Oi gente!

Por Lorena Aragão

Oi gente!

Meu primeiro momento por aqui… escrevo cheia de borboletas na barriga!!!

Fiquei matutando um tempão sobre o que traria enquanto porta de entrada, enquanto primeiro convite para nos conhecermos. Sempre fui afeita às palavras. Escrever faz parte da minha constituição de vida, escrevo desde que me entendo por gente. Quando criança, tinha aqueles diários com um cadeado que não guardava os segredos de ninguém. Adolescente, comprava agendas descoladas e escrevia todos os
meus dias.

Tenho registros incríveis de primeiro amor, primeiro beijo, primeiras decepções. Com a evolução dos tempos, migrei para os blogs. Já tive uns dois ou três. Aí, aos meus 28 anos, veio a gestação. Mais uma vez, minhas escritas me salvaram de mim. Em meio a uma gravidez solo tão conturbada, escrever me ajudava a expressar tudo aquilo que eu estava vivendo e não conseguia por pra fora com ninguém. Então meu filho nasceu. Choro de neném, noites em claro, fralda pra trocar, choro de neném, põe pra arrotar, dá de mamar, o peito com mastite, choro de neném, fralda para trocar, quero escrever, tô com sono, cansaço, puerpério…quero…es…cre…v…não deu. Depois que meu filho nasceu eu parei de escrever. Foi quase sem perceber que abandonei a escrita. A chegada de um filho muda tudo, bagunça, chacoalha. Faz a gente rever prioridades , amizades, relativizar o tempo. Às vezes (na maioria delas) a gente se sente abandonada até por si própria. Cadê aquela mulher que estava em todas as noitadas, a rainha da balada Cadê aquela mulher que estava sempre bem cuidada, sobrancelha feita, unha sem cutícula? Passei anos sendo só mãe. Anos vivendo um universo que tinha mais sobre bebê do que sobre mim. Mas chega uma hora que a angústia vem, e a gente quer se reencontrar, quer um tempo pra respirar. O convite para escrever aqui me tirou da zona de conforto, do conformismo de “não ter mais tempo para essas coisas”.

Hoje meu filho tem 8 anos e eu sinto que já consigo não ser só mãe. Me chamo Lorena, sou Psicóloga Perinatal, baiana, tenho 36 anos, sou casada, mãe de Inácio e , mais do que nunca, sou MULHER. Estarei aqui me desafiando a tornar este espaço um cantinho de reencontro comigo, uma parceria de fortalecimento entre mães que amam seus filhos, mas que também sentem saudades de si. Vamos dá as mãos e seguir juntas nesta estrada? Do que você sente saudade? O que você abandonou? É tempo de novos tempos. Caminhemos! Beijos, luz e axé!

Lorena e Inácio ❤ – Lorena estará neste Lugar de afetos e compartilhamentos, na 4 segunda de cada mês. Se chega!

Só me resta propor poesia

Por Barbara Matias

Não me vejam como uma sujeita preguiçosa. Se eu fosse uma criança brincando eu ia gritar “piiiiiiiiiiiiiiinico”.

Só que não é mais brincadeira.

Esquecer-se de brincar é como morrer.

Estou exausta, eu sou dengosa e não é porque o mundo está assim que devo esquecer de me dengar. Se dengo fosse um signo a minha lua estava lá e o sol na rede. Porque a rede também seria um signo. 

Voltando a palavrinha: Exausta, pegue e faça um funk: Exá,exá, exaustaaaa. Exá, exá no rabetãoo, rabetão, rabetão. Bebebetão…. hahhaha

– penso alto:Não posso nem reclamar.

 A vizinha enquanto varria a calçada gritou para os curumins que brigavam dentro de casa para eleger um canal de televisão. Estou acabado, parem de chamar meu nome F……… morreu (Se referindo a ela).

Ótima tática: Barbara morreu, eu me mato quando quero, só de pinico, sabe!

Recebi um áudio de um mano pós-doutor em artes, das artes, das artes: Babis estou exaurido.

Exaurido????

é o estado F….. morreu chique. 

