Sobre uma pergunta que me fizeram

Por Alicia Pietá

“O que você já teve/deixou de fazer por ser mulher?”


Respondi:

Por ser mulher transexual eu não tive a chance de escolher meu sexo quando nasci (claro) e por isso fingi, por vinte e tantos anos, ser uma pessoa que eu não era.
Por ser uma mulher transexual eu não tinha a chance de ter um relacionamento amoroso comum por vários anos, desses bem padrãozinho mesmo, isso por que a sociedade não nos enxerga, os homens nos vêem como objeto sexual, marginais ou simplesmente somos invisíveis à maioria das pessoas.
Mas… Nunca deixei me abater por isso e sempre dei minha cara à tapa.

“Quem não veio ao mundo para incomodar, não deveria ter vindo ao mundo.” Dias Gomes.

Só me resta propor poesia

Por Barbara Matias

Não me vejam como uma sujeita preguiçosa. Se eu fosse uma criança brincando eu ia gritar “piiiiiiiiiiiiiiinico”.

Só que não é mais brincadeira.

Esquecer-se de brincar é como morrer.

Estou exausta, eu sou dengosa e não é porque o mundo está assim que devo esquecer de me dengar. Se dengo fosse um signo a minha lua estava lá e o sol na rede. Porque a rede também seria um signo. 

Voltando a palavrinha: Exausta, pegue e faça um funk: Exá,exá, exaustaaaa. Exá, exá no rabetãoo, rabetão, rabetão. Bebebetão…. hahhaha

– penso alto:Não posso nem reclamar.

 A vizinha enquanto varria a calçada gritou para os curumins que brigavam dentro de casa para eleger um canal de televisão. Estou acabado, parem de chamar meu nome F……… morreu (Se referindo a ela).

Ótima tática: Barbara morreu, eu me mato quando quero, só de pinico, sabe!

Recebi um áudio de um mano pós-doutor em artes, das artes, das artes: Babis estou exaurido.

Exaurido????

é o estado F….. morreu chique. 

Eu tinha um namoradinho na adolescência que ele dizia: Gatinha temos que aprender a ficar “pexe”, tranquilo, fresco. Ai que saudade de nadar.

Dentro da gente tem água. A gente esquece-se da parte bonita.

No meu próximo casamento, vou me separar num ato de alegria. 

Imagem de Jamal.

Fim, dia 26 faço 28 anos, eu gosto de presente. Se até lá houver impeachment do genocida me sinto presenteada.

O DESEJO É UM CORPO ILHADO

DERIVAS SOBRE O DESEJO, E A CRIAÇÃO DE UM FILME SOBRE RAÇA 

Por Kiko Alves

A construção do projeto saudade por vezes é interrompida por pura falta de perspectiva, cada vez que olho o problema ele se atualiza e cria uma série de outras reflexões, todas elas passam pela possibilidade de pensar um mundo, de recriar um mundo, que luta contra o racismo. 

Recentemente conheci uma personagem que me trouxe uma série de reflexões sobre o lugar da narrativa negra na literatura e sobretudo no cinema, mas antes ainda em contato com outro texto de Fred Moten e Stefano Harney, sobre a possibilidade do estudo como uma ferramenta para se pensar o futuro, a ideia central são os estudos negros, em “The Undercommons”, os autores criam uma brecha para repensarmos o estudo. 

Nessa ideia de repensar o estudo preto, compreendido aí como o estudo “sem finalidade”, o estudo que possibilita a fuga, que cria espaços de reflexões sobre a condição vivida por negras e negros sobretudo em torno do estudo, a fuga indefinida em meio a noite negra dos subcomuns. Estudar é fugir, como quando nos damos conta que há algo de condenado nessa realidade, e que não há portanto para onde fugir se não rumo à própria fuga, ao domínio opaco e impreciso, especulativo, que vai a todo momento confrontando o mundo visto e entendido. 

Voltando portanto ao desejo, encontro na personagem de Octavia Butler uma certa pulsação em busca dessa fuga, ou ela incorpora a fuga para permanecer e por tanto o desejo de vida, ou de habitar o pós apocalipse me coloca em estado de reflexão sobre por onde seguir na busca desse corpo e desse desejo. Lauren Olamina, personagem central do livro, “Parable of the Sower “, dá-se conta de que o mundo como lhe foi dado conhecer está por um fio. Lauren é hiperempata Isto é, tem a habilidade de absorver as dores e intensidades de todas as coisas vivas à sua volta, e isso, ao mesmo tempo em que a enfraquece parece permitir que ela se conecte com as forças que lhe cercam de maneira singular – uma conexão que se faz pela dor, num espaço afetivo compartilhado onde os efeitos das violências, dos eventos traumáticos, ainda que sufocantes, guardam também possibilidades de aprendizado. De estudo. 

A grande musa da Ficção científica, Octavia Butller, mesmo que não creditada pelo mundo branco, aponta uma ideia e uma possibilidade de mundo para os povos pretos, habitamos a diáspora desde 1500, mas como sugere Octávia precisamos fazer um exercício de pensar o

futuro de pensar a realidade que dura e que ao durar podemos ir raqueando a realidade para que possamos existir nesse mundo, pensar o futuro parte de uma reflexão e ação no presente. 

Nossa ancestralidade na apontava essa ideia, já narrado pelos contos Yorubá já existente no Brasil desde que começou o tráfico negreiro por essas terras, que fala “ Exù matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje””, essa saudação feita para o Orixá do movimento nós da pista de caminhos a se pensar sobre a construção de um mundo preto, narrar o passado, criando no presente para então que possamos criar um futuro para o povo preto. 

Este texto podia considerar-se o fecho de uma uma pequena série sobre a ideia da busca por um desejo não erotico de um diretor negro na esteticas cinematográfica, fico no entanto sempre “desejando” contiuar a analisar minhas errancias sobre o que poderia ser esse corpo posto em cena, e nesse fluxo questionar o que seria cinema negro e quem racializa meu cinema? Quem racializa minhas imagens? Eu ou o mundo que me coloca no lugar de falar apenas quanto narro a minha dor, sou autorizado a falar apenas de raça, quero continuar pensando com alguma profundidade a problemática da descolonização numa perspetiva decolonial. 

Em Crítica da Razão Negra, numa paródia à Crítica da Razão Pura de Kant, onde se demonstra a ligação estrutural entre o conceito da modernidade e o da colonialidade, e onde Mbembe teoriza sobre o que caracteriza como a negrificação do mundo e a planetarização desta condição que, segundo ele, extravasaria as fronteiras cromáticas cristalizadas nas identidades biológicas e sociológicas dos sujeitos racializados – e em que o negro é, no fundo, todo o deserdado do mundo como todos os colonizados eram os “danados da terra”, na acepção fanoniana e cesairiana. 

No entanto, apesar das várias encruzilhadas em que vou e levo meu texto, quero tentar terminar voltando a ideia da busca pelo desejo, para a construção desse filme, voltemos ao estudo como estratégia possível. 

Todo capítulo de Parable of the Sower inicia com versos de um outro livro, escrito por Lauren e chamado Earthseed: o livro das coisas que vivem . É uma teologia experimental que reorganiza a ideia de Deus e o narra como Mudança, força tão irresistível e inexorável quanto maleável e caótica: Deus existe para ser moldado, assim como o futuro. Narrar aqui as ideias da ficção especulativa pode parecer desconectado da ideia central que busco pelo desejo, no entanto aqui encontro uma possibilidade de pensar o desejo, como projeto futuro, criando narrativas nas encruzas do pensamento, repovoar o mundo de uma ideia diferente do desejo, (seria possível?), pode parecer anacrônico querer pensar repensar o

desejo em uma perspectiva negra, ainda assim tem me parecido o caminho mais correto nesse processo de busca pelo pertencimento, olho para o mundo e por vezes o vejo com olhos desencantados, e as questões surgem como pensar o desejo em um contexto de pandemia global, seria esse o caminho, qual quesão a comunidade negra deveria debater? O que interessa nesse momento da união? Unificar forças para combater o mal presente? Devemos aderir ao movimento goodvibes de apartamentos e lutar para o retorno a ideia de normalidade que estava posta? Normalidade para quem? 

