Efeitos de Elena Ferrante.

Gostaria muito de terminar esse texto. Esse início já não é o planejado e nem o que a priori
seria escrito no computador, já que ele surge de uma necessidade tremenda de escrever
em qualquer papel que tenha pela frente e vem com letras mais bagunçadas e confusas
que o usual. Dessas letras que, talvez algum dia, se olhem, seria motivo de desistência de
leitura. E graças a essa última fala, inicio então como previsto no bloco de papel: Sempre
tive uma ótima rotina de leitura. A construção dessa frase ressalta algumas coisas que
podem ser supostas. Em primeiro, logo me vem que pode parecer uma certa presunção ou
tentativa de me gabar sobre um passado que pode estar presente ainda. Em segundo, me
lembra que esse “tive” é um pretérito seguido de um sempre, sendo assim, não existe mais,
não seria motivo de glorificação. Então esses livros que sempre me arrebataram, me
compreenderam e até me ajudaram a me esquecer de mim, de alguma forma foram
alocados em outra posição na minha vida.


A necessidade que existia desse prazer, passou a se tornar uma perda. Perdi a vontade de
me reconhecer no olhar do outro. A leitura se tornou mais lenta, mais densa, pode-se dizer até dolorosa de se lidar. Sendo feita apenas quando necessária por motivos acadêmicos.
Nunca tinha entendido direito esse sentimento até “A amiga genial” e, infelizmente, esse texto não é sobre o livro. Muito menos algum tipo de resenha. Mas é sobre um dos assuntos que ele trouxe à tona ao longo da leitura: eu. E isso pode parecer mais egocêntrico do que realmente é.


“—Não quero mais ler nada do que você escreve.
Por quê?
Pensou um pouco.
__ Porque me faz mal.”


Esse texto poderia também ser uma sequência de trechos retirados desse livro, sendo apenas um compilado dos momentos que existiu um sentimento mais intenso, para quem precisasse ler apenas sentir, ou até mesmo numa tentativa de justificar um comportamento individual. E para além de identificações pessoais, me veio a necessidade de escrita. Essa que também eu abandonei.


Por medo.


E enfim, surge Elena Ferrante, na minha vida. Que nem sei quem é. Nem sei quantas pessoas sabem quem é. E que junto com seu anonimato, veio a exposição de várias pessoas. Eu me senti exposta naquelas páginas, quase de maneira violenta, afinal como seria me identificar com a brutalidade da realidade dessas pessoas nessa cidade italiana pós-guerra e com características de selvageria humana. Me expõe que não conheço quem escreve esse texto da mesma forma como não conheço ela, mas sou capaz de um reconhecimento mínimo pelas palavras. As mesmas que geram medo. Expõe que se essa Bárbara batesse na minha porta, me convidando para algo ou pedindo para entrar, eu bateria a porta na sua cara.


Ela que não é revelada, me faz escutar músicas de quando tinha 12 anos numa tentativa de transparecer algo que já existiu aqui e me agarrar numa imagem mais leve de mim mesma.
Uma imagem que permeia entre as duas personagens principais da história, uma amada,
outra vista como cruel. Essas duas sendo retrato de fases de mim mesma e talvez de toda
mulher. A competição e a necessidade de ser qualquer outra coisa além de mim, é relatado
pela adolescência das meninas, mas ainda está aqui.


Talvez, esse texto não seja sobre nada. E não informe nada. Seja fruto apenas de uma
necessidade de entender que não preciso de uma Lila, ou uma Lenu, ou de alguma
amizade para sentir conflitos. Já que esses me permeiam tal qual se estivesse uma cidade
toda morando dentro de mim. No mais, peço desculpas a uma pessoa em específico, que
não citarei o nome, mas que sinto muito por toda a competição gerada e tudo que foi
vivenciado de ruim graças a comentários alheios e necessidade rótulos como se fossemos
produtos de mercado qualificados como próprios para consumo ou não. Que existem
critérios a cumprir. Como se não fossemos tudo dentro de nós mesmas e não apenas
“amadas ou cruéis”. Sinto muito por ter sido conivente com isso, e até mesmo alimentado
uma competição pessoal de que seria melhor em algo que você ou você ser melhor na
maioria das coisas que eu. Talvez precise da reflexão se esse amor gera admiração que
pode ser confundido com inveja facilmente se não minimamente racionalizado.

Vamos falar de Novela?