Eu tinha um namoradinho na adolescência que ele dizia: Gatinha temos que aprender a ficar “pexe”, tranquilo, fresco. Ai que saudade de nadar.

Dentro da gente tem água. A gente esquece-se da parte bonita.

No meu próximo casamento, vou me separar num ato de alegria. 

Imagem de Jamal.

Fim, dia 26 faço 28 anos, eu gosto de presente. Se até lá houver impeachment do genocida me sinto presenteada.

O DESEJO É UM CORPO ILHADO

DERIVAS SOBRE O DESEJO, E A CRIAÇÃO DE UM FILME SOBRE RAÇA 

Por Kiko Alves

A construção do projeto saudade por vezes é interrompida por pura falta de perspectiva, cada vez que olho o problema ele se atualiza e cria uma série de outras reflexões, todas elas passam pela possibilidade de pensar um mundo, de recriar um mundo, que luta contra o racismo. 

Recentemente conheci uma personagem que me trouxe uma série de reflexões sobre o lugar da narrativa negra na literatura e sobretudo no cinema, mas antes ainda em contato com outro texto de Fred Moten e Stefano Harney, sobre a possibilidade do estudo como uma ferramenta para se pensar o futuro, a ideia central são os estudos negros, em “The Undercommons”, os autores criam uma brecha para repensarmos o estudo. 

Nessa ideia de repensar o estudo preto, compreendido aí como o estudo “sem finalidade”, o estudo que possibilita a fuga, que cria espaços de reflexões sobre a condição vivida por negras e negros sobretudo em torno do estudo, a fuga indefinida em meio a noite negra dos subcomuns. Estudar é fugir, como quando nos damos conta que há algo de condenado nessa realidade, e que não há portanto para onde fugir se não rumo à própria fuga, ao domínio opaco e impreciso, especulativo, que vai a todo momento confrontando o mundo visto e entendido. 

Voltando portanto ao desejo, encontro na personagem de Octavia Butler uma certa pulsação em busca dessa fuga, ou ela incorpora a fuga para permanecer e por tanto o desejo de vida, ou de habitar o pós apocalipse me coloca em estado de reflexão sobre por onde seguir na busca desse corpo e desse desejo. Lauren Olamina, personagem central do livro, “Parable of the Sower “, dá-se conta de que o mundo como lhe foi dado conhecer está por um fio. Lauren é hiperempata Isto é, tem a habilidade de absorver as dores e intensidades de todas as coisas vivas à sua volta, e isso, ao mesmo tempo em que a enfraquece parece permitir que ela se conecte com as forças que lhe cercam de maneira singular – uma conexão que se faz pela dor, num espaço afetivo compartilhado onde os efeitos das violências, dos eventos traumáticos, ainda que sufocantes, guardam também possibilidades de aprendizado. De estudo. 

A grande musa da Ficção científica, Octavia Butller, mesmo que não creditada pelo mundo branco, aponta uma ideia e uma possibilidade de mundo para os povos pretos, habitamos a diáspora desde 1500, mas como sugere Octávia precisamos fazer um exercício de pensar o

futuro de pensar a realidade que dura e que ao durar podemos ir raqueando a realidade para que possamos existir nesse mundo, pensar o futuro parte de uma reflexão e ação no presente. 

Nossa ancestralidade na apontava essa ideia, já narrado pelos contos Yorubá já existente no Brasil desde que começou o tráfico negreiro por essas terras, que fala “ Exù matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje””, essa saudação feita para o Orixá do movimento nós da pista de caminhos a se pensar sobre a construção de um mundo preto, narrar o passado, criando no presente para então que possamos criar um futuro para o povo preto. 

Este texto podia considerar-se o fecho de uma uma pequena série sobre a ideia da busca por um desejo não erotico de um diretor negro na esteticas cinematográfica, fico no entanto sempre “desejando” contiuar a analisar minhas errancias sobre o que poderia ser esse corpo posto em cena, e nesse fluxo questionar o que seria cinema negro e quem racializa meu cinema? Quem racializa minhas imagens? Eu ou o mundo que me coloca no lugar de falar apenas quanto narro a minha dor, sou autorizado a falar apenas de raça, quero continuar pensando com alguma profundidade a problemática da descolonização numa perspetiva decolonial. 

