Onde mora a lembrança?

Será que mora no nome da minha mãe que tenho que dar pra minha filha? Mora na lápide, marcando data de vida e morte? Na letra das cartas nunca enviadas? Na culpa? Poderia mesmo ter feito diferente?

Mora na conversa que conta como era uma situação pra quem nunca viveu aquele momento, tentando buscar detalhes?

Será que a lembrança mora dentro do sonho, numa imagem que nunca aconteceu, mas poderia ter acontecido?

Mora no beijo de despedida?

Na música?

Na aflição?

Na alegria?

Na conquista?

Nos encontros?

Mora na imagem, na foto que não se mexe e você vai sempre ter só aquela posição?

Será que a lembrança mora naquela ação que você não lembra direito como aconteceu, mas sabe porque aconteceu? Na intenção?

Mora no trauma? No “eu não quero mais” ou “quero melhor”?

Mora no cuidado, carinho e zelo?

Mora na parte boa ou na parte ruim? 

Onde escuta a voz de novo?

Quando a gente percebe que algumas coisas estão indo embora, onde vamos buscar a lembrança?

Ela mora mesmo na memória?

A construção do amor

Por Roberta Bonfim

Ilude-se quem pensa no amor constante. Quem pensa que somos finitos. Ilude-se quem pensa que somos todes estranhos uns aos outros. Quem pensa que existe uma verdade única. Ilude-se quem pensa que tudo é a partir da mente. Quem não silencia para se ouvir. Ilude-se quem pensa que o pensamento é exato e que as ditas verdades são construídas a partir dele. Ilude-se quem pensa que por saber pensar é melhor. Quem não se sente à vontade em si, com o que não se permite sentir. Ilude-se quem pensa que a mente silencia. Quem aprendeu a calar a alma. Ilude-se quem se leva tão a sério, ou quem pensa ser o detentor do saber universal. 

E eu bem humana, afundada em pensamentos e ilusões. Quando me percebi grávida, não acreditei e fui atestar. Quando me percebi da grávida e “abandonada”, não senti qualquer medo. E comecei a perceber que nunca tinha estado tão acompanhada e assim começamos conscientemente o processo de construção do amor. Vivemos muitos meses juntas e Ana Luna não queria sair de mim e precisamos da ajuda de uma equipe incrível que a ajudou e logo me deram ela no colo e sorrimos com esse encontro externo. Um sorriso tímido, mas sorrimos e eu desejei as boas vindas dando-lhe o melhor de mim e assim seguimos, buscando potenciar nossos melhores. Nunca senti medo de ser mãe da minha filha e não o tenho agora. 

Mas, nem sempre me senti assim tomada de amor, como me sinto neste momento que olho ela bagunçando tudo que acabei de arrumar e acho bonito, pois ela tá descobrindo o mundo e eu com ela aprendo a descobrir o mundo. Minha criança se diverte com minha filha, juntas aprendem o alfabeto escrito e o dos afetos. Esse amor que se constrói em nosso cotidiano que não é tranquilinho, pois sou uma geminiana nata, como bem sabem e faço mil coisas, e a ela peço compreensão e a convido a brincar perto, é ser parte desse movimento de sermos do modo que ela achar mais massa, desde que também saiba que as vezes vou precisar que ela silencie, ou mesmo que se afaste e há também os momentos em que ela sem qualquer pudor diz; “Com Licença mamãe, vai pro seu quarto. vai!”. E o meu exercício é confiar que ela só quer privacidade e que não vai aprontar nenhuma novidade e essa confiança tem dado certo, porque nós confiamos e aí é melhor arriscar junto de quem se confia e assim vamos arriscando junto nessa construção e nutrição desse amor que construímos juntas.

É no olhar da minha cria que vejo mais nitidamente a luz do amor. E é no seu chamado que começo a perceber o quanto me perdi. Guardei-me tão bem guardada em medos e emoções tolhidas que neste momento em que venho sido chamada a um encontro mais sério comigo mesma tenho encarado lembranças que transformei em fantasmas aterrorizantes e que ao ter coragem de encará-los apesar das lágrimas e novas percepções venho mais uma vez constatando que os medos são maiores quando são só sombras da mente. 