Por Roberta Bonfim

Olá! Sou Roberta Bonfim, ando reafirmando o nome que carrego, para que ele me carregue. Não por similaridade a um personagem interpretado por Paulo Betti que tinha como jargão; “falem bem ou mal, mas falem de mim”. No meu caso, se não for para falar bem, por favor poupem meu nome, já tão censurado por mim e que busca por liberdade. Apresentações de brincadeiras à parte. 

Vamos falar sobre novela?

Era 21 de dezembro de 1951 quando realizaram a primeira experiência de história sequencial na televisão, “Sua Vida Me Pertence”, original de Walter Forster, com transmissão às terças e quintas, ao vivo, ainda não existia o vídeo tape. No início uma lindeza da teledramaturgia  eram as adaptações dos clássicos literários, como, Os Miseráveis, de Victor Hugo. Na autobiografia de Boni, ele ingênuo da memória nacional diz, “todos sabemos que Vida Alves e Walter Foster deram o primeiro beijo da televisão brasileira, mas poucos sabem que ela, além de brilhante atriz, é a fundadora e responsável pela Pré-TV, que cultiva com amor e carinho toda a maravilhosa memória da Tupi e da televisão Brasileira. (…) a Tupi foi precursora nos mais diversos gêneros de programas.”(Boni, p.43)

Museu da TV –  https://www.museudatv.com.br/

E se trago Boni, é porque é impossível falar de entretenimento no Brasil sem trazê-lo como modelo de um ser que criou e realizou transformações emblemáticas na história do país a partir da televisão, e fez uma equipe de publicitários de base no país. Aqui estamos falando de Alex Periscinoto, Julio Ribeiro, Marcello Serpa,  Fábio Fernandes, dentre outros. (Boni, 59) E do próprio criador responsável pela marca Rede Globo

De volta a teledramaturgia, a conquista da periodicidade diária, veio só em 1963, com a TV Excelsior. Mas, o primeiro sucesso mesmo foi a novela da TV Tupi, O Direito de Nascer. Em 1969 a TV passa a existir em rede nacional. 

E mesmo nos anos 80 e 90, tivemos a chance de assistir ao silêncio, em especial quando nos interiores, com a tvs por satélite. Eram os hiatos de transmissão, onde ou entrava programação local ou ficava aquela tela parada. Outro hábito que tínhamos era o de contar quantas propagandas tinham em um dia inteiro de programação. 

As Helenas ditavam comportamentos e os personagens de modo geral lançaram moda. E um grande sucesso dos anos 90 foi Pantanal, de Benedito Ruy Barbosa, transmitida pela Manchete, com Cristiana Oliveira no papel de Juma. A novela bateu a audiência da Globo. Outro marco da teledramaturgia foi “Xica da Silva” (1996), de Walcyr Carrasco, com Taís Araújo como protagonista. 

O fato é que a TV faz parte de nossas casas e cotidianos, pesquisa de 2016 diz que, de 69 milhões de casas, só 2,8% não têm TV no Brasil. Mesmo com a queda de audiência a partir dos anos 2020, as tvs e suas novelas ainda enchem as casas brasileiras.

Eu por exemplo amo-as mas não as assisto, pelo seu alto poder viciante, e por ela ser uma obra aberta, feita também pelo público, e faz tempo que entendi que a voz do povo, não necessariamente é a voz de Deus, ou a minha. Mas, assisti a das 9 anterior, “Um Lugar ao Sol”, que tinha no elenco arrasane a atriz cearense Georgina Castro, no papel da adorável Taiane, neta da Diva das artes dramáticas Marieta Severo. E já acostumada com o ritmo de assistir a novela da amiga, resolvi ver como a novela despertaria minhas memórias emocionais tendo por mote a novela Pantanal, que tem no elenco o querido Jesuita Barbosa. 

É uma novela plástica. Mas, vamos falar em ambiente? Antes de mais convido aos noveleiros que assistam ao primeiro capítulo das duas versões e observem as imagens territoriais, espaciais, as paisagens, e os atores em cena, o que faz a cena, vestimentas, adereços, sotaques, luz, sons, texturas, Mato Grosso, Paraná e Pantanal. E das dificuldades de contextualizar uma novela anos depois, e convidar o público a reviver e sentir saudades de realidades ambientais que estavam mais próximas nos anos 90 e que para alguns é de todo inexistente. 

Outra curiosidade divertida é reencontrar os atores que atuaram na primeira versão, vivendo outras pessoas nesta, as delícias da dramaturgia e do trabalho de atuação. E aqui faço um parêntese para permanente sensualização das personagens da linda de corpo e Juliana Paes, que apesar de todo drama parece não caber na realidade de sua personagem, talvez daí venha a questão temporal, na relação com o ambiente. E neste momento vivemos tempos diferentes dos anos 90 onde passa a primeira versão da novela e tenta-se que se passe a segunda, mas as cores são outras, os tons, falas, modos. 

