Histórias de amor acabam… E está tudo bem…?

Oi sou eu aqui de novo. Vim com mais um post com meus sentimentos depressivos e densos, um gosto de melancolia, solidão e remorso. Culpa não… A igreja inventou a culpa e me f***… Porque todos os meus limites quando são estralados, o sentimento de culpa fica eterno na minha cabeça… Mas hoje preparei algo diferente, eu li uma carta de amor… Então senta, põe sua música predileta e aprecie arte…

“eu vivi uma história de amor…? Conheci quando ainda era jovem, tinha acabado de completar os 18 anos, estava entrando na famigerada vida adulta, faculdade, responsabilidades e contas a pagar. Meus primeiros boletos chegaram nessa época. Foi amor a primeira vista, primeiro beijo, primeiro toque, primeira palavra. Tudo que digo hoje sobre essa história que vivi, foi graças aos 15 anos de terapia que faço desde então. Não me lembro exatamente em que ano comecei a fazer terapia, só sei que ela me ajudou a entender todos os meus traumas de vida. Amor traumatiza pessoas, eu descobri isso da melhor forma. Com pouco mais de 3 anos de relacionamento, a gente se juntou para construir uma vida de casal. Começamos morando em um apê bem pequeno e não tínhamos muitos móveis. Uma mesa, um fogão, uma geladeira, a rede, um colchão. Construimos literalmente nossa vida do zero. Mas nessa época eu não fazia ideia dos meus problemas com dependência emocional, transtornos de personalidade nem de meus quadros avançados de ansiedade e futuramente de depressão. Nessa época também eu não tinha consciência de que era possível, crescer em uma família comum e ter tido um péssimo ambiente de criação. Todas as minhas cargas emocionais começam a aparecer dentro desse meu relacionamento, todos literalmente. A psicologia diz que desenvolvemos grande parte dos nossos problemas psicológicos na juventude… Justamente no período que eu mais era cobrado para ser um filho exemplar em casa e na escola. Notas altas, bom comportamento, obediência, depreciação, gritos, humilhações, abuso verbal, físico, mental. As únicas palavras de conforto que eu ouvia “você não fazia nada mais que sua obrigação”. Isso era quando era elogio. Pois bem, vivi um relacionamento onde eu pude estar com uma pessoa que me amou, fez eu me sentir alguém. Pela primeira vez na minha vida, eu podia ser quem eu era sem precisar fingir. Pela primeira vez na minha vida, alguém olhava pra mim com olhos de afago e carinho. Beijos quentes, sexo adolescente, abraços fraternais, era tudo que tínhamos. É muito louco como eu esqueci completamente aquele ambiente tóxico que eu chamo de família. Mas nem tudo sãos flores na vida né…. Depois de alguns anos percebi que não estava mais me reconhecendo, olhava as fotos antigas minhas, no colégio e na infância, e simplesmente não me encontrava ali. Eu sempre tinha a sensação de nunca saber o que eu era/sou. Isso começou a martelar na minha cabeça, eu percebia que eu estava recebendo amor de alguém tão de graça e tão puro que aquilo não fazia sentido algum na minha cabeça. Durante os anos que me esforçava para ser a pessoa ideal na relação, eu me afundava cada vez mais em sentimentos vexatório e egoísta. Minha cabeça basicamente sempre me dizia que eu não podia ter aquele amor, minha mente gritava de que aquilo tudo estava errado, alguém que não te manda nada ou não te exige nada simplesmente não faz sentido. Era uma confusão absurda, que martelava minha mente e meu espírito. Durante os últimos anos de relacionamento, foram os momentos chaves que basicamente surtei. Minha cabeça passou tantos anos sendo presa e invalidada que eu surtei quando percebi que eu não tinha construído quem eu era… Porque basicamente eu só vivi um relacionamento de dependência emocional, eu dormia e acordava do lado da pessoa que eu mais amei na vida… E estava enlouquecendo porque eu dependia dela pra viver. Depois de anos muitas coisas fizeram sentido. Me culpo por ter fracassado na relação, deixei a relação afundar como um bote furado. Se meu relacionamento fosse um Titanic, eu seria os músicos. Porque eu falei da culpa? Eu me culpo até hoje de ter deixado todo ao meu redor simplesmente desmoronar. Não me importava com os “amigos” que sumiram, não me importava com os trabalhos que perdi, não me importava mais com as pancadas que a vida estava dando na minha cabeça. Mas sentir o amor da minha vida escorrer pelos meus dedos, foi o maior fracasso da minha vida. Eu me curei de muita coisa, mas do amor perdido nunca. A única coisa que eu queria dizer pro meu amor é que amo amo amo e sempre vou amar, eu te amo como quem ama o azul. Eu te amo como quem ama a água. Eu te amo como quem anda de bicicleta. Eu te amo como quem… Apenas sei que se os 15 anos de terapia que tive até hoje, tivesse começado com 10 anos de idade, talvez hoje eu estivesse vivendo ainda com o amor de minha vida…”

Coloquei o papel amarelado de barro e duro de sol do meu lado, bolei meu baseado, pus o disco acabou chorare dos Novos Baianos pra tocar e fiquei olhando aquele horizonte lindo do Kariri. Eu encontro essa carta num penhasco enquanto eu fumava meu baseado e pensava na vida. Depois de ler aquele papel velho e sujo, me passou flashs na minha mente de todos os surtos violentos que tive por causa de minha Borderline. Minha cabeça começou a conversar comigo e a me contar como era bom eu estar só e dependendo de mim, apesar deu ser a pior pessoa para depender de mim mesma, mas mesmo assim eu estava viva sentada, fumando um baseado e olha do o horizonte…

“vou mostrando como sou e vou sendo como posso, jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos e pela lei natural dos encontros eu deixo um tanto e recebo tano e passo aos olhos nus…”

Eu não sei quem escreveu aquela carta, mas talvez essa pessoa tenha deixado ali, com a intenção de que alguém achasse… Mas será que essa pessoa se achou? Será que ela conseguiu viver algum outro amor?

