Pra começar

Por Roberta Bonfim

Ser a mãe que sou é meu exercício diário e permanente, e isso por vezes me exige olhar pra dentro e mergulhar em profundezas de mim, e me curar ou pelo menos aceitar que há ali questões que precisam ser melhor trabalhadas, para que eu me mantenha o mais próximo possível do ser humano que desejo, e me trabalho para ser, sem qualquer pretensão de perfeito, só desejo deixar vir à tona o ser humano que sou, sem as amarras e barreiras imaginárias. Desejo cumprir meu papel de ponte, de passante e de absolutamente responsável pela minha existência e as escolhas que faço. Estamos a todo instante fazendo escolhas e é preciso se ter consciência disso, para aprendermos a assumirmos as responsabilidades decorrentes de nossas escolhas. Já deu da cultura em que encontramos o culpado, e nos vestimos de vítima, não cabe mais, assim penso. Por outro lado não tenho qualquer interesse de convencer ninguém de nada, apenas e simplesmente busco os melhores caminhos para eu existir o mais próximo que consigo de mim e respeitando as etapas.

Quantos somos capazes de ser no decorrer de nossas vidas? Tenho refletido bastante sobre esse lugar de ser, mas também e especialmente de estar, aceitando a transitoriedade da vida e como ser a melhor mãe que posso ser, sem deixar de ser quem sou, para além da inquisição que existe sobre a mulher mãe, que nunca mais lhe é dado o direito de sair sem seu tamagotchi. Se você é mãe e se aventura a viver sua vida, escute algumas vezes no dia a pergunta: E a filha onde está? Ou cadê a neném? Isso por vezes antes do educado, boa tarde, ou boa noite. Desde que minha filha nasceu, eu exercito a empatia para compreensão da extrema empatia que a criança gera.

Mas, como eis aqui o primeiro texto deste ano de 2021, e eu o escrevo exatamente no dia primeiro, vou me ambientar. Estamos eu e minha cria na casa de Lorena e Jether, com Katiana e Suzy, Ana Luna tá lá fora com esse povo todo enquanto escrevo para este blog coisas sobre esse lugar de ser a A Mãe que Sou, por ser a única que posso ser. E ser a mãe que sou passa por esse lugar de não abrir mão de mim e de compartilhar com o contexto verdadeiramente. Sou mãe solo, mas felizmente vivemos em sociedade e vamos encontrando nossos bandos. 

Ontem quando o relógio marcou meia noite, minha filha dormia lindamente no colchão muito bem preparado pelos tios. enquanto a mãe estourava espumante e misturava com um bom gin, bebida que conheci verdadeiramente ontem. Bebi, sorri, agradeci, celebrei mais um ano e pedi bênçãos ao que cá estamos para construir. Fui dormir às 3h 40 min, e às 4h e 30 min Ana Luna acordou. Eu que jã saio de ecasa com a cesta de brinquedos e livros me pus a lutar contra os olhos que fechavam e contava a história dos três porquinhos pela terceira vez entrando em cochilos interrompidos, por um – “e aí mãe o lobo, so…” 

E espera eu completar, garantindo fisgar a atenção desta mãe que vos escreve ainda com cara de ontem e com o mesmo pijama. Brincamos, comemos, e eu experimentei oferecer a ela leite de amêndoas com toddy e a garota amou e eu com sono oferecido na mamadeira e ela meio estranhando não ser no copo, tomou no ritmo de quem bebe no copo, aos poucos, deliciando-se. Acho bonito esse paladar dela. Acho ela toda muito maravilhosa e sou muito grata por ser a mãe da minha filha e poder compartilhar vida com ela.

Aproveito este texto para falar sobre algo que precisamos falar, e é urgente. Precisamos falar sobre desrespeito e maldade, precisamos falar e entender a gravidade da pedofilia, do tamanho da agessão e dos pessos ancestrais que isso tras. 