Em Crítica da Razão Negra, numa paródia à Crítica da Razão Pura de Kant, onde se demonstra a ligação estrutural entre o conceito da modernidade e o da colonialidade, e onde Mbembe teoriza sobre o que caracteriza como a negrificação do mundo e a planetarização desta condição que, segundo ele, extravasaria as fronteiras cromáticas cristalizadas nas identidades biológicas e sociológicas dos sujeitos racializados – e em que o negro é, no fundo, todo o deserdado do mundo como todos os colonizados eram os “danados da terra”, na acepção fanoniana e cesairiana. 

No entanto, apesar das várias encruzilhadas em que vou e levo meu texto, quero tentar terminar voltando a ideia da busca pelo desejo, para a construção desse filme, voltemos ao estudo como estratégia possível. 

Todo capítulo de Parable of the Sower inicia com versos de um outro livro, escrito por Lauren e chamado Earthseed: o livro das coisas que vivem . É uma teologia experimental que reorganiza a ideia de Deus e o narra como Mudança, força tão irresistível e inexorável quanto maleável e caótica: Deus existe para ser moldado, assim como o futuro. Narrar aqui as ideias da ficção especulativa pode parecer desconectado da ideia central que busco pelo desejo, no entanto aqui encontro uma possibilidade de pensar o desejo, como projeto futuro, criando narrativas nas encruzas do pensamento, repovoar o mundo de uma ideia diferente do desejo, (seria possível?), pode parecer anacrônico querer pensar repensar o

desejo em uma perspectiva negra, ainda assim tem me parecido o caminho mais correto nesse processo de busca pelo pertencimento, olho para o mundo e por vezes o vejo com olhos desencantados, e as questões surgem como pensar o desejo em um contexto de pandemia global, seria esse o caminho, qual quesão a comunidade negra deveria debater? O que interessa nesse momento da união? Unificar forças para combater o mal presente? Devemos aderir ao movimento goodvibes de apartamentos e lutar para o retorno a ideia de normalidade que estava posta? Normalidade para quem? 

Meu cinema é cinema, mas é também negro na medida que olho o mundo com esse marcador, não deixo de ser negro quanto penso, por tanto penso como negro, ou esse é o desejo pensar como negro, quanto penso o desejo no cinema e sobretudo no meu cinema ele é essecilamente politico por que o corpo negro no mundo e localizado, pelo estado, pela morte pela libido do branco e da branca, mas nenhum desses desejos salva a população negra ou de forma mas simples, esses desejos que são externos não lhe colocam nem mesmo como humanos se não sub humanos, mesmo quanto não narrado, então pensando por esse caminhos essas encruzilhadas do meu texto talvez reflita um pouco a dificuldade de pensar um mundo não branco, um desejo que não animaliza, de um desejo de potência, um desejo das coisas vivas e que habitam esse mundo. 

Minha atitude perante essa ideia tem sido a mesma de Lauren perante os livros velhos da biblioteca de casa: retorno a essas ideias, e autores, com a aposta de aprender, sempre com a ideia do estudo para a fuga, nas linhas e entrelinhas dos debates e nas zonas cinzentas da vida, perceber coisas que possam me ajudar a passar pelos tempos que se desenham. 

A grande sacada da ficção especulativa é a de representar do futuro aquilo que está já em jogo no presente, e o que está em jogo no presente é o futuro. 

Kiko Alves 

Março de 2021

O DESPERTAR DE MOTTI: MAS PODE SER O SEU!!!!

Por Silvia Helena de Amorim Martins

Você nunca sabe o que pode acontecer.

O jovem Motti, pertence a uma família judia e tem seu destino traçado pelas convenções, se relaciona em sua maioria com pessoas da mesma crença e hábitos. É um homem com o destino traçado pelos outros, o ponto de virada inicia quando o rapaz começa a se sentir incomodado com o comportamento intrusivo da mãe que passa a procurar uma noiva para o filho e ele não aceita se submeter a um casamento sem amor.

