Brasileiros: um papo sobre vira-latas, futebol e auto-estima

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo
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“Complexo de Vira-Latas”, crônica de Nelson Rodrigues

Que o Brasil é o país do carnaval, futebol e de corpos bonitos todo mundo sabe. Essa característica da nossa identidade é vendida aos quatro ventos. Se não somos nós mesmo que a reproduzimos, ela vem quase naturalmente para nós quando um contato imediato com qualquer estrangeiro acontece. Alguns estrangeiros – lá fora – adoram receber visitantes brasileiros pelo seu intrínseco gosto por festas e principalmente pelo seu “poder de compras no exterior”. Entretanto, é válido perguntar até que ponto essa imagem reproduz  alguns desvios que embora não explicitamente expressos, repercutem mal na nossa imagem.

A questão do “latin-lover” é uma delas. Por exemplo, quando um “macho brasileño” se vangloria de ser um conquistador, tem ele a dimensão de quanto pode ser mal-visto por mulheres que querem compromissos mais sérios? No meu entender, perde ele e perde também toda uma cadeia de homens que gostariam de desenvolver suas vidas sem esse tipo de preconceito. Além disto, podemos citar as tradicionais ideias de que sofrem muitos  brasileiros que moram no exterior: a ideia de serem fanfarrões, homens e mulheres, sim; de estarem sempre atrasados para compromissos (uma prática habitual e bastante cultuada no Rio de Janeiro); de não se esforçarem para aprender a língua local. E a coisa toda fica mais interessante quando tudo isso pode ser contraditoriamente vista pelo viés dos “sucess cases” de brasileiros bem-sucedidos em diversos ramos. 

O Brasil porém não é o único a sofrer esse tipo de preconcepção. Listei aqui alguns estereótipos contidos numa representação da identidade de alguns países. Como toda questão de identidade, dois pontos de vista são essenciais: a maneira como o sujeito enxerga a si mesmo e a maneira como os outros o enxergam.  Veja o gráfico abaixo.

Como os países se veem

USA: Técnicos. As trincheiras da inovação. 

Rússia, Argentina, República Tcheca e África do Sul enxergam-se como determinadas e calculistas, embora com doses de humor e diversão.

Brasil, Espanha e Itália: Países da diversão. Harmonia musical.

França, Itália e Reino Unido: Pertencentes à ilha da civilidade. Seriam os precursores da cultura, conectados ao Reino Unido pelo estreito da “liderança”.

Egito, Arábia Saudita, Paquistão, Índia e Tailândia: Seria o reino da “Espiritânia”. A população desses países se descrevem como focados nas famílias e espirituais, mas ao mesmo tempo respeitosos e receptivos ao estrangeiro.

China e Coreia do Sul: O continente das indústrias. Definem-se como gênios.

Hong Kong, Japão, Singapura, Alemanha e Finlândia: Uniformizados. Trabalho duro, consistentes e organizados. Veem-se com experiência e conhecimento suficiente para no ramo das tecnologias mas também um pouco decantes.

Como os países enxergam os outros

Austrália e Canadá: A Equilíbriolândia. Os mais equilibrados do planeta.

Rússia, USA e UK: Países de orgulhosos e presunçosos

Tailândia e México: Vila do descanso

Brazil Itália e Espanha: “Funlandia”

Hong Kong, Japão e Alemanha: Uniformelândia

China: Gênioestão

Egito, Arábia Saudita e Paquistão: Espiritânia 

Em 1958, o dramaturgo, cronista e boleiro Nelson Rodrigues escreveu que o mal do brasileiro era o “complexo de vira-lata”. Fazendo referência às desilusões provocadas pelas copas do mundo de 1950 e 1954. Na década de 1950 o Brasil perdeu para o Uruguai por 2 x 1 em pleno Maracanã, em 1954 o Brasil sem se saber classificado vai para as quartas de finais e perde para a Hungria por 4 x 2.

A derrota de 1950 só seria superada em 1958 quando o Brasil ganhou o primeiro título mundial na Suécia. Salve Nelson Rodrigues! Previu o que estava escondido na alma brasileira. Interessante notar que o jargão “complexo de vira-lata” teria ficado esquecido até a década de 1990 quando novamente o Brasil se viu às voltas com sua questão de identidade em meio ao processo de redemocratização e de inserção na economia mundial. Fora a copa de 1994 que teria coroado esse processo. Claro! 

E hoje? Ainda podemos nos perguntar em até que ponto somos vira-latas em uma espécie de sentimento kármico que alterna entre a constante euforia e a baixa auto- estima?

Minha memória recente indaga o que foi o 7 x 1 contra a Alemanha em 2014 (também no Maracanã), em um contexto de denúncia à corrupção em 2013, logo substituído pelas esperanças (re)patrióticas da copa de 2018, seguido de uma eleição em 2019 que pretende reerguer o país em termos morais contra a corrupção. Acho que até agora ninguém entendeu direito o que aconteceu. Estamos ainda atordoados.

Agora em 2020. Se olharmos para a história, seguindo essa linha de raciocínio, não será difícil prever o futuro de uma nação que se contentará com as migalhas de uma política violenta (mercadológica, massificada e segregacionista) se promovendo para a reeleição enquanto houver a construção eufórica de uma auto-estima ilusória no campo de futebol em 2022. 

Cão de Raça vs. Vira-lata

Observar a História não torna difícil a conclusão de tais prognósticos. Mas olhemos mais de perto sobre as características desse “vira-latismo”. O que é ser um cão vira-lata?