Meu cinema é cinema, mas é também negro na medida que olho o mundo com esse marcador, não deixo de ser negro quanto penso, por tanto penso como negro, ou esse é o desejo pensar como negro, quanto penso o desejo no cinema e sobretudo no meu cinema ele é essecilamente politico por que o corpo negro no mundo e localizado, pelo estado, pela morte pela libido do branco e da branca, mas nenhum desses desejos salva a população negra ou de forma mas simples, esses desejos que são externos não lhe colocam nem mesmo como humanos se não sub humanos, mesmo quanto não narrado, então pensando por esse caminhos essas encruzilhadas do meu texto talvez reflita um pouco a dificuldade de pensar um mundo não branco, um desejo que não animaliza, de um desejo de potência, um desejo das coisas vivas e que habitam esse mundo. 

Minha atitude perante essa ideia tem sido a mesma de Lauren perante os livros velhos da biblioteca de casa: retorno a essas ideias, e autores, com a aposta de aprender, sempre com a ideia do estudo para a fuga, nas linhas e entrelinhas dos debates e nas zonas cinzentas da vida, perceber coisas que possam me ajudar a passar pelos tempos que se desenham. 

A grande sacada da ficção especulativa é a de representar do futuro aquilo que está já em jogo no presente, e o que está em jogo no presente é o futuro. 

Kiko Alves 

Março de 2021

Davi Kopenawa: A queda do céu (2)

“Antigamente, os brancos não existiam. Foi o que me ensinaram os nossos antigos, quando eu era criança. Omama vivia então na floresta, com seu irmão Yoasi e sua esposa, Thuëyoma, que os xamãs também chamam de Paonakare. Seu sogro, Tëpërësiki, morava numa casa no fundo das águas. Não havia mais ninguém. Assim era. Omama deu-nos a vida muito antes de criar os brancos, e era também ele que, antes deles, possuía o metal. As primeiras peças de ferro utilizadas por nossos ancestrais foram as que Omama deixou para trás na flo­resta, quando fugiu para longe, a jusante de todos os rios” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Continuo a resumir e comentar trechos do riquíssimo relato do xamã Yanomami Davi Kopenawa ao antropólogo francês Bruce Albert. Em sua longa e poética narrativa, Kopenawa delineia a cosmologia mítica Yanomami, rememora as relações que ele e outros membros de seu povo estabeleceram com os brancos e associa os mitos apocalípticos de sua cultura à destruição da floresta amazônica e de seu povo. Considerando que o livro é enorme, resolvi abordar, desta vez, a segunda parte do livro, “A fumaça do metal”, composta por oito capítulos, e deixar o comentário à terceira, “A queda do céu”, para o próximo mês.

“Os nossos passam muito tempo ansiosos em obter mercadorias: facões, machados, anzóis, panelas, redes, roupas, espingardas e munição. Os jovens passam o tempo todo jogando futebol na praça central da casa, enquanto os xamãs estão trabalhando ali ao lado. Eles não prendem mais o pênis com um barbante de algodão amarrado em torno da cintura, como os nossos maiores faziam. Usam bermudas, querem escutar rádio e acham que podem virar brancos. Esforçam-se muito para balbuciar a língua de fantasma deles e às vezes até pensam em deixar a floresta. Mas não sabem nada a respei­to do que os brancos realmente são. O pensamento desses jovens ainda está obstruído. Por mais que tentem imitar os forasteiros que encontram, isso nun­ca vai dar nada de bom. Se continuarem nesse caminho escuro, vão acabar só bebendo cachaça e se tornando tão ignorantes quanto eles” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O contato com os brancos remonta a acontecimentos ocorridos antes do nascimento de Kopenawa, contados a ele por outros Yanomami. Foram relações habitualmente marcadas por autoritarismos, exigências e tratamento injustos, sem contar epidemias (metaforizadas como “fumaças” mortíferas) a manipulação étnica sob a forma de catequese cristã, a devastação de áreas extensas, povoadas, devido à obsessão pelo ouro. Doenças como o sarampo ou a tuberculose matavam dezenas, centenas de índios de etnias diversas. Ainda criança, Kopenawa se viu apartado de seus parentes consanguíneos, mortos pelo sarampo, tendo que ser criado pelo padrasto e outras pessoas.

“Vimos os brancos espalharem suas epidemias e nos matarem com suas espingardas. Vimo-los destruírem a floresta e os rios. Sabemos que podem ser avarentos e maus e que seu pensamento costuma ser cheio de escuridão. Esqueceram que Omama os criou. Perderam as palavras de seus maiores. Esqueceram o que eram no primeiro tempo, quando eles também tinham cultura. Omama depositou a espuma com a qual criou os antigos brancos muito longe de nossa floresta. Deu-lhes uma outra terra, distante, para nos proteger de sua falta de sabedoria. Mas eles copularam sem parar e tiveram mais e mais filhos. Então, foram tomados de euforia, fabricando um sem-número de mer­cadorias e máquinas. E acabaram achando sua própria terra apertada” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Kopenawa trabalhou com os brancos realizando diversos tipos de serviços: atuou como intérprete, realizou atividades braçais na floresta, afazeres domésticos em escritórios da Funai e até prestou cuidados de saúde que aprendera. Tudo isso, tanto em Manaus, no meio da zoada e do clarão urbanos, bem como no verde-escuro dourado do murmúrio amazônico. Observava as camisas, as calças, os óculos e os relógios de pulso, e o fato de esses objetos esconderem o corpo ante o olhar lhe pareceu atraente. Sentiu e praticou, o quanto quis e conseguiu, uma vontade de ser branco, gradualmente decepcionada pela constatação de que nunca conseguiria fazer uma transformação completa.

“Aprendi a imitar o modo de falar deles. Mas isso não deu em nada de bom. Mesmo embrulhado dentro de uma bela camisa, dentro de mim eu continuava sendo um habitante da floresta! Por isso costumo repetir aos rapazes de nossa casa: ‘Talvez vocês estejam pensando em virar brancos um dia? Mas isso é pura mentira! Não fiquem achando que bas­ta se esconder nas roupas deles e exibir algumas de suas mercadorias para se tornar um deles! Acreditar nisso só vai confundir seus pensamentos. Vocês vão acabar preferindo a cachaça às palavras da floresta. Suas mentes vão se obscu­recer e, no final, vocês vão morrer por isso!’” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Floresta Amazônica: um lugar para visitar ao menos uma vez
Vista da Floresta Amazônica. imagem da internet

A cosmologia Yanomami absorve a cristã. O Iavé judaico-cristão, para eles, é Teosi, irmão de sua principal divindade, Omama. De caráter ambíguo, frequentemente hostil aos Yanomami, Teosi desperta neles uma natural desconfiança. Os missionários de Teosi, pai de “Sesusi” (isso, Jesus), falavam em bondade e salvação, mas frisavam mesmo era o pecado e a punição. Kopenawa, assim como outros de seu povo, aderiu ao cristianismo, sob os incentivos e a persuasão dos missionários. Porém testemunhando que as promessas de Teosi eram vagas e os maus-tratos de seus emissários brancos eram um fato cotidiano, ele se afasta gradualmente dos cultos evangélicos e retoma os caminhos do mundo de sonho xapiri da fé Yanomami.

