Dois anos de artevismo

Bem no comecinho da pandemia que ainda nos assombra, recebi um convite para abraçar um Lugar que respira cultura, afeto, arte, talento e coragem.

À época, minha família – como tantas – passava por uma tempestade que culminou na perda da minha única irmã para a Covid-19, o que me levou a adiar o “Sim”.

Meses mais tarde, em ato de resistência, publiquei o primeiro texto mensal. Hoje trago o vigésimo quarto, uma comprovação de que vida é energia e partilha.

Nesses dois anos, dividi com queridos leitores e leitoras minhas angústias e regalos. Tento provocar alguma reflexão e alertar para a importância de aprender a lidar com o sofrimento. A temática varia conforme o momento: ora triste, inconformada e revoltada; Ora alegre, resignada e paciente.

Já escrevi sobre as pequenas inutilidades que nos sustentam; Que devemos encarar os desafios com seriedade; Da obrigação de respeitar pensamentos divergentes; De recomeçar, apesar dos infortúnios; Sonhar o impossível; O direito de manter a casa em desordem; Que a luta feminista gera um mundo mais justo; De cuidar de quem padece; Não negar a própria dor, mas sim evoluir a partir dela; Valentia para desistir do que não faz mais sentido; Participar de algo que beneficie a coletividade; Entregar-se a memórias leves quando o presente estiver muito pesado; Julgar menos é sinal de maturidade; Insistir na esperança ativa; Aproveitar as boas surpresas; Priorizar-se nem sempre é egoísmo, é preciso fortalecer-se para amparar o outro; Praticar o desapego faz um bem enorme, uno e plural; Esperançar de novo e sempre porque o dia mais potente – e feliz – ainda virá; Inspirar-se na força do amor; Aceitar o envelhecimento é florescer; Do perigo de conviver apenas entre iguais; E que as mudanças são necessárias e inevitáveis.

Renovo hoje votos de amizade e gratidão com o nosso ArteVistas pela oportunidade de falar livremente acerca das minhas próprias vivências, e torço que elas possam ser úteis a alguém.

Ainda há caquinhos espalhados, o mosaico não está completo e nem sei se estará um dia. De certeza mesmo, só o desejo de seguir, de cultivar o riso e o convívio.

Meu tempo é agora

Junho mal acabou e já estou com saudade das quadrilhas, milho assado, canjica e pé de moleque.

Saudosa, não saudosista! Cultivo o desapego ao ontem. Prefiro o mundo contemporâneo, com suas modernas ferramentas tecnológicas e avanços científicos que nos facilitam a vida, curam doenças graves e chacoalham convicções.

Por outro lado, semeio memórias de risos, afetos, objetos, lugares e sabores, enquanto acolho os costumes ancestrais com seu linguajar e manifestações próprias, sem rejeitar as inevitáveis mutações.

As quadrilhas juninas são unanimidade como tradição a ser mantida, embora muitos torçam o nariz conservador para as recentes variações. E se eu disser que essa dança, como tudo na vida, está em constante evolução? A quadrilha da nossa saudosa infância era uma releitura da releitura, capaz de fazer eriçar os fios brancos das cabeleiras postiças dos fidalgos europeus de três séculos atrás.

Importamos uma dança aristocrática francesa para os salões monárquicos brasileiros que, na sequência, espalhou-se para a zona da mata, agreste e sertão nordestinos, associada à colheita e aos santos católicos de junho. Uma transformação que prossegue porque cultura é como linguagem, algo vivo que acompanha as mudanças sociais. Uma comprovação prática? Ninguém mais fala “vossa mercê”. Nem a nobreza masculina europeia usa mais peruca branca com cachos.

Temos, obviamente, que zelar os hábitos locais e a norma culta da linguagem quando a esfera e o contexto assim exigirem. Nas redes e mídias sociais, destino deste escrito, posso [e devo] espalhar pitadas de descontração. Nos aplicativos de mensagens instantâneas – como “Whatsapp” ou “zap” –, as abreviações e “emojis” dão o tom. No Jornalismo, minha área, utilizamos linguagem mais formal. Enfim, expressar-se com maior ou menor (in)formalidade vai depender do suporte, do meio e da profissão.