Alguns podem argumentar sobre a não-diferença entre cães de raça e vira-latas visto que ambos são cães. Igualmente “fofos” e dignos de amor, carinho, respeito. Mas será isso mesmo? E em que sentido afinal não se pode diferenciar um cão de outro? No fim, essas mesmas concepções seriam também válidas para os seres humanos?

É sabido que os chamados SRD (Sem Raça Definida) perdem o padrão racial quando há mistura de mais de duas raças. Por padrão racial entende-se comportamento. É só observar a diferença entre um pastor alemão e um bug na maneira de se posicionar quando andam com o dono. Por exemplo, o fato de andar na frente ou ao lado; um é certamente mais alerta que o outro; mais ou menos brincalhão; e o fato de fazer alarde para qualquer coisa que se mova que pode irritar perfeitamente os vizinhos.

Assim, a escolha de adoção (ou compra) de um cãozinho dependerá em certa medida da relação que o dono pretende possuir com ele. Em uma rápida busca pela internet observei algumas perguntas que foram colocadas em relação aos cães SRD:

São mais fáceis de serem educados?

Eles cheiram mais ou menos que os de raça?

Comem qualquer coisa? Seriam eles mais resistentes às doenças?

São mais espertos que os cães de raça?

Sobre a educação, saltou-me aos olhos o fato de que na maioria dos casos quando se pega um cachorro por impulso, o cachorro acaba não tendo o tratamento adequado. Observei algumas definições sobre os “vira-latas” no quesito comportamento. Eles não têm um comportamento típico, de modo que ele é “aberto”, diferentemente do que um cão de raça faz. Sendo sua característica mais intrínseca o fato de ser moldável. É necessário observar se veio já adulto ou filhotinho, pois esse fator deve influir na educação que ele deverá receber.

Em relação ao cheiro ou se comem qualquer coisa, essa questão foi respondida como sendo fundamentalmente dependente do “dono”. Ou seja, os cuidados com banho, tosa e alimentação acabam se relacionando com a valorização dos cuidados por parte do dono. E mais, diante da decisão de adotar, o fato de ter sido por compra ou doação pareceu influenciar bastante, visto que alguns donos acham que podem economizar mais tendo um cão vira-lata, isso desde a compra, passando pelo tipo de ração e os remédios que porventura venham precisar. Sim, a questão do custo pareceu ter um peso fundamental, além do “amor”.

Um dos veterinários alertou para a questão de “atribuição de um passado de sofrimento” do SRD, já que a pessoa pode enchê-lo de mimos para tentar compensar o passado, como se a culpa fosse dele, tentando aplacar um suposto sofrimento do cão. Os especialistas dizem que o excesso de mimo pode levar o cão a exigir uma atenção em momentos inoportunos como o cotidiano de trabalho, recepção de convidados em casa, e outras tarefas que podem provocar ruídos (literalmente) na casa. Recomenda-se, pois, que se esqueça o passado e viva o presente. Afinal, fora da rua, agora ele é um cachorro normal como qualquer outro.

Sobre o fato de serem mais resistentes à doenças parece que a maior parte das respostas foi afirmativa em favor dos cães de rua. Contribuem dois principais fatores: 1) genético 2) seleção natural. Os SRD têm menos problemas genéticos. As doenças genéticas são provenientes de genes recessivos. Assim, os vira-latas são mais resistentes às doenças, embora não sejam imunes às doenças virais e de bactérias como qualquer outro cão, de raça ou não. O segundo fator seria darwinista (muito melhor encaixado nesse contexto do que numa visão social, não é mesmo?!). Ou seja, aplica-se a máxima de que “na rua sobrevive o mais apto”. Sem dúvida alguma, o fato de ter sobrevivido sozinho na rua o colocaria como mais resistente aos desafios impostos.

No quesito inteligência, encontrei um “ranking” feito por um estudioso. Stanley Coren, em “A inteligência dos cães” relaciona 133 raças organizadas em níveis de inteligência entre 1 a 79. Fonte: Ranking de inteligência canina https://tudosobrecachorros.com.br/inteligencia-dos-caes/#ixzz6alSj8gP0

Importante dizer que ele define “inteligência” como “Inteligência de Obediência e Trabalho”, e não da inteligência “Instintiva” dos cães. A inteligência tem componente genético mas também de estímulo dessa inteligência. Suponha-se que um filhote venha das ruas, será que ele não teve desafios maiores que outros cães menos sujeito a esses desafios?

Quantas repetições são necessárias para ele entender? Enquanto um labrador pode precisar de apenas 2 repetições um cão da raça pug necessitaria de 30 repetições. A diferença é enorme. Ainda assim, alguns questionaram essa medição de inteligência quando se pensa que esses cães na verdade são apenas teimosos, não correspondendo às expectativas da obediência humana. 

Brasil: país de vira-latas?

Encaminho-me para a conclusão desse doloroso artigo. Trago ainda mais dúvidas do que respostas, como é sabido. Colocando em perspectiva alguns desses “traços caninos”, podemos nos perguntar a maneira pela qual podemos afirmar a valorização ou desvalorização do “ser humano vira-lata”? Tomando tais pressupostos, o que significaria fazer um “elogio ao vira-lata”, como faz o economista Eduardo Gianetti? Implicaria certamente observar as características em aspectos positivos mais do que negativos, por suposto.

