Afeminada de uma quarentena

Imagem de vó.

Todo mundo da minha família é nordestino. Se vieram de outro lugar não me contaram, por isso, estou enviando essa carta ancestral, suja de suor das mãos de muitas que caminham comigo.

Eu me chamo Bárbara Leite Matias, tenho vinte e seis anos, e sou de um sítio chamado Marreco, que pertence a um distrito chamado Quitaíus, onde anteriormente moravam os povos Karyrys- do município de Lavras da Mangabeira, que fica na divisa Cariri e Região Centro Sul, Ceará. Eu sou sensível e bruta.

Eu sempre gostei de estudar e conversar apesar das tantas dificuldades que enfrentei e enfrento por conta da unificação desses desejos, atualmente estudo Doutorado em Teatro, na Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG. Meus pais não entendem direito mass eles me ajudam, como podem. Quando passei, minha mãe me pediu para escrever no papel o nome do curso e o lugar, para se caso alguma visita perguntar, ela mostrar o papel e não ter vacilo com essa alegria.

Eu escrevi o bilhete como se fosse uma carta de amor.

 Quem pariu o nordeste foi uma mulher

O nordeste foi parido por uma mulher. O pai ninguém sabe, talvez filho de estupro de algum português, espanhol ou alemão. A mãe do nordeste é sozinha, criou a cria sem leite no peito e na geladeira. Nordeste é graúdo, alimentado com farinha e rapadura.  A mãe do nordeste disse:

– Nada de arma.

Nordeste obedeceu e não tem presidente como nunca teve pai.

 Quem pariu o nordeste foi uma mulher. Ser nordeste, é ser mátria.

 Para minhas avós e as avós delas

Toda mulher nordestina é um pé de cajarana, de pinha e de pitomba. Somos mais da nossa avó do que das novidades que vemos na internet. Quem são essas mulheres. Onde estão?

Você já percebeu que não era bem “mania” o comportamento da sua avó. Quem são essas mulheres? Pés descalços, coluna firme subindo a ladeira com a lata d’água na cabeça. Quem são essas mulheres que pouco choravam, que lavavam roupas na beira do rio e pegavam peixe com a mão, que faziam almoço para quinze trabalhadores, que plantavam numa terra que não era sua, quem são essas mulheres que foram mãe de vinte, quinze ou dez filhos? Que ficavam por horas de molho no rio quando sua menstruação descia. Que comiam com a mão. Que rezavam com as plantas e tiravam tuas dores com folhas de molho ou falando baixinho. Que sentavam debaixo de uma árvore em prece. Quem são essas mulheres que tão pouco estudaram mas fizeram de tudo pros próximos pegarem somente na caneta?

Onde estão essas mulheres que ajudavam as amigas a parir e juntas enterravam o umbigo da cria? Quem liga pra elas, o que fizemos com elas?

Onde está aquela mulher que sentava na calçada catando feijão que ela mesma plantou?

Como dorme a mulher que apanha do marido por conta da cachaça e que perde o filho pra ela também como uma predeterminação misteriosa?

 Onde estão as mulheres que foram em silêncio amante dos patrões e criaram filhos das senhoras de vestido bordado também por elas?

 Onde estão as mulheres que engomaram roupas alheias pro pão e livro do filho? Quem fotografa a mulher que engravidou aos doze e quando sua filha mais velha fez quinze anos lhe deu um neto para criar? Essas mulheres durante a vida inteira massagearam seu útero no fogão, uma mão sem joias com os dedos assados da brasa, com um brilho escondido nos olhos, essas mulheres sabem pouco do desgoverno desse país porque elas sempre governaram a si e aos seus, sempre seguiram intuitivamente vivas como o sol do nordeste.

Minha vó Albertina poderia governar uma nação inteira de pés descalço e sem calcinha.

Minha Biza Mariquinha criou vinte e sete filhos sem saber o nome do presidente do Brasil.

Bárbara Leite é atriz, performer, professora de teatro e escreve para a cena. Também escreve no blog Lugar ArteVistas às quintas-feiras, em “qual é o seu Lugar de fala?”

Não Consigo Respirar!

Nas últimas semanas a sociedade brasileira viu boquiaberta e com algo parecido com revolta o caso de Jorge Floyd nos Estados Unidos, e se emocionou enquanto um policial branco lhe tirava a vida com seu joelho esmagando a traqueia de um homem que não reagia, impedindo o mesmo de respirar e aliado a problemas respiratório temos mais um assassinato de um homem preto, por um homem branco representante do estado.
As redes sociais, sobretudo a comunidade negra mundial se revolta e repercute esse caso de Minneapolis para o mundo, o que vimos foram imensos protestos de pessoas negras, dizendo que vidas negras importam, que se seguiu por um número cada vez maior de países e um número grande de pessoas brancas antirracistas, clamando por justiça social e racial.

No Brasil pela primeira vez presenciei âncoras sabidamente racistas, narrando as manchetes e racionalizando o assassino de Floyd, e se seguiu uma série de coberturas internacionais e nacionais sobre a morte de pessoas negras pelas forças policiais de diversos países e de forma mais discreta falando dos nossos casos de racismo e assassinatos por parte da força policial do estado brasileiro.
Na sequência as redes foram ocupadas com avatares #antifascistas, e por fim a onda passou, deixamos de segurar essa pauta e esfriou, esse breve relato dos movimentos das redes e das pessoas foram aqui exposto de forma meio desordenada, mas que serve para falar que nada mudou, porque nada existiu para a sociedade branca brasileira e rica, habitantes das torres das áreas ditas nobres, nem mesmo quando um garoto, uma criança cai do 9º andar de um prédio, Miguel Otávio Santana da Silva, tinha 5 anos, morreu; esse roteiro criado pela crueldade do destino acontece, tendo como personagens centrais o menino Miguel, negro de periferia, uma Mãe, negra de periferia, que devia estar em casa se protegendo de uma pandemia e protegendo seu filho, a mãe se chama Mirtes, não tem marido, luta para criar seu filho, mas uma pandemia e o fato de ter que comer, e morar lhe tira de casa, da periferia de Recife, até às torres gêmeas onde mora uma patroa branca, loira, primeira dama de uma cidade qualquer na qual ela não mora, que leva o pomposo sobrenome de Corte Real, que teve pela imprensa seu nome e imagem preservada, e que com R$20 mil reais pagou pelo corpo morto de Miguel e teve sua liberdade e direito de ir para uma das Torres Gêmeas em Recife para terminar sua manicure; R$20 mil reais, agora sabemos o valor de um corpo negro morto caído do 9º andar.
Aqui fica evidente um enredo trágico de como a sociedade brasileira entende a população negra, incluindo os anti-racistas pseudo estadunidenses, que só conseguiram por uns dias falar sobre racismo, e nem falo dos extremistas, falo do cara e da mulher instruídos, bons cidadãos que votaram em Haddad para presidente, que importam discursos raciais, que não viram o racismo estrutural nesse enredo macabro que continua, com uma criança de 5 anos indo para o trabalho da mãe no meio de uma pandemia, porque não tinha com quem ficar, a mãe que teve que se submeter às demandas de uma patroa cansada de ficar em casa, e que num rompante de benevolência fala, pode trazer o menino com você, afinal ela tinha manicure, não poderia borrar suas unhas… e que não conseguia descer de sua torre para que seu pet desse uma cagada aristocrática pelos jardins das Torres Gêmeas… e essa mesma sociedade que mostrou algum tipo de reação com a morte de Floyd penalizou a mãe por ter levado seu filho de 5 anos para o trabalho e que portanto a culpa seria dela, não viram o ato como mais um ato de violência contra um corpo negro, viram apenas uma mãe descuidada, irresponsável, muitos desses comentários aliás feito por mulheres.
E assim vamos levando, sufocados por joelhos ideológico, estrutural, conceitual, estético e míope, vemos pessoas pretas seguidamente sufocadas, vocês negam nossa existência e dor, negam nossa cultura, negam nossa vida, negam a vida, e nesse estado de negação vamos sufocando a cada dia um pouco mais, e segue difícil respirar, com as mortes físicas como visto nas estatísticas, e a morte social, seguimos tentando respirar e nos manter aqui para o desespero de vocês, seguimos falando sobre racismo estrutural, sobre racismo recreativo, falando que sim vocês têm privilégios e que por vezes seus privilégios nos encerram em presídios lotados, em hospitais sem estrutura, em casas de palafita, sem saneamento básico, comida, conforto para coisas básicas, não conseguindo dormir por que temos que pensar em como matar o dragão de amanhã… amanhã estaremos tentando respirar em sinais de trânsito da cidade, vamos continuar tentando respirar, abrindo seus portões, subindo silenciosos em elevadores de serviço, limpando seu chão, colhendo seu lixo, cozinhando sua comida, estaremos tentando respirar no rosto e corpo da matriarca vendendo pano de prato nas ruas de Fortaleza, caquética, esquálida pela fome, com olhos fundos, ou sentados nas ruas sobre colchões sujos com nossas crianças o futuro morto desse país, e também vamos tentando respirar te afrontando, dizendo que sim você é racista, ocupando espaços mesmo quando no auge da tua hipocrisia tu sorri para mim.
Caro amigo branco, eu continuarei a tentar respirar, mesmo que às vezes não tenha sucesso, encarando todos os dias a hipocrisia branca, em não debater comigo e com os pretos desses país, eu vou continuar tentando respirar, mesmo quando um jovem preto tem no seu pescoço o joelho de um PM, e isso não ser relevante para o debate que você diz ser anti racista, eu continuarei tentando mesmo quando você me perguntar se …ele não era envolvido?… Mesmo quando você me matar eu continuarei tentando respirar, porque a nossa ancestralidade é isso, continuarei respirando nas minhas pessoas, nos que vêm depois de mim e criarei condições para que a respiração deles seja mais longa, e não cessarei de respirar, mesmo que o seu mundo acabe.


