Onde habitamos existencialmente?

Por Júlio César Martins Soares

Três indagações são essenciais na filosofia: Quem sou? De onde venho? Para onde vou? Aparecem na vida, outras tantas questões que a filosofia possibilita compreender. Parece que são mais perguntas que respostas e na grande maioria das perguntas se titubeia, deixa-se de lado por não saber como responder ou se dá algum tipo de retorno do qual se pode arrepender depois.

Nesse sentido, o filósofo, por meio do método filosófico se movimenta no intuito de afirmar que é importante saber onde a pessoa está existencialmente, quais são seus endereços existenciais, onde ela habita quando não se habita? Como se porta no mundo desde criança? Procura ver como é a sua estrutura de pensamento? Deseja saber como constrói e solidifica seu pensamento? Se a pessoa é mais sensorial ou se é mais abstrata, quais os espaços que preenche com sua presença?

Diante de um outro que chega querendo respostas demasiadamente rápidas ou encontrar soluções imediatas, o que se pode fazer? É importante o acesso à pessoa sem que ela se afaste de si, através da consciência do que acha de si mesma, de averiguar como o mundo lhe parece, nesse viés “o homem é a medida de todas as coisas” como afirmava Protágoras de Abdera e mais perto dos nossos tempos Arthur Schopenhauer vem afirmar que “o mundo é uma representação minha”. Cabe ainda especular com qual métrica essa pessoa mede o assunto que aborda, porque de fato quando alguém afirma algo, ela diz de que como o mundo é para ela.

Há dentro de cada pessoa um universo composto de contradições, de presença dos opostos e uma das formas de não afastar-se de si é por meio da interpretação dos fatos, porque o indivíduo não é só dor e não é todo desespero. Aqui não há premissas do que é certo ou errado, nem a noção do que é bom ou ruim. Há sim, muitas dubiedades, mas as vizinhanças existenciais trazem um pouco de tudo quanto se precisa saber, pode até se ter várias respostas, mas a metodologia da filosofia hegeliana aponta para uma resposta como uma chave que abre os cadeados e as portas das “prisões” que estiveram há muito trancadas quando houve o rompimento do sujeito com a sua história.

Aparecem muitas dubiedades, na fala, nos gestos, há quem diga, por exemplo, que adora caminhar, adora ler, e no cotidiano de sua história não procura um livro ou saia de casa para se exercitar. Nesse sentido, se se tem uma ideia do caminho, o que a impede, o que dificulta a jornada? Onde procurar tais impedimentos e tais afastamentos senão na história de vida da pessoa contada por ela mesma? Eu e as minhas circunstâncias.

Meu texto Sobre a Existência

Por Júlio César Martins Soares

O poeta Schiller numa série de cartas sobre a Educação estética do homem enfatiza que “a natureza não trata melhor os homens do que as demais obras, age em seu lugar, onde ele não pode agir por si mesmo como inteligência livre. O que o faz homem, porém, é justamente não bastar com o que dele a natureza fez”.

No sentido estrito da arte Schiller apontar para a ideia de que “nas asas da imaginação o homem abandona os limites estreitos do presente, em que o encerra a mera animalidade, para empenhar-se por um futuro ilimitado”, onde encontra toda a busca do existir em plenitude, em toda a busca pela perfeição. Por perfeição aqui não se entende no sentido estrito da palavra e como julga o senso comum, como algo pronto e acabado, mas numa vertente em afirmar que a junção de per + facere (por+ fazer) indica-nos o caminho de verificar que é algo que está por fazer, em construção, ad aeternum, em contínuo fazimento. De que o sujeito está produzindo constantemente sua história de vida.

Noção parecida, no entanto, pode ser encontrada na afirmação heraclitiana que nos propõe uma possibilidade ainda maior no sentido de que tudo é um constante devir e um eterno vir a ser, esse pensamento aponta para o conceito de uma construção gradativa e perene, de uma fabricação permanente que renovando permanece, que constantemente se afirma e se constrói. Desta forma, retornamos aos primeiros filósofos na concepção de vida como uma luta constante, de um eterno embate de forças contrárias do finito em relação ao infinito, do uno em relação ao todo, do homem em relação à vida.

Ainda, recordo Nietzsche que afirmava a ideia do filósofo deixar ressoar em si a consonância do mundo, para então extraí-lo em conceitos tornando-se contemplativo como o artista plástico, compassivo como o religioso e ansioso por fins e causalidades como o homem da ciência. Ao pensar essa tripartição: homem, filosofia e existência, acredito cada vez mais a necessidade de não ser possível um autoconhecimento que ultrapasse os caminhos da filosofia, sendo mais exato, creio não haver autoconhecimento que não palmilhe as sendas filosóficas, mas acredito mais ainda que não adianta conhecer-se muito ou ter uma existência longa sem ter tido o prazer de amar o outro.

Não sou feio nem bonito, nem artista, nem poeta, tenho o rosto do infinito e uma alma sempre inquieta. Sou inquieto o tempo inteiro, canção nenhuma me revela, sei que o amor não dorme, nem cochila, sempre vela.
Sou goiano. Poeta. Filósofo. Casado. Marido da Alana. Pai do Pedro Antônio e Benjamim. Psicanalista e mestre em educação. Tenho um perfil no Instagram @casamentopoetico em que falo de amor e poesia, porque acredito que o amor jamais morre, sempre vence.