É no abraço, no carinho, no chamego, no papo reto quando sentamos para trocar ideia que minha criança vem aprendendo a não ter tantas questões. Grata universo por me afagar com esse amor tão bom.

Desafios chegam para serem vividos

Por Roberta Bonfim

Parei de enfrentar a vida já faz um tempo. Mas, tenho um ego forte, então é cotidiano o desafio de colocar o que penso debaixo do tapete a fim de não gerar um caso, de não polemizar, ou abrir mão desse papel de legal que conquistei depois de anos de piadas mal contadas, em um corpo gordinho. E olha que ainda levo de doida, ou doidinha por tá fora dos padrões. Há quem diga que sou espontânea, mas eu que sei o quanto me pondero sobre e quando falo.

Criou-se inclusive uma fama sobre mim de ser bastante chata e exigente, eu que sempre trabalhei muito mais que o meu trabalho de fato peço e provoco para que façamos mais que só a nossa parte. Mesmo porque quem define isso no contexto do existir? Quem fez essa divisão? 

Essa semana foi mais difícil do que de costume, pra começar vivi o susto da possibilidade de um incêndio. Na terça passada. Deixo aqui um texto sobre essa vivência. 

Terror nas Escadas

Ontem vivi o que eu já havia sonhado, mesmo assim o ontem mexeu comigo.

A bem da verdade como o resto da sociedade ando bem remexida por dentro e isso com o ontem me levam a pensar sobre as nossas reais prioridades!

Ontem foi só um susto! E são agoras lembranças que vou compartilhar para elas saírem de mim.

Eu já dormia, ontem tinha sido um dia de muitas demandas e emoções, coloquei minha filha pra dormir e fui com ela ao encontro de Morfeu, quando ouvi um alarme bem alto, o primeiro chamado deve ter me acordado, e eu agradeci pelo sono leve no ato. Me levantei, tentei entender do que se tratava e logo percebi que era o alarme de incêndio, vesti um short rápido, peguei a bolsa e disse as gatas que estava tudo bem e torci para que estivesse. A vizinha bateu forte na porta perguntando o que era e eu disse com uma tranquilidade assustadora que era o alarme de incêndio e que precisávamos descer. Ela saiu gritando e eu desisti de acordar Ana Luna a peguei no colo ainda sonolenta coloquei a máscara sem tirar o tapa olho e segui descendo as escadas. E foi nas escadas que senti mais uma vez a tal quebra do tempo espaço que eu havia citado de tarde e que já conhecia de outros momentos latentes da vida.

Passos rápidos na escada, minha filha acordou ainda de tapa olhos, e em movimento e ensaiou chorar e eu dizendo “Tá tudo bem meu bem! Quer que mamãe vá mais devagar? Mamãe vai! eu dizia sem alterar a velocidade dos pés que descia o mais rápido que eu conseguia eu falava lentamente, enquanto descia rápido os 14 andares. Quem passava ou saia das portas de emergência me ouviam também, ouviam algo. Eu observava e via animais correndo do suposto fogo e não sei exatamente se na hora ou no processo a memória global me traz a mente e a alma a dor da Amazônia. Pensei nos indígenas vendo suas aldeias queimadas e correndo para se manterem vivos. Os bichos correndo pela sobrevivência, abandonando seu bando para sobreviver. Pensava nisso e nas gatas que não consegui levar e isso mexeu muito comigo. Em caso de incêndio eu só salvo a mim e mais um (minha filha) . Descobri isso ontem! Havia medo descendo as escadas, senhoras, crianças, outras mães como eu carregando sua cria no colo. 

E mesmo  e apesar do meu espírito dizer que estava tudo, havia o medo entre os andares com a luz sépia. Eu buscava e não identificava o calor e isso era uma tranquilidade. 

Todos desciam correndo, ninguém falava nada. O alarme de incêndio ainda ecoa agora na minha cabeça. E o pensamento de que somos bichos muito indefesos e amamos a vida! Mesmo com medo da possibilidade do fogo quase todes estavam de máscara. O que comprova a rapidez do pensamento e nossa capacidade auto defesa.

E por aqui em mim o que fica e reverbera é a relação com a prioridade, e sobre o que de fato preciso. 