“Após a morte, nosso fantasma não vai viver junto de Teosi, como dizem os missionários. Ele se separa de nossa pele e vai morar noutro lugar, longe dos brancos. Nossos defuntos moram nas costas do céu, onde a floresta é bela e rica em caça. Suas casas lá são muitas e suas festas reahu nunca param. Vivem felizes, sem dores nem doenças. Vistos de lá de cima, somos nós que causamos dó! Os mortos ficam tristes por nos terem abandonado na terra, sozinhos, com fome e ameaçados pelos seres maléficos. Por isso minha mágoa é um pouco aplacada quando penso que minha mãe vive feliz na floresta dos fantasmas, na companhia de todos os nossos parentes falecidos. É verdade. Somos nós, os poucos humanos que sobraram, que ficamos sofrendo na floresta, longe de nossos mortos” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Na fala de Kopenawa, o xamanismo se fundamenta com importância política na luta por uma especificidade, pela diferença, pela irredutibilidade de um nós a um vocês-outros dominador. O xamã Yanomami, antes de reemaranhado em seu mundo de floresta, exercitou uma percepção atenta, estarrecida e frustrada das paisagens brancas para, finalmente, voltar a sua terra e entendê-la com outra nuance: a urgência de sobreviver, de se manter fio de coletividade. Longe do branco, mas ciente do provável destino tragicômico deste, o culto aos xapiri na floresta fantasma é a arma de um heroísmo em processo de silenciamento.

“Foi quando os garimpeiros chegaram até nós que realmente entendi de que eram capazes os napë [brancos]! Multidões desses forasteiros bravos surgiram de repente, de todos os lados, e cercaram em pouco tempo todas as nossas casas. Buscavam com frenesi uma coisa maléfica da qual jamais tínhamos ouvido falar e cujo nome repetiam sem parar: oru — ouro. Começa­ram a revirar a terra como bandos de queixadas. Sujaram os rios com lamas amareladas e os enfumaçaram com a epidemia xawara de seus maquinários. Então, meu peito voltou a se encher de raiva e de angústia, ao vê-los devastar as nascentes dos rios com voracidade de cães famintos. Tudo isso para encon­trar ouro, para os outros brancos poderem com ele fazer dentes e enfeites, ou só para esconder em suas casas! Naquela época, eu tinha acabado de aprender a defender os limites de nossa floresta. Ainda não estava acostumado à ideia de que precisava também defender suas árvores, seus animais, seus cursos d’água e seus peixes” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O xamanismo, no caso dos Yanomami, é um tipo de visão de mundo dita mágica, estimulada pela interação do corpo humano com substâncias psicotrópicas, envolvendo experiências alucinatórias e um modo específico de se relacionar com elas. Nada importa se as vivências envolvidas nisso não seriam comprováveis de um ponto de vista lógico e experimental; elas são plenamente adequadas a um modo de vida integrado à floresta e incomparavelmente mais saudável (para o indivíduo, para a coletividade) que na cartilha urbanizada ocidental. Um xamã politicamente conscientizado e progressista tem, com toda a probabilidade, muitíssimo mais a oferecer que certa atitude logocêntrica, pseudointelectual, que se encontra de prontidão por aí.

“Se eu tivesse ficado só trabalhan­do para os brancos, se meu sogro não tivesse me chamado para perto dele, meu pensamento teria ficado curto demais. É por isso que agora quero que os brancos, por sua vez, ouçam estas palavras. Trata-se de coisas das quais nós, xamãs, falamos entre nós muitas vezes. Não queremos que extraiam os miné­rios que Omama escondeu debaixo da terra porque não queremos que as fu­maças de epidemia xawara se alastrem em nossa floresta. Assim, meu sogro costuma me dizer: ‘Você deve contar isso aos brancos! Eles têm de saber que por causa da fumaça maléfica dessas coisas que eles tiram da terra estamos morrendo todos, um atrás do outro!’. É o que agora estou tentando explicar aos brancos que se dispuserem a me escutar. Com isso, talvez fiquem mais sensatos? Porém, se continuarem seguindo esse mesmo caminho, é verdade, acabaremos todos morrendo. Isso já aconteceu com muitos outros habitantes da floresta nesta terra do Brasil, mas desta vez creio que nem mesmo os bran­cos vão sobreviver’” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

DIVULGAÇÃO NODA DE CAJU

 

NODA DE CAJU é a revitalização de um ritual muito antigo dos nossos povos originários, é a recriação da memória das celebrações nos cajusais de tybyra que sofreram memoricídio sendo tornadas práticas proibidas pela colonização. 

Somos pessoas atravessadas pela experência da mulheridade e da racialização atribuídas à nossas corpas nativas de origem Kariry e Potyguara descontruindo o imaginário criado sobre nossas existências, apagando a história do homem branco sobre nós e escavando nossas memórias ancestrais como quem retira de debaixo da terra o pote de mocororó enterrado por nosses ancestrais. 

Nos encontramos em equipe reduzida na Chapada do Araripe, território de nosses ancestrais, seguindo os protocolos de proteção contra covid-19, pisamos nesse chão sagrado para evocar Maara, nossa grande cobra encantada que nos encoraja

e protege para atravessar o mundo caraí (branco) e para nos mantermos firmes e tranquiles celebrando tybyra. 

Para reconhecer nossa cultura originária na cultura sertaneja, saber o que é tybyra, mocororó, quem é Maara e suas formas de comunicação conosco convidamos todes a acessarem e se inscreverem no Canal do Youtube Projeto Noda de Caju, apoiado pela Lei Aldir Blanc Ceará, lá poderão acompanhar nossa preparação para o ritual de tybyra nas Lives-oficinas “Corpas indígenas e “mestiças” do Sertão do Nordeste” com ritual de pintura online e participação da artista visual Kariri Indja, “Presença indígena na identidade sertaneja” com as participações de Cristina Kariri e Teka Potyguara, “Caju na cultura alimentar indígena e as celebrações de tybyra” com as participações de Juão Nyn Potyguara e Luan Apyká Tupi-guarani. 

Também está disponível em nosso Canal a temporada Noda de Caju, uma espécie de programa em que compartilhamos em narrativa e performance ao vivo a recriação do mito fundante das celebrações rituais de tybyra, trata-se da história de três yetçamiá (parentes) Kariri que partem do reino encantado das pedras do Araripe em direção aos cajuzais do litoral em flor para celebrarem tybyra e beberem

o mocororó, mas que para isto terão que atravessar o contexto violento das fazendas de bois implantadas no sertão pela colonização e contarão com a proteção de Maara. Os programas contam com as participações musicais de Ana Floresta e Jéssica Caitano. 

As atividades no Canal do Youtube continuam durante o mês de março, a ritualização deste mito será compartilhada em formato de cinema através de oito vídeos que serão publicados. 

Criação Coletiva 

Por: Yakecan Potyguara, Bárbara Matias, oBruna Mabellz e Luz Bárbara. Onde: Canal do Youtube Projeto Noda de Caju 

https://cutt.ly/ql5Y0bJ

E informações através dos perfis no Instagram: @flechalancadaarte @yakecan_potyguara @yluzbarbara @obrunamabellz

Realização: Flecha Lançada 

Direção geral e roteirização: Luz Bárbara 

Direção de arte e figurinos: Alice Assal 

Produção: Bárbara Matias, Jamal, Luz Bárbara 

Participações: Indja, Jéssica Caitano, Ana Floresta, Cristina Kariri, Teka Potyguara, Juão Nyn, Luan Apyká. 

