Identidade (ancestralidade III)

Há duas semanas iniciei um papo sobre ancestralidade e feminismo. Para começar, trouxe a memória forte e doce de minha avó materna, Dona Terezinha, a Mãezinha. Uma mulher que muito me orgulha, no presente, porque mesmo não estando mais nesse plano, sua história é contada por nós e fortalecida pelos valores deixados por ela. Falei ainda sobre a diversidade de nós mulheres nas construções diárias das lutas, conquistas, dos amores, dos medos e das dores. Trouxe um pouco do sentimento após a leitura do livro Identidade e força ancestral – Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo, inclusive, o responsável por estas minhas escritas e outras leituras sobre o tema. Escrevi sobre ser grata às tantas histórias incríveis de mulheres que vieram antes de mim, da nossa geração, que nos garantiram lugar de fala, existência, de vida. Trouxe também a minha gratidão pela resiliência das mulheres da minha família e pela minha história que está em curso. Percebi a importância, ainda mais, do feminismo em todos esses lugares e na vida de nós mulheres. Que bom que existe diversidade para acreditar e viver.

Hoje, para fechar esse nosso papo e acender o espírito de inquietação sobre nossas histórias, sobre a pluralidade de construir o feminismo vou falar sobre identidade. Quem somos nós mulheres? Quem é você, mulher? Quais histórias foram vividas antes do hoje para chegarmos até aqui. A nossa identidade nos faz livres? Quais os fatores, lugares, abraços, dores nos trouxeram até aqui? Como construímos o nosso ser?

Em busca rápida no Google, identidade vem “do latim identitas, a qualidade do que é idêntico (o que é o mesmo). É um conjunto de características essenciais do que diferenciam coisas, indivíduos ou grupos sociais; características próprias do indivíduo ou de uma comunidade; consciência que uma pessoa tem de si mesma e que a diferencia das outras”.

Banco de imagens

Na sociologia, além do conceito de identidade também é estudado a alteridade, de forma resumida, ela representa o grupo do outro, a dor do outro, o lugar de existência do outro. É reconhecer que, muito além da sua existência e crenças, também existem outras culturas, outras formas de pensamentos e que, acima de tudo, é preciso respeitar e conviver de forma civilizada com toda essa pluralidade.

Eu sou uma mulher negra de pele clara. Fruto de uma mulher branca com um homem negro. Esse reconhecimento é recente. Resultado de leituras, aprofundamento na minha própria história, dos processos de desconstrução como mulher, ser humano e intelectual. O estudo sobre o feminismo é um caminho que me ajudou muito a entender e reconhecer minha identidade. Ser uma mulher feminista também é recente. 

Me sentia completamente perdida em relação à minha identidade quando mais nova. Olhava para minha pele clara, meu cabelo crespo e me perguntava quem eu era. Não era reconhecida por pessoas brancas como uma menina branca, porque meu cabelo “não era adequado para essa cor da pele”, motivos de violências que pratiquei comigo como queimar por várias vezes meu couro cabeludo (tenho cicatrizes até hoje) e usar produtos químicos fortíssimos, como formol, para deixar meu cabelo liso e assim “pertencer”. Não era negra, porque a cor da minha pele nunca me tirou nenhuma oportunidade na minha vida, nem me fez ser vigiada nos lugares por onde andava ou qualquer outra violência sofrida por quem tem a pele escura. O conflito sempre foi reforçado pela minha família que, assim como muitas famílias, não conhecem e nem reconhecem suas origens. Não os culpo. 

Ainda no terror da chamada adolescência, eu também não era vista como uma mulher. “Masculina demais, só gosta de coisas de homens, não é feminina, só anda com macho, joga bola, não toma jeito de moça” e tantas outras frases machistas me acertavam. Na rebeldia nata da idade eu me apropriava cada vez mais desse lugar, considerado de masculino, à medida que as violências aumentavam. Levou muito tempo, muitas cicatrizes foram deixadas, dores provocadas para que eu finalmente pudesse entender que a  construção da identidade é um processo e que leva tempo.

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Trouxe essa clássica frase de Simone de Beauvoir no primeiro texto sobre ancestralidade e feminismo. E agora, quando falo sobre identidade, o uso dela se faz muito necessário. Diferente do modelo tradicional do patriarcado, que exerce forte influência sobre a construção das sociedades determinando funções sociais para homens e mulheres desde antes de seus nascimentos, a construção da identidade do indivíduo parte pela diversidade de processos que ele vai passar. No que diz respeito à nós mulheres e, as perspectivas do movimento feminista, é processo constante de desconstrução para a formação daquilo que nos representa, nos define, nos torna livres e iguais (no que diz respeito a direitos e deveres), iguais. 

Ser mulher é uma construção. A identidade é uma construção. É um longo caminho que pega um pouco de nossas heranças emocionais, espirituais, de carne, de convívio, do que absorvemos do mundo e damos de volta para nos caracterizar. Assim como a digital, a identidade é única, porém, ninguém nasce com ela definida. “Você tem que criar a sua própria identidade. Você não a herda,” Zygmunt Bauman sobre a definição de identidade pessoal. 

Ainda, de acordo com Bauman, a identidade é um projeto de vida. Talvez não na atualidade, visto a velocidade com que recebemos as informações, assim como as tantas certezas são fluídas. Mas ela deve ser um projeto construído e modificado ao longo da vida. 


Zygmunt Bauman – Identidade pessoal

Antes me tornar uma adulta, nunca havia falado ou ouvido sobre feminismo. Apesar de ele ter sido um dos pilares mais fortes das mulheres de minha família, mesmo elas não se considerando feministas, nos muitos anos minha mãe, minhas avós e minhas tias eram resistência e reinvenção na arte de ser mães, mulheres, escritoras de suas histórias. Aliás, até hoje são. Todo o meu respeito às mulheres que vivem a maternidade. É um projeto de vida que admiro muito. 

“Mesmo sem ter conhecimento sobre movimentos teóricos e militantes, mesmo sem ter ideia de como mudar um status quo de opressão, fica entendido por nós, que em momentos singelos, toda e qualquer mulher já se questionou de vivermos como vivemos. Partilhamos não só uma força ancestral e uma vontade de mudança, como também dores e indagações que permeiam nossa individualidade, ainda que de forma subjetiva.” (pg.63), trecho do livro Identidade e força ancestral – Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo.

Quem é você?

A pergunta mais demorada para ser respondida nos anos de análise. E muitas vezes, as respostas não ficam claras. Somos nós; o que trazemos de casa; das relações com os outros e com mundo; os medos; as dores. Somos o nosso olhar sobre nós, os olhares dos outros sobre nós, o lugar onde estamos. Somos nossas crenças, incertezas, os traumas que trazemos, as feridas abertas e curadas da vida. Não cabemos em uma linha do tempo que segue uma ordem cronológica. Somos a necessidade de se adaptar, na grande maioria das vezes sob uma perspectiva de violência, para caber e pertencer. 