E declaro meus mais profundos sentimentos a Danuza Pimentel e Marcelus Rena, pela perda da filha tão querida que vocês trouxeram ao mundo. N”ao consigo mensurar o tamanho da dor de vocês, mas deixo meus abraços e desejos de que saibam transformar essa dor em amor e luta por respeito e pela prisão imediata ao ser que cometer pedofilia. Denuncie!

No corpo de uma mulher que foi mutilada virgem

Por Katiana Monteiro

Minha amiga confidente e Dinda de meu Namir, Roberta Bonfim, me desafiou a falar da maternidade. Eu, que no dia 11 de fevereiro de 2021, completo uma década como mãe. 

Até hoje ainda me surpreendo com a indagação. – Eu sou mãe? 

O nome soa tão doce e ao mesmo tempo carrega um peso de chumbo. 

Namir não foi planejado como tudo na minha vida, Mas, por ser contra ao uso da pílula no meu corpo e por ter cedido as vontades de quem me prometia amor. Ele veio, no corpo de uma mulher que foi mutilada virgem, um ovário lhe foi tirado quando tinha apenas 18 anos.  Era eu, ou o ovário. A  vida por um fio.O outro era valente com seus policísticos impetuosos. E, aos 30 me trouxe Namir. 

Juro que quando peguei o exame perdi o chão. Fui tomada por um medo tão grande, afinal apesar de estar na idade da maturidade, eu era ainda meninona no corpo de uma mulher. E pensei, com todos os limites que eu acreditava que meu corpo  tinha, ele  está aqui no ventre, porque era pra ser meu. Encontrei na minha família paterna o alicerce. 

Como é bom ouvir: 

Pode contar comigo. 

Eu

mulher grávida,

 grávida de vida.

Tive a gravidez mais louca e saudável que uma mulher poderia suportar. O abandono, a vida como animadora de um park Aquático, muitos zombavam da palhaça grávida e os puros de coração se encantavam, uma turnê com um espetáculo, dois meses, subindo e descendo avião, de cidade em cidade, uma paixão avassaladora por um carioca. E um segundo abandono. 

Mas a nega aqui, estava firme e forte para dar luz ao seu menino. Que veio de baixo de um dilúvio, o céu de Fortaleza trovoava e o clarão dos raios tomava conta da enfermaria. Nasceu meu Luiz Namir, um ser tão grandioso, de espírito tão sábio que todos os dias me ensina a viver.

Katiana Monteiro – atriz, pedagoga, mãe do Namir e tanto mais.

Por Roberta Bonfim

A maternidade real, não é nem de longe um conto de fadas, há gritos estridentes, privação da plena solidão, nunca mais despreocupação com a vida, inclusive, estar viva , tornou-se meta diária por aqui.

Em tempos de pandemia, tivemos muitas mudanças. Como já sabem voltei a estudar, e tem a Lugar ArteVistas em seus múltiplos lugares, e o Poço da Draga, mas tenho estado mais em casa. Mas, também desmamamos, e estamos firmes nos exercício do desfralde. Tenho tido menos tempo do que gostamos de ter juntas e em atividade, apesar de animada, o corpo às vezes não me obedece e dorme. 

Quem também tem treinado muito o desobedecer é a pequerrucha aqui de casa, testa os caminhos e às vezes minha vontade é mesmo virar e sair, mas ela precisa de mim, então fico. Outras vezes tenho vontade de dar-lhe um bom cascudo. Mas, preciso dela, então respiro. Somos absolutamente necessárias e importantes uma para outra e sabemos disso, cada uma ao seu modo, claro.

Nesses tempos eu voltei a dançar e quando ela tá afim, brincamos de ballet pela sala, outras vezes aproveitamos o look só para uma boa foto e o mais constante é simplesmente dançar outros ritmos. Hoje por exemplo a trilha sonora era uma galinha pintadinha, mas silenciei e joguei algo de Clarice Lispector (Água Viva). Ficou assim:

E como este é meu último texto do ano neste lugar “mãe que sou”, aproveito para desejar a você que me ler amor e saúde.

