Vivo antes de 7h30 da manhã

Um ou dois anos depois da época em que eu dava aulas particulares em bairros diversos de Fortaleza e voltava pra casa a pé, consegui uma vaga para ensinar num curso de graduação em Letras em Iguatu-CE. Aulas de literatura de língua portuguesa. A maior oportunidade que já tive na vida. No sertão bonito e áspero do cacto. Dar aulas, se aporrinhar, ter umas alegrias imprevistas, ser professor, quem sabe. Desde então, em geral, o tempo escorrendo sem alarde, sem problemas de menção especial: a vida em Iguatu, resumindo.

Muitos anos depois de começar a trabalhar lá, numa noite, final de turno, eu conversava um pouco com Manfredo, a poucos dias da colação de grau de sua turma, num corredor do campus. Ele não parecia muito interessado na minha preferência por literatura contemporânea, mas acho que gostava de conversar comigo sobre livros em geral. Passou por nós o Rômulo, concludente em breve, assim como o que papeava comigo. Interessou-se, parou por ali, injetou umas frases na conversa. Propôs então que continuássemos, num bar, a tratar dos assuntos que viessem. Já havia notado que Manfredo não era próximo de Rômulo, mas não necessariamente o evitava; em todo caso eram bem diferentes. Manfredo me olhou com ar de: não tou fazendo nada melhor mesmo. Opinei: vamos beber.

Manfredo me lembrava aqueles desenhos do rosto do Cruz e Sousa, cuja poesia gosto tanto, mas sem a barba, com um rosto mais arredondado e a pele um pouco mais clara do que parecia ser a do meu poeta brasileiro preferido no século XIX. Esse nome, Manfredo, foi homenagem do pai, falecido, que gostava do romantismo europeu e particularmente do belo poema teatral de Lord Byron em que o heroico personagem Manfred desafiava, ao mesmo tempo, Deus e o diabo (“esses dois sujeitos indignos de confiança”, dizia divertidamente Manfredo). Rômulo era policial, branco, uns 40 e poucos ou tantos, rosto meio detonado pelos anos e talvez por muitas farras. Tinha um sorriso fácil e que me parecia meio idiota; provavelmente era alguém dado a autoritarismos e talvez agressividade. Acho que era bolsominion enrustido (ainda não havia sido eleito o pior presidente que nosso pobre país já teve).

Então, essa pequena comunidade de três machinhos fomos ao bar e restaurante da rodoviária, mesa sob céu com algumas estrelas. Estava tocando forró no aparelho de som; conseguimos que trocassem por Belchior, repertório dos primeiros discos. Manfredo gostava de roupas escuras, meio formais, botões. Seu jeito de falar também tinha uma certa formalidade na escolha das palavras, no tom de voz. Sempre a coluna muito ereta, meio sério. Pareceria caricatural, talvez, se não fosse a atitude sarcástica com que encarava tudo. Rômulo fazia o papel do gente boa conversador, cheio de sabenças que considerava úteis ou impressionantes. Era alguém trivial. Apesar das impressões que me causava, tinha uma atitude em geral amistosa. Ambos iam se graduar em breve. Animados. Um clichê do bar é uma certa tendência espontânea de que as conversas primeiro toquem assuntos “sérios” para depois alcançarem tudo aquilo que classificações variáveis incluem na rubrica “putaria”. Um clichê, isso, mas a cerveja estava geladíssima. Dava até uma dorzinha perto da úvula.

Pois então. Manfredo me perguntou o que há de interessante na literatura hoje, mas não parecia interessado na resposta. Falei de obras que me agradam, das inquietações políticas de linguagem que me cobram a atenção; ele queria, entretanto, a névoa e os tons de voz do que lhe parecia ser a Europa no século XIX. De qualquer modo, me parecia importante, até imprescindível, que aquele rapaz tivesse aqueles modos naquela cidade. Era um deslocamento, uma saída do banal e do massivo, um anacronismo no melhor sentido da palavra, em que se traz algo de antes como uma coisa nova, que cutuca o que houver de pasmaceira no presente: o anacronismo de Jorge Luis Borges ou até o de Oswald de Andrade. Manfredo era interessante porque irônico e reflexivo, porque não se deslumbrava com cânones, exceto aqueles que admirava (basicamente, a arte clássica, da Antiguidade, e a do século XIX); a atualidade contaminava a impressão passadista que parecia querer causar de si mesmo. Não se dava conta, e preferi deixar que um dia percebesse isso sozinho, do quanto era fruto do agora, do hoje. Que nem todo mundo que estiver vivo, diretamente ou por tabela, queira ou não.

Aliás, Manfredo contou o resumo de uma peça teatral que pretendia escrever. Gostei tanto que consegui guardar na memória. Era ambientada na Grécia mitológica que os gregos construíram e tinha, como um dos personagens, Medusa, lendária criatura cujo olhar, quando visto, multiplicava ao extremo a porção de pedra que cada pessoa carrega em suas emoções. Um jovem cego é abandonado na ilha de Medusa por marinheiros debochados, sem saber onde estava, nem sobre quem morava ali. Começa a caminhar sem rumo, já que não conhecia o lugar, e acaba por entrar no palácio onde Medusa arrastava seu corpo de serpente sem descanso, dia e noite. Ela o fareja e vem a seu encontro. Logo percebe que ele não se transformará em pedra, já que é cego. O jovem percebe a chegada de alguém e pergunta se seu interlocutor pode ajudá-lo. Medusa se mantém em silêncio observador. Uma das cobras venenosas em sua cabeça, resquício dos belos cabelos que um dia teve, arma um bote para picar o rapaz no rosto.

Medusa [dirigindo-se à serpente que iria picar o rosto do rapaz. Era a primeira vez, em séculos, que a Medusa falava, voz rouca, inumana, mas parecida com a de uma mulher]: não.

O cego: está falando comigo?

Medusa: Não.

O cego [hesitante]: apenas quero ir embora.

Medusa: para onde?

O cego: qualquer lugar. Para mim, todos os lugares são quase o mesmo, e estar em casa e estar perdido não são coisas tão diferentes.

Medusa: o que você quer?

O cego: eu?… Tenho fome. Quero comer.

