O bom encontro é de 2

Os relacionamentos só acontecem com mais de um. Não há dúvida. É bem verdade que quem está só, sozinho, solitário ou “alone” pode se sentir, às vezes, “pleno”. Mas essa solidão típica dos ermitões do deserto é uma ilusão. Ela não e verdadeira. É uma espécie de arrogância achar que se pode estar sempre sozinho. Que se pode pensar sozinho. Que se pode viver sozinho.

Um relacionamento existe para que aprendamos a conviver com a diferença. Desde o início dos tempos, pelo menos é o que se conta. Desde células unicelulares a pluricelulares, assexuadas e sexuadas que é o equivalente às histórias bíblicas, de onde seres unicelulares se dividiram (mitose-assexuada) para formarem duas entidades com os mesmos componentes genéticos (Adão e Lilith), ou a divisões mais complexas (meiose), originando células com componentes genéticos distintos e cuja reprodução se dá de forma sexuada (Adão e Eva), é que se fala da intrínseca relação da união e separação.

Na humanidade, muito se tentou argumentar que o essencial do ser humano seria sua violência por conta de uma espécie de egoísmo inato. A justificativa perfeita para se fazer guerras. Essa justificativa pretendia somente fazer jus aos interesses mais obscuros. (Um bom exercício é procurar saber quem se beneficia delas). O recurso de comparação com os animais, p.ex., foi usado para justificar esse ou aquele comportamento. O que levou também a uma espécie de darwinismo social. Ora, foi somente nos últimos anos, por meio de estudos, dentre eles, os antropológicos, que se constatou o caráter societário do ser humano. Aquela velha imagem do “homem das pedras” violento com um catape na mão hoje faz parte somente da ignorância de algumas poucas cabeças. Constatou-se que foi somente pela cooperação que o ser humano pôde sobreviver às diversas calamidades da natureza, enchentes, escassez e intempéries. Uma cooperação que ainda tem o potencial de crescer. Longe de um paraíso na Terra, ainda estamos mais próximos de uma espécie de “sociabilidade insociável” como Kant a definiu nos fins do século XVIII.

Em tempos pandêmicos, esse paradoxo kantiano se torna ainda mais evidente. Em que medida podemos nos relacionar e em que medida devemos nos afastar uns dos outros? Uma coisa é certa: sem uma atenção à devida equação dos relacionamentos, essa bactéria sobreviverá mais do que nós. Ainda falta muito para nós tomarmos consciência do nosso poder, da nossa singularidade e da nossa natureza. O nosso real poder. Uma natureza que deve ser responsável e co-criadora. Não há outro caminho. Somente a observação, o aprendizado e a vontade de se desenvolver para além das nossas pequenezas limitantes é que um dia poderemos olhar um para o outro e entender que Eu sou o Outro e o Outro sou Eu.

Por que razão senão essa existem os opostos? Um ensinamento cabalístico poderoso pode trazer luz à essa inquietação. Conta-se que no início dos tempos quando Deus resolveu criar o mundo, ele o concebeu como algo perfeito. Dessa maneira, tudo estava no seu lugar. Mas então, percebeu que o Universo como tal precisava de um receptor. Dentro da sua enorme capacidade de dar e criar, ele percebeu que precisava também de alguma coisa que pudesse receber todo o seu esplendor. Tal como uma corrente elétrica que flui em determinada direção, era assim que a energia estava colocada, estabelecida numa ordem. Foi então que algo estranho aconteceu. Um belo dia, aquele pólo que recebia, embora muito agradecido por tudo que tinha e recebia infinitamente, decidiu que também queria dar. Isso gerou um curto-circuito no mundo e foi nesse momento que o mundo se fragmentou, ocorrendo o que a ciência chama de Big-Bang. Esse é um sentimento parecido com o daqueles pais super-protetores que fazem seus filhos sentirem o chamado “pão da vergonha”, quando lhes é cerceada a capacidade de adquirem por seus próprios meios o seu ganha pão.

Kabbalah em hebraico significa “recepção”. E enquanto fragmentos dessa explosão, nós seres humanos (ou melhor a nossa consciência) encontra-mo-nos divididos entre a capacidade de doar e receber. Nós podemos ser muito generosos e responsáveis, mas muitas vezes, podemos chegar ao âmago do nosso egoísmo, querendo somente receber. É assim que o mundo é constituído. É como o Sol e a Lua, quando um dá e o outro recebe. Dessa mesma maneira, nós somos aqueles que Deus atribuiu a tarefa de consertar o mundo, para sermos co-criadores da sua criação. Apenas no momento em que tomarmos consciência global de que somos Um e que todos podem receber da mesma maneira que doar é que teremos corrigido todo o mal que existe. Portanto, relacione-se, viva, ensine, conserte, quebre o ego inúmeras vezes quantas forem precisas, recobre-se, reconstrua-se, junte os caquinhos do ego, fique grande, fique pequeno. Mas, no fim, por favor, compartilhe.

Juntemos os cacos e compartilhemos a cola.

A vítima

A vítima

Todos nós já vimos imagens que mostram o quão perversa pode ser a humanidade. De um ponto de vista cinematográfico, por exemplo, já estamos acostumados a perceber “de cara” quem são os vilões e heróis das histórias que assistimos, lemos e ouvimos.

Quando fiz meu mestrado em Relações Internacionais, estudei um pouco sobre essa relação carrasco-vítima num âmbito muito particular: a colonização. Lembro que a literatura com que me envolvi na época “abriu minha mente” em relação ao que eu entendia por processo colonizador. Tudo que havia aprendido antes sobre a relação colonizador-colonizado se desconstruiu na minha frente como se fosse uma série de dominós enfileirados. Aprendi que o colonizado não é e nem nunca foi uma vítima passiva nessa relação.

Em algum momento, é a construção “a posteriori” da História que os colocou nessa posição. Antes, porém, houve luta, batalha, avanços e retrocessos. Isso me ensinou uma coisa sobre a história: que existem mil e uma maneiras de sobreviver.

Na esfera das nossas vidas privadas acontece o mesmo. E talvez seja relevante levarmos esses acontecimentos da esfera macro para a micro. Por exemplo, quando queremos viajar para um outro país, fazemos as malas, checamos o necessários e nos preocupamos principalmente com o “passaporte”. Quando finalmente chegamos na fronteira daquele país, apresentamos nossas credenciais a fim de ingressar no pais hospedeiro. Daí vem a pergunta mais essencial de todas: onde está a fronteira desse país? Pela Geografia e pela História, vemos, ouvimos e pensamos que o mundo tem limites bem definidos. Porém, não é bem assim que acontece na realidade. No nosso caso, a fronteira é simplesmente o “guarda” que se encontra na sua frente. O mesmo que vai verificar sua foto, seu nome, e fazer perguntas sobre seu objetivo com aquela viagem.

A fronteira, meus amigos, está nas nossas cabeças. As histórias que aquele guarda viveu o transformou num “agente” daquele país. Da mesma forma, as histórias que escutamos nos transforma em cidadãos “agentes” das fronteiras de nossos países. Tudo o que fazemos na vida é carregar histórias.