Nesse sentido, em que medida são os “brasileiros” mais valorizados que os países do Norte, ou os “cães de raça”? Humberto Mariottis fala em “O complexo de inferioridade do brasileiro (fantasias, fatos e o papel da educação)” que:

O vira-lata se satisfaz com o pouco que lhe dão, ou mesmo com o que não lhe dão mas que ele consegue no dia-a-dia. Concessões mínimas, pequenas sobras são para ele grandes vantagens. Conseguir ser atendido num posto de saúde, depois de longas esperas em filas intermináveis, e atravessar o Atlântico para ganhar em euros, mesmo sem grandes chances de mudar de patamar socioeconômico, são dois exemplos. Trata-se, como já foi dito, de alimentar a sensação de que já se alcançou alguma coisa numa população em que muitos nada conseguem.

Link: http://web.archive.org/web/20071225092632/http://www.revistabsp.com.br/0608/ensaio1.htm

Tomando alguns dos pontos sobre o mundo animal aqui elencados, façamos então uma espécie de ensaio sociológico. 

A primeira diz respeito ao comportamento. Qual seria então o comportamento típico de

determinado povo ou etnia? A questão é delicada e está sujeita ao terreno movediço da diferenciação étnica. A Alemanha do nacional socialismo (nazi) trouxe essa questão sensível, colocando até mesmo sem querer – ou “sem  querer querendo” – no seu movimento a contribuição de intelectuais anti-fascistas no “hall” dos que contribuíram – involuntariamente – para a construção teórica da supremacia de um povo. Afinal, qual seria o comportamento típico de um chinês, de um russo ou de um japonês? O que dizer dos países multiculturais que não se definem por fronteiras muito rígidas como Austrália, Canadá, França e Estados Unidos? Essa é sem dúvida uma questão que deve ser relegado aos especialistas das questões sobre “representação e identidade”.

Como compreender essas singularidades? Entre os que adotam a “diferença” e a “igualdade” como ontologia, que tipo de valores poderão emergir? Como se dá a relação entre “diferença” e “igualdade”? Que classificações e organizações podem emergir?

Para além desses dois pontos de vista, um inimigo: aqueles que enxergam divisões hierárquicas como constituintes da existência. Não custa lembrar que não faz muitos anos que as teorias de supremacia racial pairavam sobre as mentalidades de acadêmicos e políticos para justificar as práticas de segregação e de desenvolvimento nacional. As políticas de eugenia no Brasil, por exemplo, promoviam o “embranquecimento” da população pela imigração estrangeira para que se retirassem os “elementos negativos” da nação. Esses elementos na maioria das vezes faziam alusão ao índio e ao negro. O primeiro estando associado à resistência ao trabalho e ao progresso, portanto indolente e dissimulado. E o segundo, vinculado ao trabalho, porém contraditoriamente menosprezado uma vez que valorativamente associado à mão de obra exclusivamente mecânica. 

5 Variáveis Caninas para Interpretar o Vira-Latismo

Como o que acontece hoje é uma completa falta de entendimento mútuo (dentro e fora das redes sociais), principalmente em relação às palavras e aos conceitos, vale a pena esclarecer o meu ponto de vista, com essa fundamentação: sou daqueles que enxergam mais a diferença do que a igualdade. Nesse quesito, não significa que eu enxergue o cão de raça como superior ao vira-lata. Ao mesmo tempo não significa de modo algum que sejam iguais.

Vejamos os pontos de ataque para uma “sociologia do vira-latismo”. De acordo com o meu estudo sobre os SRD – reitero: Sem Raça Definida – percebi cinco fatores que poderiam ter suas variáveis de estudo aprofundadas:

  1. O comportamento típico do cão de raça vs. o comportamento “aberto” e “moldável” do vira-lata
  2. O papel dos donos, que no meu entender se relaciona em paralelo com o papel dos Estados modernos e a maneira como os governos lidam com sua população em termos de cuidados, educação, saúde e bem-estar
  3. A ideia de um “passado de sofrimento”, muitas vezes atrelado à uma percepção  histórica dos malefícios da colonização por parte dos países europeus
  4. A resistência às doenças: em níveis genéticos e de seleção natural (as adversidades superadas para sobreviver)
  5. Uma visão da inteligência voltada menos para uma espécie de “instinto animal” do que para uma “Inteligência de Obediência”. Isto é, o tipo de relação em que se espera que o cão obedeça à uma ordem. Em outras palavras, em que medida as horas de trabalho serão contabilizadas para a produção de valor em termos de medição global.

InConclusão

Chegamos por enquanto ao ponto de estabelecer as bases para um diálogo à respeito da identidade. Isso pode ser colocado para qualquer perspectiva identitária. Mas estou interessados aqui na questão específica do brasileiro. Como ele se enxerga? Que modos de vida o definem? Quem o define, ele mesmo ou o outro? Ambos? Seria ele digno, menos ou mais que outras contribuições de outros países?

Importa saber, acima de tudo, como nos relacionamos com essas questões interiormente. Penso que há certamente algo que reverbera quando um corpo sai do seu lugar-comum. Quando se coloca no “exterior”, expresso e visível para olhares e julgamentos. Como se relacionar com esse outro que pode ou não devolver uma expectativa criada por aquele sujeito antes tão confiante?

Você, caro leitor, já se viu envolto dessas questões? Já te perguntaram quem você era e o que fazia lá fora? Como você respondeu a essa demanda? Aliás, que chances você tem de resposta em um mundo que em primeiro lugar te encaixota, sela e que agora te vende com uma arroba @ virtual?

Gus Xavíer é ator, historiador e capoeira.

Gosta de muitas coisas e por isso se considera um generalista que vive num mundo que insiste em se especializar.

A ARTE DE VIVER A VIDA: UM PROCESSO DE DESCONSTRUÇÃO

Por Silvia Helena de Amorim Martins.

