do tempo e como nós aqui em casa o estamos usando. E  como quem gerencia a rotina da casa sou eu, assim tenho me repensado inteira a partir da Mãe que Sou.

É que ser mãe (também cabe a figura paterna) para mim, vai muito além de colocar no mundo. Fui mãe velha, sou mãe solo, conto com apoio de minha avó que é massa , mas é avó e é uma senhorinha. E minha filha é louca de amor por ela, hoje dormiram as duas no chão do closet fingindo que eram cachorros. 

Hoje enquanto escrevo este texto almoço e mais uma vez me questiono. E nossa alimentação? A correria cotidiana tem me feito abrir mão de coisas que me são muito caras e que exigem tempo e dedicação. Tudo nos exige tempo, mas os filhos pequenos, esses exigem e precisam de suporte. 

E quando falamos em rede de apoio é preciso dizer de modo claro. Rede de apoio é como o nome diz, de apoio, para apoiar esta criança e está mãe. Aqui em casa tempos sem criança é também um refresco para gatas que dormem profundamente quando Ana Luna não está.

E tenho me questionado constantemente: o que me excede? O que devo cortar? Sigo observando e seguindo na certeza de que qualquer que seja o caminho que escolha, será guiado pelo amor.

Poematernar

400 dias do Tom

A cada dia sei mais disto:

Melhor definição de mãe

É padecer no paraíso

Não existe mar de rosas

Na real maternidade

Só entende quem enfrenta

Essa tal realidade

E não dá pra ter descanso,

É uma função vitalícia

Pela vida desfrutando

Ora dor, ora delícia

Muda a vida, tudo passa

A ser entrega, doação

O filho a tudo ocupa:

Corpo, mente, coração

Isso sem falar do tempo

Que não nos pertence mais

Dormir uma noite toda?

Acho que é pedir demais

Mas há frestas de momentos

Destas em que o tempo para

Ter o filho em seu colo

A isso nada se equipara

E ver o seu crescimento

A cada dia, passo a passo

Faz tudo valer a pena

E manda embora o cansaço

E senti-lo junto ao peito

O colo, o laço, o olhar

Nutrir com nossas entranhas

Que potência é amamentar!

Vê-lo crescendo e, aos poucos,

Menos precisar da gente

Quer andar, ganhar o mundo

Tornar-se independente

Cada passo ou palavra

Cada novo aprender

Traz-me todo o entendimento:

Pra isso é que quero viver

Pra seguir sempre ao teu lado

Sobre a vida te ensinar

E quando não for possível

Te ajudar a levantar

É um sentimento tão forte

Chega a doer, tão profundo

Tudo se torna clichê  

Frente ao maior amor do mundo.

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano

nunca me perguntei onde quero chegar

Por Roberta Bonfim

Eu não escrevo pra ninguém! Foi a conclusão ao qual cheguei pensando sobre a escrita deste texto que se faz enquanto escrevo, pensando depois de duas semanas de muito trabalho, se o que faço, faz sentido, o que acrescenta ao mundo, qual a real relevância. Pois ando me dedicando tanto aos estudos e ao trabalho. E creiam, nunca me perguntei onde quero chegar com isso e mesmo agora quando ensaio fazer a pergunta reluto por não ter certeza se tenho essa resposta. Mas, tenho me perguntado. Pois minha filha de 3 anos e 3 meses tem pedido a minha atenção, e mais, ela tem reclamado da minha ausência e pedido a minha presença, mas com o ritmo da minha agenda não consigo oferecer além, e conto com a compreensão dela, que é massa. Mas, será que tenho feito as escolhas certas? Não sei e me prometi quando escolhi ser mãe que não me culparia, mas para cumprir esse compromisso comigo e com ela, preciso parar e rever os caminhos vez ou outra. E vivo isso agora talvez porque ela não esteja aqui comigo neste exato momento, e que passou uma semana na casa da avó pela primeira vez na vida. E ai me percebi sentada nesta cadeira onde me encontro, das 6 da manhã as 10 da noite, todos os dias. Teve um dia que parei e e terminei de assistir um filme que foi assistido em parcelas, mas vale muito. Deixo a dica.

E estamos em pandemia, dentro de caixas. E meu desejo de ir morar no interior cresce a cada instante, o desejo de pé na terra, contato com o verde. Fecho os olhos e só penso no banho de rio. Nunca fui muito ambiciosa, e sei que a felicidade não se compra, mas algo ainda me segura aqui na cidade, empoleirada no 14 andar de um prédio onde não vivemos em comunidade, apesar de ouvirmos nossas conversas pelas paredes. E minha filha brinca na varanda, e olha o redor, mas não o habita. Penso nisso e ensaio a sentir culpa. Mas tenho medo de ir pra rua com ela, de expor a ela, a mim, a nossa avó, razão maior de estarmos aqui.

