A construção do amor

Por Roberta Bonfim

Ilude-se quem pensa no amor constante. Quem pensa que somos finitos. Ilude-se quem pensa que somos todes estranhos uns aos outros. Quem pensa que existe uma verdade única. Ilude-se quem pensa que tudo é a partir da mente. Quem não silencia para se ouvir. Ilude-se quem pensa que o pensamento é exato e que as ditas verdades são construídas a partir dele. Ilude-se quem pensa que por saber pensar é melhor. Quem não se sente à vontade em si, com o que não se permite sentir. Ilude-se quem pensa que a mente silencia. Quem aprendeu a calar a alma. Ilude-se quem se leva tão a sério, ou quem pensa ser o detentor do saber universal. 

E eu bem humana, afundada em pensamentos e ilusões. Quando me percebi grávida, não acreditei e fui atestar. Quando me percebi da grávida e “abandonada”, não senti qualquer medo. E comecei a perceber que nunca tinha estado tão acompanhada e assim começamos conscientemente o processo de construção do amor. Vivemos muitos meses juntas e Ana Luna não queria sair de mim e precisamos da ajuda de uma equipe incrível que a ajudou e logo me deram ela no colo e sorrimos com esse encontro externo. Um sorriso tímido, mas sorrimos e eu desejei as boas vindas dando-lhe o melhor de mim e assim seguimos, buscando potenciar nossos melhores. Nunca senti medo de ser mãe da minha filha e não o tenho agora. 

Mas, nem sempre me senti assim tomada de amor, como me sinto neste momento que olho ela bagunçando tudo que acabei de arrumar e acho bonito, pois ela tá descobrindo o mundo e eu com ela aprendo a descobrir o mundo. Minha criança se diverte com minha filha, juntas aprendem o alfabeto escrito e o dos afetos. Esse amor que se constrói em nosso cotidiano que não é tranquilinho, pois sou uma geminiana nata, como bem sabem e faço mil coisas, e a ela peço compreensão e a convido a brincar perto, é ser parte desse movimento de sermos do modo que ela achar mais massa, desde que também saiba que as vezes vou precisar que ela silencie, ou mesmo que se afaste e há também os momentos em que ela sem qualquer pudor diz; “Com Licença mamãe, vai pro seu quarto. vai!”. E o meu exercício é confiar que ela só quer privacidade e que não vai aprontar nenhuma novidade e essa confiança tem dado certo, porque nós confiamos e aí é melhor arriscar junto de quem se confia e assim vamos arriscando junto nessa construção e nutrição desse amor que construímos juntas.

É no olhar da minha cria que vejo mais nitidamente a luz do amor. E é no seu chamado que começo a perceber o quanto me perdi. Guardei-me tão bem guardada em medos e emoções tolhidas que neste momento em que venho sido chamada a um encontro mais sério comigo mesma tenho encarado lembranças que transformei em fantasmas aterrorizantes e que ao ter coragem de encará-los apesar das lágrimas e novas percepções venho mais uma vez constatando que os medos são maiores quando são só sombras da mente. 

É no abraço, no carinho, no chamego, no papo reto quando sentamos para trocar ideia que minha criança vem aprendendo a não ter tantas questões. Grata universo por me afagar com esse amor tão bom.

Sobre esperança: de vacinas a pessoas melhores

1 ano e 5 meses. Tomtom se aproxima dessa marca e, por aqui, muitas novidades e coisas boas acontecendo. A começar pela tão esperada, desejada e precisada vacina. Depois de mais de ano, a gente se pega voltando a fazer planos, voltando a ter esperança! Poder rever a família  (ainda com cuidados, distância e máscara. Sim!! Não caiamos na falácia de que ela não é necessária. Não há, ainda, vacina ou contaminação anterior que dispense seu uso) é um alento em tempos de tantas saudades e incertezas. Nos passeios pelas redes sociais, os lutos, lamentos e pesares dão lugar às agulhadas, sorrisos e – não menos importantes – protestos, o que renova o nosso fôlego e dá aquele quentinho no peito…

Nessa maré de esperança e possibilidades, meu bb começa, lentamente, a extrapolar as fronteiras de casa e explorar novos mundos: o jardim do prédio, as casas das vovós, a futura escolinha. Decidimos, William e eu, após muitas conversas, combinados e ponderações, iniciar Tomtom no mundo das letras e das ciências agora no segundo semestre. Estou em contagem regressiva e já explodindo de ansiedade! Escola sempre foi, para mim, espaço de alegrias, encontros e amizade. Tirando o tempo de faculdade, não consigo nem lembrar a minha vida longe de uma escola: saí de aluna a professora; da carteira para a lousa, mas nunca de lá de dentro, nem corpo nem cabeça nem coração.