Portanto, é no nível micro que conseguimos enxergar de forma mais transparente as relações de poder. O ritual do “apresentar o passaporte” na “fronteira”, equivale ao ritual de “tornar-se homem ou mulher” nas “nossas famílias”, o que equivale a dizer que o ritual de “vencer na vida” depende também de um cenário estruturado cujos valores é a “sociedade” que vivemos que vai decidir o que vale ou não. Dito de outra maneira, para ser vilão ou herói, primeiro, nós nos posicionamos (consciente ou inconscientemente) numa relação dinâmica, controversa, entrecortada, mal-definida, recontada e vivida, posto que seja uma relação ainda em processo. Um devir. Só depois de vencidas as batalhas, ou mesmo a guerra, é que se pode falar em vilão ou herói.

Uma peça da Broadway que me vem agora na mente fala disso, chama-se “Wicked”, que conta a história da Bruxa Má do famoso Mágico de Oz. Nela, nós conhecemos melhor a história dessa temida bruxa. Entendemos o quanto foi mal-entendida, vítima de uma sociedade que a via de forma diferente, isto é, fora dos padrões e, por isso mesmo, excluída.

Ora, o chamado “bullying” é isso mesmo. É a expressão da crueldade da infância e da adolescência. Só recentemente é que temos tentado lidar com essas questões de forma mais transparente na esfera da opinião pública. Por isso, é importante discutirmos algumas diferenças: afinal, o que é ser uma vítima, o que é o vitimismo ou quando superamos esse lugar nos tornando sujeitos da nossa própria história?

Quem sabe no próximo mês, não desçamos ainda mais o nível para as esferas mais corriqueiras da vida… Como não sou tão cronista como gostaria de ser, talvez algum dos leitores queira compartilhar uma ou outra história de superação do vitimismo. Um forte abraço a todos e todas.

Gustavo X. Damasceno

Ator, capoera e contador de história. Licenciado pela UFC em História Social, mestrado pela PUC-Rio em Relações Internacionais. É responsável pelo texto do quadro “Des-construção”, na terceira sexta de cada mês.

DE COVID-19 À MODA E PREVISÕES

Thanos, causa e efeito da Morte

A Covid-19 pode até ser considerada um marco histórico do ponto de vista de um ensaio político mundial como tentativa de controle da sua expansão. Porém, devemos lembrar que as pandemias mesmos têm uma história. Vivemos em um mundo de experiências complexas. A famigerada gripe espanhola talvez seja a que mais aproximadamente se compara com a covid em termos de expansão. Outras variáveis como letalidade talvez não se apliquem ao mesmo nível que doenças como Aids, Ebola e outras. Também as questões econômicas fazem parte em termos de letalidade quando se fala de mortandade. Lembro que no Brasil morrem anualmente em torno de um milhão e duzentas pessoas, sendo uma das principais causas os acidentes de trânsito. No mundo hoje, há uma estimativa de um pouco mais do que isso para a totalidade de pessoas vitimadas pela Covid-19.

O que tem de mais interessante, entretanto, na observação desse fenômeno é a pouca atenção que tem sido dada para o universo da previsibilidade. Não estou a falar de bruxaria ou xamanismo ou qualquer elucubração mística. Estou falando de uma simples e poderosa ferramenta chamada Ciências Sociais (em maiúsculo para caracterizar a disciplina).

Percebo que pelo menos desde 2013 – naquele episódio da anterior à Copa do Mundo – que o mundo tem vivido uma estranha maneira de se fazer política mas principalmente de entendê-la. Os fundamentos das conquistas nos campos científicos, sociais e tecnológicos estão aparecendo como reféns de uma espécie de “ZeitGeist” do obscurantismo e das crenças anacrônicas. Os exemplos variam entre apologias ao militarismo e à violência ao outro (enrijecimento das fronteiras) até os níveis de crença da terraplanagem e cristais que se colocam no cú para limpeza energética.

Quem ainda não caiu no conto do vigário, tem mantido pelo menos uma visão lúcida do que está acontecendo: uma experiência político-ideológica cujo princípio é a implantação do medo e da discórdia por meio do descontrole proporcionado pela pulverização dos canais de comunicação, cuja finalidade única é a manutenção da estrutura social piramidal. Como as novelas da Record bem sabem: O Egito nunca esteve tão próximo!

PREVISÕES

O que as Ciências Sociais e ainda mais a História nos legaram foi a desconcertante descoberta de que há uma lógica ou raciocínio subjacente por trás da história da humanidade: torna-se imperativo conhecer os seus mecanismos de funcionamento para se fazer previsões. Ou melhor dizendo, antes de se vestir como vidente, prevendo exatamente o que vai acontecer, fazer um enorme serviço para a humanidade: pesquisar as condições que tornaram possíveis certos fenômenos acontecerem como aconteceram. A velha ideia de que se aprende com o passado nunca foi tão óbvia. E útil.

Em um vídeo que correu o mundo nas redes sociais em meados de 2019 vemos o eterno “franzino” – agora “old” – Bill Gates prevendo qual seria a maior catástrofe da humanidade. E pasmem, tratava-se exatamente de uma pandemia. Nada de colapsos financeiros ou guerras nucleares. Pura e simplesmente uma pandemia cujo controle seria inadvertidamente desafiador para as nossas condições políticas, econômicas e emocionais.

Certamente que o construtor de “toaletes baratos” anteviu corretamente esse fenômeno da mesma maneira que anteviu o potencial dos computadores pessoais da década de 80 implantando em cada um deles um sistema operacional de “lixo” capaz de embotar e limitar o pensamento daqueles que realmente visualizavam o que seria a “liberdade” e o “poder da liberdade” com o mundo informacional.

Mas se se quiser realmente entender o que está acontecendo no mundo do século XXI, fundamental é conhecer a história disso que são as Ciências Sociais. Desde pelo menos o século XVI que se fala em “modernidade’. O século XVIII a conheceu sob a roupagem das convulsões sociais movidas pelo novo sujeito chamado “povo”. E no século XX ganhou destaque o uso das máquinas e tecnologias cujo governo social se utilizou para ganhar o “trabalho” das massas. O claro propósito “biopolítico” do século XX foi de não mais garantir ao Estado o poder da morte mas de garantir às forças bio-tecnológicas (campanhas de vacinação, higienização e dietas alimentares que estabelecem padrões discursivos), o poder de “não mais viver e deixar morrer” mas de “fazer viver”. É por isso que somos hoje controlados por todo tipo de mecanismo que vê com maus olhos aqueles que um dia escolheram decidir morrer de determinadas maneiras. O discurso contemporâneo de hoje só tem como objetivo ocultar o poder da morte.

MODA

Surpreendentemente, um dos campos que podem parecer distantes de quem fala sobre economia e política é justamente o que mais têm dado exemplos de previsibilidade comportamental: a moda. Esse campo essencial e ao mesmo tempo estético da humanidade é o campeão em revelar tendências. O ponto de vista estético é aliás um dos grandes campos promissores para se entender o mundo. O grande místico marxista Walter Benjamin trouxe acertadamente a previsão de como poderia se desdobrar para o mal o advento da fotografia e das filmagens sob controle estatal. O nazi-fascimo com a sua faceta imagética de um “volksgeist” fornecia a identidade de uma unidade política coesa capaz de obstinadamente sacrificar seus outros irmãos humanos em prol de uma raça ou de um Estado mais forte.