Medusa: aqui não há nada que lhe agrade, a não ser que goste de carne podre [silêncio com olhar sarcástico]. De um banquete recente…

O cego: preferiria talvez algumas frutas.

Medusa: [o olhar dela mistura contrariedade e curiosidade, se é que um olhar humano pode conter isso] por aqui não há frutas.

O cego: parece que invadi sua casa. Me perdoe. Sabe se eu poderia conseguiria frutas em algum lugar perto? [ouvindo o arrastar do corpo de serpente, enquanto ela se movia ao seu redor] Posso fazer uma pergunta?

Medusa: sim.

O cego: você é humana?

Medusa: o que você acha?

O cego: acho que sim.

Medusa: por quê?

O cego: porque… você me escuta. Sei que me observa enquanto espera que eu fale. Sinto uma paz estranha. Creio que não exagero em dizer que você é a melhor companhia que tenho tido em muito tempo. Seu silêncio me acaricia melhor que a maioria das palavras piedosas que me deram como esmola.

Um fio de tristeza ecoa do olhar de Medusa, na imensidão daquele palácio de pedra, que na verdade era um labirinto, que na verdade era um palácio. Ao ar livre, depois de longa caminhada, chegam perto de uma macieira. O cego acha as maçãs deliciosas. Come e adormece recostado no tronco. A medusa se sente ressensibilizada, mas também irritada pela inquietação sentimental que aquele frágil e jovem rapaz provocara em alguém ressentida como ela. Seduzida ou estuprada, não se sabe ao certo, por Posêidon no templo de Atena, foi castigada por esta devido à profanação de seu altar: transformada naquele monstro: Medusa. A paixão, naquele momento, lhe inspira horror contra o ódio que sentia. Ódio à humanidade e a todos os deuses, carregado consigo há tanto tempo. A medusa sabe que só poderia voltar a ter a paz ressentida em que vivia se o jovem desaparecesse. Entretanto, sabe-se incapaz de atentar contra a vida do rapaz, apesar da intranquilidade odiosa que ele involuntariamente lhe traz. Ela precisa comer; apenas seres sem olhos poderiam lhe servir de alimento. Quando Perseu e seus companheiros chegam à ilha para matar Medusa, poucos dias depois, simplesmente não encontram o rapaz cego dormindo sob a macieira. Ele não está mais lá. Seu corpo desaparecera por completo, e só Medusa sabe o que acontecera. Uma última fala dela, dirigida ao público, ecoaria antes de o pano cair:

Medusa: vocês são ridiculamente limitados… Acham que destruí meu redentor! Meu redentor de vidro fino. São incapazes de pensar que eu possa ter dado a ele o paraíso que nenhum humano ou deus lhe daria!

Algo que eu não sabia colocar em palavra no momento me agradava naquela ideia de teatro. Mudamos de assunto, e Rômulo, já meio alterado, iniciou o relato do fora que sua namorada havia lhe dado, já que ele era assumidamente um cara muito controlador e ciumento. Inconsolável, ele tinha impulsos de agredi-la e disse isso a ela, que deixara claro, com isso, que dele queria apenas distância. Tinha vontade de esmurrá-la ou pior. Manfredo olhou pro lado e fez uma cara de desânimo sarcástico ao ouvir isso. Olhei pra baixo e torci a boca meio involuntariamente. E agora, essa. Manfredo cortou o silêncio de alguns segundos: Olha, isso não tem futuro, não. Se tu não tá nem aí pro que vai acontecer com ela, pensa no monte de problema que tu vai arranjar pra ti mesmo. Mais alguns segundos de silêncio. Peguei a deixa e falei um pouco sobre como ele poderia lidar com aquele sentimento, como poderia talvez tentar negociar com a namorada (embora eu achasse que ela não aceitaria mais ter contato com ele, pelo menos não a curto prazo) e como poderia lidar com a rejeição definitiva caso isso fosse uma certeza. Falei de improviso, mais por tensão que por confiar de fato naquelas palavras. Mas vai que ajudassem, ué. Eu espero que tenham servido pro cara se aquietar. De qualquer modo não tive nenhuma notícia dele depois da colação de grau, nem boa, nem ruim.

Conversamos por mais um tempo, assuntos amenos, alfinetadas no Bolsonaro ouvidas por Rômulo em silêncio, talvez por sonsice. Manfredo ocasionalmente encorajava Rômulo a fazer yoga, meditação ou, em caso de diagnóstico, a tomar pílulas e banhos gelados à noite, e o outro ria aparentemente sem perceber o tom de deboche. Depois falamos de coisas aleatórias, relacionamentos. As historinhas de cada um. Contei da minha vida amorosa incerta. Diversas vezes, só gostava das namoradas depois que eu terminava os namoros, e elas arrumavam alguém. Eu queria então reverter as coisas, mas era tarde. Transei com caras, também, numa suruba, foi bom, tranquilo e sem afetos especiais. Rômulo franziu a testa e apertou os olhos. Fiquei feliz por ele ter se chocado. Pequenas alegrias a que a gente não renuncia. Então, desde um tempo relativamente longo, estava só. Só, numa espécie de inércia. Como numa espera desenganada, sem tanta pressa. Lou Andréas Salomé ensinou algo a Nietzsche: as mudanças importantes muitas vezes precisam de pequenos movimentos retomados a longo prazo. Raríssimo, desde criança, eu falar assim de mim pra gente que conhecia pouco. De repente, soube que muitas horas tinham se passado, e talvez eu tivesse bebido mais do que percebia. Gosto de algumas de suas aulas, não de todas, disse Manfredo, sem que eu percebesse claramente se estava de zoeira ou não, se o provável deboche era um jeito de tentar animar o ambiente. Em alguns momentos da noite, eu me perguntava até que ponto contribuí para aqueles caras chegarem ali. Até que ponto houve nas aulas que ministrei alguma contribuição que prestasse pra algo. Algo que parecesse válido. Difícil saber, mas estar ali com aquelas pessoas tão diferentes de mim não era mau. Nada mau. A cerveja possivelmente ajudava a manter o clima de boas. Tanto melhor.