No livro “Quem tem medo do feminismo negro” da Djamila Ribeiro, a autora conta sua história de silenciamento e das diversas tentativas de tentar caber para pertencer, um processo clássico do patriarcado. Ela revela esses lugares confusos e perversos que é a negação, especialmente por crianças negras, das suas raízes e, consequentemente, da sua existência. “Acostumada a querer agradar as pessoas para que fossem minhas amigas, patinei, sem saber o que estava fazendo . Por um tempo, já adulta, quando me lembrava dessa cena, me culpava por julgar que não havia respeitado minha avó. Tempos depois me dei conta de que teria achado graça”, Djamila, trecho do livro “Quem tem medo do feminismo negro?”.

O feminismo negro: entrevista com Djamila Ribeiro

Você se reconhece nesse lugar? Quantas vezes você desrespeitou suas raízes para entrar no padrão? Negou as lutas de suas ancestrais para não criar conflitos? Repito, a construção da identidade é um processo. Entender e se apropriar do movimento feminista é um caminho, especialmente para nós mulheres, para o fortalecimento dessa identidade. 

Eu sou uma mulher feminista. Sou negra. Sou uma mulher que sonha, chora, luta, resiste. Eu sou plural na minha individualidade. Eu sou uma das bisnetas de Maria Raimunda da Conceição da Silva Vitorino Souza Tomaz Gomes, mulher preta que nasceu como propriedade de alguém e recebeu na pele essa marca. Uma mulher analfabeta, que da vida tinha muito conhecimento, mesmo tendo sido privada de estudar da maneira tradicional. Eu sou a neta da agricultura Terezinha Gonçalves de Carvalho, semi-analfabeta que investiu todo o suor do seu trabalho na educação dos filhos. Eu sou filha de Antônia Anizia Gonçalves Moreira, mulher, professora que sob os ensinamentos de Paulo Freire aprendeu e nos ensinou que “a educação faz sentido porque as mulheres e homens aprendem que através da aprendizagem podem fazerem-se e refazerem-se, porque mulheres e homens são capazes de assumirem a responsabilidade sobre si mesmos como seres capazes de conhecerem”, Paulo Freire.

A identidade é um projeto de vida adequada a cada novo momento vivido ou espaço ocupado. “A identidade é uma construção social”, como defende a antropóloga Lilia Schwarcz. Analisando a formação da identidade do lugar Brasil, Schwarcz avalia o processo de construção da identidade como, “um fenômeno contrastivo, eu crio a minha identidade por contraste a alguém. Não é essencial. E ela é alterativa. Eu posso mudar de identidade dependendo do local. Num local eu sou professora. Num local eu sou mãe. Em outro lugar, ainda, eu sou amiga. Enfim, nós construímos várias identidades. No fim, identidade é uma resposta política a um contexto político”

Ser brasileiro: Qual a minha identidade?| Lilia Moritz Schwarcz

P.S.

Parabéns ao aniversário de um ano da Lei nº16.946, comemorado ontem 30 de julho, que assegura o direito de uso do nome social para travestis e pessoas trans em serviços públicos e privados no Ceará. O nome social deve ser reconhecido em registros, cadastros, correspondências e nos sistemas de informação de serviços de ensino, saúde, previdência social e de relação de consumo, dando maior segurança jurídica a pessoas trans e travestis.

Força ancestral: diferenças e compartilhamentos (ancestralidade II)

Na última sexta, começamos um papo sobre ancestralidade e feminismo. Hoje vou continuar o papo da ancestralidade a partir da perspectiva da pluralidade do feminismo. Quero me referir também à trajetória de mulheres, que mesmo negando explicitamente a importância do movimento feminista, acabaram por afirmá-lo nas conquistas de suas vidas. Acima de tudo, entender que nas histórias de nós mulheres há muitos caminhos e formas de lutas, o que, na maioria das vezes, não cabe dentro de um conceito abstrato. Cada mulher tem um universo, um cotidiano, várias experiências e particularidades. Especialmente, porque nós mulheres ocupamos lugares diferentes que têm a opressão ampliada, de acordo com a cor da pele, da classe e da orientação e da identidade sexual. 

“Quem nasce na periferia tem que construir uma força extra para lutar por seus direitos e espaços diariamente. Dentro desse contexto, a mulher parece deter um estímulo ancestral, enraizado, ainda que ela não tenha descoberto ou admitido”, trecho do livro Identidade e força ancestral –  Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo.

Todo o meu respeito às lutas, conquistas, aos lutos e às reinvenções das minhas avós, da minha mãe, da minha irmã e das minhas primas. Todo respeito à minha história. Todo respeito à coragem de lutar, mudar, perder e vencer de tantas mulheres. Nesse sentimento de conexão e nas leituras desses dias encontrei o livro “Identidade e força ancestral –  Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo”, resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Brenda Torres e Sabrina Nascimento, em Jornalismo pela FIAM FAAM – FMU, em 2016. A obra reúne o desejo de ambas em reaver suas histórias partindo do ponto de vista de estudar o feminismo por meio das narrativas das vidas de sete mulheres moradoras de diferentes periferias de São Paulo.

Pensar feminismo dentro da periferia de São Paulo é enxergar as diferentes vivências que se misturam e se fortalecem numa junção do individual com o coletivo. Essa caminhada é de longa data, desde nossas ancestrais, avós, tias e tantas outras mulheres com quem convivemos”, 4ª capa, livro Identidade e força ancestral –  Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo.

As histórias das vidas de Tula, Ana Paula, Marilu, Aline, Jéssica, Giovana e Bea, personagens do livro, de acordo com as autoras, são vistas a partir do feminismo interseccional, pois tratam de questões de gênero, raça e classe. Inclusive, vou continuar esse assunto em outro post de forma mais aprofundada. Por enquanto, deixo uma curta entrevista da Djamila Ribeiro para a compreensão inicial do que significa essa temática:

O que é feminismo interseccional? – Djamila Ribeiro

Na imersão das histórias de todas essas mulheres, “que buscam construir suas identidades a partir de incômodos com a estrutura do nosso sistema. Além disso, alimentam a sede por mudanças por meio do resgate da ancestralidade, a fim de olhar para o passado e projetar a construção de um futuro melhor” (pg.91) surgiu a necessidade/vontade de escrever sobre ancestralidade com fortes e importantes doses de feminismos, no plural, na diversidade que esse movimento deve ser. Sob a construção desse olhar busco, assim como estou, inquietar vocês (mulheres, especialmente, e homens) para falarmos sobre essas diferenças e compartilhamentos das nossas histórias, que envolvem medos, lutas, abismos, encontros e reencontros. 

Você é feminista?

Toda mulher tem que ser assumidamente feminista e levantar bandeiras? A mulher que hoje eu me tornei responde sim sem nem pensar. Especialmente, porque me considero salva pelo movimento feminista, pois ele é um forte influenciador pelo que me tornei como mulher e pessoa. É também resultado dos meus estudos e das minhas vivências pelo feminismo a maneira como me olho e olho o mundo. Para minha alegria, para alegria das nossas lutas e dos gritos por igualdade entre os gêneros de várias e várias gerações de mulheres o número de mulheres que se declaram feministas está crescendo.

A constatação é resultado de uma pesquisa realizada nos Estados Unidos e Reino Unido, pelo Instituto YouGov, de 2018 e divulgada no ano passado, que aponta que uma em cada cinco mulheres, questionada sobre ser feminista, diz que é. O resultado desse crescimento é reflexo de muitos anos de lutas, da força de mulheres unidas contra as tantas violências, por direitos iguais, por lugar de fala. É o não silenciar. É pelo crescente apoio de mulheres públicas e com um gigantesco número de seguidores ao movimento feminista. É resultado de debates, de trazer o assunto o tempo todo e por uma rede de encorajamento de mulheres que também já foram ou são vítimas de diversas violências para outras mulheres.