QUERO A VIDA RESPIRAR!

(Mariana Froes/Phill Veras).

Como ilustra Guimarães Rosa: A vida é um eterno rasgar-se e emendar-se. Enxergo a vida como movimento, um eterno processo de construção e desconstrução. E não tem nenhum mal nisso, essa é a beleza da vida, a imprevisibilidade e a possibilidade de fazer dela uma obra prima. Lulu Santos já alertava: Tudo muda, o tempo todo no mundo.” Construir e descontruir caro leitor(a), palavras muito usadas atualmente e que nos convocam a uma atualização de quem somos. Estamos vivendo tempos difíceis, sombrios na verdade. O país está cada vez mais polarizado, a crise sanitária nos assola, as poucas certezas que acreditávamos ter, escorreram entre os dedos, como areia fina. Novas rotinas e modos de vida se estabeleceram. E ainda falam em um novo normal!!! É sério, que antes de todos esses fatos a vida era normal? Eu,confesso que sempre vi com estranheza: a injustiça social, a miséria, desigualdade e que nunca achei normal, a maioria da população viver em condições tão precárias.

Para onde iremos? Eu não sei! Eu não acredito em respostas prontas e sim no poder mobilizador das perguntas. Como afirmava Belchior: “Não me sigam porque eu também estou perdido.” De fato, não tenho essa resposta e não acredito que alguém possa tê-la, partindo do pressuposto de que cada um escolhe o melhor para si, mas alerto que você não está sozinho, sua escolha individual impacta no coletivo. Muitas vezes é necessário, mudar a direção, refazer escolhas, caminhos. Não digo que seja algo fácil, nem todos são “uma metamorfose ambulante”,como diria Raul Seixas. Mas eu lhe convido a mergulhar nesse mar de incertezas, que é a vida e se você é brasileiro(a), então ai, que o mergulho é profundo, as águas são turbulentas e você corre o risco de se afogar!!!

Será que não está na hora de algumas escolhas serem refeitas? De dar adeus a algumas crenças? Sair do lugar comum? Lembro ter ouvido que: “Para quem não sabe para onde vai, qualquer lugar serve”. Se isso é verdade? Não posso lhe responder. Mas como afirma Marisa Monte: “ A vida é um dia, um dia sem culpa, um dia que passa.” Enfatizo que a escolha tem que fazer sentido para você, para sua vida! Ilustrando sobre a minha experiência de seis meses em quarentena, creio que fiz as mudanças que julguei necessárias: alguns muros precisavam cair, portas precisavam ser abertas e outras claro, serem fechadas, estou arrumando a casa no meu tempo, a minha maneira. Acredito no poder do movimento, da relação, e que é preciso dançar a vida com uma certa leveza. O objetivo desse texto é suscitar reflexões sobre, o que precisa ser desconstruído? O que precisa ser cultivado? Não pense que essas perguntas serão respondidas agora. Como diria,Carlos Drummond de Andrade: “Durma sobre o problema”. Pense sobre o que o(a) inquieta, no fundo sentimos quando algo nos incomoda, o espinho na carne. Quando é hora de partir, ou quando é hora de ficar e fazer laço. Abraço e até a próxima conversa!!!

Silvia Helena de Amorim Martins. Graduada em Processos Gerenciais. Especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho. Graduanda em Psicologia. Muito grande para se (en)caixar em lugares pequenos! Uma ArteVista nata.

Perdeu a graça

A pandemia da Covid-19 deixou de ser novidade para milhões de pessoas, não desperta mais a atenção, “perdeu a graça”, como dizemos no Ceará.

Admito certa dificuldade de adequação à fluidez da era em que vivemos – tomando emprestado o conceito de importante teórico morto há poucos anos –, onde tudo escorre velozmente por entre os dedos. Suponho que seja porque minha geração foi criada em um tempo de certezas e princípios duradouros.

Sentimentos e valores associados à dignidade humana – amizade, amor, respeito, responsabilidade, compaixão, solidariedade – transformaram-se em produtos que duram o ciclo de vida de um mosquito, sendo logo substituídos por outros objetos de desejo, numa caçada interminável que só gera angústia e frustração.

Passados os primeiros momentos do isolamento social como medida preventiva para conter a disseminação do novo coronavírus – situação inédita que muitos imaginavam breve, só o tempo de passar o tal resfriadinho –, a histeria chutou portas confinadas. Sumiram das redes sociais as exibições diuturnas de dancinhas, teatrinhos, treininhos, ensaios mascarados e preparo de receitinhas. Enfim, cansaram-se rapidamente do novo normal e retornaram ao velho normal de sempre.

Alguém pode argumentar que isso é bastante compreensível, uma vez que nós, humanos, vivemos em comunidade e necessitamos uns dos outros. O equívoco está na interpretação literal dessa máxima em meio à tragédia que ora enfrentamos. Socializar ou interdepender não significa cercar-se fisicamente de gente – sem máscara – as vinte e quatro horas do dia, mas sim que cada ação realizada por uma pessoa no Brasil afeta um semelhante no Japão.

O mesmo acontece se um jovem britânico sair desprotegido da ilha fria em busca de calor no continente – as praias portuguesas do Algarve, por exemplo; ele poderá espalhar o vírus e prejudicar multidões de todas as idades em todo o planeta.

Enquanto não houver uma vacina eficaz, ficar em casa ou usar itens de proteção individual e manter o distanciamento recomendável é a maior demonstração de cuidado com o outro e de valorização da própria vida.