Para mim é assustadoramente esclarecedor o que acontece no cinema. O poder de grandes mentes que governam a imagem do mundo e que quase naturalmente moldam quem somos. O final da saga da série “Os Vingadores” foi um reflexo do que acontecia na estrutura mundial. A partir da agência de Thanos se previu em apenas poucos meses o fenômeno universal de uma mortandade cujo significado obscuro apenas a sua consciência era capaz entender. Thanos fez o papel de carrasco tal que os agentes nazistas que se explicaram no julgamento de Nuremberg declarando terem feito o que fizeram “porque estavam recebendo ordens”. Engana-se quem pensa que a ordem vinha somente de Hitler. A “voz” que lhes dizia o que deveriam fazer não tinha origem num único líder – tal como a errônea visão de heroicidade que Hollywood gosta de propagar – mas no incrível místico poder que é a capacidade de unificar a imagem do indivíduo dentro de algo maior do que ele, um pertencimento coletivo, o Estado soberano, ou Deus.

PANCADA

Hoje, o princípio básico do binômio amigo-inimigo funciona perfeitamente para unir a Humanidade contra um Vírus. A grande contradição que vivemos e que poderá ganhar uma resolução futura está acontecendo justamente agora. Estamos no olho do furacão. O futuro da humanidade dependerá da capacidade de resolução que construiremos em relação à imagem do planeta em torno de si. Mais do que uma visão Extra-Terrestres de Marcianos invadindo o planeta tendo como arsenal de defesa as bombas nucleares construídas no século XXI viveremos agora um desafio ainda maior. Nossos extra-terrestres são invisíveis e as armas de defesa dependerão de um entendimento sobre o que é ética e moral. Mais uma vez trata-se de deslocamento de fronteiras. De que lado você estará lutando? E afinal você sabe quem é o seu inimigo? Ainda mais importante, você sabe qual a sua verdadeira guerra?

Quem estiver vivo, viverá e/ou só verá…

O TESTAMENTO DO EU

Esse texto não é apenas o fim de uma série de artigos sobre a questão da identidade. É também o testamento do “eu”.

Era ainda o ano de 2019 quando pela primeira vez li o livro “A vida e a morte no budismo tibetano” de Chagdud Tulku Rinpoche. Nele o monge tibetano nos ensina a importância de lidar o mais cedo possível com o temor da morte. Quando terminei de ler o livro, imediatamente me veio a vontade de fazer o meu testamento. Sim, eu já havia pensado nisso muito antes, mas foi somente após lê-lo que me surgiu a necessidade espiritual de realizar essa ato testamentário. Esse texto que ora apresento faz parte do meu processo de descoberta de que o “fim” deve ser reconhecido como parte de intrínseca da nossa Jornada.

“Quem sou eu?” (ECO…)

A minha participação de escrita nesse blog começou com essa pergunta. E pretendo aqui respondê-la antes que termine o ano. O ano para mim só termina em março mesmo.

De certa maneira, definir quem somos parte de uma série de começos. Há muitos pontos de partida que podem orientar a nossa resposta. No entanto, enquanto figuras ocidentais imersas em coordenadas cartesianas, esperamos que haja apenas uma e definitiva resposta. Não é mesmo? Mas sabemos quem somos? A resposta é…

Sim e Não.

Primeiro, devemos admitir que a frequência desse tipo de resposta advém de um discurso pré-moldado. Como se fosse comprado na Tok Stok ou na Leroy Merlin ante-ontem. A verdade é que nossas reações diante dessa pergunta se pautam por uma questão de identidade social: um nome, uma biografia, um companheirismo, a família, um lar, o emprego ou o cartão de crédito.

Estamos na realidade preocupados com o “olhar do outro”. Mas, qual é a sombra de nossa identidade? Imaginem, por exemplo, uma pequena garotinha tomando sorvete. Seus pais a olham enternecidos e com certa “surpresa nostálgica” pelo desejo da filha ao tomar o dito sorvete. A garota reconhece o olhar dos pais. Na próxima vez que ela estiver na rua e pedir aquele mesmo sorvete aos pais, é de se perguntar se será para ela mesma ou para os pais que ela direcionará seu objeto de desejo a ser satisfeito. Muito complicado?

Dito de outro modo, quais outros sabores não conhecemos porque nossa satisfação está dependente do desejo do outro? Que parte de nós ainda não conhecemos?

De certo, essa parcela desconhecida advém e se instala quando acontece o “silêncio”. Quando não temos mais que dar respostas prontas ou agir de acordo com o que esperavam de nós. Ao cessarem os barulhos e as atividades, quase sempre nos deparamos com aquela espécie de silêncio ensurdecedor que nos diz quem somos. Todo o problema é que não encontramos o silêncio, porque ele não diz nada. E sem eco, somos o “não-dito”. Portanto, da próxima vez que te perguntarem quem és, responda simplesmente: “Sou o que tu não vês ou ouves. Tudo que disseram sobre mim não fui eu quem te disse, o que tu vê em mim, lembra que eu não vejo. Portanto, sou o não-dito”. Essa frase é minha, com “common rights”, portanto pode compartilhar mas fazendo menção ao autor. Ok? Penso que esteja nesse “não-dito” o que chamam de sombra.

O ano de 2020 para mim não foi atípico. Pelo menos não da maneira como a maioria do mundo tem julgado. Sinto que foi muito mais uma espécie de convite para que as outras pessoas pudessem experimentar aquilo que venho sentindo a minha vida inteira. Imaginem alguém que busca a ordem em meio às profundezas do caos da transformação incessante. É assim que um virginiano na casa 8 se sente. “Welcome to my world!”

Meus processos de morte me acompanharam desde cedo. Crenças que cederam lugar à desconfiança. Algumas cascas de feridas que deixaram marcas; outras esquecidas. Mergulhos nos mistérios da vida que não obtiveram compartilhamentos ou “likes”. Experiências que por serem demais obscuras me despertaram o verdadeiro temor e a opção de escolher apenas o superficial em vez do profundo. Outra vezes o inverso. E finalmente, o aprendizado que advém do reconhecimento dos meus limites, seja do âmbito corporal, psíquico/mental ou emocional. E tudo isso devo ao “outro”. É com o outro que me encontro, quem me manda uma mensagem que diz se o sinal está fechado ou aberto. 

O “olhar do outro” provoca e espera uma reação nossa. O distanciamento social nos tem proporcionado uma espécie de laboratório para o estabelecimento dos limites. Imaginem então esse cenário no mundo pós 2021: afinal, não é o outro com sua máscara na fila do pão que diz se você pode ou não avançar?

Graças a Deus eu tive um Pai para me impor certos limites. Hoje eu reconheço que é fundamental para a vida em sociedade. Por outro lado, sentir-se aprisionado, sem alternativas, com a impressão de ser um patinho feio, é perturbador demais para o “eu”. O que a maior parte das pessoas chama de “tradição” ou “conservadorismo” é na realidade uma “ansiedade da operação do desejo” que clama pela “aceitação”. Se é verdade que existe a exclusão a partir da definição do “normal”, não é menos verdade que o “diferente” se auto-exclui quando deixa de ceder ao diálogo, à negociação e ao convencimento. O “diferente” está errado em pensar que é um “eu” especial. Outro ponto importante seria colocar em perspectiva as inúmeras “formas estratégicas de sobrevivência” e as “reações inteligentes” quando surge a violência física no encontro do eu-outro, o que poderia ser melhor discutido em outro artigo, principalmente em relação à questão do papel simbólico da Mãe.

Essas questões no fim levantam a maior de todas: o que é a liberdade? E qual o seu limite? Ou melhor, ao se relacionar com o outro, qual é o preço da liberdade? Ou vocês acham que Adão [Primeiro Homem] estava feliz sozinho?