A única certeza que tenho, é que apenas queria ser uma pessoa sem algo conversando comigo na minha cabeça… Sabe o anjo e o diabo que mora no nosso ombro? Literalmente o diabo está dos meus dois lados. Não podemos ser muitos mundos, mas se eu puder ser só o meu mundo, pra mim já é uma grande vitória.

“Talvez vc me encontre velho e solitário em um sanatório qualquer.”

As vezes, nasce um amor que não é para ser vivido

Oi sou eu aqui de novo… Hoje é 31/12/2021 para muita gente é final de ano, fim de ciclos, início de plantio, preparar a terra pra receber as sementes. As pessoas brotam um sentimento de empatia muito grande e de repente, sem explicação lógica ou plausível. As pessoas simplesmente mudam, as vezes tanto que o personagem se desmonta e a frustração por não conseguir sustentar o que criou te enfurece e você simplesmente grita.

Eu sempre me pergunto sobre o que eu estou vivendo. É constante meu estado de reflexão sobre minha existência e minha necessidade a partir dela. Sim claro necessidades fisiológicas são inerentes… Mas a minha estadia aqui é para o que mesmo? Todos os dias me deparo com situações de puro cunho sentimental e curto. O estreitamento de idéias nem sempre passa pela mesma peneira, 6 bilhões de peneiras é peneira suficiente né hahahah… Desculpa meu senso de humor de tiozão… A minha maior alegria era editar coisas no Orkut e criar emojis com os pontos e vírgulas;ou com outros símbolos né.

Eu te pergunto tu é feliz?

Tu tem amor próprio?

Onde você está esse tempo todo?

Tuas verdades estavam ocultadas mesmo por forças que você não fazia ideia que existia.

Olha, não quero que o último post do ano pra vocês seja algo pesada, dramático, solitária. Quero que esse novo ano seja carregado de axé, sempre com a sensação que os copos vazios estão cheios de ar. Veja bem, nós sobrevivemos a uma pandemia em pleno Brasil 2020/21. Vivemos para ser vacinadas pela esperança de continuar a memória das nossas que se foram. Pelo meu Pai Marcílio, Minha Vó Francisca, Meu Tio Ubiratan… Pela memória do amor daqueles que ainda iremos encontrar em outras vibrações… Pelo amor que temos em nossos afagos dados com carinho a quem sempre precisa. Acho que já tivemos lições suficientes para entender que não pode forçar a viver o que não ti pertence… Olhar para dentro de você é alimentar suas memórias, apenas vc… Mesmo que vc seja uma comunidade, mas seja você… Segurem na mão as amores que ainda ti tem, abracem seus carinhos e beijos mesmo que as vezes esponjosas espinhosos secas amargos ácidas… Mesmo verdes, vermelhas maduros podres… Abandone o que te faz mal… Mas não abandone quem te ama com sinceridade… As vezes você não sabe como demonstrar seu amor… As vezes existir é uma forma de mostrar amor… As vezes pedir desculpas é uma forma de demonstrar amor… As vezes olhar é uma forma de demonstrar amor… As vezes se despedir é um a forma deu te mostrar amor… Seja paciente o quanto conseguir, não se sinta envergonhada de não conseguir as vezes, frustração é natural. Apenas não se culpe…

Culpa é sentimento cristão.

Eu não sei mais por quanto tempo vou existir, mas quero existir pra mim.

Te amo para todo sempre.

1101

Por Roberta Bonfim

Não sei como isso acontece com você, mas por aqui tem sido um doce, mas nem sempre, fácil, na real é normalmente bastante conflituosos e contraditório, mas repleto de amor e risadas, esses 1101 dias em que sou para além de mim mesma, o que por si já me é bem trabalhoso. O fato, é que a exatos 1101 dias sou mentora de um ser, responsável pelas suas memórias fundamentais, necessidades básicas e alguns excedentes.

Como ela completou 3 anos neste mundo no dia 25 de janeiro, vou aproveitar esse espaço para escrever para ela, vai que um dia ela se esbarra com esse texto e sorrir. Espero também que você que por aqui chegou, sinta brotar no canto da boca um doce sorriso discreto de quem espia o amor pela brecha da porta.  

Faz 1101 que chegou no mundo você, chegou silenciosa, mas logo disse a que vinha e lançou sua voz no ventre do mundo, alertando ao mundo todo que você chegará. Chegou descamando, não queria sair da barriga e eu queria respeitar seu tempo. Chegou já mamando, já sorrindo, sem qualquer dificuldade me reconheceu. Me olhou nos olhos tão profundamente, que estou certa que naquele momento nossas almas se abraçaram fortemente entendendo que dali pra frente eu só poderia tá contigo, mas nunca, em absoluto ser ou estar em você, como você também daquele momento em diante não estaria mais em mim. E assim seguimos.

Você se alimentou de mim por quase três anos, mas preciso assumir que também me alimentei de você ainda me alimento, do seu amor, sorriso, me alimento da sua alegria, do seu carinho. E até das birras quando respiro e lembro do tanto que ainda temos para aprender. E te agradeço por ter escolhido a mim e a nossa história, para ser a sua história ou o seu caminho das paragens daqui. Te amo filha, amo ser sua mãe, amo te chamar de minha filha, amo quando me chama de minha mãe e não há qualquer relação com posse é só identificação de linhagem. Grata meu amor.

E se você veio até aqui, te convido a amar mais, sorrir mais e compartilhar afetos e arte por onde estiveres.

O TESTAMENTO DO EU

Esse texto não é apenas o fim de uma série de artigos sobre a questão da identidade. É também o testamento do “eu”.

Era ainda o ano de 2019 quando pela primeira vez li o livro “A vida e a morte no budismo tibetano” de Chagdud Tulku Rinpoche. Nele o monge tibetano nos ensina a importância de lidar o mais cedo possível com o temor da morte. Quando terminei de ler o livro, imediatamente me veio a vontade de fazer o meu testamento. Sim, eu já havia pensado nisso muito antes, mas foi somente após lê-lo que me surgiu a necessidade espiritual de realizar essa ato testamentário. Esse texto que ora apresento faz parte do meu processo de descoberta de que o “fim” deve ser reconhecido como parte de intrínseca da nossa Jornada.

