Fitas pretas

No funeral do meu avô, meu pai alfinetou uma fita preta na lapela, símbolo de luto pela perda do ente querido.

A cena fixou-se na minha jovem retina, por ter sido talvez o meu primeiro contato com a morte de um familiar. Meu pai permaneceu com seu adereço de pesar por um longo período. À época, apenas as mulheres enlutadas trajavam-se completamente de preto. As crianças, de modo geral, eram liberadas da convenção.

Essa lembrança afetiva emergiu após me deparar dias atrás com a imagem de fitas pretas amarradas à tela de proteção da varanda de uma amiga virtual – status que em nada invalida a minha concreta admiração por seus posicionamentos.

Tratava-se de um manifesto de luto coletivo diante da assustadora marca de trezentas mil vidas brasileiras perdidas para a COVID-19 em doze meses. Trezentos mil pares de olhos que não mais piscarão à luz do sol, trezentos mil corações que não mais se inspirarão sob a lua cheia, trezentos mil pares de mãos que não mais afagarão rostos amados, trezentas mil bocas que não mais sorrirão ou beijarão, trezendas mil pessoas que não abraçarão mais os pais, avós, filhos, netos, irmãos, sobrinhos e amigos.

A triste alegoria da fitinha preta na lapela agiganta-se na tragédia que ora vivemos. Dizer que a morte é natural não conforta quem perdeu um, dois, três ou mais parentes para a terrível doença. É, antes, de uma monstruosidade sem limites e total falta de empatia, atitude própria de mentes doentias. É desesperador ver dezenas de milhares chorando familiares que poderiam estar vivos se tivesse havido, por parte das autoridades competentes, controle imediato e rígido ao uso de equipamentos de proteção, celeridade na aquisição de vacinas para imunização em massa da população e ajuda financeira contínua aos mais vulneráveis, como muitos países o fizeram e ainda fazem.

Na ausência de vacinas para todos e de auxílio emergencial suficiente, só nos resta a autorreclusão e doses de solidariedade. O que mais precisa acontecer para entendermos que a “vida normal” anterior à pandemia do novo coronavírus – encontros com amigos, viagens, farturas e megacelebrações – não combina com esse momento de dor coletiva? Chega de falsos discursos de compaixão e pseudodilemas entre salvar empresas ou vidas. É preciso dar um basta aos que estimulam desobediência civil ao confinamento obrigatório responsável, aglomerações e brindes macabros à morte de brasileiros dos grupos prioritários, principalmente.

Em vez de perdermos tempo rebatendo provocações, vamos exigir do poder público federal providências emergenciais para tentar salvar o emprego de trabalhadores e livrar da fome os mais necessitados. E também reverter erros e omissões de 2020, como o atraso na compra de vacinas, a inexistência de um plano nacional de imunização e a incitação a manifestações de rua que proliferaram o vírus exterminador.

Enquanto toda a população não for vacinada, a prioridade continua sendo salvar pessoas. Economia de nenhum país sobrevive a quase quatro mil mortes diárias somente por Covid-19, entre trabalhadores e consumidores em geral, incluídos operários, professores, médicos, estudantes, enfermeiros, advogados, artistas, informais, desempregados, aposentados, profissionais liberais, empresários, comerciantes e políticos.

Precisamos assumir que estamos em guerra contra um único inimigo: o vírus, que, se não for combatido, vai continuar matando pessoas e eliminando empregos dos [ainda] vivos. Ficar um ano – ou mais – confinado – total ou parcialmente – é ético, é obrigatório, é dever de todos. Caso contrário, não haverá amanhã.

Vamos refletir e rever nossos atos, antes que o futuro reivindique a nossa responsabilidade. A cobrança pode vir de um filho, filha, sobrinho, sobrinha, aluno, aluna, neto ou neta: “Como você contribuiu para salvar vidas na pandemia de 2020 e 2021”? Ninguém vai perguntar se salvamos empresas.

Qualquer ação é válida. Até amarrar uma fitinha preta na tela da varanda para demonstrar que a gente se importa com a dor do outro e que as vítimas não serão esquecidas.

*

Imagem: Regina Dalcastagnè

As lutas de março

Desde a minha última postagem sobre o dia dedicado internacionalmente à mulher, poucas mudanças ocorreram de fato.

