Brasileiros: um papo sobre vira-latas, futebol e auto-estima

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo
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“Complexo de Vira-Latas”, crônica de Nelson Rodrigues

Que o Brasil é o país do carnaval, futebol e de corpos bonitos todo mundo sabe. Essa característica da nossa identidade é vendida aos quatro ventos. Se não somos nós mesmo que a reproduzimos, ela vem quase naturalmente para nós quando um contato imediato com qualquer estrangeiro acontece. Alguns estrangeiros – lá fora – adoram receber visitantes brasileiros pelo seu intrínseco gosto por festas e principalmente pelo seu “poder de compras no exterior”. Entretanto, é válido perguntar até que ponto essa imagem reproduz  alguns desvios que embora não explicitamente expressos, repercutem mal na nossa imagem.

A questão do “latin-lover” é uma delas. Por exemplo, quando um “macho brasileño” se vangloria de ser um conquistador, tem ele a dimensão de quanto pode ser mal-visto por mulheres que querem compromissos mais sérios? No meu entender, perde ele e perde também toda uma cadeia de homens que gostariam de desenvolver suas vidas sem esse tipo de preconceito. Além disto, podemos citar as tradicionais ideias de que sofrem muitos  brasileiros que moram no exterior: a ideia de serem fanfarrões, homens e mulheres, sim; de estarem sempre atrasados para compromissos (uma prática habitual e bastante cultuada no Rio de Janeiro); de não se esforçarem para aprender a língua local. E a coisa toda fica mais interessante quando tudo isso pode ser contraditoriamente vista pelo viés dos “sucess cases” de brasileiros bem-sucedidos em diversos ramos. 

O Brasil porém não é o único a sofrer esse tipo de preconcepção. Listei aqui alguns estereótipos contidos numa representação da identidade de alguns países. Como toda questão de identidade, dois pontos de vista são essenciais: a maneira como o sujeito enxerga a si mesmo e a maneira como os outros o enxergam.  Veja o gráfico abaixo.

Como os países se veem

USA: Técnicos. As trincheiras da inovação. 

Rússia, Argentina, República Tcheca e África do Sul enxergam-se como determinadas e calculistas, embora com doses de humor e diversão.

Brasil, Espanha e Itália: Países da diversão. Harmonia musical.

França, Itália e Reino Unido: Pertencentes à ilha da civilidade. Seriam os precursores da cultura, conectados ao Reino Unido pelo estreito da “liderança”.

Egito, Arábia Saudita, Paquistão, Índia e Tailândia: Seria o reino da “Espiritânia”. A população desses países se descrevem como focados nas famílias e espirituais, mas ao mesmo tempo respeitosos e receptivos ao estrangeiro.

China e Coreia do Sul: O continente das indústrias. Definem-se como gênios.

Hong Kong, Japão, Singapura, Alemanha e Finlândia: Uniformizados. Trabalho duro, consistentes e organizados. Veem-se com experiência e conhecimento suficiente para no ramo das tecnologias mas também um pouco decantes.

Como os países enxergam os outros

Austrália e Canadá: A Equilíbriolândia. Os mais equilibrados do planeta.

Rússia, USA e UK: Países de orgulhosos e presunçosos

Tailândia e México: Vila do descanso

Brazil Itália e Espanha: “Funlandia”

Hong Kong, Japão e Alemanha: Uniformelândia

China: Gênioestão

Egito, Arábia Saudita e Paquistão: Espiritânia 

Em 1958, o dramaturgo, cronista e boleiro Nelson Rodrigues escreveu que o mal do brasileiro era o “complexo de vira-lata”. Fazendo referência às desilusões provocadas pelas copas do mundo de 1950 e 1954. Na década de 1950 o Brasil perdeu para o Uruguai por 2 x 1 em pleno Maracanã, em 1954 o Brasil sem se saber classificado vai para as quartas de finais e perde para a Hungria por 4 x 2.

A derrota de 1950 só seria superada em 1958 quando o Brasil ganhou o primeiro título mundial na Suécia. Salve Nelson Rodrigues! Previu o que estava escondido na alma brasileira. Interessante notar que o jargão “complexo de vira-lata” teria ficado esquecido até a década de 1990 quando novamente o Brasil se viu às voltas com sua questão de identidade em meio ao processo de redemocratização e de inserção na economia mundial. Fora a copa de 1994 que teria coroado esse processo. Claro! 

