Seguir.

Por Flor Amarela

Sabe aqueles sentimentos que te impulsionam para frente, mesmo quando teu corpo quer parar? Ou ainda aquele pensamento que te faz parar, mesmo quando você sabe com absoluta certeza que o melhor é seguir? São ambos amigos próximos, com quem se convive todos os dias. Quantas vezes quis fazer algo, construir alguma coisa, escrever, ler, viver e mesmo sabendo que era preciso continuar e fazer valer, não tinha forças psíquicas para seguir, ao contrário voltava ao estado de repouso e comodismo. Parece cruel quando escrevo, mas é ainda pior quando se percebe sendo, fazendo, deixando de viver o que deveria ser vivido. E quando falo isso, nem falo das obrigações sociais, falo das necessidades do ser ainda humano que sou. E quando meu corpo padece, implora repouso e eu simplesmente não consigo desacelerar, privando-o do descanso merecido. Banho, meditação, chazinho e bons pensamentos… Nada parece funcionar então me deixo levar pela situação.
Busco meu equilíbrio, o controle em busca da simetria dos meus sentimentos, busco o meio termo dos meus sentimentos e essa busca rotou-se uma estrada comprida, onde seu percurso eu trilho absolutamente sozinha, com meus anseios, dúvidas, medos. Se tenho minhas dúvidas por ser humana, demasiada humana, quem não é? Quem não se questiona sobre si, o universo em que vive. O que faz de um terapeuta um conhecedor da mente humana? Ele pensa mais que os demais, seu cérebro é diferente? Pois por mais que saibamos teoricamente o como proceder, estamos todos absolutamente vulneráveis ao momento, sentimentos, sensações, pessoas, somos vulneráveis a nós mesmos. Quem de fato se conhece?
Eu mudo de gosto, de idéia e de opinião de acordo com o que aprendo, vivo e vejo. Mas quem me ensinou a ser assim? O que nos difere tanto? E o que nos faz tão iguais? Estamos cada um com pensamentos tão nossos, que não sabemos o que pensamos uns aos outros. Será que todos de fato são assim, ou serei eu com meus pensamentos tão meus que sigo em frente, sem saber se alguém trilha comigo os mesmos caminhos e porque os que aqui estão, os são.

Encantaria no Sertão Kariri, Siará.

Lavras da Mangabeira, Ceará.

Boqueirão

Chamam esse lugar de garganta sagrada, eu sinto não só a garganta mas o corpo inteiro, feito uma rede de terra e alma.

Eu cresci escutando sobre uma sereia que mora nessas pedras, outros dizem que é um ser metade mulher metade cobra, talvez, a Maara que também aparece nas narrativas da cidade de Crato, Ceará, a verdade é que uma serpente encantada vive na memória dos ancestrais Kariri. 

SER PEN TEANDO MEM ÓRIAS

É visível nas paredes da pedreira o formato de uma espécie de “casa” desses seres encantados e mais na frente tem a gruta inacessível. Sobre esse ponto em outro momento conversaremos.

Essa natureza vibra nos olhos de quem a enxerga, dizem que o mergulho nessa água amolece o coração e causa sedução no olhar do corpo que se molhou.

O lago está sempre frio porque fica em baixo de um pé de oiticica, uma árvore também nativa da região, (planta endêmica na caatinga e na vegetação típica da faixa de transição entre o sertão semiárido do Nordeste).

Colegas Artevistas, nesse mês estou provocando um diálogo a partir do Boqueirão, que fica na minha cidade, além do desejo de apresentar a natureza viva, me interessa lembrá-los que ao mencionar essa vivacidade estou lembrando-os de abrir escuta para o originário. Lavras da Mangabeira, Ceará, é território do nativo dos Kariri, Siará.

Estamos preocupados em cuidar do Boqueirão porque são nossas avós chamando para dançar saúde.

Nosso corpo não se separa das encantarias.

Feliz ano novo. 

Por Barbara Leite Matias (Flecha Lançada).

Fuja, se for o caso, por favor!

No outubro deste ano sem paralelo, como a aventura de Hans Pfaall, eu estava em Iguatu, sertão do Ceará, preparando material didático para lecionar uma disciplina de poesia brasileira contemporânea.

Arquivo pessoal

Escolhia autores conforme uma equação entre política e linguagem, inquietação de mundo e busca de uma voz própria. Procurava colocar na seleção de textos o máximo de vozes femininas, negras e fora dos cânones comuns.

Arquivo pessoal

Confortavelmente protegido na parte de cima de uma casa duplex, alugada junto com colegas professores, meu corpo se depositava ali, desconhecedor de tantos corpos femininos, negros, índios, pobres, sendo agredidos naquele mesmo instante Brasil afora, mundo afora, de tantas maneiras que, com elas, se poderia até fazer um manual geral da agressão.