“Quem sou eu?” (ECO…)

A minha participação de escrita nesse blog começou com essa pergunta. E pretendo aqui respondê-la antes que termine o ano. O ano para mim só termina em março mesmo.

De certa maneira, definir quem somos parte de uma série de começos. Há muitos pontos de partida que podem orientar a nossa resposta. No entanto, enquanto figuras ocidentais imersas em coordenadas cartesianas, esperamos que haja apenas uma e definitiva resposta. Não é mesmo? Mas sabemos quem somos? A resposta é…

Sim e Não.

Primeiro, devemos admitir que a frequência desse tipo de resposta advém de um discurso pré-moldado. Como se fosse comprado na Tok Stok ou na Leroy Merlin ante-ontem. A verdade é que nossas reações diante dessa pergunta se pautam por uma questão de identidade social: um nome, uma biografia, um companheirismo, a família, um lar, o emprego ou o cartão de crédito.

Estamos na realidade preocupados com o “olhar do outro”. Mas, qual é a sombra de nossa identidade? Imaginem, por exemplo, uma pequena garotinha tomando sorvete. Seus pais a olham enternecidos e com certa “surpresa nostálgica” pelo desejo da filha ao tomar o dito sorvete. A garota reconhece o olhar dos pais. Na próxima vez que ela estiver na rua e pedir aquele mesmo sorvete aos pais, é de se perguntar se será para ela mesma ou para os pais que ela direcionará seu objeto de desejo a ser satisfeito. Muito complicado?

Dito de outro modo, quais outros sabores não conhecemos porque nossa satisfação está dependente do desejo do outro? Que parte de nós ainda não conhecemos?

De certo, essa parcela desconhecida advém e se instala quando acontece o “silêncio”. Quando não temos mais que dar respostas prontas ou agir de acordo com o que esperavam de nós. Ao cessarem os barulhos e as atividades, quase sempre nos deparamos com aquela espécie de silêncio ensurdecedor que nos diz quem somos. Todo o problema é que não encontramos o silêncio, porque ele não diz nada. E sem eco, somos o “não-dito”. Portanto, da próxima vez que te perguntarem quem és, responda simplesmente: “Sou o que tu não vês ou ouves. Tudo que disseram sobre mim não fui eu quem te disse, o que tu vê em mim, lembra que eu não vejo. Portanto, sou o não-dito”. Essa frase é minha, com “common rights”, portanto pode compartilhar mas fazendo menção ao autor. Ok? Penso que esteja nesse “não-dito” o que chamam de sombra.

O ano de 2020 para mim não foi atípico. Pelo menos não da maneira como a maioria do mundo tem julgado. Sinto que foi muito mais uma espécie de convite para que as outras pessoas pudessem experimentar aquilo que venho sentindo a minha vida inteira. Imaginem alguém que busca a ordem em meio às profundezas do caos da transformação incessante. É assim que um virginiano na casa 8 se sente. “Welcome to my world!”

Meus processos de morte me acompanharam desde cedo. Crenças que cederam lugar à desconfiança. Algumas cascas de feridas que deixaram marcas; outras esquecidas. Mergulhos nos mistérios da vida que não obtiveram compartilhamentos ou “likes”. Experiências que por serem demais obscuras me despertaram o verdadeiro temor e a opção de escolher apenas o superficial em vez do profundo. Outra vezes o inverso. E finalmente, o aprendizado que advém do reconhecimento dos meus limites, seja do âmbito corporal, psíquico/mental ou emocional. E tudo isso devo ao “outro”. É com o outro que me encontro, quem me manda uma mensagem que diz se o sinal está fechado ou aberto. 

O “olhar do outro” provoca e espera uma reação nossa. O distanciamento social nos tem proporcionado uma espécie de laboratório para o estabelecimento dos limites. Imaginem então esse cenário no mundo pós 2021: afinal, não é o outro com sua máscara na fila do pão que diz se você pode ou não avançar?

Graças a Deus eu tive um Pai para me impor certos limites. Hoje eu reconheço que é fundamental para a vida em sociedade. Por outro lado, sentir-se aprisionado, sem alternativas, com a impressão de ser um patinho feio, é perturbador demais para o “eu”. O que a maior parte das pessoas chama de “tradição” ou “conservadorismo” é na realidade uma “ansiedade da operação do desejo” que clama pela “aceitação”. Se é verdade que existe a exclusão a partir da definição do “normal”, não é menos verdade que o “diferente” se auto-exclui quando deixa de ceder ao diálogo, à negociação e ao convencimento. O “diferente” está errado em pensar que é um “eu” especial. Outro ponto importante seria colocar em perspectiva as inúmeras “formas estratégicas de sobrevivência” e as “reações inteligentes” quando surge a violência física no encontro do eu-outro, o que poderia ser melhor discutido em outro artigo, principalmente em relação à questão do papel simbólico da Mãe.

Essas questões no fim levantam a maior de todas: o que é a liberdade? E qual o seu limite? Ou melhor, ao se relacionar com o outro, qual é o preço da liberdade? Ou vocês acham que Adão [Primeiro Homem] estava feliz sozinho?

Certamente se deve a Freud a melhor explicação da forças atuantes no “ego”, submetido às forças do desejo e da necessidade do “id” e às forças castradoras do “superego” que moldam a personalidade do indivíduo para uma vida em sociedade. Esse arcabouço psicanalítico foi logo depois substituído pelos termos “pulsão de vida” e “pulsão de morte”. Eros e Tanos. As duas forças constitutivas de todo ser humano em duelo permanente.