É irritante insistir no mesmo assunto após meses de conscientização e sensibilização por parte de especialistas e órgãos de saúde. Ultrapassamos nesta semana a triste marca de um milhão de mortes por Covid-19 no mundo, em apenas oito meses, muitas evitáveis se tivéssemos seguido as orientações sanitárias amplamente divulgadas pela imprensa. Um milhão é a população inteira de capitais como a brasileira Maceió ou a europeia Bruxelas.

Quero e preciso acreditar que, nesse período de afastamento físico, alguma reflexão fizemos e alguma evolução alcançamos. Paremos de buscar graça em coisa séria. Há situações excepcionais que exigem atitudes maduras. A pandemia do novo coronavírus é uma delas. Não deixemos que a preciosa vida se dilua na insensibilidade e irresponsabilidade de alguns.

E aqueles que, felizmente, não perderam entes queridos para a terrível Covid-19, joguem as mãos para o céu, agradeçam, cuidem de si, dos que estão vivos e respeitem o luto de milhares. É o mínimo a fazer.

Rosana

Monique Cordeiro

Rosana chorou ao assistir a mulher no teatro. Olhou atenciosa para cada gesto, ouviu com cuidado cada palavra, mergulhou profundo na poça de água rasa que a atriz fez no chão. Meus olhos acompanhavam Rosana em todos os seus movimentos. Fiquei intrigada com aquela lágrima e com seu leve sorriso, mas as pessoas que a acompanhavam não se surpreenderam com o seu jeito de olhar.

Conheci Rosana, quando fui comemorar o aniversário de minha prima. A comemoração atravessou a noite inteira. Talvez eu fosse a única com dezesseis por ali, oscilei a noite inteira na preocupação de chegar muito tarde em casa e minha mãe brigar comigo. Na oportunidade que tive de ficar cara a cara com ela, não consegui falar direito. Eu gaguejava quando tentava dizer alguma palavra. Me sentia pequena diante daquela mulher gigante. Quando fiquei sabendo que ela amava gatos, sonhei que me enroscava em suas longas pernas. Era bom pensar que eu, uma pequena gatinha, poderia subir em suas pernas e chegar até seu colo. 

Certa vez, Rosana chegou mais alta que de costume, mas não usava salto. Era como se tivesse crescido aos meus olhos e ali estava majestosa. Ouvi sua conversa, sua gargalhada, que me chegava junto com o vento fresco naquele luau. Ela falou do tarot e dos astros. Rindo alto disse que tinha um grande caldeirão. Eu fiquei confusa, um pouco assustada, pois ela falava sem medo de assombros ou de magias. Mesmo assim, eu fiquei hipnotizada olhando sua boca vermelha mexer. Não consegui ouvir nenhuma das palavras, só fiquei sentindo um arrepio subindo pelo meu ventre, tomando conta do meu peito. Quando notei minha respiração ofegante e o coração batendo forte, saí para comprar um guaraná. Minhas pernas estavam um pouco bambas, lembrei que tinha de voltar logo para casa porque no outro dia eu tinha aula. 

Aos meus olhos, Rosana era imensa. Exuberante. Tinha cheiro de uma mistura de ervas e flores que eu não sabia dizer qual. Se movia como bailarina, pisava como uma leoa. Eu imaginava poder dançar enganchada nela numa noite que entraria pela madrugada. Pendurada no seu colo, eu sentiria o seu calor e fluiria com seu movimento. Nossos corpos ficariam suados e estaríamos unidas, envolvidas num abraço ritmado. Eu tinha certeza de que Rosana sabia dançar todas as músicas e dominava os conhecimentos sobre o céu, a terra, a água e o ar. Eu desejava ser como ela, eu desejava Rosana. 

Foi quando a encontrei, por acaso, sob a luz do dia. Jamais imaginei que tomaríamos café juntas. Na lanchonete, ela sentou ao meu lado. Meu coração acelerou um pouco quando pude olhar para os olhos daquela mulher longe da penumbra, mas bem perto dos meus. Pude ver as linhas do seu rosto. Vencendo qualquer vergonha, continuei olhando. Percebi com cuidado sua boca com a cor natural e uma cicatriz que falava sobre o tempo em que era estudante na mesma escola que eu. Me surpreendi porque achei que Rosana já tivesse chegado nesse mundo grande e com todos os planetas tatuados nas costas. Ali envolta por guardanapos, saleiros, copo de vidro com café, eu andava num território conhecido. Parei de olhar, puxei conversa. Contando da vida, eu sentia que esses planetas pesavam em suas palavras, pois ela falava de dor, de dúvida e de medo. Surgia na minha frente uma mulher extremamente cansada.

Cheguei a ver Rosana faminta uma outra vez. Ela se alimentava de uma comida suculenta: caldos, queijos e cremes. Comia com as mãos e lambia os dedos. Eu já conseguia lhe fazer perguntas e o meu ventre já não vibrava tanto. Passei para ela o guardanapo. Olhei de perto, ela me pareceu muito mais humana com aquela fome verdadeira. 

Parece que ela estava sempre por ali porque, certo dia, eu a vi de novo da porta da minha escola. Ela chegou numa mansidão felina e viu na entrada da lanchonete um monte de gatinhos. Sentou-se no chão, pegou um a um em suas mãos. Olhou nos olhos de cada bicho e observou o que eles precisavam. Eu me aproximei. Notei que, sem a luz da lua, ela se tornava uma mulher comum. Deixava os mistérios, as estrelas e seus planetas dentro de uma pequena bolsa que carregava. Na clareza do dia, Rosana era muito mais humana e provavelmente seguia como uma mulher igual a todas as outras: lavando pratos, cuidando de gatos, sofrendo de amor. Talvez até gostasse de assistir a novelas. Eu tentava juntar aquelas duas: a que era mulher gigante à noite e a que era mulher comum de dia. E me perguntava: a que horas essa transformação acontecia ? 