Arquivo pessoal

Meu lugar preferido na tal casa é uma varanda, no piso em que durmo, o de cima, que dá uma boa vista dos arredores. Oferta de um pôr-do-sol bonito, uma vista de uma lagoa quase seca, de tão maltratada pelo sol e principalmente pelas mãos do bicho mais autodestrutivo que existe.

Arquivo pessoal

Ao lado da varanda, a gente pode ver um terreno baldio. Sou decididamente monótono, como diria Jorge Luis Borges: adoro conversar sobre terrenos baldios, adoro o fato de que nele não há pessoas, e quando há, é gente que provavelmente sabe desfrutar a beleza e o refúgio ali oferecido por ninguém. O terreno baldio ao lado da varanda da casa alugada em Iguatu, em outubro, abrigava um rebanho de carneiros ou ovelhas. Ovelhas, digamos.

Arquivo pessoal

As ovelhas, juntas, são comunidade, partilha. Quando uma delas berra, as outras costumam berrar juntas, em concordância, geralmente. É o seu jeito de dizer: estou com fome. Estou aqui. E eu também estou aqui. E eu também estou viva, tenho minha voz, meu orgulho, minha beleza, minha saúde, meu tempo.

Arquivo pessoal

As ovelhas, obviamente, não eram donas das próprias vidas no terreno baldio embrulhado em muros altos e uma cerca de madeira na frente, que dá pra rua. O terreno tinha muita vegetação rasteira, capim, arbustos. Alguém, obviamente, mantinha as ovelhas trancadas ali, para que comessem a vegetação e depois fossem assassinadas e tivessem sua carne vendida e devorada.

Arquivo pessoal

Num dos dias do referido outubro, eu estava na dita varanda, dez ou onze horas da noite, ouvindo música e remoendo quinquilharias empoeiradas na cabeça. De setembro a outubro, o clima fica mais árido no semiárido, e só melhora um pouco com um vento fresco que chega na cidade mais ou menos no horário em que eu tava na varanda naquele dia.  O vento foi tão forte que derrubou as tábuas que tapavam a saída das ovelhas. Todos os dias, durante o dia, vinha alguém pra abrir esse portãozinho e levá-las pra pastar na área seca da lagoa, do outro lado da rua.

Arquivo pessoal

Tábuas ao chão. As ovelhas, depois de alguns minutos de hesitação ou ponderação, começaram a fugir pelo buraco aberto. Foi lindo. Gravei a cena como pude com vídeos e fotos toscas, amadoras. Claro, as ovelhas seriam depois recapturadas, se não fossem atropeladas pelas montarias automóveis do bicho autodestrutivo que logo somos. Mesmo assim, não tenho palavras pra descrever o sentimento de desforra e beleza que me dominou naquele momento. Parte do rebanho (muitas não quiseram se aventurar e preferiram a gaiola) correndo para fora do terreno baldio, para a rua, num barulho lindo. Nós e as pequenas ilusões de que precisamos pra continuar vivendo, como disse um europeu aí num livro.

Arquivo pessoal

Então, minhas palavras de fim de ano e ano novo seriam, caso alguém se beneficiasse com elas e quisesse escutá-las: se precisar, mate em legítima defesa ou, pelo menos, fuja! Fuja o máximo possível, que fugir também é um jeito, às vezes o único disponível, de lutar. Suponho.

Dezembro

Algumas poemas da minha página @podeserumapoema

(…)

 A professora perguntou ao menino se ele se sabia o que era se vesti com classe.

Ele respondeu,  só os urubus suportam um completo terno clássico.

(…)

Alma de pescador.

Pescador que é pescador só pesca para comer e enquanto isso a mente estica feito linha de anzol brincando de tocar a areia do rio.

(…)

Eu plantei um pé de manga para meu neto.

O neto de meu neto chupa as mangas do pé de manga que plantei.

As abelhas degustam as mangas dos pés de mangas que plantei.

Eu, o pé de manga, meu neto e as abelhas alimentamos a terra que sustentou da raiz da manga aos meus fios de cabelo da minha vó.

Minha vó virou abelha.

(…)

Vontade.

Vou mergulhar no rio e virar piaba. Pronto.

EU CARREGO UMA SOLIDÃO TÃO GRANDE DENTRO DE MIM.

AS VEZES ACORDO NA MADRUGADA SÓ PARA ACARICIAR O CABELO DELA.

EU DANÇO PELADA COM A MINHA SOLIDÃO. ONTEM ALGUÉM ME DISSE QUE PAREÇO ALEGRE E TRISTE, MEUS OLHOS CONFUNDEM.

EU NÃO SEI.