Louvo todas as conquistas femininas do último século, principalmente, mas ainda há enormes desafios a enfrentar. A começar pela nossa pouca adesão ao movimento. Uma pesquisa de 2019, feita pelo Data Folha, mostra que apenas 38% das mulheres brasileiras se consideram “feministas”. O percentual sobe para 47% entre as mais jovens (com menos de 35 anos), e para 44% entre as que concluíram o ensino superior. Enquanto isso, fontes oficiais denunciam dados aterradores: mata-se no Brasil três mulheres por dia, pelo simples fato de serem mulheres.

Proponho nos debruçarmos sobre os motivos que levaram à escolha do oito de março como marco da luta feminina por um mundo mais justo e igualitário. Para começar, a data foi inspirada na mulher operária. As referências mais citadas evocam dois episódios transcorridos em Nova Iorque durante greves de trabalhadoras têxteis que teriam acontecido no mês de março de séculos distintos, reprimidas violentamente pelos patrões e polícia. No segundo episódio, morreram mais de cem mulheres queimadas dentro da fábrica em que trabalhavam.

Não se trata, portanto, de data comercial, como Dia das Mães, Dia das Crianças, Dia dos Pais e outras tantas criadas para aquecer as vendas e fazer girar a economia. Já critiquei várias vezes a forma equivocada com que publicitários e estabelecimentos comerciais propagam um dia que deveria ser de reflexão e debate.

Oito de março pode até vir acompanhado de rosas vermelhas, desde que não desqualifique a luta feminina. Temos todos os outros dias do ano para as celebrações festeiras – que são maravilhosas.

Vamos guardar esse dia para lembrar ao mundo da importância de se combater diariamente as injustiças e desigualdades entre os sexos, e para fortalecer a luta feminina – que deve ser de todos – pelo direito à vida, equivalência salarial e direitos reprodutivos, entre outros.

“Sejamos todos feministas”, apela a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Quando uma mulher luta pelo seu próprio espaço, ela pode melhorar o mundo. Isso é ser “feminista”. Vamos subir os índices da próxima pesquisa?

O DESPERTAR DE MOTTI: MAS PODE SER O SEU!!!!

Por Silvia Helena de Amorim Martins

Você nunca sabe o que pode acontecer.

O jovem Motti, pertence a uma família judia e tem seu destino traçado pelas convenções, se relaciona em sua maioria com pessoas da mesma crença e hábitos. É um homem com o destino traçado pelos outros, o ponto de virada inicia quando o rapaz começa a se sentir incomodado com o comportamento intrusivo da mãe que passa a procurar uma noiva para o filho e ele não aceita se submeter a um casamento sem amor.

Ao logo da película, percebemos o quanto é incomodo ao outro quando o rapaz passa a tomar suas próprias decisões, a mãe sempre repete a mesma frase: “Quando você era criança era tão bonzinho e agora é isso”. Vamos nos demorar um pouco nesse trecho, guiar a própria vida, fazer escolhas e dizer não é uma atitude rebelde e libertadora. Mas sempre trará conflitos quando o outro percebe você como propriedade: “Meu filho (a), meu namorado, minha namorada, meu marido, minha esposa”. Sinto lhe dizer que nada é seu!!! Pessoas não são objetos e estão conosco por que desejam e dependendo das circunstancias podem deixar de desejar.

Aos poucos Motti vai despertando para o mundo e para sí, sua primeira mudança é livrar-se da barba, depois mudar os óculos, algo muito simbólico, o rapaz passa a escolher outro modo de ver e se colocar no mundo, após roupas, amigos e assim por diante, um passo de cada vez. 

E eu lhe pergunto: você vai começar esse despertar por onde? Estamos fechando fevereiro de 2021, não façamos desse ano uma reprodução de 2020. Sempre existe uma porta a ser fechada e outra a ser aberta! Algo que precisa chegar ao fim para dar lugar a um novo começo.

Mas, para algo mudar é necessário que você dê o primeiro passo rumo ao desconhecido, eu sei não é fácil, mas provavelmente a situação que você está inserido também não está agradável. O que será que lhe prende ao velho? Será o medo do novo? O medo de perder algo? Mas será que as perdas também não trazem ganhos? Eu acredito que sim.

Vale destacar que o caminho da mudança é desafiador, exige sustentar a decisão, em um determinado momento do filme Motti é expulso de casa como castigo por escolher se relacionar com uma mulher não judia. Mas mesmo amargando a dor da perda da família, a solidão ele não retrocede, ele continua seguindo no que acredita. E eu te pergunto você segue o que acredita? O caminho que você está trilhando é da ordem do seu desejo ou do que desejam para você? O melhor para sí é diferente do melhor para os outros! O que você acha de desconstruir lugares, posicionamentos e dinâmicas de relacionamento em que você está na posição infantilizada (quando o outro escolhe por você)? 