Mas, voltando ao assunto, os novos mundos que se apresentam ao Tom não abrandam sua infinda curiosidade por conhecer e explorar cada cantinho da casa. Cada manchinha na parede, folha caída no chão ou artefatos do cotidiano são objetos de um rico e minucioso estudo. Texturas, cores, funções; tudo cabe no interesse desse Sherlock bebê. Ocorre que, além de exímio investigador, meu filho traz também habilidades de alpinista. Não existem obstáculos para o Tom, todo cantinho serve de apoio e impulso para chegar ao lugar almejado, sejam cadeiras, armários ou janelas. Aí, papai e mamãe que lutem para alcançar a rapidez e a agilidade do bb escalador. A palavra mais pronunciada aqui em casa atualmente é NÃO – inclusive por ele, que já começa a arte se autoadvertindo que não pode. Não pode! Na boca não! No sofá não! Não puxa a televisão! Tomada não é brinquedo!

Como todas as etapas atravessadas até aqui, fui atrás de ler um pouco e conhecer possíveis abordagens para orientá-lo. Sempre em busca de uma educação mais afetiva, confesso que me surpreendi com o quanto se condena o NÃO. O que mais encontrei foram maneiras de ‘camuflar’ esse não para os filhos, seja trocando-o por outras palavras, seja nas estratégias de ação. Exemplo: Se o filho não pode pular no sofá, não diga isso a ele, aponte um lugar onde ele pode pular: ‘Olha, filho, aqui é mais legal!’. Tenho me policiado pra não fazer da minha vivência parâmetro para todos os seres, como o fazem os injustificáveis defensores da palmada, mas, pra mim, o NÃO também é afeto. Criança precisa de limite, precisa de borda, isso é estruturante para elas. Não se trata de tudo proibir, nem do ‘não porque não’ (embora eu saiba que em algum momento vou me valer dele, ainda. rsrs), mas de conversar, explicar os porquês, orientar a criança. Trata-se de diálogo, paciência e educação. E educar, meus caros, faz-se com muitos mais NÃOS do que SINS. É cansativo, trabalhoso e diário.

Deparo-me rotineiramente com o quanto a falta do NÃO pode interferir no desenvolvimento de uma criança, desde a fragilidade e pouca resistência diante de frustrações à ausência do próprio entendimento do sentido dessa palavra. Não à toa, hoje temos que repetir exaustivamente e explicar a marmanjos, que nem filhos nossos são, que NÃO É NÃO! Com o Tom, eu faço questão de mostrar desde cedo: os limites do corpo do outro, dos espaços que não lhe pertencem, daquilo que pode lhe fazer mal. Sempre de forma dialogal e afetiva, acolhendo suas birras e frustrações.

Acredito que, assim, estou formando uma pessoa atenta ao mundo ao seu redor, empática às dores do outro. Acredito que esse bebê, que tão pouco transita pelo mundo e entre as gentes, quando puder fazê-lo, vai ser sempre de maneira cuidadosa e amorosa. Porque sim, pode ter muito amor no NÃO também.

Tom conhecendo a futura escolinha dele.

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano e 5 meses

Uma vontade de Aninhar

Por Roberta Bonfim

Junho! Quase férias, penso em comemoração silenciosa, vai rolar uma folga, vamos poder nos curtir mais eu minha filha, nos regularmos e reequilibrarmos. Tenho como mãe refletido muito sobre a saúde mental da minha filha de três anos e sobre a minha. Pensando sobre o valor do tempo e como nós aqui em casa o estamos usando. E  como quem gerencia a rotina da casa sou eu, assim tenho me repensado inteira a partir da Mãe que Sou.

É que ser mãe (também cabe a figura paterna) para mim, vai muito além de colocar no mundo. Fui mãe velha, sou mãe solo, conto com apoio de minha avó que é massa , mas é avó e é uma senhorinha. E minha filha é louca de amor por ela, hoje dormiram as duas no chão do closet fingindo que eram cachorros. 