 NO FUNDO EU QUERIA MESMO ERA CATAR PEDRA NO CHÃO PARA  ATIRAR NO RIO. DEPOIS MERGULHOS DE OLHOS ABERTO EM BUSCA DAS PEDRAS.

A minha solidão parece uma pedreira, eu não tenho medo dela. Eu estou com medo do ano, o tal do 2020 e também 2021. Futuro, futuro sou eu anciã, só que agora.

 Quero que meus cabelos cresçam, toda sexta estou passando “babosa”, aproveito passo na pele toda, principalmente em cima do peito, dizem que é bom para cicatrizar.

Texto de Barbara Matias (Flecha Lançada)

Imagens de Jamal.

UMA TENTATIVA DE ESCREVER

Por Kiko Alves

Esse texto de hoje não se propõe a ser um texto que traga algo de novo, nem se organiza como um texto dito padrão, é apenas a reflexão de um homem negro, gay, periféricos, umbandista no limiar de seus quarenta anos, e isso acreditem é importante que seja falado, que viver tanto nesse contexto de mundo é um privilégio negado ao povo preto. Então não é linear as ideias que trago aqui, são apenas reflexões meio soltas, de alguém que tenta pensar, um pensamento pautado pela raiva, e dor, não é facil ser homem livre, não é facil ser um corpo negro no mundo.

Nos últimos dias, tenho me pegue pensando, no quanto o ato de se expressar não é algo tão simples, digo no sentido artístico, utilizar essa ferramenta para tentar decodificar e reorganizar o mundo, não é algo natural, corpos como meu recebeu o direito de ser grato, a expressão para pessoas como eu é um exercício que precisa ser ensinado, e depois de ensinar, precisamos apreciar o processo de liberdade que ela porventura possa trazer, por que vezes sabemos até nos expressar mas as urgências me dizem que ela é pouco importante, temos uma voz aqui do lado do ouvido falando que a sobrevivência é mais importante, a arte como respiro, a arte como possibilidade de ir um pouco além, de continuar esse processo que é respirar como prática básica da vida, a escrita é parte desse processo, compõe o fazer artístico, é um privilégio caros amigos, e por tanto um direito quase que exclusivo de brancos.

Claro que hoje temos diversos movimentos de pessoas negras que tentam criar espaços de produção artística negra, afrocentrada, voltada para o conforto e para a felicidade preta, mas todos eles são efêmero, curtos, por temporada quando existem, hoje na cidade não temos um espaço preto e nem é culpa da pandemia, antes já eram poucos, só se agravou.

Eu sou da filosofia, e na prática faço cinema, me utilizo do cinema para tentar fazer isso, me expressar, criar um espaço de pensamento e fazer negro,  quando não entendo algo, em geral filmo, porém mesmo esse lugar que é tão familiar, faltou, a escrita me faltou, mesmo coisas simples como a habilidade de olhar para o grande Rei de Oió e saber que sou protegido por algo maior e mais profundo,  me faltou, e já me desculpei pela minha falha aos meus ancestrais; talvez tenha ficado no entanto a inquietação que a filosofia me trouxe nesses muitos anos de vida; e por faltar meios que nos ajudem a sair da frente dessa muralha que foi feita para se ter a ideia que é intransponível…ficamos paralisados, o racismo é uma muralha que foi construída com essa ideia, que ela é não somente natural, é também intransponível, é uma logica organizada estrutural e conceitualmente que faz parecer que mexer nela, é mexer na logica que organiza e dita as regras da realidade, o racismo foi uma idea que se tornou normal.

O que os movimentos anti-racistas de pessoas brancas fazem hoje é tentar não normalizar a barbárie, e vê o outro com uma espécie de humanidade ainda não praticada, acredito que a luta anti-racistas de pessoas brancas ainda esteja na primeira infância, ela se dá conta do mundo, ele até consegue vê contextos, mas falta leitura, falta compreensão, falta decodificar, falta entender, falta um inunda-se de humanidade, falo que falta, por que nenhuma pessoa branca anti-racistas abriu mão de seus privilégios ou poder em prol de pessoas negras, os que têm de fato poder não vão fazer, e os que não tem o tal poder, não entendem como podem dividir algo que julgam não ter, é aí que o racismo se mostra de uma forma tão refinada, ele sutilmente afirma que nesse processo de partilha dos privilégios pessoas brancas precisem abrir mão de sua humanidade superior e riquezas e na prática vamos ter que falar disso, ele afirma que tudo que vocês têm é natural que vocês tenham, e que por tanto quem questiona isso é inimigo, logo longe da norma, e vocês caros amigos praticam essa ideia diariamente.