Eu acredito que se esse texto tem o poder de sucitar reflexões e que vai chegar em quem precisa despertar. Então sigamos!!! Um grande abraço! Se cuida daí, que eu me cuido daqui.

DE COVID-19 À MODA E PREVISÕES

Thanos, causa e efeito da Morte

A Covid-19 pode até ser considerada um marco histórico do ponto de vista de um ensaio político mundial como tentativa de controle da sua expansão. Porém, devemos lembrar que as pandemias mesmos têm uma história. Vivemos em um mundo de experiências complexas. A famigerada gripe espanhola talvez seja a que mais aproximadamente se compara com a covid em termos de expansão. Outras variáveis como letalidade talvez não se apliquem ao mesmo nível que doenças como Aids, Ebola e outras. Também as questões econômicas fazem parte em termos de letalidade quando se fala de mortandade. Lembro que no Brasil morrem anualmente em torno de um milhão e duzentas pessoas, sendo uma das principais causas os acidentes de trânsito. No mundo hoje, há uma estimativa de um pouco mais do que isso para a totalidade de pessoas vitimadas pela Covid-19.

O que tem de mais interessante, entretanto, na observação desse fenômeno é a pouca atenção que tem sido dada para o universo da previsibilidade. Não estou a falar de bruxaria ou xamanismo ou qualquer elucubração mística. Estou falando de uma simples e poderosa ferramenta chamada Ciências Sociais (em maiúsculo para caracterizar a disciplina).

Percebo que pelo menos desde 2013 – naquele episódio da anterior à Copa do Mundo – que o mundo tem vivido uma estranha maneira de se fazer política mas principalmente de entendê-la. Os fundamentos das conquistas nos campos científicos, sociais e tecnológicos estão aparecendo como reféns de uma espécie de “ZeitGeist” do obscurantismo e das crenças anacrônicas. Os exemplos variam entre apologias ao militarismo e à violência ao outro (enrijecimento das fronteiras) até os níveis de crença da terraplanagem e cristais que se colocam no cú para limpeza energética.

Quem ainda não caiu no conto do vigário, tem mantido pelo menos uma visão lúcida do que está acontecendo: uma experiência político-ideológica cujo princípio é a implantação do medo e da discórdia por meio do descontrole proporcionado pela pulverização dos canais de comunicação, cuja finalidade única é a manutenção da estrutura social piramidal. Como as novelas da Record bem sabem: O Egito nunca esteve tão próximo!

PREVISÕES

O que as Ciências Sociais e ainda mais a História nos legaram foi a desconcertante descoberta de que há uma lógica ou raciocínio subjacente por trás da história da humanidade: torna-se imperativo conhecer os seus mecanismos de funcionamento para se fazer previsões. Ou melhor dizendo, antes de se vestir como vidente, prevendo exatamente o que vai acontecer, fazer um enorme serviço para a humanidade: pesquisar as condições que tornaram possíveis certos fenômenos acontecerem como aconteceram. A velha ideia de que se aprende com o passado nunca foi tão óbvia. E útil.

Em um vídeo que correu o mundo nas redes sociais em meados de 2019 vemos o eterno “franzino” – agora “old” – Bill Gates prevendo qual seria a maior catástrofe da humanidade. E pasmem, tratava-se exatamente de uma pandemia. Nada de colapsos financeiros ou guerras nucleares. Pura e simplesmente uma pandemia cujo controle seria inadvertidamente desafiador para as nossas condições políticas, econômicas e emocionais.

Certamente que o construtor de “toaletes baratos” anteviu corretamente esse fenômeno da mesma maneira que anteviu o potencial dos computadores pessoais da década de 80 implantando em cada um deles um sistema operacional de “lixo” capaz de embotar e limitar o pensamento daqueles que realmente visualizavam o que seria a “liberdade” e o “poder da liberdade” com o mundo informacional.

Mas se se quiser realmente entender o que está acontecendo no mundo do século XXI, fundamental é conhecer a história disso que são as Ciências Sociais. Desde pelo menos o século XVI que se fala em “modernidade’. O século XVIII a conheceu sob a roupagem das convulsões sociais movidas pelo novo sujeito chamado “povo”. E no século XX ganhou destaque o uso das máquinas e tecnologias cujo governo social se utilizou para ganhar o “trabalho” das massas. O claro propósito “biopolítico” do século XX foi de não mais garantir ao Estado o poder da morte mas de garantir às forças bio-tecnológicas (campanhas de vacinação, higienização e dietas alimentares que estabelecem padrões discursivos), o poder de “não mais viver e deixar morrer” mas de “fazer viver”. É por isso que somos hoje controlados por todo tipo de mecanismo que vê com maus olhos aqueles que um dia escolheram decidir morrer de determinadas maneiras. O discurso contemporâneo de hoje só tem como objetivo ocultar o poder da morte.