A mesma pesquisa traz ainda que o movimento feminista não encanta mulheres mais jovens. Algumas mulheres, não apenas as jovens, optam por não se afirmarem como feministas pelos estereótipos que, historicamente foram e são dados por meio de conceitos machistas e desrespeitosos ao que o movimento representa. 

A partir do livro Feminists Don’t Wear Pink and Other Lies (Feministas Não Usam Rosa e Outras Mentiras), de Scarlett Curtis, a autora fala sobre esses estereótipos, tais como o de que feministas são mulheres que odeiam homens, não gostam de maquiagem, não se depilam, não tomam banho (lugar  que se propõe a depreciar as mulheres e o movimento) como pontos que afastam mulheres do feminismo. Para a socióloga Christina Scharff, que ensina Cultura, Mídia e Indústria Criativa na universidade King’s College, em Londres, esses pontos são “cruciais”, a partir de pesquisa sobre o tema, que são apresentados por mulheres que rejeitam o feminismo.

O mundo não precisa do feminismo? | Isabella Trevisani | Mude Minha Ideia | Quebrando o Tabu

O feminismo, pelo contrário, na raiz do que seu significado se propõe, é definido como a luta por igualdade entre os gêneros. De forma mais intensa, o feminismo é liberdade. É o direito de escolha. É a quebra dos padrões. É um grito pela diversidade. É o direito de ser princesa, guerreira, careca, cabeluda, gorda, magra. O que desejar ser.  É fogo no patriarcado (adoooro)!

Em um outra pesquisa, também de 2018, realizada Grã Bretanha, uma em cada três mulheres de classe alta se diz feminista. Já em classes mais baixas, uma em cada cinco assume o movimento. As mulheres de classes diferentes concordam que homens e mulheres devem ter os mesmo direitos. Do ponto de vista racial, para mulheres americanas, 12% das mulheres latinas se identificam como feministas, mas que o índice sobe para mulheres negras (21% se consideram feministas), asiáticas (23%) e brancas (26%).

Um ponto importante da pesquisa coloca que 3/4 das entrevistadas apontam que as conquistas do movimento feminista fez “muito” ou “algo”  para melhorar a vidas de mulheres brancas. Esse cenário é descrito no ensaio autobiográfico da Djamila Ribeiro, no livro “Quem tem medo do feminismo negro?”, onde ele recupera suas memórias de infância e adolescência que a coloca em constante lugar de silenciamento até o fortalecimento e orgulho de suas raízes por meio da construção do feminismo como pluralidade. Inclusive, esse é um outro papo que também quero trazer para o nosso debate. 

Existe ainda, por parte de muitas feministas brancas, uma resistência muito grande em perceber que, apesar do gênero nos unir, há outras especificidades que nos separam e afastam. Enquanto feministas brancas tratarem a questão racial como birra e disputa, em vez de reconhecer seus privilégios, o movimento não vai avançar, só reproduzir as velhas e conhecidas lógicas de opressão”, trecho do livro Quem tem medo do feminismo negro?

Tendo em vista que uma das dificuldades da expansão do movimento feminista são os estereótipos, tais como o que apresentei nas análises anteriores, é necessário refletirmos sobre como podemos democratizar e aproximar as mulheres do feminismo, respeitando suas individualidades e pluralidades de existência. Então, deixo essa questão com vocês: como é possível melhorar a imagem do feminismo?

Mãezinha (ancestralidade I)

Nós somos infinitos enquanto conhecemos e reconhecemos nossas raízes, assim como quando elas passam de geração em geração pelo sangue ou pelos afetos, especialmente, pelos afetos. Esses dias senti o cheiro do sabonete Phebo, o preferido da minha avó materna, dona Terezinha, quando viva.   A maioria das pessoas que a conheciam a chamavam de “mãezinha”. Acho que com tantos dias em confinamento, a vontade de estar perto da família e dos amigos me fez sentir o perfume do sabonete preferido dela. 

Dona Terezinha era abrigo. Era uma curandeira que usava sua sabedoria adquirida na sua vida simples, perfumada, de luto e luta, na força do trabalho braçal de sua trajetória como agricultora, no seu amor pela vida e, especialmente, na sua fé inabalável. Eu sinto tanto a falta dela. Sinto falta da sabedoria. Sinto falta da calmaria e da segurança. Em dias de incertezas e angústias, sinto falta daquele abrigo que era dona Terezinha.

Estou de volta com as minhas escritas nesse Lugar de compartilhamentos. Numa conexão intensa com o passado, com as minhas heranças espirituais, especialmente, com as mulheres que antes de mim lutaram, construíram, perderam e amaram para que eu estivesse aqui. Mais do que nunca, sou grata ao feminismo. Melhor, grata ao plural movimento das mulheres livres, diversas e reais que foram responsáveis pela minha criação, formação afetiva e de valores.

O feminismo, mais do que nunca, se faz necessário e de forma plural. Diante das tantas realidades de nós mulheres na sociedade é fundamental fortalecer corpo e alma na imensidão que a diversidade dos feminismos nos traz. Precisamos nos conectar com as histórias das mulheres que vieram antes de nós. Discutir, estudar e tentar entender a nossa ancestralidade familiar, política e social. O olhar é tanto sobre as nossas histórias individuais, como para as histórias dos tantos outros coletivos de mulheres. É entender que ser mulher está longe de caber num significado singular, mas que existem muitas singularidades. Especialmente, compreender que há diferentes e gigantescas questões relacionadas à classe, gênero e raça.

“Ninguém nasce mulher, torna-se”, a clássica frase de Simone de Beauvouir é a mais pura verdade. Não apenas nós mulheres, mas todo e qualquer ser humano. Quando a escreveu, acredito que o sentimento e a ideia que ela gostaria de passar foi o de que ninguém cabe em caixas, num padrão. Que só numa sociedade livre, marcada pelas mais diversas liberdades, é possível construir lugares democráticos e seres humanos plurais, lugares nos quais as pessoas possam ser o que desejam, respeitando suas histórias, com as influências de suas ancestralidades.

Ah que saudade de dona Terezinha…

Clarice Lispector e o encontro de G.H. com uma barata

Cá estou de volta a este Lugar que tanto quero bem e que estava com saudade. Num formato diferente e cheio de compartilhamento, anuncio uma novidade na escrita das sextas-feiras: além dos textos que escrevo e compartilho com vocês, serão convidadas outras pessoas para escrever e dividir conosco suas experiências e análises sobre política, diversidade (nos mais variados aspectos), feminismos, pautas da comunidade LGBTQIA+, futebol, questões contra o racismos, veganismo, dentre outros assuntos que nos colocam em desconstrução sobre o olhar que temos da gente, do mundo e do outro.

Esse lugar de compartilhamento foi iniciado no mês passado e seguido até a última sexta, 3, no qual tivemos a participação maravilhosa de Washington Feitosa, Gustavo Xavier e Katiana Monteiro, que trouxeram em suas escritas colaborações incríveis, cheias de lutas, resistência e lugar de fala. Muito grata por vocês terem colaborado com tanto. 