A distância dos pássaros

Caminho pela praia vazia. Rotina do privilégio de estar vivendo à beira do mar. Os pássaros estão em bandos. Aglomerados e muito sincrônicos. Quando um vai o outro vai atrás. Tento chegar perto. As aves insistem em se distanciar de mim. A justa distância. A que buscamos no distanciamento social.

Alice, temos que manter das pessoas a mesma distância que os pássaros mantêm de nós. Será que podemos?

Acompanhamos a feitura de um ninho no quintal. Parecem meus cachos, mamãe. Viajamos para o Rio para votar. Deixamos nossas expectativas enroladas nos ovos.

Penso muito nos deslocamentos. Dirijo. Lembro que na eleição anterior havia votado na Marielle para vereadora. Sem dúvida, estaria reeleita.

Passo a marcha. Piso no freio. Não tem nada no meu espelho retrovisor. Faço a minha retrospectiva. O assassinato de uma parlamentar em exercício. Começo do abismo. Estrada para o precipício. Fascismo acelerado. País desgovernado. Todas as espécies de vírus na direção.

Carro sem controle. Lembro do velório e do texto que escrevi um dia depois da morte da Marielle: Entre cachos e afagos: a adoção multirracial no Brasil (ler texto na integra em https://naesperadeumnovoamor.wordpress.com/2018/03/16/entre-cachos-e-afagos-a-adocao-multirracial-num-pais-preconceituoso/?fbclid=IwAR24n_cBul-vbIRxKKW1VTUEUjTnyNegR3iwa92O5yWJiu9CJ92OdklyUmE

Fazia dois anos que eu havia virado mãe de uma criança negra.  Escrevi, em 15 de março de 2018:

“Ontem, quando soube do assassinato brutal da vereadora Marielle Franco, que eu votei por representar as mulheres, as negras, as faveladas meu peito ficou destroçado e a minha dor, além de ser humana, é a dor de uma mãe de uma criança negra. Como explicar às nossas filhas e filhos o genocídio negro? Como empoderar a criança e explicar a ela que quando uma mulher negra denuncia a polícia, os abusos e preconceitos de toda parte ela se torna uma grande ameaça e é executada com quatro tiros na cabeça? Alice é uma menina pequena, não entendeu o porquê de eu estar chorando descompensada na sua frente, não entendeu a razão de termos ocupado as ruas do Rio de Janeiro ontem, não entendeu que no caixão que subiu a escadaria da câmara dos vereadores estava uma mulher negra lutadora de 38 anos e mãe. Infelizmente, eu entendi, filha, e como dói pensar que podia ser você e tantas outras.

Fui votar de luto. Broche #Marielle vive. Resultado das urnas. Marielle virou semente. Outras mulheres pretas foram eleitas. Inclusive a viúva da Marielle. As notícias de jornal são insuficientes para me alegrar. Não posso comemorar. Qualquer otimismo hoje para mim é totalmente infundado. O que mudou?

Os bares estavam lotados. A boemia carioca. O fervo. As praças. Saí depois de nove meses do isolamento rigoroso. Eu também queria comemorar. Horas depois fiquei apavorada comigo.

A estrada de volta estava sem saída. Ninguém foi preso por matar. As pessoas morrem das faltas de cuidados. Humanos e sociais. As pessoas negras morrem muito mais. Não de morte natural. Começa uma tempestade com ventos fortes na ponte. Tudo parado. Perigoso. Pensamento positivo. Vem sol e faz um arco-íris. A Alice nunca viu um arco-íris. Olha, filha, ele tem mesmo sete cores. Mãe, ele muda de lugar! Ou somos nós? Otimismo infundado? Piso à fundo. Arrisco andar.

Tiramos as malas do carro. Corremos para o ninho. Tem um passarinho. Frágil. Converso com ele e ele pia. Chove forte. Ninguém dorme. Será que o passarinho aguenta? Ele tem mãe? Mamãe, vamos adotá-lo? Sim. Nome: Maria! Se alimenta de quê? Colocamos comida no ninho? Põe um guarda-chuva na árvore. Vai chover de novo.

