O bom encontro é de 2

Os relacionamentos só acontecem com mais de um. Não há dúvida. É bem verdade que quem está só, sozinho, solitário ou “alone” pode se sentir, às vezes, “pleno”. Mas essa solidão típica dos ermitões do deserto é uma ilusão. Ela não e verdadeira. É uma espécie de arrogância achar que se pode estar sempre sozinho. Que se pode pensar sozinho. Que se pode viver sozinho.

Um relacionamento existe para que aprendamos a conviver com a diferença. Desde o início dos tempos, pelo menos é o que se conta. Desde células unicelulares a pluricelulares, assexuadas e sexuadas que é o equivalente às histórias bíblicas, de onde seres unicelulares se dividiram (mitose-assexuada) para formarem duas entidades com os mesmos componentes genéticos (Adão e Lilith), ou a divisões mais complexas (meiose), originando células com componentes genéticos distintos e cuja reprodução se dá de forma sexuada (Adão e Eva), é que se fala da intrínseca relação da união e separação.

Na humanidade, muito se tentou argumentar que o essencial do ser humano seria sua violência por conta de uma espécie de egoísmo inato. A justificativa perfeita para se fazer guerras. Essa justificativa pretendia somente fazer jus aos interesses mais obscuros. (Um bom exercício é procurar saber quem se beneficia delas). O recurso de comparação com os animais, p.ex., foi usado para justificar esse ou aquele comportamento. O que levou também a uma espécie de darwinismo social. Ora, foi somente nos últimos anos, por meio de estudos, dentre eles, os antropológicos, que se constatou o caráter societário do ser humano. Aquela velha imagem do “homem das pedras” violento com um catape na mão hoje faz parte somente da ignorância de algumas poucas cabeças. Constatou-se que foi somente pela cooperação que o ser humano pôde sobreviver às diversas calamidades da natureza, enchentes, escassez e intempéries. Uma cooperação que ainda tem o potencial de crescer. Longe de um paraíso na Terra, ainda estamos mais próximos de uma espécie de “sociabilidade insociável” como Kant a definiu nos fins do século XVIII.

Em tempos pandêmicos, esse paradoxo kantiano se torna ainda mais evidente. Em que medida podemos nos relacionar e em que medida devemos nos afastar uns dos outros? Uma coisa é certa: sem uma atenção à devida equação dos relacionamentos, essa bactéria sobreviverá mais do que nós. Ainda falta muito para nós tomarmos consciência do nosso poder, da nossa singularidade e da nossa natureza. O nosso real poder. Uma natureza que deve ser responsável e co-criadora. Não há outro caminho. Somente a observação, o aprendizado e a vontade de se desenvolver para além das nossas pequenezas limitantes é que um dia poderemos olhar um para o outro e entender que Eu sou o Outro e o Outro sou Eu.

Por que razão senão essa existem os opostos? Um ensinamento cabalístico poderoso pode trazer luz à essa inquietação. Conta-se que no início dos tempos quando Deus resolveu criar o mundo, ele o concebeu como algo perfeito. Dessa maneira, tudo estava no seu lugar. Mas então, percebeu que o Universo como tal precisava de um receptor. Dentro da sua enorme capacidade de dar e criar, ele percebeu que precisava também de alguma coisa que pudesse receber todo o seu esplendor. Tal como uma corrente elétrica que flui em determinada direção, era assim que a energia estava colocada, estabelecida numa ordem. Foi então que algo estranho aconteceu. Um belo dia, aquele pólo que recebia, embora muito agradecido por tudo que tinha e recebia infinitamente, decidiu que também queria dar. Isso gerou um curto-circuito no mundo e foi nesse momento que o mundo se fragmentou, ocorrendo o que a ciência chama de Big-Bang. Esse é um sentimento parecido com o daqueles pais super-protetores que fazem seus filhos sentirem o chamado “pão da vergonha”, quando lhes é cerceada a capacidade de adquirem por seus próprios meios o seu ganha pão.

Kabbalah em hebraico significa “recepção”. E enquanto fragmentos dessa explosão, nós seres humanos (ou melhor a nossa consciência) encontra-mo-nos divididos entre a capacidade de doar e receber. Nós podemos ser muito generosos e responsáveis, mas muitas vezes, podemos chegar ao âmago do nosso egoísmo, querendo somente receber. É assim que o mundo é constituído. É como o Sol e a Lua, quando um dá e o outro recebe. Dessa mesma maneira, nós somos aqueles que Deus atribuiu a tarefa de consertar o mundo, para sermos co-criadores da sua criação. Apenas no momento em que tomarmos consciência global de que somos Um e que todos podem receber da mesma maneira que doar é que teremos corrigido todo o mal que existe. Portanto, relacione-se, viva, ensine, conserte, quebre o ego inúmeras vezes quantas forem precisas, recobre-se, reconstrua-se, junte os caquinhos do ego, fique grande, fique pequeno. Mas, no fim, por favor, compartilhe.