Hora de buscar um rumo. Rômulo sumiu logo em sua moto. Manfredo era adepto e usuário de uma bicicleta. Me acompanhou por um quarteirão, antes de seguir seu caminho, enquanto nos perguntávamos: Esse Rômulo tem jeito na vida? Rapaz, sei não. Caminhei pra casa em que ficava quando estava na cidade, aluguel dividido entre colegas professores. Depois que andei dois quarteirões e seguia por um trecho de poucas casas, todas as luzes ao redor apagaram. A eletricidade e seu rumor sumiram. Escuridão densa e desafiadoramente silenciosa: por uns segundos, tudo deixou de existir. Não estava tão longe e conseguia me guiar até a casa pelas estrelas e pelo risco de lua no céu. Lembrei do Ivo, um amigo falecido de câncer há uns dois anos que tinha uma história amorosa parecida com a minha, avulsa, sem chegar a lugar nenhum. Tinha a minha idade. Lembrei também dos relatos de experiências de quase morte que doentes ou acidentados fazem, às vezes, quando acordam de seus comas: tomada por uma tranquilidade inédita, a pessoa encontra, em um salão iluminado, parentes mortos antes dela e que vieram recebê-la. Não consigo acreditar em vida após a morte: isso pra mim é contar com o ovo no cu da galinha. Pensei então que talvez o paraíso fosse uma experiência neurológica que durasse poucos minutos ou segundos, mas sendo percebida, nem que por um instante, com um gosto de eternidade. Ivo talvez tenha tido seu céu: tomara. Eu continuava vivo e estava chegando na casa em que dormia em Iguatu, quase às três da manhã. Sono. Tinha que dar aula às 7h30. Mas a aula às 7h30 não entra nesta história e, portanto, é um lugar e um horário que nem existem, pura ficção.

Um papo com Micheline Torres

Por motivos de força maior hoje não tivemos o texto da ArteVista Rebeca Raso, de modo que trouxemos um #tbt com a ArteVista bailarina e terapeuta Micheline Torres. Um papo sobre dança, teatro, filosofia, vida, morte, luto e a força do autoconhecimento. É só dá o play!

Olhos de lavadeira de roupa

SINOPSE: A proposta é um convite para olharmos pro universo da poética dos sonhos, pras miudezas da vida enquanto potência, não só aquilo que está fora, mas sobretudo aquilo que pulsa dentro.
Pulsão: Mergulho na escuta das nossas vermelhas ancestrais.
Essa obra áudio visual tem o intuito de olhar pras miudezas da vida enquanto potencias que descobriremos nas ilhas de si, por meio da memória que carregamos no sangue que correu por anos nas pernas das mulheres que equilibraram bacia de roupa e balde de água na cabeça enquanto sobem ladeira e atravessam rio em prol da comunidade.
Roteiro e Atuação: Barbara L. Matias
Edição e câmera: Caio Oviedo

MINHA ANCESTRAL VIVA

Kiko Alves

Sempre que me ponho a pensar sobre o tempo encontro e reencontro uma imagem e um autor que sempre me coloca em estado de atenção, um artista e um autor alemão,  estão sempre presente; em um de seus textos, o pensador alemão Walter Benjamin nos brinda com uma viagem-análise das mais belas, sobre um quadro de Paul Klee. Neste, um anjo de asas abertas é empurrado para frente por um forte vento, enquanto com o rosto virado para trás, tenta permanecer e recompor as ruínas do que ficou. Benjamin chama a esse anjo de “anjo da história”, e relaciona a imagem do vento ao progresso positivista. Mas algo resiste, como se escovasse a história a contrapelo. O que lhe resiste está indicado num outro texto (O Narrador), é o verbo, em forma de narrativas. 

anjo da história” de Paul Klee (imagem da internet)

O que fica é uma questão que me persegue, o que resiste aqui como dado real? O que fica como povo aqui, nesse momento? Paul Klee coloca olhar para o passado como uma tecnologia para pensar futuros, narrar, encontrar no passado o elo que possa nos guiar para o sonho dos ancestrais, a África Mítica imortalizada na imagem de uma mãe de seios fartos, o que nos resta aqui, o sonho dos ancestrais já quase perdido e os descendentes cansados e amedrontados, Walter Benjamin acredita que o verbo é capaz de imortalizar os legados, fico me perguntando a que custo.

No presente construir as pontes perdidas para o passado, para que possamos enquanto povo negro projetar o futuro, esse é o dever do povo preto, encontrar os elos, arrumar os Oris, preservar o corpo, alimentar os ancestrais e nessa luta tentar não morrer ou adoecer e perder o elo com a realidade, essas questões que podem ser soltas em certa medida me provoca sobretudo nesses tempos, no momento que o mundo é assolado por uma pandemia e o mundo naturalizou corpos aos montes, covas coletivas, o estado se sente mas autorizado que nunca a legislar sobre as condições dos corpos que estão aptos a morrer, as estratégias de biopoder cada dia mais sofisticas e atuando de forma a eliminar o divergente, esse momento de doença física e mental, nós aqui em Fortaleza e no mundo nós autorizamos o ser tão ruim quanto pudermos, estamos sem a vergonha na cara necessária aos contratos sociais para que possamos manter a aparência de civilidade, mas aí estaríamos de volta onde sempre estivemos ao normal de corpos mortos caídos em valas, o anjo da história olha e narra a morte, porque afinal a história é feita por mortos, a história serve apenas para imortalizar o acontecimento do branco como fato epistemicida, o que se contrapõe talvez possa ser a memória, o anjo de Paul Klee talvez fosse melhor batizado de Anjo da Memória, rememorar para não esquecer, rememorar para fortalecer a vida, usar o verbo como uma ferramenta que possibilita conectar os elos perdidos para o povo preto em diáspora, pela memória a minha família existe, a história apaga ela, apaga minha árvore genealógica,  a memória da minha ancestral viva, garante que a partir daqui essa narrativa siga, e que os que veem nessa família possam poder narrar e contar as histórias de amores, dores, prazeres, aventuras e lutas de seus ancestrais, graças à memória de uma matriarca de 94 anos conseguimos mapear um pouco do que somos e somos muitos e muitas, esse texto é apenas para que eu não me esqueça de na próxima vez ao olhar para o Anjo da História de Paul Klee, eu amenizar a tensão que sinto, e possa também olhar para a memória, e essa é presente, ela não se afasta, ela define a realidade que habito, com minha ancestral viva, de olhos já cansados, de pele flácida, de sorriso desdentado, mas farto toda vez que chego para lhe abraçar e me aperta forte com seus braços frágeis e gentis, e forte, um abraço que passa para mim a obrigação de reter, organizar e repassar as memórias,  de quem somos, não esquecer para ser, para existir, minha ancestral de sorriso farto me ensina a força para resistir a tudo, em certa medida resistir até a morte, só alcançamos a imortalidade pela memória, precisamos narrar aos nossos para que não cheguemos à extinção.

