A construção do amor

Por Roberta Bonfim

Ilude-se quem pensa no amor constante. Quem pensa que somos finitos. Ilude-se quem pensa que somos todes estranhos uns aos outros. Quem pensa que existe uma verdade única. Ilude-se quem pensa que tudo é a partir da mente. Quem não silencia para se ouvir. Ilude-se quem pensa que o pensamento é exato e que as ditas verdades são construídas a partir dele. Ilude-se quem pensa que por saber pensar é melhor. Quem não se sente à vontade em si, com o que não se permite sentir. Ilude-se quem pensa que a mente silencia. Quem aprendeu a calar a alma. Ilude-se quem se leva tão a sério, ou quem pensa ser o detentor do saber universal. 

E eu bem humana, afundada em pensamentos e ilusões. Quando me percebi grávida, não acreditei e fui atestar. Quando me percebi da grávida e “abandonada”, não senti qualquer medo. E comecei a perceber que nunca tinha estado tão acompanhada e assim começamos conscientemente o processo de construção do amor. Vivemos muitos meses juntas e Ana Luna não queria sair de mim e precisamos da ajuda de uma equipe incrível que a ajudou e logo me deram ela no colo e sorrimos com esse encontro externo. Um sorriso tímido, mas sorrimos e eu desejei as boas vindas dando-lhe o melhor de mim e assim seguimos, buscando potenciar nossos melhores. Nunca senti medo de ser mãe da minha filha e não o tenho agora. 

Mas, nem sempre me senti assim tomada de amor, como me sinto neste momento que olho ela bagunçando tudo que acabei de arrumar e acho bonito, pois ela tá descobrindo o mundo e eu com ela aprendo a descobrir o mundo. Minha criança se diverte com minha filha, juntas aprendem o alfabeto escrito e o dos afetos. Esse amor que se constrói em nosso cotidiano que não é tranquilinho, pois sou uma geminiana nata, como bem sabem e faço mil coisas, e a ela peço compreensão e a convido a brincar perto, é ser parte desse movimento de sermos do modo que ela achar mais massa, desde que também saiba que as vezes vou precisar que ela silencie, ou mesmo que se afaste e há também os momentos em que ela sem qualquer pudor diz; “Com Licença mamãe, vai pro seu quarto. vai!”. E o meu exercício é confiar que ela só quer privacidade e que não vai aprontar nenhuma novidade e essa confiança tem dado certo, porque nós confiamos e aí é melhor arriscar junto de quem se confia e assim vamos arriscando junto nessa construção e nutrição desse amor que construímos juntas.

É no olhar da minha cria que vejo mais nitidamente a luz do amor. E é no seu chamado que começo a perceber o quanto me perdi. Guardei-me tão bem guardada em medos e emoções tolhidas que neste momento em que venho sido chamada a um encontro mais sério comigo mesma tenho encarado lembranças que transformei em fantasmas aterrorizantes e que ao ter coragem de encará-los apesar das lágrimas e novas percepções venho mais uma vez constatando que os medos são maiores quando são só sombras da mente. 

É no abraço, no carinho, no chamego, no papo reto quando sentamos para trocar ideia que minha criança vem aprendendo a não ter tantas questões. Grata universo por me afagar com esse amor tão bom.

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