MODA

Surpreendentemente, um dos campos que podem parecer distantes de quem fala sobre economia e política é justamente o que mais têm dado exemplos de previsibilidade comportamental: a moda. Esse campo essencial e ao mesmo tempo estético da humanidade é o campeão em revelar tendências. O ponto de vista estético é aliás um dos grandes campos promissores para se entender o mundo. O grande místico marxista Walter Benjamin trouxe acertadamente a previsão de como poderia se desdobrar para o mal o advento da fotografia e das filmagens sob controle estatal. O nazi-fascimo com a sua faceta imagética de um “volksgeist” fornecia a identidade de uma unidade política coesa capaz de obstinadamente sacrificar seus outros irmãos humanos em prol de uma raça ou de um Estado mais forte.

Para mim é assustadoramente esclarecedor o que acontece no cinema. O poder de grandes mentes que governam a imagem do mundo e que quase naturalmente moldam quem somos. O final da saga da série “Os Vingadores” foi um reflexo do que acontecia na estrutura mundial. A partir da agência de Thanos se previu em apenas poucos meses o fenômeno universal de uma mortandade cujo significado obscuro apenas a sua consciência era capaz entender. Thanos fez o papel de carrasco tal que os agentes nazistas que se explicaram no julgamento de Nuremberg declarando terem feito o que fizeram “porque estavam recebendo ordens”. Engana-se quem pensa que a ordem vinha somente de Hitler. A “voz” que lhes dizia o que deveriam fazer não tinha origem num único líder – tal como a errônea visão de heroicidade que Hollywood gosta de propagar – mas no incrível místico poder que é a capacidade de unificar a imagem do indivíduo dentro de algo maior do que ele, um pertencimento coletivo, o Estado soberano, ou Deus.

PANCADA

Hoje, o princípio básico do binômio amigo-inimigo funciona perfeitamente para unir a Humanidade contra um Vírus. A grande contradição que vivemos e que poderá ganhar uma resolução futura está acontecendo justamente agora. Estamos no olho do furacão. O futuro da humanidade dependerá da capacidade de resolução que construiremos em relação à imagem do planeta em torno de si. Mais do que uma visão Extra-Terrestres de Marcianos invadindo o planeta tendo como arsenal de defesa as bombas nucleares construídas no século XXI viveremos agora um desafio ainda maior. Nossos extra-terrestres são invisíveis e as armas de defesa dependerão de um entendimento sobre o que é ética e moral. Mais uma vez trata-se de deslocamento de fronteiras. De que lado você estará lutando? E afinal você sabe quem é o seu inimigo? Ainda mais importante, você sabe qual a sua verdadeira guerra?

Quem estiver vivo, viverá e/ou só verá…

Era uma vez uma casa triste

“Uma casa arrumada é uma casa morta; onde há vida há perturbação da ordem”. A voz grave e melodiosa do filósofo Mário Sérgio Cortella entrou pelos fones de ouvido enquanto eu transpirava no meu limitado circuito aeróbico: sala-cozinha-varanda, com algumas barreiras no meio do caminho.

Se existe uma casa viva nesses tempos de pandemia, é a minha, constatei ao circular pela quadragésima vez a mesa de jantar transformada em ilha de trabalho, com computador, cadernos, blocos, livros, canetas e um suporte para celular; ou ao me esgueirar por entre sofás, poltronas, pufes e esbarrar numa banqueta deixada fora do lugar; ao roçar mais uma vez a perna direita na porta rebelde do armário sob a pia da cozinha; ao saltar as anilhas de halteres no canto de um degrau; ou ao pisotear as folhas amareladas na varanda.

O resto do dia refleti sobre o direito de uma casa ser alegre. Direito a almofadas e cadeiras fora do lugar; a piano centenário explorado por dedinhos desafinadores; a bicho gigante de pelúcia ocupando metade da sala; à garrafinha d’água vazia junto à xícara de café sorvido sobre a mesinha de centro; a colchonete de treino funcional esquecido na varanda; e a até uma leve camada de poeira sobre os móveis.