Hoje enquanto escrevo este texto almoço e mais uma vez me questiono. E nossa alimentação? A correria cotidiana tem me feito abrir mão de coisas que me são muito caras e que exigem tempo e dedicação. Tudo nos exige tempo, mas os filhos pequenos, esses exigem e precisam de suporte. 

E quando falamos em rede de apoio é preciso dizer de modo claro. Rede de apoio é como o nome diz, de apoio, para apoiar esta criança e está mãe. Aqui em casa tempos sem criança é também um refresco para gatas que dormem profundamente quando Ana Luna não está.

E tenho me questionado constantemente: o que me excede? O que devo cortar? Sigo observando e seguindo na certeza de que qualquer que seja o caminho que escolha, será guiado pelo amor.

Poematernar

400 dias do Tom

A cada dia sei mais disto:

Melhor definição de mãe

É padecer no paraíso

Não existe mar de rosas

Na real maternidade

Só entende quem enfrenta

Essa tal realidade

E não dá pra ter descanso,

É uma função vitalícia

Pela vida desfrutando

Ora dor, ora delícia

Muda a vida, tudo passa

A ser entrega, doação

O filho a tudo ocupa:

Corpo, mente, coração

Isso sem falar do tempo

Que não nos pertence mais

Dormir uma noite toda?

Acho que é pedir demais

Mas há frestas de momentos

Destas em que o tempo para

Ter o filho em seu colo

A isso nada se equipara

E ver o seu crescimento

A cada dia, passo a passo

Faz tudo valer a pena

E manda embora o cansaço

E senti-lo junto ao peito

O colo, o laço, o olhar

Nutrir com nossas entranhas

Que potência é amamentar!

Vê-lo crescendo e, aos poucos,

Menos precisar da gente

Quer andar, ganhar o mundo

Tornar-se independente

Cada passo ou palavra

Cada novo aprender

Traz-me todo o entendimento:

Pra isso é que quero viver

Pra seguir sempre ao teu lado

Sobre a vida te ensinar

E quando não for possível

Te ajudar a levantar

É um sentimento tão forte

Chega a doer, tão profundo

Tudo se torna clichê  

Frente ao maior amor do mundo.

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano

nunca me perguntei onde quero chegar

Por Roberta Bonfim

Eu não escrevo pra ninguém! Foi a conclusão ao qual cheguei pensando sobre a escrita deste texto que se faz enquanto escrevo, pensando depois de duas semanas de muito trabalho, se o que faço, faz sentido, o que acrescenta ao mundo, qual a real relevância. Pois ando me dedicando tanto aos estudos e ao trabalho. E creiam, nunca me perguntei onde quero chegar com isso e mesmo agora quando ensaio fazer a pergunta reluto por não ter certeza se tenho essa resposta. Mas, tenho me perguntado. Pois minha filha de 3 anos e 3 meses tem pedido a minha atenção, e mais, ela tem reclamado da minha ausência e pedido a minha presença, mas com o ritmo da minha agenda não consigo oferecer além, e conto com a compreensão dela, que é massa. Mas, será que tenho feito as escolhas certas? Não sei e me prometi quando escolhi ser mãe que não me culparia, mas para cumprir esse compromisso comigo e com ela, preciso parar e rever os caminhos vez ou outra. E vivo isso agora talvez porque ela não esteja aqui comigo neste exato momento, e que passou uma semana na casa da avó pela primeira vez na vida. E ai me percebi sentada nesta cadeira onde me encontro, das 6 da manhã as 10 da noite, todos os dias. Teve um dia que parei e e terminei de assistir um filme que foi assistido em parcelas, mas vale muito. Deixo a dica.

E estamos em pandemia, dentro de caixas. E meu desejo de ir morar no interior cresce a cada instante, o desejo de pé na terra, contato com o verde. Fecho os olhos e só penso no banho de rio. Nunca fui muito ambiciosa, e sei que a felicidade não se compra, mas algo ainda me segura aqui na cidade, empoleirada no 14 andar de um prédio onde não vivemos em comunidade, apesar de ouvirmos nossas conversas pelas paredes. E minha filha brinca na varanda, e olha o redor, mas não o habita. Penso nisso e ensaio a sentir culpa. Mas tenho medo de ir pra rua com ela, de expor a ela, a mim, a nossa avó, razão maior de estarmos aqui.

