A dor e a delícia de ser mãe… de três!

Inicio esse texto afirmando que, ser mãe é realmente padecer no paraíso, tenho dito que nunca havia pensado que seria mãe, muito menos de três… 

Em minha casa os denomino como: Davi, o Rei! João, um príncipe guerreiro, desses que estão sempre à frente na batalha, e Marina, uma linda princesa. 

Davi, o Rei! João, um príncipe guerreiro, desses que estão sempre à frente na batalha, e Marina, uma linda princesa. 

Quando fiquei grávida do Davi, aos 18 anos, muito imatura, me veio uma alegria e um medo, afinal, não cuidava nem de mim direito, mas desde que o segurei em meus braços  senti que, naquele dia, nascia também um novo eu. 

Desde então, muitos desafios.. Passamos 5 dias internados até ele ser liberado para casa, lembro-me que ao sair do hospital, em meio a despedidas e agradecimentos às enfermeiras, elas diziam: “tchau, chorona, vai dar tudo certo!”. Sim, eu chorava muito. Foi desesperador saber que aquele pequeno bebê era meu. 

5 anos depois, lá estava eu, durante a festa do Rei Davi, anunciando que ele seria promovido a irmão mais velho; mal sabia ele que ganharia uma priminha também. Bruno, como sempre, fez o anúncio para todos depois do parabéns e eu lembro (dando risadas nesse momento) da expressão de cada um. 

De longe, essa foi a gestação mais tranquila, eu me sentia mais preparada para o que estava por vir, mesmo com medo por saber que não teria minha rede de apoio – Tia Neta, Fátima, Hiá e Ilma – por perto, mas confiante no “vai dar certo”. E, sim, foi tudo maravilhoso! João nasceu forte e saudável em pleno mês de férias, o que me possibilitou ficar o puerpério na casa da minha sogra tendo toda a ajuda necessária. Após 30 dias, voltamos pra nossa casinha longe da cidade e, por incrível que pareça, consegui dar conta do Davi, do João e da casa, sozinha. 

Assim, seguimos firmes e confiantes, até que 1 ano e pouquinho depois, veio a notícia que chegaria uma moradora linda pra nossa casinha. Marina, minha princesa, veio de brinde. Foi desesperador descobrir que vinha outro ser, dessa vez sem nada programado. Pobre Mayane, mal sabia que o desespero dessa descoberta nem chegaria perto do que viria pela frente. Quando descobrimos a gravidez, eu já estava com 13 semanas. A gestação, por sua vez, foi bem tranquila, porém ativa, muito ativa, afinal já cuidava de outras duas crianças sedentas por atenção. 

Pouco tempo depois, soubemos que seria uma menina, o que aliviou bem mais o desespero. Imaginem só a loucura que é desconstruir esses dois meninos, tirar a raiz das brincadeiras machistas, ensinar o importante lugar da mulher na vida deles, e várias outras coisas que luto e acredito para que o mundo seja melhor para minhas meninas, Ana e Marina. (Ana Luna, minha dindinha que amo,  meu coração sente quando falo sobre você. E digo mais, é a menina mais inteligente que eu já conheci, e sempre digo que a vi em meus sonhos antes de ela ser). Foi a partir desse dia que comecei a aceitar o fato de que teria mais um bebê, cuidando de outros dois, afinal, um é pouco, dois é bom e três é demais! 

Já sabia que não daria conta sozinha e que iria precisar de ajuda para quando Marina chegasse. Pelas contas ela chegaria em Abril, mês de aulas, Davi não podia perder, já sabia que não daria conta da prole, nosso puerpério seria em casa, eu, ela, Bruno e duas outras crianças.

Março de 2020, e a Pandemia chega ao Brasil, tivemos de cancelar o planejado chá de fraldas e, nesse momento, bateu o desespero de não saber o que viria e como seriam os próximos dias, nem nos meus piores pesadelos eu imaginava que tudo isso fosse acontecer. 

Por conseguinte, Davi teve férias forçadas e, no início da quarentena, foi para a casa da avó, onde permaneceu por uns 60 dias. Enquanto isso, passei 20 dias isolada antes de Marina nascer.

Chegou o grande dia! 07 de Abril de 2020, nesta manhã não havia nenhum caso confirmado de COVID no município onde Marina estava programada para nascer. No dia seguinte, primeiro caso confirmado. Enquanto eu e Marina aguardávamos alta, João tinha ido passar uns dias na casa da avó, entretanto ela não deu conta de toda a energia do príncipe guerreiro e o mandou de volta o mais rápido possível. Confesso que, a essa altura do campeonato, parece que faltavam dois pedaços de mim devido ao silêncio que reinava nessa casa, este que hoje só vigora após às 21:30h, e esse é o horário que mais agradeço, porque é quando vejo que consegui mais um dia e, cá pra nós, esses dias duram 72 horas. 

João sobe e desce brincando de homem-aranha, quando corro pra tirá-lo da grade, que já foi escalada por ele pelo menos 1 metro e meio em tempo recorde, Marina chora, enquanto isso Davi pede pra fazer uma boquinha e, pá, João já está subindo na cama de cima da beliche e eu corro pra acudir. Preparo almoço, alimento as crianças, hora do banho pós refeição; o sono da tarde nessa quarentena já não existe mais, e no meio de toda essa correria, tenho 30 minutos de sossego quando paro para amamentar. 

Sim, ser mãe é maravilhoso, mas dói. 

Dói saber que o mundo que vivemos é tóxico.

Dói saber que eu preciso fazer deles pessoas melhores, que preciso que eles entendam que o mundo é melhor pra quem estuda, e várias outras coisas que minha mãe e pai já diziam e eu não queria entender. 

Minha casa? É cheia de vida, os enfeites trocam de lugar com frequência, as prateleiras não têm mais livros, meu fogão é gasto pelo uso, meu sofá precisa de mantas, no meu quarto dormem 5 pessoas, a vida vira do avesso, mas no fim de tudo a gente descobre que o avesso é o nosso lado preferido. 