Monique Cordeiro é Educadora da rede estadual de ensino, leitora, mediadora de leitura. Também conta e escreve histórias. 

Instagram: @niquemaria_cm 

Quem somos nós “brasileiros”?

Gustavo Xavier

Quem é o brasileiro? Como se define a identidade desse Brasil como sujeito internacional? E principalmente, quem sou eu dentro desse coletivo a que pertenço e do qual outras vezes me distancio?

Essas talvez sejam das perguntas existenciais as que mais inquietam o coração e a mente do cidadão brasileiro. Aliás, vale dizer que ser “brasileiro” até os fins do século XVIII nem mesmo era considerado como alguém que pertencia a uma nação, quanto menos um conceito de cidadania. Ser “brasileiro” naquela época era sinônimo de profissão “internacional”, significava ser comerciante de pau-brasil, como deixa entrever o sufixo “eiro”, de carpinteiro, marceneiro, sapateiro, costureira, pedreiro, quitandeira, cozinheiro, entre outros. A ideia de “brasilianidade” ou “brasilidade” de um povo foi construída a partir do século XIX, época em que eventos históricos concorreram para a criação dos estados-nacionais.

Até aí tudo bem. Então, o “leitor-cidadão-filósofo-entre-tantos-outros-adjetivos“ de hoje pode se perguntar: “quando estamos falando de questões existenciais, haveria algo mais importante do que a preocupação com os meios para prover sustento e a segurança num país pobre, desigual e corrupto?” E ele tem razão. Afinal, essa é a pauta do dia. Aliás, de todos os dias. Aliás, desde que o Brasil é Brasil. Aliás, desde quando ele não era “o Brasil”. E eu posso responder afirmativa que sim, há uma questão tão ou mais fundamental a ser feita quanto a questão da infra-estrutura ou dos meios materiais para prover a vida. E esse campo de debate se chama identidade.

Para além das questões de determinação econômica, penso que essa questão existencial perpassa pelo campo do encontro. O encontro com o outro e mesmo com os outros que habitam dentro de nós. Como questão existencial – sim, “I love Shakespeare”! – saber quem “Eu sou” diz respeito a um campo conflituoso. Um campo muitas vezes minado, bombardeado com percepções distintas, um campo de ideias e linguagens que insistem em buscar uma definição.  Pergunte-se a si mesmo: “quem é você?”. Diga em voz alta: “Quem sou eu?”. Agora imagine-se numa sala de entrevista, como você responderia? Como você responderia a esta pergunta em múltiplos contextos. Na sala de reunião? Na entrevista de emprego? Para a família do seu(sua) namorado(a)? Para “todxs aquelxs” – com a gramática internauta e libertária mesmo – que não se enquadram em definições predeterminadas e se sentem desconfortados na pele do estereótipo. 

Para ajudar nessa reflexão, coloco à título de exame, as seguintes imagens:

  1. Uma criança cujos pais estão à beira do divórcio se encontra de frente a um psicólogo. A criança fala. O psicólogo fala. De tudo o que foi dito, uma simples frase pode mudar a significação de todo o jogo. O psicólogo diz: “Não se preocupe, você não tem culpa alguma pelos seus pais estarem se separando”. Pausa. Momento para reflexão. A criança responde: “Bem, eu não estava pensando nisso, mas agora que você falou pode ser que eu tenha alguma culpa”.
  2. Agora um exemplo histórico. Diante de um tribunal, no século XIX, um trabalhador é acusado de fazer greve e dessa maneira prejudicar a ordem social – algo similar como a ausência de caminhoneiros e dos correios nos dias de hoje – sendo então inquirido pelo juiz para que se apresente e diga quem é. (Momento crucial na vida desse homem). Ele poderia ter respondido: “Sou João, 35 anos, carpinteiro”, descrição comum em processos judiciais. Não foi o que ele fez. Ele responde: “Sou operário”. Pausa dramática. O tribunal nunca havia ouvido essa palavra antes.

Estas duas imagens servem para ilustrar o peso que a linguagem tem nas nossas vidas. A criança, mesmo que alguns insistam no fato de que ele seja incapaz de confabular tal raciocínio –  ideia contemporânea de todos aqueles que gostam de “infantilizar” permanentemente a criança – portanto incapaz de se expressar, pode incorporar inconscientemente o “fato”. Não o fato dos pais estarem se separando, não o fato de ser subestimada por pais inadvertidos, mas o fato da palavra dita, aquela que foi atribuída pelo especialista na comunicação e na ordem do ritual de trabalho do psicólogo ou psicanalista. O segundo exemplo, é uma gota no oceano daquilo que se chamou “luta de classes”. Muito mais do que expressando uma identidade submissa ao Estado que pudesse ser identificada por “nome, idade e profissão”, a palavra “operário” surge naquele contexto com nova carga simbólica. Carrega em si a emergência de um novo sujeito histórico, não o indivíduo mas o coletivo, ou melhor, a classe. Em vez de uma ordem nacional, há o reconhecimento de insatisfação com a ordem da maneira que é colocada: a exploração.