Compartilho esse texto pois precisei dele para perceber e aceitar que foi só um susto e tudo segue. Amém!

………

Na quarta tivemos a estreia linda do Poço de Afetos com Sabrina Lima e Pedro Sami em um papo cheio de afeto e responsabilidades pelo Poço da Draga. 

Na quinta não tivemos Conversa Entre Nós, Silvia Helena que o apresenta tá precisando ficar off e desmarcamos mais até que ela volte vou ficar recepcionando seus convidados.E a sexta foi cheia de emoção. Dinha deixou sua linda arte como presente às Mães do Poço da Draga. Conseguimos também fazer as entregas às 10 famílias apoiadas, E você pode apoiar também.

De noite entrou o papo com o maravilhoso Nirton Venâncio, falando sobre o Pessoal do Ceará , poesia, histórias da cidade. papo maravilhoso como bem gosta Marta Aurélia.

No sábado teve Mentalizando Mapas Culturais com a apresentadora, a mais coisada desse canal, Ivina Passos é inspiração e recebeu o Cosmo e o Festival Galhofo. E foi um doce encontro de relações e boas histórias.

O domingo foi dia das mães e estreamos o programa com mais sabor do canal. Até o Caroço apresentado por Kerla Alencar, com a parceria da Occa Cultura Alimentar para conversar com cozinheiras autodidatas que amam a cozinha. E foi incrível começar com histórias do São Sebastião.

Ontem tive a missão de apresentar a Lugar ArteVistas e consegui, em partes, eu acho. E não estou certa se me fiz entender. Mas, ouvi coisas bonitas e sou grata pela chance de poder tentar apresentar. Ontem também tive um papo potente com Beto Lemos, João Furtado e Pedro Orlando. E foi incrível. Sai renovada para mais uma semana.

E ainda teve a Materna – um papo sobre maternidade com Alana Alencar, que deixou seu texto aqui neste blog que tá cada vez mais lindo e potente. 

E vamos que vamos que agora preciso entrar no grupo de estudo.

Cantando eu mando a Tristeza vazar

Cantar é um jeito de carinho, penso baixinho.

Cantar é um jeito de caminho, sinto carinho.

Cantar é um jeito de expurgar, o medo de ser sozinho.

 “Cantando eu mando a tristeza embora”!

Não sou cantora, nem tão pouco sou triste, mas que uma boa canção, entendendo que boa é aquela que conversa com nossas almas, aquece e eleva as energias, gerando movimento. E de movimento estou bem entendendo, a vida aqui tá tão movimentada que quando penso que terei um tempo livre, não tenho tempo de de pensar o que fazer com esse tempo, pois logo sou lembrada de alguma nova demanda. Tá puxado e não estou reclamando, mas constatando, aceitando, percebendo e compartilhando então vamos lá para que entendam o tá puxado.

Nosso canal tá com programação semanal às segundas com Arte Onde Estiver, onde convido ArteVistas para conversar, sem pauta e/ou roteiro, as quartas com programação Poço da Draga. Onde na primeira quarta feira de cada mês temos a partir de amanhã o Poço de Afetos, onde Sabrina Lima, filha do Poço da Draga, moradora de Paris conversa com seus amigos do Poço da Draga e a estreia será nesta quarta às 17 horas, no canal Lugar ArteVistas, em um papo cheio de afeto e brilho nos olhos de quem salta sem medo, com Pedro Sami. Na segunda e terceira quarta estamos com programação nascente, que logo falo mais, e a última quarta do mês é o dia da revista eletrônica Lugar ArteVista que nesta temporada foi gravada no Poço da Draga, e neste mês de maio cai mesmo no dia do aniversário do Poço da Draga e será com Dinha e Serguinho, dois ArteVistas querides e inspiradores. Na quinta temos a psicóloga psicoterapeuta Silvia Helena, e convidades ArteVistas para uma Conversa Entre Nós, às 19 horas. Na sexta é dia de Casa D’Aurélia, com a diva Marta Aurélia e os seus maravilhoses. E no segunda sábado de cada mês temos Mentalizando Mapas Culturais com Ivina Passos, e no último sábado de cada  temos, Novos Tempos – Novos Ciclos com as ArteVistas Crica e Renatinha. No domingo estreamos neste um programa ainda em construção com apresentação de Kerla e parceria com a Occa. Tem outras delícias se desenhando e em breve compartilho por aqui. 