No âmbito das ciências humanas foi bem pior essa repercussão. As pesquisas de linguística despertaram as forças de pandora para aniquilar o “eu”. Onde estaria portanto o “EU” na era pós-moderna? Sendo subitamente substituído pelos discursos  estruturantes, o indivíduo deixou de ter qualquer autonomia ou privilégio do seu destino. É assim que nascem o discursos hamletianos de “ser/estar”. Daí também a singular universalidade desse teatro. Ninguém mais “é”, no mundo contemporâneo “se está sendo”. Nunca antes a ideia de uma “construção” esteve tão em voga:

”Você não é uma pessoa bem-humorada. Você está bem-humorado”

“Você não é um viciado. Você está viciado”

“Você não ama. Você está amando”

Para então chegarmos à diferentes soluções, quando se acha que é mais importante “ser” do que “ter”:

“Você não tem um carro. Você está fazendo uber”

“Você não tem onde morar. Você está morando com os pais”

“Você não tem uma carreira. Você está fazendo um bico aqui e outro acolá… como freelancer

A questão de saber se Hamlet era ou se fingia louco é importante aqui, pois trata-se da força de seu ímpeto (desejo e poder). Como solução de um conflito trágico, Hamlet assassina e é assassinado. Cheque-mate. Quem vence não é o príncipe mas as forças do destino que aniquilam o “eu” e o “outro” dentro do reino podre da Dinamarca.

A morte e sua presença ressurge em uma espécie de paralelo histórico que reaparecem no entardecer da humanidade como uma minhoca que sobressalta e perfura a terra, deixando um único rastro: o buraco.

Outro dia ouvi o que disse a monja Coen: que o objetivo da vida não é a felicidade. Por quê? Porque existem muitos desconfortos na vida. É quase impossível ser feliz com tantos desconfortos. Porém, precisamos entender que tranquilidade é uma coisa, felicidade outra. Lutar por ter uma vida mais tranquila me parece mais justo e menos ambicioso na medida que estipulamos para nós mesmos.

Seguindo uma ótica de relação entre poder e amor, parece-me que uma escolha deve ser feita, entre dominar ou ser dominado. Ou simplesmente abdicar de tudo. Perdoar pode ser mais sensato. Desde o ter que levantar cedo para trabalhar a passar noites em claro cuidado de um enfermo ou de um bebê, quando precisa ser amamentado, a verdade é que somos requisitados por outrem. O que acontece com a pessoa que não quer mais amar? Elas ficam presas a momentos instantâneos. Querem dominar o outro, a natureza, Deus, a si mesmo. Estão ávidos por doses de prazer em curtos períodos. Aquele prazer curto e mesquinho ao qual se acostumaram. “Elas estão amando”, apenas. O amor visceral, ao contrário, como é sabido deixa um enorme buraco.

Essa incapacidade de amar de hoje nos tem levado às relações efêmeras, traços de uma personalidade miserável, não-produtiva, infértil. Em suma, egoísta. E por quê?

Chego a duas conclusões: a primeira tem a ver com a busca por pertencimento, a segunda pelo que significa diferença. A questão da individualidade surge de maneira distinta para as diversas culturas. Chegou-se à falsa noção de que para encontrar seu “verdadeiro eu” deve-se rechaçar tudo que veio antes ou que está posto como “norma”. Com isso, chegamos apenas à triste constatação de que o que se estará operando na vida será a “auto-exclusão”. Uma ilustração poderosa disso é aquela que surge quando queremos escolher uma roupa para sair. Embora tenhamos uma opinião, outro(s) opinariam de modo diferente, cabendo exclusivamente a VOCÊ decidir o que vai vestir.

Se você ouve sempre a opinião alheia ou se está sempre pouco lixando para as regras sociais, somente ao fim da noite, quando a carruagem virar abóbora, descobriremos quem tinha razão, não é mesmo?! É importante lembrar apenas que nem sempre posso seguir o que o outro quer de mim. Ponto. Portanto, não seja um “revoltadinho sem causa”. Amadureça e escolha com quem quer estar, usando essa ou aquela roupa. Dica Marie Claire: Há sempre um pé descalço à espera de um sapato que lhe caiba.

Outra ilustração poderosa de auto-exclusão aconteceu quando o buddha histórico Sakyamuni, quando ainda vivia no castelo como príncipe, dentro de uma sociedade familiar e de castas, decide vagar pelo mundo em busca da iluminação. Na verdade, estava ele em busca de compreensão sobre o nascimento, a velhice, a doença e a morte. O que ele faz? Visto que a rigidez social em que se encontrava o impedia de buscar essas respostas, decide cortar seus longos cabelos e viver frugalmente nas florestas com os antigos sacerdotes. Após ter chegado à “brilhante” conclusão de que as coisas somente “são”, ele retorna para a sociedade. Sim, ele volta para a sociedade ! Em suma, se eu puder escolher as roupas que quero vestir, e o outro também, e houver respeito, não vejo como evitar ficarmos lindos e maravilhosos num baile de gala.

Segunda conclusão. Somos semelhantes não somos iguais. “Respeito pela diferença, sim. Contudo, ninguém quer viver sozinho. Ou quer?”

As pessoas tendem a achar que estão sempre olhando para elas, que estão sendo observadas. Quanto egoísmo. Digo com “ismo”, porque somente com “ismo” tratamos aquilo que se deturpa: cristianismo, judaísmo, marxismo, liberalismo, etc. O “ego” é necessário na medida em que pode e deve lutar pelas suas necessidades.

Utilizar-se de um artifício sem escrúpulos como colocar uma melancia na cabeça pode bem ser o começo do fim. É bem verdade que do ponto de vista comercial a batalha pela atenção tem tornado o mundo um lugar bem difícil de se viver. O ego se coloca no mercado de modo ilusório – alienação de si – para que só depois se descubra o quanto aquele “produto” era frágil.