Maria está toda molhada. Segura. Ainda despreparada. Amparada. Pergunto sobre sua noite. Pia. Penso algo grande no deslocamento do ninho para a casa. Vou ficar feliz quando a Maria puder voar.

Por Alice e Marielle, hoje e sempre!

‘És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho’

Por: Janira Alencar

Confesso! Tornei-me aquilo que eu mais temia: a mãe que pede, bem clichezona, para o tempo ir devagar. Acho que não tem um filho ou filha de amiga que não tenha sua fotinha estampada nas redes com essa frase-apelo. Sempre que as via, pensava que eu não ia querer segurar o tempo, pois não devia ter beleza maior do que assistir ao crescimento de um filho. Acompanhar cada mudança, cada evolução, cada nova gracinha e registrá-las todas no livro dos dias que são as lembranças de uma mãe. Até hoje, tendo por filhas e filho três ‘caba véi’, minha mãe se regozija recontando as peripécias de suas crianças (no caso nós), sentindo as mesmas emoções e alegria de quando as vivenciou.  

Hoje, embora mais do que nunca siga encantada com as belezuras promovidas pelo tempo no desabrochar de um filho, rogo para que ele vá devagar. Queria poder laçá-lo e mantê-lo às minhas rédeas, soltando-as a meu gosto ou revés. Tivesse eu esse poder, seguraria a minha corda-tempo nas manhãs de sábado, quando Tom acorda parecendo saber que aquele dia é de desfrute. Sempre de bom humor, gastando todo o seu repertório de sapequice, no sábado não há choramingo se o deixo no cercado enquanto preparo o nosso café. O laço da corda também se apertaria quando, depois de desbravar toda a casa, ele resolve que o melhor lugar para recuperar o fôlego é no meu colo, onde pousa poucos minutos, coração sincronizado com o meu, antes de buscar a próxima tomada, chinela ou gaveta de armário.  

O fato é que já se somam 18 meses de minha vida com o Tom; 9 com ele dentro de mim e 9 em que eu sigo dentro dele – corpo que se faz líquido para nutri-lo e inundá-lo de mim. Nesse ínterim, chegaram-se os balbucios e conversas em nenenês, os sorrisos têm a cada dia branqueado-se mais, as comidinhas passaram a ocupar boa tarde de nossa rotina. Vejo meu bebê extrapolar meu colo, mas isso já não é problema, pois ele domina seus movimentos a ponto de arrumar-se como mais confortável lhe parecer. Observo Tom experimentando o mundo e mostrando suas predileções por músicas, cores, sabores e pessoas. Três quartos de ano! Ele já ensaia seus primeiros passos e eu já prevejo os passos futuros: o primeiro aniversário, a chegada à escolinha, o primeiro banho de mar, os lugares aos quais quero ir com ele…   

Na maternidade, os dias passam devagar mas os meses voam! E, sim, dá saudade do que eles eram ontem e de tudo mais que ficou pra trás. Vejo meu bebê grande, ocupando cada vez mais espaço na casa, em nossas vidas e no meu coração, e tudo o que me vem à cabeça ao olhar para ele ou segurá-lo em meus braços é: tempo, vai devagar!

18 meses do Tom: 9 ele dentro de mim, 9 eu dentro dele.

Janira Alencar é Educadora e mãe do Tom, de 9 meses.

A Mãe da Minha Filha

Por Roberta Bonfim

Hoje quando escrevo, é sábado. Eu tenho artigos para escrever, outros para ler, a Lugar ArteVistas – arte onde estiver, se reconfigura em outros lugares lindos, e sendo somado por ArteVistas incríveis. E começo a entender qual o meu papel nesse Lugar, e agradeço.

Quase 20 anos depois retomo para três lugares que abandonei no passado, o sonho da psicologia, as ciências sociais e a dança. E não tenho qualquer dúvida que devo essa apuração de olhar e tomada de partidos a existência da minha filha. Que neste momento adentra o quarto dizendo que quer um colinho e eu até ensaiei dizer que estou ocupada, mas, antes do 3 pedido, já estou com ela no colo, beijando, agarrando e repetindo incansáveis vezes que ela é maravilhosa e que eu a amo. 