Adaptamos o figurino da “quadrille” original e renomeamos os movimentos “En avant tous!” | “En arrière!” para “Anavantu!” | “Anarriê!”, somados aos regionais “Olha a cobra!”, “Olha a chuva!”, “Caminho da roça!”, e outros abalos que ainda virão.

Vivam as mudanças! Um “Salve!” à cultura popular.

Liberdade ou ofensa?

É maravilhoso conviver apenas entre pensamentos iguais, não é?

Não, não é. É perigoso, abusivo e pode desabar para o totalitarismo, que fere de morte democracias e liberdades.

Perdi a conta das vezes em que cogitei me afastar dos contrários, felizmente recuei a tempo. Onde ficaria a verdadeira igualdade, sem distinções ou privilégios, que tanto defendo?

A vivência nos universos cultural e jornalístico alargou meus horizontes, trouxe-me novos afetos, debates calorosos, porém educados. Preparou-me, enfim, para trafegar por várias esferas.

Reconheço-me nas pessoas religiosas, embora a minha espiritualidade não se encaixe em uma prática institucional específica. Identifico-me também com aquelas que se definem conservadoras, a despeito da minha mente progressista. Aceitação mútua, diga-se. A única coisa inaceitável é a afronta à democracia, pelos altos danos coletivos. Como isso termina, todos sabemos, basta abrir os livros de História.

Muito fácil detectar o risco. Nos regimes autoritários, o primeiro pilar golpeado é a imprensa que apura e divulga denúncias de atos não republicanos de governantes. Desacreditar a imprensa é pena capital para as democracias. A sociedade tem o direito de saber o que acontece nos bastidores do poder e nós, jornalistas, temos o dever de informar.

Como cidadãos civilizados, é preciso reconhecer as fronteiras da livre expressão. Há uma faixa movediça entre o direito legítimo de se expressar e o ataque à honra de alguém. Somos livres para manifestar a nossa opinião, todavia se o fizermos de maneira violenta ou difamatória, estaremos cometendo um crime e responderemos por isso na justiça. Fora disso é o caos.

Democracias suportam diversidade. Não há o que temer. E quem for “cancelado” por expor respeitosamente seus pontos de vista, deve agradecer aos céus pelo livramento do convívio com extremistas que cortejam o fascismo, mal sempre à espreita, mas derrotado infinitamente.

Em tempo: este não é um texto analítico, pouco entendo de ciência política, contudo as mudanças mundiais que ora ocorrem são bem perceptíveis e preocupantes, atingem a todos e dizem respeito às nossas vidas.

“Viver é melhor que sonhar”

Sonho com as coisas mais bizarras, adquiro superpoderes, me crescem asas potentes no lugar de braços frágeis, perco a roupa, não encontro a porta do banheiro, e por aí vai.

Noite dessas, sonhei com um jabuti. Fiquei cismada, uma vez que o bichinho de carapaça não costuma rastejar em habitats de vidro e concreto. Um amigo brincou para apostar no jacaré ou na cobra, segundo ele os que melhor se afinam na bolsa contraventora.

Em vez da fezinha transgressora, fiz uma breve consulta virtual sobre o seu significado onírico e deparei-me com vários conceitos positivos: “longevidade”; “tenacidade”; “felicidade”.

Felicidade é tudo, né? Não, não é. Desde a fala de uma filósofa contemporânea acerca das armadilhas que minam sociedades negadoras do sofrimento e da energia própria da vida, venho tentando driblar a alegria gratuita, a autoajuda enganosa, enfim, a obrigação de ser feliz o tempo inteiro. Mesmo com toda a carga, é inspirador encarar nossas aflições com coragem e transformá-las em algo útil a outros.

Para suportar a dor pela perda da minha única irmã e demais vítimas da Covid-19, coloquei mente e corpo ao capricho das letras, feito náufrago que se agarra à tábua na fantasia do resgate. Foi nesse cenário de tormenta que nasceu “Confinados”, coletânea de contos lançada um ano atrás.