ESTE PROJETO É APOIADO PELA SECRETARIA ESTADUAL DA CULTURA, ATRAVÉS FUNDO ESTADUAL DA CULTURA, COM RECURSOS PROVENIENTES DA LEI FEDERAL N.º 14.017, DE 29 DE JUNHO DE 2020. 

contato: cajusaldetibira@gmail.com

Davi Kopenawa: A queda do céu (1)

“Hoje, os brancos acham que deveríamos imitá-los em tudo. Mas não é o que queremos. Eu aprendi a conhecer seus costumes desde a minha infância e falo um pouco a sua língua. Mas não quero de modo algum ser um deles. A meu ver, só poderemos nos tornar brancos no dia em que eles mesmos se transformarem em Yanomami. Sei também que se formos viver em suas cida­des, seremos infelizes” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Em dezembro de 2020, tive uma ideia que gostaria de pôr em prática na parte que me cabe neste blogue. Ler obras escritas por ou pelo menos com mulheres, indígenas, negras e negros, pessoas lgbt+, enfim, pessoas vindas de contextos distintos de minha situação de branco de classe média. Daí, trazer para cá essa coleta, essa leitura, à maneira de resumos, de fichamentos daqueles de curso universitário de graduação. Quer dizer, procurando interferir o mínimo nos comentários que vierem. Mal sou habilitado a falar de mim mesmo, esse meu inevitável desconhecido, imagine de pessoas e coletividades cujas condições materiais, simbólicas, espaçotemporais de existir estejam ou sempre estiveram fora da minha tênue experiência.

“As máquinas dos brancos fazem delas peles de imagens [registros impressos ou audiovisuais] que os seus cantores olham, sem saber que nisso imitam coisas vindas dos xapiri. Por isso os brancos escutam tanto rádios e gravadores! Mas nós, xamãs, não precisamos desses papéis de cantos. Preferimos guardar a voz dos espíritos no pensamento” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Então, por que me propor a isso? Vários colegas de blogue já comentaram algumas obras, ou outras afins, que gostaria de trazer para cá. A intervenção deles foi oportunamente crítica, participativa, acrescentando sua insubstituível corporeidade existencial, visto que se tratavam de discussões próximas de seus contextos de vida. Quanto a aqui, em vez de remoer a mim mesmo ou coisas habitualmente próximas a minha percepção, este lugar de fala seria direcionado a algo que, em agosto passado, comentei neste blogue como meu interesse em praticar: um lugar de escuta. Um registro da descoberta de livros que ainda não li, que tenho procurado ler. Algo que talvez seja útil para alguém que ainda não os tenha lido. E que se aproxime de olhares em alguma medida dissidentes do que há de ranço na receita europeia-iluminista-racional-branca-classe-média a que acabei me habituando ao longo dos anos sem me dar conta clara do que estava fazendo.

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Davi Kopenawa. Foto da internet.

“Não pensem que a floresta é vazia. Embo­ra os brancos não os vejam, vivem nela multidões de espíritos, tantos quantos animais de caça. Por isso suas casas são tão grandes. Tampouco pensem que as montanhas estão postas na floresta à toa, sem nenhuma razão. São casas de espíritos; casas de ancestrais. Omama [entidade espiritual maior, para os Yanomami] as criou para isso. São muito valiosas para nós. É do topo delas que os xapiri descem para as terras baixas, por onde andam e se alimentam, como os animais que caçamos. É também de lá que eles vêm a nós quando bebemos yákoana para chamá-los e fazê-los dançar” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Já havia comentado minha prática, desde que cheguei aqui, de tentar exercitar uma utopia do texto (sugerida, por exemplo, por escritores românticos alemães do final do século XVIII ou Roland Barthes em O prazer do texto): escrever sem gênero definido, sem compromisso binário com ficção ou texto verídico, usando o direito de não ter assunto definido, de mudar de assunto quando houvesse desejo nisso, de explorar o potencial político de questionamento anticonservador que consigo ver em tal prática. A proposta de agora parece interagir de um jeito válido com a proposta de antes, então. Suponho.

“É verdade que os xapiri às vezes nos apavoram. Podem nos deixar como mortos, desabados no chão e reduzidos ao estado de fantasmas. Mas não se deve achar que nos maltratam à toa. Querem apenas enfraquecer nossa cons­ciência, pois se ficássemos apenas vivos, como a gente comum, eles não pode­riam endireitar nosso pensamento. Sem virar outro, mantendo-se vigoroso e preocupado com o que nos cerca, seria impossível ver as coisas como os espí­ritos as veem” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Pensei então em inaugurar a intenção mencionada com A queda do céu, relato em parceria do xamã e líder político Yanomami Davi Kopenawa com o antropólogo marroquino Bruce Albert. Albert conviveu com Kopenawa durante muitos anos, e o resultado é tanto o relato de uma biografia como o de uma convivência. Em uma série de capítulos com a duração de um conto ou um ensaio, as palavras de Kopenawa, misturadas à escrita de Albert, abordam e avaliam a prática xamânica, que é um modo específico de viver nesse cosmos chamado floresta (amazônica). Hoje, com a ajuda das citações presentes, estou comentando a primeira parte do livro, “devir outro”, composta por oito capítulos. Já que o livro é enorme, deixarei as partes seguintes, “A fumaça do metal” e “A queda do céu”, para o próximo mês.

“Então, de tanto prestar atenção, comecei a poder ouvir as palavras dos espíritos. Eles trocaram minha língua e minha garganta pelas deles. E assim, aos poucos, seus cantos foram se revelando a mim e se tornando claros. Comecei a cantar como eles. Mas foi tudo muito devagar. Não se pode ser impaciente nesse caso. Deve-se tentar pouco a pouco imitar a última parte das palavras do canto dos espíritos. É assim que se consegue começar a escutá-los de verdade, e foi o que eu fiz. E finalmente eles livraram minhas orelhas de tudo o que as entupia” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

No provocativo ensaio-prefácio que se antecipa às memórias de Kopenawa, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro comenta uma posição defendida por Albert quanto ao modo de se relacionar com os dados etnográficos recolhidos na pesquisa: manter a orientação conceitual e a cosmovisão das pessoas que atuaram como fontes e informantes. Manter as expressões de linguagem, as imagens, o jeito de ver visibilidades e invisibilidades de coisas. É isso que o texto concretizado faz.

“Quando, às vezes, o peito do céu emite ruídos ameaçadores, mulheres e crianças gemem e choram de medo. Não é sem motivo! Todos tememos ser esmagados pela queda do céu, como nossos ancestrais no primeiro tempo. Lembro-me ainda de uma vez em que isso quase aconteceu conosco. Eu era jovem na época. Estávamos acampados na floresta, perto de um braço do rio Mapulaú. Tínhamos saído, com alguns homens mais velhos, à procura de uma moça do rio Uxi u que tinha sido levada por um visitante de uma casa das terras altas, a montante do rio Toototobi. Anoitecia. Não havia nenhum ruído de trovão, nenhum raio no céu. Tudo estava em silêncio. Não chovia, e não se sentia nenhum sopro de vento. No entanto, de repente, ouvimos vários estalos no peito do céu. Foram se sucedendo, cada vez mais violentos, e pareciam bem próximos. Era mesmo muito assustador!” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Kopenawa mistura, na parte do livro tratada nesta fala, os mitos de origem de seu povo com sua experiência iniciatória como xamã. Como se fossem texturas emaranhadas num mesmo plano: real e imaginário, essas camadas do real, gerando essa coisa sem nome certo que, de um jeito inexato, poderia ser chamada de percepção-experiência. Mas isso, obviamente, não numa visão europeia, branca, racional, mercadológica, cientificista, e sim, numa visão Yanomami, outra em relação ao branco e até a si própria.