E apesar da beleza das cenas, como a dança de Irandi para pegar o boi, que me lembrou um filme em que o mesmo ator dança no sertão, uma canção de Ney, ao que me lembro, não recordo qual o nome deste filme, mas é incrível, em especial esta cena, em que Irandhir nos hipnotiza com seus movimentos, mais uma competência deste ator tão inteiro aos seus personagens. É bonito assisti-lo.

Não estou certa se seguirei assistindo a novela, na nova versão, mas com certeza buscarei como assistir a primeira versão para olhar o Pantanal, que minha avó nos anos 90 conheceu, e me preparar para o dia em que eu mesma estarei pronta a este mergulho nessa profundeza de lugar, que ainda tem onças. 

Estes dias li um texto do jornalista Demitri Túlio em que ele falava do Jaguaribe, em tempos que leio meu ano de 1999, em que eu vivia Tabuleiro e a região com a quadrilha Arco Íris, e no texto o jornalista diz que se fosse o Jaguaribe iria embora do Ceará, fala das onças que aqui existiam e quem nem lembramos, nem sabemos. E eu coloquei minha dança em seu texto. Deu isso:

Findo este texto, no sem fim das reflexões, para que pensemos juntos:

O que sabemos do ambiente que vivemos e construímos? O que sabemos da história do lugar que dispomos? Como nos relacionamos com as natureza que somos e existimos? Como preservamos o que ainda existe? Qual a relação dos bois com a destruição de florestas virgens? O quanto conhecemos do país a partir das narrativas da teledramaturgia? Que mensagem passa? E como estamos nos relacionando com as nossas forças naturais? Qual a última vez que pegamos na terra? Há uma cena para mim forte, em que pai e filho pegam para beber a água do Rio. De que rio tu beberás a água? 

E se como Boni aprendeu lá nos princípios o entretenimento é ponte relacional da publicidade, o que simboliza Pantanal agora?

IPE

https://www.ipe.org.br/projetos/pantanal-e-cerrado?gclid=CjwKCAjwo8-SBhAlEiwAopc9W3zyg7EVFC-w7AJEOtmWTieNLthLvL8zB9–5oJ4CvMgJ9n4zoHrDhoCf6oQAvD_BwE

Primeiro episodio anos 90

Apresentação dos atores da primeira versão. 

Apresentação segunda versão

Primeiro episódio 2022

Papos nossos com Geo e Jesuita

Murillo João Ramos Acácio Ferreira da Costa – um Artista da Luz Vermelha. 

Por Roberta Bonfim @lugarartevistas

Olá! Não estou certa se me conhece, chamo-me Roberta. Roberta Bonfim. Mas pode me chamar como quiser porque se eu quiser atendo por qualquer nome, e do contrário nem pelo meu. Até porque ele ainda me causa estranheza. Parece mais forte que eu, mas tento agarrá-lo, crer e agradecer porque o hoje tá mais massa que o ontem e estou certa de como for, o amanhã me fará melhor.

É lógico que esta regra simples não se aplica só a mim, mas a nós. Basta olhar com carinho. Olhar-se afetuosamente, se chamegar um cadinho. Dizer-se: “ei gates tu arrasa viu?”. Chegou até aqui e consegue manter-se com esta alegria, caraca, você é fera. Ou ainda: Cara que dia em, normal tá destruíde, normal querer sumir, só não suma. Vai pintar um quadro, dançar a sua música preferida ou fazer qualquer algo que goste muito. Se não rolar, apenas feche os olhos por um minuto e vá para onde aquieta seu espírito, lá tome fôlego, ou se conseguir viva os dois lugares. O importante é se acolher com respeito e carinho. Bem como fazemos com quem dizemos amar, ou amamos, mas, melhor, por se tratar de nós. E quem somos é só nosso e nosso grande tesouro. 

E é sobre a multiplicidade de eu`s que sou que fico pensando ao sair do delicioso espaço da Casa Absurda, onde domingo assisti a segunda apresentação do novo espetáculo de Murillo Ramos, Murillo João Ramos Acácio Ferreira da Costa – um Artista da Luz Vermelha. 