Desde que me descobri grávida, me repensei tanto e ouvi incontáveis vezes Flaira Ferro, como mantra e oração. E a quase três anos divido minha vida com Ana Luna, a filha, e como é massa viver ao lado dela, ouvindo-a, vendo crescer, e as novas e inúmeras conquistas diárias. Só nesse semestre tivemos tantos desenvolvimentos incríveis. E quando digo tivemos, é isso mesmo. – E se você é jovem e está lendo este texto, preciso alertá-los que não saberemos de tudo, nunca. Viver é literalmente um eterno aprender. E aqui em casa, nesses últimos 30 meses só aprendemos, muito, o tempo todo. Até Clarice Lispector (a gata) em toda sua elegância, tem tido de se adaptar as nossas novas rotinas que são micro alteradas todos os dias.

Mas não posso e nem desejo negar a relevância primordial da Lugar Artevistas – arte onde estiver, por tanto apreendido e transformado. Quero, ao me perguntarem em qualquer situação quem sou, que eu possa responder que sou uma ArteVista. 

E que ser uma ArteVista no forneça sempre meios de dialogar, de encontrar o lugar de respeito aos diferentes iguais que somos e nos complementamos. E a arte e o amor me salvam, e se me salvam penso que podem gerar alguma coisa no outro e é nisso que acredito, que gera, pega, que planta. Se vai brotar, se ao brotar crescerá são cenas de uma capítulo que ainda desconheço e opto por não pensar, pois o amanhã a Deus pertence. Tornar-me ArteVista é buscar a melhor versão de mim e nessa versão o outra cada vez mais me soma e ensina. Gosto de me ver como ponte.

Isso de ser ponte também rola aqui em casa. Por exemplo, tínhamos nos planejado para caminhos diferentes dos que estamos tomando, e aproveitamos e mudamos muitas coisas, nada mais além de umas poucas roupas ficaram guardadas sem serem usadas. No mais toda energia estagnada tá indo encontrar fluidez em outros cantos. Tirei as portas, a mesa, cadeiras, pufs, tirei caixas de coisas. Energia presa ficou sem vez por aqui e ainda vejo excessos que ilusoriamente cremos serem necessários. Muitas coisas doadas, na realidade quase tudo foi doado, mesmo caixas e quilos de papéis, esses doamos para os catadores de resíduos sólidos.

Cada mudança o nascer de um novo olhar, a certeza de que as coisas podem ter ter seus lugares alterados e nós também. Minha filha observa as mudança de casa com atenção e já começa a dar pitacos. Fizemos colaborativamente, eu, Sr. Roberto e Marlene (a vizinha) um teatrinho de fantoche pra ela com a porta da cozinha e com outra porta a bancada da minha mesa. As plantas que são companheiras faz tempo, estão invadindo a casa e Ana Luna diz que é uma floresta e assim vamos exercitando o cuidado com o que se ama e respeita. E uma vez por semana vivemos a aventura de 1 hora em um parquinho da cidade e quando ela ver as árvores vai abraçar, só para nosso alívio, aprender a ver antes se tem ou não formiga.

 

E com teatro, música, dança, leituras e muito faz de conta, trilhando caminhos, ultrapassando e celebrando fases. Neste último mês por exemplo, contudo, conseguimos encerrar a fase da amamentação e agora já estamos a uma semana usando fralda só pra sair e dormir. Mães passando pelas mesmas coisas e querendo trocar ideia, tamo aqui pra jogo. E a partir de dezembro uma segunda por mês no canal Lugar ArteVistas, papos sobre As Mães que Somos. Chega junto!

Fada do dente

Nunca acreditei em fadas, papai Noel, duendes e em nenhuma espécie de seres mágicos. Até o dia em que eles me salvaram.

            Não me lembro quase nada da minha infância, vivo as memórias construídas observando a minha filha. Faço da minha meninice um espelho da dela, ainda que fragmentado.