Agradeço muito por todas as pessoas que me ajudaram nessa caminhada, desde o nascimento do Davi até os dias de hoje, foram peças fundamentais pra gente conseguir chegar até aqui, sozinha seria impossível, enquanto escrevo tudo isso, um filme de tudo que já foi vivido até aqui passa em minha mente, e eu só consigo agradecer  por esses três seres incríveis e lindos que a mim foi confiado. 

Roberta, obrigada pelo convite. ❤️

Com amor, Mayane.

Mayane Andrade tem 26 anos, mãe de três e vendedora de tudo e qualquer coisa nas horas vagas, de Fortaleza, mas fugiu para uma vida mais tranquila no Aquiraz

Dois nascimentos

Por Mari Trotta.

Minha filha nasceu dia 24 de junho de 2015 pela primeira vez. Dia de São João, tarde fria. Eu não soube do seu nascimento.

Senti que ela nasceu, escrevi no mesmo dia no meu diário de gravidez invisível, aonde eu registrava as sensações da espera, enquanto aguardava na fila da adoção, um devaneio: “Não sei se meu bebê já nasceu. Com os olhos fechados vi uma pequena passarinha. É você, Alice? Meu corpo piou.”

Começou uma nova história paralela enquanto eu piava.

Era uma vez uma menina que teve dois nascimentos. Um nascimento, desses de barriga, que todo mundo tem. Outro, que só as pessoas que precisam fazer novos nascimentos têm. Quando se nasce duas vezes, duplica-se a existência.

No primeiro nascimento da menina, o de todo mundo, espera-se que a criança, recém-nascida, chore. Chorar é estar viva e saudável. Depois de chorar, recebe um nome para ser indivíduo, alguém diferente de qualquer outra pessoa, mesmo tendo elas todas o primeiro nascimento.

Não dá para não nascer, nascer é o primeiro ato de chegar no mundo, de colocar o corpo para fora da mãe e ser único. Assim foi: a menina nasceu, chorou, recebeu um nome e tornou-se única. 

O segundo nascimento é bem diferente, há quem não tenha. Nascer de novo pode ser uma escolha ou não. Nascer de novo é sempre um grande acontecimento, um alívio, uma revolução. Uma determinante metáfora. Quando se nasce de novo não se chora, se ri. Pensando melhor, às vezes se chora, de tamanha emoção, um chorar rindo.

Foi com um sorriso de olho e uma leve extensão na boca, esticando os lábios, que minha filha nasceu pela segunda vez. No segundo nascimento, eu estava lá: gestei, pari e dei a ela um nome. Quase o mesmo nome do primeiro nascimento.

Quando engravidei sem barriga, tudo que estava a minha volta também engravidou: as palavras, os poemas, a lua, os sonhos, a dança e as pessoas ao meu redor. Todo mundo grávido!!! Esperando comigo. Comecei com os poemas e devaneios da espera ansiosa “Será Alice ou Valentim?”, sobre o tempo que não passava, sobre a vontade de estar junto. Preparando quartinho, colando nuvens na parede. “Quando a barriga é no coração, a gestação não se conta por semanas. Contam-se os batimentos cardíacos. Os meus andam a mil por hora. Nos meus batimentos, a pressa. Passo o dia a gerar o coração. Pulso. Pulsa. Palpita. Devaneios do coração.”

Minha gestação começou no coração, surgiu um embrião na cavidade interna, chegou pelas artérias e foi crescendo até não ter mais espaço, subiu para a cabeça, ativou neurônios e tomou o corpo todo e depois de uma grande explosão: duplicou minha existência. Nasci de novo junto com ela no dia 19 de dezembro de 2015. Tatuei nosso nascimento.

Com imensa alegria anunciei para o mundo o nascimento da minha filha Alice! Pisei em São Paulo, meu irmão me buscou, fomos pegar meu pai no metrô, era dia 18 de dezembro, sexta-feira à noite, quando: BUM!!! A bolsa estourou!!! Me ligaram da Vara da Infância. Peguei o primeiro voo de volta para o Rio. Foram 14 horas de contrações no corpo… Fui para o abrigo no dia 19 de manhã, sem dormir nada, muito ansiosa para conhecer a Alice. Vesti minha melhor roupa. Olhamos uma para a outra e profundamente nos reconhecemos. A minha pequena, inclusive, já se chamava mesmo Alice!!! E era a cara do pai!

Dia em que a Alice foi para casa (23/12/2015)

Fotografia Anderson Lins (o pai)

Quando se fala de adoção utilizam a expressão “mãe de coração”, ela não me representa. Sou mãe de corpo inteiro. Acordo e vou dormir mãe. Embora eu, certamente, não me chamo mãe. Não fui rebatizada. Mariana é mãe, professora, coreógrafa, amante do samba, militante. As enumerações são infindas. Gosto de me ver plural. As Marianas que me habitam conversam muito com as Alices sobre ter coragem de nascer sempre que for preciso. Mas muito melhor é nascer de mãos dadas.

Fotografia Anderson Lins (o pai)

No país das maravilhas a gente fica minúsculo, depois cresce. Descobre as sensações de sermos tantos e até antagônicos. As duas Alices, que tanto amo, conversam, brincam, choram, comemoram seus dois aniversários. E lá estou eu em todas as celebrações das suas existências, piando e preparando a festa.

Mariana Trotta é coreógrafa, bailarina, videomaker e escritora. Autora do livro “O discurso da Dança: uma perspectiva semiótica” (Editora CRV). Mãe da Alice. Escreve às segundas-feiras para o blog Lugar ArteVistas no Lugar a mãe que sou.

Ser bom dá trabalho.

Por Janira Alencar.

Desde que o Tom veio ao meu encontro, tenho acompanhado com grande interesse os relatos das minhas companheiras de maternagem – por aqui ou em outros espaços -, e uma coisa tem me chamado a atenção: a presença quase unânime da culpa ou de algum sofrimento que passa a nos acompanhar quando nos tornamos mães. Percebi, inclusive, o meu discurso impregnado desses sentimentos. Então, sem querer negá-los (mesmo porque existem e é importante falarmos sobre), resolvi mudar a pauta dos textos e compartilhar momentos e experiências tão maravilhosos que a maternidade nos possibilita, e que não são poucos. 