Talvez a questão em que devo focar sejam as práticas racistas, ou alternativas para que possamos habitar um mundo livre dessa doença cognitiva, o racismo é uma falha de caráter, é uma fissura na ética na construção de diversos sujeitos, e é também uma atitude política em relação ao mundo e ao grande outro. Mais que uma pratica o racismo é uma ideia muito bem organizada, para em primeiro lugar afirmar a humanidade quando no mesmo movimento nega essa mesma humanidade a certos grupos, em segundo ele é organizado de modo a silenciar corpos e subjetividades que por ventura não estejam dentro da regra, e a regra é posta a todo momento pelo estado, a mídia, a indústria, e pelo pensamento vigente, o racismo é uma tecnologia de segregação construída de forma muito eficiente, por quê se coloca como norma, mesmo quando não chama um negro de macaco, mesmo quando ele não mata um negro num estacionamento qualquer, de algum lugar desse país, ele se afirma como regra, como norma em vivemos dentro dessa norma.

Nesse processo de discursos anti-racistas extremamente necessários, eu me incomodo muito com a existência deles, é contraditório, mas sinto dessa forma, um incômodo na afirmação de pessoas não negras sobre compreender o contexto e dor de pessoas negras, de certa forma sou um pouco marxista, por mais que negue por vezes esse pensamento, nego em prol do pensamento do grande Marcus Garvey e de Malcon X e seu desejo por uma ideia negra da vida e do mundo, uma construção politica e social do negro. Outra ideia que me incomoda e da moda dentro da luta anti-racista de racismo estrutural, me incomoda por que por vezes existe uma certa demagogia por parte de quem fala, pois se o racismo é estrutural e todos somos parte da estrutura que compõe o tecido social, então na prática ou sofremos racismos ou praticamos racismo, entendo que esteja na estrutura, então cada vez que abrimos a boca e narramos como essa violência é feia e que está na epiderme da sociedade, talvez nesse momento coubesse um pequeno exercício de reflexão de privilégios, por que se somos parte do problema e ele persiste a 520 anos só posso entender que esse pensamento que hoje é narrado como feio, como desvio ainda é vantajoso para quem na prática ainda se beneficia desse sistema arcaico de perceber o outro.

Não basta saber que é estrutural, é necessário ação para que possamos criar um mundo diferente, aí volto aqui a nossa ideia marxista de redistribuição de renda, dos recursos, porque uma das coisas que organize a lógica racista, é o poder, sendo portanto um meio de alcançar um equilíbrio, distribuir de forma mais justa o poder essa palavra que parece sempre tão distante de todos e que referencia algo de ordem quase sobrenatural que organiza e dita as regras do mundo. 

Não se trata de post, ou likes, ou textão em algum feed, talvez se trate de em primeiro lugar brancos deixarem de lado sua humanidade, que nos 700 anos tem sido construída sobre a ideia de superioridade, e que negros possam deixar de acreditar que somos uma raça inferior, uma casta de serventes, isso não muda muita coisa a curto prazo, mas se brancos deixam de lado sua humanidade e se abriem a experiencia de outras humanidades e não como coloziadores e sim parte da reinvenção da vida, possamos ter uma possibilidade de construção juntos, e negros precisamos entender e amar nossa humanidade, precisamos entender que a estrutura e sobre tudo o pensamento, depois é esse pensamento posto no mundo na forma de lei e regra.

Não sei se isso resolve nada, o que sei é que ou entendemos que outras humanidades são necessárias aqui, nesse momento ou morreremos repletos de humanidade, por que de uma forma ou de outra esse mundo vai colapsar, como se trata de poder, lutaremos por poder, não tem sido pacífica essa luta, nos resta então redistribuir a violência.

Não é aconselhável escrever a realidade

Quando minha amiga Roberta me convidou para participar deste blog, a proposta era que eu escrevesse sobre literatura. Meio desobediente desde criança, sugeri, em contrapartida, que minhas contribuições mensais abrangessem não só textos dentro do que se entende por crítica literária, mas que passeassem livremente pelas fronteiras cansadas entre o que é ficção e não-ficção, narrativa e ensaio. E que, principalmente, abrissem mão de ter assunto definido, não como expressão do aleatório, mas como um modo pensado, refletido, de tentar misturar a escrita e seus entornos de mundo. Já havia comentado esses direcionamentos aqui, antes. Roberta, Robertinha, amável e anticonvencional, aceitou a ideia de imediato. Meses depois, pela primeira vez, vou procurar de fato cumprir o pedido que me foi feito incialmente e apresentar um exercício crítico para um livro que completa em 2020 seus 60 anos de publicação: Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

Uma leve zapeada pela internet logo dá encontro a várias discussões quanto à importância dessa obra para o movimento negro, para os feminismos e para uma discussão sobre a pobreza no Brasil, assuntos os quais eu só poderia, hoje, discutir de modo superficial, embora atento. Seja como for, tomando essas questões como companhia de percurso, gostaria de debater um pouco a escrita da autora em relação a suas experiências e percepções. Isso, na perspectiva de atravessar o extremo da diferença em relação ao pobre universo do mim-mesmo, gesto que tem me interessado muitíssimo; buscar, na obra, não mais, como quando muito jovem, o que se parecia comigo, mas o que é intensamente outro, tentativa incerta de escutar o desconhecido.