Mesmo um indivíduo que vive da caridade alheia necessariamente precisa ser olhado, mas o egoísmo dele é tão forte que ele mesmo é incapaz de doar alguma coisa. Esse é o tipo de pensamento “em si mesmado”, quando se acha que tudo e todos devem conspirar ao seu favor. Também é comum ouvir-se a queixa de que esse ou aquele projeto não deu certo porque fulano ou ciclano puxou o tapete. Esse discurso é recorrente e estou apenas mostrando o esqueleto do que acontece como efeito de uma causa muito perversa que é o egoísmo. Sim, o mendigo pode ter escolhido levar a vida da sua maneira. Isto é nobre e especial. Porém, somente o “não-dito” poderá validar. E isso só se torna visível quando um real processo de compartilhamento acontece. Quando o eu e o outro podem se irmanar, cedendo aquilo que se “é/está” para satisfazer a necessidade do outro. A maneira disso acontecer tratarei posteriormente.

Chego à conclusão de que compartilhar é também aquilo que chamam de “amor”. Porém, o que se diz sobre o “amor” é muitas vezes algo corrompido. Uma dor. Ao buscarmos comunicar nossos sentimentos e emoções humanas com amor elas são imediatamente reconhecidas. Saímos de nós mesmos. Saímos do “eu” e quase o aniquilamos. Mais que tudo, tem o poder de sair verdadeiro e simples. Não sai rebuscado como um “eu” especial.

Portanto, continuemos treinando nossas reações. Mesmo as reações ao amor. Pois não é fácil reconhecer que alguém te ama. E quando você ama, você ama de verdade ou está oferecendo migalhas que vão te satisfazer na medida do seu “ego”. Gosto da lição da monja Coen quando propõe pensarmos em termos cotidianos:

Como lidamos no trânsito? Você deixa passar? E quando vai ao banheiro, você cede ou quer sempre ir na frente?

Conclusão

Saber amar e saber deixar de amar podem ser igualmente as face das mesma moeda. Os pais que investem seus desejos poderosamente sobre uma criança que toma sorvete é igualmente pernicioso como uma mãe que não deixa seus filhos sairem do ninho, todo tempo fazendo tudo por eles, de modo que eles se tornam incapazes de sobrepujarem seus próprios limites. Foi o que teve de fazer o buddha Sakyamuni. Sair do olhar vigilante e super poderoso de seus pais para descobrir-se em si mesmo. Quando o amor se torna desequilibrado, é necessário afastar-se para que uma relação se mantenha saudável, onde haja participação tanto do “eu” quanto do “outro”.

Na minha vida pessoal, estive a maior parte das vezes envolvido com relações desiguais. Ao perceber isso, espero que consiga matar meu antigo “eu” e fazer um novo “eu” ressuscitar das cinzas. Pais, amigos, amores, fazem parte daquele “outro” que na maioria das vezes quiseram sempre ceder seu lugar na fila do banheiro. Eu reconheço com gratidão a oferta. Mas não. Hoje, sou eu quem quer deixá-los passarem na frente. Dessa forma, espero conseguir me desvencilhar do “poder do amor”. É tão mais justo revezarmos entre um e outro, quero acreditar que assim a fila andará mais rápido.

Eis meu fim escatológico!

Quem sou EU e a matemática do -1 de D-EU-S

Fiz um teste de DNA autossômico. Estava curioso para saber minha composição genética. Nesses testes eles dividem o atlas em regiões mais ou menos clássicas. A minha composição relativa deu o seguinte resultado: Europa (65%), America (15%), Oriente Médio (13%) e África (7%). Em mais detalhes:

Tenho 49% de componente genético da Europa Central, 15% da Península Ibérica; Sou 10% ameríndio, da região da América Central e 4% dos Andes e Caribe. Do Oriente Médio 13% sendo desses 11% do Norte da África (Maghreb e Egito). Do continente africano herdei 7%, com 5% da Bacia do Congo. De todas estas regiões, alguns resquícios totalizam os 100% compostos de menos de 1% de Ameríndios da América do Norte; menos de 2% de Judeus Sefarditas; menos de 2% da região da África Ocidental (Ghana, Togo & Benin) e Chifre de África (Eritrea, Norte da Etiópia & Somalia) com menos de 1%; finalizando com – pasmem – Myanmar, também menos de 1%.

A questão da identidade permeia o humano. Talvez seja um traço singularmente humano. Saber quem se é. Desconheço qualquer indício dessa questão profundamente hamletiana em animais. Se bem que existem casos de cachorros e gatos que às vezes se acham humanos o suficiente para ocupar o lugar do seu dono. É uma questão intrincada. 

O “Ser ou não ser”, diz o solilóquio de Hamlet, revelando o primeiro princípio da lógica: o princípio da identidade. A identidade é única. Uma coisa é ou não é. E não pode ser uma terceira. Caso os atributos de uma pertençam a outra, então bate-se o martelo. Gêmeos apesar de idênticos, ainda são diferentes por temperamento. No tempo, porém, tudo fica mais difícil. Diz Hegel que a negação inerente do próprio ser lhe faz chegar à uma essência. Assunto difícil esse de falar de essência nos dias de hoje.

Tenho investigado a minha identidade. Sempre gostei de investigar essa questão intrínseca do ser humano. Justamente por não ser um cachorro e por agir com comportamentos os mais diversos – muitas vezes contraditórios – é que meu pensamento me leva a encarar essa questão de frente. Fico me perguntando, onde tudo isso começou? Aliás, quem foi o primeiro “maluco” a colocar essa questão? Sinto que tudo podia ser mais simples.

O estudo da cabala nos diz que o ser humano é composto de pensamento, fala e ação. No pensamento tudo ainda é muito interiorizado. É difícil saber de onde vêm as ideias, as intuições, os sentimentos e emoções. Depois há o mundo da fala e da ação, onde acontece a expressão, o colocar-se no mundo. Exteriorização. Começa aí a comunicação e o julgamento. Esse texto depois de publicado não ficará incólume. Opiniões divergirão. Julgamentos serão sentenciados. Então, se a palavra é capaz de fazer alterações incríveis no ambiente, o que dizer das ações. Se a língua fere, as ações significam morte ou vida.