Kiko Alves, Narrativas do Fim do Mundo
Fortaleza – 25 de Junho de 2020

Foto: Kiko Alves | Título: Buscando Sonhos.

Kiko Alves

Coletivo Afrofuture

Jornalista, Pesquisador das questões raciais e condição social das periferias do brasil. Realizador, Professor e Produtor Audiovisual. Especialista em Antropologia da Imagem – UFC.  Mestrando em Sociologia – Pós – UECE ( CE) –  linhas de pesquisa: Cultura, Diferença e Desigualdade. Escreve para o blog às quintas-feiras, em “Qual é o seu Lugar de fala?”

Bilhetes: interferências

Saulo Lemos

Para Thássya

Quando eu tive você, o nome dessa “posse” era o labirinto em que fui poeira. Eu “tinha” você apenas no sentido em que eu era um pedaço de nós, éramos um clube, uma gangue, bando de bichos ariscos. Você também me tinha, tinha meu autodesconhecimento, meu desistir de mim mesmo até segunda ordem, meus beijos, meus braços, meu olfato, minha incapacidade inexplicável para me deixar perder na tua selva. Li teu poema e pensei ter entendido tudo. Você não era meu espelho, não era o seletor de imagem da sarcástica vossa-senhoria-sabe-tudo, e isso tremeu miseravelmente a corda velha em que eu me equilibrava e onde percebi o quanto eu precisava e precisaria de você.

(Antes, aqui não havia esse asfalto, essas calçadas, paredes, lâmpadas prontas para maltratar o segredo das sombras. Antes havia aqui uma multidão de folhas, desordem acesa de corpos vegetais mutuamente atravessados, muitos galhos, alguns troncos embrulhados em folhas de todos os tons possíveis de verde, às vezes cinzas, marrons, amarelas, roxas. Flores eventuais, belas, ásperas e talvez intratáveis, a não ser para aqueles que elas deixam tocá-las: os que voam sobre elas, os que as destroem com suas bocas. Animais pequenos e médios andavam por ali. Raramente, alguém maior, apreciador da carne alheia, mas não humanos: durante um longuíssimo tempo, não havia sinal deles por aqui.)

A visão é mesmo o mais frágil e fútil dos sentidos e não podia me ajudar a ver que a minha narrativa precisava da tua, de teus becos sem saída, de teu corpo insatisfeito. Eu estava solto em tua geografia, perdido nela, precisava de ti como só entenderia muito tempo depois. A punição para essa demora em entender foi uma maciça fusão de vida e morte no corpo supostamente vivo. Você me chamou por um tempo na cidade vazia, até que um dia o mundo se fantasiou de cidade vazia, essa que veio me buscar; você então já não estava mais em lugar nenhum num raio de cinco sentidos quadrados.

(Animais de aparência triste, quase sem pelos, posição bípede que instaura uma ambiguidade: seu poder de trânsito multidirecional se faz poder contra o mundo, mas é também o risco de eles não conseguirem ou não quererem mais parar, poder de caminhar inconscientemente (e até que ponto conscientemente?) em direção à própria extinção. Esses animais um dia inventarão coisas, o que quer dizer: eles transformarão. Inventarão nomes para si mesmos. Reinventarão a vida e a morte uns dos outros de inumeráveis maneiras.)

A tua ausência me injetou a lição final do amor e do esfarelamento dessa água-viva chamada mim mesmo. Patético, eu soube finalmente o que era o teu trajeto, o que era o teu chão, esse que um dia não consegui enxergar (minhas doenças, embora eu precisasse tanto de saúde, eram uma cegueira e uma morte temporárias, à espreita para me roubar os chocolates meio amargos que tinha escondido pra mais tarde). Soube das infinitas massagens que minhas mãos esconderam milímetros acima dos teus ombros, dos teus pés, das tuas mágoas. 

(Nas narrativas dos povos que a miopia mental do Ocidente chama de primitivos, conta-se que todas as coisas vieram de uma mesma matéria indiferenciada da qual o corpo humano também teria vindo. O corpo humano e os outros corpos que orbitam paralelamente a ele seriam bifurcações de uma vasta farinha do caos. Do big bang, da célula-ovo, do caldo quente e proteico veio a diferença, a multiplicidade, porque afinal a homogeneidade, a cor, o plano fractal, tudo isso é multidão de moléculas, de disparidades, disseminação, poeiras.)

Gotas invisíveis de chuva em dia ensolarado me cochicharam que, onde você estivesse, tudo estaria melhor porque resistindo e querendo estar vivo. Logo, as plantas, as pedras, os bichos (com quem eu sempre me comuniquei melhor que com pessoas), o concreto, o asfalto, os prédios e seus encanamentos carrancudos repetiam que você era teimosia de vida se reprogramando longe de mim. Mas aquela mesma ausência me deu outras lições, como a de que a morte era em mim a possibilidade, ainda, de viver de novo. A morte misturada à vida era pressão insuportável, que magoava e inchava a vida e lhe tornava obrigatório se expandir mais uma vez. Eu caminhei por tempo indeterminado através de matas e morros, terrenos baldios de milhares de quilômetros entre uma cabana e outra. Baldias, falando sério, eram mesmo as cabanas, as casas, prédios, condomínios e shoppings. 

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Imagem da Internet.

(Acontece que os humanos não são uma raça nada homogênea, e isso se manifesta comumente como um tipo de autólise cancerígena: o homem é o vírus do homem, da mulher, dos homens etiquetados como não-homens, o que infelizmente se sabe com exemplos excessivamente repetidos diariamente. O que chamam de “este mundo” é multiplicação contínua de mundos que se interferem, que se ignoram, se cheiram, se avizinham, se destroem. Os humanos destroem povos humanos e povos não humanos: ser povo por aqui e por aí é perigoso demais.)

Matas e morros que abriram meus poros e meus extravios, que haviam se fechado desde não sei quando. E, finalmente, trancado em minha própria cabeça enquanto tudo lá fora era doença e vontade de morrer, cansado e com a pele gasta, escutei teu beijo, o teu nariz dedilhando meu pescoço, teus gemidos baixos, pouco antes de se tornarem os gritos que dois silêncios, o meu próprio e o do ar, recusaram me trazer. 

 

(Aquele homem alto e pálido que vai seguindo ali, coluna reta, roupa cara moldada ao corpo saudável: um vencedor, dizem. E é o que diz a si próprio, é o nome que gostaria de ter, que acredita ter. sua vida lhe soa interessante, seus desafios vencidos lhe convencem de que ele merece se sentir especial. Sempre teve sorte. Até determinado momento não saberá que a vida gosta de sacudir as pessoas de repente, que ele pode perder tudo inesperadamente, apesar de todos os cálculos, apólices e equipamentos de segurança, que sua confortável coragem não o protege do grito silencioso que se escancara só no mais desconfortável desespero: saberá disso apenas quando sua espécie bugada cumprir seu destino, ou melhor, seu rastro de pólvora: um futuro colapso geral da paisagem e dos olhares.)