Ao logo da película, percebemos o quanto é incomodo ao outro quando o rapaz passa a tomar suas próprias decisões, a mãe sempre repete a mesma frase: “Quando você era criança era tão bonzinho e agora é isso”. Vamos nos demorar um pouco nesse trecho, guiar a própria vida, fazer escolhas e dizer não é uma atitude rebelde e libertadora. Mas sempre trará conflitos quando o outro percebe você como propriedade: “Meu filho (a), meu namorado, minha namorada, meu marido, minha esposa”. Sinto lhe dizer que nada é seu!!! Pessoas não são objetos e estão conosco por que desejam e dependendo das circunstancias podem deixar de desejar.

Aos poucos Motti vai despertando para o mundo e para sí, sua primeira mudança é livrar-se da barba, depois mudar os óculos, algo muito simbólico, o rapaz passa a escolher outro modo de ver e se colocar no mundo, após roupas, amigos e assim por diante, um passo de cada vez. 

E eu lhe pergunto: você vai começar esse despertar por onde? Estamos fechando fevereiro de 2021, não façamos desse ano uma reprodução de 2020. Sempre existe uma porta a ser fechada e outra a ser aberta! Algo que precisa chegar ao fim para dar lugar a um novo começo.

Mas, para algo mudar é necessário que você dê o primeiro passo rumo ao desconhecido, eu sei não é fácil, mas provavelmente a situação que você está inserido também não está agradável. O que será que lhe prende ao velho? Será o medo do novo? O medo de perder algo? Mas será que as perdas também não trazem ganhos? Eu acredito que sim.

Vale destacar que o caminho da mudança é desafiador, exige sustentar a decisão, em um determinado momento do filme Motti é expulso de casa como castigo por escolher se relacionar com uma mulher não judia. Mas mesmo amargando a dor da perda da família, a solidão ele não retrocede, ele continua seguindo no que acredita. E eu te pergunto você segue o que acredita? O caminho que você está trilhando é da ordem do seu desejo ou do que desejam para você? O melhor para sí é diferente do melhor para os outros! O que você acha de desconstruir lugares, posicionamentos e dinâmicas de relacionamento em que você está na posição infantilizada (quando o outro escolhe por você)? 

Eu acredito que se esse texto tem o poder de sucitar reflexões e que vai chegar em quem precisa despertar. Então sigamos!!! Um grande abraço! Se cuida daí, que eu me cuido daqui.

Agora cuida!

Por Roberta Bonfim

Começo dizendo que esses textos que chegam às terças, são escritos aos domingos, o dia em que eu não trabalho. Pouco ou nada me relaciono com o celular, mas o dia que escolhi para escrever esses textos, que são semanais. 

E a cada semana estamos vivendo coisas mais lindas de maravilhosas. Então vamos a elas. Em meio aos corres consegui encontrar com Kerla que entra nesse lugar e vai ocupar os domingos do nosso canal com papos deliciosos, literalmente, já que vai bater papo com os autodidatas criativos da cozinha. Inclusive neste texto, aproveito para fazer o convite formal a 5 pessoas que amam comidas e que seria incrível ter suas pessoas somando com quadros nesse programa, Clara Macedo, que apresentou o Arte na Cozinha, – Thamara e Igor, seus rolês pelos restaurantes da cidade, nos interessam. – Crislânio, sentimos saudades daquelas lindas Dicas do Cris. E Matheus e Bia, bem podiam fazer o quadro Begod Verde. Heim? Se toparem, já me mandem msg com melhores dias para nos encontramos. Tenham certeza que ter meus domingos com vocês vai fazer deles muito mais ótimos. 

É isso, agora uso esse espaço para fazer os convites que não estou conseguindo formalizar na vida. De modo que este blog que já é lugar de tantos registros incríveis de vida, caminhos, respeito, aprendizado, respirações, é agora também documental nesse outro lugar.

Falando no canal, este ano teremos doces encontros diariamente por lá com ArteVistas inspiradores, compartilhando processos e pensando junto caminhos possíveis. Vamos lá, segundas, eu retorno papeando, amando e ficando nervosinha.