Hoje, o convidado é Paulo Germano, que traz um trecho do seu livro  “Mulheres  Claricianas:  imagens  amorosas”, resultado da sua dissertação de mestrado, que analisa a construção das personagens femininas centrais de quatro obras de Clarice Lispector: A Paixão segundo G.H, A aprendizagem ou livro dos prazeres, Água viva e A hora da estrela. 

Livro  “Mulheres  Claricianas:  imagens  amorosas”  de  Paulo  Germano  Barrozo  de  Albuquerque. Rio de  Janeiro. Editora  Relume-Dumará,  2002.

Clarice é uma leitura necessária para desorganizar a alma, a mente e, ao mesmo tempo, construir várias linhas de pensamentos sobre existência e desconstrução. De tantos livros que aí estão sobre Clarice, “o que esperar de mais um livro sobre Clarice”, questiona o autor e convidado de hoje. “Sabe-se que ela não gostava de ser capturada por modelos literários , filosóficos ou de qualquer outra espécie. O que se propõe neste livro não é uma ‘interpretação filosófica’ de sua escrita, como se fosse possível estabelecer sua verdade e sua força, a partir de outro discurso, mas produzir uma conexão entre a escrita clariciana e a filosofia de Gilles Deleuze. Não se trata, portanto, de estabelecer verdades acerca dessa escrita, mas compor linhas entre Clarice e Deleuze: fazer rizoma”. 

Abaixo, deixo vocês com o trecho do livro, com as inquietações de Clarice e de Paulo:

Clarice  Lispector  e o  encontro de G.H. com a barata*

“(…)  Bicho pré-histórico, imemorial, encarnação da “resistência pacífica”. A barata emerge como signo do que é a própria vida: resistência e proliferação. Gota virulenta, gota de matéria que provoca horror em GH. Barata que é pura atenção, não atenção à vida, mas atenção como núcleo  da própria processualidade da vida. E é essa barata que provoca a irrupção de um desejo que lhe invadia: o desejo de matar: “Eu me embriagava pela primeira vez de um ódio tão límpido como de uma fonte, eu me embriagava com o desejo, justificado ou não, de matar.**” Desejo que inicia o desmanche de sua montagem humana e a colocava no nível da natureza.

Desejo de matar indicando a entrada no universo de forças animais e a busca da composição de uma outra imagem de si. Contudo,  nesse  momento, ela fechou a porta sobre o corpo da barata e matou… Mas matou a quem?  Seu próprio eu que se desconhecia nesse desejo e acabou por encontrar algo além do humano: “ eu sentia que ‘eu ser’ vinha de uma fonte muito anterior à humana e, com horror, muito maior que a humana.

A irrupção desse desejo leva GH a um universo no qual se deve abandonar os sentimentos humanos,  inclusive  o  mais  humano  de  todos: a esperança.  E esquecer regulamentos e leis para entrar no inferno da matéria viva. Ao entrar no quarto, GH era um eu e agora tinha se transformado num ‘ela’, em algo impessoal.

Devir-barata de GH. Conjugação de fluxos que desfaz as formas, que explode com a Forma-Homem e estilhaça qualquer eu. Devir que a arrasta pela viscosidade da vida crua: “lama ainda úmida e ainda viva, era uma lama onde se remexiam com lentidão insuportável as raízes de minha identidade

 Não a identidade de um eu fixo, mas a da profunda processualidade da natureza, de seu poder de sedução, de conexão. A barata é pura sedução e “eu tinha milhares de cílios pestanejando, e com meus cílios eu avanço, eu protozoária, proteína pura”. Devir-barata, devir-protozoária, devir-proteína: a vida é conectividade e a doença da forma-homem foi ter soterrado esse poder em nome da civilização e de seus valores, em nome da superioridade dos sentimentos humanos”.

*Trecho  do  livro  “Mulheres  Claricianas:  imagens  amorosas”  de  Paulo  Germano  Barrozo  de  Albuquerque. Rio de  Janeiro. Editora  Relume-Dumará,  2002.

**  Os  trechos  em  itálico  são  do  livro  de Clarice  Lispector,  A  paixão  segundo  GH.

Paulo Germano, psicólogo e estudioso de Clarice Lispector

Biografia resumida do convidado: Paulo Germano Barrozo de Albuquerque é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atualmente é coordenador do curso de Psicologia do Centro Universitário 7 de Setembro (UNI7) e professor do mestrado em Direito Privado da mesma instituição. Além de ser um estudioso dos campos da Psicologia social de temas como o racismo e as construções das relações de gênero; e Psicologia jurídica nas questões voltadas para família. Ele é também mais um dos apaixonados pela literatura de Clarice Lispector. 

Eu, mulher em formação.

Começo informando que a escrita me corrói, deveras fica adormecida nas minhas entranhas, expelir não é fácil, é quase um aborto de um sentimento atroz. Quero falar ou me libertar desse pensamento. Esse involuntário momento de estar só consigo, traz inquietações. Estou com o olhar internalizado para o meu eu, creio que estou a dar os primeiros passos em busca da minha identidade feminina, é estranho isso? Você deve achar estranho, mas a   famosa frase de Simone  de Beauvoir ” Você não nasce mulher, se torna mulher”, nunca teve tanto sentido para mim nesse  momento da minha vida. Eu, mulher em formação, há tempos atrelo essa minha ausência de identidade feminina ao fato de ter sido privada de uma presença materna forte, efetiva e afetiva. Creio que essa solidão de leito maternal é a pior de todas e a mais danosa para nós mulheres. Construir sozinha as essências de uma fêmea no mundo gerado por energias masculinas, é ardo. E instantaneamente vestimos a pele e a carapuça de crianças e futuras mulheres fortes, uma auto defesa, desesperadora. E nos tornamos plantas carnívoras para manter-se vivas. Mas lá no fundo somos apenas uma criança em busca de um colo, nessa constante auto negação da fragilidade, e isso nos torna tão vulneráveis ao amor danoso. Começo a crer que o amor, não esse ocidentalmente romantizado, comercializado e vendido como fórmula da felicidade. Mas o amor por se só, daqueles que Gibran Kahil diz que nada dá e nada recebe senão de si próprio. Nasce e renasce nas fortalezas. Certeza de si é fundamental para ramificação das raízes desse sentimento. Alma trincada em desalinho atrai seus pares. É na fragilidade que o amor se torna meramente busca de conforto, isso é algo perigoso, a troca se torna entrega cega, e sem querer fomos lançadas nos braços dos predadores, pesado isso, se sentir presa fácil. Mais difícil ainda é aceitar que isso é carência sim, que carregas desde os primeiros passos de tua vida.
.     Às vezes me pergunto se de fato tivesse tido uma mãe comprometida na minha formação enquanto ser mulher, que mulher de fato teria me tornado? Não sei, só sei que a duros passos caminho em busca dessa mulher que quero ser ou que inventei para me salvar. Não me arrependo das minhas entregas, todas foram ingenuamente verdadeiras, e me responsabilizo pelos os amores vãs que atrai, aprendi com cada um deles. A minha certeza que nunca serei igual porque estou em processo de transformação.O amor irá chegar quando eu estiver preparada para recebê-lo.