E temos esse blog que amo que neste último mês recebeu gente nova para somar e embelezar mais. 

Já ativa o lembrete e se inscreve: https://www.youtube.com/watch?v=lMRSH1mOdeg

Sobre as ações do Poço seguimos agradecendo aos parceiros da Associação Anjo Rafael e tantas outras que estamos fortalecendo, não podemos parar e você que me lê também pode contribuir, toda ajuda é bem vinda e faz a diferença na vida das pessoas.

nunca me perguntei onde quero chegar

Por Roberta Bonfim

Eu não escrevo pra ninguém! Foi a conclusão ao qual cheguei pensando sobre a escrita deste texto que se faz enquanto escrevo, pensando depois de duas semanas de muito trabalho, se o que faço, faz sentido, o que acrescenta ao mundo, qual a real relevância. Pois ando me dedicando tanto aos estudos e ao trabalho. E creiam, nunca me perguntei onde quero chegar com isso e mesmo agora quando ensaio fazer a pergunta reluto por não ter certeza se tenho essa resposta. Mas, tenho me perguntado. Pois minha filha de 3 anos e 3 meses tem pedido a minha atenção, e mais, ela tem reclamado da minha ausência e pedido a minha presença, mas com o ritmo da minha agenda não consigo oferecer além, e conto com a compreensão dela, que é massa. Mas, será que tenho feito as escolhas certas? Não sei e me prometi quando escolhi ser mãe que não me culparia, mas para cumprir esse compromisso comigo e com ela, preciso parar e rever os caminhos vez ou outra. E vivo isso agora talvez porque ela não esteja aqui comigo neste exato momento, e que passou uma semana na casa da avó pela primeira vez na vida. E ai me percebi sentada nesta cadeira onde me encontro, das 6 da manhã as 10 da noite, todos os dias. Teve um dia que parei e e terminei de assistir um filme que foi assistido em parcelas, mas vale muito. Deixo a dica.

E estamos em pandemia, dentro de caixas. E meu desejo de ir morar no interior cresce a cada instante, o desejo de pé na terra, contato com o verde. Fecho os olhos e só penso no banho de rio. Nunca fui muito ambiciosa, e sei que a felicidade não se compra, mas algo ainda me segura aqui na cidade, empoleirada no 14 andar de um prédio onde não vivemos em comunidade, apesar de ouvirmos nossas conversas pelas paredes. E minha filha brinca na varanda, e olha o redor, mas não o habita. Penso nisso e ensaio a sentir culpa. Mas tenho medo de ir pra rua com ela, de expor a ela, a mim, a nossa avó, razão maior de estarmos aqui.

Mas, de volta à nossa realidade, somos nós duas e duas gatas em um apartamento, e nos últimos três anos conto nos dedos as vezes em que ela ficou em algum lugar sem mim. E aí em abril, ela passou uma semana inteira na casa da avó. O resultado aqui em casa, foram dias de completa desordem, mas com muito trabalho e estudo, eu nem lembrava o tempo do tempo quando não se tem de dividi-lo com uma criança. Comi mal, não me cuidei, mas produzi e fiquei feliz, pois organizei muitas coisas que esperavam esse momento de serem organizadas, mas não foi a casa! 

E aí as tais questões: Para começar entendi que mais de 50% do meu dia útil que é longo, já que tenho dormido muito pouco, destino aos trabalhos e estudos, que é só 50, porque tenho de me dividir também entre a casa, comida, criança, gatas e plantas. O fato é que não sobra nunca tempo pra mim. E a questão é o tempo? Não. E aí vem a segunda constatação.  O tempo “livre” o que deveria ser o tempo pra mim, acesso a internet e fico presa na bolha até ser chamada por algumas das demandas da vida. E então vem a terceira percepção… mas essa vou deixar pra junho.

Pois agora fecho este texto parabenizando as mães, todas que abraçam a maternidade com amor e compromisso afetivo e social. Grata!