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Davi Kopenawa. Foto da internet.

“As árvores da floresta e as plantas de nossas roças também não crescem sozinhas, como pensam os brancos. Nossa floresta é vasta e bela. Mas não o é à toa. É seu valor de fertilidade que a faz assim. É o que chamamos në rope. Nada cresceria sem isso. O në rope vai e vem, como um visitante, fazendo cres­cer a vegetação por onde passa. Quando bebemos yákoana, vemos sua imagem que impregna a floresta e a faz úmida e fresca. As folhas de suas árvores apa­recem verdes e brilhantes e seus galhos ficam carregados de frutos. Vê-se tam­bém grande quantidade de pupunheiras rasa si, cobertas de pesados cachos de frutos, pendurados na parte de baixo de seus troncos espinhosos, e imensas plantações de bananeiras e pés de cana-de-açúcar. Esse valor de fertilidade da terra está ativo por toda parte” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

A sensorialidade “fantasma”, xamânica, é uma sensorialidade outra, de quem se tornou outro. Tornar-se xamã, segundo Kopenawa, é ganhar acesso a um mundo paralelo povoado pelos xapiri, espíritos de forma variável, humana, animal, vegetal, mineral, ora minúsculos, ora gigantescos (no início dos tempos, toso os seres eram uma espécie de meio-termo, de pontes morfológicas entre o corpo humano e outras formas). Em geral, são benfeitores e, por intermédio dos xamãs, protegem a humanidade de entidades sobrenaturais ameaçadoras. Os muitos xapiri auxiliam na caça, na pesca, na coleta, na agricultura. Auxiliado pela yákoana, substância vegetal alucinógena similar ao LSD, o xamã se torna “fantasma” e consegue enxergar os xapiri e perceber suas danças e cantos.

“Os xapiri nos protegem contra todas as coisas ruins: a escuridão, a fome e a doença. Afastam-nas e combatem-nas sem descanso. Se não fizessem esse trabalho, nós daríamos dó! O vendaval, os raios e a chuva não nos deixa­riam um momento de trégua; a cheia dos rios inundaria a floresta continua­mente. Ela ficaria infestada de cobras, escorpiões e onças, invadida pelos seres maléficos das epidemias. A noite envolveria tudo. Teríamos de ficar escondidos em nossas casas, esfomeados e apavorados. Começaríamos, então, a virar ou­tros, e o céu acabaria caindo novamente. Por isso nossos ancestrais começaram a fazer dançar os xapiri no primeiro tempo. Sua preocupação, desde sempre, foi proteger os seus, como Omama havia ensinado ao seu filho. Nós apenas seguimos suas pegadas. Os xamãs Yanomami não trabalham por dinheiro, co­mo os médicos dos brancos. Trabalham unicamente para o céu ficar no lugar, para podermos caçar, plantar nossas roças e viver com saúde” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O xamã Yanomami deverá aprender os cânticos dos espíritos protetores e, no mundo-fantasma, construir para eles uma casa espiritual que sediará os encontros mágicos. Espécie de espelho não-idêntico do nosso, o mundo espiritual Yanomami é descrito como uma “floresta no pensamento”; um mundo que não existiria sem o mundo material em que vivemos e sem o qual não existe. A narrativa de Kopenawa funde os mitos compartilhados por seu povo com as impressões recebidas na pele do indivíduo. Seu texto acompanha o assunto por meio de um clima de sonho, que é propriamente o do mundo espiritual xamânico, muitas vezes alcançado durante o sono, bem como pelo estado onírico induzido pelo ritual. Cheio de fatos heroicos, míticos, o relato do Yanomami é poesia e prosa, realidade e imaginação, sonho e vigília, mundo e mundos.

“[…]No entanto, quando se diz o nome de um xapiri, não é apenas um espíri­to que se nomeia, é uma multidão de imagens semelhantes” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Somos vivos como o sol de “ameidia”

Por Barbara L. Matias.

Deram o Kariri como extinto. E, no entanto os cabôco estão preparando a terra pra receber o plantio de milho e dançar pra fogueira em junho.

Imagem de Ana Adenilda e tratada por  Victório Fróes.

Deram o Kariri como extinto.

E no entanto os Cabas descansam “ameidia” enquanto o sol dança pra terra.

E no entanto em cada quintal uma farmácia do mato. Viva.

E no entanto o pião roxo na frente da casa.

A rede, as danças de pés atolado na terra, a agricultura, o cuscuz, a mandioca, a pescaria, o raizeiros, o artesão.

E no entanto o ato de conversar na “boca da noite”.

 Do nascer do dia, das fases da lua.

E no entanto, o Kariri Vivo no modo das pessoas se organizarem.

O aviso do Vimvim, Coruja, Bahia e Carcará.

Saber da véia d’agua no tabuleiro é uma tecnologia ancestral que preservamos. É essa herança que carregamos. 

É por isso, que estamos vivos.

E no entanto nossos avós silenciados gritando pro neto nas entrelinhas.

Escutamos.

E no entanto, você.

Eu.

O curumim que está sonhando.

O morador de rua com identidade negligenciada. Quantos Kariris dormem na rua devido um enorme memoricídio que reverbera a cinco séculos. 

                                                                           É medíocre negar a terra que tu vive e se alimenta.

É sobre #Abyayala

Tem um povo Kariri que pega peixe de rio com as mãos, como se fosse um só corpo. E esses peixes estão vivos. E esse povo está retomando.

Diário de um Filme por vir – o desejo de um corpo ilhado

Por Kiko Alves

As breves palavras colocadas aqui como pensamentos soltos de um corpo que aprendeu a habitar um mundo instável, são reflexões e pontuações sobre um filme futuro, mas nem tanto, que desejo produzir; para que entendam um pouco sobre mim em breves linhas, eu sou apaixonado pelo quão ordinária, comum, repetitiva pode ser a vida, sou apaixonado pelos pequenos movimentos, gestos breves, sorrisos tímidos, rostos leves, gosto de cheiro de coentro, de livros novos, gosto do perfume da casa da minha mãe, gosto do som de vozes do passado, que ouvi ainda na infância e que ecoam na minha cabeça em dias bobos, em dias onde sou pego pela saudade, e gosto das palavras, de algumas ao menos eu gosto muito, eu gosto da palavra desejo e não quero pensar nas implicações filosóficas disso, eu gosto da palavra desejo e a partir dessa ideia ou palavra, a uns dois anos comecei a escrever um filme, que tinha certa dificuldade de nomear, até que foi nomeado e essa ideia tem ficado mais clara.

Mas voltemos ao desejo, essa palavra tem uma origem muito curiosa, ela é derivada do verbo desidero, que, por sua vez, deriva do substantivo sidus, (mais usada no plural, sidera), que representa a figura formada por um conjunto de estrelas, constelações. Isso me deixou muito animado, entender isso, são os astros o desejo são os astros, sidera é também empregada como palavras de louvor, o alto e, na teologia astral é usada para narrar a influências que os humanos dão aos astros sobres seus destinos. De sidera, vem considerare, examinar com cuidado, respeito e veneração, e desiderare cessar de olhar os astros, deixar de ver os astros.