Certamente se deve a Freud a melhor explicação da forças atuantes no “ego”, submetido às forças do desejo e da necessidade do “id” e às forças castradoras do “superego” que moldam a personalidade do indivíduo para uma vida em sociedade. Esse arcabouço psicanalítico foi logo depois substituído pelos termos “pulsão de vida” e “pulsão de morte”. Eros e Tanos. As duas forças constitutivas de todo ser humano em duelo permanente.

No âmbito das ciências humanas foi bem pior essa repercussão. As pesquisas de linguística despertaram as forças de pandora para aniquilar o “eu”. Onde estaria portanto o “EU” na era pós-moderna? Sendo subitamente substituído pelos discursos  estruturantes, o indivíduo deixou de ter qualquer autonomia ou privilégio do seu destino. É assim que nascem o discursos hamletianos de “ser/estar”. Daí também a singular universalidade desse teatro. Ninguém mais “é”, no mundo contemporâneo “se está sendo”. Nunca antes a ideia de uma “construção” esteve tão em voga:

”Você não é uma pessoa bem-humorada. Você está bem-humorado”

“Você não é um viciado. Você está viciado”

“Você não ama. Você está amando”

Para então chegarmos à diferentes soluções, quando se acha que é mais importante “ser” do que “ter”:

“Você não tem um carro. Você está fazendo uber”

“Você não tem onde morar. Você está morando com os pais”

“Você não tem uma carreira. Você está fazendo um bico aqui e outro acolá… como freelancer

A questão de saber se Hamlet era ou se fingia louco é importante aqui, pois trata-se da força de seu ímpeto (desejo e poder). Como solução de um conflito trágico, Hamlet assassina e é assassinado. Cheque-mate. Quem vence não é o príncipe mas as forças do destino que aniquilam o “eu” e o “outro” dentro do reino podre da Dinamarca.

A morte e sua presença ressurge em uma espécie de paralelo histórico que reaparecem no entardecer da humanidade como uma minhoca que sobressalta e perfura a terra, deixando um único rastro: o buraco.

Outro dia ouvi o que disse a monja Coen: que o objetivo da vida não é a felicidade. Por quê? Porque existem muitos desconfortos na vida. É quase impossível ser feliz com tantos desconfortos. Porém, precisamos entender que tranquilidade é uma coisa, felicidade outra. Lutar por ter uma vida mais tranquila me parece mais justo e menos ambicioso na medida que estipulamos para nós mesmos.

Seguindo uma ótica de relação entre poder e amor, parece-me que uma escolha deve ser feita, entre dominar ou ser dominado. Ou simplesmente abdicar de tudo. Perdoar pode ser mais sensato. Desde o ter que levantar cedo para trabalhar a passar noites em claro cuidado de um enfermo ou de um bebê, quando precisa ser amamentado, a verdade é que somos requisitados por outrem. O que acontece com a pessoa que não quer mais amar? Elas ficam presas a momentos instantâneos. Querem dominar o outro, a natureza, Deus, a si mesmo. Estão ávidos por doses de prazer em curtos períodos. Aquele prazer curto e mesquinho ao qual se acostumaram. “Elas estão amando”, apenas. O amor visceral, ao contrário, como é sabido deixa um enorme buraco.

Essa incapacidade de amar de hoje nos tem levado às relações efêmeras, traços de uma personalidade miserável, não-produtiva, infértil. Em suma, egoísta. E por quê?

Chego a duas conclusões: a primeira tem a ver com a busca por pertencimento, a segunda pelo que significa diferença. A questão da individualidade surge de maneira distinta para as diversas culturas. Chegou-se à falsa noção de que para encontrar seu “verdadeiro eu” deve-se rechaçar tudo que veio antes ou que está posto como “norma”. Com isso, chegamos apenas à triste constatação de que o que se estará operando na vida será a “auto-exclusão”. Uma ilustração poderosa disso é aquela que surge quando queremos escolher uma roupa para sair. Embora tenhamos uma opinião, outro(s) opinariam de modo diferente, cabendo exclusivamente a VOCÊ decidir o que vai vestir.

Se você ouve sempre a opinião alheia ou se está sempre pouco lixando para as regras sociais, somente ao fim da noite, quando a carruagem virar abóbora, descobriremos quem tinha razão, não é mesmo?! É importante lembrar apenas que nem sempre posso seguir o que o outro quer de mim. Ponto. Portanto, não seja um “revoltadinho sem causa”. Amadureça e escolha com quem quer estar, usando essa ou aquela roupa. Dica Marie Claire: Há sempre um pé descalço à espera de um sapato que lhe caiba.

Outra ilustração poderosa de auto-exclusão aconteceu quando o buddha histórico Sakyamuni, quando ainda vivia no castelo como príncipe, dentro de uma sociedade familiar e de castas, decide vagar pelo mundo em busca da iluminação. Na verdade, estava ele em busca de compreensão sobre o nascimento, a velhice, a doença e a morte. O que ele faz? Visto que a rigidez social em que se encontrava o impedia de buscar essas respostas, decide cortar seus longos cabelos e viver frugalmente nas florestas com os antigos sacerdotes. Após ter chegado à “brilhante” conclusão de que as coisas somente “são”, ele retorna para a sociedade. Sim, ele volta para a sociedade ! Em suma, se eu puder escolher as roupas que quero vestir, e o outro também, e houver respeito, não vejo como evitar ficarmos lindos e maravilhosos num baile de gala.

Segunda conclusão. Somos semelhantes não somos iguais. “Respeito pela diferença, sim. Contudo, ninguém quer viver sozinho. Ou quer?”

As pessoas tendem a achar que estão sempre olhando para elas, que estão sendo observadas. Quanto egoísmo. Digo com “ismo”, porque somente com “ismo” tratamos aquilo que se deturpa: cristianismo, judaísmo, marxismo, liberalismo, etc. O “ego” é necessário na medida em que pode e deve lutar pelas suas necessidades.

Utilizar-se de um artifício sem escrúpulos como colocar uma melancia na cabeça pode bem ser o começo do fim. É bem verdade que do ponto de vista comercial a batalha pela atenção tem tornado o mundo um lugar bem difícil de se viver. O ego se coloca no mercado de modo ilusório – alienação de si – para que só depois se descubra o quanto aquele “produto” era frágil.

Mesmo um indivíduo que vive da caridade alheia necessariamente precisa ser olhado, mas o egoísmo dele é tão forte que ele mesmo é incapaz de doar alguma coisa. Esse é o tipo de pensamento “em si mesmado”, quando se acha que tudo e todos devem conspirar ao seu favor. Também é comum ouvir-se a queixa de que esse ou aquele projeto não deu certo porque fulano ou ciclano puxou o tapete. Esse discurso é recorrente e estou apenas mostrando o esqueleto do que acontece como efeito de uma causa muito perversa que é o egoísmo. Sim, o mendigo pode ter escolhido levar a vida da sua maneira. Isto é nobre e especial. Porém, somente o “não-dito” poderá validar. E isso só se torna visível quando um real processo de compartilhamento acontece. Quando o eu e o outro podem se irmanar, cedendo aquilo que se “é/está” para satisfazer a necessidade do outro. A maneira disso acontecer tratarei posteriormente.

