(des) Construção

Por GeminiLuz

Me desconstruo desde o dia que nasci e não nasci faz muito, mas já nasci me desconstruindo. Nasci no berço de uma família híbrida e eu era estático e padronizado para operar em outros lugares, que não aquele que eu estava. Aos quatro anos, tentei inconscientemente a minha primeira fuga daquela realidade, mas fui pega em flagrante e me levaram de volta para aquele lugar chamado casa, onde não caibo.

Lembro quando eu estava na barriga que eu me sentia completamente sufocada, não à toa nasci antes do previsto, só para sentir a liberdade na minha pele avermelhada, nasci com rosácea e até hoje ela me visita a cada forte emoção, assim para fugir dela, desconstruo as fortes emoções, mas sentido-às intensamente o exercício tá na identificação do ego e seus externalistas, eu graças a rosácea aprendi a controlar o entre e desconstruir esse cenário de realidade em que o outro é obrigado externalizar as emoções com toques irônicos da mente que é tão engraçada achando ter controle sobre algo e aí os agentes externalizantes fazem a festa e é essa a hora que minha rosácea entraria em cena, mas desconstrói o caminho de acesso ao externo, e construiu um que liga ela ao meu umbigo e minha ligação com o cosmos que somos e aí me desconstruo de novo inteira, para ser reprogramada e liberar o resultantes ao mundo que me certa mantendo-me com no caminhar de me desconstruir, enquanto me construo em mim.

Observo as pessoas… Observo também a pessoa que sou e que me torno a cada novo instante em que me desconstruo E estou feliz em poder compartilhar essas desconstruções por aqui.

Antigo normal: nunca mais

Rifa-se antigo normal de uma vez por todas.

Quarenta minutos de faxina na mesa de centro espelhada – com gavetões e nichos –, abarrotada de objetos e livros intocáveis de capa dura.

Costas arrebentadas de tanto arrastar dois trambolhos de madeira maciça, vulgos “mesinhas de cabeceira”, para tirar o pó acumulado.

Armário inflado de roupas, sapatos e bolsas que nunca serão repetidos ou até mesmo estreados.

IPVA caríssimo para rodar menos de mil quilômetros por ano, sem contar os gastos com combustível, estacionamento e manutenção.

Horas no trânsito caótico para ir à padaria ou mercadinho do bairro, em vez de usar as passadas ou pedaladas saudáveis.

Caminhadas na esteira em ambientes fechados, morando em uma cidade plana, que transborda sol, brisa, parques ecológicos e calçadões que beiram o verde mar.

Carimbos no passaporte para destinos turísticos da moda, com suas superlotações que sufocam a alma do lugar, cultura e estilo de vida dos moradores.

Festas para ver e, principalmente, ser visto.

Amizades às pencas que não se importam um tiquinho com o outro.

Cozinha meia-boca de restaurantes e bares caros, e filas gigantescas dos recém-inaugurados.

Lamentos por desgraça pouca, como a xícara de estimação quebrada acidentalmente.

Felicidade incessante, também conhecida como alienação, demência ou ingenuidade.

Diversão com filhos|netos no parquinho climatizado do shopping, quando se tem quilômetros de orla urbanizada, com quiosques, academias a céu aberto, parque infantil, quadras de vôlei e tênis de praia, anfiteatro, ciclovia, pista de cooper e de skate. Sim, é seguro.

O medo de andar nas ruas e se apoderar das calçadas e praças.

Carros estacionados nas ciclofaixas ou nas vagas prioritárias “só enquanto” pega o filho|neto na escola.

O pouco de tolerância que ainda resta para ouvir fofoca, maledicência e desinformação, como as criminosas fake news.

Por fim, como perfeição e santidade nunca fizeram parte dos meus planos, excluem-se da rifa laivos de arrogância que, porventura, alguém detectar nessas prendas.

Ser Humanos

Por Roberta Bonfim

“Eu me desenvolvo e evoluo pela minha filha”, mas também pela minha criança com quem sempre me reconecto para resolver alguma questão. A bem da verdade é que somos repletos de questões, problemáticas, crenças, valores, desejos, frustrações, traumas, escolhas. Pois tudo é uma escolha, mesmo não escolher, é uma escolha por não escolher.