Aprendi lá em casa que só posso chegar nos espaços falando quem sou se levar comigo os meus, então eu sou filho de Eunice e Zé Maria, Neto de Georgina Mariana e Manoel Rocha, Bisneto de Mãe Miranda e de um Bisavô perdido na memória e na história, e de uma vó negra retinta cega sentada em uma rede que me levanta acima da cabeça dela, a única memória dela que tenho, só pude ter uma vó a vida toda, mas que vive por todas e me dá os afetos dos meus, dois pais, com uma mãe forte e linda ainda presente, 4 avós, 8 bisavós, 16 trisavós, 32 tataravós, 64 pentavós, 128 hexavós, 256 heptavós, 512 octavós, 1024 enavós, 2048 decavós, isso falando apenas dos negros escravizados no Brasil, embora de alguma forma perdidos da narrativa, nos rincões da memória, presentes aqui comigo nesse momento em que escrevo, eles me fortalecem, me levantam e sopram sorrisos no meu rosto pelas manhãs que chegam com ventos e sons das árvores do meu quintal, precisamos entender povo negro que apesar de mortos e apagados não estamos sós, alimente seus ancestrais, converse com eles, evoque e apesar de retidos na opacidade eles estão aqui.

Kiko Alves, 27 de agosto de 2020.

Kiko Alves é integrante do Coletivo Afrofuture, jornalista, pesquisador das questões raciais e condição social das periferias do brasil. Realizador, Professor e Produtor Audiovisual. Especialista em Antropologia da Imagem – UFC.  Mestrando em Sociologia – Pós – UECE ( CE) –  linhas de pesquisa: Cultura, Diferença e Desigualdade. Escreve para o blog às quintas-feiras, em “Qual é o seu Lugar de fala?”

Lugar de escuta

Por que deveria existir a obrigação de se adequar a classificações de gênero, quaisquer que sejam? Tenho na cabeça o exemplo dos gêneros textuais, discursivos. Por que um texto deveria se adequar à exigência de que ele seja trilhado por certas características fixas? Isso, ok, tem sua utilidade em muitas situações. Acredito, porém, que a liberdade de desobedecer, alterar e desrespeitar regras para composição de texto no arco de um mesmo texto pode ser um tipo de prazer. Lembrei daquele livro tão bonito do Roland Barthes, O prazer do texto; o que é revolucionário não é a dor, a renúncia, o trágico, os normativismos morais. O que pode mudar o mundo é o prazer, o gozo como limiar do prazer, o desejo não como um se manter longe, mas como contínuo querer estar perto, diferença sutil, mas creio que relevante.

Nesta coluna, gosto de praticar um dos meus prazeres: a digressão. Mudar de assunto. Não obrigar o texto que escrevo a ter unidade temática. Não ter a obrigação de continuar falando da mesma coisa. Num mesmo texto, gosto às vezes de, sem aviso, passar do ensaístico ao ficcional, do cotidiano ao absurdo, da ânsia de conversar ao gesto de me calar. Não sei até que ponto isso pode interessar a possíveis leitores, mas é algo que me desperta prazer, animação. Hoje, então, resolvi enunciar algumas coisas de pensamento que me interessam e, espero, possam interessar a você(s). Um pequenino trajeto pessoal de descobertas e expectativas.

Além da literatura, que procuro levar para as salas de aula em que vou buscar a manutenção da minha materialidade, tenho muito interesse pela filosofia. Especificamente, por um certo ramo da filosofia que busca se desviar dos ritualismos e normativos habituais da área, especialmente na academia. A filosofia que não tem medo de se confundir com outras áreas de saber. A filosofia que corteja uma abertura de seu próprio corpo à fusão desapropriadora com outros corpos de linguagem e práticas não linguísticas. Isso tudo, como opção, não como regra de ouro ou coleira. Nesse sentido, creio que os escritos de Friedrich Nietzsche (1844-1900) são um momento muito feliz do chamado pensamento ocidental.

Partindo de acontecimentos pessoais, como a doença que o impediu de continuar lecionando, o desânimo motivado por isso e a retomada da vontade de viver e pensar, bem como históricos e estéticos, como o conjunto artístico e filosófico da cultura grega da Antiguidade, Nietzsche antecipa o inconsciente psicanalítico, enfatiza a irracionalidade e a antimoralidade como componentes do desejo humano de estar vivo e, principalmente, sustenta uma ideia que, décadas depois, seria amplamente aceita pelas ciências humanas: a de que inexistem verdade cultural unificada e válida para a espécie humana inteira. Não adianta você esperar que seus valores sirvam automaticamente para o outro; é preciso que você estabeleça uma luta existencial e política para que o seu pensamento faça sentido e prazer ao outro também. Que você convença, debata, argumente e encontre ou construa a sua comunidade, aqueles que compartilharão pensamento e práticas com você.

O pensamento de Nietzsche vem, assim, não puramente de afirmações prévias e categóricas que pretendam enunciar uma verdade pretensamente universal, mas em uma escrita aberta, interpretável de muitas maneiras, em que ecoa uma afirmação: estou aqui falando para os meus amigos, para aqueles que queiram concordar comigo, fazendo lembrar, talvez, que linguagem não é caminho definido, mas dispersão, desencontro, luta pela sobrevivência. Nietzsche diz também que não espera que concordem com tudo o que ele diz, mas que espera que queiram frequentá-la e colher nela o que desejarem: isso pode servir, inclusive, como modo de leitura de sua obra, já que pessoalmente considero impossível concordar com todos os posicionamentos dele. O exercício de buscar pontos de vistas diferentes dos convencionais gerou muita polêmica para a obra nietzschiana; diante da acusação de precursores do nazismo, seus textos seriam antes a recusa em dar automaticamente o status de coisa ruim à crueldade e de coisa boa à bondade. Operação arriscada, mas que pelo menos em certos âmbitos pode gerar debates maduros e lúcidos. Por que não procurar compreender algo criticamente, pela maior parte de ângulos possíveis, antes de adotar posições simplesmente porque disseram que seriam válidas?