Chego à conclusão de que compartilhar é também aquilo que chamam de “amor”. Porém, o que se diz sobre o “amor” é muitas vezes algo corrompido. Uma dor. Ao buscarmos comunicar nossos sentimentos e emoções humanas com amor elas são imediatamente reconhecidas. Saímos de nós mesmos. Saímos do “eu” e quase o aniquilamos. Mais que tudo, tem o poder de sair verdadeiro e simples. Não sai rebuscado como um “eu” especial.

Portanto, continuemos treinando nossas reações. Mesmo as reações ao amor. Pois não é fácil reconhecer que alguém te ama. E quando você ama, você ama de verdade ou está oferecendo migalhas que vão te satisfazer na medida do seu “ego”. Gosto da lição da monja Coen quando propõe pensarmos em termos cotidianos:

Como lidamos no trânsito? Você deixa passar? E quando vai ao banheiro, você cede ou quer sempre ir na frente?

Conclusão

Saber amar e saber deixar de amar podem ser igualmente as face das mesma moeda. Os pais que investem seus desejos poderosamente sobre uma criança que toma sorvete é igualmente pernicioso como uma mãe que não deixa seus filhos sairem do ninho, todo tempo fazendo tudo por eles, de modo que eles se tornam incapazes de sobrepujarem seus próprios limites. Foi o que teve de fazer o buddha Sakyamuni. Sair do olhar vigilante e super poderoso de seus pais para descobrir-se em si mesmo. Quando o amor se torna desequilibrado, é necessário afastar-se para que uma relação se mantenha saudável, onde haja participação tanto do “eu” quanto do “outro”.

Na minha vida pessoal, estive a maior parte das vezes envolvido com relações desiguais. Ao perceber isso, espero que consiga matar meu antigo “eu” e fazer um novo “eu” ressuscitar das cinzas. Pais, amigos, amores, fazem parte daquele “outro” que na maioria das vezes quiseram sempre ceder seu lugar na fila do banheiro. Eu reconheço com gratidão a oferta. Mas não. Hoje, sou eu quem quer deixá-los passarem na frente. Dessa forma, espero conseguir me desvencilhar do “poder do amor”. É tão mais justo revezarmos entre um e outro, quero acreditar que assim a fila andará mais rápido.

Eis meu fim escatológico!

Quem sou EU e a matemática do -1 de D-EU-S

Fiz um teste de DNA autossômico. Estava curioso para saber minha composição genética. Nesses testes eles dividem o atlas em regiões mais ou menos clássicas. A minha composição relativa deu o seguinte resultado: Europa (65%), America (15%), Oriente Médio (13%) e África (7%). Em mais detalhes:

Tenho 49% de componente genético da Europa Central, 15% da Península Ibérica; Sou 10% ameríndio, da região da América Central e 4% dos Andes e Caribe. Do Oriente Médio 13% sendo desses 11% do Norte da África (Maghreb e Egito). Do continente africano herdei 7%, com 5% da Bacia do Congo. De todas estas regiões, alguns resquícios totalizam os 100% compostos de menos de 1% de Ameríndios da América do Norte; menos de 2% de Judeus Sefarditas; menos de 2% da região da África Ocidental (Ghana, Togo & Benin) e Chifre de África (Eritrea, Norte da Etiópia & Somalia) com menos de 1%; finalizando com – pasmem – Myanmar, também menos de 1%.

A questão da identidade permeia o humano. Talvez seja um traço singularmente humano. Saber quem se é. Desconheço qualquer indício dessa questão profundamente hamletiana em animais. Se bem que existem casos de cachorros e gatos que às vezes se acham humanos o suficiente para ocupar o lugar do seu dono. É uma questão intrincada. 

O “Ser ou não ser”, diz o solilóquio de Hamlet, revelando o primeiro princípio da lógica: o princípio da identidade. A identidade é única. Uma coisa é ou não é. E não pode ser uma terceira. Caso os atributos de uma pertençam a outra, então bate-se o martelo. Gêmeos apesar de idênticos, ainda são diferentes por temperamento. No tempo, porém, tudo fica mais difícil. Diz Hegel que a negação inerente do próprio ser lhe faz chegar à uma essência. Assunto difícil esse de falar de essência nos dias de hoje.

Tenho investigado a minha identidade. Sempre gostei de investigar essa questão intrínseca do ser humano. Justamente por não ser um cachorro e por agir com comportamentos os mais diversos – muitas vezes contraditórios – é que meu pensamento me leva a encarar essa questão de frente. Fico me perguntando, onde tudo isso começou? Aliás, quem foi o primeiro “maluco” a colocar essa questão? Sinto que tudo podia ser mais simples.

O estudo da cabala nos diz que o ser humano é composto de pensamento, fala e ação. No pensamento tudo ainda é muito interiorizado. É difícil saber de onde vêm as ideias, as intuições, os sentimentos e emoções. Depois há o mundo da fala e da ação, onde acontece a expressão, o colocar-se no mundo. Exteriorização. Começa aí a comunicação e o julgamento. Esse texto depois de publicado não ficará incólume. Opiniões divergirão. Julgamentos serão sentenciados. Então, se a palavra é capaz de fazer alterações incríveis no ambiente, o que dizer das ações. Se a língua fere, as ações significam morte ou vida.

No texto passado, eu falei um pouco sobre o comportamento dos cães. Em uma tentativa “humana, demasiada humana”, de fazer a analogia entre os diversos tipos de cães, chegamos à conclusão que os cães vira-latas merecem muitos elogios. Eles são vitoriosos quando passam por circunstâncias as mais adversas. São educados e comportados quando recebem oportunidades. São mais resistentes às doenças porque não carregam os maus genes de cães de raça. Ou seja, mais favorecidos pela competição evolutiva das espécies, conseguem incorporar alguns dos melhores resultados.

Mas voltemos a falar de seres humanos… Quem são eles? O que fazem de diferente quando comparado aos outros seres do planeta? Por que se comportam de modos absolutamente estranhos – cultura – uns em relação aos outros? Creio que a resposta está naquilo que sempre ouvimos falar mas pouco compreendemos. Ao tratar sobre o processo de criação do mundo, o narrador onisciente do livro de Gênese, nos diz que o homem foi feito “à imagem e semelhança” do seu Criador. O que significa isso? Sem mais delongas, não se trata de um espelho. Não se trata de uma leitura literal. Deus não é um homem de barba, velhinho com um cajado, comandando o mundo do seu trono à semelhança da fábrica do Papai Noel. Essa passagem revela aquilo que nos distingue de todos os outros seres. Ela revela que nós também temos razão, somos dotados de reflexão, sabemos medir, construir, comparar, estabelecer relações de causa e efeito. Conseguimos pensar. Embora, tantas vezes nos deixemos seduzir pelas emoções. É nosso dever não se deixar sucumbir por elas. Ou por aquilo que é da alçada do imaginário. Do que poderia ser mas não é. Do inalcançável e do impermanente. Nossos pensamentos, falas e ações têm o poder de redimir. Ou vocês realmente acreditam na história de que a serpente enganou o primeiro Homem? Se a tentação foi forte demais era porque Ele queria. O erro de Adam Kadmon não foi ter comido a maçã. Foi ter comido e gostado. Foi ter saboreado o prazer daquilo que viria a ser sua maior salvação: poder duvidar e percorrer um caminho para ter a certeza de que Ele existe. E de que ele mesmo É. Adam sentia inveja de Deus. Todos os homens sentem inveja de Deus. Sentem inveja de não poderem ser igualmente criadores. Adam e Hava inauguram aquilo que chamamos História.