Vivi desconstruções a cada troca com o outro e as vezes mesmo sem a troca, apenas pela observação. E empatia é o exercício de verdadeiramente se colocar no lugar do outro e não de desejar o outro se encaixe no que você entende por verdade. Outra recorrência é julgarmos agressivo a nossa não aceitação, mas nem sempre atentamos como nós recebemos o diferente a nós, se não estamos reproduzindo a agressão.

Em tempos pandêmicos, com perdas, e com os encontros…

Des construir-se é necessário!

Reinventar-se é aceitar-se como se é e como bem dizia Leminski “isso de ser o que se é além vai nos levar além”.

Sejamos-nos.Humanos

Um dos sentidos, sentido.

Por Samya Régia Antero


 Existem pessoas que afirmam que o melhor cheiro do mundo é o aroma de café, logo que acordamos, é verdade. Cheiro de café coado é bom demais! Hoje, quando eu estava fazendo o café, deu-me esse estalo e percebi que não paramos para  pensar nessas sensações. E o olfato é um dos cinco sentidos mais importante dos seres vivos, que tem como função básica, aliado à visão, a audição, ao tato e ao paladar, interpretar o ambiente e captar os diferentes estímulos que nos rodeiam . Resolvi, então, aproveitar a deixa e pensar no assunto, pois, raramente paramos para prestar atenção nessas sensações, sentimos e pronto. É o chamado ato involuntário, estamos quase sempre no “piloto automático” e com isso, vamos deixando pelo caminho, emoções tão prazerosas… Nosso olfato é algo próprio, particular, peculiar. Vocês já pararam pra pensar nas sensações, recordações,  imagens que  nos vêm quando, por exemplo, colocamos um bebê no colo e sentimos seu cheiro? Cheiro de filho conta uma história gigante, cheia de emoções. Quantas viagens nesse cheiro… É mágico, transcende. E o cheiro do cangote da pessoa que  amamos e que marca nossa vida? Dando certo ou não, a relação, onde quer que sintamos o perfume, vamos lembrar do momento, do beijo, do arrepio… E aí, tem aquele cheiro, que todo mundo conhece, que é o cheirinho do colo de mãe… Melhor refúgio e maior fortaleza. Cheirinho de mãe não tem igual. E o que  podemos falar do cheiro da nossa comida preferida, invadindo toda casa, ou quando chega à mesa do nosso restaurante favorito? Gente!! E cheiro de chuva, na terra molhada, quem não ama? Todo mundo tem uma história pra contar de chuva… Um banho inesquecível, uma situação engraçada, uma rede na varanda, olhando a chuva cair. Dividir o edredom com quem nos aquece a alma, um filme… Um vinho ou um café quente, tudo combina com chuva. Tem um cheiro que  amo e quem entende da arte vai compreender… Tem coisa melhor que cheiro de livro novo? Cheirinho de mar, quando voltamos para casa com ele tatuado no corpo, e de alma lavada. Cheiro de chocolate!! Especialmente, quando a gente faz brigadeiro e ele inunda a casa, remete-nos as melhores recordações da infância. Cheiro de carro novo? Esse, estou, doidinha pra sentir kkkkkk Ah! Existe coisa mais excitante que cheiro de pele na nossa pele, depois de um momento quente de amor?

E aí, qual cheiro que te traz saudade ou que te enche de emoção positiva? Comenta aí.

Meu nome é Samya Régia Antero, sou psicoterapeuta. Terapia é um presente que todo mundo merece se dar.
Amo cozinhar e escrever. Cozinhar é uma forma de demonstrar meu amor pelas pessoas… e escrever, além de terapêutico, é um ato revolucionário.
Sou casada com Luiz Carlos, mãe do João Pedro e do João Vítor, tudo por eles e com eles.

Abraços silenciosos

Dor física ou dor na alma, qual delas machuca mais?