O espetáculo é um mosaico de informações que tem a cor vermelha como ícone relevante. Eu pessoalmente me pergunto se é o vermelho a cor da Manada de Teatro, que estreou com o espetáculo Aquelas, com as atrizes Juliana Veras e Monique Cardoso, também com a preponderância do vermelho. O sangue.Voltemos ao Artista da Luz Vermelha. 

Se você tá vivo foi afetado direta ou indiretamente com as histórias do lendário Bandido da Luz Vermelha, uma produção midiática, sobre o terror e o medo, que consumimos ainda hoje em qualquer noticiário.  Uma construção midiática, mas não uma mentira. De imediato, no ato do espetáculo lembro do garoto do hoje 410, 174.Talvez. Que só queria ser visto. Mas, o pensamento vai embora rápido, pois a cena segue e logo o personagem a minha frente me apresenta outras facetas, o ator está emocionalmente envolvido com o todo que vive e isso também me emociona enquanto público. 

O espetáculo é forte e tá quase em sua totalidade no auto, felizmente dada hora o ator pede 3 minutos, eles são sagrados e conflituosos, trazem infinitas questões, pois mesmo a encenação de Murillo e a dramaturgia de Yuri deixando nítido que João Acácio Pereira da Costa, tinha alma, que o sangue que corria em sua veias era vermelho como o nosso. Tem outras coisas… Outras complexidades, contradições e reflexões sobre os sistemas; de saúde mental, o prisional, o social, e os choques, as torturas, o ambiente, 

Para que não haja dúvidas sobre a relevância desta figura, o Bandido da Luz Vermelha /João Acácio, está para São Paulo como Jack, o Estripador está para Londres. Entendeu? E João entendeu lá nos anos 60 que se estivesse arrumado passaria “despercebido”, tática usada por golpistas de várias épocas. Mas o fato é que João Acácio mudou a relação do paulistano com sua cidade, e logo todo o país, parte disso, trabalho de João, que levou nas costas infinitos crimes e mais 300 anos de detenção, que ele cumpriu 30 e foi assassinado com um tiro na cabeça quatro meses após ser “liberto”.

Não creio que o desejo do espetáculo seja justificá-lo, como também não é o meu, mas cabe sim a reflexão, de; o que eu faria no lugar dele? Vivendo aquele ambiente, aquela realidade. O passado  de João Acácio foi violento e solitário. Treinado no inóspito da rua, em tempos de crescimento das fronteiras sociais, este foi o ambiente que recebeu e criou este ser, em um tempo em que os veículos de comunicação se desenvolviam, o Bandido da Luz Vermelha tornou-se o pop star do crime, e mudou os hábitos ambientais da cidade e mais tarde do país. A TV chegava, o perigo estava na rua, o lema era  trabalhar e ficar em casa. A TV é sua amiga e você pode pensar em meios de segurança. Com o estresse, vai beber e fumar, o mercado se aquece. Nada acontece isoladamente. 

Estamos falando dos anos 60 (ou mesmo da atualidade), onde doido e pobre não era bem vindo entre a sociedade, e esses rasgos sociais vão ficando maiores e mais evidentes, e o Bandido da Luz Vermelha foi feito sob medida para o espetáculo que se construía e para execução das mudanças em prol da segurança. A sociedade havia achado quem culpar e se são os culpados, tudo bem não estarem assistidos pelos direitos básicos?!

João Acácio deve ter também inspirado a canção conhecida por nós de Renato Russo, ou talvez eu tenha apenas sido convencido da humanidade de João. Não me reconheço, mas se ele me pedisse eu cuspiria sim em sua cara. Não que ele seja digno de nada, é que eu também não sou, e ninguém é. Mas, eu fui lembrada por Murillo que não nos cabe ser o dedo que aponta, pois todes temos nosso lado sombra. Né?

Por fim, só agradeço a todes. Muito lindo de existir o espaço da Casa Absurda, que vou querer logo menos conhecer melhor, pois estava meio tumultuado por ter sido uma noite chuvosa. Grata Manada, Yuri, mas especialmente grata Murillo por sempre, – não houve uma única vez em que eu tenha te assistido, mesmo em ensaio, que eu não tenha sentido essa potência que és. Para minha alegria, faz anos que te assisto, coisa de uma vida, e te acompanho como quem acompanha novela. Mais e mais luz seja de qual cor, mas que brilhe!  

E próximo final de semana tem espetáculo sábado e domingo, então já garante o ingresso pelo simpla, e esteja preparado para fortes questões humanas e para sorrisos e aplausos que te causarão estranheza no ato. É que na simbologia os programas de auditório e as questões da ação induzida, são também sinalizados e geram reflexão.