Mas, de volta à nossa realidade, somos nós duas e duas gatas em um apartamento, e nos últimos três anos conto nos dedos as vezes em que ela ficou em algum lugar sem mim. E aí em abril, ela passou uma semana inteira na casa da avó. O resultado aqui em casa, foram dias de completa desordem, mas com muito trabalho e estudo, eu nem lembrava o tempo do tempo quando não se tem de dividi-lo com uma criança. Comi mal, não me cuidei, mas produzi e fiquei feliz, pois organizei muitas coisas que esperavam esse momento de serem organizadas, mas não foi a casa! 

E aí as tais questões: Para começar entendi que mais de 50% do meu dia útil que é longo, já que tenho dormido muito pouco, destino aos trabalhos e estudos, que é só 50, porque tenho de me dividir também entre a casa, comida, criança, gatas e plantas. O fato é que não sobra nunca tempo pra mim. E a questão é o tempo? Não. E aí vem a segunda constatação.  O tempo “livre” o que deveria ser o tempo pra mim, acesso a internet e fico presa na bolha até ser chamada por algumas das demandas da vida. E então vem a terceira percepção… mas essa vou deixar pra junho.

Pois agora fecho este texto parabenizando as mães, todas que abraçam a maternidade com amor e compromisso afetivo e social. Grata!

E compartilhando esse papo incrível entre mães

Oi gente!

Por Lorena Aragão

Oi gente!

Meu primeiro momento por aqui… escrevo cheia de borboletas na barriga!!!

Fiquei matutando um tempão sobre o que traria enquanto porta de entrada, enquanto primeiro convite para nos conhecermos. Sempre fui afeita às palavras. Escrever faz parte da minha constituição de vida, escrevo desde que me entendo por gente. Quando criança, tinha aqueles diários com um cadeado que não guardava os segredos de ninguém. Adolescente, comprava agendas descoladas e escrevia todos os
meus dias.

Tenho registros incríveis de primeiro amor, primeiro beijo, primeiras decepções. Com a evolução dos tempos, migrei para os blogs. Já tive uns dois ou três. Aí, aos meus 28 anos, veio a gestação. Mais uma vez, minhas escritas me salvaram de mim. Em meio a uma gravidez solo tão conturbada, escrever me ajudava a expressar tudo aquilo que eu estava vivendo e não conseguia por pra fora com ninguém. Então meu filho nasceu. Choro de neném, noites em claro, fralda pra trocar, choro de neném, põe pra arrotar, dá de mamar, o peito com mastite, choro de neném, fralda para trocar, quero escrever, tô com sono, cansaço, puerpério…quero…es…cre…v…não deu. Depois que meu filho nasceu eu parei de escrever. Foi quase sem perceber que abandonei a escrita. A chegada de um filho muda tudo, bagunça, chacoalha. Faz a gente rever prioridades , amizades, relativizar o tempo. Às vezes (na maioria delas) a gente se sente abandonada até por si própria. Cadê aquela mulher que estava em todas as noitadas, a rainha da balada Cadê aquela mulher que estava sempre bem cuidada, sobrancelha feita, unha sem cutícula? Passei anos sendo só mãe. Anos vivendo um universo que tinha mais sobre bebê do que sobre mim. Mas chega uma hora que a angústia vem, e a gente quer se reencontrar, quer um tempo pra respirar. O convite para escrever aqui me tirou da zona de conforto, do conformismo de “não ter mais tempo para essas coisas”.

Hoje meu filho tem 8 anos e eu sinto que já consigo não ser só mãe. Me chamo Lorena, sou Psicóloga Perinatal, baiana, tenho 36 anos, sou casada, mãe de Inácio e , mais do que nunca, sou MULHER. Estarei aqui me desafiando a tornar este espaço um cantinho de reencontro comigo, uma parceria de fortalecimento entre mães que amam seus filhos, mas que também sentem saudades de si. Vamos dá as mãos e seguir juntas nesta estrada? Do que você sente saudade? O que você abandonou? É tempo de novos tempos. Caminhemos! Beijos, luz e axé!

Lorena e Inácio ❤ – Lorena estará neste Lugar de afetos e compartilhamentos, na 4 segunda de cada mês. Se chega!