E hoje? Ainda podemos nos perguntar em até que ponto somos vira-latas em uma espécie de sentimento kármico que alterna entre a constante euforia e a baixa auto- estima?

Minha memória recente indaga o que foi o 7 x 1 contra a Alemanha em 2014 (também no Maracanã), em um contexto de denúncia à corrupção em 2013, logo substituído pelas esperanças (re)patrióticas da copa de 2018, seguido de uma eleição em 2019 que pretende reerguer o país em termos morais contra a corrupção. Acho que até agora ninguém entendeu direito o que aconteceu. Estamos ainda atordoados.

Agora em 2020. Se olharmos para a história, seguindo essa linha de raciocínio, não será difícil prever o futuro de uma nação que se contentará com as migalhas de uma política violenta (mercadológica, massificada e segregacionista) se promovendo para a reeleição enquanto houver a construção eufórica de uma auto-estima ilusória no campo de futebol em 2022. 

Cão de Raça vs. Vira-lata

Observar a História não torna difícil a conclusão de tais prognósticos. Mas olhemos mais de perto sobre as características desse “vira-latismo”. O que é ser um cão vira-lata?

Alguns podem argumentar sobre a não-diferença entre cães de raça e vira-latas visto que ambos são cães. Igualmente “fofos” e dignos de amor, carinho, respeito. Mas será isso mesmo? E em que sentido afinal não se pode diferenciar um cão de outro? No fim, essas mesmas concepções seriam também válidas para os seres humanos?

É sabido que os chamados SRD (Sem Raça Definida) perdem o padrão racial quando há mistura de mais de duas raças. Por padrão racial entende-se comportamento. É só observar a diferença entre um pastor alemão e um bug na maneira de se posicionar quando andam com o dono. Por exemplo, o fato de andar na frente ou ao lado; um é certamente mais alerta que o outro; mais ou menos brincalhão; e o fato de fazer alarde para qualquer coisa que se mova que pode irritar perfeitamente os vizinhos.

Assim, a escolha de adoção (ou compra) de um cãozinho dependerá em certa medida da relação que o dono pretende possuir com ele. Em uma rápida busca pela internet observei algumas perguntas que foram colocadas em relação aos cães SRD:

São mais fáceis de serem educados?

Eles cheiram mais ou menos que os de raça?

Comem qualquer coisa? Seriam eles mais resistentes às doenças?

São mais espertos que os cães de raça?

Sobre a educação, saltou-me aos olhos o fato de que na maioria dos casos quando se pega um cachorro por impulso, o cachorro acaba não tendo o tratamento adequado. Observei algumas definições sobre os “vira-latas” no quesito comportamento. Eles não têm um comportamento típico, de modo que ele é “aberto”, diferentemente do que um cão de raça faz. Sendo sua característica mais intrínseca o fato de ser moldável. É necessário observar se veio já adulto ou filhotinho, pois esse fator deve influir na educação que ele deverá receber.

Em relação ao cheiro ou se comem qualquer coisa, essa questão foi respondida como sendo fundamentalmente dependente do “dono”. Ou seja, os cuidados com banho, tosa e alimentação acabam se relacionando com a valorização dos cuidados por parte do dono. E mais, diante da decisão de adotar, o fato de ter sido por compra ou doação pareceu influenciar bastante, visto que alguns donos acham que podem economizar mais tendo um cão vira-lata, isso desde a compra, passando pelo tipo de ração e os remédios que porventura venham precisar. Sim, a questão do custo pareceu ter um peso fundamental, além do “amor”.

Um dos veterinários alertou para a questão de “atribuição de um passado de sofrimento” do SRD, já que a pessoa pode enchê-lo de mimos para tentar compensar o passado, como se a culpa fosse dele, tentando aplacar um suposto sofrimento do cão. Os especialistas dizem que o excesso de mimo pode levar o cão a exigir uma atenção em momentos inoportunos como o cotidiano de trabalho, recepção de convidados em casa, e outras tarefas que podem provocar ruídos (literalmente) na casa. Recomenda-se, pois, que se esqueça o passado e viva o presente. Afinal, fora da rua, agora ele é um cachorro normal como qualquer outro.