Recomeçar com vocês é a certeza de que vai ser bom! Arte onde Estiver

 As terças ficam por conta das Trovadoras Itinerantes e da Escola de Narradores, e tantas histórias e ArteVistas incríveis que essas duas maravilhosas nos apresentam.

Mirabilia – Escola de Narradores

quarta a partir de março ganha tons e formas do nosso querido Poço da Draga. Lugar importante para nós aqui e também para você que talvez nunca tenha ouvido falar sobre ele. O Poço da Draga é berço da nossa relação enquanto cidade com o mar, assim como, o Pirambu, Mucuripe, Barra do Ceará. 

Teaser Lugar ArteVistas – Nova Temporada quarta 19 horas

LUGAR ARTEVISTAS – BARRA DO CEARÁ – FLÁVIO RENEGADO

As quintas ganham com as Conversas entre Nós, com a ArteVista Silvia Helena e convidades ArteVistas. Que estreou na quinta passada com a presença e reflexões necessárias dos Artevistas Alana Alencar e Saulo Lemos. 

Conversa entre Nós – com Silvia Helena – quinta 19 horas

As sextas são com a querida MARTINHA, encho a boca, porque Marta Aurélia é aquela atriz que junto com Ceronha Pontes Pontes, e direção de Pedro Domingues, fizeram o espetáculo “Minha Irmã”, que me marcou a alma. Daí hoje temos no canal; dá Lugar ArteVistas a Casa D`Aurélia, onde a cada programa ela, Marta, traz lindezas de seres, ArteVistas natos. E ainda tem um quadro sobre Arthur Guedes que fala tanto sobre uma fase importante do teatro da nossa cidade. E vou fazer o adendo de que neste momento vivo o bálsamo de trocar com Marta e com Pedro, e aprendo muito com isso. Grata!

Casa D`Aurélia – Sexta 19 horas

Os sábados estão se construindo, já temos no segundo sábado de cada mês Mentalizando Mapas Culturais, com Ivina Passos, e o terceiro a partir de sábado será o Arte na Favela, com apresentação de Cintia Santana, da ONG Entre o Céu e a Favela – Providência – RJ, com participação permanente da ONG VelauMar e do Coletivo Fundo da Caixa. os outros dois sábado estão em construção. Se quiser se somar com programas que tenham a arte como caminho para transformações, chegue junto e converse com a gente. Esse lugar é dos ArteVistas, se você se reconhece assim, chega.

Mentalizando Mapas Culturais, com Ivina Passos – Segundo Sábado de Cada mês

Aqui nesse blog é esse mar de delícias e chegando mais e também publicamos um texto enviado por mês. Envio de texto lugarartevistas@gmail.com

Tivemos a visita da Marci, que cá escreve às quartas e autora do livro De Vento em Poesia, que colaboramos para a primeira edição. E ela deixou 10 livros para o Poço da Draga. Gratidão Marci. E já aproveito para perguntar se você tem livros infantis que queira doar, aceitamos.

Ai gente e teve foto dos Guardiões da Memória, feitas pelos nossos ArteVistas Jether Junior e Ruan Italo, o segundo é morador do Poço da Draga. E Izabel Lima – ONG VelauMar depois chega para gerar o que será. E por falar em fotos no Poço da Draga, nosso calendário lindo que amamos, chegou a algumas pessoas que queremos muito bem, e teve quem fez agradecimento que nos encheu de amor e inspiração. Gratidão. 

E nossa fotógrafa Lorena Armond, vem se descobrindo uma artista também no designer e está deixando nossa comunicação ainda mais linda, a partir das ilustraçoes do multi artista Klebson Alberto.

É isso.. foi mais ou menos ou ai. abraços e até a terça que vem. 

Somos vivos como o sol de “ameidia”

Por Barbara L. Matias.

Deram o Kariri como extinto. E, no entanto os cabôco estão preparando a terra pra receber o plantio de milho e dançar pra fogueira em junho.

Imagem de Ana Adenilda e tratada por  Victório Fróes.

Deram o Kariri como extinto.

E no entanto os Cabas descansam “ameidia” enquanto o sol dança pra terra.

E no entanto em cada quintal uma farmácia do mato. Viva.

E no entanto o pião roxo na frente da casa.