Quando fraturei gravemente o tornozelo durante um treino aeróbico, cheguei a desmaiar de tanta dor. Nos quinze dias que se seguiram à cirurgia de urgência, só consegui tirar breves cochilos. Foram sete meses muito difíceis até a completa reabilitação.

Relembro esse fato por dois motivos: nesse próximo domingo completam dois anos do ocorrido; e por mais doloroso que tenha sido, não se compara à dor profunda pela perda, no ano seguinte, da minha única e querida irmã para a COVID-19.

A dor na alma, essa parece que nunca passa. Ainda mais quando potencializada pelo luto coletivo que ora vivemos, pela inépcia e escárnio do poder público central frente à pandemia, o inadmissível adiamento na compra de vacinas e o consequente atraso na imunização da população.

Embora incomparáveis, ambas são dores que, no primeiro instante, parecem insuperáveis, mas vou me esquivar aqui de falar somente em superação. Porque antes de superar qualquer dor, é necessário ser acolhido nessa dor.

Quando se está sob intenso sofrimento – físico ou espiritual –, tudo o que não se quer ouvir é que “vai passar”, expressão até simpática mas que pode denotar indiferença à dor alheia. É como se lhe dissessem: “Pare de se lastimar, você não é o único ser que sofre”. Desfiar experiências similares superadas – na maioria das vezes, muito mais graves – também não vai ajudar a quem sofre. No fundo, todos sabemos que tudo passa, que nada é para sempre, nem as coisas ruins nem as boas. Mas apressar o processo para quê? Não existe vida sem sofrimento e cada pessoa tem seu próprio tempo e modo de reagir a ele.

Dizem que o sofrimento contribui para o crescimento humano [e deve ser mesmo], como inúmeros outros sentimentos também contribuem, mas eu prefiro enxergá-lo apenas como natural à existência. É preciso, portanto, parar de negá-lo. Só assim seremos capazes de enfrentá-lo e superá-lo no momento certo.

Enfim, se você não é especialista em comportamento – como também não o sou –, ao se deparar com as dores de alguém, apenas o acolha em silêncio, com um abraço, sem comentários ou julgamentos.

A vítima

A vítima

Todos nós já vimos imagens que mostram o quão perversa pode ser a humanidade. De um ponto de vista cinematográfico, por exemplo, já estamos acostumados a perceber “de cara” quem são os vilões e heróis das histórias que assistimos, lemos e ouvimos.

Quando fiz meu mestrado em Relações Internacionais, estudei um pouco sobre essa relação carrasco-vítima num âmbito muito particular: a colonização. Lembro que a literatura com que me envolvi na época “abriu minha mente” em relação ao que eu entendia por processo colonizador. Tudo que havia aprendido antes sobre a relação colonizador-colonizado se desconstruiu na minha frente como se fosse uma série de dominós enfileirados. Aprendi que o colonizado não é e nem nunca foi uma vítima passiva nessa relação.

Em algum momento, é a construção “a posteriori” da História que os colocou nessa posição. Antes, porém, houve luta, batalha, avanços e retrocessos. Isso me ensinou uma coisa sobre a história: que existem mil e uma maneiras de sobreviver.

Na esfera das nossas vidas privadas acontece o mesmo. E talvez seja relevante levarmos esses acontecimentos da esfera macro para a micro. Por exemplo, quando queremos viajar para um outro país, fazemos as malas, checamos o necessários e nos preocupamos principalmente com o “passaporte”. Quando finalmente chegamos na fronteira daquele país, apresentamos nossas credenciais a fim de ingressar no pais hospedeiro. Daí vem a pergunta mais essencial de todas: onde está a fronteira desse país? Pela Geografia e pela História, vemos, ouvimos e pensamos que o mundo tem limites bem definidos. Porém, não é bem assim que acontece na realidade. No nosso caso, a fronteira é simplesmente o “guarda” que se encontra na sua frente. O mesmo que vai verificar sua foto, seu nome, e fazer perguntas sobre seu objetivo com aquela viagem.