Mas, de volta à nossa realidade, somos nós duas e duas gatas em um apartamento, e nos últimos três anos conto nos dedos as vezes em que ela ficou em algum lugar sem mim. E aí em abril, ela passou uma semana inteira na casa da avó. O resultado aqui em casa, foram dias de completa desordem, mas com muito trabalho e estudo, eu nem lembrava o tempo do tempo quando não se tem de dividi-lo com uma criança. Comi mal, não me cuidei, mas produzi e fiquei feliz, pois organizei muitas coisas que esperavam esse momento de serem organizadas, mas não foi a casa! 

E aí as tais questões: Para começar entendi que mais de 50% do meu dia útil que é longo, já que tenho dormido muito pouco, destino aos trabalhos e estudos, que é só 50, porque tenho de me dividir também entre a casa, comida, criança, gatas e plantas. O fato é que não sobra nunca tempo pra mim. E a questão é o tempo? Não. E aí vem a segunda constatação.  O tempo “livre” o que deveria ser o tempo pra mim, acesso a internet e fico presa na bolha até ser chamada por algumas das demandas da vida. E então vem a terceira percepção… mas essa vou deixar pra junho.

Pois agora fecho este texto parabenizando as mães, todas que abraçam a maternidade com amor e compromisso afetivo e social. Grata!

E compartilhando esse papo incrível entre mães

Oi gente!

Por Lorena Aragão

Oi gente!

Meu primeiro momento por aqui… escrevo cheia de borboletas na barriga!!!

Fiquei matutando um tempão sobre o que traria enquanto porta de entrada, enquanto primeiro convite para nos conhecermos. Sempre fui afeita às palavras. Escrever faz parte da minha constituição de vida, escrevo desde que me entendo por gente. Quando criança, tinha aqueles diários com um cadeado que não guardava os segredos de ninguém. Adolescente, comprava agendas descoladas e escrevia todos os
meus dias.

Tenho registros incríveis de primeiro amor, primeiro beijo, primeiras decepções. Com a evolução dos tempos, migrei para os blogs. Já tive uns dois ou três. Aí, aos meus 28 anos, veio a gestação. Mais uma vez, minhas escritas me salvaram de mim. Em meio a uma gravidez solo tão conturbada, escrever me ajudava a expressar tudo aquilo que eu estava vivendo e não conseguia por pra fora com ninguém. Então meu filho nasceu. Choro de neném, noites em claro, fralda pra trocar, choro de neném, põe pra arrotar, dá de mamar, o peito com mastite, choro de neném, fralda para trocar, quero escrever, tô com sono, cansaço, puerpério…quero…es…cre…v…não deu. Depois que meu filho nasceu eu parei de escrever. Foi quase sem perceber que abandonei a escrita. A chegada de um filho muda tudo, bagunça, chacoalha. Faz a gente rever prioridades , amizades, relativizar o tempo. Às vezes (na maioria delas) a gente se sente abandonada até por si própria. Cadê aquela mulher que estava em todas as noitadas, a rainha da balada Cadê aquela mulher que estava sempre bem cuidada, sobrancelha feita, unha sem cutícula? Passei anos sendo só mãe. Anos vivendo um universo que tinha mais sobre bebê do que sobre mim. Mas chega uma hora que a angústia vem, e a gente quer se reencontrar, quer um tempo pra respirar. O convite para escrever aqui me tirou da zona de conforto, do conformismo de “não ter mais tempo para essas coisas”.

Hoje meu filho tem 8 anos e eu sinto que já consigo não ser só mãe. Me chamo Lorena, sou Psicóloga Perinatal, baiana, tenho 36 anos, sou casada, mãe de Inácio e , mais do que nunca, sou MULHER. Estarei aqui me desafiando a tornar este espaço um cantinho de reencontro comigo, uma parceria de fortalecimento entre mães que amam seus filhos, mas que também sentem saudades de si. Vamos dá as mãos e seguir juntas nesta estrada? Do que você sente saudade? O que você abandonou? É tempo de novos tempos. Caminhemos! Beijos, luz e axé!

Lorena e Inácio ❤ – Lorena estará neste Lugar de afetos e compartilhamentos, na 4 segunda de cada mês. Se chega!