E compartilhando esse papo incrível entre mães

Mãe: Meu egoísmo e minha vaidade.

Por Alana Alenacr

Começo fazendo uma retrospectiva de como foi meu começo. A primeira gestação. O que me fez/faz ser MÃE. O egoísmo aumentava conforme a barriga. Não para alimentar meu ego com sua pequenez, mas para suprir a direção das forças à minha nova responsabilidade, aos meus cuidados e desafios; afinal, tudo em mim se preparava, tudo em mim exigia a habilidade de proteger e assegurar o bem-estar de um milagre acontecendo a todo instante no meu ventre. Acontecendo no realizar compulsório do meu maior sonho. Eu entendia, meio sem explicações, o quanto a minha vida mudava com a certeza de uma nova vida sendo gerada em mim… uma outra vida que dependia totalmente da minha condição estética, genética e intelectual… um filho. Não no sentido estreito de limitá-lo ao sexo masculino, mas em toda a grandiosidade de ser entendido como um Ser. Também, não era apenas um filho, mas o MEU filho que em absolutamente tudo seria e é parte de mim… desde o que representa o amor materno até o sentimento de ainda não interpretá-lo em suas particularidades. Pedro Antônio. Não porque tem cara de Pedro, não pelo dever de ser santo, muito menos por ser fruto de uma promessa. Pedro Antônio por ser o ato de um desejo, do meu desejo; por ser de mim tudo aquilo que considero sadio e forte e vivo. Por ter a emoção entrelaçada em uma canção de amor, por ser parte da minha poesia, da minha inspiração, por exigir de mim a irreverência de lidar com a sensibilidade de ouví-lo a todo e qualquer questionamento. A vaidade também aumentava conforme a barriga. Não aquela vaidade estética corporal e individualista, mas a vaidade que se confunde com o orgulho, com a decência de poder encher a boca e dizer:

EU SOU MÃE! Não uma mãe qualquer, e sim a mãe do filho mais lindo do mundo, mais inteligente de todos e com isso continuar numa série de elogios tão propriamente verdadeiros de mães como eu; Um Rinoceronte Fêmea. De pele grossa, ousada, de defesa selvagem. Aquela mãe que no primeiro ultrassom sem qualquer vestígio de ser, já consegue deduzir que não há sombra de dúvidas quanto à fortaleza de quem virá; que na segunda ultrassom, num pinguinho de forma, afirma que é a cara da mãe (e é). Talvez, ao primeiro impacto, estes “pecados capitais” (fragilizadores), tão delicados que passam a ser intensamente decididos, como a vaidade e o egoísmo, sejam “perdoados”/compreendidos à medida que são descobertos como fonte de amor. Amar um filho não requer uma medida exata posto que vai além de qualquer sensação tátil, de qualquer motivo óbvio;  Senti ser uma dádiva que não deve ser comparada, e que não se dá pela poesia apenas, mas pela parte Divina de um todo em mim. 

Dia 12 de abril de 2011 Pedro Antonio nasceu.

1101

Por Roberta Bonfim

Não sei como isso acontece com você, mas por aqui tem sido um doce, mas nem sempre, fácil, na real é normalmente bastante conflituosos e contraditório, mas repleto de amor e risadas, esses 1101 dias em que sou para além de mim mesma, o que por si já me é bem trabalhoso. O fato, é que a exatos 1101 dias sou mentora de um ser, responsável pelas suas memórias fundamentais, necessidades básicas e alguns excedentes.

Como ela completou 3 anos neste mundo no dia 25 de janeiro, vou aproveitar esse espaço para escrever para ela, vai que um dia ela se esbarra com esse texto e sorrir. Espero também que você que por aqui chegou, sinta brotar no canto da boca um doce sorriso discreto de quem espia o amor pela brecha da porta.  

Faz 1101 que chegou no mundo você, chegou silenciosa, mas logo disse a que vinha e lançou sua voz no ventre do mundo, alertando ao mundo todo que você chegará. Chegou descamando, não queria sair da barriga e eu queria respeitar seu tempo. Chegou já mamando, já sorrindo, sem qualquer dificuldade me reconheceu. Me olhou nos olhos tão profundamente, que estou certa que naquele momento nossas almas se abraçaram fortemente entendendo que dali pra frente eu só poderia tá contigo, mas nunca, em absoluto ser ou estar em você, como você também daquele momento em diante não estaria mais em mim. E assim seguimos.