A fronteira, meus amigos, está nas nossas cabeças. As histórias que aquele guarda viveu o transformou num “agente” daquele país. Da mesma forma, as histórias que escutamos nos transforma em cidadãos “agentes” das fronteiras de nossos países. Tudo o que fazemos na vida é carregar histórias.

Portanto, é no nível micro que conseguimos enxergar de forma mais transparente as relações de poder. O ritual do “apresentar o passaporte” na “fronteira”, equivale ao ritual de “tornar-se homem ou mulher” nas “nossas famílias”, o que equivale a dizer que o ritual de “vencer na vida” depende também de um cenário estruturado cujos valores é a “sociedade” que vivemos que vai decidir o que vale ou não. Dito de outra maneira, para ser vilão ou herói, primeiro, nós nos posicionamos (consciente ou inconscientemente) numa relação dinâmica, controversa, entrecortada, mal-definida, recontada e vivida, posto que seja uma relação ainda em processo. Um devir. Só depois de vencidas as batalhas, ou mesmo a guerra, é que se pode falar em vilão ou herói.

Uma peça da Broadway que me vem agora na mente fala disso, chama-se “Wicked”, que conta a história da Bruxa Má do famoso Mágico de Oz. Nela, nós conhecemos melhor a história dessa temida bruxa. Entendemos o quanto foi mal-entendida, vítima de uma sociedade que a via de forma diferente, isto é, fora dos padrões e, por isso mesmo, excluída.

Ora, o chamado “bullying” é isso mesmo. É a expressão da crueldade da infância e da adolescência. Só recentemente é que temos tentado lidar com essas questões de forma mais transparente na esfera da opinião pública. Por isso, é importante discutirmos algumas diferenças: afinal, o que é ser uma vítima, o que é o vitimismo ou quando superamos esse lugar nos tornando sujeitos da nossa própria história?

Quem sabe no próximo mês, não desçamos ainda mais o nível para as esferas mais corriqueiras da vida… Como não sou tão cronista como gostaria de ser, talvez algum dos leitores queira compartilhar uma ou outra história de superação do vitimismo. Um forte abraço a todos e todas.

Gustavo X. Damasceno

Ator, capoera e contador de história. Licenciado pela UFC em História Social, mestrado pela PUC-Rio em Relações Internacionais. É responsável pelo texto do quadro “Des-construção”, na terceira sexta de cada mês.

Cozinhar – Ritual De Vida

Por Leila Castro

Carne, cenoura, tomate, batata, alface, espinafre, papa, pasta de amendoim, batata palha, cebola, azeite, ovos, sal, temperos, rúcula, pimentões, de todas as cores, cheiro verde, salsa, creme de leite, brócolis, molho de tomate, arroz, queijos dos mais diversos tipos, uma garrafa de vinho… Música, incensos, colheres caindo no chão, cheiro de refogado e uma alegria que há tempos não existia nesse lar, que agora podia ser assim chamado. 

Tudo continuava do mesmo jeito, mas eu havia mudado.

Leila de avental, toda suja de tudo, procurando coisas nos sacos, deve ter esquecido algo indispensável, ela não parece ligar muito, ali na sua frente tem muitas coisas das quais ela adora, o que falta pode ser facilmente substituído. Enquanto corta a cebola, chora, quando corta o pimentão sorri, canta auto e rodopia. Diverte-se.

Jogando tudo nas panelas, olha o relógio e segue pro quarto onde abre o armário e o admira, qual será a melhor roupa? Como ela quer ser vista hoje? Arruma-se rapidamente e retorna à cozinha, o jantar está pronto e cheira bem, ela muda a música, Bolero de Ravel é a opção para o jantar. Ela degusta sua refeição, sorrir e festeja-se. Era sua comida com seu gosto pela vida, era ela digerindo seu trabalho e cuidado, digerindo-se. Nem mais e nem menos sal. 

A última taça de vinho. Ela se deita na poltrona e resolve deixar a internet e suas grandes escolhas para o dia seguinte. Convence-se dizendo:

– amanhã é domingo e domingo é um bom dia para se decidir a vida. Hoje já absorvi muitas mudanças, preciso dormir um pouquinho…

“É muita coincidência”

O novo quadro do Fantástico, que traz um pouco de leveza a esses tempos sombrios, me fez lembrar de um episódio em Paris envolvendo um casal cearense e um célebre chef francês.