Sobre o fato de serem mais resistentes à doenças parece que a maior parte das respostas foi afirmativa em favor dos cães de rua. Contribuem dois principais fatores: 1) genético 2) seleção natural. Os SRD têm menos problemas genéticos. As doenças genéticas são provenientes de genes recessivos. Assim, os vira-latas são mais resistentes às doenças, embora não sejam imunes às doenças virais e de bactérias como qualquer outro cão, de raça ou não. O segundo fator seria darwinista (muito melhor encaixado nesse contexto do que numa visão social, não é mesmo?!). Ou seja, aplica-se a máxima de que “na rua sobrevive o mais apto”. Sem dúvida alguma, o fato de ter sobrevivido sozinho na rua o colocaria como mais resistente aos desafios impostos.

No quesito inteligência, encontrei um “ranking” feito por um estudioso. Stanley Coren, em “A inteligência dos cães” relaciona 133 raças organizadas em níveis de inteligência entre 1 a 79. Fonte: Ranking de inteligência canina https://tudosobrecachorros.com.br/inteligencia-dos-caes/#ixzz6alSj8gP0

Importante dizer que ele define “inteligência” como “Inteligência de Obediência e Trabalho”, e não da inteligência “Instintiva” dos cães. A inteligência tem componente genético mas também de estímulo dessa inteligência. Suponha-se que um filhote venha das ruas, será que ele não teve desafios maiores que outros cães menos sujeito a esses desafios?

Quantas repetições são necessárias para ele entender? Enquanto um labrador pode precisar de apenas 2 repetições um cão da raça pug necessitaria de 30 repetições. A diferença é enorme. Ainda assim, alguns questionaram essa medição de inteligência quando se pensa que esses cães na verdade são apenas teimosos, não correspondendo às expectativas da obediência humana. 

Brasil: país de vira-latas?

Encaminho-me para a conclusão desse doloroso artigo. Trago ainda mais dúvidas do que respostas, como é sabido. Colocando em perspectiva alguns desses “traços caninos”, podemos nos perguntar a maneira pela qual podemos afirmar a valorização ou desvalorização do “ser humano vira-lata”? Tomando tais pressupostos, o que significaria fazer um “elogio ao vira-lata”, como faz o economista Eduardo Gianetti? Implicaria certamente observar as características em aspectos positivos mais do que negativos, por suposto.

Nesse sentido, em que medida são os “brasileiros” mais valorizados que os países do Norte, ou os “cães de raça”? Humberto Mariottis fala em “O complexo de inferioridade do brasileiro (fantasias, fatos e o papel da educação)” que:

O vira-lata se satisfaz com o pouco que lhe dão, ou mesmo com o que não lhe dão mas que ele consegue no dia-a-dia. Concessões mínimas, pequenas sobras são para ele grandes vantagens. Conseguir ser atendido num posto de saúde, depois de longas esperas em filas intermináveis, e atravessar o Atlântico para ganhar em euros, mesmo sem grandes chances de mudar de patamar socioeconômico, são dois exemplos. Trata-se, como já foi dito, de alimentar a sensação de que já se alcançou alguma coisa numa população em que muitos nada conseguem.

Link: http://web.archive.org/web/20071225092632/http://www.revistabsp.com.br/0608/ensaio1.htm

Tomando alguns dos pontos sobre o mundo animal aqui elencados, façamos então uma espécie de ensaio sociológico. 

A primeira diz respeito ao comportamento. Qual seria então o comportamento típico de

determinado povo ou etnia? A questão é delicada e está sujeita ao terreno movediço da diferenciação étnica. A Alemanha do nacional socialismo (nazi) trouxe essa questão sensível, colocando até mesmo sem querer – ou “sem  querer querendo” – no seu movimento a contribuição de intelectuais anti-fascistas no “hall” dos que contribuíram – involuntariamente – para a construção teórica da supremacia de um povo. Afinal, qual seria o comportamento típico de um chinês, de um russo ou de um japonês? O que dizer dos países multiculturais que não se definem por fronteiras muito rígidas como Austrália, Canadá, França e Estados Unidos? Essa é sem dúvida uma questão que deve ser relegado aos especialistas das questões sobre “representação e identidade”.