Você se alimentou de mim por quase três anos, mas preciso assumir que também me alimentei de você ainda me alimento, do seu amor, sorriso, me alimento da sua alegria, do seu carinho. E até das birras quando respiro e lembro do tanto que ainda temos para aprender. E te agradeço por ter escolhido a mim e a nossa história, para ser a sua história ou o seu caminho das paragens daqui. Te amo filha, amo ser sua mãe, amo te chamar de minha filha, amo quando me chama de minha mãe e não há qualquer relação com posse é só identificação de linhagem. Grata meu amor.

E se você veio até aqui, te convido a amar mais, sorrir mais e compartilhar afetos e arte por onde estiveres.

No corpo de uma mulher que foi mutilada virgem

Por Katiana Monteiro

Minha amiga confidente e Dinda de meu Namir, Roberta Bonfim, me desafiou a falar da maternidade. Eu, que no dia 11 de fevereiro de 2021, completo uma década como mãe. 

Até hoje ainda me surpreendo com a indagação. – Eu sou mãe? 

O nome soa tão doce e ao mesmo tempo carrega um peso de chumbo. 

Namir não foi planejado como tudo na minha vida, Mas, por ser contra ao uso da pílula no meu corpo e por ter cedido as vontades de quem me prometia amor. Ele veio, no corpo de uma mulher que foi mutilada virgem, um ovário lhe foi tirado quando tinha apenas 18 anos.  Era eu, ou o ovário. A  vida por um fio.O outro era valente com seus policísticos impetuosos. E, aos 30 me trouxe Namir. 

Juro que quando peguei o exame perdi o chão. Fui tomada por um medo tão grande, afinal apesar de estar na idade da maturidade, eu era ainda meninona no corpo de uma mulher. E pensei, com todos os limites que eu acreditava que meu corpo  tinha, ele  está aqui no ventre, porque era pra ser meu. Encontrei na minha família paterna o alicerce. 

Como é bom ouvir: 

Pode contar comigo. 

Eu

mulher grávida,

 grávida de vida.

Tive a gravidez mais louca e saudável que uma mulher poderia suportar. O abandono, a vida como animadora de um park Aquático, muitos zombavam da palhaça grávida e os puros de coração se encantavam, uma turnê com um espetáculo, dois meses, subindo e descendo avião, de cidade em cidade, uma paixão avassaladora por um carioca. E um segundo abandono. 

Mas a nega aqui, estava firme e forte para dar luz ao seu menino. Que veio de baixo de um dilúvio, o céu de Fortaleza trovoava e o clarão dos raios tomava conta da enfermaria. Nasceu meu Luiz Namir, um ser tão grandioso, de espírito tão sábio que todos os dias me ensina a viver.

Katiana Monteiro – atriz, pedagoga, mãe do Namir e tanto mais.

A Mãe da Minha Filha

Por Roberta Bonfim

Hoje quando escrevo, é sábado. Eu tenho artigos para escrever, outros para ler, a Lugar ArteVistas – arte onde estiver, se reconfigura em outros lugares lindos, e sendo somado por ArteVistas incríveis. E começo a entender qual o meu papel nesse Lugar, e agradeço.

Quase 20 anos depois retomo para três lugares que abandonei no passado, o sonho da psicologia, as ciências sociais e a dança. E não tenho qualquer dúvida que devo essa apuração de olhar e tomada de partidos a existência da minha filha. Que neste momento adentra o quarto dizendo que quer um colinho e eu até ensaiei dizer que estou ocupada, mas, antes do 3 pedido, já estou com ela no colo, beijando, agarrando e repetindo incansáveis vezes que ela é maravilhosa e que eu a amo. 

