Sonhar é resistência

Neste 2021 quero sonhar todos os sonhos impossíveis, como os autênticos sonhos devem ser.

Planar entre os pássaros como se um deles fosse. 

Correr mais veloz que o jamaicano Bolt.

Trocar de roupa em três, dois, um…

Atravessar a nado, em seis horas, o Canal da Mancha.

Bailar como Odette no Lago de Tchaikovski.

Perguntar ao meu pai o motivo da sua risada, enquanto ele se enxágua lá no chuveiro. 

Ouvir da minha irmã os perrengues hilários nas suas viagens com colegas e amigos.

Levar a Buba e a Babu para caminhar no calçadão da Beira-mar de Fortaleza.

Dar corda na bicicletinha que ganhei da minha madrinha no aniversário de cinco anos.

Desembaraçar o cabelo sintético da minha boneca “Xodó”. 

Dividir com Lygia o prêmio sueco de literatura. 

Ser derrubada por um filhote brincalhão de Rott e não sofrer um arranhão.

Chegar ao topo da cordilheira himalaia.

Conversar com a criança que fui um dia. 

Acordar e perceber, entre aliviada e aflita, que tudo não passou de um sonho.

Feliz 2021, metade real, metade fantasia!

Sobre Bel, recomeços e filhos de papel

Eu poderia falar do meu livro de contos, Confinados, que será lançado dentro de dez dias, mas acordei novamente cismada com Belchior e no que ele teria sentido para criar “Tudo outra vez”.

O lamento poético que mistura amargura e esperança e que embalou grande parte da minha juventude, noite dessas sacudiu meus sonhos maduros e me fez passar os últimos dias cantarolando os mesmos versos.

“…Minha rede branca, meu cachorro ligeiro

Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro

O fim do termo saudade como o charme brasileiro de alguém sozinho a cismar…”

O genial compositor cearense teria mesmo se inspirado na repatriação de amigos exilados por força da ditadura militar? Tudo leva a acreditar que sim, pelo ano de criação da música – 1979 –, o tal da anistia.

Vejo-me, inevitavelmente, voltando ao meu refúgio sertanejo, lugar de acolhimento de amigos e familiares, de onde estou afastada desde o início da pandemia, sem previsão de um retorno breve.

A vida é mesmo feita de acasos e incertezas que exigem recomeços e ressignificações. Não ouso reviver emoções, alegrias, acontecimentos ou momentos. Primeiro, porque nada se repete e, depois, porque também mudamos a cada dia. No momento, adio planos e cuido para que a esperança sobreviva ao caos. Poderei viver novas experiências em um sertão que tem tudo para se transformar para melhor. E sigo sonhando com o dia em que cruzarei novamente aquela porteira e saudarei todos de lá: “Gente de minha rua, como eu andei distante…”.

Quanto aos “filhos de papel”, estou muito feliz com o nascimento do meu quarto livro. Dedico-o à minha única e inesquecível irmã. Creio que ela – tão fã do Bel quanto eu – ficaria orgulhosa da mana caçula que conseguiu emergir, malgrado a força densa que nos afundou a todos.

Desconstruções sobre o amor romântico.

Silvia Helena de Amorim Martins.

Se eu queria enlouquecer esse é o romance ideal. 

(Paralamas do Sucesso)

Era uma vez…. não sei se você já observou, mas todo conto romântico inicia da mesma forma, hahahahah e detalhe tem um príncipe e uma princesa, geralmente brancos e dentro do padrão eurocêntrico, raramente um casal inter-racial. Na vida real quando duas pessoas se encontram apesar do encantamento, os sinos não tocam, não tem sons de violino ao fundo, você não esta no alto de uma torre e ele não está montado em um cavalo branco. È tudo bem real, não tem esse glamour todo produzido pelo cinema, literatura e músicas. Observa-se as imperfeições:aquele dentinho torto, aquele cabelinho branco que teima em aparecer. Nada mais comum, afinal somos humanos e não saímos de um conto da Disney.

Nesse texto quero enfatizar que o outro, aquele seu crush (paixão súbita), gatinho(a), que faz seu coração batucar igual escola de samba no carnaval, infelizmente não vai lhe completar. É triste eu sei, acredite nas minhas palavras eu realmente sei hahahahah. O sofrimento amoroso, as frustrações são democráticas atingem a todos abaixo do céu, assinalo que os homens também sofrem por amor e como sofrem esses rapazes, mas devido uma estrutura social machista não é tão aceitável permitir que as lágrimas rolem. Vamos rasgar o véu e o verbo?!

Desde a infância é fomentado esse ideal romântico, esse imaginário fabuloso de que alguém vai nos completar. Isso me lembra Fabio Júnior : Carne unha, alma gêmea, bate coração, a metade da laranja e por ai vai hahahahaha.O psicanalista, Daniel Omar Perez afirma: O outro não vai me completar nunca, por que esse outro é faltoso e desejante, ele pode até caminhar junto, lado a lado masjamais suprir todas as expectativas, por que isso é pesado demais para qualquer ser humano na terra. É exatamente essa falta que eu tenho, você tem e a galera geral tem também, que a psicanálise chama de falta estruturante, em uma tentativa de satisfazer essa falta nos endereçamos a vida social, trabalho, amor, atividade física, lazer, dentre outras coisas que você pode nomear enquanto acompanha esse texto.

