Terapia de Escada

Por Roberta Bonfim

Data: 10 de agosto de 2011.

A que mora na casa vermelha – Ele: Péricles, 36 anos; construiu um pequeno império por ser bom, do tipo muito bom em informática  e só nisso. Tendo muito, sem ter ninguém e decidido a se matar pensa sobre ter um filho, com isso lembra-se da sua relação com seu pai e porque evitou por tantos anos formar uma família. – Ela: Raquel, 32 anos; pensa e sofre com o pedido de seu pai que lhe dê um neto, pensa e sofre o tempo todo por sua relação com o pai, ou a falta dessa relação, pensa e sofre com sorriso no rosto, não se permite se negar a ninguém, não quis aprender a dizer os nãos que sempre teve sem ouvir. – Eu: Eu sou a que mora na casa vermelha, e tudo que eu queria naquela quinta feira era dormir. Mas como? Se eu precisava escrever uma história de verdade para ver no que dava. E logo naquele dia eles se encontram nas escadarias da Lapa. A Lapa foi à escolha por ser sinônimo de poucas desculpas e muitas diferenças. Ele crescerá no rio, mas nascerá em outro lugar, ela sempre estivera ali. Raquel gostava de cantar e Péricles teimava em tocar violão e assim nas escadarias da Lapa pensavam e esqueciam suas muitas questões, ali se sentiam jovens outra vez. Da troca de olhares, o encaixe entre voz e violão e aquela música que diz: “Você diz que seus pais não te entendem, mas você não entende seus pais…” Mais uma troca de olhares, até que Péricles toma a iniciativa de chamá-la pra outro lugar na escada mesmo. Eles sobem um pouco e sentados olhando para baixo, observando pessoas ela diz:

Raquel– Eu sempre andei aqui, vinha com minha vizinha, meu pai pagava ela pra trazer a gente pra brincar de subir e descer escada, umas dez ou 15 vezes, todos os dias, Truque para que chegássemos em casa tão cansados que nem falássemos, nem comecemos e nem pedíssemos atenção, eles estavam ocupados demais para serem pais, e nós… (Pausa – sorrindo meio desconcertada) Nós, bem gostávamos da brincadeira de descer e subir. Aqui nem era tão belo, era apenas uma escada, nosso brinquedo de cansar… (virando-se pra ele) E agora ele me olha na cara e implora para que eu tenha um filho, para que Ele (ênfase) possa se certificar que é um homem melhor, que será melhor avô que pai. (Péricles sorri, vendo na sua frente a chance clara de ser pai, Raquel é a mulher certa para ser a mãe de um filho dele – Tenta falar, mas Raquel nem percebe) Eu na verdade penso que ele esteja querendo continuar a brincadeira de me cansar, para que eu não queira nada além do permitido, do que sobra. (Péricles tenta falar em vão) Mas sabe, estou cansada de sobras. Restos de tempo, pano, roupa, pai, amor, escolhas.

Ambos – Restos!

(sorrindo se olham e como se houvesse sido feito um pacto de desabafo, era a vez dele falar)

Péricles – Eu sempre usei essa escada pra terminar relacionamentos, nunca namorei uma mulher que gostasse de vim aqui, então, sempre que fico de saco cheio as trago e me deixo curtir a brincadeira de voltar a ser adolescente. Tá vendo aquela loira de vestido azul, lindona? Pois é, ela amanhã não me liga mais, principalmente depois de eu a ter deixado lá em baixo. E me desculpe, mas se estamos falando verdades; você não é o que podemos chamar de mulher bela. Mas eu estou feliz de está aqui trocando essa idéia com você. Sei lá! Chego a ter a sensação que já te conheço. (Raquel ouve tudo olhando pra baixo, busca a loira e se questiona sobre quem é mais bela, ela ou a outra e o que é a beleza? São pensamentos). 

Raquel – Não nos conhecemos e eu tenho certeza disso, é exatamente por que não nos conhecemos que estamos sendo tão honestos, é mais fácil sermos quem somos com estranhos que cheios da ignorância genial dos desconhecidos não criam falsas realidades e nem se frustram com nossas imperfeições. Eu não sei nada sobre você, não conheço a loira lá embaixo e nem a acho lindona. Nunca te vi na minha frente, mas sei que você pensa e sofre mais que eu. 

Péricles – Quer ter um filho comigo? Ou melhor, quer ser mãe de um filho meu?

(Raquel sem reação, esboça palavras que não saem, seu corpo diz muito sem nada dizer e Péricles apenas a olha, tranqüilo respeita e espera seu tempo).

A que mora na casa vermelha – Nunca vi isso, eles nunca se viram antes e ele olha pra cara dela e diz: Quer ser mãe do meu filho? Me deu uma vontade de aparecer e dizer que eu aceitava e eu até sou bem ajeitadinha. (sonha) Ai! Um filho nosso seria lindo, já conseguia me imaginar grávida dele, sendo bajulada… E comigo ele teria de arrumar outro lugar para finalizar a relação, pois as escadas eram meu lar. Talvez em um baile socity. Mas foi a ela que ele pediu pra ser a mãe de seu filho, muito provavelmente seu único filho e se tudo corresse como o desejado, seria um filho sem pai, mais um filho sem pai.