No texto passado, eu falei um pouco sobre o comportamento dos cães. Em uma tentativa “humana, demasiada humana”, de fazer a analogia entre os diversos tipos de cães, chegamos à conclusão que os cães vira-latas merecem muitos elogios. Eles são vitoriosos quando passam por circunstâncias as mais adversas. São educados e comportados quando recebem oportunidades. São mais resistentes às doenças porque não carregam os maus genes de cães de raça. Ou seja, mais favorecidos pela competição evolutiva das espécies, conseguem incorporar alguns dos melhores resultados.

Mas voltemos a falar de seres humanos… Quem são eles? O que fazem de diferente quando comparado aos outros seres do planeta? Por que se comportam de modos absolutamente estranhos – cultura – uns em relação aos outros? Creio que a resposta está naquilo que sempre ouvimos falar mas pouco compreendemos. Ao tratar sobre o processo de criação do mundo, o narrador onisciente do livro de Gênese, nos diz que o homem foi feito “à imagem e semelhança” do seu Criador. O que significa isso? Sem mais delongas, não se trata de um espelho. Não se trata de uma leitura literal. Deus não é um homem de barba, velhinho com um cajado, comandando o mundo do seu trono à semelhança da fábrica do Papai Noel. Essa passagem revela aquilo que nos distingue de todos os outros seres. Ela revela que nós também temos razão, somos dotados de reflexão, sabemos medir, construir, comparar, estabelecer relações de causa e efeito. Conseguimos pensar. Embora, tantas vezes nos deixemos seduzir pelas emoções. É nosso dever não se deixar sucumbir por elas. Ou por aquilo que é da alçada do imaginário. Do que poderia ser mas não é. Do inalcançável e do impermanente. Nossos pensamentos, falas e ações têm o poder de redimir. Ou vocês realmente acreditam na história de que a serpente enganou o primeiro Homem? Se a tentação foi forte demais era porque Ele queria. O erro de Adam Kadmon não foi ter comido a maçã. Foi ter comido e gostado. Foi ter saboreado o prazer daquilo que viria a ser sua maior salvação: poder duvidar e percorrer um caminho para ter a certeza de que Ele existe. E de que ele mesmo É. Adam sentia inveja de Deus. Todos os homens sentem inveja de Deus. Sentem inveja de não poderem ser igualmente criadores. Adam e Hava inauguram aquilo que chamamos História.

Com a necessidade de se estabelecer nesse mundo, fabricamos a identidade. A identidade é racional. Ela tem o dever de nos manter seguros. Uma sensação de permanência e pertencimento encobre esse sentido único, de diferenciação e exclusão de um terceiro, porque “afinal, dois já é demais”. Vamos então analisar a maneira que respondemos à clássica pergunta: “Quem sou EU?”

Muitas vezes a resposta para esta pergunta se encontra na ponta da língua: um nome. “Sou fulano de tal”. Cuidado. Nem mesmo você escolheu este nome. Outras vezes, a resposta advém daquilo que se faz. A sua contribuição social. De preferência algo com bastante destaque social para poder se encher a boca ao dizer: “Sou médico”. Ninguém diz “sou puta/o”. Nas relações de identidade sociais e culturais, saber de onde se vem também é entendido como sinônimo de identidade. “Nasci em Roraima”. O que é bem diferente de ter nascido em Nova Iorque, claro. Em Roraima falta luz. Por tabela, os Estados – essa entidade abstrata que se acha invencível tal como os deuses – capturam os cidadãos com uma tal de “cultura nacional” para lhes restringir o movimento. O lugar dos cidadãos é dentro das fronteiras. Longe da anarquia que dizem haver no mundo. Se sou brasileiro, logo não posso ser português. Japonês não é russo e vice-versa. Os Estados cobram lealdade, serviços e tributos dos cidadãos, em troca de uma pretensa segurança contra ataques inimigos. O que não fazem, por outro lado, é conseguir deter o Capital com seu poder de desalojar, matar e viciar. E é fácil constatar que nessa guerra os Estados têm perdido vezes e mais vezes.

E quanto ao tempo? Como definir a identidade em relação ao tempo? Ao sermos cuspidos para o mundo parece que a negação nos acompanha continuamente. Sentimos fome, nos despedaçamos para ganhar uns trocados e nos alimentarmos; muitas vezes somos excluídos injustamente de um convívio social sem saber exatamente porquê; ou simplesmente sentimos que o “meu pai não me ama”. E tudo parece injusto, demasiado injusto. O que antes era um mar de rosas pode se tornar um lamaçal provindo do esgoto das grandes cidades. O “-1” nos acompanha. Não importa quanto de sinal positivo consigamos adquirir, 10, 30, 555, um milhão, a operação negativa do “-1” é parte constitutiva do ser humano. Fazer o quê? Foi assim que Deus quis. Conhecer a nossa história ultrapassa nosso limite físico, visto que se trata também de ancestralidade. Trata-se de outros corpos, de outras vidas, de outras culturas e de outras ideologias.

“O que antes era novo hoje é antigo”, diz a música do querido cantor filósofo Belchior. Testemunha de que a vida também não lhe tratou muito bem nos últimos tempos. Seu amigo John o ouviu dizer que o “tempo andou mexendo com a gente sim”. É assim que continuamos a nos guiar pela vida, identificando mais ou menos as etapas dos rastros que deixamos ao longo do caminho.

Para além das coordenadas do tempo e espaço, agora também as questões relativas ao gênero ganham importância. O que importa não é o biológico. Também não importa o quê ou quem dizem que somos. Papai e mamãe estavam errados. Importa, sim, aquilo que “eu” subjetivamente sou. Ou tendo a ser… ou estou em construção de ser. Trans-eu-nte. Sendo. Com pouco espaço para o preto ou o branco, alarga-se o “entre”. Sábios foram os ingleses que levaram o verbo “to be” pro mundo todo, economizando na gramática e também nas discussões do que se é ou não é. Diante de tanta confusão mental sinto que o mundo merece um novo Bob Marley: “Stop that train, I’m leavin’”. Na ausência dele, gosto de mandar um “Fuck” para toda essa baboseira de definição. É como eu digo: “se eu gostasse de dar o cú, já teria dado”. Não se mete com o que eu faço que não me meto na sua. Ser pan sexual é uma opção? Ser gay é outra opção? Ser “trans” imagina então. Meu filho, se é de teu desejo, toma aquilo que é teu. Mas arca com o poder dos teus desejos. Com as consequências. Gozar não combina com a Culpa. Nem rima. Errado foi Jesus Cristo que disse ter super poderes e morreu na cruz. Vai que não tinha tantos poderes mesmo.