É como eu costumo dizer: “Não se sabe que você é pobre até quando lhe dizem que você o é”. Nesse aspecto, quem somos nós, os “brasileiros”? Eu gostaria de deixar no ar esta pergunta. Gostaria que o “leitor-cidadão-filósofo-entre-tantos-outros-adjetivos“ me ajudasse a responder. Ou que pelo menos procure responder para si, no seu íntimo.

Então, coloco algumas perguntas que considero inteligentes (não se enganem, não fui eu que as formulei):

  • Quem é o “nós” desse sujeito gramatical coletivo? Isto é, quem se define dentro e quem é excluído? Como ocorre essa cisão?
  • O dramaturgo Nelson Rodrigues uma vez disse que temos um “complexo de vira-lata”, sendo narcisistas ao revés, com baixa auto-estima, preferindo tudo aquilo que vem de fora. Isso é verdade? Onde vemos esse complexo acontecer?
  • Sendo a identidade uma construção múltipla (psicológica, social, afetiva, material, simbólica) como ela se desconstrói e, no seu reverso, como se reconstrói para sobreviver?

Gus Xavíer é ator, historiador e capoeira. Gosta de muitas coisas e por isso se considera um generalista que vive num mundo que insiste em se especializar.

Anticorpos

Rafaela Lima

Uma seleção des-natural segue em vigor nesse País de des-presidente, usando as palavras do líder indígena Ailton Krenak uma “idéia de fim de mundo” se assenta em nossas casas, a sub-humanidade caminha em direção a um colapso. 

Segue em decreto a higienização de mundos e classes sociais, da higienização do corpo/território, dessa mera matéria em degradação à higienização de corpos/vidas/famílias enquadradas em parâmetros de desigualdades; segue também em vigor a higienização de pré-conceitos, ideais, crenças, princípios, des-importâncias e opiniões eurocêntricas que agora nada movem e nada salvam. 

Criemos e reinventemos nossos anticorpos, desinfetemos desses anticorpos desvirtuais, des-humanos, seletivos, desiguais, carnais, centrais, ante a vida. 

Recriemos nossa existência que deságua pelas mãos e bocas enquanto esta ainda segue em vigor. A seleção des-naturalizada caminha em ondas bruscas e a eliminação de vírus humanos ou dos humanos vírus começa pela saliva, veneno do corpo em eras pandêmicas. A ordem é: transmute em casa; recrie seus anticorpos.

Rafaela Lima é artista de dança, performer, pedagoga, especialista em Gestão Cultural, integrante da Cia Balé Baião, Produtora cultural no Galpão da Cena e Artista docente na Escola Livre Balé Baião (escolas da cultura do Estado do Ceará)

A nossa melhor parte

O que vale mais?

Um armário abarrotado de roupas, sapatos e bolsas ou uma mensagem de conforto que chega no celular pela perda de alguém muito querido?

Dois carros na garagem ou um afetuoso abraço virtual?

Comprovantes de bilhetes aéreos da viagem adiada – sabe-se lá para quando – ou o pôr do sol que doura a sua sacada toda tarde?

O amplo apartamento subutilizado e empoeirado ou a varandinha onde você se alimenta diariamente de vitamina D?

A pandemia do coronavírus nos apresentou um novo mundo construído às pressas. Ou nos transformamos ou não sobreviveremos.

Quem acreditou que a vida era apenas diversão, viagens, brincadeiras e que o dinheiro comprava tudo, até saúde, deparou-se com hospitais lotados onde a riqueza do globo inteiro ou a cobertura ilimitada do caríssimo plano não eram garantias de internação nem de cura.

Sabe aquela verdade que lava, sem trégua, o nosso cérebro desde que nascemos: “A vida só tem significado se você tiver muita grana e um sólido patrimônio”? Ou “Não desperdice tempo com coisas que não geram lucros financeiros”? Tudo precisa ser monetizado e, de preferência, em moeda forte. Aos fracassados, as inutilidades.

Admirar o crepúsculo sobre uma duna ou montanha? Para desocupados.

Caminhar sem pressa à beira-mar, sentindo a brisa no rosto e a areia quente sob os pés descalços? Para frustrados.

Ler um livro de poesias? Para desiludidos.

Cantar com amigos ao luar, em volta de uma fogueira?Para tolos.

Embalar-se  despreocupadamente em uma rede na varanda? Para preguiçosos.

Participar como voluntário em um projeto social? Para sonhadores.

Cantarolar versos antigos com a mãe idosa? Para ociosos.

Pois é, sinto dizer que essa tal verdade mercantilizada desmoronou, evaporou em géis e álcoois.

Não sei se a crise sanitária vai mudar a humanidade, mas se pelo menos uma parte dela puder refletir sobre a vida repleta de “utilidades”que levava até então; se parar de negar sofrimentos e tristezas, naturais da existência; se demonstrar às novas gerações que sensibilidade, solidariedade e compaixão são valores essenciais, aí então as milhares de mortes de entes tão amados não terão sido em vão.

Muitos afirmam que o ser humano não tem jeito. Eu prefiro cultivar a esperança, outra inutilidade da era contemporânea. A vida é feita mesmo de pequenas inutilidades. São elas a nossa melhor parte.

Manifesto do corpo

Todo corpo é sagrado, individual e livre. O corpo é lugar de existência, resistência, de vida e luta. Nele não cabe medidor. Não existe uma forma ideal. O corpo é o nosso lar e, assim como qualquer morada, muda com o tempo. Existem energias diversas circulando, experiências, encontros e fim. O corpo é uma escolha. Ele é respeito pela história de cada pessoa.