Assim, divido com vocês que Tom chegou aos 4kg! Pode parecer pouco ou quase nada, pra quem não sabe que ele nasceu abaixo do peso médio – o chamado de bebê PIG (pequeno para a idade gestacional). Então, cada nova dobrinha, cada aumento do diâmetro das bochechas, cada pulo maior do ponteiro da balança são celebrados com muita euforia aqui em casa. 

Afora a luta travada pelo ganho de peso, há outra razão pela qual comemoramos a chegada aos 4kg: finalmente pudemos estrear as nossas fraldinhas ecológicas! 

Durante a minha gravidez, eu tracei pouquíssimos planos. Não que eu não projetasse o tipo de parto que queria ter ou não sonhasse em pegar meu filho nos braços. Mas eu não fui uma grávida ansiosa, consegui viver um dia de cada vez – até demais! Tanto que, no dia da chegada do Tom, muito embora tenhamos sido surpreendidos com uma antecipação de uns 10 dias, eu não tinha nada pronto. O quartinho não estava finalizado, a bolsa da maternidade não estava preparada, suas roupinhas não estavam lavadas. (Nesse último perrengue fomos salvos pela querida Roberta Bonfim e sua Ana Luna; somos muito gratos por isso!). 

Mas teve uma coisa que eu projetei, sonhei e coloquei como uma meta a ser cumprida: não usaria fraldas descartáveis. Já há bastante tempo tenho despertado para o grande problema ambiental que o lixo representa e busco inserir na minha vida ações que minimizem esse impacto no planeta. Um bebê usa, em média, 5200 fraldas em seus dois primeiros anos de vida e cada uma delas leva 600 anos pra se decompor no meio ambiente. Ao ter um filho, não poderia desconsiderar esses números; não só por ser responsável por trazer mais uma pessoa ao mundo, mas também porque quero ser exemplo para ele. 

A certeza de não querer descartáveis era tanta, que nem o tradicional chá de fraldas eu fiz. Comprei algumas fraldinhas ecológicas, de diferentes marcas, para conhecer e escolher a mais adequada para o Tom, e ganhei outras tantas – muitas, inclusive, reaproveitadas de um primo, já que a regra dos 3R prevalece por aqui. Procurei conhecer mais sobre o uso e, principalmente, a lavagem delas e adaptei minha casa para isso: cesto pra fralda de xixi, cesto pra fralda de cocô, devidamente pré-lavadas, e um varal só pra elas. A função de lavar roupa, aqui em casa, compete ao marido e ele abraçou a minha decisão. Tudo pronto, agora é só curtir o bumbum de pano! 

Sempre que alguma amiga perguntava pelo chá de fralda ou que, em uma conversa trivial, eu falava que não usaria fraldas descartáveis, a reação era a mesma. ‘Você é louca, ter um trabalhão desse’, ‘Tanta tecnologia pra viver como nossas mães’, ‘No primeiro mês tu desiste’ e ‘E quando ele fizer cocô?’ eram as frases que sempre tinha que responder. E respondia sempre da mesma forma: é só cocô, tá tudo certo. (N.A.: se você não consegue lidar com cocô, não tenha filho, porque o que vai ter de se brear, cheirar fralda e examinar cor, textura e quantidade, não tá escrito! rs). 

Quanto ao trabalho, dá mesmo. Nada absurdo ou que nos roube longas horas do dia, mas é muito mais fácil jogar a fralda fora do que ter que lavar. Também é muito mais fácil usar copinho e canudo descartáveis do que carregá-los na bolsa e ter que lavá-los diariamente; é mais fácil comer congelado do que fazer o próprio alimento; é mais fácil fechar os olhos para a origem muitas vezes obscuras das coisas que consumimos; é mais fácil comprar na loja da moda que mantém, ano após ano, trabalhadores em condição de escravos; é mais fácil não se importar com uma injustiça, desde que ela não respingue em nós, do que lutar por um mundo melhor e mais justo; é mais fácil não abrir mão dos privilégios com os quais historicamente somos beneficiados… Mas não é isso que eu quero ensinar pro meu filho. Não é essa pessoa que eu quero ser pra ele e nem a pessoa que eu quero que ele seja para o mundo. Ser bom dá trabalho, mas continua sendo a minha escolha diária. 

WhatsApp Image 2020-06-15 at 17.19.06

Imagem do Tom (arquivo pessoal)

Sugestões de músicas: – Sal da Terra (Beto Guedes) 

Sugestões de ig (fraldas): – Nós e o Davi – Jardim da Helô – Lojinha da Eloá 

Doença em meio a uma pandemia – amamentação

Por Lara Leôncio.

Hoje quero compartilhar sobre dores em um momento de crise. Nesse momento que estamos passando tudo fica mais delicado, principalmente para novas mamães como eu, e que vivo da arte. É a incerteza do pão de cada dia, é o medo de pegar alguma doença e não ter onde pedir socorro, é não saber como vai ficar o futuro.

Aqui tudo tranquilo, na medida do possível, Íris Luz crescendo saudável, sanidade mental ok, estudando maneiras de se reinventar, para que a questão financeira não esteja tão ruim quando tudo voltar, confinamento cada dia mais apertado, cuidados excessivos com a limpeza e sem esquecer das águas paradas, sim porque o mosquito não quer saber onde a gente está, ele chega. Pois é, um veio até mim. Todo cuidado não serve de nada quando a sua vizinhança não tem esse cuidado. E se você acha que ter dengue é ruim, você não tem ideia de como é ter Dengue com uma filha de 3 meses que precisa do seu leite para se alimentar, no meio de uma pandemia em que todos os postos estão lotados com uma doença que não pode ver ninguém com a imunidade baixa que ataca.