 Katiana Monteiro é atriz, pedagoga, ArteVista e mãe de namir.

Religiões e o budismo japonês de Nichiren Daishonin.


Antes de começar, recitemos três vezes o seguinte mantra: “Nam Myoho Renge Kyo”. Muitas vezes quando se escuta sobre o budismo, pensa-se imediatamente em certas práticas que estão bem disseminadas no imaginário coletivo: meditação, jejum, isolamento social, desmaterialização como forma de elevar a alma. Sem mencionar explicitamente aquilo que aparece à primeira vista (como as vestimentas, a rasura dos cabelos e o absenteísmo de valores ocidentais para quem se define como budista) é sabido que o ponto de comum entre todas as correntes é a perseguição da iluminação. O que o imaginário coletivo e popular dessa expressão expressa, no entanto, é aquilo que em outra medida aparece como contraditório para quem conhece a história do famoso buda Sakyamuni.
Longe de ter passado a totalidade de sua vida preso em monastérios, no alto de uma montanha ou em cavernas, comendo raízes e vivendo como um eremita, Sakyamuni encontrou por volta dos seus 35 anos o caminho do meio. No intuito de conhecer as quatro etapas de sofrimento universais do homem (o nascimento, o envelhecer, a doença e a morte) que seus pais lhe esconderam quando criança, esse ex-príncipe indiano decidiu procurar a verdade adotando as práticas de isolamento e
meditação dos eremitas de sua época. O budismo já existia. Após atingir a iluminação debaixo de uma figueira, teria então chegado ao Nirvana, um estágio de sabedoria e paz que lhe forneceu autoridade para ser capaz de disseminar esses ensinamentos para uma pleura de seguidores. Cada um destes discípulos então escreveu aquilo que conseguiu interpretar, dando origem a um número ainda mais sem fim de tratados, os sutras.
E daí fica a pergunta: será que para atingir a “iluminação” teremos todos de nos isolar e trilhar o mesmo caminho dessa referência espiritual? Perseguir os opostos e então encontrar o famigerado “caminho do meio”? Eu sempre tive dúvidas quanto ao radicalismo dessa e outras práticas religiosas. Claro que meu lugar de fala, de quem nasceu imerso em valores judaico-cristãos e na periferia do Ocidente vai guiar meu julgamento. O que fazemos quando sofremos? O que fazemos quando somos
acometidos por injustiças que não parecem ter reparação? O que resta para aqueles que são derrotados por forças invisíveis? Procuramos a soberania do Estado e do dinheiro para resolver algumas dessas questões, quando não somos religiosos, e de Deus quando o somos, correto?
Eu sei que em meio a uma sociedade que estimula valores como competição, vaidade, medo, avareza e ignorância, muitas vezes se abster da vida em sociedade parece a melhor escolha. Eu mesmo acredito que em vidas passadas devo ter sido um desses eremitas que viviam em montes e vales, à espera de almas perdidas que procuravam se encontrar e que voltavam livres porque meus conselhos e histórias lhes remetiam novamente ao encontro de si mesmo. Nesta vida, porém, o meu lugar de vivência tem me mostrado que o verdadeiro caminho é o de “estar junto”, o de “sofrer junto”, o da “empatia” e de estender a mão, porque ela alimenta mais do que a boca que reza. Eu acredito que na vida somos às vezes como o vento, a água, a rocha e o fogo. Nós variamos de estado. Nada é para sempre. Por isso quando alguém está passando por um profundo sofrimento eu prefiro dizer: “Aguenta que vai passar, lá na frente você vai ver porque teve de enfrentar essa situação”. Eu prefiro o enfrentamento mais que o isolamento, compreende? O que não me impede de fugir de vez em quando dessa loucura que são as cidades superpopulosas.
Mas então, o que isso tem a ver com o budismo japonês? Tem a ver que esse budismo é muito parecido com a minha maneira religiosa de pensar: estar junto, viver numa comunidade de afeto, onde erros possam ser superados e acertos celebrados. Quando ouvi falar pela primeira vez dele e seu princípio norteador imaginei que fosse algo meio charlatão, dessas místicas que prometem mundos e fundos. Porém, quando vi o tamanho da organização e quão profundamente tocava a alma das pessoas comuns, percebi que era valorosa. Não é o momento para falar da prática e de todos os
princípios dessa religião, até mesmo porque não sou o mais fervoroso dos adeptos e existem pessoas em grau de qualificação muito maior para uma ampla explicação. Entretanto, é por ter uma filosofia que segue uma linha de raciocínio comum, verdadeira e poderosa, que me sinto capaz de esboçar essas linhas gerais sobre essa crença.
O “Nam Myoho Renge Kyo” que advém do sutra de Lótus é o mantra que contém o princípio de causa e efeito imanente da vida. Ele foi defendido como a essência de todo o budismo no século XIII pelo monge Nichiren Daishonin, em meio à uma situação deplorável no Japão do ponto de vista moral, econômico e político. A flor de lótus se tornaria o símbolo por excelência da superação dos sofrimentos da vida, pois apesar de estar na lama só ela seria capaz de florescer com tal exuberância. Esse ensinamento acredita que a simples recitação torna o indivíduo suficientemente forte para enfrentar os obstáculos, tomando e se responsabilizando por suas próprias decisões. Afinal, o efeito é somente a causa de algo que foi decidido. Essa lei geral clássica da física de Newton corrobora com a ideia da sua contraparte quântica (talvez também mística) de que o bater das asas de uma borboleta em um lugar pode fazer um furacão no outro lado do mundo.

Flor de Lótus (Imagem: divulgação/internet)