Será que não está na hora de se permitir descansar da angústia e da ansiedade gerada pelos ideias do amor romântico? Em 2019, de acordo com o IBGE 60% dos brasileiros e brasileiras estavam solteiros, suponho que imersos nessa pandemia que não acaba, esse número deve ter aumentado. Viu!!! Não é só você, tem todo um movimento que está desconstruindo o amor romântico. Seu eu sou contra o amor? Não, jamais só tenho uma visão crítica e reflexiva sobre o tema. O que você acha de enxergar o amor e o afeto como algo mais amplo, para além do par romântico? Será que amor de amigos, família são menores que o amor romântico? Eu sei que você está ai do outro lado dizendo: Há mais são amores diferentes. Concordo com você meu bem, são amores diferentes e provavelmente você quer um amor caliente que faça seu coração bater mais forte, pulsando só de emoção, que te faz acordar no meio da noite, que deixa você ansioso (a), com os olhos grudados na tela do celular a espera de uma resposta ahhahahahah. Mas esse é a questão, o amor romântico está pautado na impossibilidade, em um amor idealizado, que aponta o outro como perfeito (algo que não existe). Então acorda pra vida bebê!!!! Isso aqui é Brasil hahahhaha. O que você acha de um amor possível? De primeiro cuidar da sua casa interna / coração, antes de convidar alguém para entrar? Vai que nesse enclausuramento você se descobre como alguém bastante interessante e digno de amor?

Não estou dizendo para você se fechar, longe disso eu estou dizendo é para você se abrir para a vida, apreciar cada momento sem estar se martirizando com as pressões sociais que apontam que você precisa estar com alguém. A vida é agora, não se prenda a padrões, seja gentil consigo hoje!!!! E se aparecer um crush, que não fecha com ossonhos/ ideais? Mas é claro que ele/ela não vai fechar hahahahah a vida não é uma novela. E não estou dizendo que se jogue nos braços do primeiro que quiser hahahahaha. Mas apenas sai do alto da torre, fura a bolha de expectativas e se permite conhecer, conversar, deixar as coisas fluírem no seu tempo. Aproveitando a experiência no presente.

Mas claro sem deixar de focar em você, lembra!?Somos seres faltosos, quando nos acolhemos, nos cuidamos e acarinhamos passamos a ser menos exigentes com o outro e a enxergar as coisas como de fato são. Vale ressaltar a importância da rede de apoio: família, amigos e demais grupos. Bora, acalmar esse coração cansado(a)?!colocar as pernas para o alto, se espreguiçar e apreciar as dores e sabores de ser quem se é. Apesar das adversidade a vida é bem gostosa. Será que você não está vendo a vida passar, a espera de alguém que não vai chegar ( príncipe e princesa). O que você não pode é perder saúde em busca de ideais inalcançáveis. Um grande abraço!!! E até a próxima. Se cuida daí que eu me cuido daqui!!!

Quem sou EU e a matemática do -1 de D-EU-S

Fiz um teste de DNA autossômico. Estava curioso para saber minha composição genética. Nesses testes eles dividem o atlas em regiões mais ou menos clássicas. A minha composição relativa deu o seguinte resultado: Europa (65%), America (15%), Oriente Médio (13%) e África (7%). Em mais detalhes:

Tenho 49% de componente genético da Europa Central, 15% da Península Ibérica; Sou 10% ameríndio, da região da América Central e 4% dos Andes e Caribe. Do Oriente Médio 13% sendo desses 11% do Norte da África (Maghreb e Egito). Do continente africano herdei 7%, com 5% da Bacia do Congo. De todas estas regiões, alguns resquícios totalizam os 100% compostos de menos de 1% de Ameríndios da América do Norte; menos de 2% de Judeus Sefarditas; menos de 2% da região da África Ocidental (Ghana, Togo & Benin) e Chifre de África (Eritrea, Norte da Etiópia & Somalia) com menos de 1%; finalizando com – pasmem – Myanmar, também menos de 1%.

A questão da identidade permeia o humano. Talvez seja um traço singularmente humano. Saber quem se é. Desconheço qualquer indício dessa questão profundamente hamletiana em animais. Se bem que existem casos de cachorros e gatos que às vezes se acham humanos o suficiente para ocupar o lugar do seu dono. É uma questão intrincada. 

O “Ser ou não ser”, diz o solilóquio de Hamlet, revelando o primeiro princípio da lógica: o princípio da identidade. A identidade é única. Uma coisa é ou não é. E não pode ser uma terceira. Caso os atributos de uma pertençam a outra, então bate-se o martelo. Gêmeos apesar de idênticos, ainda são diferentes por temperamento. No tempo, porém, tudo fica mais difícil. Diz Hegel que a negação inerente do próprio ser lhe faz chegar à uma essência. Assunto difícil esse de falar de essência nos dias de hoje.

Tenho investigado a minha identidade. Sempre gostei de investigar essa questão intrínseca do ser humano. Justamente por não ser um cachorro e por agir com comportamentos os mais diversos – muitas vezes contraditórios – é que meu pensamento me leva a encarar essa questão de frente. Fico me perguntando, onde tudo isso começou? Aliás, quem foi o primeiro “maluco” a colocar essa questão? Sinto que tudo podia ser mais simples.

O estudo da cabala nos diz que o ser humano é composto de pensamento, fala e ação. No pensamento tudo ainda é muito interiorizado. É difícil saber de onde vêm as ideias, as intuições, os sentimentos e emoções. Depois há o mundo da fala e da ação, onde acontece a expressão, o colocar-se no mundo. Exteriorização. Começa aí a comunicação e o julgamento. Esse texto depois de publicado não ficará incólume. Opiniões divergirão. Julgamentos serão sentenciados. Então, se a palavra é capaz de fazer alterações incríveis no ambiente, o que dizer das ações. Se a língua fere, as ações significam morte ou vida.

No texto passado, eu falei um pouco sobre o comportamento dos cães. Em uma tentativa “humana, demasiada humana”, de fazer a analogia entre os diversos tipos de cães, chegamos à conclusão que os cães vira-latas merecem muitos elogios. Eles são vitoriosos quando passam por circunstâncias as mais adversas. São educados e comportados quando recebem oportunidades. São mais resistentes às doenças porque não carregam os maus genes de cães de raça. Ou seja, mais favorecidos pela competição evolutiva das espécies, conseguem incorporar alguns dos melhores resultados.