Escuto Belchior. Diante de todas essas questões ainda se pode dizer que sou como “aquele jovem que desceu do norte e que ficou desnorteado”? A vontade é de dizer que sim. Mas eu não sou. Eu não sou como você! A transformação do “-1” se opera igual a todos nós quando passo fome. Mas a diferença nasce da maneira como escolhemos nossos caminhos. Como EU escolho o meu caminho. Livre arbítrio! Salve o livre arbítrio!!! Característica igualmente comum a todos nós. Infinitas possibilidades de escolha, configurando um modo completamente original de ser e estar no mundo.

Depois de comer a fruta do Bem e do Mal jamais estaremos novamente em casa. Fora do paraíso  e daquele estágio inicial da vida, estamos condenados na vida adulta a estarmos nus. O prazer ofertado pela cobra que seduziu Eva e depois Adão no jardim foi o de vivermos ao máximo as nossas escolhas. E é precisamente aonde chegamos, aqui e agora. Distinguir o Bem e o Mal só faz sentido quando podemos escolher. Somos a imagem e semelhança de Deus porque só aos seres humanos é facultada a possibilidade de restaurar a unidade Dele. Nesse ponto, a pergunta se transforma absolutamente. Não é mais em “quem sou EU” que devemos procurar respostas, mas em quem é D-EU-S. Sejamos menos egoístas, por favor!

Identidade (ancestralidade III)

Há duas semanas iniciei um papo sobre ancestralidade e feminismo. Para começar, trouxe a memória forte e doce de minha avó materna, Dona Terezinha, a Mãezinha. Uma mulher que muito me orgulha, no presente, porque mesmo não estando mais nesse plano, sua história é contada por nós e fortalecida pelos valores deixados por ela. Falei ainda sobre a diversidade de nós mulheres nas construções diárias das lutas, conquistas, dos amores, dos medos e das dores. Trouxe um pouco do sentimento após a leitura do livro Identidade e força ancestral – Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo, inclusive, o responsável por estas minhas escritas e outras leituras sobre o tema. Escrevi sobre ser grata às tantas histórias incríveis de mulheres que vieram antes de mim, da nossa geração, que nos garantiram lugar de fala, existência, de vida. Trouxe também a minha gratidão pela resiliência das mulheres da minha família e pela minha história que está em curso. Percebi a importância, ainda mais, do feminismo em todos esses lugares e na vida de nós mulheres. Que bom que existe diversidade para acreditar e viver.

Hoje, para fechar esse nosso papo e acender o espírito de inquietação sobre nossas histórias, sobre a pluralidade de construir o feminismo vou falar sobre identidade. Quem somos nós mulheres? Quem é você, mulher? Quais histórias foram vividas antes do hoje para chegarmos até aqui. A nossa identidade nos faz livres? Quais os fatores, lugares, abraços, dores nos trouxeram até aqui? Como construímos o nosso ser?

Em busca rápida no Google, identidade vem “do latim identitas, a qualidade do que é idêntico (o que é o mesmo). É um conjunto de características essenciais do que diferenciam coisas, indivíduos ou grupos sociais; características próprias do indivíduo ou de uma comunidade; consciência que uma pessoa tem de si mesma e que a diferencia das outras”.

Banco de imagens

Na sociologia, além do conceito de identidade também é estudado a alteridade, de forma resumida, ela representa o grupo do outro, a dor do outro, o lugar de existência do outro. É reconhecer que, muito além da sua existência e crenças, também existem outras culturas, outras formas de pensamentos e que, acima de tudo, é preciso respeitar e conviver de forma civilizada com toda essa pluralidade.

Eu sou uma mulher negra de pele clara. Fruto de uma mulher branca com um homem negro. Esse reconhecimento é recente. Resultado de leituras, aprofundamento na minha própria história, dos processos de desconstrução como mulher, ser humano e intelectual. O estudo sobre o feminismo é um caminho que me ajudou muito a entender e reconhecer minha identidade. Ser uma mulher feminista também é recente. 

Me sentia completamente perdida em relação à minha identidade quando mais nova. Olhava para minha pele clara, meu cabelo crespo e me perguntava quem eu era. Não era reconhecida por pessoas brancas como uma menina branca, porque meu cabelo “não era adequado para essa cor da pele”, motivos de violências que pratiquei comigo como queimar por várias vezes meu couro cabeludo (tenho cicatrizes até hoje) e usar produtos químicos fortíssimos, como formol, para deixar meu cabelo liso e assim “pertencer”. Não era negra, porque a cor da minha pele nunca me tirou nenhuma oportunidade na minha vida, nem me fez ser vigiada nos lugares por onde andava ou qualquer outra violência sofrida por quem tem a pele escura. O conflito sempre foi reforçado pela minha família que, assim como muitas famílias, não conhecem e nem reconhecem suas origens. Não os culpo. 

Ainda no terror da chamada adolescência, eu também não era vista como uma mulher. “Masculina demais, só gosta de coisas de homens, não é feminina, só anda com macho, joga bola, não toma jeito de moça” e tantas outras frases machistas me acertavam. Na rebeldia nata da idade eu me apropriava cada vez mais desse lugar, considerado de masculino, à medida que as violências aumentavam. Levou muito tempo, muitas cicatrizes foram deixadas, dores provocadas para que eu finalmente pudesse entender que a  construção da identidade é um processo e que leva tempo.