            Minha família é de esquerda e socialista. Cresci muito consciente da luta de classe e “dia das crianças”, “dia dos pais”, “dia das mães”, sempre foram dias de consumo exacerbado e muito mal vistos por nós.

            No primeiro “dia das crianças” da minha filha, eu estava batendo perna na rua sozinha e passei na frente de um desses grandes magazines. Entrei com medo, tinha uma pessoa gritando no microfone mensagens de compras para as crianças. Estava trêmula e olhando as prateleiras com atenção. Não vou comprar. Não vou comprar. Não vou comprar. Repetia insistentemente. Ela é pequena, nem sabe o que é “dia das crianças”.

            Vi uma casinha de árvore, de plástico (esse grande mal da humanidade), que tinha um balanço, uns sofás que imitavam madeira. Imaginei minha vida na casinha da árvore. Tudo em miniatura e a Alice é fascinada por miniaturas!

            Comprei! Estava radiante andando com um embrulho enorme pela rua, com o presente que me dei pela primeira vez de “dia das crianças”.

            Obviamente o presente era uma grande decepção, as peças eram frágeis, não se encaixavam perfeitamente, quebraram no primeiro segundo de uso. Minha filha nem ligou. Era eu que queria morar em uma casinha de árvore, em uma fantasia que foi podada, ainda que por uma boa causa. Nunca me vesti de princesa. Ou não me lembro?

            Alguns dias atrás e chegou de novo o doze de outubro. Preparei um café especial para a minha criança e para a da minha filha. Pendurei um unicórnio, que usei na festa dela de 5 anos, fiz uns bolinhos, apelidei de vulcão já que dava para ter uma explosão de doce de leite por dentro. Amor para mim, infelizmente, é açúcar. E comprei mais alguns brinquedos de plástico.

Mas eu estava triste. Sem meu embrulho desfilando pela a rua…

Fiz as contas e percebi que, naquele dia doze, fazia exatos sete meses que a Alice não via e nem interagia com uma criança. Que ela não pode ir mais à escola. Que ela não pode gargalhar à toa com as amiguinhas e amiguinhos. Que ela está tendo que segurar as pontas e tentar ser feliz mesmo assim. Que, embora eu e o pai dela nos empenhamos vinte quatro horas por dia para propiciar a ela boas memórias de infância, a meninice dela estava sendo roubada por um vírus, por governos perversos, por descompromisso com o planeta.

Chorei muito e me engasguei com o bolinho. Tive dificuldade de amassar as embalagens que, uma vez mais, abarrotaram o lixo.

Ao escovar os dentes dela para tirar o excesso de açúcar, vi que um dos seus dentes estava mole, na verdade eram dois dentes moles. Franzi a testa e me preocupei… Deve ser horrível ficar de dente mole e depois para arrancar? Que desespero…

Ela ficou eufórica!!! Saiu gritando ao vento: vou ficar janelinha!!! Vou ficar janelinha!!! E vou ganhar uma moeda da fada do dente!!!

Num passe de mágica, me alegrei! Ela não estava em pânico, ela simplesmente espera uma fada. E mais que isso, ela quer abrir janelas em seu corpo! Tem algo melhor do que abrir espaços internos? Passamos anos na terapia buscando as arestas!

Os dentes ainda estão mais duros do que moles…

Nossas crianças esperam ansiosas o dia em a fada irá chegar! E ela irá chegar!

Filha Mestrinha

Por Roberta Bonfim

Não sei como acontece com as outras mães do mundo, mas a mãe que eu sou entrou em estado especial depois do nascimento de Ana Luna, foram tantas histórias, desde o parto, até os dias de hoje, vez ou outra me pego tendo de ser didática, e as vezes nem tão legal, sobre o óbvio, a educação de um ser, no meu caso, Ana Luna, minha filha. Uma garota incrivelmente maravilhosa, e esperta que pega tudo no ar, e se não, vai no teste para entender qual o limite da brincadeira. Esta é minha menina, que hoje com 33 meses de vida fora de mim, vive ao meu lado a experiência de sermos mestrandas.