Com a necessidade de se estabelecer nesse mundo, fabricamos a identidade. A identidade é racional. Ela tem o dever de nos manter seguros. Uma sensação de permanência e pertencimento encobre esse sentido único, de diferenciação e exclusão de um terceiro, porque “afinal, dois já é demais”. Vamos então analisar a maneira que respondemos à clássica pergunta: “Quem sou EU?”

Muitas vezes a resposta para esta pergunta se encontra na ponta da língua: um nome. “Sou fulano de tal”. Cuidado. Nem mesmo você escolheu este nome. Outras vezes, a resposta advém daquilo que se faz. A sua contribuição social. De preferência algo com bastante destaque social para poder se encher a boca ao dizer: “Sou médico”. Ninguém diz “sou puta/o”. Nas relações de identidade sociais e culturais, saber de onde se vem também é entendido como sinônimo de identidade. “Nasci em Roraima”. O que é bem diferente de ter nascido em Nova Iorque, claro. Em Roraima falta luz. Por tabela, os Estados – essa entidade abstrata que se acha invencível tal como os deuses – capturam os cidadãos com uma tal de “cultura nacional” para lhes restringir o movimento. O lugar dos cidadãos é dentro das fronteiras. Longe da anarquia que dizem haver no mundo. Se sou brasileiro, logo não posso ser português. Japonês não é russo e vice-versa. Os Estados cobram lealdade, serviços e tributos dos cidadãos, em troca de uma pretensa segurança contra ataques inimigos. O que não fazem, por outro lado, é conseguir deter o Capital com seu poder de desalojar, matar e viciar. E é fácil constatar que nessa guerra os Estados têm perdido vezes e mais vezes.

E quanto ao tempo? Como definir a identidade em relação ao tempo? Ao sermos cuspidos para o mundo parece que a negação nos acompanha continuamente. Sentimos fome, nos despedaçamos para ganhar uns trocados e nos alimentarmos; muitas vezes somos excluídos injustamente de um convívio social sem saber exatamente porquê; ou simplesmente sentimos que o “meu pai não me ama”. E tudo parece injusto, demasiado injusto. O que antes era um mar de rosas pode se tornar um lamaçal provindo do esgoto das grandes cidades. O “-1” nos acompanha. Não importa quanto de sinal positivo consigamos adquirir, 10, 30, 555, um milhão, a operação negativa do “-1” é parte constitutiva do ser humano. Fazer o quê? Foi assim que Deus quis. Conhecer a nossa história ultrapassa nosso limite físico, visto que se trata também de ancestralidade. Trata-se de outros corpos, de outras vidas, de outras culturas e de outras ideologias.

“O que antes era novo hoje é antigo”, diz a música do querido cantor filósofo Belchior. Testemunha de que a vida também não lhe tratou muito bem nos últimos tempos. Seu amigo John o ouviu dizer que o “tempo andou mexendo com a gente sim”. É assim que continuamos a nos guiar pela vida, identificando mais ou menos as etapas dos rastros que deixamos ao longo do caminho.

Para além das coordenadas do tempo e espaço, agora também as questões relativas ao gênero ganham importância. O que importa não é o biológico. Também não importa o quê ou quem dizem que somos. Papai e mamãe estavam errados. Importa, sim, aquilo que “eu” subjetivamente sou. Ou tendo a ser… ou estou em construção de ser. Trans-eu-nte. Sendo. Com pouco espaço para o preto ou o branco, alarga-se o “entre”. Sábios foram os ingleses que levaram o verbo “to be” pro mundo todo, economizando na gramática e também nas discussões do que se é ou não é. Diante de tanta confusão mental sinto que o mundo merece um novo Bob Marley: “Stop that train, I’m leavin’”. Na ausência dele, gosto de mandar um “Fuck” para toda essa baboseira de definição. É como eu digo: “se eu gostasse de dar o cú, já teria dado”. Não se mete com o que eu faço que não me meto na sua. Ser pan sexual é uma opção? Ser gay é outra opção? Ser “trans” imagina então. Meu filho, se é de teu desejo, toma aquilo que é teu. Mas arca com o poder dos teus desejos. Com as consequências. Gozar não combina com a Culpa. Nem rima. Errado foi Jesus Cristo que disse ter super poderes e morreu na cruz. Vai que não tinha tantos poderes mesmo.

Escuto Belchior. Diante de todas essas questões ainda se pode dizer que sou como “aquele jovem que desceu do norte e que ficou desnorteado”? A vontade é de dizer que sim. Mas eu não sou. Eu não sou como você! A transformação do “-1” se opera igual a todos nós quando passo fome. Mas a diferença nasce da maneira como escolhemos nossos caminhos. Como EU escolho o meu caminho. Livre arbítrio! Salve o livre arbítrio!!! Característica igualmente comum a todos nós. Infinitas possibilidades de escolha, configurando um modo completamente original de ser e estar no mundo.

Depois de comer a fruta do Bem e do Mal jamais estaremos novamente em casa. Fora do paraíso  e daquele estágio inicial da vida, estamos condenados na vida adulta a estarmos nus. O prazer ofertado pela cobra que seduziu Eva e depois Adão no jardim foi o de vivermos ao máximo as nossas escolhas. E é precisamente aonde chegamos, aqui e agora. Distinguir o Bem e o Mal só faz sentido quando podemos escolher. Somos a imagem e semelhança de Deus porque só aos seres humanos é facultada a possibilidade de restaurar a unidade Dele. Nesse ponto, a pergunta se transforma absolutamente. Não é mais em “quem sou EU” que devemos procurar respostas, mas em quem é D-EU-S. Sejamos menos egoístas, por favor!

Brasileiros: um papo sobre vira-latas, futebol e auto-estima

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo
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“Complexo de Vira-Latas”, crônica de Nelson Rodrigues

Que o Brasil é o país do carnaval, futebol e de corpos bonitos todo mundo sabe. Essa característica da nossa identidade é vendida aos quatro ventos. Se não somos nós mesmo que a reproduzimos, ela vem quase naturalmente para nós quando um contato imediato com qualquer estrangeiro acontece. Alguns estrangeiros – lá fora – adoram receber visitantes brasileiros pelo seu intrínseco gosto por festas e principalmente pelo seu “poder de compras no exterior”. Entretanto, é válido perguntar até que ponto essa imagem reproduz  alguns desvios que embora não explicitamente expressos, repercutem mal na nossa imagem.

A questão do “latin-lover” é uma delas. Por exemplo, quando um “macho brasileño” se vangloria de ser um conquistador, tem ele a dimensão de quanto pode ser mal-visto por mulheres que querem compromissos mais sérios? No meu entender, perde ele e perde também toda uma cadeia de homens que gostariam de desenvolver suas vidas sem esse tipo de preconceito. Além disto, podemos citar as tradicionais ideias de que sofrem muitos  brasileiros que moram no exterior: a ideia de serem fanfarrões, homens e mulheres, sim; de estarem sempre atrasados para compromissos (uma prática habitual e bastante cultuada no Rio de Janeiro); de não se esforçarem para aprender a língua local. E a coisa toda fica mais interessante quando tudo isso pode ser contraditoriamente vista pelo viés dos “sucess cases” de brasileiros bem-sucedidos em diversos ramos. 