Com datas-jornadas reunidas em diário, como informa o subtítulo, Quarto de despejo contém o relato cotidiano de uma moradora negra da extinta favela Canindé, na cidade de São Paulo, entre 1955 e o começo de 1960, com um salto que exclui o ano de 1957. Na ausência de marido ou coisa descartável desse tipo, a narradora trata da vida naquela comunidade; basicamente, a cumplicidade com os três filhos e as relações meio tumultuadas, meio festivas, entre os que viviam lá. Miséria, violência, alcoolismo e espontaneidade amistosa, contíguos como os barracos dos residentes. Tratando desses fatos, a dicção da narradora tenta parecer pomposa, talvez por acreditar que isso seria necessariamente digno para uma pessoa financeiramente pobre. Contudo, sem se dar conta, aquela dicção ganha força e beleza na medida em que tal busca se precariza, multiplicando-se os desvios à norma padrão da língua (que são condenáveis apenas para desinformados e preconceituosos em geral, visto que, conforme Manuel Bandeira ou a linguística contemporânea, em nada impedem à comunicação do que interessa: ideias e afetos). A escrita de Carolina é rica e crítica exatamente do jeito que se apresenta.

Quarto de despejo se entrega como um realismo descritivo em que a liberdade da digressão é, felizmente, uma das poucas normas. A lição realista ocidental, dentre tantos nomes como Fiódor Dostoiévski ou Graciliano Ramos, assume, nesse caso, um tom de voz para si e para o que se percebe por perto. A palavra “realismo”, nessa obra, aliás, não cai na gaveta convencional da ânsia por transformar paisagens em fotos de alta definição, como se isso fosse requisito para denunciar, reclamar, gritar, expor o mal íntimo da privação nossa de cada dia. Realismo, nesse espaço, está próximo daquilo que em Machado de Assis ou no Neo-realismo cinematográfico italiano é a essência sem essência da realidade: sua larga fluidez, a ambiguidade, a mistura rasgada entre luz e sombra, o espaço indefinido entre práticas distintas e inconciliáveis de subjetividade; aquilo, enfim, que nenhum olhar ou letra explica por completo. Não há, em geral, uma preocupação em contextualizar detalhadamente a personalidade ou a biografia dos vizinhos, como foi ou seria a vida de antes ou depois do período descrito, ou em criar artifícios para “prender o leitor” (estratégia tão triste e corriqueira no mercado da leitura, como se ler tivesse de ser resultado de uma trapaça pregada no consumidor de livros). A materialidade cotidiana em que Carolina escreve dá um teor não convencional a sua escrita, com saltos coesivos que não explicam tudo, mas, por isso mesmo, criam um movimento próprio, pura e bela vontade de lutar contra a morte a cada instante, apesar da eventual fragilidade: “Hoje em dia quem nasce e suporta a vida até a morte deve ser considerado herói”. O que importa está aí, mesmo que você prefira se preocupar com miudezas adiáveis.

Quer dizer, um dado nítido trazido pela narrativa é o prazer do texto, prazer de criar uma realidade afetiva (afetos alegres, mas também inevitavelmente tristes), mais que a necessidade de gerar uma realidade objetiva com ele. E é esse feitio que aproxima a escrita da mineira, paulistana de adoção, àquilo que me parece ser o aspecto mais importante dessa estranha instituição chamada literatura, por alguns, ou escritura, por outros: uma mistura necessária de busca de uma linguagem própria e a preocupação política de desengatar os entraves de hierarquia e exclusão no mundo contemporâneo. O livro e a favela se constroem, como linguagem e política, no ato da escrita. Inevitável, parece-me também, enfatizar nisso a importância política da linguagem como algo que não simplesmente espelha práticas, mas se posiciona criticamente diante delas, que escolhe dados delas para confrontá-las.

