Diário de um Filme por vir – o desejo de um corpo ilhado

Por Kiko Alves

As breves palavras colocadas aqui como pensamentos soltos de um corpo que aprendeu a habitar um mundo instável, são reflexões e pontuações sobre um filme futuro, mas nem tanto, que desejo produzir; para que entendam um pouco sobre mim em breves linhas, eu sou apaixonado pelo quão ordinária, comum, repetitiva pode ser a vida, sou apaixonado pelos pequenos movimentos, gestos breves, sorrisos tímidos, rostos leves, gosto de cheiro de coentro, de livros novos, gosto do perfume da casa da minha mãe, gosto do som de vozes do passado, que ouvi ainda na infância e que ecoam na minha cabeça em dias bobos, em dias onde sou pego pela saudade, e gosto das palavras, de algumas ao menos eu gosto muito, eu gosto da palavra desejo e não quero pensar nas implicações filosóficas disso, eu gosto da palavra desejo e a partir dessa ideia ou palavra, a uns dois anos comecei a escrever um filme, que tinha certa dificuldade de nomear, até que foi nomeado e essa ideia tem ficado mais clara.

Mas voltemos ao desejo, essa palavra tem uma origem muito curiosa, ela é derivada do verbo desidero, que, por sua vez, deriva do substantivo sidus, (mais usada no plural, sidera), que representa a figura formada por um conjunto de estrelas, constelações. Isso me deixou muito animado, entender isso, são os astros o desejo são os astros, sidera é também empregada como palavras de louvor, o alto e, na teologia astral é usada para narrar a influências que os humanos dão aos astros sobres seus destinos. De sidera, vem considerare, examinar com cuidado, respeito e veneração, e desiderare cessar de olhar os astros, deixar de ver os astros.

O desejo conceito que narra diversas linhas para se pensar o mundo humano,  olhar para o divino, e ao mesmo tempo a ausência de ordem divina,  o que coloca outra condição para os habitantes desse mundo, corpos e rostos perdidos em ruas escuras do em noite frias de Fortaleza, de uma cidade escura inabitável, e abandonados à própria sorte, órfãos num mundo onde o amor e o desejo; monstros da caixa obscura de pandora, controla ou quase isso o destino dos corpos de quase zumbis, passeando pelo campo das significações da teologia astral, desejo ou desiderium cria uma conexão entre deus e o mundo dos entes materiais e corpos e almas.  Pelo corpo astral, nosso destino está inscrito e escrito nas estrelas, considerare é  consultar o alto para nele encontrar o sentido e o guia seguro de nossas vidas.  Desiderare, ao contrário, é estar despojado dessa referência, abandonar o alto ou ser  por ele abandonado. 

Cessando de olhar para os astros, desiderium é a decisão de tomar  nosso destino em nossas mãos e, neste caso, o desejo chama-se vontade consciente,  nascida da deliberação, aquilo que os gregos chamavam bóulesis. No entanto, se o  “cessar de ver” aparece como um ganho para aquele que toma sua vida em suas próprias  mãos,  “o deixar de ver” é experimentado como perda e desamparo. 

Deixando de ver  os astros, desiderium significa privação do saber sobre o destino, prisão na roda da  fortuna incerta. O desejo chama-se, então, carência, vazio que tende para fora de si em  busca de preenchimento, aquilo que os gregos chamavam de hormé. Essa ambiguidade  do desejo, que pode ser decisão autônoma ou carências, transparece quando  consultamos os dicionários vernáculos, nos quais se sucedem os sentidos de desejar:  querer, ter vontade, ambicionar, apetecer na diferença sutil de duas palavras, em  português: desejante (o vocábulo exprime uma ação) e desejoso/desejosa (o vocábulo  exprime uma carência). 

Esse entendimento de desejo nascido na pesquisa sobre o filme, me ajudou a entender que tipo de corpo e atores me interessam para habitar esse universo, o mundo em que habitam meus personagens em sua maioria negros, habitam um mundo em desordem, que não se estabiliza, logo eu tentava encontrar modos de estabilizar o desejo num mundo onde essa ideia é vendida, mas nada dura, tudo é pautado pela instabilidade, o desejo representa bem isso, e queria pensar essas emoções, ou pequenas imagens para trabalhar com meu elenco.

Sob o signo da carência e da falta, a modernidade clássica, decisão racional de  abandonar as ilusões dos antigos mistérios, não cessa de repor o desejo com os traços  do Eros da genealogia desenhada pela fala de Diotima, no Banquete de Platão. 