O quase castigo de lembrar do teu amor denso e longe me toca como um semissilêncio que não se cala: contra tua vontade, talvez, mas não contra a vontade dos dias, não contra a vontade do sol. Talvez eu precise apenas sofrer, talvez eu precise apenas morrer, talvez eu precise apenas correr. Mesmo quando eu não existir mais, haverá ainda alguns vagalumes onde estivemos: nossos nomes silenciosamente emaranhados em seu piscar, mas é apenas de mim que esses vagalumes estarão rindo, ainda. Como se fosse profecia: uma lembrança alegre por vir, por acontecer, morando no silêncio que circula pelo tempo como se fosse sangue. Quando eu voltei pra casa, esse lugar tão longe de tudo, consegui pelo menos trazer comigo um grão da tua voz, um grão da tua pele, um grão do teu gesto.

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Imagem da Internet.

(O privilégio branco: poder, pensar, transitar, gozar, ferir, tudo isso de um jeito próprio. Embora em geral não usufrua dessas opções todas: pensar, por exemplo, só de forma pragmática, cautelosa, demarcada, quase supersticiosa, embora tantos brancos queiram nomear suas tristes superstições, sua vontade trágica de superioridade como elegância. A materialidade tem estado do lado deles. Existe um cordão de isolamento sofisticado, multidimensional, virtual, antieuclidiano. Negras, negros, índias, índios, mulheres brancas, até, vão continuar fora do cordão de isolamento por décadas, séculos. Considerando que a espécie humana sobreviva tanto tempo, lógico. Ou?)

Dentro do fio rapidamente enferrujado entre um vagalume e outro, rodava um filme infinito, ou que se repete constantemente, não tenho certeza. Nós dois de pé, eu toco teu ventre, depois teus ombros, teu rosto, só para fazer suspense, e logo me ajoelho, rosto no teu ventre, no teu sexo, todo na minha boca, você tenta cobri-lo com as mãos, só pra me provocar, porque afinal teu sexo é um alto-relevo petulante, saliente, é a urgência do encaixe, você em mim, eu em você, tuas costas que eu mordo, você morde as minhas, mordemos nossas línguas, você diz: ai!, depois aperta um pouco os olhos com tesão e me beija com gosto e certa raiva, raiva talvez de ter tão pouco corpo, esse teu corpo robusto, pra tanta vontade.

(Existe uma montanha em que eternamente é noite de luar. Às vezes chove, lá. Árvores, arbustos, capim, mato ralo achegados coabitando a pele dessa montanha. Em cima de uma pedra alta e nua, um sapo cururu maior que qualquer outro observa a lua initerruptamente. Seus olhos têm aquilo que o olhar humano, em suas gramáticas miseráveis, só entende como severidade, ressentimento, dureza, repulsa. Mas esse olhar aparentemente vazio é a contemplação mais intensa: o lugar escuro e suave onde consciência e inconsciência, vida e morte, são a mesma frequência de onda; um onde sem onde, onde a matéria esqueceu a diferença entre fluxo e imobilidade. Sobrevoando o topo da montanha sem nunca pousar, ziguezague no ar, sombreado pelo luar distante, um urubu-rei tem no olhar que ninguém vê (exceto ele mesmo) a mesma expressão do sapo eternamente imóvel. O sono interminável da montanha foi ouvido como música pelos feiticeiros que conseguiram há milênios visitá-la em sonho e viram, distantes, o sapo e o urubu.)

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Imagem da Internet.

Sim, teu brinquedo, este corpo aqui, corpo que por hora ou por tempo indiscriminado nem precisa mais da coleira em que ronca aquela palavra escrita: eu. Este teu brinquedo triste, agora e sempre exalando calor, exalando teu cheiro, sou um terreno ciscado por teus beijos, tuas mãos me desarmam, me batem, sim, e eu ou este ou isto ou tal corpo sem lado nem quadro te retribui te apertando embaixo e em cima. Para te mostrar que tudo isso é sério, seriíssimo, embora tuas gargalhadas ecoem repetidamente nos entalhes adequados para a surpresa, minhas ou estas ou tais mãos te assanham profundamente, assanham tua alma, puxam teu cabelo crespo. 

(A transgressão é muitas vezes um ato que ameaça a própria integridade física do indivíduo, do sujeito tradicional. Numa época como a atual, toda pretensa transgressão se esteriliza e vira mercadoria quase que instantaneamente, como quem vira pedra sob o olhar da Medusa. Porém, correr riscos, experimentar a incerteza, deixar o outro ver esse ato, isso ainda é uma possibilidade relativa de transgressão, embora politicamente ambígua, já que usada tanto para exaltar a liberdade como para garantir aprisionamentos. Transgredir é se pôr em risco extremo: não nas sociedades antigas ou clássicas ou tradicionais, porque aí se tratava de uma questão de sobrevivência, mas sim, em parte, nas modernidades ocidentais, nos recentes disso. O movimento conservador atual usa esse pôr-se em risco a seu favor. A pobreza é fator que ajuda isso, ao passo que também é, por si, uma questão de sobrevivência.)

E você diz: ai!, como se fosse uma voz de mulher na última palavra de um livro dizendo: sim!, e me aperta mais, e não se trata mais de dois corpos, isso nem faz mais sentido, mas pulsação, ponte, tremor, susto (susto delicioso), jatos de eletricidade sob a pele, jatos líquidos dentro dessa confusão, o fora e o dentro que, desde o início de tudo, desde a primeira palavra e o primeiro som, o primeiro filete de água, a primeira fagulha, a primeira alça entre o morto e a vida, não, melhor dizendo, desde antes disso tudo, são a única e mesma coisa: um mundo. Não, quem sabe?: mundos. Em comum. Esse tanto que cabe numa espera, nos tempos que dentro dela se aproximam.

Habitar incomodidades.

Rebeca Raso

junho de 2020

Para aproveitar as bananas que vinham do lixo de um supermercado, fiz um bolo. Mas o meu forno segue sem funcionar. Então fui à casa de uma vizinha para terminar de fazê-lo. Durante o tempo que o bolo crescia, esta companheira poeta, feminista, lésbica e que está metida em outras tantas frentes de luta, indagou-me sobre coma ocupação dos espaços de luta anti-racista pelas pessoas não racializadas. Como poder articular a luta anti-racista e feminista desde este lugar? Como fazer isto sem apropriar-se dos espaços? Como não ser um “machirulo” na luta anti-racista? (Em analogia à luta feminista.) Por que as pessoas imigrantes latino-americanas falam espanhol na Galiza, e não as questionamos do mesmo jeito que quando vem uma pessoa francesa ou catalana? Por que valoramos mais a luta anti-racista do que a da língua e da cultura galega? 

Ela me perguntava em busca de respostas e caminhos para trilhar. Perguntava a mim (entre outras coisas), porque aqui eu sou uma pessoa racializada, e era um ponto de vista diferente. Mas eu não tinha isto presente até então.

Enquanto escutava as suas dúvidas, questões, argumentos e as contradições nas que se via, eu caminhava por labirintos diferentes dos dela. As suas questões, ainda que fossem muito relevantes, não eram as mesmas que as minhas. Quanto mais a conversa avançava, mais o tema  tomava o meu corpo, encarnando-me. De repente fui consciente do meu cabelo liso e escuro; da minha pele não branca e não negra, das minhas bochechas gordas, dos meus olhos escuros, do meu tamanho pequeno… lembrei de como me pareço ao meu pai e da minha avó indígena da tribo Kalankó (AL), da qual a história, o lugar e a cultura não conheço. Lembrei-me que sou uma brasileira na Galiza.

Ela não sabe dessas minhas origens, mas o feito de não ser branca e vir do sul global já me coloca neste lugar de racializada. É curioso como muitas vezes não sou consciente das diferentes formas que o racismo se expressa. Também é interessante em como as posições de privilegio mudam a depender de onde e com quem estejamos. Rapidamente pode-se deixar de ser o indivíduo modelo para ser “o outro”; aquele que não pertence, que não é igual, um diferente, um de fora, um estrangeiro. Eu sou estrangeira!  

Seguramente não era a sua intenção me racializar, mas efetivamente eu ocupo um lugar diferente do dela, seja eu consciente ou não. 