O Brasil porém não é o único a sofrer esse tipo de preconcepção. Listei aqui alguns estereótipos contidos numa representação da identidade de alguns países. Como toda questão de identidade, dois pontos de vista são essenciais: a maneira como o sujeito enxerga a si mesmo e a maneira como os outros o enxergam.  Veja o gráfico abaixo.

Como os países se veem

USA: Técnicos. As trincheiras da inovação. 

Rússia, Argentina, República Tcheca e África do Sul enxergam-se como determinadas e calculistas, embora com doses de humor e diversão.

Brasil, Espanha e Itália: Países da diversão. Harmonia musical.

França, Itália e Reino Unido: Pertencentes à ilha da civilidade. Seriam os precursores da cultura, conectados ao Reino Unido pelo estreito da “liderança”.

Egito, Arábia Saudita, Paquistão, Índia e Tailândia: Seria o reino da “Espiritânia”. A população desses países se descrevem como focados nas famílias e espirituais, mas ao mesmo tempo respeitosos e receptivos ao estrangeiro.

China e Coreia do Sul: O continente das indústrias. Definem-se como gênios.

Hong Kong, Japão, Singapura, Alemanha e Finlândia: Uniformizados. Trabalho duro, consistentes e organizados. Veem-se com experiência e conhecimento suficiente para no ramo das tecnologias mas também um pouco decantes.

Como os países enxergam os outros

Austrália e Canadá: A Equilíbriolândia. Os mais equilibrados do planeta.

Rússia, USA e UK: Países de orgulhosos e presunçosos

Tailândia e México: Vila do descanso

Brazil Itália e Espanha: “Funlandia”

Hong Kong, Japão e Alemanha: Uniformelândia

China: Gênioestão

Egito, Arábia Saudita e Paquistão: Espiritânia 

Em 1958, o dramaturgo, cronista e boleiro Nelson Rodrigues escreveu que o mal do brasileiro era o “complexo de vira-lata”. Fazendo referência às desilusões provocadas pelas copas do mundo de 1950 e 1954. Na década de 1950 o Brasil perdeu para o Uruguai por 2 x 1 em pleno Maracanã, em 1954 o Brasil sem se saber classificado vai para as quartas de finais e perde para a Hungria por 4 x 2.

A derrota de 1950 só seria superada em 1958 quando o Brasil ganhou o primeiro título mundial na Suécia. Salve Nelson Rodrigues! Previu o que estava escondido na alma brasileira. Interessante notar que o jargão “complexo de vira-lata” teria ficado esquecido até a década de 1990 quando novamente o Brasil se viu às voltas com sua questão de identidade em meio ao processo de redemocratização e de inserção na economia mundial. Fora a copa de 1994 que teria coroado esse processo. Claro! 

E hoje? Ainda podemos nos perguntar em até que ponto somos vira-latas em uma espécie de sentimento kármico que alterna entre a constante euforia e a baixa auto- estima?

Minha memória recente indaga o que foi o 7 x 1 contra a Alemanha em 2014 (também no Maracanã), em um contexto de denúncia à corrupção em 2013, logo substituído pelas esperanças (re)patrióticas da copa de 2018, seguido de uma eleição em 2019 que pretende reerguer o país em termos morais contra a corrupção. Acho que até agora ninguém entendeu direito o que aconteceu. Estamos ainda atordoados.

Agora em 2020. Se olharmos para a história, seguindo essa linha de raciocínio, não será difícil prever o futuro de uma nação que se contentará com as migalhas de uma política violenta (mercadológica, massificada e segregacionista) se promovendo para a reeleição enquanto houver a construção eufórica de uma auto-estima ilusória no campo de futebol em 2022. 

Cão de Raça vs. Vira-lata

Observar a História não torna difícil a conclusão de tais prognósticos. Mas olhemos mais de perto sobre as características desse “vira-latismo”. O que é ser um cão vira-lata?

Alguns podem argumentar sobre a não-diferença entre cães de raça e vira-latas visto que ambos são cães. Igualmente “fofos” e dignos de amor, carinho, respeito. Mas será isso mesmo? E em que sentido afinal não se pode diferenciar um cão de outro? No fim, essas mesmas concepções seriam também válidas para os seres humanos?

É sabido que os chamados SRD (Sem Raça Definida) perdem o padrão racial quando há mistura de mais de duas raças. Por padrão racial entende-se comportamento. É só observar a diferença entre um pastor alemão e um bug na maneira de se posicionar quando andam com o dono. Por exemplo, o fato de andar na frente ou ao lado; um é certamente mais alerta que o outro; mais ou menos brincalhão; e o fato de fazer alarde para qualquer coisa que se mova que pode irritar perfeitamente os vizinhos.

Assim, a escolha de adoção (ou compra) de um cãozinho dependerá em certa medida da relação que o dono pretende possuir com ele. Em uma rápida busca pela internet observei algumas perguntas que foram colocadas em relação aos cães SRD:

São mais fáceis de serem educados?

Eles cheiram mais ou menos que os de raça?

Comem qualquer coisa? Seriam eles mais resistentes às doenças?

São mais espertos que os cães de raça?

Sobre a educação, saltou-me aos olhos o fato de que na maioria dos casos quando se pega um cachorro por impulso, o cachorro acaba não tendo o tratamento adequado. Observei algumas definições sobre os “vira-latas” no quesito comportamento. Eles não têm um comportamento típico, de modo que ele é “aberto”, diferentemente do que um cão de raça faz. Sendo sua característica mais intrínseca o fato de ser moldável. É necessário observar se veio já adulto ou filhotinho, pois esse fator deve influir na educação que ele deverá receber.

Em relação ao cheiro ou se comem qualquer coisa, essa questão foi respondida como sendo fundamentalmente dependente do “dono”. Ou seja, os cuidados com banho, tosa e alimentação acabam se relacionando com a valorização dos cuidados por parte do dono. E mais, diante da decisão de adotar, o fato de ter sido por compra ou doação pareceu influenciar bastante, visto que alguns donos acham que podem economizar mais tendo um cão vira-lata, isso desde a compra, passando pelo tipo de ração e os remédios que porventura venham precisar. Sim, a questão do custo pareceu ter um peso fundamental, além do “amor”.

Um dos veterinários alertou para a questão de “atribuição de um passado de sofrimento” do SRD, já que a pessoa pode enchê-lo de mimos para tentar compensar o passado, como se a culpa fosse dele, tentando aplacar um suposto sofrimento do cão. Os especialistas dizem que o excesso de mimo pode levar o cão a exigir uma atenção em momentos inoportunos como o cotidiano de trabalho, recepção de convidados em casa, e outras tarefas que podem provocar ruídos (literalmente) na casa. Recomenda-se, pois, que se esqueça o passado e viva o presente. Afinal, fora da rua, agora ele é um cachorro normal como qualquer outro.

Sobre o fato de serem mais resistentes à doenças parece que a maior parte das respostas foi afirmativa em favor dos cães de rua. Contribuem dois principais fatores: 1) genético 2) seleção natural. Os SRD têm menos problemas genéticos. As doenças genéticas são provenientes de genes recessivos. Assim, os vira-latas são mais resistentes às doenças, embora não sejam imunes às doenças virais e de bactérias como qualquer outro cão, de raça ou não. O segundo fator seria darwinista (muito melhor encaixado nesse contexto do que numa visão social, não é mesmo?!). Ou seja, aplica-se a máxima de que “na rua sobrevive o mais apto”. Sem dúvida alguma, o fato de ter sobrevivido sozinho na rua o colocaria como mais resistente aos desafios impostos.