E na esquina tem o bar resto, onde o atendimento é massa, a cerveja é gelada, mas a cozinha fecha cedo, mas é preciso mesmo muito estômago para dar conta de comer após este espetáculo. 

Sim… O Grupo é jovem mas já oferece exemplos de caminhos para o empreendedorismo cultural e sustentabilidade, sem deixar de pontuar em realidade aberta a relevância das artes e das leis de incentivo para construção e manutenção de uma cultura que vise democracias.

Vamos ao Teatro!

Sábado e Domingo – Casa Absurda, 20 horas. 15 meia 30 inteira. 

O Bandido já inspirou também na telona:

O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968)

Rádio Bandeirantes – entrevista

Fantástico

Há tb uma versão com Ney Matogrosso no papel do lendário Bandido da Luz Vermelha.

Baratas

Conheço seu som tão bem, que por mais discreto que parece aos ouvidos desatentos, seu caminhar é para mim despertador. Ouço o movimento de suas patas e sua capa super resistente arrastando no chão ao menor contato. 

Hoje uma me acordou de um sono de agarro com a filha. Acordou-me sem querer, estou certa disso, pois já avisei já em som alto por aqui que a barata que aparecer matarei como quem mata os demônios. Pois assim as vejo e por tempos tive tanto medo que paralisava, tremia e chorava, um algo parecido com um pânico.  Na grávidez quase partimos eu e Ana Luna quando uma voadora resolveu pousar na minha perna. E trazer à tona tantos gatinhos e memórias desta vida aqui mesmo em que elas, as baratas me apavoravam.

Mas, antes de ter coragem de abrir as memórias desta existência, cheguei mesmo a pensar em um adolescência movimentada e criativa, que eu fosse um resgate da segunda guerra ou de alguma ditadura, ou presidiária em alguma torre com baratas, tamanho o pavor por estes seres.

Hoje em uma ironia infeliz vivo o podre da burguesia em um prédio infestado de baratas. Tavei guerra, com venenos, sandálias a postos na cozinha e uma potência de morte. Isso! Uma potência e de morte! Um misto de pânico e desejo pela morte de cada uma. Observo-as sofrendo enquanto as mato afogadas na pia da cozinha e depois ainda jogo água fervendo para certificar de que não vivem mais. 

Do medo à sede por morte em frações de segundos e ali matando meus medos, vejo um alterar de mim, que antes olhava trêmula e paralisada meus horrores. Hoje mato a vassoura, chinelada, veneno, afoga e até na faca a barata que me aparece a frente e ao matar mesmo tomada por uma vaidade de torneira vencedora na arena, peço perdão.

Não sei se pensam as baratas. Mas, como defendo o diálogo entre as formigas, que apesar de sabê-las imundas, tenho respeito por sua comunidade organizada, e também por observar seus desesperos e mudanças de ritmos ao perceberem o perigo, e na luta pelo viver. 

Até as baratas lutam para viver. Correm, sobem, se escondem, buscam e por vezes encontram rotas de fuga. Mas, a parte das francesinhas que são as que sofrem com minhas chacinas noturnas na cozinha de casa, nenhuma outra habita o mesmo ambiente que eu sem com que eu as perceba, ouça, sinta sua presença.

Durante as chacinas baratescas na cozinha, minhas vítimas são em sua maioria as francesinhas, com quem antes de iniciar esse movimento de matança, pois uns dias fiz a experiência da convivência harmônica, como costumo fazer com pequenas aranhas, lagartas, abelhas  e outres visitantes que aparecem vez ou outra por aqui.

E a paz só foi rompida porque como nós humanos, os ratos, coelhos elas procriam rápido e logo encontrei uma mais ousada na geladeira. e aí comecei as chacinas noturnas. Mas, hoje eu dormindo uma das grandes em vingança ou simples ousadia interferiu no meu sono. Deitada ainda, ouvi-a mexendo, certamente fugindo da gata que silenciosa achará o brinquedo da madrugada, não fosse meu incômodo com o som que emite ao se mexer teria deixado a gata se divertir, mas não resisti.

Levantei-me, olhei-a, senti todo aquele medo já conhecido, mas fui pegar o sapato para matá-la quando ela sumiu. A gata ficou de espreita, entregando o paradeiro dela e com a vassoura tirei-a debaixo da cama e com a mesma, mate-a com pandas leves e certeiras, matei-a enquanto dizia: perdão. Só não sei se a mim, a ela, ou a criança que ali dorme tranquila.

Roberta Bonfim