Dia 25 de abril comecei a ter febre alta, ela oscilava de 38.0 até 39.7, então começaram os medos, será covid 19?, ou será outra doença?, será dengue? Observa todos os sintomas, nada de gripe, mas muita dor no corpo, vermelhidão na pele, febre alta, fraqueza, sim é dengue. Graças às Deusas e Deuses! Graças às Deusas e Deuses? Mas dengue também não mata? dengue também não é ruim? É, a dengue também mata, mas não contamina quem eu mais amo. Minha família não estava correndo risco de contágio, só agora redobrar os cuidados com os mosquitos.

Passou sábado, domingo, segunda e a febre não baixava, decidimos que eu precisava ir ao médico. Rede pública de saúde. Um pavor. Mas era necessário, pois como disse, a dengue também mata. Todos os cuidados triplicados. Fiz os exames e na medida do possível tudo tranquilo, febre baixando e plaquetas não tão ruins. Até ai tudo ia conforme o esperado.

O inesperado acontece na terça-feira no 4º dia da doença, eu começo a não produzir leite o suficiente, na verdade quase não sentia o meu seio encher, por conta da dengue estava com alto grau de desidratação e por indicação médica precisava tomar 5 litros de líquido por dia, a partir desse momento começou o desespero, “nunca pensei que poderia acontecer isso, logo eu que não tive problema nenhum com a amamentação”, “como pode até semana passada estava doando leite para um banco de leite de uma maternidade e hoje não tenho pra alimentar minha filha”.

Nunca pensei que escutar a minha filha chorar por não conseguir mamar seria tão enlouquecedor, ela chorava, e eu chorava. Ela sugava com toda a força e eu massageando e mesmo assim não era suficiente e vinha o choro até adormecer. É desesperador saber que sua filha tá chorando de fome e você não tá conseguindo alimentá-la.

Logo quando ela adormecia começava a luta incessante para tirar pelo menos 50 ml de leite materno para quando ela acordar ter alguma coisa pra ela tomar e nada, quando muito tirava 20ml, logo eu que estava tirando 150ml diário só para armazenar para doação sem sentir nenhuma falta.

Liguei para a farmácia e pedi um leite de fórmula, nesse momento meu mundo caiu, me senti incapaz de fazer o que mais estou amando fazer que é alimentar minha filha com meu corpo. Tentava me conformar dizendo é o melhor pra ela, e ao mesmo tempo me perguntava, será que ela vai querer novamente meu leite?, será que meu leite vai voltar? Quando o leite chegou e ela não quis e a preocupação só aumentava, pois ela não se alimentava eu fazendo o que eu podia pra poder produzir leite 5,6,10 litros de água, chás, garapa de rapadura e tudo mais que me ensinavam e nada. Eu só chorava, liguei pras amigas, desabafei com o meu esposo, minha mãe. E a Íris Luz não desistia, queria ir para o peito, ficava bem suada tentando mamar, mesmo saindo bem pouco, ela no meu seio fazendo tudo que podia olhando pra mim e alisando meu rosto como quem dissesse “calma vai dar tudo certo”. O sorriso tímido do canto da boca me dava forças pra não desistir.

Desabafando com uma tia minha ela me indicou um remédio que ajudava a produção de oxitocina, que é o hormônio que produz o leite. Meu esposo foi logo na farmácia e comprou esse medicamente, começo a usar. Mas ainda nada. Ela direto no meu seio fazendo tudo que podia e eu no remédio, líquido, massagens, compressas, desmamadeira…

Chegou a noite de quinta-feira, já estávamos sofrendo com isso há dois dias, Íris Luz morrendo de fome tomou 100ml de leite de fórmula. Nesse momento um misto de alívio por saber que ela tava alimentada e medo dela não querer mais o meu leite. Então tomei um banho me deitei e dormi, estava exausta.

4:40 da manhã acordo com aquela voizinha me chamando, quando percebo que estava com o seio cheio, dei de mamar, ela olhava pra mim como quem dissesse “eu te disse” e o sorriso tímido no canto da boca continuava lá me dando força pra continuar. Então foi voltando aos poucos, tinha momento que precisava da ajuda da fórmula, mas isso foi só durante um dia ou dois dias e depois não precisei mais.

Esse meu relato não fala sobre usar ou não usar o leite de fórmula, acredito que cada mãe faz a melhor escolha para o seu bebê e para ela, a questão vai muito além disso, nesses dias de desespero vi que nunca mais vou estar só, que nunca vou desistir se for por ela, e que juntas vamos passar por muitas dificuldades e aprender muitas coisas. É saber que sempre vou ter alguém pra me dar força e acreditar que vamos conseguir.

Vamos passar por isso juntas.

WhatsApp Image 2020-06-06 at 22.01.12

Íris Luz sendo amamentada.

Surpresa alheia, certeza nossa.

Por Roberta Bonfim.

Começo este texto reafirmando que amo ser mãe, mais que isso, amo ser mãe da minha filha, me preparei para ser mãe dela. Escolhi ser mãe da Ana Luna,  e quando falo escolhi, é por que escolhi mesmo. Eu queria ser mãe da Ana Luna, comecei a conversar com ela uns muitos anos antes, mas tomei a decisão aos 27 anos, quando não morri, ao contrário do que eu pretensiosamente acreditava que aconteceria, mas ganhei Luiz Namir como afilhado, o que me deixou mais bamba do que quando descobri que estava grávida. E também aos 27  fiz uma cirurgia no joelho, que me rendeu meses sozinha comigo mesma, um treinamento intensivo para o momento que vivemos hoje e sou grata ao universo por cada etapa vivida até aqui. 

WhatsApp Image 2020-06-01 at 18.45.43

WhatsApp Image 2020-06-01 at 18.46.59

Arquivo pessoal. Eu e Namir.