Parto do princípio que mãe mestranda, convive com filha mestrinha, aqui em casa é assim, especialmente por que meu campo de estudo é a psicologia, a partir do ambiente e ai tive e tenho de olhar para minha casa, imovel e minha casa corpo, e ver , observar. Mudar detalhes que alteram outros. E aqui nos divertimos em casa e com as casas que somos, de modo a construir esse lugar casa em nós e ele ser, em qualquer lugar. É que como somos nossos lares… Papo para um outro texto. 

Trabalhei até uma semana antes de Ana Luna nascer e voltei a labuta com menos de dois meses, se é que em algum momento de fato parei, até hoje lembro da força da luz do celular sobre meus olhos quando ao tempo que tentava colocar a filha pra dormir eu respondia questões por ali. Hoje, evito a todo custo dividir meu tempo com a filha, na relação com o celular, só me permito quebrar essa regra em dias de brincar com os filtros do instagram, o que normalmente acontece aos domingos. 

Domingo que é o nosso dia, aquele dia em que fazemos só o que queremos, inclusive nada. Há domingos em que nos resumimos a comer e assistir filmes, vivendo a preguiça com alegria, existem outros que queremos socializar, e aqueles em que Ana Luna vai socializar e eu fico em casa e quando consigo, fazendo absolutamente nada. Amor pelo ócio? Tenho. 

Esse amor, começou faz uns anos, mas devo admitir que quando juntei ser mestranda, mãe, dona de casa, responsável pela Lugar ArteVistas,ser amiga, família, adm de airbnb, agente e pesquisadora no Poço da Draga, além de amante das plantas do jardim e de Clarice Lispector, a gata. O fato é que em meio a tudo e mais tanto, meu domingo virou lugar de respiração para equilibrar o compasso, para limpar a mente.

São inúmeras leituras, textos, apresentações, são horas de aula, algumas que pego a onda lindamente  e outras que por mais que eu me esforce, só levo caldo, mas aqui sigo na luta. Às vezes Ana Luna assiste aula comigo, em outros momentos assiste sua aula de inglês, na televisão. Preciso inclusive admitir uma coisa bem delicada. Minha filha de menos de 3 anos fala mais inglês do que eu. 

Meire, que me ajuda com Ana Luna, voltou a trabalhar aqui conosco presencialmente, e primeiro fizemos uma grande faxina, e na sequência passei no mínimo 1 semana sem varrer ou passar pano na casa, nos móveis, e sem cozinhar, ou lavar louça. Depois regularizo, assim espero. 

Bem, agora vou terminar de preparar uma aula, são 21:49 Ana Luna dorme e eu preciso produzir bem, em 1 hora, então, abraços, por que se tem uma coisa que posso afirmar sem medo, é que apesar da maternidade, seguimos mulheres incrivelmente capazes de realizarmos tudo que nos dispusermos a fazer. Pois somos dessas!

Vida Remota e a Maternidade

Por Roberta Bonfim

Não sei como funciona na casa da vizinha, mas aqui em casa, estamos nos dando bem, nesse Lugar de vida remota que não é muito distante do lugar que eu já habitava. Já há algum tempo, entendi que estar preso diariamente a um lugar não era a minha parada e que é possível existir sem estar fisicamente. Sou fruto dos anos 80, assisti muitos filmes futuristas, isso ficou no imaginário, e hoje não me assusta por completo. Nessa dos medos, além das baratas, tenho real medo de ET. Mas, isso é papo para um outro momento. Agora quero compartilhar com você que me lê, que ando me sentindo mais viva neste último mês, realizei um desejo antigo de viver um lugar de aprendizado e trocas constantes. Esse exercício da teoria e com direcionamento, para vida. Mas, também por crer que se cada um de nós fizer um pouco somos capazes de coisas incríveis, que as relações em rede são lindas e compõem a doce dança da vida. Entrei no mestrado em Psicologia Ambiental, na UNIFOR, onde graças à dedicação de minha Vó, consigo existir. Grata Dona Hedelita Nogueira. Com a orientadora que escolhi, e que de cara já me deu vários presentes de encontros, e olha que ainda nem paramos só nós duas para trocar uma ideia real, sobre os projetos que caminham juntos. Vou falar sobre isso em algum momento nos texto da terça.