Foi em novembro de 2016. Eu passava uma curta temporada na França dando vida à Joëlle, heroína francesa do meu romance “O segredo da boneca russa”, quando meu marido chegou do Brasil para alguns dias de férias.

Coloquei o processo literário no modo espera e saímos os dois abraçadinhos pelas ruas medievais de Saint-Germain-des-Prés em direção ao carrefour de l’Odéon. Ele queria entregar, sem demora, a cachaça que trouxera do Ceará para o chef Yves Camdeborde. Apaixonado por cozinha, meu marido adora se conectar com os cozinheiros dos seus restaurantes favoritos. Entramos no bar-restaurante – lotado àquela hora – e tentamos nos aproximar do disputadíssimo balcão.

Para tu-do! Chef celebridade, restaurante famoso, clientes sem reserva, balcão… Explique melhor, s’il vous plaît! Parece estranho para o imaginário gourmet, mas essa é exatamente a proposta das três casas “Avants-Comptoirs” de Yves Camdeborde, considerado o precursor da “bistronomia”, conceito de porções autorais a preços mais acessíveis. Truques de mentes inovadoras e criativas para contornar as recorrentes crises econômicas deste início de século.

Camdeborde teve a brilhante ideia ao se deparar diariamente com as filas que se formavam à hora do almoço na sua “La Brasserie Le Comptoir” [localizada no térreo do seu charmoso hotel “Le Relais Saint-Germain”; à noite, a brasserie se transforma em restaurante com menu surpresa, elaborado com produtos frescos de alta qualidade para uma clientela agendada bem previamente]. O gênio montou, então, dois barzinhos colados à brasserie, sem bancos, cadeiras ou mesas; apenas um grande balcão para servir os tais petiscos finos, harmonizados com bons vinhos em taças. Se era para esperar em pé por uma mesa incerta na brasserie, que fosse em grande estilo. [Em tempo: estávamos no “Le Comptoir de la Terre”, o primeiro dos três “Avants-Comptoirs” parisienses].

Enquanto saboreávamos as deliciosas entradinhas [amuse-bouches], indaguei ao funcionário simpático que atendia no balcão se o chef Camdeborde estava na casa. Ele me fitou surpreso e respondeu afirmativamente. Esclareci que éramos brasileiros, fãs da gastronomia do Camdeborde, e perguntei se ele poderia entregar ao patrão uma cachaça que meu marido acabara de trazer do Brasil. Para nosso espanto, ele disse que ia chamar o Camdeborde para que entregássemos o souvenir pessoalmente.

Minutos depois, aparece o Camdeborde acompanhado de uma bela jovem. Transcreverei a seguir o colóquio para expressar fielmente a dimensão do inesperado fato:

Bonjour à vous! – Camdeborde nos saudou.

Bonjour, M. Camdeborde! Enchantés. Je suis Celma et voici mon mari, Antônio – apresentei a mim e meu marido.

Enchanté! – Camdeborde retribuiu. – Je vous présente Nicole.

Bonjour, Nicole! Enchantés! – saudamos a jovem.

Expliquei-lhes no meu francês intermediário, que eu estava em Paris escrevendo um livro, e que meu marido acabara de chegar do Brasil com uma cachaça artesanal premiada – de fabricação própria – especialmente para o Monsieur Camdeborde.

– Podem falar em português, eu sou brasileira – Nicole falou em tom quase inaudível, mas com visível satisfação.

– Que maravilha! – meu marido e eu dissemos ao mesmo tempo.

– Vocês são de onde? – Nicole manteve o tom moderado.

– Somos do Nordeste – meu marido respondeu.

– Também sou! Ils sont du Nordeste! – ela traduziu para Camdeborde, em tom levemente mais elevado. – De qual lugar? – ela prosseguiu.

– Ceará – respondi.