O desejo conceito que narra diversas linhas para se pensar o mundo humano,  olhar para o divino, e ao mesmo tempo a ausência de ordem divina,  o que coloca outra condição para os habitantes desse mundo, corpos e rostos perdidos em ruas escuras do em noite frias de Fortaleza, de uma cidade escura inabitável, e abandonados à própria sorte, órfãos num mundo onde o amor e o desejo; monstros da caixa obscura de pandora, controla ou quase isso o destino dos corpos de quase zumbis, passeando pelo campo das significações da teologia astral, desejo ou desiderium cria uma conexão entre deus e o mundo dos entes materiais e corpos e almas.  Pelo corpo astral, nosso destino está inscrito e escrito nas estrelas, considerare é  consultar o alto para nele encontrar o sentido e o guia seguro de nossas vidas.  Desiderare, ao contrário, é estar despojado dessa referência, abandonar o alto ou ser  por ele abandonado. 

Cessando de olhar para os astros, desiderium é a decisão de tomar  nosso destino em nossas mãos e, neste caso, o desejo chama-se vontade consciente,  nascida da deliberação, aquilo que os gregos chamavam bóulesis. No entanto, se o  “cessar de ver” aparece como um ganho para aquele que toma sua vida em suas próprias  mãos,  “o deixar de ver” é experimentado como perda e desamparo. 

Deixando de ver  os astros, desiderium significa privação do saber sobre o destino, prisão na roda da  fortuna incerta. O desejo chama-se, então, carência, vazio que tende para fora de si em  busca de preenchimento, aquilo que os gregos chamavam de hormé. Essa ambiguidade  do desejo, que pode ser decisão autônoma ou carências, transparece quando  consultamos os dicionários vernáculos, nos quais se sucedem os sentidos de desejar:  querer, ter vontade, ambicionar, apetecer na diferença sutil de duas palavras, em  português: desejante (o vocábulo exprime uma ação) e desejoso/desejosa (o vocábulo  exprime uma carência). 

Esse entendimento de desejo nascido na pesquisa sobre o filme, me ajudou a entender que tipo de corpo e atores me interessam para habitar esse universo, o mundo em que habitam meus personagens em sua maioria negros, habitam um mundo em desordem, que não se estabiliza, logo eu tentava encontrar modos de estabilizar o desejo num mundo onde essa ideia é vendida, mas nada dura, tudo é pautado pela instabilidade, o desejo representa bem isso, e queria pensar essas emoções, ou pequenas imagens para trabalhar com meu elenco.

Sob o signo da carência e da falta, a modernidade clássica, decisão racional de  abandonar as ilusões dos antigos mistérios, não cessa de repor o desejo com os traços  do Eros da genealogia desenhada pela fala de Diotima, no Banquete de Platão. 

Filho de Póros, o expediente astuto, e de Pênia, a Penuria, Eros nesta condição ficou,  narra Diotima. Esquálido, descalço, sem lar e sem teto, pedinte e endurecido, Eros  transita num mundo de privação e despojamento, onde o pariu sua mãe Pênia, carente  de beleza, “desejo de grávida”. Nem mortal nem imortal, Eros no mesmo dia germina e  vive, desfalece e morre para renascer a seguir. Insidioso e alerta, corajoso e decidido,  Eros, como seu pai Póros, é caçador terrível cuja astúcia maior consiste em converter  em amante o amado, fazendo-o desejar seu desejo. 

Seja como desejo de reconhecimento, seja como desejo de plenitude e repouso, o  desejo institui o campo das relações intersubjetivas, os laços de amor e ódio, e só se  efetua pela mediação de uma outra subjetividade. Forma de nossa relação originária  com o outro, o desejo é relação peculiar porque, afinal, não desejamos propriamente o  outro, mas desejamos ser para ele objeto de desejo. Desejamos ser desejados. 

Nesse mundo onde o amor e órfão de mãe e pai, esquálido, sem nome, sem rosto e  sem vida, parece que a única alternativa é fugir, Paulo foge, Julia resiste a fuga e  Roberto encontra nesse mesmo movimento uma possibilidade para o início de sua  vida, no final nada é o que parece

Kiko Alves

Fortaleza – Janeiro de 21

Tipo uma trilogia autobiográfica

Cocó e Sabiaguaba: um olhar socioambiental sobre a criação do Parque -  Renato Roseno
Fonte: Google

Meu amigo Ivo, tempos antes de morrer, compartilhou comigo seu plano de escrever uns três livros, segundo ele, mais ou menos autobiográficos. Morreu sem ter tido disciplina, paciência ou perseverança suficientes pra sentar a raba numa cadeira simbólica qualquer e pôr na palavra o que sua cabeça pensava em ditar. Como homenagem ou gesto oportunista, tanto faz, resolvi confiscar as cenas que ele imaginou e redigi-las como se fossem minhas, mas logo desisti do fingimento e deixo claro de onde elas vieram.

Por uma questão de, vamos dizer, honra, procurei acrescentar algo de meu antes de as palavras caírem no teclado e na tela. O que não foi difícil, já que convivi longos anos com esses acontecimentos de mentira na minha cabeça, até que eles começaram a parecer inventados ou mesmo experimentados por mim. Talvez isso se deva ao fato de que, da mesma maneira que o Ivo, eu tenho ao longo da vida misturado o vivido e o imaginado graças à esquizofrenia nossa de cada dia. Ele, inclusive, dizia brincando que nem eu, nem ninguém nunca saberia se os fatos a seguir aconteceram de verdade ou não, o que talvez seja o mesmo que dizer: aconteceram ou acontecerão em breve. Quem conta essas histórias, quem diz “eu” nelas? Ivo, eu? Não sei.

O quarto.