  • FOCA ROBERTA! A aula de inglês de 1 hora na televisão, acaba já já e você nem disse sobre o que vai falar… – penso.

Então, o fato é que com essa da Pandemia, tivemos de nos adaptar, mas aqui em casa, por exemplo o que vivi e vivo, e aqui falo da relação com a maternidade, bem como com essa vida remota. Aqui vivemos ajustes, alguns mais radicais, outros absolutamente orgânicos. No começo do que se tornou uma pandemia eu tinha programas gravados na Varanda Criativa para cortar (um dos meus grandes prazeres nesse lugar, pena que demanda tempo e o tempo tá escasso por aqui) depois veio a temporada de aniversário. Gente! Não sei como isso chega aí, mas aqui, dentro de mim, é tipo Puta que pariu, faz 8 anos que me delicio assumidamente desse lugar de encontro, troca, afetos. Na boa, trago todos com quem já conversei e foram alguns, me apaixonei, mesmo que instantaneamente, por todos. E hoje fazem parte do meu DNA. E agora estou/ESTAMOS montando o como será, e isso também é delicioso. 

  • ÉGUA VÉI! FUGIU DO TEMA DE NOVO. 

O fato é que agora vivo esse lugar de mestranda, pode parecer banal pra você, mas eu estou achando incrível, e não é pelo título, e nem sobre o que vou produzir academicamente é que esse Lugar me abre caminhos para realizar meu desejo de ser mais algumas vezes ponte para ações que beneficiem ao Poço da Draga. Que é inclusive parte do meu objeto de estudo. 

  • GENTEEEE BRASIL! COMO ENROLA. PUTZ!! E O QUE TUDO ISSO TEM HAVER COM A MATERNIDADE?

É isso! Tem tudo haver, pois só por vivermos neste momento remotamente que consigo por exemplo viver o mestrado, pois do contrário, por ser mãe solo. E aqui não posso reclamar no apoio da rede, mas, o fato é que eu não conseguiria sem grandes prejuízos. E assim, venho tentando conseguir, aos poucos e um dia por vez. Com mil demandas. Exemplo, agora são 8:22 da manhã, eu já alimentei criança duas vezes, cuidei do jardim, limpei a casa, lavei a louça de ontem. Montei toda minha agenda fixa, interagindo e brincando com Ana Luna. Agora ela tá na aula de inglês e eu consigo escrever esse texto e se der tempo ainda consigo ler um dos 5 artigos desta semana. 

Consigo assistir aula enquanto lavo a louça, mantendo um caderno e uma caneta por perto para quando sentir que preciso pontuar algo. E que minha filha não saiba, mas consigo ficar sentadinha no sofá com ela vendo um filme, ou deitada na rede balançando ao tempo que participo de algumas reuniões em que eu possa participar menos. Consigo ficar mais tempo abraçadinha com ela, observá-la crescer. E estou exaurida, sonho com 1 mês sem filha e me prometo que por esses trinta dias nem ligarei. hihihihi …

Bem, a aula de inglês acabou, o artigo vai ficar para depois que ela dormir hoje de noite, se eu não capotar antes, como acontece algumas vezes. Ontem tive uma aula de estatística e ensaiei duvidar da minha capacidade de conseguir, mas ainda estou aqui. 

Abraços em quem chegou aqui e se estiver trabalhando de casa, curte o momento, coloque plantas, pinta você mesmo uma parede, se relaciona com o lugar e perceba que há arte onde estiver, e se pá, consegue fazer isso assistindo a uma aula, ou aos nossos programas da Lugar ArteVistas. 😀

FOTO MINHA COM ANA LUNA

Aos que não me conhecem, sou Roberta Bonfim – mãe da Ana Luna e propriedade da Clarice Lispector.