Muitas vezes sou eu a que tento me colocar neste lugar de igual, ou seja, a de pertencer ao modelo social reconhecendo-me como privilegiada. (Tentar falar galego sem sotaque, é uma delas. Assim não me identificam como brasileira e não tenho que escutar certas barbaridades). Talvez seja uma estrategia de camuflagem, auto-engano para não sentir o que significa ser “O Outro”. Quando sou consciente dessa camuflagem, sinto-me como se traísse as minhas raízes. 

Mas quais são as minhas raízes, pergunto-me muitas vezes. -Sou brasileira. Respondo a mim mesma. E sigo com perguntas… -O que significa ser brasileira? O que eu devo reivindicar por meio da minha identidade? A minha nação? Que nação? Eu sou contra as fronteiras, a favor da autonomia dos povos indígenas, dos quilombolas, ribeirinhos… Isso não seria contraditório?  Qual é a minha cultura? A do território de onde nasci ou de onde eu me criei? Ou sou de onde são os meus pais? Mas eles são de lugares muito diferentes. Tenho que escolher? 

O tema racial e étnico nunca tinha sido um debate encarnado para mim, ainda que estivesse aí me cutucando toda hora. Sempre foi uma luta na que estive de apoio e acompanhando, tal qual esta minha amiga se propõe a fazer. 

Faz apenas alguns meses que descobri que a minha avó era de uma tribo indígena, que ainda sobrevive no interior de Alagoas. Nunca me chamaram de indígena, nunca me disseram que eu era indígena. Como posso ser indígena? Indígenas sempre foram “os outros”. Eu sempre fui parda, mas sem saber o que isso significava. Esta foi a opção que aprendi a responder sempre que perguntavam qual era a minha cor. Era a que restava. Era a mesma opção que a maior parte da população brasileira marca para, assim como eu, tentar se camuflar na pele do modelo social, o branco e o nacional. Essa camuflagem leva ao sentimento de fazer parte, sentir-se integrada ao mesmo tempo que te separa dos grupos marginalizados, dos excluídos, que sofrem preconceitos… dos “Outros”. 

Fazer parte de um ou de outro grupo faz toda a diferença em como uma pessoa se coloca na sociedade,  na sua auto-imagem. Mas nem sempre é fácil sustentar esta identidade e não depende tanto de si, se não, de como o resto te coloca na sociedade. Isso se demonstra desde as estruturas macros da sociedade até as atitudes cotidianas das pessoas contigo.

Assim que, como brasileira parda ou morena, eu me colocava num lugar muito confortável, o de apoiar e acompanhar as lutas dos movimentos indígenas e negro. Também a própria sociedade brasileira me coloca nesse lugar. – Não eres negra, nem amarela, não eres indígena porque não tens conhecimentos e nem participas de uma cultura concreta da que se reivindica indígena e és de classe média e urbana. Assim que, eres brasileira parda. Uma identidade que me dá acesso a muitos privilégios. Faço parte do modelo de brasileira normal. Mas aqui, isso tudo muda. O meu lugar já não é de acesso, já não pertenço ao modelo e sigo sendo parda e brasileira. 

A conversa com essa amiga, tanto pelo tema como pela posição na que me senti colocada, levou-me a questionar o meu lugar de fala. Será que agora eu sou o sujeito protagonista do movimento racializado?  Mas não sinto que este seja o meu lugar. Será que este sentimento não é mais uma das minhas estratégias de camuflagem, para escapar da identificação com os grupos oprimidos e de sentir-me partícipe e integrante desta sociedade na que habito? Ou os meus sentimentos o que revelam é que a minha nacionalidade é que subtrai os meus privilégios, e não a minha cor. Onde devo me colocar? O que é que me coloca na margem e o que não? 

Só se torna “diferente” porque se “difere” de um grupo que tem o poder de se definir como norma – a norma branca. Todas/os aquelas/es que não são brancas/os são construídas/os então como “diferentes” (Grada Kilomba. Memórias da plantação. Episódios de racismo cotididano. 1ª ed.  Rio de Janeiro, Cobogó, 2019 )

A ARTE É UM CONFRONTO  ESTOU SANGRANDO E NINGUÉM ME VÊ

De Barbara Leite Matias.

A ARTE É UM CONFRONTO

ESTOU SANGRANDO E

NINGUÉM ME VÊ

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Ary  porã .

 

 

 

 

 

ARTISTA POBRE É INVISíVEL PORQUE NÃO TEM CELULAR DE CÂMERA BOA PRA FILMAR SEU TRAMPO, NÃO TEM TINTA, NÃO TEM SALA PRA ENSAIAR, PAPEL PRA ESCREVER.  Não querem enxergar nosso trampo, mas a gente é quem mais faz.  Arte que arde.

Cônjuge alto:

– Me barraram na porta da galeria quando eu tinha 11, nem sabia o que era.

– Não posso pagar o ingresso prefiro lanchar. Tenho dever com a vontade de comer.

– O professor disse que eu tenho a bunda grande pro balé.

– A gramática portuguesa não me acolhe.

– Você é ousada pra tá inventando as coisas antes de amadurecer.

– Me disseram que tem edital dos grandes e das formigas.

Eu sou uma formiga.

Pra cuarar

“CALA a boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu”.

(aprendi com Cicinha, aos cinco anos).

Ka’ aru porã !

Pyn pu porã .

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Uma artista com fome é um perigo, ainda mais se for nordestina.

 

 

 

 

 

 

 

 

PETEÍ – Não acho que devemos mudar a palavra Arte. Talvez o que estamos fazendo, é sendo esse propósito.  Se eu pudesse voltar no tempo, teria colocado uma obra de arte na cabeça de cada político do meu país, na cabeça não, nas mãos, pra carregar como um implante que não se retira pra dormir ou acordar, como não posso fazer isso, eu posso e convido você a apostar nas crianças, como um olhar a alimentar-se do nosso fazer e a gente do olhar delas. Talvez só assim, possamos ver um canal de existência potente e possível.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estado de pulsão

 

Uma arte que morde com dentes alfinetados e digere subversão, contracultura, zonas autônomas excitantes, barulhentas, silenciosas, rasteiras, alfinetadas. Vamos criar o caminho sem derrubar a moita; esses caminhos são loucos e nos curam porque tem escuta, olhar, pés, terra, suor, coluna e afeto. São encontros de corpos.

Vamos desviar dos quadrados que decapitam as mentes, quadrados que matam nossos corpos. E querem a qualquer custo enterrar nossa ancestralidade.

Se ferram porque a gente berra bem e morde profundo.

Vamos continuar na arte, vivente, rebelde, malcriada no sentido de criar desejos e não no desrespeito como nos querem. Nos querem na pista, da mira da bala, como motivo. Não daremos porque nos matam a qualquer custo sem nenhum esforço.

Essa arte tem coluna pra mover as paredes desse mundo que quer nos determinar, nos configurar. Só que somos corpos, vivos, com línguas, pernas, desejos e fome.

O nosso fazer é o que nos faz respirar, como água sabe, sabe mesmo? Ela dilata o encontro dos corpos, somos vários, somos mais que os candidatos políticos do mundo inteiro.

Essa arte rebelde borra estruturas, alarga brechas, aceita refletir e encontrar a potencia no fracasso como uma resposta aos fascismos. Gritamos ao contrário do fascismo.

Vamos continuar fugindo do dócil romantizado do mercado normativo que tentar nos pagar com um pão insosso que causa câncer no nosso estômago, amansa nossa bruta criação. Não interessa, obrigada seu senhor.

Nossa criação é bruta no sentido selvagem da existência. Somos esqueletos de urgência, de alma, de sede. E vamos continuar abrindo as costelas, cavando buracos, abrindo olhos, redescobrindo que nosso corpo pulsa num canal chamado arte no encontro do outro.

O público e a arte é um encontro de pulsão.

Quando fazemos é nosso desejo. Mas é mais utopia de muita gente que não pode.

Awete katu!

Imagens de Jamal C.

SOBRE REDISTRIBUIR A VIOLÊNCIA

Estava aqui pensando enquanto escrevo que nos últimos anos só tenho cá eu falado de raça, imagino que para quem me escuta deva em algum momento parecer meio sacal, desde que me descobri negro fiquei pensando sobre diversos modos de narrar, e a exemplo do que acontece em todas as sociedades a narrativa define o recorte histórico e organiza o que se convencionou a chamar de fato histórico.