“Dormir no teu colo é tornar a nascer…”

Na minha existência A.T. (antes do Tom), não havia preocupação, problema, trabalho ou dor de cotovelo que valesse uma noite de sono. Sempre me admirei com insones, e me compadecia ao imaginá-los rolando na cama enquanto os ponteiros do relógio teimavam em correr. Questionava-me sobre como faziam para aguentar o amanhã, com suas urgências e novas preocupações e novos problemas e novos trabalhos e novas dores. Pra mim, não havia solução para qualquer coisa que houvesse, que não passasse pelo aconchego da minha cama.

                Hoje, na vida D.T. (depois do Tom), sigo resistindo, mesmo após 1 ano e 3 meses de pouco e picotado sono. Me surpreendo, também, com o quanto todo o nosso corpo se prepara e se transforma para gerar e acolher a cria – o que inclui acordar a cada mexida ou respirar mais profundo dela e sobreviver com pequenas e intervalados cochilos.

                Já ouvi relatos de bebês que desde pequerrotos engatam horas a fio abraçados a Morfeu, mas, definitivamente, dormir não é o forte do daqui de casa. Dizem que o gramado do vizinho é sempre mais verde; eu digo que o filho do vizinho é sempre mais sonolento. Desde os primeiros meses, ao tentar arrumar a rotina diária do Tom, as sonecas e o sono noturno foram as ações que mais se demoraram a organizar. Aos poucos, claro, as coisas foram melhorando, mas não ao ponto de nos possibilitar – a mim e a ele – um descanso ininterrupto, ou algo perto disso. Para completar, se durante o dia todos os cuidados com o Tom são justamente divididos entre mim e o pai, à noite o protagonista dessa história decide que só a minha companhia serve, possivelmente porque trago em mim a fonte de toda e qualquer solução para os seus probleminhas de bebê: o tetê da mamãe!

                Sigo resistindo e resistente, certa e feliz pela escolha que fiz pela livre demanda, mas carregando comigo toda a exaustão de 1 ano de privação de sono. Guerreira? Não, e nem faço conta desse rótulo. Apenas uma mulher (como tantas) atravessando os limites do seu corpo pelo bem da cria, buscando soluções e alternativas para conseguir continuar (como muitas) e que vai se corroer de culpa quando não mais conseguir (como todas!).

                Até quando conseguirei? Por quanto tempo pretendo amamentar? Não sei. Assim como todos ao redor, também me faço essas perguntas diariamente. Todos os dias penso em desistir, mas todos os dias escolho continuar, e assim seguiremos até quando for bom pra ele e possível pra mim. A ideia de não estabelecer meta e depois dobrar a meta tem funcionado até aqui e com ela que seguiremos. Sei que muito em breve sentirei falta do meu colo ser o melhor lugar do mundo para ele e das noites intermináveis sendo seu abrigo e alimento. A cada gota sorvida, sei que Tom é inundado de amor, aconchego, proteção e saúde, e isso é meu combustível, força e moeda que paga qualquer noite em claro.          

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano e 3 meses.

Mãe: Meu egoísmo e minha vaidade.

Por Alana Alenacr

Começo fazendo uma retrospectiva de como foi meu começo. A primeira gestação. O que me fez/faz ser MÃE. O egoísmo aumentava conforme a barriga. Não para alimentar meu ego com sua pequenez, mas para suprir a direção das forças à minha nova responsabilidade, aos meus cuidados e desafios; afinal, tudo em mim se preparava, tudo em mim exigia a habilidade de proteger e assegurar o bem-estar de um milagre acontecendo a todo instante no meu ventre. Acontecendo no realizar compulsório do meu maior sonho. Eu entendia, meio sem explicações, o quanto a minha vida mudava com a certeza de uma nova vida sendo gerada em mim… uma outra vida que dependia totalmente da minha condição estética, genética e intelectual… um filho. Não no sentido estreito de limitá-lo ao sexo masculino, mas em toda a grandiosidade de ser entendido como um Ser. Também, não era apenas um filho, mas o MEU filho que em absolutamente tudo seria e é parte de mim… desde o que representa o amor materno até o sentimento de ainda não interpretá-lo em suas particularidades. Pedro Antônio. Não porque tem cara de Pedro, não pelo dever de ser santo, muito menos por ser fruto de uma promessa. Pedro Antônio por ser o ato de um desejo, do meu desejo; por ser de mim tudo aquilo que considero sadio e forte e vivo. Por ter a emoção entrelaçada em uma canção de amor, por ser parte da minha poesia, da minha inspiração, por exigir de mim a irreverência de lidar com a sensibilidade de ouví-lo a todo e qualquer questionamento. A vaidade também aumentava conforme a barriga. Não aquela vaidade estética corporal e individualista, mas a vaidade que se confunde com o orgulho, com a decência de poder encher a boca e dizer:

EU SOU MÃE! Não uma mãe qualquer, e sim a mãe do filho mais lindo do mundo, mais inteligente de todos e com isso continuar numa série de elogios tão propriamente verdadeiros de mães como eu; Um Rinoceronte Fêmea. De pele grossa, ousada, de defesa selvagem. Aquela mãe que no primeiro ultrassom sem qualquer vestígio de ser, já consegue deduzir que não há sombra de dúvidas quanto à fortaleza de quem virá; que na segunda ultrassom, num pinguinho de forma, afirma que é a cara da mãe (e é). Talvez, ao primeiro impacto, estes “pecados capitais” (fragilizadores), tão delicados que passam a ser intensamente decididos, como a vaidade e o egoísmo, sejam “perdoados”/compreendidos à medida que são descobertos como fonte de amor. Amar um filho não requer uma medida exata posto que vai além de qualquer sensação tátil, de qualquer motivo óbvio;  Senti ser uma dádiva que não deve ser comparada, e que não se dá pela poesia apenas, mas pela parte Divina de um todo em mim. 

Dia 12 de abril de 2011 Pedro Antonio nasceu.

atenta as agressões fantasiadas de alegrias

Por Roberta Bonfim

Chegou abril, passamos um ano nesse lugar de praticamente não sair de casa. E em tempos tão contraditórios, aqui em casa só temos o que agradecer, temos casa, gatas, plantas, comida, saúde e amor. Temos tudo, trancado em alguns metros quadrados. E nesse meio tempo para não parar a vida, tive de abrir concessões, fazer escolhas ao que tange a educação da minha cria. 

Não dou conta da minha rotina e da dela, juntas, e aqui somos nós duas, então a TV que antes tinha tempo determinado agora é som constante por um turno inteiro, e tudo bem, são ali outras falas e realidades. Um tipo estranho de companhia, mas uma companhia, e lembro que também a tive, só que em meus tempos era mesmo a TV aberta, aqui pelo menos timidamente é feita uma curadoria do que é possível assistir e ficamos menos expostas às infinitas propagandas. E ainda sim, vez ou outra ela me lembra que preciso nos inscrever, que isso é importante. 

E aí vem uma questão, 98% dos desenhos tem a presença real ou imagética do pai, e sempre o pai sendo o cara massa, que brinca, troca sorrir, mas também o que espera a comida ser servida. Até nos desenhos em homenagem a mãe tá lá a figura paterna. O desenho é de um mundo mágico, mas o boneco de lata, repete algumas vezes por episódio, “como diria meu pai e algum belo adjetivo”. 

Só que isso no contexto atual, especialmente no Brasil, beira a crueldade, pois o número de famílias sem essa presença física, emocional e/ou afetivamente, isso sem falar dos abandonos, estupros e outras agressões possíveis. Gente, sério, mais da metade das famílias do país são de mães solo.

E aí vem a tona uma série de valores patriarcais que são impostos de todos os modos. Há quase zero de desenho sem a presença dos pais, os desenhos ditos educativos, então exploram a estrutura da família tradicional em suas máximas e ensinam inclusive esse padrão. Estão lá. Até nos desenhos que exaltam a mãe o pai tá ali, no desenho, da fotografia, na mesa sentado, enquanto a mulher mãe, heroína serve a família de sorriso no rosto. 

E isso se estende também aos livros infantis, e todos os clássicos que criam contextos cruéis a quem não cabe nesse formato enquadrado, formatado definido e seguido. Fico pensando que somos todes sobreviventes de um mundo que foi desenhado, só que na vida real a pancada machuca.

Deixo aqui meu pedido aos criativos, que criem histórias mais respeitosas, sem agressão disfarçada de felicidade padrão. E fico por aqui, pois os dias estão curtos e as exigências crescentes.

E deixo também dica de livro infantil, “Sinto Muinto, mas eu sinto o que sinto”e “Betina”