DE COVID-19 À MODA E PREVISÕES

Thanos, causa e efeito da Morte

A Covid-19 pode até ser considerada um marco histórico do ponto de vista de um ensaio político mundial como tentativa de controle da sua expansão. Porém, devemos lembrar que as pandemias mesmos têm uma história. Vivemos em um mundo de experiências complexas. A famigerada gripe espanhola talvez seja a que mais aproximadamente se compara com a covid em termos de expansão. Outras variáveis como letalidade talvez não se apliquem ao mesmo nível que doenças como Aids, Ebola e outras. Também as questões econômicas fazem parte em termos de letalidade quando se fala de mortandade. Lembro que no Brasil morrem anualmente em torno de um milhão e duzentas pessoas, sendo uma das principais causas os acidentes de trânsito. No mundo hoje, há uma estimativa de um pouco mais do que isso para a totalidade de pessoas vitimadas pela Covid-19.

O que tem de mais interessante, entretanto, na observação desse fenômeno é a pouca atenção que tem sido dada para o universo da previsibilidade. Não estou a falar de bruxaria ou xamanismo ou qualquer elucubração mística. Estou falando de uma simples e poderosa ferramenta chamada Ciências Sociais (em maiúsculo para caracterizar a disciplina).

Percebo que pelo menos desde 2013 – naquele episódio da anterior à Copa do Mundo – que o mundo tem vivido uma estranha maneira de se fazer política mas principalmente de entendê-la. Os fundamentos das conquistas nos campos científicos, sociais e tecnológicos estão aparecendo como reféns de uma espécie de “ZeitGeist” do obscurantismo e das crenças anacrônicas. Os exemplos variam entre apologias ao militarismo e à violência ao outro (enrijecimento das fronteiras) até os níveis de crença da terraplanagem e cristais que se colocam no cú para limpeza energética.

Quem ainda não caiu no conto do vigário, tem mantido pelo menos uma visão lúcida do que está acontecendo: uma experiência político-ideológica cujo princípio é a implantação do medo e da discórdia por meio do descontrole proporcionado pela pulverização dos canais de comunicação, cuja finalidade única é a manutenção da estrutura social piramidal. Como as novelas da Record bem sabem: O Egito nunca esteve tão próximo!

PREVISÕES

O que as Ciências Sociais e ainda mais a História nos legaram foi a desconcertante descoberta de que há uma lógica ou raciocínio subjacente por trás da história da humanidade: torna-se imperativo conhecer os seus mecanismos de funcionamento para se fazer previsões. Ou melhor dizendo, antes de se vestir como vidente, prevendo exatamente o que vai acontecer, fazer um enorme serviço para a humanidade: pesquisar as condições que tornaram possíveis certos fenômenos acontecerem como aconteceram. A velha ideia de que se aprende com o passado nunca foi tão óbvia. E útil.

Em um vídeo que correu o mundo nas redes sociais em meados de 2019 vemos o eterno “franzino” – agora “old” – Bill Gates prevendo qual seria a maior catástrofe da humanidade. E pasmem, tratava-se exatamente de uma pandemia. Nada de colapsos financeiros ou guerras nucleares. Pura e simplesmente uma pandemia cujo controle seria inadvertidamente desafiador para as nossas condições políticas, econômicas e emocionais.

Certamente que o construtor de “toaletes baratos” anteviu corretamente esse fenômeno da mesma maneira que anteviu o potencial dos computadores pessoais da década de 80 implantando em cada um deles um sistema operacional de “lixo” capaz de embotar e limitar o pensamento daqueles que realmente visualizavam o que seria a “liberdade” e o “poder da liberdade” com o mundo informacional.

Mas se se quiser realmente entender o que está acontecendo no mundo do século XXI, fundamental é conhecer a história disso que são as Ciências Sociais. Desde pelo menos o século XVI que se fala em “modernidade’. O século XVIII a conheceu sob a roupagem das convulsões sociais movidas pelo novo sujeito chamado “povo”. E no século XX ganhou destaque o uso das máquinas e tecnologias cujo governo social se utilizou para ganhar o “trabalho” das massas. O claro propósito “biopolítico” do século XX foi de não mais garantir ao Estado o poder da morte mas de garantir às forças bio-tecnológicas (campanhas de vacinação, higienização e dietas alimentares que estabelecem padrões discursivos), o poder de “não mais viver e deixar morrer” mas de “fazer viver”. É por isso que somos hoje controlados por todo tipo de mecanismo que vê com maus olhos aqueles que um dia escolheram decidir morrer de determinadas maneiras. O discurso contemporâneo de hoje só tem como objetivo ocultar o poder da morte.

MODA

Surpreendentemente, um dos campos que podem parecer distantes de quem fala sobre economia e política é justamente o que mais têm dado exemplos de previsibilidade comportamental: a moda. Esse campo essencial e ao mesmo tempo estético da humanidade é o campeão em revelar tendências. O ponto de vista estético é aliás um dos grandes campos promissores para se entender o mundo. O grande místico marxista Walter Benjamin trouxe acertadamente a previsão de como poderia se desdobrar para o mal o advento da fotografia e das filmagens sob controle estatal. O nazi-fascimo com a sua faceta imagética de um “volksgeist” fornecia a identidade de uma unidade política coesa capaz de obstinadamente sacrificar seus outros irmãos humanos em prol de uma raça ou de um Estado mais forte.

Para mim é assustadoramente esclarecedor o que acontece no cinema. O poder de grandes mentes que governam a imagem do mundo e que quase naturalmente moldam quem somos. O final da saga da série “Os Vingadores” foi um reflexo do que acontecia na estrutura mundial. A partir da agência de Thanos se previu em apenas poucos meses o fenômeno universal de uma mortandade cujo significado obscuro apenas a sua consciência era capaz entender. Thanos fez o papel de carrasco tal que os agentes nazistas que se explicaram no julgamento de Nuremberg declarando terem feito o que fizeram “porque estavam recebendo ordens”. Engana-se quem pensa que a ordem vinha somente de Hitler. A “voz” que lhes dizia o que deveriam fazer não tinha origem num único líder – tal como a errônea visão de heroicidade que Hollywood gosta de propagar – mas no incrível místico poder que é a capacidade de unificar a imagem do indivíduo dentro de algo maior do que ele, um pertencimento coletivo, o Estado soberano, ou Deus.

PANCADA

Hoje, o princípio básico do binômio amigo-inimigo funciona perfeitamente para unir a Humanidade contra um Vírus. A grande contradição que vivemos e que poderá ganhar uma resolução futura está acontecendo justamente agora. Estamos no olho do furacão. O futuro da humanidade dependerá da capacidade de resolução que construiremos em relação à imagem do planeta em torno de si. Mais do que uma visão Extra-Terrestres de Marcianos invadindo o planeta tendo como arsenal de defesa as bombas nucleares construídas no século XXI viveremos agora um desafio ainda maior. Nossos extra-terrestres são invisíveis e as armas de defesa dependerão de um entendimento sobre o que é ética e moral. Mais uma vez trata-se de deslocamento de fronteiras. De que lado você estará lutando? E afinal você sabe quem é o seu inimigo? Ainda mais importante, você sabe qual a sua verdadeira guerra?

Quem estiver vivo, viverá e/ou só verá…

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