No quesito inteligência, encontrei um “ranking” feito por um estudioso. Stanley Coren, em “A inteligência dos cães” relaciona 133 raças organizadas em níveis de inteligência entre 1 a 79. Fonte: Ranking de inteligência canina https://tudosobrecachorros.com.br/inteligencia-dos-caes/#ixzz6alSj8gP0

Importante dizer que ele define “inteligência” como “Inteligência de Obediência e Trabalho”, e não da inteligência “Instintiva” dos cães. A inteligência tem componente genético mas também de estímulo dessa inteligência. Suponha-se que um filhote venha das ruas, será que ele não teve desafios maiores que outros cães menos sujeito a esses desafios?

Quantas repetições são necessárias para ele entender? Enquanto um labrador pode precisar de apenas 2 repetições um cão da raça pug necessitaria de 30 repetições. A diferença é enorme. Ainda assim, alguns questionaram essa medição de inteligência quando se pensa que esses cães na verdade são apenas teimosos, não correspondendo às expectativas da obediência humana. 

Brasil: país de vira-latas?

Encaminho-me para a conclusão desse doloroso artigo. Trago ainda mais dúvidas do que respostas, como é sabido. Colocando em perspectiva alguns desses “traços caninos”, podemos nos perguntar a maneira pela qual podemos afirmar a valorização ou desvalorização do “ser humano vira-lata”? Tomando tais pressupostos, o que significaria fazer um “elogio ao vira-lata”, como faz o economista Eduardo Gianetti? Implicaria certamente observar as características em aspectos positivos mais do que negativos, por suposto.

Nesse sentido, em que medida são os “brasileiros” mais valorizados que os países do Norte, ou os “cães de raça”? Humberto Mariottis fala em “O complexo de inferioridade do brasileiro (fantasias, fatos e o papel da educação)” que:

O vira-lata se satisfaz com o pouco que lhe dão, ou mesmo com o que não lhe dão mas que ele consegue no dia-a-dia. Concessões mínimas, pequenas sobras são para ele grandes vantagens. Conseguir ser atendido num posto de saúde, depois de longas esperas em filas intermináveis, e atravessar o Atlântico para ganhar em euros, mesmo sem grandes chances de mudar de patamar socioeconômico, são dois exemplos. Trata-se, como já foi dito, de alimentar a sensação de que já se alcançou alguma coisa numa população em que muitos nada conseguem.

Link: http://web.archive.org/web/20071225092632/http://www.revistabsp.com.br/0608/ensaio1.htm

Tomando alguns dos pontos sobre o mundo animal aqui elencados, façamos então uma espécie de ensaio sociológico. 

A primeira diz respeito ao comportamento. Qual seria então o comportamento típico de

determinado povo ou etnia? A questão é delicada e está sujeita ao terreno movediço da diferenciação étnica. A Alemanha do nacional socialismo (nazi) trouxe essa questão sensível, colocando até mesmo sem querer – ou “sem  querer querendo” – no seu movimento a contribuição de intelectuais anti-fascistas no “hall” dos que contribuíram – involuntariamente – para a construção teórica da supremacia de um povo. Afinal, qual seria o comportamento típico de um chinês, de um russo ou de um japonês? O que dizer dos países multiculturais que não se definem por fronteiras muito rígidas como Austrália, Canadá, França e Estados Unidos? Essa é sem dúvida uma questão que deve ser relegado aos especialistas das questões sobre “representação e identidade”.

Como compreender essas singularidades? Entre os que adotam a “diferença” e a “igualdade” como ontologia, que tipo de valores poderão emergir? Como se dá a relação entre “diferença” e “igualdade”? Que classificações e organizações podem emergir?

Para além desses dois pontos de vista, um inimigo: aqueles que enxergam divisões hierárquicas como constituintes da existência. Não custa lembrar que não faz muitos anos que as teorias de supremacia racial pairavam sobre as mentalidades de acadêmicos e políticos para justificar as práticas de segregação e de desenvolvimento nacional. As políticas de eugenia no Brasil, por exemplo, promoviam o “embranquecimento” da população pela imigração estrangeira para que se retirassem os “elementos negativos” da nação. Esses elementos na maioria das vezes faziam alusão ao índio e ao negro. O primeiro estando associado à resistência ao trabalho e ao progresso, portanto indolente e dissimulado. E o segundo, vinculado ao trabalho, porém contraditoriamente menosprezado uma vez que valorativamente associado à mão de obra exclusivamente mecânica. 

5 Variáveis Caninas para Interpretar o Vira-Latismo

Como o que acontece hoje é uma completa falta de entendimento mútuo (dentro e fora das redes sociais), principalmente em relação às palavras e aos conceitos, vale a pena esclarecer o meu ponto de vista, com essa fundamentação: sou daqueles que enxergam mais a diferença do que a igualdade. Nesse quesito, não significa que eu enxergue o cão de raça como superior ao vira-lata. Ao mesmo tempo não significa de modo algum que sejam iguais.

Vejamos os pontos de ataque para uma “sociologia do vira-latismo”. De acordo com o meu estudo sobre os SRD – reitero: Sem Raça Definida – percebi cinco fatores que poderiam ter suas variáveis de estudo aprofundadas:

  1. O comportamento típico do cão de raça vs. o comportamento “aberto” e “moldável” do vira-lata
  2. O papel dos donos, que no meu entender se relaciona em paralelo com o papel dos Estados modernos e a maneira como os governos lidam com sua população em termos de cuidados, educação, saúde e bem-estar
  3. A ideia de um “passado de sofrimento”, muitas vezes atrelado à uma percepção  histórica dos malefícios da colonização por parte dos países europeus
  4. A resistência às doenças: em níveis genéticos e de seleção natural (as adversidades superadas para sobreviver)
  5. Uma visão da inteligência voltada menos para uma espécie de “instinto animal” do que para uma “Inteligência de Obediência”. Isto é, o tipo de relação em que se espera que o cão obedeça à uma ordem. Em outras palavras, em que medida as horas de trabalho serão contabilizadas para a produção de valor em termos de medição global.

InConclusão

Chegamos por enquanto ao ponto de estabelecer as bases para um diálogo à respeito da identidade. Isso pode ser colocado para qualquer perspectiva identitária. Mas estou interessados aqui na questão específica do brasileiro. Como ele se enxerga? Que modos de vida o definem? Quem o define, ele mesmo ou o outro? Ambos? Seria ele digno, menos ou mais que outras contribuições de outros países?

Importa saber, acima de tudo, como nos relacionamos com essas questões interiormente. Penso que há certamente algo que reverbera quando um corpo sai do seu lugar-comum. Quando se coloca no “exterior”, expresso e visível para olhares e julgamentos. Como se relacionar com esse outro que pode ou não devolver uma expectativa criada por aquele sujeito antes tão confiante?

Você, caro leitor, já se viu envolto dessas questões? Já te perguntaram quem você era e o que fazia lá fora? Como você respondeu a essa demanda? Aliás, que chances você tem de resposta em um mundo que em primeiro lugar te encaixota, sela e que agora te vende com uma arroba @ virtual?

Gus Xavíer é ator, historiador e capoeira.

Gosta de muitas coisas e por isso se considera um generalista que vive num mundo que insiste em se especializar.