Filho de Póros, o expediente astuto, e de Pênia, a Penuria, Eros nesta condição ficou,  narra Diotima. Esquálido, descalço, sem lar e sem teto, pedinte e endurecido, Eros  transita num mundo de privação e despojamento, onde o pariu sua mãe Pênia, carente  de beleza, “desejo de grávida”. Nem mortal nem imortal, Eros no mesmo dia germina e  vive, desfalece e morre para renascer a seguir. Insidioso e alerta, corajoso e decidido,  Eros, como seu pai Póros, é caçador terrível cuja astúcia maior consiste em converter  em amante o amado, fazendo-o desejar seu desejo. 

Seja como desejo de reconhecimento, seja como desejo de plenitude e repouso, o  desejo institui o campo das relações intersubjetivas, os laços de amor e ódio, e só se  efetua pela mediação de uma outra subjetividade. Forma de nossa relação originária  com o outro, o desejo é relação peculiar porque, afinal, não desejamos propriamente o  outro, mas desejamos ser para ele objeto de desejo. Desejamos ser desejados. 

Nesse mundo onde o amor e órfão de mãe e pai, esquálido, sem nome, sem rosto e  sem vida, parece que a única alternativa é fugir, Paulo foge, Julia resiste a fuga e  Roberto encontra nesse mesmo movimento uma possibilidade para o início de sua  vida, no final nada é o que parece

Kiko Alves

Fortaleza – Janeiro de 21

Fávio Renegado _ Barra do Ceará _ Lugar ArteVistas

Você conhece a Barra do Ceará?

E o cidadão do mundo Flávio Renegado? 

Chega ai e aproveita!

Encontramos Flávio Renegado e sua turma massa no Festival Noites Brasileiras, produzido pela WM Cultural e logo nos identificamos, e o convidamos para um papo, aceito de pronto pelo mineiro. Nós também em surpresa, não sabíamos direito onde levá-lo, e assim o todo nos direcionou para o melhor lugar possível, a linda Barra do Ceará.

Sobre o horário escolhido? Melhor nem comentar, mas resumo dizendo que tava aquele momento em que havia um sol para cada ser existente. O massa é que o papo tava legal, e nem parecia tanto, não fosse o suor que escorria e Guilherme já sem blusa. hihihihi…

E papear com a turma da Barra do Ceará, ver seus olhos brilhando, aprender e encher de esperança nos caminhos. Gratidão sem tamanho. E logo voltamos para mais belezas na Barra!

Chega mais no Lugar ArteVistas

#arteondeestiver #flaviorenegado #barradoceara #juntosporumabarramelhor #fortaleza

Cia do Tijolo_ Theatro José de Alencar_Fortaleza

Os conhecemos já faz é tempo, e o tempo é sempre de re-encontro, assim é com a Cia do Tijolo, eles que fazem teatro de resistência, inspirados por homens que resistiram.

Eles que são de vários Lugares, relacionam-se por onde passam com carinho e desejo de troca.

Aprendem e inspiram, nos ensinam muito.

Eita papo bom!!!!

#arteondefor #LugarArteVistas #TreatroZédeAlencar #CiadoTijolo

Silvia Moura _Parque do Cocó_Fortaleza

A cada nova postagem muitas questões me tomam o juízo. Mas nenhuma conseguiu me parar, até porque o compartilhar é uma forma de fazer a roda girar, mas a magia começa antes mesmo de nós, começa com esses artistas, que aqui chamamos ArteVistas, esses que entendem a arte como missão, que dormem e acordam artistas, que de outra forma nem respiram. Esses que entendem que a cultura supri nossa carência social, que é o pontapé inicial.
Grata Silvia Moura, por ser pura inspiração e provocação. Grata Estúdio Pã nas pessoas de Henrique Kardozo e Guilherme Silva que são parceiros e padrinhos desse sonho. Grata Ivina Passos, por não deixar que eu deixe a peteca cair. Grata à todos que acreditam nesse Lugar.
Desse bloco uso sons de Jeferson Gonçalves, Araguaia e Zeca Baleiro.
Imagens de Guilherme Silva e Henrique Kardozo
Imagens de Apoio extraídas do YouTube.

Lugar artevistas é uma revista eletrônica que se propõe a comunicar.
Respeitando todos os pontos de vistas e referenciais, nosso objetivo é aprender e compartilhar, é trocar.

Chega junto e vamos conhecer Lugares e ArteVistas. 😀

Silvia Moura _Parque do Cocó _Fortaleza

A cada novo Lugar ArteVistas, inúmeras reflexões, respirações, inflexões e as interrogações brotam de todos os lugares, olhares, falas…

 

Todas as opiniões interessam e permitem tentar o diferente. Talvez essa seja a grande magia, essa troca que constrói algo novo, que se faz único, onde cada edição é individual e se cria exatamente…  como se cria. Com um pouco de quem tá, de quem topa.