Aos 30 anos de idade, eu deixei meu quarto e saí de casa. Ou foi aos 20? Vamos dizer que foi aos 30. Até então, morei com minha mãe, minha irmã e meu avô numa casa pequena da periferia de Fortaleza. Eu nunca ouvi falar no meu pai ou em outros parentes ou pessoas próximas. Minhas lembranças mais antigas eram naquele quarto: minha mãe passava algum tempo comigo nele até eu completar seis ou sete anos de idade. A realidade é uma colcha de retalhos costurada. Retalhos de banalidade costurados com fios do absurdo. Um gato morou com a gente durante parte desse tempo: enquanto viveu. A casa tinha três quartos: um para meu avô, um para mim, um dividido entre minha mãe e minha irmã, mais jovem que eu uns cinco anos. Nunca soube o porquê desse privilégio masculino, e só consegui refletir a respeito quando já não estava mais morando ali. Talvez tivesse a ver com o fato de que ninguém nunca entrava no quarto do vovô nem no meu. Tampouco eu saía do quarto; não me lembro de ter feito isso alguma vez ou, nas vezes em que achei que saí e andei pela casa, não sei se isso aconteceu mesmo ou se estava sonhando ou se isso tinha a ver com os remédios psiquiátricos que minha mãe me dava. Quanto ao vovô, um dia, quando eu tinha 15 ou 16 anos, o gato entrou no quarto dele por um buraco no canto inferior da porta que, segundo elas, estava velha e quebradiça; minha mãe e minha irmã gritavam desesperadas para o que o bicho voltasse, mas ele nunca mais saiu do quarto em que entrou. Elas não sabiam o que tinha acontecido com ele, já que não entravam nunca no recinto do vovô; tampouco descobri o porquê disso: só minha mãe parecia saber o que aconteceria se alguém entrasse no quarto do vovô, mas ela simplesmente se recusava a falar sobre. O vovô não falava com ninguém, não respondia nada; apenas, que nem eu, recebia a comida e o penico por debaixo da porta e devolvia prato vazio e penico cheio em horários em que ninguém tava observando. Eu fazia quase o mesmo, com a diferença de que, nos momentos de recepção ou devolução dos utensílios de comer e evacuar, eu conversava um pouco com minha mãe e minha irmã caçula pela fresta no canto inferior da porta. Talvez as portas desses dois quartos fossem emperradas: a do meu quarto estava, eu descobriria um dia. Depois de falar com minha mãe e minha irmã por uns minutos e receber ou devolver os itens necessários, eu fechava a tal fresta com o pedaço inferior da porta que servia como uma portinhola, uma microporta na porta. O vovô machucou o gato? Ele o convenceu a nunca mais sair dali? Eu não sei. Nunca soube. Eu não sabia sequer por que não podia sair do meu quarto; minha mãe apenas dizia que isso não me faria nada bem. Então, por amor a ela, eu me acomodei àquela situação, até porque ter um quarto só para mim não deixava de ser um privilégio. Ou algum tipo de precaução? Minha mãe tinha me dado um pequeno gravador de voz, além de letras e palavras desenhadas em papéis amassados. Assim, os anos seguindo, eu fui aprendendo a ler. Minha mãe era professora. Ela passava, cada vez mais, por baixo da fresta da porta, livros que pegava emprestado numa biblioteca. Assuntos variados, coisas do mundo inteiro, modos de tentar saber das coisas, histórias reais ou inventadas. O quarto sempre parecia um pouco escuro, mesmo no claro do interruptor acionado. Eu não tinha amigos, não via ninguém: eu lia o tempo todo, sob a lâmpada fraca e amarela que me iluminava. Se bem que dizer que eu estava sempre só seria exagero: sempre tinha alguém comigo: eu sempre estava lá com você. Com muita frequência, eu via e conversava comigo mesmo; um eu da minha idade, ou muitas vezes mais novo, criança ou idoso, quando eu já estava quase adulto, por exemplo. Eu falava pra você coisas em que você nunca havia pensado ou coisas que você achava cruéis e agressivas, que te tiravam a vontade imensa que você sentia, apesar da resignação, de sair daquele quarto. Outras vezes, o duplo de mim mesmo, que dizer, eu, tu, aparecia e te apoiava, dizendo que você precisaria tentar ter a força que talvez nem eu nem você tivesse. Algumas vezes o carneiro aparecia e passava algum tempo caminhando pelo pequeno quarto. Depois sumia. O carneiro apareceu pela primeira vez num sonho: tinha o corpo de um carneiro comum, uma cabeça com rosto humano e quatro chifres. Eu sabia que não deveria olhá-lo, principalmente olhar diretamente seu rosto insuportável pra qualquer pessoa: sabia ou temia que, se fizesse isso, provavelmente nunca sairia daquele quarto. Uma pequena janela alta me dava sol, me dava lua, me dava ruídos da rua. Um dia, 30 anos haviam se passado e, no dia do meu aniversário, esse dia bem no meio do ano, minha mãe abriu a porta e disse que eu estava pronto. Eu nunca a entendi bem, mas até ali minha vida era só aceitar, talvez por não saber claramente que haveria outras opções. Aos 30 anos de idade, eu saí do quarto e de casa.

A Cidadela.

Fora do quarto, fora de casa, eu tentava entender o mundo, percebendo nos começos daquele novo tempo de existência que ele, o mundo, era bem diferente do que os livros contavam. Pra pior, muitas vezes. Mas era o mundo que eu tinha, era o mundo que se tinha, e existia uma vida querendo continuar, e coisas e pessoas bonitas também, e logo eu perceberia o quanto. Me tornei professor de crianças e adolescentes depois de algum tempo atuando em reforço escolar. Era um péssimo professor no começo. Sabia que precisava rapidamente aprender a interagir com pessoas, coisa complicada, cheia de cascas falsas e soluções ausentes, diferente dos bichos, das plantas, das pedras, da água e da areia, com quem era tão fácil me entender. Eu queria tanto falar, achava que tinha muito a falar, mas com pouco percebi que me sentia melhor me calando e deixando as pessoas falarem. Não por humildade, mas por insuficiência e, em seguida, por prudência. Depois dos procedimentos supletivos pra poder dizer que eu tinha algo parecido com uma escolaridade, consegui ingressar numa faculdade de filosofia. Gente de todo tipo, isso era atraente, mas a maioria estava mais preocupada com coisas que me cansavam logo: ser dono de muito, fazer um nome, ser alguém, ser notado. O mundo era assim, não era? Fazer o quê com isso? Conheci duas garotas com quem gostava de conversar: Mariana e sua namorada. Sempre rodeadas de gente que amava seu humor, sua esperteza, sua sutileza e sua rudeza eventual. Eram gentis comigo, apesar de melhores que eu em praticamente tudo. Eu me sentia inferiorizado, mas também fascinado pela energia intensa que elas jogavam no ar, na cara da sociedade. Elas me contaram de um projeto que tinham: Lucrécia, a namorada, possuía um terreno que herdara, próximo à rua da Sabiaguaba, e, junto com outras pessoas, estavam construindo banheiros, um galpão coberto, cozinha, áreas comuns, o suficiente para estabelecer ali uma comunidade. O mundo não é do jeito que a gente queria, mas a gente pode criar um mundo próprio que tenha olhos, ouvidos e braços abertos pra outros mundos, elas diziam. Comecei a frequentar festinhas, reuniões de grupos de estudo e de meditação que rolavam na Cidadela, era assim que chamavam o local arborizado que sediava a comunidade e sua vila de barracas de camping. Logo, eu tinha largado a faculdade e tava morando por lá. O grupo era composto principalmente por mulheres, uns poucos homens, algumas pessoas que não se identificavam com nenhum sexo e transexuais. Mais da metade, pessoas negras. Como produzir e manter uma sociedade, pouco numérica que seja, com práticas de potencialização de tudo o que cada uma ou um gostaria de ser? Como experimentar cotidianamente a liberdade? Como vivenciar o corpo, a mente, de maneira coletiva e inclusiva? Com essas pautas na cabeça e no corpo, estudávamos, festejávamos, todo mundo fazia sexo com todo mundo, ou pelo menos com quem quisesse, e farreávamos; tocávamos música, arrumávamos dinheiro de formas variadas: tempos depois, pouco antes do fim, ainda pude ouvir alguém comentar que aquela época era estranhíssima: depois de uma certa prosperidade econômica, veio uma tremenda crise. De tudo. De qualquer modo, enquanto pôde, houve uma grande afinidade entre aquele pessoal. Vinha gente de fora, interagíamos com o mundo, líamos poesia em locais diversos da cidade, nos reuníamos por aí, zombávamos da cidade, do gênero humano, amávamos o gênero humano. Todos muito ou mais ou menos jovens, mais jovens que eu em geral. Percebi que na privação remediada que era a vida que eu tinha levado com meus poucos parentes, no isolamento inexplicado em que tinha ocupado um quarto por 30 anos de vida, no ato mental de achar que eu tinha algo a oferecer ao mundo, percebi com isso o quanto eu estava iludido: o mundo é que teria algo a me oferecer, e eu precisava desesperadamente disso. Aquele matriarcado, em que enfrentar a incerteza e o risco de morte se tornaram valores exaltados, me impressionava profundamente. Fora da Cidadela, as pessoas eram comumente frágeis demais, ou muito carentes de aprovação, ou inconscientemente conservadoras e apegadas à autoridade, ou simplesmente mimadas; era incrível, mas eu tinha encontrado um lugar em que a atitude melindrosa e a vontade de ser famoso ou de levar uma vidinha domesticada e inserida no jogo do “aceitável” praticamente não existiam. Vivi tempo suficiente, alguns anos, no mundo ao redor, pra saber que um lugar daqueles só podia ser bom demais pra ser verdade, e, no entanto, tudo aquilo era real. Eu não acreditava, eu tinha medo de perder aquilo, porque sentia que ali tava rolando um tipo de equilíbrio frágil, provavelmente passageiro, e foi passageiro. Na Cidadela, tinha fragilidade, sensibilidade, tinha, sim, e muito, mas quem ali usasse essas qualidades como desculpa para comodismos ou prepotências logo se desencorajava a permanecer lá. Aconteciam rituais sincréticos, embora a maioria dos membros fosse ateia. Ateias e ateus espiritualizados, quer dizer, corporalizados, como se dizia. Um tempo depois, a Cidadela foi se esvaziando, e pequenos grupos dispersos resolveram levar o estilo de vida dali a outros lugares da cidade onde gente se aglomerasse, públicos, privados ou onde esses adjetivos se confundissem. A preocupação participante era evidente, mas se sabia ou se sentia que de pouco adiantava propor atuações em política partidária ou mesmo protestos pacíficos; logo, chegou-se à conclusão de que atos terroristas radicais eram uma urgência. Mas Mariana e Lucrécia, além de outras mulheres do bando, não queriam atos homicidas, que consideravam de uma grosseria real e simbólica desnecessária. Era preciso algo mais efetivo e mais sutil: destruir mecanismos de transações comerciais, financeiras, tipo. O mundo andava agitado, mais caótico que o habitual, naquela época, e isso podia significar acontecimentos inesperados e empolgantes… O colapso ambiental previsto fazia tempos por órgãos científicos veio antes do esperado: um esgotamento aparente dos recursos ambientais. De repente, tudo ruiu. De repente, pareceu que a sabotagem que o pessoal da Cidadela fez no sistema financeiro online da cidade se ligou misteriosamente a um blackout geral acompanhado de barulhos de explosão nem sempre ao longe. Tínhamos nos reunidos na Cidadela, depois de meses sem nos encontrar, e saímos de madrugada pra sabotar o sistema financeiro a partir de uma sala com computadores ligados num tipo de escritório mobiliado e alugado. Uma vaquinha imensa, entre gente desconhecida, pra fazer aquilo. Algo que não podia ser real, mas estava acontecendo. No escritório, ficaram poucos de nós. Mariana, Lucrécia e outras pessoas. O resto, pelas ruas, fazendo atos de agitação. Eu estava nas ruas, e até hoje não sei dos que ficaram no escritório. O blackout e as explosões começaram aí. Naquela noite, eu estava muito bêbado e chapado, e tudo foi ficando confuso: lembro apenas vagamente que cometi algum erro, algo como ajudar a incitar a parte do bando com que eu estava, junto de outros caras do bando, a atacar um grupo de policiais armados e nervosos em alguma esquina. Todo mundo tenso e nervoso. Depois, amnésia, cortes e saltos de cenas, escuro e silêncio. Acordei, não sei quanto tempo depois, só, sem lembrar de nada. Tava vivo? Numa cidade deserta. Era sonho? Não parecia. A vida, estranha.