De casa nova: Carolina Maria de Jesus na Companhia das Letras | PublishNews
Carolina Maria de Jesus. Foto da internet

No mundo-favela, ser escritor é ser exceção. A maioria dos que estão ali é analfabeta. Mesmo assim, um corpo escuta e anota frases simultaneamente. Com frequência, são mencionados momentos em que a narradora escreve seu diário ou simplesmente redige algo, em intervalos de urgências contínuas. Uma outra favela, em relação à Canindé fora-texto, passa a existir no durante que a faz verbo, e isso, de um modo especial: ela ecoa sem fim no presente incessante da página, como se a leitura independesse de alguém lendo em tal momento e, estando o livro fechado, apenas esperasse, paciente, um novo leitor para retomar o que ecoa livre do silêncio. A escrita de Carolina é uma escuta da multiplicidade circundante, mas também o ato de fundá-la, fazê-la existir. “O José Carlos ouviu a Florenciana dizer que eu pareço louca. Que escrevo e não ganho nada”. Por que escrever? Para quê? Essas perguntas, enunciada eventualmente por alguns dos personagens e nunca respondida pontualmente, têm sua resposta disseminada da primeira à última linha do diário-livro.

Na favela, não é apenas a escrita que é tida como supérflua, mas tudo ao redor: gente, coisas, moradias, utensílios. Por isso, a metáfora do título: a favela é o quarto de despejo, recinto de cacarecos como parte da casa que é a cidade. A imagem do cubículo de despejo é retomada ao longo do livro conforme a desvantagem hierárquica imposta pela sala de estar, pelos quartos dos donos, ou seja, pela exuberância das áreas paulistanas de classe média, captadas pelo olhar sensível da narradora, mas que fecham seus olhos ao quadradinho escondido nos fundos. O quarto de despejo é depósito de inutilidades, mas também serve à casa: quando massa de manobra eleitoral, por exemplo, como apontado com frequência no livro, ou, de modo mais geral, quando os negros têm alguma “utilidade” para o bem-estar branco. Ao passo que viver na favela é ter a experiência mais aguda da exclusão, da vida num país de exclusão, o olhar da narrativa, sempre no limiar entre a favela e o resto da casa, é antropófago: absorve, aprende, sobretudo com leituras e conversas com pessoas e opiniões que alimentam a visão crítica da narradora. Olhar que tem sede e está sempre morrendo de fome.

Aliás, a preocupação recorrente de Carolina é conseguir alimentos a cada dia para si e para as crianças. A fome é, pensando com Maurice Blanchot, a pergunta que nenhuma resposta desfaz, é o dado mais concreto, mais concreta que a fruta inalcançável, como no Cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto (1920-1999). A fome e a frágil saciedade alimentar que mal a eufemiza são os condutores constantes da matéria de vida possível naquele lugar. “Eu não quero enfraquecer e não posso comprar. E tenho um apetite de leão. Então recorro ao lixo”. Disso decorre, creio, a insistência em escrever, escrever para enganar a fome, escrever tanto, até que escrever se torne meio para enfrentá-la. A arte de recolher do lixo aquilo que pousa na débil soleira entre sobrevivência e morte é como um suplemento à escrita: escolha, inscrição do alimento podre no próprio corpo que o cata. Catador e lixo, duas texturas do despejo, se confundem, alças de um mesmo metabolismo.

O livro de Carolina Maria, que pode ser lido também como romance, é uma espécie de palco teatral, voz que se desdobra de si mesma e se veste de ficção; ficção que não mente, mas escancara o gritante no habitualmente invisível. Do quarto-favela, comparece o que é favela ao extremo; a “mentira” do que é, em mais de um sentido, dramatizado (como dor sentida, como dor expressa), é a única verdade que resta: verdade como mais um item do despejo. Porém, a performance, o gesto cênico da escrita do despejo não é melodramático. Não apela a sentimentalismos: diz mesmo é o que há ou, mais precisamente, o que falta. A força, apesar de tudo, está no que falta, porque a vida, a falta e mesmo a alegria possível se confundem: “Achei o dia bonito e alegre. Fui catando papel”. Aqui, provavelmente, perde sentido a questão de se uma escrita é artística ou não, se assume algum lado na binaridade bestinha texto literário X texto não-literário, ficção e realidade, porque o acontecido e a palavra se tornam inseparáveis, mesmo que distintos. Escrita, experiência, invenção: o sonho ancestral de que o olhar se torne parte da paisagem, mesmo que no efêmero.

“Não é aconselhável escrever a realidade” diz um sapateiro à narradora. No entanto, Quarto de despejo é uma grande desobediência a esse “conselho”. Não é aconselhável escrever a realidade, por diversos motivos: por exemplo, porque a censura é como um vírus, ora inativo, ora disseminado; ou porque uma vez iniciada essa escrita, é quase inevitável a descoberta de que será preciso continuá-la enquanto o próprio corpo estiver vivo, e depois em outros corpos, interminavelmente: começar a escrita sabendo que ela não poderá, não deverá, não quererá ser interrompida, mesmo que o seja por tempo indefinido. E quem sabe, com isso, lembremos de desobedecer certos conselhos lamentáveis, por prazer, por favor, sem favor, já que o que vocês e eu mais fazemos é obedecer, decepcionantes que somos. Entretanto, ainda vivos, talvez. Afinal, mesmo o título de um texto pode muito bem ser desobedecido. “Os favelados zombam dos conselhos”.