– Não acredito! Também sou do Ceará! Ils sont du Ceará! – ela gritou [para os padrões franceses], saltitando ao lado de Camdeborde.

Camdeborde arregalou os olhos e, já de posse da garrafa de cachaça, leu o rótulo em voz alta, dobrando os erres e enfatizando as últimas sílabas: “Cachaçá Cedrrrô do Libanô, São Gonçalô do Amarrrrantê…”

– São Gonçalo??? Crois pas! C’est a cotê de mon village! – Nicole interrompeu o chef aos saltos, gritando até para os padrões brasileiros.

– Qual a sua cidade? – perguntamos ao mesmo tempo.

– Paracuru – ela respondeu.

– Inacreditável! – foi a minha vez de pular, gritar e dar-lhe aquele abraço brasileiro. – Nossa fazenda, onde a cachaça é envelhecida e envasada, fica a meio caminho entre São Gonçalo e Paracuru. Vamos sempre na sua cidade caminhar na praia. Seus familiares moram lá?

– Sim!

– Como veio parar aqui, Nicole? – perguntei, invasiva, infringindo os sisudos códigos locais [jornalista nunca tira férias].

– Casei-me com um francês, o Baptiste, filho do Monsieur Camdeborde, trabalhamos aqui – ela respondeu sorrindo, apontando discretamente para o funcionário do balcão que arranjou aquele encontro inusitado.

Baptiste divertia-se à curta distância com a cena, sem imaginar o grau de conexão que se operava entre seus familiares e aquele desconhecido casal brasileiro. Mais parecia um reencontro de velhos amigos.

Tirei da bolsa um exemplar de “Viver, simplesmente”, uma coletânea de crônicas, artigos e reportagens organizada por minha editora para celebrar os meus sessenta de vivências, autografei para a família Camdeborde e abri na página 216, exatamente no capítulo “Trinta motivos para não sair de Saint-Germain-des-Prés [e arredores]”, que destacava os amuse-bouches do “L’Avant Comptoir” entre as delícias imperdíveis do charmoso bairro na margem esquerda do Sena. O chef-estrela agradeceu os mimos, tirou selfie conosco e saiu apressadamente; estava atrasado para o preparo do menu gastronômico daquela noite no seu exclusivíssimo “Le Comptoir du Relais”.

Difícil eleger a nossa maior alegria naquele início de tarde de outono: cumprimentar pessoalmente o famoso chef francês ou conhecer sua nora cearense. [Atualizando: Nicole e Baptiste não estão mais juntos].

Pensando aqui em enviar essa história para a produção do Fantástico. Posso até anexar uma sugestão de sinopse: “Casal cearense entra em um bar-restaurante francês que costuma frequentar quando está em Paris; pede ao barman que entregue ao proprietário [famoso chef francês que o casal só conhece através da mídia] uma cachaça premiada trazida do Brasil; o dito cujo aparece com uma jovem intérprete nascida numa cidadezinha cearense, na mesma região da fazenda do casal, local de origem da cachaça premiada; a jovem cearense era funcionária no bar-restaurante parisiense, nora do chef celebridade e casada com o tal barman”.

Sabe o que isso significa, Tadeu Schmidt? Tudo, né? Uma tremenda coincidência!

Plantar um filho, escrever em uma árvore e ter um livro

Por Leila Castro

Digo-lhes: é preciso ter caos dentro de vocês mesmos, a fim de dar à luz uma estrela dançante”. (Nietzsche) 

A parede da paixão, manchada de vinho, bebida do Deus Baco, da Grécia antiga, mais um dos grandes mitos da história, mais uma das questões as quais não temos respostas e nem, se quer conhecemos as perguntas certas. Elas existem? 

. A mancha lembra sangue, dor, morte, mas é apenas a prova de um crime sem bandidos, nem mocinhos. Lembro da parede olhando para mim de forma reprovativa, culpando-me pelo o fato de eu tê-la tirado do senso comum, e isso tivesse acabado com sua vida. – Como se, isso fosse possível. Agora, no entanto, olha-me em tom de agradecimento, tornou-se única, ganhou personalidade e força, parece-me mais viva e alegre. Fiquei feliz ao vê-la.  Fico feliz sempre que há vejo.