A partir de Nichiren, que a trouxe da China, no Japão ela fez sua história. Existe a versão mais ortodoxa e a versão secular. As duas vivem em disputa. A primeira preza por uma forte hierarquia e a submissão de autoridades monasteriais. A segunda, laica e muito mais popular, tem adeptos em todo o mundo e é sustentado pelos líderes da Soka Gakai Internacional. E pode ter certeza que na sua cidade deve haver uma sede.
Aqui no Rio de Janeiro ela é muito popular e já a encontrei mesmo em Fortaleza. E o que mais tem de interessante nela? Bem, como é definida pela recitação de um mantra capaz de incorporar o ritmo do universo de “causa e efeito mística” convém que ela seja aceita em inúmeros países pois é independente de normas, costumes e morais. Isso a torna extremamente poderosa, e fica um tanto quanto irresistível quando se importa em alcançar o “Kosen Rufu” ou o estabelecimento da paz em todos os povos. Isso porém traz consequências de um ponto de vista crítico. Desde a filosofia de Immanuel Kant – sim, sou profundamente moderno – sabemos que o choque das civilizações advém sempre de um valor particular com pretensão universal, gerando os conflitos e guerras com outros particulares supostamente universais. É assim que os movimentos que se direcionam para a paz universal têm fracassado, à exemplo do cristianismo (conversão forçada e tribunais de inquisição), as ideias seculares do iluminismo de “liberté, egalité et fraternité” que as distribuem somente para os brancos europeus privilegiados, e a “missão civilizadora” que serviu como base para a colonização de povos na África, Ásia e América. A história se repete como farsa e às vezes como tragédia. É assim que as melhores intenções se tornam às vezes corrompidas.
E, finalmente, uma questão que percorre o budismo: “Onde está Deus?”, perguntamos. E a resposta é que não há. A concepção de Deus para o budismo é a de que tudo é Deus. É complexo definir em poucas linhas. Mas eu continuaria ensaiando a dizer que tem a ver com a ideia de que tudo se transforma e está em mutação. Uma nuvem pode estar comunicando um “adeusinho” do seu animal de estimação que morreu há poucos dias. Eu particularmente acho muito bonito, levanta minhas esperanças e me dá entendimento do todo. Afinal, em DEUS sem o D e o S, há apenas o EU.
Porém, se colocarmos a questão mais profundamente, sem negacionismos (atitude ignorante dos nossos dias), é significativo perceber que não é a existência da verdade que nos torna humanos, mas a vontade de buscá-la. Isso me nos dá o direito de questionar. De questionar os dogmas, as doutrinas, o “establishement” de quem diz que é assim ou assado.
A verdade mais pura da vida é que nós sempre vamos procurar a origem de todas as coisas, da criação e da diferença entre as criaturas. Afinal, nós não temos a resposta absoluta ainda, ou temos? Se o Budismo não acredita em um Criador por achar que é simplesmente o homem quem fala por Ele (pois na História o que vemos prevalecer é a outorga de autoridade do homem de dominar outros homens), tomando para si a responsabilidade da sua própria vida, é louvável e está no caminho da “verdadeira iluminação”. Mas resta aquela coceirinha atrás da orelha que diz que se o livre-arbítrio foi concessão de Deus, como poderia ele tomá-la? Ele se arrependeu de nos deixar livres para decidir? Deus se arrependeu de ter feito o homem ou será que fomos nós que nos arrependemos de querer buscá-lo, de querer encontrá-Lo como faria um jovem em busca de seu verdadeiro amor? Antes do Novo Testamento tomar as rédeas de controle do que define como “Deus”, esse Deus amoroso, que é só perdão e busca a paz, o que prevalecia antes era a honestidade, transparência e o pacto do Antigo Testamento que sem contradição alguma falava dos sofrimentos e da existência da guerra como condição de sobrevivência. Não havia o “dê a Deus o que é de Deus, a César o que é de César”. Era também severo porque precisava impor uma moral, regras, instituir o que é o certo e o que é errado. Ou vamos continuar acreditando que o relativismo cultural (primo do
dístico igualdade, liberdade e fraternidade) de comer animais proibidos e manter relações proibidas não nos afetará? Cedo ou tarde, aquilo que foi causa aparecerá como efeito. Essa é sem dúvida uma lei universal. Não importa o credo ou a origem do país, nós seres humanos, estamos submetidos a leis invisíveis. E aquele que quiser enxergar melhor pode comprar um par de óculos: o óculos do amor e da restrição, da compaixão e da orientação, do beijo e da vara, ou se você quiser, a visão do Caminho do Meio.

Gustavo Xavier é ator, capoeirista e historiador. Licenciado pela UFC em Historia Social, mestrado pela PUC-Rio em Relações Internacionais.

A descoberta do corpo e suas potencialidades na era pós-revolução sexual.

Washington Feitosa.

A sexualidade, partindo das relações íntimas, no período pós-segunda guerra mundial em diante, a partir da revolução sexual iniciada na década de 60 no mundo ocidental, gera um novo comportamento sexual. Percebemos novas possibilidades corporais e de relações sem condicionamentos de gênero e afetividades. Mas aqui temos de fazer justiça ao movimento de emancipação feminina que impulsionou essas mudanças a partir do desenvolvimento de métodos contraceptivos eficazes, considerado um marco para uma nova compreensão da sexualidade na modernidade.

Mas sobre essa primavera sexual sessentista há controvérsias e contestações como sugere a publicação “As Origens do Sexo” – uma história da primeira revolução sexual (Editora Globo, 687 páginas), de autoria de Faramerz Dabhoiwala, historiador da Universidade de Oxford, que nos brinda com um monumental estudo sobre o sexo na Grã-Bretanha e na América do Norte entre os séculos XVI e XVIII. No entendimento do historiador ali está, de fato, o embrião da revolução sexual com a matriz do que influenciaria toda a humanidade. A revolução sexual como conhecemos é retratada pela rebelião de jovens cabeludos nos idos dos anos 1960, que incendiaram as ruas de Paris e invadiram os campos de Woodstock numa verve protestante pelo direito de transar sem necessariamente casar e constituir uma família tradicional. Dabhoiwala rompe com essa tese e atribui a uma conquista de libertinos e prostitutas dos anos 1700, que lutavam nas ruas de Londres e na Justiça contra a polícia dos costumes, que atrelava o sexo ao casamento, família, dogmas e religião.

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Capa do livro As Origens do Sexo, de Faramerz Dabhoiwala (imagem da internet).

Ao final dos anos 1970 e 1980, a recém-conquistada “liberdade sexual” foi explorada ao máximo pelo grande capital, com o surgimento da indústria pornográfica e produtos de erotização que ganharam o mercado. Esse luro foi reflexo de uma sociedade mais aberta com o advento da pornografia pública e da pornografia hardcore. O historiador David Allyn argumenta que a revolução sexual foi o momento de a sociedade “sair do armário” em relação ao sexo antes do casamento, masturbação, fantasias eróticas, pornografia e sexualidade.

Em meio a esse cenário de afloramentos e descobertas, a população LGBTQI+ ascende e começa a se organizar enquanto movimento em defesa da visibilidade e pela construção de novas formas de conhecimento, de cidadania plena e pela luta por direitos civis. Com o advento da AIDS, surgem novos desafios no campo da politização dos debates que envolvem a vida dos homossexuais, mas também como pensar estratégias de sobrevivência e aproveitamento dessa liberdade sobre os corpos. As recomendações e campanhas para o uso do preservativo tornam-se uma tônica constante e a partir de então reinventam-se as formas de se relacionar intimamente e com o corpo. Do estouro da era disco clubber das boates até as paradas do Orgulho Gay, vivenciamos dias de resistência e de quebra de tabus impostos pelo conservadorismo tradicional brasileiro incapaz de admitir diversas formas de existir.

Para entender um pouco mais sobre essa perspectiva da sexualidade e o universo LGBTQI+ pós-revolução sexual sessentista, recomendo assistir ao documentário “Atrás da Estante” da Netflix, que mostra o mundo pornô gay na década de 80 e diversas historias do fim de uma era pré-AIDS e pré-internet. É obrigatório para entender a cena gay que culminou no movimento de liberação dos anos 60. Bom, por hoje é isso. Um abraço queridos navegantes e até breve!

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Imagem retirada do site Netflix.