Mas voltemos a falar de seres humanos… Quem são eles? O que fazem de diferente quando comparado aos outros seres do planeta? Por que se comportam de modos absolutamente estranhos – cultura – uns em relação aos outros? Creio que a resposta está naquilo que sempre ouvimos falar mas pouco compreendemos. Ao tratar sobre o processo de criação do mundo, o narrador onisciente do livro de Gênese, nos diz que o homem foi feito “à imagem e semelhança” do seu Criador. O que significa isso? Sem mais delongas, não se trata de um espelho. Não se trata de uma leitura literal. Deus não é um homem de barba, velhinho com um cajado, comandando o mundo do seu trono à semelhança da fábrica do Papai Noel. Essa passagem revela aquilo que nos distingue de todos os outros seres. Ela revela que nós também temos razão, somos dotados de reflexão, sabemos medir, construir, comparar, estabelecer relações de causa e efeito. Conseguimos pensar. Embora, tantas vezes nos deixemos seduzir pelas emoções. É nosso dever não se deixar sucumbir por elas. Ou por aquilo que é da alçada do imaginário. Do que poderia ser mas não é. Do inalcançável e do impermanente. Nossos pensamentos, falas e ações têm o poder de redimir. Ou vocês realmente acreditam na história de que a serpente enganou o primeiro Homem? Se a tentação foi forte demais era porque Ele queria. O erro de Adam Kadmon não foi ter comido a maçã. Foi ter comido e gostado. Foi ter saboreado o prazer daquilo que viria a ser sua maior salvação: poder duvidar e percorrer um caminho para ter a certeza de que Ele existe. E de que ele mesmo É. Adam sentia inveja de Deus. Todos os homens sentem inveja de Deus. Sentem inveja de não poderem ser igualmente criadores. Adam e Hava inauguram aquilo que chamamos História.

Com a necessidade de se estabelecer nesse mundo, fabricamos a identidade. A identidade é racional. Ela tem o dever de nos manter seguros. Uma sensação de permanência e pertencimento encobre esse sentido único, de diferenciação e exclusão de um terceiro, porque “afinal, dois já é demais”. Vamos então analisar a maneira que respondemos à clássica pergunta: “Quem sou EU?”

Muitas vezes a resposta para esta pergunta se encontra na ponta da língua: um nome. “Sou fulano de tal”. Cuidado. Nem mesmo você escolheu este nome. Outras vezes, a resposta advém daquilo que se faz. A sua contribuição social. De preferência algo com bastante destaque social para poder se encher a boca ao dizer: “Sou médico”. Ninguém diz “sou puta/o”. Nas relações de identidade sociais e culturais, saber de onde se vem também é entendido como sinônimo de identidade. “Nasci em Roraima”. O que é bem diferente de ter nascido em Nova Iorque, claro. Em Roraima falta luz. Por tabela, os Estados – essa entidade abstrata que se acha invencível tal como os deuses – capturam os cidadãos com uma tal de “cultura nacional” para lhes restringir o movimento. O lugar dos cidadãos é dentro das fronteiras. Longe da anarquia que dizem haver no mundo. Se sou brasileiro, logo não posso ser português. Japonês não é russo e vice-versa. Os Estados cobram lealdade, serviços e tributos dos cidadãos, em troca de uma pretensa segurança contra ataques inimigos. O que não fazem, por outro lado, é conseguir deter o Capital com seu poder de desalojar, matar e viciar. E é fácil constatar que nessa guerra os Estados têm perdido vezes e mais vezes.

E quanto ao tempo? Como definir a identidade em relação ao tempo? Ao sermos cuspidos para o mundo parece que a negação nos acompanha continuamente. Sentimos fome, nos despedaçamos para ganhar uns trocados e nos alimentarmos; muitas vezes somos excluídos injustamente de um convívio social sem saber exatamente porquê; ou simplesmente sentimos que o “meu pai não me ama”. E tudo parece injusto, demasiado injusto. O que antes era um mar de rosas pode se tornar um lamaçal provindo do esgoto das grandes cidades. O “-1” nos acompanha. Não importa quanto de sinal positivo consigamos adquirir, 10, 30, 555, um milhão, a operação negativa do “-1” é parte constitutiva do ser humano. Fazer o quê? Foi assim que Deus quis. Conhecer a nossa história ultrapassa nosso limite físico, visto que se trata também de ancestralidade. Trata-se de outros corpos, de outras vidas, de outras culturas e de outras ideologias.

“O que antes era novo hoje é antigo”, diz a música do querido cantor filósofo Belchior. Testemunha de que a vida também não lhe tratou muito bem nos últimos tempos. Seu amigo John o ouviu dizer que o “tempo andou mexendo com a gente sim”. É assim que continuamos a nos guiar pela vida, identificando mais ou menos as etapas dos rastros que deixamos ao longo do caminho.

Para além das coordenadas do tempo e espaço, agora também as questões relativas ao gênero ganham importância. O que importa não é o biológico. Também não importa o quê ou quem dizem que somos. Papai e mamãe estavam errados. Importa, sim, aquilo que “eu” subjetivamente sou. Ou tendo a ser… ou estou em construção de ser. Trans-eu-nte. Sendo. Com pouco espaço para o preto ou o branco, alarga-se o “entre”. Sábios foram os ingleses que levaram o verbo “to be” pro mundo todo, economizando na gramática e também nas discussões do que se é ou não é. Diante de tanta confusão mental sinto que o mundo merece um novo Bob Marley: “Stop that train, I’m leavin’”. Na ausência dele, gosto de mandar um “Fuck” para toda essa baboseira de definição. É como eu digo: “se eu gostasse de dar o cú, já teria dado”. Não se mete com o que eu faço que não me meto na sua. Ser pan sexual é uma opção? Ser gay é outra opção? Ser “trans” imagina então. Meu filho, se é de teu desejo, toma aquilo que é teu. Mas arca com o poder dos teus desejos. Com as consequências. Gozar não combina com a Culpa. Nem rima. Errado foi Jesus Cristo que disse ter super poderes e morreu na cruz. Vai que não tinha tantos poderes mesmo.