Desde que me descobri grávida, me repensei tanto e ouvi incontáveis vezes Flaira Ferro, como mantra e oração. E a quase três anos divido minha vida com Ana Luna, a filha, e como é massa viver ao lado dela, ouvindo-a, vendo crescer, e as novas e inúmeras conquistas diárias. Só nesse semestre tivemos tantos desenvolvimentos incríveis. E quando digo tivemos, é isso mesmo. – E se você é jovem e está lendo este texto, preciso alertá-los que não saberemos de tudo, nunca. Viver é literalmente um eterno aprender. E aqui em casa, nesses últimos 30 meses só aprendemos, muito, o tempo todo. Até Clarice Lispector (a gata) em toda sua elegância, tem tido de se adaptar as nossas novas rotinas que são micro alteradas todos os dias.

Mas não posso e nem desejo negar a relevância primordial da Lugar Artevistas – arte onde estiver, por tanto apreendido e transformado. Quero, ao me perguntarem em qualquer situação quem sou, que eu possa responder que sou uma ArteVista. 

E que ser uma ArteVista no forneça sempre meios de dialogar, de encontrar o lugar de respeito aos diferentes iguais que somos e nos complementamos. E a arte e o amor me salvam, e se me salvam penso que podem gerar alguma coisa no outro e é nisso que acredito, que gera, pega, que planta. Se vai brotar, se ao brotar crescerá são cenas de uma capítulo que ainda desconheço e opto por não pensar, pois o amanhã a Deus pertence. Tornar-me ArteVista é buscar a melhor versão de mim e nessa versão o outra cada vez mais me soma e ensina. Gosto de me ver como ponte.

Isso de ser ponte também rola aqui em casa. Por exemplo, tínhamos nos planejado para caminhos diferentes dos que estamos tomando, e aproveitamos e mudamos muitas coisas, nada mais além de umas poucas roupas ficaram guardadas sem serem usadas. No mais toda energia estagnada tá indo encontrar fluidez em outros cantos. Tirei as portas, a mesa, cadeiras, pufs, tirei caixas de coisas. Energia presa ficou sem vez por aqui e ainda vejo excessos que ilusoriamente cremos serem necessários. Muitas coisas doadas, na realidade quase tudo foi doado, mesmo caixas e quilos de papéis, esses doamos para os catadores de resíduos sólidos.

Cada mudança o nascer de um novo olhar, a certeza de que as coisas podem ter ter seus lugares alterados e nós também. Minha filha observa as mudança de casa com atenção e já começa a dar pitacos. Fizemos colaborativamente, eu, Sr. Roberto e Marlene (a vizinha) um teatrinho de fantoche pra ela com a porta da cozinha e com outra porta a bancada da minha mesa. As plantas que são companheiras faz tempo, estão invadindo a casa e Ana Luna diz que é uma floresta e assim vamos exercitando o cuidado com o que se ama e respeita. E uma vez por semana vivemos a aventura de 1 hora em um parquinho da cidade e quando ela ver as árvores vai abraçar, só para nosso alívio, aprender a ver antes se tem ou não formiga.

 

E com teatro, música, dança, leituras e muito faz de conta, trilhando caminhos, ultrapassando e celebrando fases. Neste último mês por exemplo, contudo, conseguimos encerrar a fase da amamentação e agora já estamos a uma semana usando fralda só pra sair e dormir. Mães passando pelas mesmas coisas e querendo trocar ideia, tamo aqui pra jogo. E a partir de dezembro uma segunda por mês no canal Lugar ArteVistas, papos sobre As Mães que Somos. Chega junto!

Vida Remota e a Maternidade

Por Roberta Bonfim

Não sei como funciona na casa da vizinha, mas aqui em casa, estamos nos dando bem, nesse Lugar de vida remota que não é muito distante do lugar que eu já habitava. Já há algum tempo, entendi que estar preso diariamente a um lugar não era a minha parada e que é possível existir sem estar fisicamente. Sou fruto dos anos 80, assisti muitos filmes futuristas, isso ficou no imaginário, e hoje não me assusta por completo. Nessa dos medos, além das baratas, tenho real medo de ET. Mas, isso é papo para um outro momento. Agora quero compartilhar com você que me lê, que ando me sentindo mais viva neste último mês, realizei um desejo antigo de viver um lugar de aprendizado e trocas constantes. Esse exercício da teoria e com direcionamento, para vida. Mas, também por crer que se cada um de nós fizer um pouco somos capazes de coisas incríveis, que as relações em rede são lindas e compõem a doce dança da vida. Entrei no mestrado em Psicologia Ambiental, na UNIFOR, onde graças à dedicação de minha Vó, consigo existir. Grata Dona Hedelita Nogueira. Com a orientadora que escolhi, e que de cara já me deu vários presentes de encontros, e olha que ainda nem paramos só nós duas para trocar uma ideia real, sobre os projetos que caminham juntos. Vou falar sobre isso em algum momento nos texto da terça.

