Plantar um filho, escrever em uma árvore e ter um livro

Por Leila Castro

Digo-lhes: é preciso ter caos dentro de vocês mesmos, a fim de dar à luz uma estrela dançante”. (Nietzsche) 

A parede da paixão, manchada de vinho, bebida do Deus Baco, da Grécia antiga, mais um dos grandes mitos da história, mais uma das questões as quais não temos respostas e nem, se quer conhecemos as perguntas certas. Elas existem? 

. A mancha lembra sangue, dor, morte, mas é apenas a prova de um crime sem bandidos, nem mocinhos. Lembro da parede olhando para mim de forma reprovativa, culpando-me pelo o fato de eu tê-la tirado do senso comum, e isso tivesse acabado com sua vida. – Como se, isso fosse possível. Agora, no entanto, olha-me em tom de agradecimento, tornou-se única, ganhou personalidade e força, parece-me mais viva e alegre. Fiquei feliz ao vê-la.  Fico feliz sempre que há vejo.

  Os cacos no chão brilhavam refletindo a luz do sol, mas ainda traziam consigo a memória da noite anterior; felizmente, não guardavam rancor de mim, perceberam-se livres. Era por fim, cada um por si e o sol por todos. Peguei a vassoura para juntá-los e pude ver alguns pequenos fugitivos buscando seu lugar no mundo, ignorando o meu desejo de tirá-los dali. Ou será que não queriam partir por ainda crer que poderiam unir-se outra vez? Devia ter perguntado, mas isso só me veio agora quando ainda vejo alguns vidrinhos fugitivos. Um logo ali, em baixo da minha espreguiçadeira.

Se minha confortável cadeira falasse, ela agradeceria por tanta atenção, mas certamente iria pedir que eu a desse uma folga vez por outra, afinal ela não gosta de ter sempre a responsabilidade por meu conforto, isso pode ser um fardo muito pesado. Tentarei enfim, olhar outras cadeiras. Comprarei também uma bela cama, assim como um quadro para minha parede exclusiva, com quem cresci junto. Vou fazer uma faxina na vida e montar finalmente um lar. É hora de criar raízes, plantar frutos específicos, conquistar amigos presentes, sem ter de dizer adeus a todo instante. Talvez eu tenha um filho, quem sabe até um marido, o que não será difícil já que sempre tive muitos admiradores. Também plantarei uma árvore e escreverei um livro. Ou não seria melhor; Plantar um filho, escrever em uma árvore e ter um livro. Ou ainda, Plantar um livro, Escrever um filho e ter uma árvore. Tão pouco sei sobre o que quero. 

Lembrei-me de algum ditado… Acho que é chinês, que diz: “Não sei para onde estou indo, mas sei que vou?”. Não tenho certeza se é assim, mas é isso.

Meus pensamentos bem elaborados e utópicos, sobre o futuro, que já me bate a porta, me divertem.  

– Ai! Ai! A esperança nos preenche ou consome? 

O sol forte incomoda-me ainda um pouco, mas sei que irei contornar essa situação também, a questão agora é saber onde plantar raízes. Aqui ou em outro lugar, pode ser qualquer um. 

Sempre gostei de praia, as ondas do mar batendo nas pedras mudando as coisas de lugar, crianças correndo e sorrindo jogando a água pra cima. -Seria interessante morar em uma praia. Pisar na areia todas as manhãs, olhar o sol nascer, sentir a brisa batendo no meu rosto. Ao pensar nisso chego a fechar os olhos e consigo sentir o vento em meus cabelos… – No geral é o ventilador velho que levo sempre comigo aonde vou e que permanece sempre ligado, no entanto, é possível deixar-me levar pela imaginação e chego a andar em pensamento sobre os pequenos cristais gratuitos da natureza, a areia molhada pelo mar azul. Vendo-me refletida no chão, logo abaixo de mim.  – É sério! Consigo sentir!

Foto por Jill Burrow em Pexels.com

Definitivamente, quero e vou morar no litoral. Algum dia, talvez. Travo-me em um primeiro momento, mas meu corpo segue até o computador e quando dou conta já estou procurando cidades litorâneas, é preciso que sejam capitais, para facilitar na busca por um bom emprego e não passar fome, afinal se aprendi algo bem nessa vida, foi a gastar dinheiro. Nossa! Como faço isso com perfeição e rapidez. 

Mas não devo a ninguém! – Diz o meu cérebro antes mesmo que eu termine o pensamento. 

Tanto é o medo do julgamento dos outros que fazemos isso primeiro, nos julgamos, sem nem mesmo curtir o momento do prazer. Como somos cruéis conosco. Se, trabalhamos, e eu bem trabalho e ganho meu dinheiro; dessa forma posso e devo gastá-lo. É meu e foi conquistado para me satisfazer, não o contrário.

 – Sei disso, e ainda sim me justifico

E você tem se justificado muito? Me conta!