A rede, as danças de pés atolado na terra, a agricultura, o cuscuz, a mandioca, a pescaria, o raizeiros, o artesão.

E no entanto o ato de conversar na “boca da noite”.

 Do nascer do dia, das fases da lua.

E no entanto, o Kariri Vivo no modo das pessoas se organizarem.

O aviso do Vimvim, Coruja, Bahia e Carcará.

Saber da véia d’agua no tabuleiro é uma tecnologia ancestral que preservamos. É essa herança que carregamos. 

É por isso, que estamos vivos.

E no entanto nossos avós silenciados gritando pro neto nas entrelinhas.

Escutamos.

E no entanto, você.

Eu.

O curumim que está sonhando.

O morador de rua com identidade negligenciada. Quantos Kariris dormem na rua devido um enorme memoricídio que reverbera a cinco séculos. 

                                                                           É medíocre negar a terra que tu vive e se alimenta.

É sobre #Abyayala

Tem um povo Kariri que pega peixe de rio com as mãos, como se fosse um só corpo. E esses peixes estão vivos. E esse povo está retomando.

Diário de um Filme por vir – o desejo de um corpo ilhado

Por Kiko Alves

As breves palavras colocadas aqui como pensamentos soltos de um corpo que aprendeu a habitar um mundo instável, são reflexões e pontuações sobre um filme futuro, mas nem tanto, que desejo produzir; para que entendam um pouco sobre mim em breves linhas, eu sou apaixonado pelo quão ordinária, comum, repetitiva pode ser a vida, sou apaixonado pelos pequenos movimentos, gestos breves, sorrisos tímidos, rostos leves, gosto de cheiro de coentro, de livros novos, gosto do perfume da casa da minha mãe, gosto do som de vozes do passado, que ouvi ainda na infância e que ecoam na minha cabeça em dias bobos, em dias onde sou pego pela saudade, e gosto das palavras, de algumas ao menos eu gosto muito, eu gosto da palavra desejo e não quero pensar nas implicações filosóficas disso, eu gosto da palavra desejo e a partir dessa ideia ou palavra, a uns dois anos comecei a escrever um filme, que tinha certa dificuldade de nomear, até que foi nomeado e essa ideia tem ficado mais clara.

Mas voltemos ao desejo, essa palavra tem uma origem muito curiosa, ela é derivada do verbo desidero, que, por sua vez, deriva do substantivo sidus, (mais usada no plural, sidera), que representa a figura formada por um conjunto de estrelas, constelações. Isso me deixou muito animado, entender isso, são os astros o desejo são os astros, sidera é também empregada como palavras de louvor, o alto e, na teologia astral é usada para narrar a influências que os humanos dão aos astros sobres seus destinos. De sidera, vem considerare, examinar com cuidado, respeito e veneração, e desiderare cessar de olhar os astros, deixar de ver os astros.

O desejo conceito que narra diversas linhas para se pensar o mundo humano,  olhar para o divino, e ao mesmo tempo a ausência de ordem divina,  o que coloca outra condição para os habitantes desse mundo, corpos e rostos perdidos em ruas escuras do em noite frias de Fortaleza, de uma cidade escura inabitável, e abandonados à própria sorte, órfãos num mundo onde o amor e o desejo; monstros da caixa obscura de pandora, controla ou quase isso o destino dos corpos de quase zumbis, passeando pelo campo das significações da teologia astral, desejo ou desiderium cria uma conexão entre deus e o mundo dos entes materiais e corpos e almas.  Pelo corpo astral, nosso destino está inscrito e escrito nas estrelas, considerare é  consultar o alto para nele encontrar o sentido e o guia seguro de nossas vidas.  Desiderare, ao contrário, é estar despojado dessa referência, abandonar o alto ou ser  por ele abandonado. 

Cessando de olhar para os astros, desiderium é a decisão de tomar  nosso destino em nossas mãos e, neste caso, o desejo chama-se vontade consciente,  nascida da deliberação, aquilo que os gregos chamavam bóulesis. No entanto, se o  “cessar de ver” aparece como um ganho para aquele que toma sua vida em suas próprias  mãos,  “o deixar de ver” é experimentado como perda e desamparo. 