O fato histórico serve para criar uma distância entre eventos que marcaram de morte esse mundo, e lhes dão contornos mas suaves, eles são remodelados e dessa forma funcionam melhor para estômagos frágeis, como é sabido a história precisa ser arrumada para que a sociedade possa entender e assim continuar a viver de uma forma digamos mais feliz. 

Daí nascem os mitos dos heróis nacionalistas, dos nomes que em nome de Deus e da pátria exterminaram iguais em prol de um futuro desejado, nesse futuro no entanto não cabe uma série de sujeitos que não se moldam bem a essa ideia de futuro e a solução fundamental é o extermínio, quer seja pelas ações de biopoder que o estado se utilizá por toda a história, quer seja pela obliteração total dessas pessoas, como nos casos de guerras cada vez mais e mais sangrentas, tudo isso depois é vendido e organizado de modo que o cidadão de bem possa dormir o sono dos justos em berço esplêndido; o fato histórico coloca uma distância entre o sangue derramado, e os  milhões de pessoas que morrem de fome ao redor mundo, e ou sofrem de toda a sorte de pragas criadas e organizadas pelo capital e pelo poder dos hegemônicos, dessa casta maldita, que vive a vida dita normal, sob um sol tropical que brilha sobre esses rostos rosados e sorridentes dos futuros mandatários das nações.

Em resumo o fato histórico coloca qualquer questão como superada, os genocídios de milhares de civilizações por toda a história, o tráfico negreiro ocidental, a escravidão no Brasil, a bomba atômica, a primeira guerra mundial, a luta pelos direitos das mulheres e as sufragistas, as lutas por direitos trabalhistas, o genocídio judeu, os 111 presos do carandiru, a morte de milhares de nordestinos pela seca de 1915, os campos de concentração cearenses na Belle Époque, a chacina da Candelária, a chacina dos 11 no Curió, e tantos outros eventos sangrentos marcados na história, a ideia de fato histórico quando coloca todas essas questões no passado ela sugere que como essas coisas foram superadas podemos pensar então sobre um pacto civilizatório de futuro, criando um pacto de cordialidade porque afinal tudo é passado.

É nessa ideia que se sustentam os debates em torno dos racismos ou das violências praticadas por grupos hegemônicos que de tão habituados a entender a história como algo passado, sem consequências no presente,  agem com extrema violência quando se veem questionados em seus privilégios, então voltando ao início desse texto, muito embora falar de raça para negros inclusive seja cansativo, não falar é aceitar que a escravidão foi superada e que isso não traz impactos negativo  sobre os docentes, como do ponto de vista das mulheres seria aceitar que a luta sufragista tenha sido suficiente para acabar com o machismo, e nesse sentido construir um pacto sobre o futuro sem questionar, que homens ainda matam mulheres por se sentirem senhores desses corpos, negros não podem aceitar a ideia de que as relações com brancos sejam saudáveis quando esses brancos ainda vivem os privilégios implantado por seus ancestrais, então olhar para uma pessoa branca sobretudo as em situação de privilégio econômico é entender que ele em última instância representa um espectro de morte do meu ancestral, seus ancestrais mataram os meus e não venha me falar em um país multiracial, recriando o mito das três raças tão utilizado no império e na nova república, e não utilize essa retórica por que ela fala de estupros e outras formas de violência que são inomináveis, e não venham me falar de riqueza cultural, quando para negros estarem aqui não foi uma escolha, e claro que esses traços afro descentes na cultura cria uma estética e uma ideia de cultura, mas não podemos esquecer que isso que chamamos de identidade cultural nasceu da ideia de que o branco achava que era superior e por isso poderia se utilizar de todas as outras espécies para que pudessem até hoje ter seus descentes sobre uma montanha de privilégios sem fim.  

28.05

Imagem de arquivo.

É crucial que falemos de raça e que pensemos em redistribuir essa violência vivida por inúmeros corpos, brancos não entenderam a ideia de raça partindo de diálogos afáveis como os criados em espaços acadêmicos ou em rodas  de maioria branco, e isso coloca a questão essencial sobre o branco no fato histórico; quando você, meu caro amigo branco vai se mancar, sair do seu lugar de sujeito universal para elaborar um debate real sobre a violência que é racismo?

Somente com a marcação racial auto imposta ou imposta pelo povo preto, somente assim poderemos olhar uns nos olhos do outro e conversar sobre acabar com a ideia de raça, larguem mão dos seus privilégios ou questionem eles para que possamos criar um ambiente de diálogo possível, essa questão não será resolvida de forma pacífica porque esse tempo já passou têm alguns séculos, mas ainda podemos fazer essa leitura e essa mudança de perspectiva com impactos menos agressivos para ambos os lados; Ailton Krenak em estratégias para adiar o fim do mundo, fala de algo como criar um pacto civilizatório entre homem e natureza para que possamos reagir ao extermínio planetário, mas reconhece que o tempo está acabando e acabou,  sobre o pacto civilizatório eu acredito que seja uma saída, mas tenho certeza que esse pacto só seria possível com redistribuição de recursos, reorganização do tecido social e uma obliteração do sentido de poder e superioridade que o homem branco criou sobre si mesmo e que seus descendentes replicam todos os dias do auto de seus apartamentos,  o que constatamos no entanto sobretudo sob um governo totalitário é que essas pessoas brancas jamais abrirão mão de seus privilégios, como uma raça pensando junto sobre superar os problemas históricos a que somos acometidos, uma vez que essa reflexão não virá, a única saída é a desobediência civil e civilizatória.

Aqui mais uma questão  fica evidente, pessoas brancas são capazes de criar uma reflexão sobre seus privilégios e pensar uma sociedade horizontal quanto à garantia de condições de existências justas? Pessoas negras estão preparadas para tomar tudo que nos foi tirado na marra, com a força de seus pulsos? Seremos capazes de assumir a ideia de revolução com tudo que ela tem? força e violência? Porque sim, revoluções são violentas, elas não podem acontecer de outra forma, porque até esse momento da história que tem privilégios nunca abriu mão dele sem matar, e exterminar. O povo preto é capaz de assumir o lugar da desobediência civil pelo direito a existir nesse mundo sem que seja uma roleta russa constante? Se sim, tenho medo e pena do que podemos nos tornar, se não tenho medo e pena do que poderemos nos tornar, parafraseando Ailton Krenak, estamos chegando ao limite de qualquer possibilidade de negociação, o tempo está acabando e o fim do mundo se aproxima, quer seja como evento epistemicída quer seja como evento revolucionário, uma coisa é certa o mundo que aí está precisa acabar.

Quanto ao fim do mundo planetário, não sei se temos mais tempo, a natureza se manifesta como a madrasta que sempre foi, ela também deseja uma liberdade absoluta, esperemos e nos preparemos, o fim do mundo está em curso. 

Kiko Alves –  28 de Maio de 2020 / Narrativas do Fim do Mundo.

Mariana

Por Saulo Lemos.