De que falar?

Por Rebeca Raso

Esta pergunta ronda a minha cabeça por muito tempo e sempre quando me coloco diante da folha em branco. Dou voltas e voltas sobre o mesmo: Sobre que tema escrever. 

Poderia escrever sobre a importância da linguagem no processo de transformação social, os conflitos que tenho com a linguagem, por exemplo, com o uso da “e” como fonema neutro (sem gênero), ou os conflitos que me geram o trabalho, ou melhor dito, o emprego. Falar sobre a minha (in)adaptação ao mundo do emprego formal. Poderia escrever sobre as consequências do COV-19 na vida das pessoas, as políticas sem sentido, que não atendem as necessidades das pessoas nem buscam frear os contágios, se não, estigmatizar bairros, comunidades, etnias, raças…  Também poderia sobre os debates ao redor da gordofobia, transfobia, migração, racismo ou o machismo aqui na Galiza. Ou mesmo dos novos ataques (midiáticos e políticos) contra o movimento okupa e independentista. Sabia que o Estado Espanhol, é um dos países Europeus com maior quantidade de presos políticos da União Europeia? Sabiam que aqui a liberdade de prensa é débil? Que é dos países que ataques contra jornalistas, em especial, contra ás mulheres é altíssimo?  

São tantos os temas que me afogo. 

Não sei bem o que escolher, o que é importante ou qual é o tema que realmente me atravessa. 

No meu ir e vir diário, Santiago de Compostela – Coruña, eu penso, penso… mas chego a estação e não me decido. Faço listas, busco dar prioridades…

mas no final,

nunca escrevo. 

E o tempo passa.

Eu me angustio.

Tenho ansiedade e sou dominada por um sentimento profundo de frustração.

Na tutoria desta semana do curso sobre mediação de conflitos que estou a fazer, este tema surgiu. Foi quase o centro das reflexões. Uma das possíveis causas ou razões pela que eu não me decido, pode ser o MEDO.  

É foda reconhecer que tenho medos.

E sim, são vários.

Muitos,

eu diria. 

Medo de me expor

não me expressar bem 

não ser entendida

ser criticada

ter que responder a críticas

estar equivocada,

errar,

ter que reconhecer o erro

ao êxito 

e ao fracasso. 

Uma super merda! 

Porque o que estes medos estão a me dizer é que o que eu faço está dirigido para os outros e não para me satisfazer. O que não significa que não desfrute e sinta prazer no que faço. Mas o medo ao resultado é tão grande, que ao não fazer (escrever) evito a possibilidade de um possível sofrimento. 

Este sentimento é muito comum nos grupos oprimidos e entre as pessoas que não se encaixam em nenhuma identidade hegemônica. Encontramo-nos na busca constante entre reconhecer-se e ser reconhecida. É um caminho longo, no que querendo ou não, procuramos entender quem somos e que valor temos. É uma busca identitária, mas que está intimamente relacionada com a forma como os outros nos vem e nos avaliam.  O outro nos dá muitas respostas ou referências sobre o que somos. Por isto, quando a nossa identidade não tem valor social, o caminho de construção e reafirmação da sua identidade é bastante complicado. Passamos pela negação, por querer separar-se dela, a rejeição, a autorrejeição…. Um caminho de muito sofrimento.  Neste caminho, aprendes estrategias para sofrer menos e poder viver.

Talvez a minha falta de decisão esteja vinculada com esse medo a me mostrar ou até de descobrir quem sou.

Te dedico

Por Barbara L. Matias (Flecha Lançada)

Te dedico um abraço forte, não há tempo para meios abraços. 

É  i. n. t. e. IRO. 

Ontem não deixei a cabeça voar, fui lavar a louça e quebrei dois pratos.

É preciso se integrar, principalmente com a terra, água e toda a magia que tá no universo, mas, também dentro da gente.

Mora um rio entre meus seios. E mora um rio, a dois quilômetros da minha casa. 

M O R A UM RIO ENTRE MEUS SEIOS. E M O R A UM RIO, A 2 KM D A M I N H A C A S A

E S S A Á G U A É S O B R E M E R G U L H O!

Imagem de Jamal.

Eu queria sugerir para você que converse com o  S I L Ê N C I O  e peça para sonhar. É assim que fazemos, sonhamos também com os olhos fechados. Se o sonho é vivo, enquanto vivemos, para olhos abertos e fechados há sonhos. Sonhar é deixar a raiz dos cabelos da cabeça dançar e fazer tranças entre milhões de fios. Amarrar memorias que carregamos.