  Os cacos no chão brilhavam refletindo a luz do sol, mas ainda traziam consigo a memória da noite anterior; felizmente, não guardavam rancor de mim, perceberam-se livres. Era por fim, cada um por si e o sol por todos. Peguei a vassoura para juntá-los e pude ver alguns pequenos fugitivos buscando seu lugar no mundo, ignorando o meu desejo de tirá-los dali. Ou será que não queriam partir por ainda crer que poderiam unir-se outra vez? Devia ter perguntado, mas isso só me veio agora quando ainda vejo alguns vidrinhos fugitivos. Um logo ali, em baixo da minha espreguiçadeira.

Se minha confortável cadeira falasse, ela agradeceria por tanta atenção, mas certamente iria pedir que eu a desse uma folga vez por outra, afinal ela não gosta de ter sempre a responsabilidade por meu conforto, isso pode ser um fardo muito pesado. Tentarei enfim, olhar outras cadeiras. Comprarei também uma bela cama, assim como um quadro para minha parede exclusiva, com quem cresci junto. Vou fazer uma faxina na vida e montar finalmente um lar. É hora de criar raízes, plantar frutos específicos, conquistar amigos presentes, sem ter de dizer adeus a todo instante. Talvez eu tenha um filho, quem sabe até um marido, o que não será difícil já que sempre tive muitos admiradores. Também plantarei uma árvore e escreverei um livro. Ou não seria melhor; Plantar um filho, escrever em uma árvore e ter um livro. Ou ainda, Plantar um livro, Escrever um filho e ter uma árvore. Tão pouco sei sobre o que quero. 

Lembrei-me de algum ditado… Acho que é chinês, que diz: “Não sei para onde estou indo, mas sei que vou?”. Não tenho certeza se é assim, mas é isso.

Meus pensamentos bem elaborados e utópicos, sobre o futuro, que já me bate a porta, me divertem.  

– Ai! Ai! A esperança nos preenche ou consome? 

O sol forte incomoda-me ainda um pouco, mas sei que irei contornar essa situação também, a questão agora é saber onde plantar raízes. Aqui ou em outro lugar, pode ser qualquer um. 

Sempre gostei de praia, as ondas do mar batendo nas pedras mudando as coisas de lugar, crianças correndo e sorrindo jogando a água pra cima. -Seria interessante morar em uma praia. Pisar na areia todas as manhãs, olhar o sol nascer, sentir a brisa batendo no meu rosto. Ao pensar nisso chego a fechar os olhos e consigo sentir o vento em meus cabelos… – No geral é o ventilador velho que levo sempre comigo aonde vou e que permanece sempre ligado, no entanto, é possível deixar-me levar pela imaginação e chego a andar em pensamento sobre os pequenos cristais gratuitos da natureza, a areia molhada pelo mar azul. Vendo-me refletida no chão, logo abaixo de mim.  – É sério! Consigo sentir!

Foto por Jill Burrow em Pexels.com

Definitivamente, quero e vou morar no litoral. Algum dia, talvez. Travo-me em um primeiro momento, mas meu corpo segue até o computador e quando dou conta já estou procurando cidades litorâneas, é preciso que sejam capitais, para facilitar na busca por um bom emprego e não passar fome, afinal se aprendi algo bem nessa vida, foi a gastar dinheiro. Nossa! Como faço isso com perfeição e rapidez. 

Mas não devo a ninguém! – Diz o meu cérebro antes mesmo que eu termine o pensamento. 

Tanto é o medo do julgamento dos outros que fazemos isso primeiro, nos julgamos, sem nem mesmo curtir o momento do prazer. Como somos cruéis conosco. Se, trabalhamos, e eu bem trabalho e ganho meu dinheiro; dessa forma posso e devo gastá-lo. É meu e foi conquistado para me satisfazer, não o contrário.

 – Sei disso, e ainda sim me justifico

E você tem se justificado muito? Me conta!