Deixando de ver  os astros, desiderium significa privação do saber sobre o destino, prisão na roda da  fortuna incerta. O desejo chama-se, então, carência, vazio que tende para fora de si em  busca de preenchimento, aquilo que os gregos chamavam de hormé. Essa ambiguidade  do desejo, que pode ser decisão autônoma ou carências, transparece quando  consultamos os dicionários vernáculos, nos quais se sucedem os sentidos de desejar:  querer, ter vontade, ambicionar, apetecer na diferença sutil de duas palavras, em  português: desejante (o vocábulo exprime uma ação) e desejoso/desejosa (o vocábulo  exprime uma carência). 

Esse entendimento de desejo nascido na pesquisa sobre o filme, me ajudou a entender que tipo de corpo e atores me interessam para habitar esse universo, o mundo em que habitam meus personagens em sua maioria negros, habitam um mundo em desordem, que não se estabiliza, logo eu tentava encontrar modos de estabilizar o desejo num mundo onde essa ideia é vendida, mas nada dura, tudo é pautado pela instabilidade, o desejo representa bem isso, e queria pensar essas emoções, ou pequenas imagens para trabalhar com meu elenco.

Sob o signo da carência e da falta, a modernidade clássica, decisão racional de  abandonar as ilusões dos antigos mistérios, não cessa de repor o desejo com os traços  do Eros da genealogia desenhada pela fala de Diotima, no Banquete de Platão. 

Filho de Póros, o expediente astuto, e de Pênia, a Penuria, Eros nesta condição ficou,  narra Diotima. Esquálido, descalço, sem lar e sem teto, pedinte e endurecido, Eros  transita num mundo de privação e despojamento, onde o pariu sua mãe Pênia, carente  de beleza, “desejo de grávida”. Nem mortal nem imortal, Eros no mesmo dia germina e  vive, desfalece e morre para renascer a seguir. Insidioso e alerta, corajoso e decidido,  Eros, como seu pai Póros, é caçador terrível cuja astúcia maior consiste em converter  em amante o amado, fazendo-o desejar seu desejo. 

Seja como desejo de reconhecimento, seja como desejo de plenitude e repouso, o  desejo institui o campo das relações intersubjetivas, os laços de amor e ódio, e só se  efetua pela mediação de uma outra subjetividade. Forma de nossa relação originária  com o outro, o desejo é relação peculiar porque, afinal, não desejamos propriamente o  outro, mas desejamos ser para ele objeto de desejo. Desejamos ser desejados. 

Nesse mundo onde o amor e órfão de mãe e pai, esquálido, sem nome, sem rosto e  sem vida, parece que a única alternativa é fugir, Paulo foge, Julia resiste a fuga e  Roberto encontra nesse mesmo movimento uma possibilidade para o início de sua  vida, no final nada é o que parece

Kiko Alves

Fortaleza – Janeiro de 21

Encantaria no Sertão Kariri, Siará.

Lavras da Mangabeira, Ceará.

Boqueirão

Chamam esse lugar de garganta sagrada, eu sinto não só a garganta mas o corpo inteiro, feito uma rede de terra e alma.

Eu cresci escutando sobre uma sereia que mora nessas pedras, outros dizem que é um ser metade mulher metade cobra, talvez, a Maara que também aparece nas narrativas da cidade de Crato, Ceará, a verdade é que uma serpente encantada vive na memória dos ancestrais Kariri. 

SER PEN TEANDO MEM ÓRIAS

É visível nas paredes da pedreira o formato de uma espécie de “casa” desses seres encantados e mais na frente tem a gruta inacessível. Sobre esse ponto em outro momento conversaremos.

Essa natureza vibra nos olhos de quem a enxerga, dizem que o mergulho nessa água amolece o coração e causa sedução no olhar do corpo que se molhou.

O lago está sempre frio porque fica em baixo de um pé de oiticica, uma árvore também nativa da região, (planta endêmica na caatinga e na vegetação típica da faixa de transição entre o sertão semiárido do Nordeste).