Desde quando comecei a dar aulas, conversava muito com a Mariana sobre esse
trabalho. Estava mais empolgado que em quase todos os momentos da vida antes e depois. Contava, e ela já sabia, que lia muitíssimo, obcecado praticamente, trocava horas de sono pelos livros, não conseguia evitar, assim como não tinha jeito de evitar a chateação por não conseguir levar 30 ou 40% do que lia para as salas de aula, já que nem os hábitos dos alunos, nem o próprio modelo de escola tão comum nessa cidade ou país dava conta disso. Mas os papos com a Mariana se tornavam parte do prazer de ensinar (ou acreditar que estava ensinando) e discutir isso. Um dia, eu falava com ela sobre como isso que se chama literatura, na aparente homogeneidade prometida pela palavra, era um campo de guerra, de desentendimentos e de necessidade de posicionamentos.
Tantos livros publicados até hoje por tanta gente no mundo e na história. Coisas suficientes para agradar gostos bem variados. As escolhas habituais de parte dos estudiosos daquele campo de guerra lá (a literatura) privilegiam alguns jeitos de dizer e pensar. Escritas que evitar ser espelho de preconceitos, da preguiça existencial, da tentação cotidiana de anestesia. Que não levem a sério quando alguém dá a caminhos alheios o nome de “verdade” (embora a gente, na fragilidade nossa de cada dia, insista em concordar tantas vezes que valeria de algo o caminho que outras pessoas ou entidades improváveis apontam). O romantismo nas artes, que tremeu a terra nas mentes do século XIX, com seus hábitos, práticas, falas e sentimentos, inventou como bem comum a vontade de ter uma voz que ninguém mais tenha. Todos esses fatos e prosas eram falas da Mariana misturadas com as minhas. De conversas anteriores e daquele dia também. Num certo instante, ela puxou a frase e não devolveu, não precisava, eu escutava, adorava escutá-la. Ela dizia: a literatura moderna, mais para o fim do século XIX e varando o século XX adentro, pega a fé na originalidade do eu romântico (no fundo, uma ilusão, mesmo que uma ilusão gostosa), e faz dela uma busca heroica e maníaca por maneiras individuais de dizer literatura. Uma literatura que se alimentava dos modos cotidianos de escrever e falar, que bagunçava a palavra até colher jeitos estranhos, diferentes, arejados, intensos, vitais, de falar e pensar: Virginia Woolf, Marcel Proust, Franz Kafka, James Joyce, Vladmir Maiakowski, Oswald de Andrade. Etc.! Um batalhão de escritas que reavaliava o mundo e seus mundos, a linguagem e seus ecos, de jeitos inéditos, trazendo para a frente do palco, mais ainda que o romantismo, pobres, mulheres, índios, negros, desajustados e tanta gente mais, aliás sem o figurino de preconceitos cientificoides, racistas, misóginos, aburguesados e eurocêntricos da segunda metade do século XIX. A literatura moderna do começo do século XX foi fazendo muitos acertos de contas com quem não costumava ter voz nem na sociedade, nem na arte, nem na ciência, nem na filosofia, nem em porra de lugar nenhum.
O embaraçoso aí é que esses acertos de contas ainda eram um gesto de não dar voz àqueles povos todos, mesmo que involuntariamente. Os diversos modernismos, as vanguardas artísticas históricas, sem dúvida mais abertas à mulher e a outros costumeiros excluídos das artes até então, ainda eram manifestações mobilizadas a partir de condições econômicas favoráveis. Concordo, Saulo, com quem disser que a desigualdade econômica, que só piorou ao longo do século XX, não invalida a energia pulsante das obras daquele tempo, mas não deixo de sentir, diante disso, um mal-estar.  A literatura que falava em sair dos casulos de prosperidade era feita dentro deles e falava de mundos dos quais não participava. Tem algo de melancólico nisso. E no final das contas esse panorama se associou e muito a todo o aspecto monumental, midiático e comercial que tão frequentemente acaba existindo mesmo em torno daquelas obras que parecem mais inconformistas, iconoclastas, transgressoras, anticomerciais.
Por muito tempo foi inimaginável que as gentes das margens pusessem em ato uma voz literária. Ultimamente isso tem mudado. As mulheres, os pobres, os outros do defasadíssimo olhar branco-hétero-burguês-liberal-europeoide, têm escrito suas escritas, com todas as contribuições do que a experiência traz ou procura. Em vez de terem porta-vozes, decidiram ter voz, o que por si já é muito foda. Apesar de que é difícil ter voz própria nesse mundo que tem donos escrotos e escravos de montão, muita escritora e escritor tão tentando isso. Daí que vai ficando disponível a eles, talvez, um poder de decisão sobre a permanência do que você e eu gostamos na literatura. Talvez essa inquietação por falar e pensar diferente do comum, do conveniente, talvez o direito ou mesmo a vontade de divergir, de não precisar ser parecido, percam intensidade. O mercado e as grandes mídias comerciais seduzem muito. Talvez essa gente que começa a falar e ganha gosto nisso não queira mais produzir pensamento e/ou linguagem deslocadas, não queiram ir além de contar suas dores e suas exigências de um jeito conciso, o que não é recriminável, de modo nenhum, dizia. Por exemplo, escrever um livro para denunciar maus-tratos de um macho escroto, e dizerem: pronto, eis a literatura, sem que haja necessariamente preocupação em levar a linguagem ou a fronteira entre o eu e o outro ao limite. Cada grupo vai dizer o que é literatura, mesmo que isso esteja longe das minhas escolhas ou das suas. Como alguém poderia legislar que a literatura deve ser assim ou assado? Ela será o que fizerem dela. Quanto menos normativismos, melhor.
O que não significa, continuava Mariana, que eu preciso gostar do que não quiser.
Me interessa uma literatura produzida por vozes dissonantes, mas que também, como o pessoal das modernidades sucessivas ao longo do século XX e já no XXI, não recuse bagunçar a linguagem e as formas de ser corpo e mente. Que não recuse os impasses, os problemas, as crises, os sentimentos extremos, as perturbações. Que consiga atravessá- los, experimentá-los. Que veja ou sinta a beleza que pode haver na nessa falta de resposta chamada “vida que segue”. Gosto muito da Carolina Maria de Jesus, tanto porque ela é um exemplo admirável, empolgante, como porque, na escrita dela, ela tenta às vezes fabricar um tom formal que depois perde, talvez involuntariamente, e é aí que esse texto ganha força para dar a pensar o humano e os poderes loucos de suas palavras e gestos. Carolina bota a si mesma e aos outros pelo avesso, diz aquilo que talvez ela não gostaria de dizer, mas que a torna tão complexa e viva; a mesma coisa com seus vizinhos de favela, que ela às vezes quer descrever como incômodos, mas que são, por isso mesmo, tão atraentes, convidativos. Enfim, o que vai aí são minhas fascinações de leitora, porque da vida fodida na favela, por exemplo, eu não sei nada. Livro pode ser bom, quem sabe, para que a gente saia dele e comece a reclamar mais, a gritar alto, a jogar pedra na cara de pau do governo, da iniciativa privada, do caralho de asa. Bora ser black blocs!
Adorava o jeito de Mariana. A gente se conhecia há alguns anos. Durante uma época, passávamos boa parte do nosso tempo livro juntos. Era terapêutico para os dois.
Éramos uma comunidade, uma cidade. Minicidade, que seja. Espíritos livres (já que, por exemplo, não levávamos nem Nietzsche, nem ninguém ao pé da letra). Mariana usava óculos, tinha o cabelo bem enrolado, comprido, e era obesa. Rosto lindo, conforme a gramática normativa da beleza em uso nessa nossa sociedadezinha. Olhava para todos os lados o tempo todo, falava de todos os assuntos que conseguia. Às vezes, se calava e ficava longos minutos distraída, olhando para lugar nenhum ou com um contorno de tristeza no olhar apontado para baixo, rosto levemente contraído. Há alguns anos, antes da obesidade, namorara uma garota que ainda amava. Uma mulher bonita, esperta, audaz, dizia. Parece que a via como alguém infalível, absurdamente admirável, a tal amada conseguia lhe injetar essa imagem, mas não a amava, ao contrário de Mariana, em que o sentimento era extremo, ignição de uma dependência sofrida, constrangedora.
Ela teve que se livrar da namorada manipuladora, de algum jeito que não chegou a comentar, e assim ia levando a vida. Nossa amizade não era à maneira inglesa, sem confidências, como entre Jorge Luis Borges e Bioy Casares. Ela me falava às vezes de sua princesa mofada, e eu, de que até os 30 não me relacionara com ninguém, já que nem saía de casa (um dia eu conto como foi isso). Nos cinco anos seguintes, tive só desencontros: só amava quem não me amava ou quando não me amavam. Depois, não tivera praticamente mais nada. A última garota que amei, Tália, hoje namorava outro, e eu ainda pensava nela todo dia, como se isso fosse uma previsão favorável do futuro. E Mariana com isso? Ela ria, debochava, mas de um jeito que não conseguia irritar ou chatear mais: dê seu jeito, safado. Te vira! Eu ria também. As gargalhadas eram um refrão das conversas.
O humor de Mariana combinava com o meu. Irônico, debochado, sarcástico. Os dois antifofos. Humor do tipo que, se outros escutassem, diriam: “ai, credo! Que horror!”, o que só o tornava mais engraçado para nós. Nada de zombar da fragilidade alheia, era mais uma falta de solenidade com a vida, com a morte, com a alegria, com tudo o que era dor e gozo. Era a melhor definição de leveza que eu podia conceber, mas que precisava, que nem ela dizia, de couro grosso. Quando eu reclamava de algo, ela respondia, com um ar de deboche disfarçado que eu adorava: se preocupa não, quando morrer, passa. Não éramos muito o tipo de pessoas que encontrava semelhantes onde chegasse. Sabíamos que éramos fora da receita, e nisso tinha um caroço de incômodo: cadê mais gente que nem nós? Dois desempregados, ou vivendo de empregos desvalorizados, como professor temporário ou auxiliar de biblioteca. Não que fôssemos únicos, originais: a turma dos excluídos de qualquer tipo é a maior panela que existe.
Ela falava muitos palavrões. Soavam elegantes em sua boca. Às vezes sumia por dias, não atendia a ligações, mensagens. E reaparecia, o mesmo jeito ágil, a mesma dureza gaiata, os mesmos farelos de tristeza na imagem que dava de si. Eu a chamava às vezes de minha mestra ou minha mentora, principalmente quando ela parecia estar pensando em coisas que a roubavam do passo. A réplica me fazia bem, e acho que a ela também: deixe de ser besta, mané. Ou: crie jeito de gente, seu café-com-leite.
A anarquia podia reinar, tomar conta de tudo, só porque existia por algumas horas num recinto ou durante um passeio a pé por algum trecho transitável da cidade, pelo bairro de terrenos baldios. Mariana precisava caminhar, e eu temia que fosse para longe sem voltar. Parece que os medos preveem o futuro. Implacável, sempre com uma resposta engraçada, áspera e suave no bolso da fala, Mariana parecia ter um tipo de fragilidade que transparecia no cuidado ao caminhar, no jeito de olhar a rua antes de botar o pé além da porta. Ela precisava ir. Éramos uma comunidade, um povo, um povo mínimo. As melhores coisas às vezes são mínimas. Quem precisa ir, acaba indo, e isso quer dizer que consegue ousar, virar o jogo, botar pra quebrar, chutar o balde, meter o louco. Eu tinha uma fantasia eventual ou consolatória de ir embora num navio, fazer qualquer trabalho e usar as lembranças das aulinhas do curso de inglês para se fazer útil a bordo. Pois a espertinha furtou minha ideia e lá foi ela. Na despedida, a gente foi prum bar, tomamos todas, cantamos músicas de dor de cotovelo. Quem disse que a gente não se dava o direito sublime de ser clichê? Um dia ela não estava mais à vista. Estava agora em todo lugar? Mariana é quem escreve esse texto, ou uma voz anônima que, enquanto escreve, toma corpo de pessoa, de multidão. Eu sou personagem dela e o meu nome de autorzinho é uma ficção que não cabe no nome de Mariana. Eu sou um tipo um heterônimo dela, que me disse por fim: tu tá vivo, acha uma rota, que o rumo cego também é teu. Mariana marcou um trecho disso que posso chamar de juventude, isso que está acabando e dando lugar a outra coisa que precisa vir.