 

Sexualidade e a liberdade de compreender nossos corpos, existências, desejos e prazeres ao longo da história – a arte de quebrar os tabus sobre o sexo

Sexualidade e a liberdade de compreender nossos corpos, existências, desejos e prazeres ao longo da história – a arte de quebrar os tabus sobre o sexo

Washington Feitosa

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Para compreendermos um pouco sobre a história da sexualidade, precisamos remontar acontecimentos que permeiam séculos passados e que nos oferecem um conjunto de teses literárias e fatos que formatam e nos possibilitam o entendimento da sexualidade como ela é nos dias atuais. De forma conceitual simplória e genérica, entendemos a sexualidade humana pelo conjunto de comportamentos que condizem com a satisfação e a necessidade do desejo sexual. Num mundo enquadrado pela normatividade, nós seres humanos utilizamos a excitação sexual meramente para fins reprodutivos e para a manutenção de vínculos sociais. Contudo, para além da etimologia puramente simples da palavra sexualidade, entendemos que o termo transcende as relações afetivas, a concepção do homem como ator social e fator emancipatório para que possamos vivenciar nossas liberdades e desejos de maneira plena.

Ao longo da história, a sexualidade constituiu-se como instrumento de poder e afirmação da supremacia do gênero masculino sobre as demais condições e formas de existência. Existe um contexto de repressão e subtração das liberdades sexuais que precisa ser entendido para justificarmos as classes dominantes e as classes dominadas. “Devassos no Paraíso” é uma obra poderosíssima do João Silvério Trevisan, que nos alerta para a relação escravidão, religiosidade e erotismo, no Brasil de 1.500 em diante. Os escravos brasileiros faziam de tudo, desde labutar nas lavouras das fazendas até trabalhar nas cozinhas e tocar em orquestras. As negras que esbanjavam formosura acabavam como amantes e objetos sexuais de seus senhores, a quem muitas vezes geravam filhos bastardos. As escravas também serviam de fonte e corpo objetificado para que os filhos dos senhores iniciassem sua vida erótica. Um dado interessante é que essa iniciação sexual também não excluía a relação entre os negros, fortes e robustos da mesma idade, como joguetes sexuais dos meninos brancos da casa grande. Na verdade era frequente que o menino branco se iniciasse no amor físico mediante a submissão do negrinho seu companheiro de folguedos. Era uma relação claramente de poder sem um consentimento mútuo. O corpo negro era subjugado à vontade feudal.

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Capa do livro Devassos no Paraíso – João Silvério Trevisan.

Na obra “História da Sexualidade”, de Michel Foucault, o capítulo introdutório “A vontade de saber” nos proporciona um mergulho necessário para desvendarmos nossa sexualidade contida, muda e por que não dizer hipócrita muitas vezes? Registra-se que no início do século XVII vigorava-se uma certa franqueza e liberdade nas sociedades existentes. As práticas cotidianas não buscavam o segredo nas relações vigentes; os diálogos eram mantidos sem hipocrisias e cuidados pudicos que escondiam suas reais essências, sem disfarces; o que hoje consideramos ilícito tinha-se uma tolerante familiaridade e aceitação. A partir da pesquisa de Foucault, observamos que à época eram toleráveis falas e expressões da grosseria, da obscenidade, da decência, se comparados com o século XIX. Gestos, discursos tidos como sem vergonha, transgressões, corpos com detalhes à mostra, risos extrapolados com maior naturalidade sem contingências, incômodos e nem escândalos.

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Capa do livro A História da Sexualidade – Michel Foucault.

Mas o regime vitoriano mudou completamente as formas do relacionar-se nos espaços sociais da época. A sexualidade como expressão natural dos corpos é encerrada e a ela imposta um tabu. A família conjugal a confisca e a transfere para um patamar de seriedade e função exclusiva de reproduzir e procriar. O debate em torno de sexo é silenciado. Personagens da moral e dos bons costumes ditam leis e censuram o sexo. Uma verdade rebaixada ao segredo. Nos convívios sociais o único lugar legitimamente reconhecido para se vivenciar a sexualidade, de forma utilitária e fecunda, passa a ser o quarto dos pais. Muda-se completamente os discursos e as práticas. Estabelece-se uma era de controles sociais, castigos, regras e domínios, inclusive pela sexualidade e suas possibilidades.

No livro “Vigiar e punir” (1975), Foucault faz uma análise histórica de diferentes sistemas punitivos, desde os que utilizam métodos violentos até os que usam métodos “suaves”. Foucault parte justamente do pressuposto de que todo poder tem um “corpo”, pois se exerce por meio de diferentes mecanismos e instrumentos. Precisamos compreender como o corpo foi percebido e valorizado na história. Foucault constata que “as relações de poder operam sobre o corpo de modo imediato; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, submetem-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias”; sem lhes oferecer a liberdade de se moldar e alinhar-se com sua respectiva essência. Mas é necessário atentarmos para o fato de que o corpo não é, portanto, fixo ou constante, como quer a perspectiva naturalista, mas pode ser modificado, aperfeiçoado, conforme suas necessidades de se conceber e sentir prazer de diferentes formas.

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Capa do livro Vigiar e Punir – Michel Foucault.

Atravessando a história aportamos em meados da década de 60, num período pós-guerra, quando convencionou-se estabelecer uma moral sexual caracterizada por tabus e advertências ameaçadoras. O simples ato de masturbar-se podia configurar-se como uma doença degenerativa da medula, a ereção considerada um inchaço anormal, o orgasmo feminino nocivo ao corpo. Sexualidade era um assunto abominado – um assunto que envergonhava e que tinha que esconder de crianças e adolescentes. Na década de 60 explodiram protestos pela Europa em prol de uma educação sexual completa. O conservadorismo herdado dos anos 50 refletia claramente nos papéis definidos de gênero e nos ideais domésticos romantizados numa tentativa de estabelecer uma normalidade após a agitação da Segunda Guerra Mundial.

“A sexualidade faz parte da personalidade de cada um, é uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida. Sexualidade não é sinônimo de coito (relação sexual) e não se limita à ocorrência ou não de orgasmo. Sexualidade é muito mais que isso, é a energia que motiva a encontrar o amor, contato e intimidade e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas, e como estas tocam e são tocadas. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, portanto a saúde física e mental. Se saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também deveria ser considerada um direito humano básico.” (WHO TECHNICAL REPORTS SERIES, 1975)

[Tema continua na próxima semana]

Existir é um ato político

Por Indyra Gonçalves

A garantia para o direito de existir não é óbvia, infelizmente. Ela precisa de lutas, de manifestação coletiva, de constantes políticas públicas sérias e, lamentavelmente, em muitos casos, ela acontece com sangue. Seguindo o papo iniciado na última sexta, sobre  a importância da conquista do dia 17 de maio, Dia Internacional contra a LGBTFOBIA, assim como o lugar de existência e resistência da comunidade LGBTQI+, fecho a última escrita de maio com a necessidade da política para afirmação e representatividade das lutas LGBTQI+.

A política foi a mais importante e forte arma da luta do americano Harvey Bernard Milk, o primeiro vereador assumidamente gay da história dos Estados Unidos. Sua trajetória, que já foi contada no documentário The Times of Harvey Milk (O tempo de Harvey Milk), que recebeu o Oscar de melhor documentário em 1985, assim com no filme, Milk: A voz da igualdade, foi marcada pela luta dos direitos civis de homossexuais por meio do seu ativismo à restrição de liberdade e violência policial sofridas pelas pessoas LBGTs, especialmente, em São Francisco (EUA).