Como compreender essas singularidades? Entre os que adotam a “diferença” e a “igualdade” como ontologia, que tipo de valores poderão emergir? Como se dá a relação entre “diferença” e “igualdade”? Que classificações e organizações podem emergir?

Para além desses dois pontos de vista, um inimigo: aqueles que enxergam divisões hierárquicas como constituintes da existência. Não custa lembrar que não faz muitos anos que as teorias de supremacia racial pairavam sobre as mentalidades de acadêmicos e políticos para justificar as práticas de segregação e de desenvolvimento nacional. As políticas de eugenia no Brasil, por exemplo, promoviam o “embranquecimento” da população pela imigração estrangeira para que se retirassem os “elementos negativos” da nação. Esses elementos na maioria das vezes faziam alusão ao índio e ao negro. O primeiro estando associado à resistência ao trabalho e ao progresso, portanto indolente e dissimulado. E o segundo, vinculado ao trabalho, porém contraditoriamente menosprezado uma vez que valorativamente associado à mão de obra exclusivamente mecânica. 

5 Variáveis Caninas para Interpretar o Vira-Latismo

Como o que acontece hoje é uma completa falta de entendimento mútuo (dentro e fora das redes sociais), principalmente em relação às palavras e aos conceitos, vale a pena esclarecer o meu ponto de vista, com essa fundamentação: sou daqueles que enxergam mais a diferença do que a igualdade. Nesse quesito, não significa que eu enxergue o cão de raça como superior ao vira-lata. Ao mesmo tempo não significa de modo algum que sejam iguais.

Vejamos os pontos de ataque para uma “sociologia do vira-latismo”. De acordo com o meu estudo sobre os SRD – reitero: Sem Raça Definida – percebi cinco fatores que poderiam ter suas variáveis de estudo aprofundadas:

  1. O comportamento típico do cão de raça vs. o comportamento “aberto” e “moldável” do vira-lata
  2. O papel dos donos, que no meu entender se relaciona em paralelo com o papel dos Estados modernos e a maneira como os governos lidam com sua população em termos de cuidados, educação, saúde e bem-estar
  3. A ideia de um “passado de sofrimento”, muitas vezes atrelado à uma percepção  histórica dos malefícios da colonização por parte dos países europeus
  4. A resistência às doenças: em níveis genéticos e de seleção natural (as adversidades superadas para sobreviver)
  5. Uma visão da inteligência voltada menos para uma espécie de “instinto animal” do que para uma “Inteligência de Obediência”. Isto é, o tipo de relação em que se espera que o cão obedeça à uma ordem. Em outras palavras, em que medida as horas de trabalho serão contabilizadas para a produção de valor em termos de medição global.

InConclusão

Chegamos por enquanto ao ponto de estabelecer as bases para um diálogo à respeito da identidade. Isso pode ser colocado para qualquer perspectiva identitária. Mas estou interessados aqui na questão específica do brasileiro. Como ele se enxerga? Que modos de vida o definem? Quem o define, ele mesmo ou o outro? Ambos? Seria ele digno, menos ou mais que outras contribuições de outros países?

Importa saber, acima de tudo, como nos relacionamos com essas questões interiormente. Penso que há certamente algo que reverbera quando um corpo sai do seu lugar-comum. Quando se coloca no “exterior”, expresso e visível para olhares e julgamentos. Como se relacionar com esse outro que pode ou não devolver uma expectativa criada por aquele sujeito antes tão confiante?

Você, caro leitor, já se viu envolto dessas questões? Já te perguntaram quem você era e o que fazia lá fora? Como você respondeu a essa demanda? Aliás, que chances você tem de resposta em um mundo que em primeiro lugar te encaixota, sela e que agora te vende com uma arroba @ virtual?

Gus Xavíer é ator, historiador e capoeira.

Gosta de muitas coisas e por isso se considera um generalista que vive num mundo que insiste em se especializar.