Certamente, considerando o contexto eurocêntrico, machocêntrico, caucasocêntrico do século XIX, a obra de Nietzsche não está isenta de conservadorismos, machismo, hipóteses equivocadas ou meramente aberrantes em geral. Elas me ajudam a produzir pensamento, não para me tornar discípulo, mas para exercitar aquilo que o filósofo alemão escreveu num poema: “quer me seguir? Siga a si mesmo!” Com o tempo, muitos começaram a defender que a obra nietzschiana não era uma apologia do nacionalismo e de tudo que nele é autoritário, mas, por exemplo, o ato de perguntar: você está de fato convicto de que quer ou não quer ser autoritário? Qual resposta você se dá quanto a isso? Nietzsche parece ter estimulado um pouco daquilo que houve de mais transformador e anticonservador no pensamento europeu do século XX: Georges Bataille, mistura de antropólogo, economista, ensaísta, ficcionista e não sei o que mais, é um dos primeiros deles. Jacques Derrida, que quis ver a matéria como um tipo de imensa linguagem, e Gilles Deleuze e Félix Guattari, que disseram que a linguagem humana é a base de qualquer abuso de poder, preferindo atentar para as linguagens que preferem exprimir afetos a significados inteligíveis, trouxeram também algumas linhas boas para repensar permanentemente o humano como transformação e potência.

Já que estou falando de gentes e ideias, mas estou também falando de mim mesmo, de certo modo, não quero deixar de lado a contribuição indispensável de Karl Marx. Não pela aposta heroica, embora cada vez mais duvidosa, de que uma revolução radical esteja garantida, mas pelo gesto politicamente intenso de pensar outro mundo e outra materialidade; pela argumentação decisiva na sustentação de que os espaços humanos não são natural e inevitavelmente imutáveis, mas que mudam com a história, e com isso podem mudar rumo a uma dinâmica libertadora e desierarquizadora de coisas que muitos desejam, mas temem não ser possível.

Não poderia, de jeito nenhum, dizer que as ideias acima sejam o que há de melhor e mais importante no pensamento construído pelo grande ciclo das modernidades (que continua contemporaneidade adentro). São só algumas posturas que chamaram minha atenção. Entretanto, elas me parecem próximas de um interesse que tenho tido desde alguns anos: o de sair da tendência canônica e afinal mercadológica (mesmo que eu não queira) de ler obras escritas por homens brancos de classe média. Sair da zona de conforto mental. Ler coisas que não se pareçam com o que já li. E, sobretudo, buscar as vozes de quem secularmente foi tratado na base do “cala a boca”, mas que sempre teve e cada vez mais tem muito o que dizer, da forma que puderem: mulheres, negros, “povos não ocidentais”, animais, plantas.

Cânone, Norma, periferia, zona de desterritorialização, todos esses são conceitos brancos, europeus ou europeizados. Muito provavelmente aquelas vozes que começam a ser ouvidas vão propor categorias que desloquem essas aí. Isso não terá reconhecimento da elite acadêmica branca, ou terá de modo limitado, mas poderá atuar como fonte de práticas políticas de elaboração de comunidades de tamanho variável. Essa percepção me tem dado vontade de calar e escutar as vozes de todos esses grupos.

E tem é coisa para quem se interessa. Pensamento feminista em suas diversas vertentes, negro, pós-colonial ou decolonial, queer etc. Uma grande multidão de autores mundo afora trazendo suas vivências e seus dialetos (o que é uma língua senão uma multiplicidade de dialetos?), oferecendo-me percepções que eu jamais terei se me mantiver lendo europeus ou europeizados. Sueli Carneiro, Helena Vieira, Milton Santos, Judith Butler, Franz Fanon, Anibal Quijano, María Lugones, Donna Haraway, tantas falas. O interessante, para mim, é que vejo pontos de contato entre os europeus citados e comentados acima e muitas das discussões, por exemplo, nos autores latino-americanos da proposta decolonial ou nos que se dedicam às discussões queer. Aqueles autores dos primeiros parágrafos acima têm, para mim, uma contribuição de que gosto muito: não aceitam compreensões simplificadoras, esquemáticas, do real, mas tentam abrir olhos e ouvidos para sua complexidade, para as complicações do humano, no fundo atuando como forças contínuas de confrontação ante tudo que é conservador, tudo que tenta manter privilégios e noções preconcebidas. De qualquer modo, eles são um limite, um insuficiência, são o anúncio do que precisa ir adiante. São algo que este texto mesmo está tentando fazer: admitir que li vários europeus, mas quase nada, ainda, do que tem me interessado ultimamente. É a confissão de um desejo, mas também de uma falta.

Condições materiais favoráveis de espaço e tempo é que propiciaram, naquele ciclo de modernidades mencionado, o desenvolvimento de um pensamento complexo, que una o lado estético da linguagem à preocupação com práticas políticas de vida em grupos. Um pensamento que começou a ser formulado por brancos, pelo menos no campo de parte das práticas envolvidas por ele, mas que, quem sabe, consiga combater minimamente valores excludentes do mundo branco habitual.

Talvez a origem racial, de gênero ou de outras circunstâncias de um pensamento não determine completamente os percursos e performances com que ele vai se conectar. Talvez o lugar de fala não seja um perímetro inequívoco; o lugar de escuta, imagino, não é; é fluido, aberto e amoroso ao outro, não como norma e virtude, mas como proveito, viço de experiência, categoria que tem suas cascas europeias, mas que também existe em outras diversas culturas, como alegria de viver o próprio corpo e prazer com o prazer do outro. O prazer naquela imprevisível medida revolucionária, inquietante, embora sempre em risco de ser usado para anestesiar e dominar. Complexidade e simplicidade, categorias também brancas, podem ser bagunçadas pelas vozes novas de modo que elas construam pensamento politicamente transformador, democrático, mas crítico da democracia, com possibilidades produtivas e encorajadoras.