Feminismo na quarentena

Por Rebeca Raso.

Não posso evitar o cov-19. Ele segue a me perseguir na vida real e nos pesadelos. Não posso deixar de falar dessa distopia na que estamos a viver.

Sem dúvida é um momento histórico, e será lembrado pelas futuras gerações, se conseguirmos contar a história, claro. Não sei se vocês sabem, mas a história que a gente aprende na escola tem várias outras versões que não são contadas. As versões das que foram assassinadas, perseguidas, exploradas, marginalizadas, escravizadas… Pois é… ontem foi 13 de maio, dia nacional contra o racismo. Que? Onde? Quando? Este ano fiquei paralisada quando adolescentes demonstraram o seu desconhecimento sobre a existência da escravidão negra e da colonização, sendo Espanha um dos grandes impérios colonial e escravocrata, ainda a dia de hoje. Enfim…

A pandemia do Coronavirus chegou como uma boa oportunidade para tapar e dar uma grande revigorada na grande crise multifacetária na que estamos a viver (social, econômica, ambiental, política).  Os governos e as grandes empresas – as grandes de verdade-, aproveitam para aprofundar o sistema de controle social, a pobreza e a intensificar a exploração. – Onde há pobreza, há riqueza, uma não vive sem a outra. São como gêmeos siameses.

Num lado do mundo, a estratégia em países como no Brasil e Estados Unidos é permitir que o vírus faça o seu trabalho. É certo que o vírus não olha para cor, nem a conta do banco de ninguém, mas sabemos que por ser um vírus com uma alta capacidade de contágio, a possibilidade de expansão é maior nas classes mais baixas dada a insuficiência de recursos básicos que são necessários para evitar o contágio: água, sabão, casa, alimentos e acesso ao serviço de saúde.

Por “coincidência” é maioritariamente da população pobre também é negra, também é quem usa transporte público em péssimas condições e lotado. A mesma que já vinha sofrendo com o sucateamento do SUS, tão necessário, agora e sempre, para salvar vidas. Sabemos, que nas comunidades indígenas, o acesso a hospitais é complicado, também estando muito mais vulneráveis, assim como as pessoas idosas… Nesta lógica de salve-se quem puder; ficar em casa é um privilégio. Isso vocês já sabem, estão a viver em carne própria. Deste lado do planeta não é muito diferente, ainda que as dimensões das desigualdades e da pobreza sejam bem menores.

Mas aqui, a estratégia utilizada é outra, mas o objetivo é bem parecido. A urgência por frear a pandemia se converteu num acelerador do autoritarismo e do controle social tecnológico. A sociedade paralisada pelo medo à morte e à pobreza, consequência da crise que já estávamos a viver, não permite ver nem medir as profundas consequências dos recortes em direitos e liberdades que estão a acontecer.

Estes recortes também não são de agora, mas se acentuaram com o confinamento sobre a desculpa de evitar contágios. No entanto, parecem mais estratégias para doutrinar e controlar cada passo que damos, à que horas, com quem e para que. É um controle personalizado que intervém na moral, preferências e necessidades das pessoas. Tratando de homogeneizar comportamentos desde de prismas conservadores.

Na Itália, por exemplo, a primeira fase do “desconfinamento” só permite mover-se para ver pessoas familiares até sexto grau ou com quem esteja casada ou tendo uma relação estável (não se sabe o que se referem). Sendo que na Itália, país ultracatólico, o casamento de pessoas do mesmo sexo não está permitido, o civil sim. Assim que estado Italiano decidiu, baseado nos valores católicos ortodoxos, que as relações de amizade e amantes são secundárias – para todo mundo, tá! Mas pode ir visitar o sogro. Eu por exemplo, não poderia visitar a ninguém. Como não tenho família aqui e nem relações estáveis, teria que ficar em casa sozinha.

Já aqui no Estado Espanhol o processo de saída do confinamento é uma lista de normas que não garantem a segurança e a saúde das pessoas mais vulneráveis, promove a abertura do comércio no que se prevê perdas para os pequenos. Tudo isto pela ânsia por não ter a responsabilidade de conceder qualquer tipo de prestações, para que a proposta de renda básica não saia adiante, para que a produção e o consumo voltem a reinar, mesmo que não existam condições seguras para executá-las e por garantir as eleições autonômicas se façam antes que a crise da pobreza exploda.

Na primeira fase da “desescalada” só é permitido passear e fazer algum tipo de esporte individual nas horas permitidas segundo o critério de idade. Por exemplo, pessoas adultas podem sair de 6h às 9h e 20h às 23h e não poderás ir mais longe que 1km da sua casa.  (Obs: nestes horários não há muito sol e estamos todas desejosas dele porque saímos do inverno recentemente).

Apesar disso, os comércios estão abertos, e poderás sair a qualquer hora do dia e até utilizar o carro. Também poderás consumir em qualquer terraço dos bares.  Também poderás fazer montanhismo, isto sim, sempre que exista um profissional (terás que pagar). Além disso, a extrema direita tem insistido na utilização de aplicações para controlar os contágios e os movimentos das pessoas que queiram se mobilizar para reivindicar os direitos, como aconteceu em Hong Kong nas últimas mobilizações.  Querem começar a monitorizar agora por meio das redes sociais, já pensando na quarta fase, quando as pessoas poderão exercer o direito a manifestação. As pessoas estrangeiras que chegam aqui, já estão a ser monitoradas.

Esta proposta também não é nova. Antes desta pandemia foi posto para discussão no congresso a utilização dos geolocalizadores para identificação das mobilizações com o objetivo de melhorar a ação das forças de segurança do Estado (a polícia).