Escuto Belchior. Diante de todas essas questões ainda se pode dizer que sou como “aquele jovem que desceu do norte e que ficou desnorteado”? A vontade é de dizer que sim. Mas eu não sou. Eu não sou como você! A transformação do “-1” se opera igual a todos nós quando passo fome. Mas a diferença nasce da maneira como escolhemos nossos caminhos. Como EU escolho o meu caminho. Livre arbítrio! Salve o livre arbítrio!!! Característica igualmente comum a todos nós. Infinitas possibilidades de escolha, configurando um modo completamente original de ser e estar no mundo.

Depois de comer a fruta do Bem e do Mal jamais estaremos novamente em casa. Fora do paraíso  e daquele estágio inicial da vida, estamos condenados na vida adulta a estarmos nus. O prazer ofertado pela cobra que seduziu Eva e depois Adão no jardim foi o de vivermos ao máximo as nossas escolhas. E é precisamente aonde chegamos, aqui e agora. Distinguir o Bem e o Mal só faz sentido quando podemos escolher. Somos a imagem e semelhança de Deus porque só aos seres humanos é facultada a possibilidade de restaurar a unidade Dele. Nesse ponto, a pergunta se transforma absolutamente. Não é mais em “quem sou EU” que devemos procurar respostas, mas em quem é D-EU-S. Sejamos menos egoístas, por favor!

A VIDA E SUAS ESTAÇÕES.

Por Silvia Helena de Amorim Martins

Primavera se foi e com ela essa dor que se alojou no meu peito devagar

(Los Hermanos)

E de repente, nada mais que de repente estamos em Novembro e como diria Tom Jobim é promessa de vida para o meu coração. Quando observo a vida, rememoro Belchior que canta em forma de oração: “Vida pisa devagar, cuidado meu coração é frágil.” E como esses corações frágeis fizeram o caminho do herói em 2020, uma saga bem desafiadora na verdade, cercada por diversas crises: política, econômica, social, sanitária e existencial. Como ilustra Rodrigo Alarcon: “Pobre coração faz favor de se cuidar”. O coração guarda sentimentos, desejos e segredos muito profundos, nele habita tudo que é caro e importante, é interessante selecionar o que deve permanecer e o que deve dizer adeus, para abrir caminho para o novo.

(Agora só falta você!)

Los Hermanos já alertava: Primavera soprando para um caminho mais feliz, creio que a cota de sofrimento desse ano já foi alcançada, foram muitas perdas: de entes queridos, de projetos, de tempo e claro, de paciência. Rememorei a oração da serenidade: “Dai-me senhor a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar”. Mas caro leitor(a) e as coisas que nós podemos mudar? Depende de quem? Sempre adorei o filme: Efeito Borboleta, que aborda o quanto uma escolha que parece simples, pode mudar o rumo de uma história. Viver não é se (en) caixar. É não se adaptar, como nos ensina os Titãs: Não vou me adaptar!!!!. Reconhecer a grandeza de ser único, enfatizo que ser único, não é ser só, e que é possível fazer laço com quem abraça a nossa singularidade e compreende as nossas necessidades de existir, para fora, como afirma Heidegger ( Filósofo, escritor e grande pensador que acreditava que a verdade deveria ser desvelada e que o humano deveria ter uma existência autêntica).

Tudo vai mudar quando essa luz se acender… eu já sei cantar, quero aprender a voar, canta, Sandra de Sá. Chegou a hora de apanhar os caquinhos, e fazer algo com isso, reiniciar. Mas o que? Eu observei, e sou integrante ativa de um movimento de mudança, que poderia ser nomeado como: Já basta! Já deu! Já foi! Não dá mais. Que tem como objetivo: apurar quem nós somos. Creio que ao passo que amadurecemos, nos tornamos mais autênticos. Ao nos depararmos com a finitude, entramos em contato com o mais profundo do ser e passamos a fazer escolhas que parecem pequenas, mas muito relevantes, que apontam para grandes mudanças. Isso me lembra Rita Lee: Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo que eu queria fazer!!!!! Será que não é hora de se libertar daquela vida vulgar? Será que não é hora de colocar sonhos em prática? Eu observei várias pessoas dando o primeiro passo: fazendo tatuagens, se libertando do anticoncepcional, mudando hábitos alimentares, falando o que pensa, fazendo transição capilar, terminando um relacionamento, iniciando um romance, dentre outras decisões que apontam para uma vida mais autêntica. Tomando posse de si, se aventurando.

Então, que tenhamos o que é preciso para mudar, desconstruir e reconstruir novos modos de vida, que abarque as nossas necessidades, reconhecendo o nosso papel naquilo que nos queixamos. Assumindo uma postura ativa, diante da vida e se responsabilizando pelo que é escolhido e pelo que foi deixado para trás. E se não der certo? Não deu! Faz parte da vida, acontece nas melhores famílias. Mas quando o coração grita, pela mudança e essa sensação é maior do que o medo de mudar, são grandes as possibilidades de êxito. Ademais não tem preço estar confortável na própria pele que habita, que é o primeiro lugar que ocupamos no mundo.  Não esqueçamos que a tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de colher. O que deve nascer na sua vida? E o que deve morrer? O que deve ser cultivado? E quais frutos você espera colher? Nos vemos em breve!! Um grande Abraço!!

Silvia Helena de Amorim Martins

Graduada em Processos Gerenciais. Especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho. Graduanda em Psicologia. Muito grande para se (en)caixar em lugares pequenos!

Maior que o nosso quintal

Bolha, zona de conforto, caixa, não importa a metáfora para a sensação de segurança quando se pertence a um grupo em que todos pensam da mesma forma.