Juntemos os cacos e compartilhemos a cola.

Plantar um filho, escrever em uma árvore e ter um livro

Por Leila Castro

Digo-lhes: é preciso ter caos dentro de vocês mesmos, a fim de dar à luz uma estrela dançante”. (Nietzsche) 

A parede da paixão, manchada de vinho, bebida do Deus Baco, da Grécia antiga, mais um dos grandes mitos da história, mais uma das questões as quais não temos respostas e nem, se quer conhecemos as perguntas certas. Elas existem? 

. A mancha lembra sangue, dor, morte, mas é apenas a prova de um crime sem bandidos, nem mocinhos. Lembro da parede olhando para mim de forma reprovativa, culpando-me pelo o fato de eu tê-la tirado do senso comum, e isso tivesse acabado com sua vida. – Como se, isso fosse possível. Agora, no entanto, olha-me em tom de agradecimento, tornou-se única, ganhou personalidade e força, parece-me mais viva e alegre. Fiquei feliz ao vê-la.  Fico feliz sempre que há vejo.

  Os cacos no chão brilhavam refletindo a luz do sol, mas ainda traziam consigo a memória da noite anterior; felizmente, não guardavam rancor de mim, perceberam-se livres. Era por fim, cada um por si e o sol por todos. Peguei a vassoura para juntá-los e pude ver alguns pequenos fugitivos buscando seu lugar no mundo, ignorando o meu desejo de tirá-los dali. Ou será que não queriam partir por ainda crer que poderiam unir-se outra vez? Devia ter perguntado, mas isso só me veio agora quando ainda vejo alguns vidrinhos fugitivos. Um logo ali, em baixo da minha espreguiçadeira.

Se minha confortável cadeira falasse, ela agradeceria por tanta atenção, mas certamente iria pedir que eu a desse uma folga vez por outra, afinal ela não gosta de ter sempre a responsabilidade por meu conforto, isso pode ser um fardo muito pesado. Tentarei enfim, olhar outras cadeiras. Comprarei também uma bela cama, assim como um quadro para minha parede exclusiva, com quem cresci junto. Vou fazer uma faxina na vida e montar finalmente um lar. É hora de criar raízes, plantar frutos específicos, conquistar amigos presentes, sem ter de dizer adeus a todo instante. Talvez eu tenha um filho, quem sabe até um marido, o que não será difícil já que sempre tive muitos admiradores. Também plantarei uma árvore e escreverei um livro. Ou não seria melhor; Plantar um filho, escrever em uma árvore e ter um livro. Ou ainda, Plantar um livro, Escrever um filho e ter uma árvore. Tão pouco sei sobre o que quero. 

Lembrei-me de algum ditado… Acho que é chinês, que diz: “Não sei para onde estou indo, mas sei que vou?”. Não tenho certeza se é assim, mas é isso.

Meus pensamentos bem elaborados e utópicos, sobre o futuro, que já me bate a porta, me divertem.  

– Ai! Ai! A esperança nos preenche ou consome? 

O sol forte incomoda-me ainda um pouco, mas sei que irei contornar essa situação também, a questão agora é saber onde plantar raízes. Aqui ou em outro lugar, pode ser qualquer um. 

Sempre gostei de praia, as ondas do mar batendo nas pedras mudando as coisas de lugar, crianças correndo e sorrindo jogando a água pra cima. -Seria interessante morar em uma praia. Pisar na areia todas as manhãs, olhar o sol nascer, sentir a brisa batendo no meu rosto. Ao pensar nisso chego a fechar os olhos e consigo sentir o vento em meus cabelos… – No geral é o ventilador velho que levo sempre comigo aonde vou e que permanece sempre ligado, no entanto, é possível deixar-me levar pela imaginação e chego a andar em pensamento sobre os pequenos cristais gratuitos da natureza, a areia molhada pelo mar azul. Vendo-me refletida no chão, logo abaixo de mim.  – É sério! Consigo sentir!

Foto por Jill Burrow em Pexels.com

Definitivamente, quero e vou morar no litoral. Algum dia, talvez. Travo-me em um primeiro momento, mas meu corpo segue até o computador e quando dou conta já estou procurando cidades litorâneas, é preciso que sejam capitais, para facilitar na busca por um bom emprego e não passar fome, afinal se aprendi algo bem nessa vida, foi a gastar dinheiro. Nossa! Como faço isso com perfeição e rapidez. 

Mas não devo a ninguém! – Diz o meu cérebro antes mesmo que eu termine o pensamento. 

Tanto é o medo do julgamento dos outros que fazemos isso primeiro, nos julgamos, sem nem mesmo curtir o momento do prazer. Como somos cruéis conosco. Se, trabalhamos, e eu bem trabalho e ganho meu dinheiro; dessa forma posso e devo gastá-lo. É meu e foi conquistado para me satisfazer, não o contrário.

 – Sei disso, e ainda sim me justifico

E você tem se justificado muito? Me conta!