Essas observações, contudo, não se propõem como explicação ou previsão de nada, mas apenas como vontade e aposta. As vozes novas é que vão decidir e estão decidindo o que querem dizer. Toda esta escrita aqui tentou não mais que chegar a este lugar: o do silêncio e da atenção. E se houvesse um pensamento que produzisse movimento pelas vozes de que gosto, pensamento que privilegiasse a escuta das corporalidades e transcorporalidades que escapam a ele? Como a opção pelo silêncio e por uma longa escuta, por eventuais intromissões na conversa, pensamento em que a escuta é uma escritura, cuja singularidade é, numa conversa, propor como fala predominantemente a ação dos ouvidos? O meu lugar de pensamento, hoje, é um lugar de escuta, de quem se cala para escutar, não por mérito, mas para um aprendizado contínuo.

Quem narra o que vês?

Não é habitual que eu fale de filmes, séries ou mesmo livro que estou a ler. Mas desta vez houveram dois (um filme e uma série) que seguem a dar voltas na minha cabeça.

Uma delas é a série “I may distroy you” da diretora Michaela Coel, que também a protagoniza. É uma série de 12 episódios estreada em junho de 2020. Conta a história de Arabella, uma jovem londrina, negra, da geração milennials que está a ter um pequeno “bloqueio creativo” para avançar com o seu novo livro.  Desta, ela decide se unir a um grupo de amigos em um bar. O encontro que deveria ser rápido, se alarga. O dia seguinte, Arabela aparece desnorteada, sem lembrar muito bem o que aconteceu. Na tentativa de fazer memoria da noite anterior, descobre que foi estuprada.

A série também dá espaço para as histórias das suas grandes amigas: Kwame e Terry. As três personagens narram e trazem para o debate situações reais ao redor das violências sexuais, racismo, homofobia, drogas e as redes sociais de uma forma original e muito inteligente (não quero ser mais spoiler).

Este produto cinematográfico, além de me distrair com o seu espetáculo, deixa-me a pensar sobre muitos temas. Não quero fazer desse texto nenhuma defesa, simplesmente compartilharei com vocês 2 questões sobre as que esta série me leva a reflexionar, uma vez mais sobre o lugar que ocupamos na nossa sociedade e o que fazemos com ele.

Um dos temas é sobre quem conta as histórias e como mudam as narrativas com base a este sujeito. Ou seja, a importância da perspectiva ou o ponto de vista de quem narra os fatos.  É fundamental saber quem fala e para quê.

Nesta série, por exemplo, o ponto de vista é daquela que sofre a agressão inicial contada na trama, mas não lembra dos fatos. Vai em busca da reconstrução da sua memória por médio de outras pessoas. Entre sentimentos encontrados, ilusões e feitos que não encaixam. Desde aí, a protagonista conta a sua história. Uma posição que em muitas ocasiões da vida real não é levada a sério, sendo desacreditada.

Ao redor da sua realidade conta também sobre uma parte da realidade da comunidade negra na Inglaterra. As suas relações sociais, amorosas, ócio, trabalhos, inquietudes, debates, etc… mas com uma perspectiva que poucas vezes temos desta comunidade.

Quantas séries protagonizadas por mulheres negras já vimos? E em que papéis? Esta série coloca uma olhada diferente sobre o que já tenho visto.

A autora da trama é uma mulher negra, e conta desde este lugar. O centro da história, a violação por meio do uso de drogas involuntária, também foi vivida pela autora. Isso muda completamente a forma como se vê o contexto e os fatos, uma vez que segue a ser irrisório a presença das mulheres negras como protagonistas, criadoras e produtoras de produtos cinematográficos.

A importância da presença desse ponto de vista nos leva a uma desmistificação e desconstrução de uma série de estereótipos ao redor do que é ser uma mulher negra em Londres, um homem gay e negro, das suas relações com as pessoas brancas (e vice-versa), dentro do contexto inglês.

Outro ponto, é a flutuante posição de poder que obtemos a depender do contexto no que nos encontramos. Ao longo da história vemos como as protagonistas que ocupam posições de subalternidade e marginalidade num determinado contexto, podem ocupar posições de poder e cometer agressões. A série trata muito bem disso de forma a identificar-nos com situações como as que vivem as protagonistas. Derruba este imaginário que cimenta uma pessoa numa posição social, que por consequência sofre os estigmas da sociedade. 

Vale para quem é taxado de esquerda, feminista, negra, pobre, rica… que se coloca ou é colocado neste lugar de forma dogmática ou polarizada, sem atender às múltiplas formas e significados que uma identidade como estas pode adquirir. Num corpo confluem múltiplas identidades, as que não são estáticas e nem têm o mesmo significado. Dependem do contexto, das vivências, crenças, oportunidades e possibilidades de agencia. Talvez, neste ponto a série não entre muito. Mas deixa evidente a necessidade da nossa sociedade de colocar outras narrativas no nosso imaginário para que possamos compreender melhor a realidade na que vivemos e a nós mesmas.

Sobre isso, também toca no tema sensível da importância das redes sociais para a sociedade, cada vez mais mediadas por este tipo de médios. Refiro-me à importância dessas redes e da nossa capacidade de influência e cambio social a nível mais macro- estrutural da nossa sociedade. Ao tempo que ela também fala das relações sociais, inter-pessoais, que também estão a ser mediadas por estes veículos. Vão desde as amizades e a busca de relações afetivo-sexuais até a construção da nossa imagem ou perfil que construímos nas redes sociais. Expõe estrategicamente a construção destas duas identidades: “a digital e a analógica”. 

A reflexão que me atravessa sobre este tema é qual é a real capacidade de agencia que temos por meio das redes sociais como indivíduos. Quais são as consequências dessa manutenção e elaboração de duas identidades para o indivíduo, que podem ser parecidas ou não, dada a extrema exigência sobre a nossa sociedade de definir-nos? Qual é capacidade que temos de construir outras narrativas por médio destes instrumentos?