O fato é que aos 27 anos, quando me percebi viva, revisitei meus diários e chorei com feridas que eu naquele momento decidi curar, mas não sabia exatamente como isso aconteceria, assim escrevi um livro, chamado Flagra, onde eu falava sobre a mulher que eu seria na próxima etapa e para ela existir era preciso dizer adeus a alguns padrões e situações e também a algumas pessoas, e eu disse. Me piquei pro Rio de Janeiro, onde morei no cortiço, lugar de muito afeto vivido, e onde passei por catarses fundamentais. Curei em mim a relação com os meus pais, acompanhando a vida de um casal com seu filho. Julinha que depois nos escolhemos como irmãs a quem desejo ter na minha vida para sempre, me ajudou a entender outros prismas da maternidade, especialmente quando vem cedo. Eu felizmente fui mãe velha. Sempre serei grata a ela por me ter dado a oportunidade de amar e ser amada por Davi e Vitória.

WhatsApp Image 2020-06-01 at 18.47.40

Arquivo pessoal. Eu, Davi e Vitória.

Por que falar sobre esse passado? Porque há uma repetição em forma de elogio, que estranhamente me incomoda, eu me calo para não criar caso, mas verdadeiramente me incomoda e deixa claro o quanto os que falam me conhecem pouco. A afirmativa supostamente elogiosa é: 

“Que linda surpresa que você seja essa super mãe, que abre mão das saídas e  afins, em amor a sua filha.”

Bem, retorno ao fato de que escolhi ser mãe e sabia lá atrás que isso me ia exigir mudanças, mais uma vez seria necessário dizer adeus a algumas coisas e pessoas, até logo a outras e existiriam outras que eu teria de aceitar para caber melhor no pacote, as que tive de aceitar, em sua maioria, já voltei atrás, não sou do tipo que se obriga a fazer ou deixar de fazer algo só porque tem quê. Na real, acho cansativo o tem quê. De modo que sou a mãe que consigo ser, a que posso, a que sou. Não sou super, não sou nada que não seja ser a mãe que sou, a única que sei ser. E não me sinto minimamente qualquer coisa por abrir mão de viver outras coisas, para simplesmente curtir o amor da minha filha e isso não me surpreende porque muitas vezes fiz isso para curtir o amor de Namir, ou de Davi e Vitória. Antes de me tornar mãe, me treinei bem como rede de apoio, pois realmente acredito que somos todos seres sociais e claro que minha filha é responsabilidade minha, não me nego a nenhuma, mas é também responsabilidade sua, se por ventura cruzar com ela, e isso serve para ela, ou para qualquer criança no mundo, se houver algo que possamos fazer para colaborar com o melhor desenvolvimento deste ser, façamos, o universo nos agradece. 

Quanto ao meu incômodo, vem em parte dessas verdades que criam sobre nós, sobre o como pensam que somos, sem sequer dar espaço para saber como se é. E se você que me lê neste momento também se surpreende com a mãe que sou, pergunte-se se isso realmente tem a ver comigo, ou com o como você vê a maternidade. É que pra mim a maternidade é um lugar de vento leve, de sorrisos e gargalhadas, de amor e carinho, a maternidade nunca me chegou como um peso, mesmo nas noites insones. O que às vezes me tira do centro são os outros, as inúmeras opiniões, caminhos, verdades, como se o ser humano tivesse uma bula e seguisse os mesmos padrões. Aqui em casa não temos bula, sou um ser transitório, gêmeos com ascendente em gêmeos, mãe de uma criança incrivelmente maravilhosa e todos em os instantes nos ajustamos. 

Há momentos em que a vida é uma brincadeira e a há outros em que falo grosso e baixo, uso o cantinho do pensamento, deixo ela berrando e venho pro meu quarto, só por não tá dando conta da cena dela, que ama  plateia e sem a mesma logo para. Aqui todos os dias aprendemos uma com a outra os melhores caminhos na construção da nossa relação e quando não faço a menor ideia do que fazer peço que ela me abrace, assim ganhamos tempo, ou mudamos o foco. 

Estamos há muitos dias em casa, só nós duas e a Clarice Lispector, e se não fosse o fato de estarmos empoleirados e com pouca privacidade, o que só vim perceber depois de mais de um mês de isolamento eu diria que nunca estivemos tão bem. Estamos nos curtindo e nos percebendo no dia a dia, ela cresce a olhos vistos e eu me apaixono mais a cada dia. Há dias como hoje em que ela fica bem dengosa e de certo se eu precisasse sair seria um dia de muito choro, mas como estamos aqui aproveitamos para chamegar dobrado, assistir filme agarradinhas, comendo pipoca sem sal. Do sal eu sinto falta. Sentimos falta também da praia, mas brincamos de faz de conta aos sábados e fazemos um grande fole na varanda, com direito a banho de balde, frutas pra ela e cerveja gelada pra mim, com música boa, hidratação nos cabelos, gargalhadas e a reafirmação do nosso amor e da nossa escolha por sermos mãe e filha. 

Arquivo pessoal. Eu e Ana Luna.

Passeio na garupa do unicórnio

Por Mari Trotta.