Colegas Artevistas, nesse mês estou provocando um diálogo a partir do Boqueirão, que fica na minha cidade, além do desejo de apresentar a natureza viva, me interessa lembrá-los que ao mencionar essa vivacidade estou lembrando-os de abrir escuta para o originário. Lavras da Mangabeira, Ceará, é território do nativo dos Kariri, Siará.

Estamos preocupados em cuidar do Boqueirão porque são nossas avós chamando para dançar saúde.

Nosso corpo não se separa das encantarias.

Feliz ano novo. 

Por Barbara Leite Matias (Flecha Lançada).

Clicks existenciais!

Por Douglas Miranda

Vivemos em um mundo, em que uma árvore tem mais valor financeiro morta, um mundo em que uma baleia tem mais valor financeiro morta. Enquanto nossa sociedade, mais especificamente nossa economia, funcionar assim estaremos ameaçados e sim ameaçando nossa existencialidade.

O Google não tem a opção de apontar:

Isso é conspiração?

Isso é verdade?

Porque eles não sabem o que é verdade.

Eles não têm um padrão do que é verdade, ou que exista uma verdade, estamos lascados.

Esse problema na verdade está na base dos outros, porque se não concordamos, não conseguiremos resolver nenhum dos nossos problemas.

Quando falo sobre a tecnologia ser uma ameaça existencial, diria sem titubear que esse de fato é uma alegação importante…

É fácil sua mente pensar, por exemplo:

“Estou aqui, usando o celular, rolando a barra, clicando, navegando.

E daí eu pergunto, onde está a ameaça existencial?

Respondo rapidinho da seguinte forma:

Um supercomputador do outro lado da tela está apontado para o seu cérebro, fazendo-o assistir aos vídeos, capturando e conectando seus desejos.

Onde está a ameaça existencial?

Não é que a tecnologia em si seja uma ameaça existencial, é a capacidade dela de trazer à tona o pior da sociedade, e o pior da sociedade é sim uma ameaça existencial. 

Se a tecnologia cria caos em massa, indignação, incivilidade, falta de confiança no outro, solidão, alienação, mais polarização, mais distração e incapacidade de focar nos problemas reais… isso é sociedade.

E agora a sociedade se vê incapaz de se curar e reverter esse estado de caos.

A corrida pela atenção das pessoas não vai acabar. A tecnologia vai se integrar mais e mais em nossas vidas, não menos.

Arquivo da rede

Os algoritmos ficarão melhores em deduzir o que lhemantém focado na telinha, não ficarão piores.

O que mais me preocupa?

Se continuarmos com essa rotina atual por mais, digamos, 30 anos… provavelmente destruiremos nossa civilização através da ignorância.

Provavelmente não sobreviveremos, e sim vejo isso como um problema existencial.

Esta será a última geração de pessoas que saberá como era antes da ilusão desejante surgir?

Como você desperta da matrix se nem sabe que está dentro dela? Fico por aqui e deixo um pensamento, no mínimo instigante.

“ A utopia e a ignorância competirão em uma corrida até o momento final… “ Buckminster Fuller

Muito do que escrevi aqui hoje faz parecer ou soar algo simplesmente trágico.

Porém, não é bem assim … na verdade, é confuso … porque é utopia e distopia ao mesmo tempo. Ou seria de repente uma urgência reflexiva sobre um novo funcionamento, dando possibilidade para uma heterotopia?

Douglas de Miranda
Uma mistura de paulistano de nascença com cearense de alma
Pai do Gabriel
41 anos
Estudante de Psicologia
Amante das Artes

Quantos vivem em ti?

Não havia tempo 

Já é hora.

Esperar não é fazer

Mas, hoje já não quero correr,

Nem deixar de fazer.

É que sou, 

Somos

Feitos desses tantos, 

Penso.

Entendi faz tempo que além do meu quase permanente desejo de solidão, quando estou junto gosto de tá junto. 

E aqui nesse lugar ArteVistas somos tantos, e tão queridos e sou tão grata e feliz por cada um.  

Tenho tanto a dizer mas escrever é também se deixar ir, e ando precisando me poupar para fruir em outros lugares.

Logo retomo com mais palavras e sentimentos para compartilhar. Grata!