 Milk A voz da igualdade – Trailer Oficial (legendado):

 

Sua luta o fez ser conhecido como o Martin Luther King gay. A força de sua militância, assim como o caminho para suas articulações políticas até a conquista do cargo público em 1977 foram reforçados pelos seus discursos improvisados e fortes em momentos de manifestações da comunidade LGBT americana. Milk se transformou em um ícone da luta de homossexuais nos Estados Unidos e no mundo. Entre as suas bandeiras de luta durante seu mandato, destacou-se sua dedicação em derrubar a Proposta 6, conhecida como Iniciativa Briggs, que tinha como objetivo demitir professores homossexuais ou docentes que estivessem de acordo com a luta LBGT. Além disso, Milk também defendeu creches melhores e mais baratas, assim como transportes públicos gratuitos. Ele foi responsável ainda pela aprovação de rigorosa lei que garantiu os direitos civis gays em São Francisco.

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Imagens da internet

Viver é um ato político. Tudo que está em nossa volta representa uma conquista política, seja boa ou ruim. E Milk fez da sua vida uma constante luta política. De forma intensa e, inclusive com a sua vida sendo precocemente tirada pelas mãos da intolerância e do ódio. Ele lutou para a conquista de equiparidade. Uniu pessoas homossexuais e não homossexuais pelo direito de que todos pudessem existir e ser respeitados dentro da sociedade como desejam viver.

Existir é um verbo presente na vida de pessoas LGBTQI+. É motivo de constante luta, afirmação de existência, que está ligado à resistência diária do direito de ser, sem medo, sem morte, sem esquecimento. Existir é direito. E é sobre esse lugar que trago a conversa com a artista trans Valéria Houston, que contou um pouco da sua história de existir e resistir para a revista Lugar Artevistas, em março de 2019, quando participava do Festival Noites Brasileiras, em Fortaleza. Seu sentimento sobre o verbo existir, especialmente sobre ele e a indiferença que sua existência traz para sociedade foram transmitidos em sua fala quando recebeu o Troféu Mulher Cidadã de Porto Alegre, em 2016.

“Quando eu recebi o prêmio eu disse assim: muito obrigada por esse troféu. Embora, eu sei que vocês não me consideram nem mulher e nem cidadã. Porque eu não sou mulher. Porque vocês não me consideram uma mulher, né? Eu tenho que lutar pelo meu nome, pelo meu prenome. E eu não sou cidadã, porque uma cidadã qualquer pode ir ao banheiro que quiser. Pode chegar num lugar e ser chamada pelo nome que ela quer. E eu não consigo fazer isso. Então, ainda assim agradeço essa honraria. Dedico esse troféu às mulheres trans pretas”, desabafa.

O nome social é um importante lugar de existência. É um reconhecimento. É afirmação. No Brasil, por meio do Decreto Presidencial Nº 8.727, de 28 de abril de 2016 é garantido o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal direta, autárquica e fundacional. No ano passado, entrou em vigor a lei nº 16.946 que garante no Ceará o uso do nome social.

Valéria Houston é uma mulher negra, trans que, por meio da sua arte, especialmente, representa a luta de milhares de outras mulheres. É ativista também do movimento negro. Valéria é existência. Valéria é resistência. Valéria é mulher. Apesar da sua luta pelo seu lugar de existir, Valéria fala sobre estar cansada e da diversidade que é ser mulher. “Eu luto para que as pessoas não fiquem me olhando por ser uma mulher trans, por causa do meu sexo, do meu jeito. Eu tô cansada de lutar pelo meu jeito, pela minha sexualidade”, desabafa.

Entrevista completa com Valéria Houston – Lugar ArteVistas: 

“Eu sou uma mulher trans muito criticada  pela estética. Eu sou uma mulher trans que não tenho uma estética como as outras, por exemplo. Eu não tenho todas as plásticas. Eu não faço plástica no nariz, porque muda a voz e é muito dinheiro. Eu tenho preocupação grande com a estética. Posso tirar o gogó, não tiro. Eu não faço isso. Sabe por que? Ser mulher é muito mais que isso. Ser mulher não é vaidade, não é estética. É outra coisa diferente. Mas eu tive um caminho todo a percorrer. Eu tive que me descobrir”, conta.

 

Montevidéu

A cidade é um importante lugar de existência e resistência. É lugar de fazer política o tempo todo e de todas as maneiras. Ela precisa ser pensada e vivida por pessoas, se não, é só concreto. Para dar vida às cidades, os governos e a população devem querer pertencer ao lugar. Sentir aquele é seu lar. Ser diversidade. Nesse clima de fazer política e de coletivo, convido a todos por um rápido passeio a Montevidéu.

  La Plaza de La Diversidad – Montevideo (Uruguai) – Imagens: Indyra Gonçalves

Em janeiro deste ano, estive no Uruguai pela primeira vez. Minha viagem começou por Montevidéu. A capital uruguaia é um grande abraço. Se a primeira impressão é a que fica, afirmo que o Uruguai ganhou meu coração. Claro, estive lá como turista, na maior parte do tempo em lugares destinados para turistas. Mas o sentimento das cidades visitadas foi de acolhimento, diferente da antipática Argentina. Mas o papo não é sobre os humores das cidades. É sobre seus posicionamentos políticos, como lugar de diversidade, de existência com respeito. É possível que possa ser um marketing também. Sim, pode. Mas representatividade, pertencimento e acolhimento importam. Importam muito, por sinal.

No Centro de Montevidéu La Plaza de la Diversidad nos convidou a entrar pelo colorido, pelas bandeiras, pela luta. Nas paredes, nos postes, na arte de cada detalhe aquele é um lugar de representatividade, de democracia, de políticas pensadas para o coletivo. A sensação é de estar em uma exposição de arte a céu aberto. Mesmo sem nenhuma palavra, cada fotografia que ali estava bem preservada, em destaque gritava sobre o direito de existir das pessoas LGBTQI+. A energia do lugar nos fala sobre resistência, luta, respeito. Tudo exposto com cuidado, sem marcas da violência urbana. Parte de um processo de um país que coloca a diversidade em suas pautas.

    Honrar la diversidad es honrar la vida – Montevideo por respeto a todo género, identidad y orientacíon sexual

2005 – Imagens Indyra Gonçalves

Os moradores exaltam esse sentimento, esse orgulho: somos a cidade da diversidade. Eles sentem um prazer em dizer isso. Foi um sentimento gostoso de sentir. Ouvimos essa frase em vários lugares. Vimos nas paradas de ônibus, dentro do Uber, dentro do ônibus, dos vendedores nas lojas. vale muito a pena conhecer o Uruguai.

La Plaza de la Diversidad é lugar de passagem. É parada para o almoço dos trabalhadores que estão no Centro. É lugar de um beijo gostoso com abraço debaixo das árvores. Você pode pegar um livro para ler nos armários espalhados por lá. Pode também deixar um de presente. Viaje assim que puder. Conheça o Uruguai. Conheça o mundo. Viva a diversidade.

    La Plaza de La Diversidad – Montevideo (Uruguai) – Imagens: Indyra Gonçalves

 Aviso do coração: durante o mês de junho escreverei apenas em duas sextas-feiras, nos dias 19 e 26. A pandemia tem gerado ainda mais demandas para diversos lugares. Por isso, é preciso saber dar pausas. Aguardo vocês na próxima escrita. Sigam em casa. Cuidem de vocês, dos seus e dos outros. Viva a diversidade e o respeito.