Em maio último, minha editora submeteu o livro ao crivo do maior prêmio da literatura brasileira. Cheguei a duvidar das chances de uma pequena casa editorial e de uma autora tardia e pouco conhecida. Mas não custava sonhar, apesar do alerta do poeta.

Semirreclusa, prossegui de olhos bem abertos, cuidando dos meus, irrigando a esperança neste combalido país e no restante do planeta redondo, e atenta aos sobreviventes para além da minha soleira lustrosa.

Até que um par de dias após sonhar com o jabuti, fui surpreendida com a notícia de “Confinados” no rol dos dez finalistas do cobiçado prêmio. O aplicativo do celular lotou de mensagens. Abri a do amigo brincalhão: “E aí, jogou? Que bicho deu?”. Digitei com a mais genuína das alegrias em dois longos anos: “Deu Jabuti!”. E exagerei nos emojis de risos e bichinhos cascudos.

O ano em que não montei a árvore de Natal

Em 2020, por motivos compreensíveis, não desencaixotei bolas, sinos e outros adornos natalinos, rito que cumpria há 23 dezembros.

Uma tragédia sanitária sem igual corroeu as entranhas do mundo, revelando toda sorte de maldade que nos espreita.

Perdemos entes queridos, adoecemos, deixamos de fazer inúmeras coisas, e cá estamos, chegando ao fim do segundo ano de pandemia, colando os caquinhos e tentando restaurar a normalidade.

Uma breve saída à noite neste comecinho de novembro foi o bastante para perceber que o Natal já se instalou nas cercanias. Muitos prédios piscam nervosos em vários tons. Eu falei “comecinho de novembro”?

Até entendo que após quase dois anos de afetos remotos estejamos ansiosos por abraços reais, mas o respeito aos rituais é importante para a sobrevivência das culturas. Afinal, ninguém festeja aniversário meses antes da data. Parece que tudo virou comércio, consumo e lucro. Cansada disso, sabe?

Na minha infância, as luzinhas só brilhavam em dezembro. A estrela no topo da árvore era ligada apenas na véspera de Natal. À boca da noite do 24, chegávamos à casa da tia Clotilde, a irmã mais velha [e solteira] da minha mãe, uma espécie de matriarca da família e avó para mim e minha irmã.

Meus pais, ambos órfãos [meu avô paterno – único vivo – morava no interior do Ceará e raramente vinha à capital] e com somente duas filhas, atendiam com imenso gosto ao chamado da tia Clotilde, estendido a alguns aparentados e vizinhos da avenida do Imperador, região central de Fortaleza.

Com a partida da saudosa tia, meus pais juntaram-se às noites felizes dos meus sogros que, por serem de outro Estado, sem parentes em Fortaleza, abriam as portas aos novos amigos cearenses, todos muito bem-vindos.

Meu marido e eu adotamos o grande núcleo familiar após o falecimento do meu sogro. Com o correr dos anos, as gerações mais novas passaram a realizar suas próprias confraternizações, numa evolução natural da vida.

Neste ano espero resgatar a tradição da árvore de Natal, celebrar em grupo o amor maior, a solidariedade, a compaixão e o infinito apoio que recebi dos amigos e familiares nos dias mais difíceis.

Carta de despedida…

Oi sou eu aqui de novo. Vão se acostumando porque eu gosto de por meu humor aqui, já disse … azul agride menos os meus olhos. Eu já falei pra vocês que gosto de olhar o pôr do sol né…..!? Bom minha cabeça é bem fundida então eu não lembrar de algo é completamente normal para mim. Real que qualquer coisa no meu dia é completamente normal pra mim. Eu acordo, fumo meu cachimbo, ouço música, trabalho o que tenho que trabalhar… Az vezes minha cabeça leva uma rasteira, não sei de onde, e ela se vê pairando congelada em um turbilhão de informações simplesmente paralisando meu corpo e meu ser…. Outro dia estava andando de bici e parei num pico pra fumar um cigarro e ouvir uma música. Logo na ribanceira encontrei um caderno velho, jogado e parecendo que foi colocado ali, propositalmente. Tinha algumas páginas escritas, e nunca mais me esqueci do que estava escrito ali…