A palavra mãe convoca corações, figurinhas de amor, romantismo virtual. O cenário romântico criado na maternidade sufoca, dificulta soltar o ar, ou melhor, soltar o verbo. Mandar a real.
A humanidade se preserva em chavões, a quarentena fica linda, uma oportunidade de ler, de estar presente, de cozinhar. Nunca gostei de ver fotos de pratos de comida, que indigestão, vão se propagando indiscriminadamente nas redes.
Olho de rabo de olho, passo rápido, enjoo social.
Depois de dois meses os clichês esvaziam, só dizer amei com emoji não diz mais nada, criam nova figurinha, diz força, mas continua o coração, alguém que segura um coração. Quem é esse sujeito indeterminado que tem como missão suportar o peso do coração? É uma sujeita, mãe, sujeita a esquecer de si para cuidar.
Dormi e acordei chorando muito estes dias. Reli o blog que escrevi, “Na espera de um novo amor”, enquanto esperava na fila da adoção. Vi cada post da espera, da chegada e do cotidiano que deflagrava as descobertas da minha filha no mundão. Eu tinha matéria para um poema por dia. Não porque a vida era linda, mas era ação no mundo. Instantes de dilatação, pupila crescida, nova observação.
Criei uma mãe em mim, desde sempre, que conhecia o limite de estar exposta à maternidade. Preciso de mim. Sozinha. Criando meus imaginários e devaneios. Achei bastante tempo comigo. Mesmo maternando em viagens de trabalho ou de passeio, sim eu viajava sozinha sendo mãe, dormindo, no trabalho, no samba, eu delimitava o estar presente sempre. Escolha que fiz por uma boa relação. Funcionava.
Congela a vida externa. A vida é a casa. Tudo cresce nos mínimos detalhes da percepção. O corpo da cria, as frustrações, a impossibilidade de se ter o que se quer.
Confinadas. Totalmente expostas uma a outra.
Tudo aflorou rapidamente como a natureza se reconstitui veloz sem a presença humana. A culpa materna cresceu junto com o pé dela. A televisão ficou permitida. A comida é a que se dá para fazer. Dar atenção é tudo que não quero. Brincar o tempo todo é trabalho doloroso.
Faz de conta que eu sou uma mulher maravilha e que tenho super poderes para dar conta de você, de mim, da casa, do trabalho, das minhas alunas e alunos, do meu companheiro, das minhas amigas que estão surtando como eu, da política perversa, da universidade pública ameaçada, da tristeza de ser humana hoje, do medo de ficar doente, de ficarmos, ao invés de totalmente expostas, isoladas. Dor dilacerante é não ter matéria para fazer de conta.
Respira. Pausa. Lembrei que fui criança. E olhei para mim menina. Bem pequena. Resgatei. Peguei no colo. Entendi, à força, ser mãe me mostra caminhos de mim. Cuidar de mim como cuido da minha filha. Mudei. Falo comigo com muita paciência, me faço carinho, me alimento, me coloco para dormir, demoro no banho, danço na sala. Canto.
Criei um manifesto para me salvar. Fica decretado que as mães devem se priorizar, cuidar de si como cuidam de suas crias, lutar (não somente pelo facebook) por um mundo em que nenhuma criança precise se isolar das outras para salvar vidas, que a vida familiar burguesa se transforme em vida em aldeia, aonde todos os cuidados das crianças sejam feitos pela comunidade e não só pelo pequeno núcleo familiar. Decreto, também, que quando o vírus acabar, vamos desligar as telas dos celulares e computadores, para reconstruir a sociedade em que as nossas crias fazem de conta estar. Por fim, decreto que são obrigatórios os passeios de unicórnios na garupa das crianças para as mães poderem relaxar e quem sabe ler um livro na quarentena.

Imagem para o Texto

Imagem de arquivo pessoal.

O começo de muitas escolhas. (Relato de Parto da Íris Luz)

Por Lara Leôncio.

Chegamos ao Hospital São Camilo Cura D’ars no dia 12 de janeiro de 2020, um domingo, às 14:30, completando 41 semanas de gestação. Não levava nada da Íris Luz e nem meu, pois não estava querendo ficar, já que não estava sentindo nada, nenhuma contração, nem nada. Mas precisávamos saber se estava tudo bem, só isso.

Quando chegamos lá o doutor que estava de plantão ficou logo muito preocupado com a saúde da Íris Luz, pois soube que eu havia tido Toxoplasmose durante a gestação (uma doença que é passada por gato e que pode ter sérios problemas nos bebês) e não tinha sido acompanhado por uma maternidade e sim por um posto de saúde da rede pública, da forma que ele falou me senti a pessoa mais irresponsável do mundo, “como podia não ter tido esse acompanhamento? Por que fiz isso com a minha filha?” me fiz logo essas perguntas, e logo me respondi “ninguém me disse o que fazer, não sabia.” então ele deu a sugestão de ficar interna e fazer um parto induzido. Na hora a minha reação foi de desespero. Olhava para o meu esposo pedindo um conselho e ele segurava a minha mão, queria ir embora, tinha me preparado durante os nove meses para sentir as dores do parto, sonhei nove meses cada minuto desse momento e nos meus sonhos não tinha nada disso que estava acontecendo. O médico olhava pra mim e para o meu esposo e dizia “vocês têm que escolher, a vida da filha de vocês depende dessa escolha.” Escutar isso só piorava, até que decidimos juntos, “vamos ficar internos”. Sempre com as mãos dadas.

Pronto, tudo certo, “não tem como esperar o início do parto natural”, comecei a me conformar com a decisão, “porém vai ser induzido, ainda tudo ok para o parto “normal”. Tudo tranquilo, também estudei muito sobre o parto induzido, até que às 20:00 horas chega a notícia que ia ter que ser cesariana, na hora me deu um nervoso, uma angústia, um medo, e via o meu sonho de ser parto natural indo por água abaixo, queria ir embora, olhei com cara de choro para o Klebson e ele olhou pra mim e disse: “o mais importante é a vida da nossa filha, é ela nascer bem”, parece que nessa hora veio uma injeção de coragem. Antes de dá o último ok precisava saber o real motivo, então a enfermeira leu o laudo: “A ultrassom mostra que a criança tem o peso de 4kg e 150g e não pode ser realizado o parto induzido com o peso acima de 4 quilos, pois a criança pode entrar em sofrimento mais rápido e prejudicar sua saúde.” Tudo explicado, ok, mais uma decisão tomada. A cesariana foi marcada para 8:00 horas da manhã do dia seguinte.

Passamos a noite na enfermaria onde tinha muitos leitos com mulheres dando a luz e eu sentindo a minha Luz se mexendo na ansiedade de estar nos nossos braços. O Klebson olhava pra mim assustado com os sons animalescos de partos que aconteciam e eu no misto de ansiedade, medo da cirurgia, frustração por não estar em trabalho de parto e feliz por que sabia que faltava pouco para conhecer o nosso grande amor.

Pela manhã fui para o centro cirúrgico, o nervosismo era grande, a ansiedade de conhecer a Íris Luz era incontrolável, não queria ficar longe do Klebson nem um momento, ele sempre sendo minha fortaleza. Todos os procedimentos aconteciam como se eu visse de fora do meu corpo, anestesia, testes e eu sempre esperando o Klebson entrar na sala para mais uma vez segurar a minha mão, que nesse momento estava muito gelada, até que escuto o médico falar “pode chamar o marido dela, já vamos começar a cirurgia”, ele entra e meu coração acalma.