É óbvio que cercar-se de pessoas que comungam com as nossas ideias pode nos trazer um sentimento de acolhimento e bem-estar, mas não podemos esquecer que a resistência, o contraditório, a teimosia e a inquietação são os vetores da mudança e evolução no mundo.

Pegando o gancho nas eleições municipais que se aproximam, cito algo que hoje parece muito natural: o voto feminino. Mas sabiam que, há noventa anos, nós, mulheres brasileiras, não podíamos escolher nossos representantes políticos? Bizarro, não é mesmo? Quando o direito feminino ao voto foi aprovado, em 1932, as casadas só podiam votar com o consentimento dos maridos; viúvas e solteiras apenas se tivessem renda própria.

A quem devemos tal conquista? Às nossas bravas antecessoras que ousaram discordar do pensamento hegemônico à época, que dispensaram as asas protetoras de seus pares e lares patriarcais, “desobedeceram” pais, irmãos e maridos, sofreram discriminações e preconceitos, enfim, saíram da caixa. Imaginem a realidade atual do nosso país se aquelas mulheres tivessem se acomodado em seus casulos, dizendo amém para tudo e todos. Seríamos um país ainda mais injusto, pois é impossível reconhecer igualdade de seres humanos enquanto mulheres e outras minorias não participarem ativamente de decisões coletivas.

Voltando à comodidade de integrar um grupo sem pensamentos divergentes – motivo dessas linhas –, acredito que só evoluímos como pessoas quando somos contestados em nossas certezas e verdades, no contato com o diferente, na prática do argumento, do debate e diálogo respeitosos. Não precisamos “eliminar” quem pensa diferente de nós, salvo quando se tratar de algo cruel e desumanizador, a exemplo do nazifascismo que varreu a Europa na primeira metade do século 20, e de outros males contemporâneos, como o racismo, a homofobia, a misoginia e afins. Mesmo reacionários convictos reconhecem a importância das diferenças para uma sociedade livre. Já dizia famoso dramaturgo brasileiro, de perfil conservador: “Toda unanimidade é burra”.

É possível discordar sem ataques e ódio? Não só é possível, como necessário. Enaltecemos tanto a democracia, mas nos negamos a conviver e respeitar os contrários. Muitas vezes queremos “exterminar” – ou “cancelar”, para usar a linguagem das redes – quem age e pensa de maneira diversa da nossa. O que precisamos combater vigorosamente é a polarização que tanto mal faz à humanidade. O caminho mais trilhável para isso é fortalecendo as liberdades de pensamento e expressão.

Parece utópico? E quem vive sem sonhos e esperança? Vamos sair das nossas caixas? Há vida inteligente pulsando fora delas, um mundo muito maior que o nosso quintal.

“Dança compartida”

Por Rafaela Lima

Corpo-compartido

Corpo-casa-concreto

Corpo-ocupação

Corpo mórbido-inerte

Condicionado a uma solidão/solidez em tempos pandêmicos

Contagiados pela incerteza da permanência de dias contados pelas estatísticas do extermínio de vidas

Os números se transformam

Em nomes

Saudades

Indignações e malotes de corpos em

 De

Com

posição.

Rafaela Lima é artista de dança, performer, pedagoga, especialista em Gestão Cultural, integrante da Cia Balé Baião, Produtora cultural no Galpão da Cena e Artista docente na Escola Livre Balé Baião (escolas da cultura do Estado do Ceará).

Brasileiros: um papo sobre vira-latas, futebol e auto-estima

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo
.

“Complexo de Vira-Latas”, crônica de Nelson Rodrigues

Que o Brasil é o país do carnaval, futebol e de corpos bonitos todo mundo sabe. Essa característica da nossa identidade é vendida aos quatro ventos. Se não somos nós mesmo que a reproduzimos, ela vem quase naturalmente para nós quando um contato imediato com qualquer estrangeiro acontece. Alguns estrangeiros – lá fora – adoram receber visitantes brasileiros pelo seu intrínseco gosto por festas e principalmente pelo seu “poder de compras no exterior”. Entretanto, é válido perguntar até que ponto essa imagem reproduz  alguns desvios que embora não explicitamente expressos, repercutem mal na nossa imagem.

A questão do “latin-lover” é uma delas. Por exemplo, quando um “macho brasileño” se vangloria de ser um conquistador, tem ele a dimensão de quanto pode ser mal-visto por mulheres que querem compromissos mais sérios? No meu entender, perde ele e perde também toda uma cadeia de homens que gostariam de desenvolver suas vidas sem esse tipo de preconceito. Além disto, podemos citar as tradicionais ideias de que sofrem muitos  brasileiros que moram no exterior: a ideia de serem fanfarrões, homens e mulheres, sim; de estarem sempre atrasados para compromissos (uma prática habitual e bastante cultuada no Rio de Janeiro); de não se esforçarem para aprender a língua local. E a coisa toda fica mais interessante quando tudo isso pode ser contraditoriamente vista pelo viés dos “sucess cases” de brasileiros bem-sucedidos em diversos ramos. 

O Brasil porém não é o único a sofrer esse tipo de preconcepção. Listei aqui alguns estereótipos contidos numa representação da identidade de alguns países. Como toda questão de identidade, dois pontos de vista são essenciais: a maneira como o sujeito enxerga a si mesmo e a maneira como os outros o enxergam.  Veja o gráfico abaixo.

Como os países se veem

USA: Técnicos. As trincheiras da inovação. 

Rússia, Argentina, República Tcheca e África do Sul enxergam-se como determinadas e calculistas, embora com doses de humor e diversão.

Brasil, Espanha e Itália: Países da diversão. Harmonia musical.

França, Itália e Reino Unido: Pertencentes à ilha da civilidade. Seriam os precursores da cultura, conectados ao Reino Unido pelo estreito da “liderança”.