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Trouxe essa clássica frase de Simone de Beauvoir no primeiro texto sobre ancestralidade e feminismo. E agora, quando falo sobre identidade, o uso dela se faz muito necessário. Diferente do modelo tradicional do patriarcado, que exerce forte influência sobre a construção das sociedades determinando funções sociais para homens e mulheres desde antes de seus nascimentos, a construção da identidade do indivíduo parte pela diversidade de processos que ele vai passar. No que diz respeito à nós mulheres e, as perspectivas do movimento feminista, é processo constante de desconstrução para a formação daquilo que nos representa, nos define, nos torna livres e iguais (no que diz respeito a direitos e deveres), iguais. 

Ser mulher é uma construção. A identidade é uma construção. É um longo caminho que pega um pouco de nossas heranças emocionais, espirituais, de carne, de convívio, do que absorvemos do mundo e damos de volta para nos caracterizar. Assim como a digital, a identidade é única, porém, ninguém nasce com ela definida. “Você tem que criar a sua própria identidade. Você não a herda,” Zygmunt Bauman sobre a definição de identidade pessoal. 

Ainda, de acordo com Bauman, a identidade é um projeto de vida. Talvez não na atualidade, visto a velocidade com que recebemos as informações, assim como as tantas certezas são fluídas. Mas ela deve ser um projeto construído e modificado ao longo da vida. 


Zygmunt Bauman – Identidade pessoal

Antes me tornar uma adulta, nunca havia falado ou ouvido sobre feminismo. Apesar de ele ter sido um dos pilares mais fortes das mulheres de minha família, mesmo elas não se considerando feministas, nos muitos anos minha mãe, minhas avós e minhas tias eram resistência e reinvenção na arte de ser mães, mulheres, escritoras de suas histórias. Aliás, até hoje são. Todo o meu respeito às mulheres que vivem a maternidade. É um projeto de vida que admiro muito. 

“Mesmo sem ter conhecimento sobre movimentos teóricos e militantes, mesmo sem ter ideia de como mudar um status quo de opressão, fica entendido por nós, que em momentos singelos, toda e qualquer mulher já se questionou de vivermos como vivemos. Partilhamos não só uma força ancestral e uma vontade de mudança, como também dores e indagações que permeiam nossa individualidade, ainda que de forma subjetiva.” (pg.63), trecho do livro Identidade e força ancestral – Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo.

Quem é você?

A pergunta mais demorada para ser respondida nos anos de análise. E muitas vezes, as respostas não ficam claras. Somos nós; o que trazemos de casa; das relações com os outros e com mundo; os medos; as dores. Somos o nosso olhar sobre nós, os olhares dos outros sobre nós, o lugar onde estamos. Somos nossas crenças, incertezas, os traumas que trazemos, as feridas abertas e curadas da vida. Não cabemos em uma linha do tempo que segue uma ordem cronológica. Somos a necessidade de se adaptar, na grande maioria das vezes sob uma perspectiva de violência, para caber e pertencer. 

No livro “Quem tem medo do feminismo negro” da Djamila Ribeiro, a autora conta sua história de silenciamento e das diversas tentativas de tentar caber para pertencer, um processo clássico do patriarcado. Ela revela esses lugares confusos e perversos que é a negação, especialmente por crianças negras, das suas raízes e, consequentemente, da sua existência. “Acostumada a querer agradar as pessoas para que fossem minhas amigas, patinei, sem saber o que estava fazendo . Por um tempo, já adulta, quando me lembrava dessa cena, me culpava por julgar que não havia respeitado minha avó. Tempos depois me dei conta de que teria achado graça”, Djamila, trecho do livro “Quem tem medo do feminismo negro?”.

O feminismo negro: entrevista com Djamila Ribeiro

Você se reconhece nesse lugar? Quantas vezes você desrespeitou suas raízes para entrar no padrão? Negou as lutas de suas ancestrais para não criar conflitos? Repito, a construção da identidade é um processo. Entender e se apropriar do movimento feminista é um caminho, especialmente para nós mulheres, para o fortalecimento dessa identidade. 

Eu sou uma mulher feminista. Sou negra. Sou uma mulher que sonha, chora, luta, resiste. Eu sou plural na minha individualidade. Eu sou uma das bisnetas de Maria Raimunda da Conceição da Silva Vitorino Souza Tomaz Gomes, mulher preta que nasceu como propriedade de alguém e recebeu na pele essa marca. Uma mulher analfabeta, que da vida tinha muito conhecimento, mesmo tendo sido privada de estudar da maneira tradicional. Eu sou a neta da agricultura Terezinha Gonçalves de Carvalho, semi-analfabeta que investiu todo o suor do seu trabalho na educação dos filhos. Eu sou filha de Antônia Anizia Gonçalves Moreira, mulher, professora que sob os ensinamentos de Paulo Freire aprendeu e nos ensinou que “a educação faz sentido porque as mulheres e homens aprendem que através da aprendizagem podem fazerem-se e refazerem-se, porque mulheres e homens são capazes de assumirem a responsabilidade sobre si mesmos como seres capazes de conhecerem”, Paulo Freire.

A identidade é um projeto de vida adequada a cada novo momento vivido ou espaço ocupado. “A identidade é uma construção social”, como defende a antropóloga Lilia Schwarcz. Analisando a formação da identidade do lugar Brasil, Schwarcz avalia o processo de construção da identidade como, “um fenômeno contrastivo, eu crio a minha identidade por contraste a alguém. Não é essencial. E ela é alterativa. Eu posso mudar de identidade dependendo do local. Num local eu sou professora. Num local eu sou mãe. Em outro lugar, ainda, eu sou amiga. Enfim, nós construímos várias identidades. No fim, identidade é uma resposta política a um contexto político”

Ser brasileiro: Qual a minha identidade?| Lilia Moritz Schwarcz

P.S.

Parabéns ao aniversário de um ano da Lei nº16.946, comemorado ontem 30 de julho, que assegura o direito de uso do nome social para travestis e pessoas trans em serviços públicos e privados no Ceará. O nome social deve ser reconhecido em registros, cadastros, correspondências e nos sistemas de informação de serviços de ensino, saúde, previdência social e de relação de consumo, dando maior segurança jurídica a pessoas trans e travestis.