Admito que mantive a minha casa impecavelmente linda – aquela que se costuma chamar “casa de revista” – mesmo à época de dois filhos desbravadores que já me deram netos. A chegada dessa novíssima geração levou-me a concessões antes inimagináveis. E agora, após onze meses de confinamento em casa e afastamento social, com tantas perdas de vidas humanas para a Covid-19, a arrumação e ambientação esmeradas foram banidas de vez da minha lista de vaidades.

Percebi que existe harmonia na desordem. Quando tudo é muito certinho e previsível, a vida se torna estática e triste, igual a uma casa arrumada. O meu lugar hoje é muito vivo, para a minha alegria, do meu marido e dos nossos pequeninos.

O filósofo tem toda razão.

Sonhar é resistência

Neste 2021 quero sonhar todos os sonhos impossíveis, como os autênticos sonhos devem ser.

Planar entre os pássaros como se um deles fosse. 

Correr mais veloz que o jamaicano Bolt.

Trocar de roupa em três, dois, um…

Atravessar a nado, em seis horas, o Canal da Mancha.

Bailar como Odette no Lago de Tchaikovski.

Perguntar ao meu pai o motivo da sua risada, enquanto ele se enxágua lá no chuveiro. 

Ouvir da minha irmã os perrengues hilários nas suas viagens com colegas e amigos.

Levar a Buba e a Babu para caminhar no calçadão da Beira-mar de Fortaleza.

Dar corda na bicicletinha que ganhei da minha madrinha no aniversário de cinco anos.

Desembaraçar o cabelo sintético da minha boneca “Xodó”. 

Dividir com Lygia o prêmio sueco de literatura. 

Ser derrubada por um filhote brincalhão de Rott e não sofrer um arranhão.

Chegar ao topo da cordilheira himalaia.

Conversar com a criança que fui um dia. 

Acordar e perceber, entre aliviada e aflita, que tudo não passou de um sonho.

Feliz 2021, metade real, metade fantasia!

Sobre Bel, recomeços e filhos de papel

Eu poderia falar do meu livro de contos, Confinados, que será lançado dentro de dez dias, mas acordei novamente cismada com Belchior e no que ele teria sentido para criar “Tudo outra vez”.

O lamento poético que mistura amargura e esperança e que embalou grande parte da minha juventude, noite dessas sacudiu meus sonhos maduros e me fez passar os últimos dias cantarolando os mesmos versos.

“…Minha rede branca, meu cachorro ligeiro

Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro

O fim do termo saudade como o charme brasileiro de alguém sozinho a cismar…”

O genial compositor cearense teria mesmo se inspirado na repatriação de amigos exilados por força da ditadura militar? Tudo leva a acreditar que sim, pelo ano de criação da música – 1979 –, o tal da anistia.

Vejo-me, inevitavelmente, voltando ao meu refúgio sertanejo, lugar de acolhimento de amigos e familiares, de onde estou afastada desde o início da pandemia, sem previsão de um retorno breve.

A vida é mesmo feita de acasos e incertezas que exigem recomeços e ressignificações. Não ouso reviver emoções, alegrias, acontecimentos ou momentos. Primeiro, porque nada se repete e, depois, porque também mudamos a cada dia. No momento, adio planos e cuido para que a esperança sobreviva ao caos. Poderei viver novas experiências em um sertão que tem tudo para se transformar para melhor. E sigo sonhando com o dia em que cruzarei novamente aquela porteira e saudarei todos de lá: “Gente de minha rua, como eu andei distante…”.

Quanto aos “filhos de papel”, estou muito feliz com o nascimento do meu quarto livro. Dedico-o à minha única e inesquecível irmã. Creio que ela – tão fã do Bel quanto eu – ficaria orgulhosa da mana caçula que conseguiu emergir, malgrado a força densa que nos afundou a todos.

Desconstruções sobre o amor romântico.

Silvia Helena de Amorim Martins.

Se eu queria enlouquecer esse é o romance ideal. 

(Paralamas do Sucesso)

Era uma vez…. não sei se você já observou, mas todo conto romântico inicia da mesma forma, hahahahah e detalhe tem um príncipe e uma princesa, geralmente brancos e dentro do padrão eurocêntrico, raramente um casal inter-racial. Na vida real quando duas pessoas se encontram apesar do encantamento, os sinos não tocam, não tem sons de violino ao fundo, você não esta no alto de uma torre e ele não está montado em um cavalo branco. È tudo bem real, não tem esse glamour todo produzido pelo cinema, literatura e músicas. Observa-se as imperfeições:aquele dentinho torto, aquele cabelinho branco que teima em aparecer. Nada mais comum, afinal somos humanos e não saímos de um conto da Disney.