 Pensar nas pessoas e lugares que já cruzamos é sentir de volta ao peito a plena felicidade, e a mente lembra que a alma agradece e já sonha com as convergências futuras. Cada encontro é um mistério, cada contato uma dança energética dinâmica. É sempre assim… Uma gangorra de emoções, uma montanha russa para autoestima, um carrossel para alma, um trem fantasma financeiro.  😀

 E nessa sede pela divertida aventura do compartilhar, chegamos até Silvia Moura que comemora seus 40 anos de dança.

 Se você mora ou já passou por Fortaleza, se já dançou em terras alencarianas, se gosta de teatro reflexivo, se pensa a arte política, se acredita na arte como transformação, se já se sentiu sozinha, se já ficou em crise, se quebrou tabus e desafiou o destino, então de alguma forma você conhece Silvia Moura, se não conhece, é preciso conhecer desta espécie.

 O fato é que depois de uma chuva, um mal-estar e alguns pequenos desencontros, conseguimos chegar ao Parque Ecológico do Rio Cocó. Aquela espera que proporciona o diálogo, e lá estavam todos em suas posições, eu, Guilherme Silva e Henrique Kardozo tendo Silvia como foco.

 E o que seria um papo rápido tornou-se uma conversa de mais de hora, que seguiu mesmo depois da câmera desligada, o que dificultaria a um bom editor a edição reduzida, pra mim, se faz impossível.

 Então, compartilho a primeira parte do Lugar ArteVistas – com Silvia Moura no Parque do Cocó, onde ela fala do início da sua trajetória, a força de suas escolhas e assim nos conta um tanto da história da dança e do teatro na cidade de Fortaleza.

Além do galo e da música.

 Rubens Corrêa: Nascido em Mato Grosso do Sul, estudou teatro no Tablado, de Maria Clara Machado e formou-se em direção na Escola de Dulcina de Morais. Fundou em 1959, em parceria com Ivan de Albuquerque, sua própria companhia, o Teatro do Rio – que em 1968, transforma-se no Teatro Ipanema, onde atua e dirige trabalhos de sua premiada carreira.

Ganhou seu primeiro Prêmio Molière como ator por seu trabalho em “A Escada”, de Jorge Andrade, em 1963. Em 1964, fez um dos papéis marcantes de sua carreira, em “Diário de um Louco”, de Nikolai Gogol, que volta a representar em diversas ocasiões. Ganhador do Prêmio Shell, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 22 janeiro de 1996, um dia antes de completar 65 anos, devido a complicações de saúde provocadas pelo vírus HIV.

 José Celso Martinez Corrêa: Que já ouviu falar do Manifesto Antropofágico? Então, já ouviu sobre Zé Celso Martinez que em 1960 emergiu como um dos mais revolucionários diretores teatrais do país, numa época marcada pela encenação europeizada do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Desde então, vem construindo com originalidade e ousadia seu percurso dos palcos brasileiros, sempre, em busca de uma linguagem estética que revolucione o comportamento das pessoas. Associando seu teatro ao ritual dionisíaco, procura quebrar com a tradicional relação palco/plateia e integrar o público à ação dramática, para retirá-lo de sua tradicional passividade. Experimentou assim as teorias stanislaviskianas, percorreu o realismo clássico de Maxim Gorki e Checov e experimentou o “teatro épico” de Bertolt Brecht. Atualmente, aproxima-se cada vez mais das idéias de Antonine Artaud. Formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, criou, em parceria com Renato Borghi, Amir Haddad, Jorge da Cunha Lima e outros. Diretor atuante do Teatro Oficina até hoje. Um dia ainda bateremos um papo com ele. É preciso crer. 😀

 Aderbal Freire-Filho: Um entusiasta com mais de 100 peças no currículo quatro décadas dedicadas às artes, o diretor, ator e dramaturgo cearense se mudou para o Rio aos 29 anos de idade já com um extenso currículo teatral. Considerado um dos diretores e autores mais respeitados no país, não só pela sua forma de “coreografar as palavras” em cena – mas, também, pelo histórico de encenações de autores clássicos internacionais e nacionais, como Oduvaldo Vianna Filho.