Egito, Arábia Saudita, Paquistão, Índia e Tailândia: Seria o reino da “Espiritânia”. A população desses países se descrevem como focados nas famílias e espirituais, mas ao mesmo tempo respeitosos e receptivos ao estrangeiro.

China e Coreia do Sul: O continente das indústrias. Definem-se como gênios.

Hong Kong, Japão, Singapura, Alemanha e Finlândia: Uniformizados. Trabalho duro, consistentes e organizados. Veem-se com experiência e conhecimento suficiente para no ramo das tecnologias mas também um pouco decantes.

Como os países enxergam os outros

Austrália e Canadá: A Equilíbriolândia. Os mais equilibrados do planeta.

Rússia, USA e UK: Países de orgulhosos e presunçosos

Tailândia e México: Vila do descanso

Brazil Itália e Espanha: “Funlandia”

Hong Kong, Japão e Alemanha: Uniformelândia

China: Gênioestão

Egito, Arábia Saudita e Paquistão: Espiritânia 

Em 1958, o dramaturgo, cronista e boleiro Nelson Rodrigues escreveu que o mal do brasileiro era o “complexo de vira-lata”. Fazendo referência às desilusões provocadas pelas copas do mundo de 1950 e 1954. Na década de 1950 o Brasil perdeu para o Uruguai por 2 x 1 em pleno Maracanã, em 1954 o Brasil sem se saber classificado vai para as quartas de finais e perde para a Hungria por 4 x 2.

A derrota de 1950 só seria superada em 1958 quando o Brasil ganhou o primeiro título mundial na Suécia. Salve Nelson Rodrigues! Previu o que estava escondido na alma brasileira. Interessante notar que o jargão “complexo de vira-lata” teria ficado esquecido até a década de 1990 quando novamente o Brasil se viu às voltas com sua questão de identidade em meio ao processo de redemocratização e de inserção na economia mundial. Fora a copa de 1994 que teria coroado esse processo. Claro! 

E hoje? Ainda podemos nos perguntar em até que ponto somos vira-latas em uma espécie de sentimento kármico que alterna entre a constante euforia e a baixa auto- estima?

Minha memória recente indaga o que foi o 7 x 1 contra a Alemanha em 2014 (também no Maracanã), em um contexto de denúncia à corrupção em 2013, logo substituído pelas esperanças (re)patrióticas da copa de 2018, seguido de uma eleição em 2019 que pretende reerguer o país em termos morais contra a corrupção. Acho que até agora ninguém entendeu direito o que aconteceu. Estamos ainda atordoados.

Agora em 2020. Se olharmos para a história, seguindo essa linha de raciocínio, não será difícil prever o futuro de uma nação que se contentará com as migalhas de uma política violenta (mercadológica, massificada e segregacionista) se promovendo para a reeleição enquanto houver a construção eufórica de uma auto-estima ilusória no campo de futebol em 2022. 

Cão de Raça vs. Vira-lata

Observar a História não torna difícil a conclusão de tais prognósticos. Mas olhemos mais de perto sobre as características desse “vira-latismo”. O que é ser um cão vira-lata?

Alguns podem argumentar sobre a não-diferença entre cães de raça e vira-latas visto que ambos são cães. Igualmente “fofos” e dignos de amor, carinho, respeito. Mas será isso mesmo? E em que sentido afinal não se pode diferenciar um cão de outro? No fim, essas mesmas concepções seriam também válidas para os seres humanos?

É sabido que os chamados SRD (Sem Raça Definida) perdem o padrão racial quando há mistura de mais de duas raças. Por padrão racial entende-se comportamento. É só observar a diferença entre um pastor alemão e um bug na maneira de se posicionar quando andam com o dono. Por exemplo, o fato de andar na frente ou ao lado; um é certamente mais alerta que o outro; mais ou menos brincalhão; e o fato de fazer alarde para qualquer coisa que se mova que pode irritar perfeitamente os vizinhos.

Assim, a escolha de adoção (ou compra) de um cãozinho dependerá em certa medida da relação que o dono pretende possuir com ele. Em uma rápida busca pela internet observei algumas perguntas que foram colocadas em relação aos cães SRD:

São mais fáceis de serem educados?

Eles cheiram mais ou menos que os de raça?

Comem qualquer coisa? Seriam eles mais resistentes às doenças?

São mais espertos que os cães de raça?

Sobre a educação, saltou-me aos olhos o fato de que na maioria dos casos quando se pega um cachorro por impulso, o cachorro acaba não tendo o tratamento adequado. Observei algumas definições sobre os “vira-latas” no quesito comportamento. Eles não têm um comportamento típico, de modo que ele é “aberto”, diferentemente do que um cão de raça faz. Sendo sua característica mais intrínseca o fato de ser moldável. É necessário observar se veio já adulto ou filhotinho, pois esse fator deve influir na educação que ele deverá receber.

Em relação ao cheiro ou se comem qualquer coisa, essa questão foi respondida como sendo fundamentalmente dependente do “dono”. Ou seja, os cuidados com banho, tosa e alimentação acabam se relacionando com a valorização dos cuidados por parte do dono. E mais, diante da decisão de adotar, o fato de ter sido por compra ou doação pareceu influenciar bastante, visto que alguns donos acham que podem economizar mais tendo um cão vira-lata, isso desde a compra, passando pelo tipo de ração e os remédios que porventura venham precisar. Sim, a questão do custo pareceu ter um peso fundamental, além do “amor”.

Um dos veterinários alertou para a questão de “atribuição de um passado de sofrimento” do SRD, já que a pessoa pode enchê-lo de mimos para tentar compensar o passado, como se a culpa fosse dele, tentando aplacar um suposto sofrimento do cão. Os especialistas dizem que o excesso de mimo pode levar o cão a exigir uma atenção em momentos inoportunos como o cotidiano de trabalho, recepção de convidados em casa, e outras tarefas que podem provocar ruídos (literalmente) na casa. Recomenda-se, pois, que se esqueça o passado e viva o presente. Afinal, fora da rua, agora ele é um cachorro normal como qualquer outro.