  • FOCA ROBERTA! A aula de inglês de 1 hora na televisão, acaba já já e você nem disse sobre o que vai falar… – penso.

Então, o fato é que com essa da Pandemia, tivemos de nos adaptar, mas aqui em casa, por exemplo o que vivi e vivo, e aqui falo da relação com a maternidade, bem como com essa vida remota. Aqui vivemos ajustes, alguns mais radicais, outros absolutamente orgânicos. No começo do que se tornou uma pandemia eu tinha programas gravados na Varanda Criativa para cortar (um dos meus grandes prazeres nesse lugar, pena que demanda tempo e o tempo tá escasso por aqui) depois veio a temporada de aniversário. Gente! Não sei como isso chega aí, mas aqui, dentro de mim, é tipo Puta que pariu, faz 8 anos que me delicio assumidamente desse lugar de encontro, troca, afetos. Na boa, trago todos com quem já conversei e foram alguns, me apaixonei, mesmo que instantaneamente, por todos. E hoje fazem parte do meu DNA. E agora estou/ESTAMOS montando o como será, e isso também é delicioso. 

  • ÉGUA VÉI! FUGIU DO TEMA DE NOVO. 

O fato é que agora vivo esse lugar de mestranda, pode parecer banal pra você, mas eu estou achando incrível, e não é pelo título, e nem sobre o que vou produzir academicamente é que esse Lugar me abre caminhos para realizar meu desejo de ser mais algumas vezes ponte para ações que beneficiem ao Poço da Draga. Que é inclusive parte do meu objeto de estudo. 

  • GENTEEEE BRASIL! COMO ENROLA. PUTZ!! E O QUE TUDO ISSO TEM HAVER COM A MATERNIDADE?

É isso! Tem tudo haver, pois só por vivermos neste momento remotamente que consigo por exemplo viver o mestrado, pois do contrário, por ser mãe solo. E aqui não posso reclamar no apoio da rede, mas, o fato é que eu não conseguiria sem grandes prejuízos. E assim, venho tentando conseguir, aos poucos e um dia por vez. Com mil demandas. Exemplo, agora são 8:22 da manhã, eu já alimentei criança duas vezes, cuidei do jardim, limpei a casa, lavei a louça de ontem. Montei toda minha agenda fixa, interagindo e brincando com Ana Luna. Agora ela tá na aula de inglês e eu consigo escrever esse texto e se der tempo ainda consigo ler um dos 5 artigos desta semana. 

Consigo assistir aula enquanto lavo a louça, mantendo um caderno e uma caneta por perto para quando sentir que preciso pontuar algo. E que minha filha não saiba, mas consigo ficar sentadinha no sofá com ela vendo um filme, ou deitada na rede balançando ao tempo que participo de algumas reuniões em que eu possa participar menos. Consigo ficar mais tempo abraçadinha com ela, observá-la crescer. E estou exaurida, sonho com 1 mês sem filha e me prometo que por esses trinta dias nem ligarei. hihihihi …

Bem, a aula de inglês acabou, o artigo vai ficar para depois que ela dormir hoje de noite, se eu não capotar antes, como acontece algumas vezes. Ontem tive uma aula de estatística e ensaiei duvidar da minha capacidade de conseguir, mas ainda estou aqui. 

Abraços em quem chegou aqui e se estiver trabalhando de casa, curte o momento, coloque plantas, pinta você mesmo uma parede, se relaciona com o lugar e perceba que há arte onde estiver, e se pá, consegue fazer isso assistindo a uma aula, ou aos nossos programas da Lugar ArteVistas. 😀

FOTO MINHA COM ANA LUNA

Aos que não me conhecem, sou Roberta Bonfim – mãe da Ana Luna e propriedade da Clarice Lispector.