Mas, sem dúvida, a série traz para o centro do debate a questão do consentimento e o consumo das drogas e das relações sexuais. O ser consciente de ter vivido uma situação de estupro ou qualquer outro tipo de agressão sexual não é fácil para ninguém. A imagem do que é ser vítima muda o que entendemos de nós mesmas. Vende-nos que ser vítima é uma pessoa frágil, incapaz e passiva. Ver-se com esta identidade te descoloca e te dá vergonha. Não deveria ser assim. Esta imagem desenfoca o problema e deixa invisível a quem comete a agressão. Estes podem passar desapercebidos, sem consequências nenhuma.

Ainda faltam alguns episódios e muitas questões para reflexionar e desmistificar. 

Poesias nascidas nos tempos de agora.

Barbara Leite MATIAS.

Eu me chamo Barbara e estou cheia de desejo como a força de uma flecha lançada.

Minhas células carregam dores, violência. Mas, sobretudo força, alegria e sabedoria.

Arquivo pessoal

POEMAS NASCEM NA PANDEMIA COMO ALGUNS VÍRUS QUE MORREM AOS BERROS:

  1. Retorno à casa, olho as paredes e descubro detalhes parados há tempos. Corro dentro de mim, como um vírus com fome. Olho pela janela, aceno pra vizinha.

Não há sorriso no mundo inteiro.

Minha mãe me chama no vídeo, tomamos vitamina C ao som de Bethânia.

Já é dezembro!

  1. Aquele homem é um corpo engravatado – morto. Aquele corpo amarelado, peste, pele, desgosto nosso de ter que escutá-lo dizendo que nos matem vivos. Logo ele, corpo-morto-vivo.  Aquele corpo não sabe nascer nem morrer porque não tem mãe, nem festa.

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A. Prefiro uma quarentena a vida inteira que tua presença amargurada.

B. Tu sempre foi uma quarentena nas minhas madrugadas de insônia. Pausa silenciosa pra live de Teresa Cristina.

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A R U A É U M A M U L H E R P A R I N D O S O Z I N H A

H. Dois mil e vinte teve todos os dias como um eterno domingo.

E u estou M E cuarando………………….

J. Nunca duvide da capacidade de uma feminina artista se reinventar no mundo. Ainda que esteja I S O L A D A.

                              

Bárbara Leite é atriz, performer, professora de teatro e escreve para a cena. Também escreve no blog às quintas-feiras, em “qual é o seu Lugar de fala?”

        

                                            

Eu vou escrever

Barbara Leite Matias

Arquivo pessoal

Eu vou escrever, e não se trata de escrever palavras gramaticais aeiou porque não tenho nome e não sou dona das palavras, nunca fui dona de nada, eu carrego sequestrado no meu amago gritos, uivos, ecos, sorrisos, olhares e salivas escorregando entre arvores, céus e a terra.  E tu resolves chamar de palavras. Eu germino minha dor, meu suor, gozo e alegria e dá nessa tal de palavra filha de escrever. Tudo bem, que chame de palavras escritas, se quiser. De toda forma, eu vou escrever. Confesso que minhas letras não precisam ser batizadas, deixem elas demonizadamente livres, carregantes de si feito andorinhas. Eu vou escrever inventando letras em folhas sem linhas, desenharei as vozes que carrego na cabeça. Eu vou escrever no meu corpo palavras que nunca aparecerão no papel, nas paredes, nos muros e nem nos computadores. Eu escrevo enquanto queimam minha casa, uso fogo como tinta nas minhas memórias evocando berros que carrego nas células. Palavras rebeldes e teimosas voam da minha janela sem permissão, desfilam entre dedos e desejos de corpos de almas selvagens feito minhas letras linguarudas.

Não me diga não escreva. Que queimem os papéis, acabem com as tintas. Eu sei como fabricá-las e, ainda assim, não se trata disso porque quem escreve sabe das quantas que riscam quando dão vidas às letrinhas que respiram.

Mãe, avó. Do meu barco furado vamos escrever.

Sem papel e caneta escreverei palavras racializadas como nós.

Me afogaram aos seis anos de idade, com mochilas nas costas carrego os quilos da minha submersa memória. Ainda que a coluna se quebre ao meio. Eu vou escrever.

Submersa na água vou escrever.  Com dedos quebrados, vou escrever.

Sendo peixes, vou escrever com o corpo inteiro.

Com os olhos, vou escrever, e se tu souberes ler, talvez, tu me escutes feito um grito na madrugada de domingo pra segunda.

Se tu me escutares, talvez, somente assim.

Saberá o que relato no livro corpo alma, que é ser memória de muitas que se arrastam comigo enquanto tentam queimar nossas existências.

Bárbara Leite é atriz, performer, professora de teatro e escreve para a cena. Também escreve no blog às quintas-feiras, em “qual é o seu Lugar de fala?”

O TOKENISMO E A INCLUSÃO REPRESENTATIVA

Em 1962, no auge das fortes lutas por direitos civis da população negra Norte Americana Martin Luther King usa a expressão Token, que traduzida do inglês temos a palavra  SÍMBOLO, em artigo publicado naquele ano ele traz a questão em torno da ideia de representatividade negra em espaços brancos. 

Imagem da Internet

“A noção de que a integração por meio de tokens vai satisfazer as pessoas é uma ilusão. O negro de hoje tem uma noção nova de quem é”. 

O token serve apenas para se dar uma ideia de progressista, para empresas, pessoas e espaços, ou seja ao incorporar um número mínimo de membros de grupos minoritários para gerar uma falsa sensação de diversidade e igualdade, quando na verdade, essas pessoas e espaços ou empresas não têm um comprometimento real com a luta por direitos civis de negros, ou mesmo minimizar atos de violências até então bastante recorrentes no Brasil. 