Eu entendo que Charlie Brooker não queira dar continuidade a série britânica de Black Mirror. Realmente a realidade supera qualquer ficção. Em muitos momentos me sinto no romance “O Conto da Aia” (The Handmaid’s Tale, de 1985) da autora canadense Margaret Atwood. (Duas recomendações para quem ainda não assistiu, e para quem já, vale a pena repetir).

Agora você deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com feminismo?  E eu te direi. Tudo!

O objetivo do feminismo é a justiça social, e uma das coisas que essa pandemia fez foi agudizar as desigualdades, opressões e injustiças que já estavam aí. Uma delas é a que o feminismo luta veemente para desnaturalizar e mudar, a que nos diferencia em dois sexos e dois gêneros, sendo que o sujeito homem e o masculino dominam o sujeito mulher e o feminino. – Dito assim, de forma simplista. Todo esse controle e empobrecimento também se instalam sobre os corpos das mulheres, e de todas as pessoas não binárias e que se identificam com os coletivos LGBTIQ+.

Faz poucos anos que aqui a extrema direita já queria revogar o direito ao aborto. Os cuidados que agora, são tão reconhecidos como essenciais para o sustento da vida, seguem a recair sobre as mulheres como uma responsabilidade natural, e porque não dizer divina”, sem qualquer reconhecimento social e menos ainda econômico. Os trabalhos e profissões tão necessárias para salvar vidas e que seguem a sustentar famílias, estão feminizados e são os mais precários (enfermeiras, cuidadoras de pessoas idosas e crianças, limpadoras, produtoras de alimentos a pequena escala, cozinheiras, e tantas outras).  Também são elas as que estão mais expostas ao contagio do vírus, também são elas as que morrem.

Por isso desde os feminismos não queremos voltar a normalidade. A normalidade é injusta e nos mata. Queremos construir outras formas de nos relacionar. Esta é possível, necessária e urgente de se tornar realidade.

Como escrevem nas paredes as latino-americanas; a resistência é construir algo novo.

Maio/2020.

Eu escrevo para uma garota que fez vinte e sete anos

Por Bárbara Leite.

Eu escrevo para uma garota que fez vinte e sete anos, em vinte e seis de abril de dois mil e vinte. Essa garota sou eu e todas que habitam nas minhas encruzilhadas.

Em 16 de abril

Daqui a dez dias faço vinte e sete anos segundo o registro, mas, sei que farei duzentos e três.

Antes de começar essa escritura. Encho de água o filtro de barro como um ritual sagrado, não há peso quando se tem sede. Desisto de escrever sem condenação, tenho mais fome que sucesso. Durmo com o propósito de sonhar com alguma coisa que me foi deixada pelo meio do caminho. Não sonho há noites e quando sonho esqueço completamente.

Amanheço mais ainda estou dormindo.

Um copo de água ao acordar, oito minutos de meditação é o que consigo por agora, dois beijos na minha cachorra – ela entende tudo antes de acharmos que começou.

Na parede da sala da minha casa a marca dos meus pés, o fundo da rede tá quase transparente, tenho balançado a quarentena solitária nela. Minha pele cheira a água sanitária assim como tudo que como e visto.

Eu sempre fracassei, agora ainda mais.

Que o fracasso me apresente veredas cavernosas que evitamos visitar.

Visitar as cavernas de si.

Enfraquecer pra se fortalecer no ato do fracasso.

A coisa que mais sinto saudade é do suor das pessoas.

Se fracassar fosse um elogio meu registro contabilizaria duzentos e três anos.

Em vinte cinco de abril – engasgada numa insônia isolada ao encontro da selvageria que corre nas minhas veias, uivando feito bezerra desmamada ou passarinha sem asas.  Vivemos mantidas por um combustível chamado destino, força e intuição.

Eu queria ter coragem de falar para as pessoas onde elas me ferem, onde seu silêncio e seu discurso me corta; às vezes têm a força de uma arma de fogo, às vezes de uma “gilete” nova cortando a pele, acertando a veia que de azul não tinha nada. Avermelhando minha alma.

Como não tenho coragem de revisitar diplomaticamente, eu me vingo na madrugada sem café. Não fui educada a manter e nem sempre incendeio de vez.  Ser advogada de si requer curso superior pra acalmar a língua pra falar de uma forma que não seja contorcida. Ser advogada de si é organizar os impulsos em nome de sobrenomes que não são nossos. Matá-los afogados, sobrenome a sobrenome é a prece que rezamos nas insônias dos vinte sete, trinta, cinquenta oitenta e por adiante.

Eu não sirvo pra advocacia da paz diplomática sistemacal.

 Eu tenho orgulho dessa intuição denominada fracasso e trabalho honestamente com essa qualidade, minhas línguas são soltas assim como minhas lágrimas. Como serei essa advogada de mim, se passo dias chorando e dias fazendo alegria mesmo aos que me cortam por dentro.  Eu sustento até onde posso, depois queimo. Aprendi com minha vó mãe de vinte e cinco filhos.

A vida é isso e eu sou etérea.

Ação. Silêncio, começa a chover no Crato do Ceará. Como não posso te convidar pra um café, te convido pra tomar (metaforicamente) essa água de cabaça.

É a Líquida- água – feminina deseja escorrer goela abaixo para lavar nossas razões endurecidas, que desnecessariamente, querem sobressair por meio de classes sociais e normas uns aos outros se engolindo.  Esquecendo de ser fluido feito mãe, feito a terra e o vento. Amolece como as mãos das nossas avós, água fria de cabaça no pingo do meio dia, ecoa: São Sebastião derramou amor, na água que te deram pra banhar, bebe, bebe a água que te deram pra tomar.

Gente do mesmo povo, esquecem de beber a água pura do afeto que somos.

Retorno

A vida é o espinho de uma rosa, te perfura pra chupar o dedo e assim aprender a se amar. Só se chupando a gente se ama.

 Negócio pra amor não se vende em toda esquina, nem todo discurso bonito é de uma boca afetiva com a própria mãe, é discurso maquiado, o mundo tá cheio. Armaria, livrai-me minha santinha. Quero não esse amor e não tenho medo de me guardar e me chupar sozinha, cheia de mim. Sabe por quê?  Porque eu invento minha morte desde que pisei na terra. Eu costuro minha mortalha, eu cavo minha cova, às vezes eu me queimo. Eu morrendo eu estou nascendo, eu nascendo estou vivendo e morrendo e nascendo.

Faço vinte sete anos, eu queria aniversário surpresa, eu queria declaração de amor, eu queria massagem no pé, taça de vinho, eu queria que as presenças das pessoas fossem afetuosas independente do que convém e se tivesse algum grude chame a pessoa faça um café construa uma intimidade para juntos amolarem os dentes ao invés de arrancá-los.

Eu não posso exigir isso das pessoas, por enquanto eu só escrevo e sirvo café pras quatro pessoas que estão comigo na mesma casa.

Eu amo muita gente às vezes eu conto, às vezes eu desisto da conta. Esse amor que eu tenho se perde das normas porque não abandona, ele é cavernoso e solar. Se tranca em si e faz vinte e sete anos.

Eu sou mais solar. Falou em sol, de repente fico alegre!

No dia vinte e seis de abril, às dez horas, escrevi

Hoje, 27 anos.

Eu estou me quarando.

Quarar faz parte do método das lavadeiras de roupa. Lembro que as minhas avós, tias e amigas deixavam um dia específico da semana pra lavar roupa no rio.

Primeiro separavam peça por peça de roupa, depois ensaboavam e esfregavam na pedra e antes de enxaguá-las, deixavam quarar; absorver o gosto da água e sabão enquanto estavam expostas ao sol.

O tempo dos tecidos quarar, era o tempo delas papearem, fumar um cigarro e descansar as mãos.

Tenho me quarado feito todas as roupas que essas mulheres lavaram na pedra.

O ritual de ir ao rio, passo a passo dos tecidos em relação com a água, voltar com aquelas imensas bacias de alumínio na cabeça me lembra sobre se equilibrar em meio a essa pandemia.

Estou fazendo 27, estou me quarando feito tanga de rede no sol do Cariri.

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Como se fosse o fim no mundo me encontro aqui, não existe o depois de agora. Mesmo adoecido, somos agora.

Babi

SITIO MARRECO, QUITAÍUS (ANTIGO POVOADO GARÍUS), REGIÃO DE DIVISA CARIRI E CENTRO SUL CEARENSE. Por Barbara L. Matias, filha de Marinez.