 Amir Haddad:  É diretor do Grupo Tá na Rua, residente na Lapa (https://www.youtube.com/watch?v=pYdqqO-0P2U) e estando na Lapa você sabe come é.  😀 Amir, tem nas ruas seu palco há mais de 30 anos, quando fundou o, que se apresenta nas principais praças da cidade. Está no projeto Arte Pública – Uma Política em Construção, que acontece nas praças da Lapa, Tiradentes, Largo do Machado, Harmonia, Saens Pena e Xavier de Brito.

 Dora Andrade: bailarina e coreógrafa de Fortaleza, é a idealizadora e condutora da Edisca – Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes. Na escola, 239 alunas de famílias pobres, entre 5 e 20 anos, fazem aulas de dança, inglês, História da Arte e da Dança, e recebem assistência médica e odontológica, além de alimentação. As meninas da Edisca já se apresentaram com sucesso em diversas cidades do Brasil e no exterior. A intenção do projeto é, por meio da dança, resgatar o sentido de cidadania desse grupo carente. Também na agulha de um dia trocar. 😀

 Quando falamos em arte é preciso saber o que se pretende com ela, o que de nós vai dialogar, sobre o que e de que forma é interessante chegar, já não cabe falar no vazio. Por vezes questionamos se ainda cabe falar. Mas, e se não falarmos, se não for na oralidade, como será? Se não tiver sentimento e entrega, o que terá?

Esse é o Lugar ArteVistas, se achou massa compartilha a ideia.

Se não, manda ai sua contribuição criativa que aqui é bem-vinda.

Valéria Pinheiro _Teatro das Marias _Parte II_Fortaleza

Sempre é não feliz demorar tanto para postar a parte II pois é importante a continuidade, estamos trabalhando para tentar minimizar as tantas falhas. Agradecemos a compreensão e aceitamos boas sugestões e apoios. 😀

O papo com Valéria Pinheiro foi inspirador e gerador de novas formas, talvez.
O fato é que exemplos como o Teatro das Marias precisa ser seguido.
Grata Valéria Pinheiro, Cia Vatá, Teatro das Marias, Estúdio Pã, Ato Marketing Cultural, Marcelo Paes, Minha Mãe e todos que colaboraram direta e indiretamente.

Lugar artevistas é uma revista eletrônica que se propõe a comunicar.
Respeitando todos os pontos de vistas e referenciais, nosso objetivo é aprender e compartilhar, é trocar.

Chega junto e vamos conhecer Lugares e artevistas. 😀
lugarartevistas@gmail.com

Grupo Bagaceira de Teatro _Casa da ESquina_Fortaleza

Foi lindo esse papo com as meninas do Bagaceira.
O grupo que surgiu em 2000 e atualmente patrocinado pelo Programa Petrobras Cultural, o Bagaceira é um grupo de teatro experimental que, através de montagens autorais, mistura referências plurais de forma inusitada. Sediado na capital cearense, possui ainda no currículo espetáculos como Engodo (2004), Meire Love – Uma Tragédia Lúdica (2006), Pornográficos (2007) e Interior (2013).

Imagens de Henrique Kardoso e Natan Garcia.

Daniel Chaudon_Ipanema_RJ

Esse é o primeiro ArteVistas de 2013 e o entrevistado vem sendo solicitado desde de o ano passado, para que esse programa nós fizéssemos juntos. É sempre bom (re) começar com o pé direito/esquerdo. Assim, com os dois pés bem firmes na vida; finalmente nos encontramos em um dia quente de verão no Rio de Janeiro, e pra fecharmos com chave de ouro era segunda feira, e nós ali desfrutando de tanta beleza e calor. O encontro foi do tipo que faz bem a alma, a entrevista curta, pois eu passaria dias ouvindo essa voz gostosa demais.
E de todas as entrevistas que já fiz, essa foi a mais bate papo, onde em alguns momentos eu esqueci que estávamos gravando, e teria esquecido por completo, não fosse o fato de ficar segurando o nosso celofone (celular-microfone) e o querido Felipe Romano vez ou outra dizendo, parou… hihihihi…
Ipanema foi o lugar escolhido por Daniel Chaudon, E que também foi escolhida por Vinicius de Moraes e Tom Jobim, Ipanema escolhida por tantos e sempre tão linda, com seu Arpoador a admirar o encontro dos dois irmãos. Ipanema é poesia e Felipe Romano com seu olhar sensível sempre poetiza junto com as paisagens e personagens.
Tivemos na gravação a presença de um baiano bom. Faltou Kachanga para embelezar e fazer a diferença. Estavas… 
Grata a todos e eis o primeiro ArteVistas do ano. Deixo também o convite a participarem comigo, a opinião de vocês faz a diferença por aqui.
Abraços e até já!
Roberta Bonfim
27.02.2013