Às 8:45 minutos um choro ecoa na sala, Íris Luz Leôncio Oliveira nasceu pesando 4 kg e 74g e com 52cm de comprimento, e a chuva que sempre me acompanha e não tinha aparecido ainda, apareceu, dessa vez pelos olhos da mãe e do pai que nascia naquele momento. Escuto o médico, “que menina linda, parabéns mamãe e papai, ela já veio com os olhos abertos para poder conhecer vocês.” o meu olhar correu por todo o corpinho perfeito dela, cabeça, olhos, nariz, boca, ouvidos, barriguinha, dois braços, duas perninhas, pés, mãos, dedos… não podia ser mais perfeita. O papai logo viu “ela veio com um dedinho a mais, como eu.” sim é a mistura mais perfeita de dois corações. Não vou mentir, nesse momento a sensação era de alívio, conseguimos, ela veio para meu colo, mas era tanta coisa que passava dentro de mim que não a minha reação foi… olhar se tá tudo bem e pedir para entregar ao pai. Os olhos do Klebson transbordava o sorriso. Ele saiu com ela para poder finalizar a cirurgia, o que aconteceu depois foi em um piscar de olhos, perdi um pouco a dimensão de tempo, só tinha a certeza que tava tudo bem.

Na sala do pós-cirúrgico a Íris veio para os meus braços, nesse momento era só eu e ela e as lágrimas que corriam no meu rosto, dessa vez de puro amor, não tinha mais ninguém ali. Ela veio direto para meu seio e mais uma sensação maravilhosa começava a aparecer. Comecei a alimentá-la com o que meu corpo estava produzindo de melhor. Esse foi o momento mais lindo de todo o parto, falei tudo que queria dizer, olhando pra ela e ela mamando e olhando pra mim, como quem já entendesse tudo e dissesse “tá tudo bem mãe, estamos juntas”. Não sentir dores, só senti amor.

Como pode um ser que chegou agora, já me ensinar tanto? As vezes planejamos tudo, pensamos que sabemos de todos os passos, estudamos todas as possibilidades, e vem um serzinho de luz e mostra que nada está no nosso controle, porém que precisamos a todo instante tomar decisões e essas decisões vão estar presentes em toda a nossa vida. Ela me mostrou que o instinto materno existe e que pro resto da vida ele vai nos conduzir e que cada dia vamos ter milhares de escolhas, umas vão ser mais fáceis, outras nem tanto, mas todas tomadas com muito amor.

Culpa de mãe

Por Janira Alencar.

10 de maio de 2020. Dia da Mães, o primeiro. Embora tenha total consciência do apelo
capitalista da data (não à toa, em tempos de pandemia o comércio propôs adiar a comemoração para julho), não sou pessoa de desperdiçar possibilidades de encontro, de troca de afetos, de bons momentos com os meus e de um bom comes e bebes. Também não jogo fora a chance de agradar minha mãe e exibir formalmente meu amor e gratidão por tudo o que ela sempre foi para nós, seus filhos.
Este ano, em que eu cruzei o lado da linha, estava com mil expectativas de celebração: antevi minha mãe e o Tom comigo, na clássica foto do encontro de gerações; vislumbrei as felicitações e surpresas que agora se estenderiam a mim; desejei a tradicional comidinha do seu Nonato, meu pai. Mais uma vez, o dia de hoje veio me mostrar que nós não definimos nada, tudo foge ao nosso controle em se tratando de maternidade.
Ao saber da gravidez, como creio ser comum a todas as mulheres, fiz mil planos, idealizando o tipo de parto e de criação que penso pro Tom. Já de cara, uma pequena alteração na placenta alterou meus planos, impondo-me uma cesárea antecipada e me mostrando que quem manda nessas coisas não é a gente, não. Ao fim do primeiro mês do Tom, instalou-se a quarentena, tirando da nossa rotina o convívio (e o suporte) dos familiares. O cansaço das noites sem dormir e dos afazeres domésticos, a dor dos peitos dilacerados das mamadas e a fragilidade emocional do combo puerpério + quarentena resultaram na quebra de mais uma idealização materna: introduzi a famigerada chupeta na vida do Tom.
Essas situações simples, que deveriam ser não mais que cotidianas da vida materna, tornam-se gatilho de um sentimento de culpa devastador! Se já é difícil lidar com as cobranças que nos são feitas a partir do momento em que uma gravidez é anunciada, muito pior é quando somos nós os algozes de nós mesmas. E como isso acontece! Parece que essa culpa entra na gente junto com o bebê; é, assim como ele, alimentada pelo nosso corpo, de onde não sai nunca mais, faz morada.
Como é possível querermos ser tão humanas, complacentes e compreensivas com nossos
filhos e não estendermos isso a nós mesmas? Reconhecer-se falível, mais que difícil, é libertador e necessário. O maior ensinamento que a maternidade tem me trazido é que não adianta planejar, o curso da vida segue por rumo próprio, sem que possamos segurá-lo – o que não quer dizer que é menos certo ou menos bom; entender que temos um limite e que se não estivermos bem nossos filhos dificilmente estarão (eu penso sempre na orientação de voo, de que devemos primeiro colocar a máscara de oxigênio em nós mesmos, para depois ajudar a colocá-la nos outros).
Feliz dia a todas que já conseguem buscar ser e dar o melhor, sem no entanto pautar-se em uma perfeição inatingível.
Feliz dia a todas que ainda precisam de muito abraço e diálogo para libertar-se da culpa da imperfeição.
Feliz dia pra quem enfrentou a dor de um parto normal ou o corte de uma cesárea.
Feliz dia pra quem seguiu firme no propósito de amamentar e pra quem não conseguiu ou não pôde, mas alimenta o filho com igual amor e devoção.
Feliz dia pra quem enfrenta diariamente a dor de sair pra trabalhar e pra quem parou o
trabalho pra viver integralmente a maternidade.
Feliz dia pra quem tem rede de apoio e pra quem encara sozinha a missão de criar um filho.
Feliz dia a todxs que de alguma forma exercem a maternagem, como der ou puder ou quiser.