O token tira das mãos desses bons brancos a responsabilidade por criar estratégias reais de justiça social e políticas reais de inclusão, um caso claro dessa ideia é Sergio Camargo, um negro retinto filho de militantes negros, porém um anti negro, abomina tudo que tenha a ver com uma ideia de luta racial, o atual governo para tirar a pecha de governo racista de si, nomeia um negro que pratica o auto ódio para presidir a Fundação Palmares, instituição criada na redemocratização para salvaguardar as tradições e lutas da comunidade Afrobrasileira e Africana, ao colocar um negro nesse posto o governo usa de duas formas muito eficientes, para tirar de seu entorno essa questão, primeiro ele narra que tem negros no governo e por tanto não é racista e segunda ele cria uma estratégia branca para apagar a ideia de raça e traz à tona o discurso de igualdade, de raça humana ou de que o povo brasileiro é um só. 

Essa ideia bastante cruel, esconde, ou tenta esconder diversos perigos para a população negra brasileira, um deles por exemplo é a ideia de que no Brasil não existem negros por conta de um processo de miscigenação das raças ( traduzido aqui por estupros em massa),  e aí vem o discurso da democracia racial, e que qualquer negro nesse país que criar um discurso denunciando a prática de racismo está agindo contra o país e contra todos os brasileiros, e nesse sentido todo o aparato do estado e posto para penalizar esses indivíduos, essa prática no Brasil remete ao império mas bastante utilizada hoje com as devidas atualizações. 

O tokenismo transforma negros em ícones representativos, apagando suas individualidades e perpetuando o status quo, gerando três grandes consequências ao movimento negro: 

● a visibilidade distorcida sobre a minoria representada pelo token

● a polarização entre grupo

● a assimilação que gera estereótipos. 

Como consequências os tokens geram pressão para que esses ícones cumpram com as expectativas de quem os inclui, em geral uma pessoa, espaço ou empresa de brancos, e o deixa aprisionado em seu papel de representante, lhe tirando subjetividades, ou tridimensionalidade, gerando um grupo de representantes de minorias que na verdade falam pela casa grande, isso leva à polarização dos movimentos negros e fortalece os grupos dominantes. 

Outra consequência do token está no marketing da falsa inclusão, uma prática bastante comum em empresas que não querem ser tachadas como racistas, machistas entre outros. Ao invés de contar com profissionais especializados em diversidade e igualdade para que possam criar um real movimento de inclusão e diversidade, essas corporações usam os tokens como garotos propagandas para transmitir ao mundo exterior uma imagem progressista. Porém, na base as velhas práticas permanecem, não dando a pessoas negras as mesmas oportunidades de crescimento, e muitas vezes essas pessoas são usadas somente para tirar dúvidas sobre temas relacionados ao grupo que faz parte, essa pessoa se torna um passe livre para que esses espaços possam dominar narrativas ou se apropriar comercial e politicamente de discursos e ideias que não seriam bem vistas se fosse feita de outra forma, na prática eles praticam o racismo sutil; eu boto um preto aqui para que ninguém me encha o saco, e continuam práticas vistas por eles como comum, mas que vêm recheadas de práticas racistas. 

O token é uma forma eficiente de brancos assumirem a frente de debates e discursos, quando se trata de mercado essas empresas buscam o consumo de 54% da população brasileira que se autodeclaram negras ou pardas, essa estratégia cria a falsa ideia de que somos iguais, uma vez aparece uma pequena diversidade em espaços de representação comercial; quando se trata de espaços menores, como círculos de amigos, espaços culturais é apenas um ato preguiçoso de pessoas que até podem não se verem racistas, mas não criam nenhuma alternativa para acabar com o racismo estrutural no país, ou mesmo melhorar que sejam os atos de violência contra corpos negros, quando brancos procuram incluir negros em geral existe o sentimento paternalista, ou olham esses corpos como exóticos, ou limitam os campos cognitivos dessas população, basta ver como o Brasil entende alguns conceitos muito falados atualmente tais como, indígenas, negros, ciganos, transexuais, gays, favelados, comunidades, etc. 

Caro amigo branco, acredito que seja fácil para que vocês vejam se estão praticando token, e vocês estão, tenham certeza, basta ver onde estão os negros nos espaços que vocês frequentam, primeiro olha se tem, em seguida quais funções eles ocupam, descubram como e quando vocês os solicitam, vejam também quantos retintos estão no seu meio, quantos com fenótipo negróides, quantos não padrão, quantos gordos e gordas, quantos crespos reais, e ao tentar fazer essa leitura vejam como vocês os encaram, se os acham arrogantes quando colocam suas questões e quando discordam de vocês, essas questões são importantes, porque é muito fácil fingir que inserem negros e negras padrões, com belos corpos, com traços finos, cabelos comportados, que não questionam seus lugares de privilégios, é fácil inserir negros que temem perder os espaços de afetos que acham que tem de vocês, é fácil inserir negros e negras quando são sexualizados, os negros fudedores de pau grande, ou negras boas de cama, é fácil inserir negros nos espaços de vocês quando vocês querem consumir esses corpos, quando atendem aos desejo libidinosos de vocês. 

Por fim, reforço aqui que é urgente a necessidade de que brancos enfrentem o legado de seus ancestrais, é fundamental que vocês aceitem que sim, foi um avô ou bisavô seu, que está agora lendo esse texto e mora em alguma área dita nobre desta cidade, foi um desses avôs ou bisavôs que vocês admiram, que animalizou um ancestral meu, que lhe bateu, que estuprou alguma bisavó minha, foi um ancestral seu que manchou essa terra de sangue, é fundamental que vocês entendam que precisam pagar essa conta, porque ela apenas começou a ser cobrada, e entendam, sua pena e comoção cristã não faz reparação histórica, se dar conta de que existe uma dívida deixada por seus ancestrais que precisa ser sanada passa pela criação de uma sociedade justa para todos, e que precisa fugir da prática do token ou vocês estão apenas alimentando a máquina que mói corpos negros, todos os dias há 520 anos nesse país, nada foi superado, tudo é presente, a escravidão não foi superada e seu privilégio social, político, cultural, financeiro prova isso todo dia.

Kiko Alves integra o Coletivo Afrofuture. É jornalista, Pesquisador das questões raciais e condição social das periferias do brasil. Realizador, Professor e Produtor Audiovisual. Especialista em Antropologia da Imagem – UFC.  Mestrando em Sociologia – Pós – UECE ( CE) –  linhas de pesquisa: Cultura, Diferença e Desigualdade. Escreve para o blog às quintas-feiras, em “Qual é o seu Lugar de fala?”