Não sei quem está lendo esta carta, mas saiba que ela não é uma justificativa. Por muito tempo eu me arrisquei a ser alguém, a ser eu e até mesmo me permitir ser você. Mas… eu só conseguia ser o que eu sempre soube ser. Queria te pedir desculpas, mas não consigo nem sinto vontade, quase como se eu fosse mentiroso se fizesse isso sabe. Não que você não mereça, mas é porque não tem motivos para eu pedir desculpas. Eu me lembro de quando você vociferava que eu estava sendo burro, muitas vezes ignorante e várias perdidas vezes de mal caráter. Eu nunca entendi porque eu era tudo isso, se meu corpo só respondia impulsos e reverberava suas palavras. O tempo todo você disse que era eu o problema, quando na verdade você só me dava seus 50% de culpa da relação. Eu não era carinhoso com você, porque você queria um príncipe encantado. Os cafés, cafunés, roupas dobradas, cervejas geladas, chupadas, saídas com colegas, festa em família, bares, chás, cigarros, e abraços … nunca eram pra você o suficiente … Por muito tempo eu não me sentia suficiente nem pra mim, quiçá pra você? Só sei que não quero mais ser eu…

Tem uma frase de uma música de Abidoral Jamacaru que eu adoro “… a parte que eu mais gosto do abismo é a beira…”

Oi sou eu aqui de novo. Nos últimos anos eu tenho me permitido estar em imagens… Sempre me intrigou existir com esse físico, algo que sempre sinto que não me pertence, sempre me sinto que estou no receptáculo errado, sempre sinto que não preencho correto. É muito difícil ser eu … Talvez isso seja redundante, talvez seja óbvio, talvez seja… Talvez você esteja lendo sobre um eterno personagem e nem perceba… Talvez eu esteja mentindo isso tudo aqui, apenas para te ludibriar com minha falácia mansa e charmosa… Talvez nunca seja.

Mas uma coisa eu posso te assegurar que é verídica, planos de fundo nas tonalidades de azul agridem menos meus olhos. AH! Posso dizer outra verdade aqui, – Meus olhos são tão afiados a luz, que num completo breu eu posso ver teus ossos querendo me abraçar –

Adoro olhar o pôr do Sol

Esse conteúdo não é para crianças

Oi… sou eu aqui de novo. Confesso que ainda reflito sobre o que permito vocês lerem aqui, vocês entendem que vocês são vozes na minha cabeça né? Nesse momento eu estou ouvindo uma playlist no spotify baseada em uma banda, ou artista japonês que se chama “Ghost Data“. Uma experiência que se alguém se permitir a viver eu recomendo… Hoje eu e minha companheira fomos baleias. Ela como sempre se jogando no meu oceano de crise existencial… Tomamos uma cerveja que nunca bebemos antes, fumamos um baseado da melhor qualidade, delícia essa potente suficiente para existir apenas nas terras Kariris. Ela me paquera igual uma baleia, com olhar de oceano.

Uma noite de céu azul – claro – limpo – enluarado – quente – arejado.
Eu me ajoelhei diante dela… enterrei minha boca em um cacho de uvas suculentas, doces, cheias de sucos… minha boca cheia de água, lambuzou minha língua naquela fruta, doce, quente molhada, profunda.
Aquele arrepio no pé da nuca faz minhas garras de jaguatirica saltar na pele da onça … Como um rio deságua no mar eu sinto ela molhar.

Eu pedi a ela para afundar seus dedos nos meus caminhos de terra. Como quem desbrava uma estrada cheias de curvas. Em um instante eu sinto um rio escorrer entre meus dedos e um esporro – como um vulcão que goza sua lava para adubar a terra com seu amor, quente, grosso, sincero, profundo.

Posso não ser a melhor pessoa do mundo … mas pelo menos vou ser meu melhor mundo.