Sonhar e criar é um moinho de produzir suor que nos encaminha as V E R E D A S.

O que mais sabemos é fazer veredas.

Por hoje é só. 

Antes faz chá, se banhe, arme uma rede. Pelada, beba chá. Deite teu corpo na rede.

E boa busca de veredas. Lembre-se essa água é sobre mergulhar.  AWETÉ!

Frestas do mundo dos outros

A luz cheia, caída do
sol sobre as folhas das
árvores que fazem do
terreno baldio um
remendo de floresta, folhas,
microtelas multidirecionais, filtros
verdes, a alguns metros acima das
crianças sentadas no chão em círculo assim
étrico. Há sapos-cururus dormindo por
ali, escondidos, invisíveis como aquelas
crianças quando elas caminham pelas
ruas, quer dizer, quase invisíveis, porque
as pessoas às vezes as veem e as
temem ou sentem seus territórios in
vadidos por elas, crianças como
cachorros ferais em forma
humana. Um homem (segredo: esse
cara sou eu) mora
numa biblioteca onde
só há livros e uísque, o que
pra ele não deixa de ser uma
situação de alguma sorte, já
que ele gosta dos livros e do
uísque. Sempre sozinho naquela
biblioteca, esquecido de desde
quando. Não tinha sobrado
ninguém além dele naquela
cidade. Muito longe do homem e
de sua biblioteca, as crianças do
terreno baldio não dispõem de livros nem
de uísque, mas sim de pequenos
cachimbos de lata de cerveja ou refrigerante
em que fumam um tipo de
farofa grossa com cara de
encardida. Essa é uma das
primeiras vezes em que
essas crianças se divertem desse
jeito: estão animadas e têm a
vaga sensação de estarem diante
de um monte de trilhas
atraentes, sem saber qual
escolher. Por um lon
go período, o homem da
biblioteca preferiu livros que
detalhassem personagens parecidos
com ele, caras distantes dos
outros porque queriam e porque não
queriam: Fausto, Brás Cubas, o
escritor sem nome do
porão de Dostoiévski, o
escritor com fome, de Knut Hamsun, o
animal sem nome na
toca que escavou, como
contou Kafka. As garotas e
garotos brincam eufóricos após
os cachimbos, o dia é de
luz atravessando todos os poros, mas
não está tão quente, talvez porque
ainda seja manhã. O homem
na biblioteca não tem
noção clara do tempo, ele
já nem tenta mais medir a
passagem do tempo, e,
falando em tempo, faz um
tempo que ele tem preferido
ler obras com personagens femininas
e bem diferentes dele: as
mulheres de Clarice, de Virginia, de Cassandra, de Marília Gabriela, de Orides, de
Maria Carolina, de Ana Cristina.
De dia, ele lê, de noite,
bebe uísque: homem rotineiro.
Em lugar de ler livros-espelho, de se buscar nas
páginas lidas, ele agora lê livros
com personagens que acolhe
como filhas, esposas, amigas, ou me
lhor, ele acolhe a ausência delas como
se fosse uma filha, uma esposa, uma
amiga. Simultaneamente, eu não sou
esse homem, nem estou
aqui. Convenceram você a
ver, às vezes, felicidades possíveis de
alguém apenas como tristeza e
pessimismo: isso, sim, é que é
triste, alguém poderá responder. Quem
sabe? Os sapos-cururus são
pequenos hipopótamos, porquinhos
provavelmente felizes em
seu aparente mau-humor. Pode
acontecer: quando alguém chega
perto
deles, eles viram as costas e
cagam e mijam da maneira mais
rude e sonora que conseguem, talvez
até não estejam sendo
sinceros, mas, quando fazem
isso, estão expressando uma
irritação repentina. Sapos-cururus se
parecem um pouco com ratos, caramujos,
tilápias, javalis, gatos, cachorros, coelhos, gente:
se adaptam a qualquer lugar e
vencem fácil a disputa pela vida que
houver com as espécies nativas. Se
bem que os sapos se limitam a
comer insetos: sua ambição é
modesta. Uma noite, depois de
um sexo intenso e gostoso, você
dormiu e sonhou que, por uma
infelicidade qualquer, os sa
pos-cururus simplesmente foram
extintos, fim, pra eles, da aventura
de viver. Não foi um sonho bom, foi
um sonho triste, mas logo
você acordou e constatou, aliviada,
que nenhuma má-notícia tinha
chegado e, portanto, os
cururus provavelmente continuam
seu próprio mundo nas
frestas, ou em torno, do
mundo dos outros