A cidade.

Agora, naquele agora, eu vivia sozinho na cidade abandonada. Ainda existia gente por aí? Tinha comida em lugares diversos da cidade. Enlatada. Mais que o suficiente. Sem precisar limpar ou consertar, eu tinha a cidade inteira pra gastar; sempre tinha lugar pra conseguir comida e deixar merda sem precisar passar nunca mais por ali de novo. A cidade era suficiente pra uma pessoa avulsa. Passei a morar numa casa abandonada perto do mangue do Cocó, depois de perambular pela cidade algumas vezes entre a cidadela e a casa onde tinha morado antes, tentando achar o pessoal do bando ou minha mãe, minha irmã, meu avô desconhecido. Eu sempre tinha adorado histórias de personagens inevitavelmente diante de si mesmos, mas agora que vivia uma com essa intensidade, recusava, queria de todo jeito desfazer atitudes passadas na esperança de reverter o que tinha acontecido. Como se o que tivesse acontecido comigo, como se o que acontecesse com uma só pessoa, fosse resultado apenas das ações dela. Com o tempo, fui me resignando, e um tipo de serenidade às vezes alegre virou minha companhia. Nasceram árvores enormes pela cidade, de um tamanho que eu nunca tinha visto. Começou a haver estações do ano bem distintas, uma coisa que eu nunca tinha imaginado acontecer ali: inverno muito frio e sombrio. Seca, verão de semiárido. Outras estações, com climas intermediários entre esses dois. O inverno parecia um inverno nuclear passageiro, aquele tipo de situação em que a luz do sol é encoberta por gases ou fumaça por longos períodos. Dizem que os dinossauros morreram assim, não foi? Se tivesse alguém aí pra me responder. Depois de algumas semanas, a luz do sol voltava, e eu sabia então que provavelmente não morreria em breve. Eu sentia falta demais da Cidadela, da época em que eu era tão invisível quanto agora, mas era feliz. Passaram-se anos, e eu continuei vivo: quanto mais tempo continuava vivo, mais me impressionava com isso. Um dia, apareceu uma menina inesperadamente. Uma menina sozinha numa cidade daquele tamanho. Cada vez menos eu acreditava no que acontecia. Uns seis anos de idade. Tinha se perdido da mãe desde algum tempo, não lembrava quando. Muito danada, como se dizia, sorridente, linda, cativante. Fazia anos que eu não tinha companhia de pessoa alguma. Fiquei alegre como há muito tempo não ficava. Sem opções, a menina passou a viver comigo, primeiro meio assustada, mas confiando em mim gradualmente. A solidão compartilhada foi se transformando em confiança. A filha que nunca tive nem tinha pensado em ter? Procurávamos comida, conversávamos, eu a ensinava a ler melhor. Eu falava das minhas experiências estranhas, ela falava de sua mãe sendo mãe e pai no dia a dia. A princípio, Letícia, aquela filha postiça, mostrou alegria, energia, carisma e inteligência; na quase inocorrência de fatos a cada dia, algo foi mudando num quase imperceptível. A menina foi se mostrando irônica. Primeiro eu duvidava disso, achava que estava me enganando, tendo alucinações, como desde a infância suspeitava que tinha. Foi ficando clara uma relativa crueldade, da garota, em comentários nos quais analisava a minha vida diante de mim: meus fracassos. Estranhíssimo. Depois de tudo, era só que me faltava. Por que isso? Eu contava minha história pra ela, e a reação, antes amável e atenta, era essa, a de uma análise fria, precisa, pontuda. Eu não conseguia acreditar, não conseguia, não acreditava como tudo o que eu vivia era tão irreal, tão daquele jeito. Cheguei ao entendimento de que a menina tava frustrada e agressiva por não estar com a mãe. Pensei muitas vezes em me livrar dela, inclusive em deixá-la trancada num cômodo de casa abandonada, mas com o tempo me resignei como alguém que se resigna a um domínio; os dias não pararam de passar, não pararam. Houve um longo silêncio, de dias, meses. Aos poucos, sem opções melhores pra ambos, nossa relação foi melhorando. Se tornou amizade, parceria por carência afetiva e pela expectativa da vinda da mãe da menina. Era essa uma das nossas conversas frequentes: a mãe dela deveria estar em algum lugar da cidade, e deveríamos procurá-la, esperar que aparecesse. Elas moraram sozinhas, como eu vinha fazendo, por um tempo. A mãe dela estava por aí. Se tornou nossa meta: encontrá-la. Esperávamos, procurávamos. Letícia dizia: minha mãe é linda. Pra nós, ela era ansiosamente, sonhadamente, alguém por vir.