Sobre o fato de serem mais resistentes à doenças parece que a maior parte das respostas foi afirmativa em favor dos cães de rua. Contribuem dois principais fatores: 1) genético 2) seleção natural. Os SRD têm menos problemas genéticos. As doenças genéticas são provenientes de genes recessivos. Assim, os vira-latas são mais resistentes às doenças, embora não sejam imunes às doenças virais e de bactérias como qualquer outro cão, de raça ou não. O segundo fator seria darwinista (muito melhor encaixado nesse contexto do que numa visão social, não é mesmo?!). Ou seja, aplica-se a máxima de que “na rua sobrevive o mais apto”. Sem dúvida alguma, o fato de ter sobrevivido sozinho na rua o colocaria como mais resistente aos desafios impostos.

No quesito inteligência, encontrei um “ranking” feito por um estudioso. Stanley Coren, em “A inteligência dos cães” relaciona 133 raças organizadas em níveis de inteligência entre 1 a 79. Fonte: Ranking de inteligência canina https://tudosobrecachorros.com.br/inteligencia-dos-caes/#ixzz6alSj8gP0

Importante dizer que ele define “inteligência” como “Inteligência de Obediência e Trabalho”, e não da inteligência “Instintiva” dos cães. A inteligência tem componente genético mas também de estímulo dessa inteligência. Suponha-se que um filhote venha das ruas, será que ele não teve desafios maiores que outros cães menos sujeito a esses desafios?

Quantas repetições são necessárias para ele entender? Enquanto um labrador pode precisar de apenas 2 repetições um cão da raça pug necessitaria de 30 repetições. A diferença é enorme. Ainda assim, alguns questionaram essa medição de inteligência quando se pensa que esses cães na verdade são apenas teimosos, não correspondendo às expectativas da obediência humana. 

Brasil: país de vira-latas?

Encaminho-me para a conclusão desse doloroso artigo. Trago ainda mais dúvidas do que respostas, como é sabido. Colocando em perspectiva alguns desses “traços caninos”, podemos nos perguntar a maneira pela qual podemos afirmar a valorização ou desvalorização do “ser humano vira-lata”? Tomando tais pressupostos, o que significaria fazer um “elogio ao vira-lata”, como faz o economista Eduardo Gianetti? Implicaria certamente observar as características em aspectos positivos mais do que negativos, por suposto.

Nesse sentido, em que medida são os “brasileiros” mais valorizados que os países do Norte, ou os “cães de raça”? Humberto Mariottis fala em “O complexo de inferioridade do brasileiro (fantasias, fatos e o papel da educação)” que:

O vira-lata se satisfaz com o pouco que lhe dão, ou mesmo com o que não lhe dão mas que ele consegue no dia-a-dia. Concessões mínimas, pequenas sobras são para ele grandes vantagens. Conseguir ser atendido num posto de saúde, depois de longas esperas em filas intermináveis, e atravessar o Atlântico para ganhar em euros, mesmo sem grandes chances de mudar de patamar socioeconômico, são dois exemplos. Trata-se, como já foi dito, de alimentar a sensação de que já se alcançou alguma coisa numa população em que muitos nada conseguem.

Link: http://web.archive.org/web/20071225092632/http://www.revistabsp.com.br/0608/ensaio1.htm

Tomando alguns dos pontos sobre o mundo animal aqui elencados, façamos então uma espécie de ensaio sociológico. 

A primeira diz respeito ao comportamento. Qual seria então o comportamento típico de

determinado povo ou etnia? A questão é delicada e está sujeita ao terreno movediço da diferenciação étnica. A Alemanha do nacional socialismo (nazi) trouxe essa questão sensível, colocando até mesmo sem querer – ou “sem  querer querendo” – no seu movimento a contribuição de intelectuais anti-fascistas no “hall” dos que contribuíram – involuntariamente – para a construção teórica da supremacia de um povo. Afinal, qual seria o comportamento típico de um chinês, de um russo ou de um japonês? O que dizer dos países multiculturais que não se definem por fronteiras muito rígidas como Austrália, Canadá, França e Estados Unidos? Essa é sem dúvida uma questão que deve ser relegado aos especialistas das questões sobre “representação e identidade”.

Como compreender essas singularidades? Entre os que adotam a “diferença” e a “igualdade” como ontologia, que tipo de valores poderão emergir? Como se dá a relação entre “diferença” e “igualdade”? Que classificações e organizações podem emergir?

Para além desses dois pontos de vista, um inimigo: aqueles que enxergam divisões hierárquicas como constituintes da existência. Não custa lembrar que não faz muitos anos que as teorias de supremacia racial pairavam sobre as mentalidades de acadêmicos e políticos para justificar as práticas de segregação e de desenvolvimento nacional. As políticas de eugenia no Brasil, por exemplo, promoviam o “embranquecimento” da população pela imigração estrangeira para que se retirassem os “elementos negativos” da nação. Esses elementos na maioria das vezes faziam alusão ao índio e ao negro. O primeiro estando associado à resistência ao trabalho e ao progresso, portanto indolente e dissimulado. E o segundo, vinculado ao trabalho, porém contraditoriamente menosprezado uma vez que valorativamente associado à mão de obra exclusivamente mecânica. 

5 Variáveis Caninas para Interpretar o Vira-Latismo

Como o que acontece hoje é uma completa falta de entendimento mútuo (dentro e fora das redes sociais), principalmente em relação às palavras e aos conceitos, vale a pena esclarecer o meu ponto de vista, com essa fundamentação: sou daqueles que enxergam mais a diferença do que a igualdade. Nesse quesito, não significa que eu enxergue o cão de raça como superior ao vira-lata. Ao mesmo tempo não significa de modo algum que sejam iguais.