Nesse texto quero enfatizar que o outro, aquele seu crush (paixão súbita), gatinho(a), que faz seu coração batucar igual escola de samba no carnaval, infelizmente não vai lhe completar. É triste eu sei, acredite nas minhas palavras eu realmente sei hahahahah. O sofrimento amoroso, as frustrações são democráticas atingem a todos abaixo do céu, assinalo que os homens também sofrem por amor e como sofrem esses rapazes, mas devido uma estrutura social machista não é tão aceitável permitir que as lágrimas rolem. Vamos rasgar o véu e o verbo?!

Desde a infância é fomentado esse ideal romântico, esse imaginário fabuloso de que alguém vai nos completar. Isso me lembra Fabio Júnior : Carne unha, alma gêmea, bate coração, a metade da laranja e por ai vai hahahahaha.O psicanalista, Daniel Omar Perez afirma: O outro não vai me completar nunca, por que esse outro é faltoso e desejante, ele pode até caminhar junto, lado a lado masjamais suprir todas as expectativas, por que isso é pesado demais para qualquer ser humano na terra. É exatamente essa falta que eu tenho, você tem e a galera geral tem também, que a psicanálise chama de falta estruturante, em uma tentativa de satisfazer essa falta nos endereçamos a vida social, trabalho, amor, atividade física, lazer, dentre outras coisas que você pode nomear enquanto acompanha esse texto.

Será que não está na hora de se permitir descansar da angústia e da ansiedade gerada pelos ideias do amor romântico? Em 2019, de acordo com o IBGE 60% dos brasileiros e brasileiras estavam solteiros, suponho que imersos nessa pandemia que não acaba, esse número deve ter aumentado. Viu!!! Não é só você, tem todo um movimento que está desconstruindo o amor romântico. Seu eu sou contra o amor? Não, jamais só tenho uma visão crítica e reflexiva sobre o tema. O que você acha de enxergar o amor e o afeto como algo mais amplo, para além do par romântico? Será que amor de amigos, família são menores que o amor romântico? Eu sei que você está ai do outro lado dizendo: Há mais são amores diferentes. Concordo com você meu bem, são amores diferentes e provavelmente você quer um amor caliente que faça seu coração bater mais forte, pulsando só de emoção, que te faz acordar no meio da noite, que deixa você ansioso (a), com os olhos grudados na tela do celular a espera de uma resposta ahhahahahah. Mas esse é a questão, o amor romântico está pautado na impossibilidade, em um amor idealizado, que aponta o outro como perfeito (algo que não existe). Então acorda pra vida bebê!!!! Isso aqui é Brasil hahahhaha. O que você acha de um amor possível? De primeiro cuidar da sua casa interna / coração, antes de convidar alguém para entrar? Vai que nesse enclausuramento você se descobre como alguém bastante interessante e digno de amor?

Não estou dizendo para você se fechar, longe disso eu estou dizendo é para você se abrir para a vida, apreciar cada momento sem estar se martirizando com as pressões sociais que apontam que você precisa estar com alguém. A vida é agora, não se prenda a padrões, seja gentil consigo hoje!!!! E se aparecer um crush, que não fecha com ossonhos/ ideais? Mas é claro que ele/ela não vai fechar hahahahah a vida não é uma novela. E não estou dizendo que se jogue nos braços do primeiro que quiser hahahahaha. Mas apenas sai do alto da torre, fura a bolha de expectativas e se permite conhecer, conversar, deixar as coisas fluírem no seu tempo. Aproveitando a experiência no presente.

Mas claro sem deixar de focar em você, lembra!?Somos seres faltosos, quando nos acolhemos, nos cuidamos e acarinhamos passamos a ser menos exigentes com o outro e a enxergar as coisas como de fato são. Vale ressaltar a importância da rede de apoio: família, amigos e demais grupos. Bora, acalmar esse coração cansado(a)?!colocar as pernas para o alto, se espreguiçar e apreciar as dores e sabores de ser quem se é. Apesar das adversidade a vida é bem gostosa. Será que você não está vendo a vida passar, a espera de alguém que não vai chegar ( príncipe e princesa). O que você não pode é perder saúde em busca de ideais inalcançáveis. Um grande abraço!!! E até a próxima. Se cuida daí que eu me cuido daqui!!!