Sugestões de músicas:
– Mamãe coragem (Gal)
– Só as mães são felizes (Cazuza)
Sugestões de filme:
– Que horas ela volta?
– Zuzu Angel
(Ambos nacionais e que tratam da força do amor de mãe)

Uma carta para o futuro

Por Roberta Bonfim.

Escrever uma vez por mês é mais difícil que todos os dias, pelo menos quando o tema é esse lugar de mãe que sou. Tenho tanto que gostaria de compartilhar, esses dias mesmo me peguei conversando com o amigo Filipi Abdalla, nosso parceiro na Lugar ArteVistas e pai de uma menina linda, sobre a inclusão alimentar, suas dificuldades e maravilhas e a força do exemplo que somos. E compartilhei com ele livros e dicas, em especial o BLW, cortes que dão à criança mais autonomia e lhes possibilita conhecer e distinguir os sabores, pelo palato, mas também pela textura. Não somos borboletas que sentimos o sabor pelas patas, mas se a criança gostar da textura possivelmente terá curiosidade de conhecer o sabor.

Ana Luna menor comendo e Ana Luna hoje comendo.

Mas, estamos em meio a um pandemia e isso não pode passar batido na relação com as crias, passar inúmeros dias em casa sem espaço para correr, ou respirar o maravilhoso ar livre, já pensei em descer às 4 da manhã com Ana Luna, para ela correr na praia, mas penso na parada do exemplo, e opto por ficarmos em casa, quietas e resguardadas. Todos os dias é necessário uma faxina na casa inteira e isso está acabando com a minha coluna e meus pés estão cansados de quase 16 horas em pé todos os dias, o joelho reclama do senta e levanta, no chão. Meus ouvidos já se adaptaram aos gritos, mas ainda me pego pensando nos vizinhos e seus comentários maldosos. Se eu disser que tá fácil, estou mentindo, mas tá bom. Estamos com saúde, eu com uma crise de sinusite que me tirou momentaneamente o prazer do olfato, lado positivo é que não tenho sentindo o fedor do coco de Ana Luna.

WhatsApp Image 2020-05-03 at 15.43.27

Eu e Ana Luna.

Mas, também não é sobre isso. O que eu queria mesmo é a capacidade de me conectar com a Roberta que serei após isso tudo e gostaria que ela me escrevesse uma carta de Dia das mães, onde ela começaria  dizendo:

Oi Querida eu. Como estás? Sei que os dias estão longos, que há momentos em que você pensa que não vai dar conta de casa, trabalho, filha, gata, os conflitos existenciais, os sonhos simbólicos, as provações, os conflitos internos que exigem resoluções imediatas, a criatividade para manter Ana Luna feliz e leve, apesar do medo de que algo de não bom aconteça. Vim para te dizer minha querida que sobreviveremos e sairemos transformadas e fortalecidas. Quero te parabenizar, pois Ana Luna nem percebeu que havia fora de casa uma pandemia que matou tantos de nós. Na realidade quando ela lembra dos dias em casa, só lembra que comeu comidinha da mamãe, com a mamãe, que dançou forró ao som de Luiz Gonzaga bem alto, e também dançou reggae e aprendeu seus primeiros passos de ballet. Ela lembra  das histórias, dos livros, das risadas e do terror de pentear os cabelos, e lembra também das paredes pintadas de todas as cores e que nós imitamos bichos, personagens e cantávamos sempre que ela pedia música. Ela lembra também que mexia no celular quando ligava para a Vovozinha Hedelitinha e que gostava de ver Salomão, Namir, João e Tomás  pelo vídeo. E sempre me pergunta quando vamos passar, de novo tanto tempo só nós duas, eu respondo que possivelmente nunca mais, mas que sempre poderemos fugir vez em quando para lugares do País, que você prometeu que a levaria, ela cobra conhecer todo país, eu gosto, pois a realidade é que sempre gostamos muito de viajar e ela como você bem sabe é uma excelente companhia. Outra coisa que ela pede e que se bem me lembro começamos a oferecer neste momento de “isolamento” social, é o brigadeiro de abacate com banana e cacau. E ela mesma já faz o brigadeiro para gente aos domingos antes de assistirmos ao nosso filme, tradição que vocês desenvolveu e que serei sempre grata, pois amamos. Duas bananas médias bem maduras, meio abacate, também bem maduro e uma colher de cacau em pó, mistura faz as bolinhas e leva ao congelador. Por outro lado ela não quer ver bolo de banana nem com cobertura de chantilly, acho que exagerou na dose dessa iguaria.

É querida, quem pensou que o coral da igreja, a banda de forró da escola e o vilão com Roupa Nova, na ponte velha renderia tanta cantoria, hoje ainda canto, estou até pensando em gravar um CD na Varanda Criativa, só de curtição para que nossos netos, sobrinhos e afilhados possam ouvir o repertório vasto que trocamos com Ana Luna. E preciso agradecer você por ser a mãe que és, que não é diferente da que somos.  Saímos mais fortes em nosso amor, nas nossas crenças e fomos o exemplo que este serzinho que nos chama de Mamãe precisava. Não se culpe pelos momentos de cansaço, eles existiram e continuam existindo mesmo depois da pandemia. Sim, preciso te dizer que deu certo seu plano de um final de semana sem filha, e que ele também nos fez muito bem, para ela porque amou ficar com avó, tios e tias e pra nós que batemos papo com os amigos, e deixa eu te dizer, acho que você, digo, eu. Tá. Nós estamos de paquerinha, mas não vou te falar mais pois vira spoiler.

Feliz Dia das Mães, feliz vida de Mãe a nós e a todas as mulheres que escolheram ser as melhores mães que podem na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, por todos os dias de nossas vidas. Vida longa e repleta de amor.

Feliz Vida trabalhosa e deliciosa de ser a Mãe que conseguimos ser!