Raquel – Sempre gostei de música francesa, amores platônicos, sempre amei dizer que moro em mim, mas preciso admitir que nem tão assim. Ter um filho não é um sonho um mas de meu pai, que mesmo quando eu pedi não esteve comigo, ele podia ter morrido antes mesmo de eu nascer, essa talvez foi a única forma de ele ser um pai maravilhoso, pois seria um pai morto e nós santificamos os mortos, entendemos suas falhas e…

Péricles – Você acha mesmo que o melhor seria um pai morto, eu também penso assim. Só tenho três lembranças de meu pai, ele me colocando na cacunda e caminhando na praia, eu fui muito feliz nesse dia. Lembro dele olhando pra nós dizendo que estava vindo pra cá PR melhorar de vida e depois iria nos mandar as passagens, nunca mandou. Minha mãe que acreditando e justificando tudo, quis crer que ele nos esperava.

Raquel – E a terceira lembrança?

Péricles – Ele bêbado andando aqui pela Lapa. Nos olhou e fez de conta que não nos viu e foi tão forte em sua ação, que mesmo a paixão de minha mãe não lhe tapou os olhos. 

Raquel – Então como seu pai, aqui você abandona suas mulheres? 

Péricles – Nunca havia pensado sobre esse prisma. Mas sempre deixei claro que não acredito no pra vida toda. Mas me diga: Você acredita que melhor pai seria o seu morto?

A que mora na casa vermelha – Ele voltava ao assunto do pai, precisava ter certeza que ela acreditava nisso, pois se acreditasse certamente aceitaria ser a mãe de seu filho.

Péricles –  Você quer ser a mãe do meu filho? Não vou desampará-lo, mas também não estarei presente a idéia é que eu morra alguns meses antes dele nascer, mas até lá encherei vocês de amor e você vai poder realizar o sonho do seu pai e o seu. Dará o neto que mostrara que ele mudou e quem sabe o ensine a ser também um pai melhor pra você, que terá sua casa e uma empresa que nesse meio tempo te ensino a administrar junto com meu irmão e melhor amigo Pedro. 

(Raquel rir e desconcertada pede desculpas)

Raquel – Perdoe-me é que você se chama Péricles e eu seu irmão Pedro. Sua mãe gosta de nomes que lembram homens fortes.

Péricles – Meu nome foi escolhido por meu pai, que ainda dava maravilhosas aulas de histórias e dizia que eu assim como o grego, eu seria repleto de glórias. (Pausa) A gloria de não tê-lo, a glória de viver ao lado de uma mãe que sempre que me olhava chorava por lembrar-se dele, a glória de crescer longe do meu irmão, por que minha mãe não conseguiu trazer a nós dois. Glória…

Raquel – Estamos próximos da Glória, quer ir caminhando até lá? (Rir na tentativa de minimizar a tensão e consegue, Péricles rir e responde que não com a cabeça).

Raquel – Eu poderia te falar sobre todos os meus problemas, minha incapacidade de acreditar… Em mim, mas, como eu já te disse você pensa e sofre mais que eu. (pausa) Não tenho certeza se seria saudável para essa criança ter pais que pensam e sofrem tanto assim. (rir quebrando de vez o clima de tensão)

(Péricles olha para todos em baixo e busca as mãos de Raquel que também esta a observar os boêmios da escada).

Raquel – Longe de mim fazer inferno, mas acho que sua namorada parece ter se enturmado muito bem. Essa deve gostar mesmo de você, ou simplesmente ser mais esperta do que você julgava. Eu tenho que ir, já chega de terapia da escada por hoje.

Péricles – Como assim, terapia da escada? E você não vai quer ser a mãe do meu filho.

Raquel – Como te disse venho aqui desde sempre e já encontrei gente de todo tipo por aqui. Também falo meus problemas e volto pra casa mais leve, para aguentar submissa o silêncio do meu pai. Não seria má idéia ser mãe de um filho seu, vamos conversar mais a esse respeito. Te encontro na próxima quinta para próxima seção?

(Raquel levanta-se e sobe as escadas com uma leveza de quem nem sente os degraus, Péricles a observa subindo)

Péricles – Próxima quinta as 20hrs e pode se preparar, pois será a mãe do meu filho.

(Péricles após acompanhar todo percurso de Raquel, sorrir lembrando-se dela e percebe-se já saudoso).

A que mora na casa vermelha – Como boa espiã que sou comecei a observá-los todas as quintas feiras, teve uma em que ela não foi e ele sentiu tanto sua ausência que a pergunto mudou.

(Eles anos depois sentados nas escadarias com duas crianças brincando de cansar.)

Roberta Bonfim

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