Vejamos os pontos de ataque para uma “sociologia do vira-latismo”. De acordo com o meu estudo sobre os SRD – reitero: Sem Raça Definida – percebi cinco fatores que poderiam ter suas variáveis de estudo aprofundadas:

  1. O comportamento típico do cão de raça vs. o comportamento “aberto” e “moldável” do vira-lata
  2. O papel dos donos, que no meu entender se relaciona em paralelo com o papel dos Estados modernos e a maneira como os governos lidam com sua população em termos de cuidados, educação, saúde e bem-estar
  3. A ideia de um “passado de sofrimento”, muitas vezes atrelado à uma percepção  histórica dos malefícios da colonização por parte dos países europeus
  4. A resistência às doenças: em níveis genéticos e de seleção natural (as adversidades superadas para sobreviver)
  5. Uma visão da inteligência voltada menos para uma espécie de “instinto animal” do que para uma “Inteligência de Obediência”. Isto é, o tipo de relação em que se espera que o cão obedeça à uma ordem. Em outras palavras, em que medida as horas de trabalho serão contabilizadas para a produção de valor em termos de medição global.

InConclusão

Chegamos por enquanto ao ponto de estabelecer as bases para um diálogo à respeito da identidade. Isso pode ser colocado para qualquer perspectiva identitária. Mas estou interessados aqui na questão específica do brasileiro. Como ele se enxerga? Que modos de vida o definem? Quem o define, ele mesmo ou o outro? Ambos? Seria ele digno, menos ou mais que outras contribuições de outros países?

Importa saber, acima de tudo, como nos relacionamos com essas questões interiormente. Penso que há certamente algo que reverbera quando um corpo sai do seu lugar-comum. Quando se coloca no “exterior”, expresso e visível para olhares e julgamentos. Como se relacionar com esse outro que pode ou não devolver uma expectativa criada por aquele sujeito antes tão confiante?

Você, caro leitor, já se viu envolto dessas questões? Já te perguntaram quem você era e o que fazia lá fora? Como você respondeu a essa demanda? Aliás, que chances você tem de resposta em um mundo que em primeiro lugar te encaixota, sela e que agora te vende com uma arroba @ virtual?

Gus Xavíer é ator, historiador e capoeira.

Gosta de muitas coisas e por isso se considera um generalista que vive num mundo que insiste em se especializar.

A ARTE DE VIVER A VIDA: UM PROCESSO DE DESCONSTRUÇÃO

Por Silvia Helena de Amorim Martins.

QUERO A VIDA RESPIRAR!

(Mariana Froes/Phill Veras).

Como ilustra Guimarães Rosa: A vida é um eterno rasgar-se e emendar-se. Enxergo a vida como movimento, um eterno processo de construção e desconstrução. E não tem nenhum mal nisso, essa é a beleza da vida, a imprevisibilidade e a possibilidade de fazer dela uma obra prima. Lulu Santos já alertava: Tudo muda, o tempo todo no mundo.” Construir e descontruir caro leitor(a), palavras muito usadas atualmente e que nos convocam a uma atualização de quem somos. Estamos vivendo tempos difíceis, sombrios na verdade. O país está cada vez mais polarizado, a crise sanitária nos assola, as poucas certezas que acreditávamos ter, escorreram entre os dedos, como areia fina. Novas rotinas e modos de vida se estabeleceram. E ainda falam em um novo normal!!! É sério, que antes de todos esses fatos a vida era normal? Eu,confesso que sempre vi com estranheza: a injustiça social, a miséria, desigualdade e que nunca achei normal, a maioria da população viver em condições tão precárias.

Para onde iremos? Eu não sei! Eu não acredito em respostas prontas e sim no poder mobilizador das perguntas. Como afirmava Belchior: “Não me sigam porque eu também estou perdido.” De fato, não tenho essa resposta e não acredito que alguém possa tê-la, partindo do pressuposto de que cada um escolhe o melhor para si, mas alerto que você não está sozinho, sua escolha individual impacta no coletivo. Muitas vezes é necessário, mudar a direção, refazer escolhas, caminhos. Não digo que seja algo fácil, nem todos são “uma metamorfose ambulante”,como diria Raul Seixas. Mas eu lhe convido a mergulhar nesse mar de incertezas, que é a vida e se você é brasileiro(a), então ai, que o mergulho é profundo, as águas são turbulentas e você corre o risco de se afogar!!!

Será que não está na hora de algumas escolhas serem refeitas? De dar adeus a algumas crenças? Sair do lugar comum? Lembro ter ouvido que: “Para quem não sabe para onde vai, qualquer lugar serve”. Se isso é verdade? Não posso lhe responder. Mas como afirma Marisa Monte: “ A vida é um dia, um dia sem culpa, um dia que passa.” Enfatizo que a escolha tem que fazer sentido para você, para sua vida! Ilustrando sobre a minha experiência de seis meses em quarentena, creio que fiz as mudanças que julguei necessárias: alguns muros precisavam cair, portas precisavam ser abertas e outras claro, serem fechadas, estou arrumando a casa no meu tempo, a minha maneira. Acredito no poder do movimento, da relação, e que é preciso dançar a vida com uma certa leveza. O objetivo desse texto é suscitar reflexões sobre, o que precisa ser desconstruído? O que precisa ser cultivado? Não pense que essas perguntas serão respondidas agora. Como diria,Carlos Drummond de Andrade: “Durma sobre o problema”. Pense sobre o que o(a) inquieta, no fundo sentimos quando algo nos incomoda, o espinho na carne. Quando é hora de partir, ou quando é hora de ficar e fazer laço. Abraço e até a próxima conversa!!!

Silvia Helena de Amorim Martins. Graduada em Processos Gerenciais. Especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho. Graduanda em Psicologia. Muito grande para se (en)caixar em lugares pequenos! Uma ArteVista nata.