Banco de imagens

Qual foi a última vez que você conversou com seu corpo? Que se olhou no espelho e se viu? Caminhou com o olhar por cada cantinho de forma e histórias que ali habitam? Olhar e reconhecer o próprio corpo leva tempo. Amá-lo demora ainda mais. Antes desse lugar, porém, existe a batalha com a sociedade, que tem em seu histórico de obsessão e controle, especialmente pelo nosso corpo de mulher, o querer determinar como ele deve ser, como devemos usá-lo e qual sua validade.

O corpo é acima de tudo humano. Assim como a terra floresce, mas também morre e apodrece. O corpo é carne, ossos, sangue, órgãos. Guarda marcas do amor, da dor, do que não foi planejado. Ele é paz e tormenta. É frágil, forte, reconstruído. O corpo é um processo que leva muito tempo, mas que assim como tudo na vida, não é perfeito. Que bom. A luta pelo perfeito é perdida, porque o perfeito não existe.

Banco de imagens

O corpo é também um lugar político. Em todas as idades ele pertence a quem o tem. Jamais deve ser violado, reprimido, condenado. O corpo é livre. Como lugar de existência, de política, privado os corpos têm direitos e devem ser respeitados. O corpo nu não é convite. As marcas no corpo de uma mulher após o parto não são espaços de opiniões sociais. A transformação corporal de homens e mulheres trans não são falta de gratidão ao que a vida deu para eles. O corpo é reconhecimento e pertencimento.

A sociedade é perversa no entanto. E ela não é um grupo de pessoas que nos coloca fora do seu modo operante. Ela é todos nós, alguns conservadores, outros em desconstrução, os que desconhecem a realidade, os que querem ser heróis, um lugar de diversidade. O controle sobre os corpos é um sentimento forte de nossa sociedade. Não importa se os corpos são de homens ou mulheres (os nossos infinitamente mais). A cultura do padrão já tem formas prontas de corpo para cada idade, cor de pele, de espaço demográfico. O mais absurdo, ela tem também a função de cada um e seu prazo de validade.

Banco de imagens – Tradução: Fora de serviço

Os corpos são livres, repito. A liberdade do corpo, porém, faz parte de uma compreensão que leva tempo e, especialmente, maturidade. O que, com certeza, crianças e adolescentes desconhecem sobre seus corpos. Por isso, educar é fundamental. A educação sexual é urgente. Vale ressaltar que aqui não estamos falando sobre ensinar ninguém a fazer sexo, sei que isso é explicado sempre que o assunto é tomado, mas ainda há uma grande falta de compreensão sobre ele.

O Disque Direitos Humanos, o Disque 100, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), apresentou em maio (mês em que é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, instituído pela Lei Federal nº 9.970 de 2000) deste ano, que dos 159 mil registros feitos pelo do Governo, ao longo de 2019, a violência sexual contra crianças e adolescentes registrou 17 mil ocorrências desta natureza, o que corresponde a 11% do total. O mais desesperador, em 73% dos casos, o abuso ocorre nas casas das próprias vítimas, sendo que 40% desse crime é cometido pelo pai ou padrasto.

Banco de imagens

A violência infantil é cometida por caras conhecidas. Não é a rua o lugar mais assustador para elas. É sua casa, ao lado de suas famílias, especialmente. Essa violência sofrida, muitas vezes por anos, no corpo e na mente de crianças e adolescentes é encarada pela sociedade de fundamentalistas como resultado de que as vítimas são as culpadas. O corpo, já violado e desrespeitado, é lugar de culpa para os tantos “cidadãos de bem”. E no lugar da proteção que é direito, as vítimas se tornam as assassinas. Corpo e mente são violentados mais uma vez. A sociedade está doente. Cega e presa diante de “verdades” frágeis. Mais uma vez, reforço, o corpo é um lugar político e todos os direitos de existência, resistência devem estar ao lado dele.

Corpo e política

Aos desavisados: o corpo não é lugar público. Ele é propriedade de quem o vive, o tem. O corpo é lugar de muitas subjetividades sobre sua existência e suas funções. O nosso corpo de mulher, por exemplo, é culturalmente um lugar cercado por padrões que desejam definir o que é beleza e o que não é. Nas funções desenhadas pela sociedade, o corpo de nós mulheres é para ser preparado para dar prazer ao outro (o que caracteriza a sua objetificação), gerar vida, ser magro, cercados de cuidados que deixam o outro feliz. É praticamente uma máquina de dar prazer ao outro e estar sempre perfeito. Socialmente, não nos cabe decidir e também usar o nosso corpo para o nosso bel-prazer.

É  na desconstrução desse lugar padronizado que sou e me vejo feminista. Este corpo me pertence. O seu corpo pertence a você. Os corpos gordos, magros, com marcas de feridas, negros e negras, de pessoas trans existem e são livres. Eles também são armas nas lutas contra os padrões, as formas. Todos os corpos devem ser armas de desconstrução. Eles representam a diversidade que é existência humana. Basta! O meu corpo e o seu corpo não estão à venda. Nossos corpos nos pertencem. Eles devem ser respeitados e protegidos.

Reconhecendo a importância política do movimento livre que devem ser os corpos e reforçando seus lugares de existência e resistência, compartilho com vocês as fotoperformances da artevista Marcelina Acácio, uma mulher que usa seu corpo e seu trabalho como arte para expressar a força, as dores, as lutas e o lugar do corpo feminino. Em seu trabalho, o objetivo é desconstruir, segunda ela, as “subjetividades de que o corpo dispõe, e romper com os padrões do corpo feminino colonizado, objetificado e sexualizado, pelos opressores”.

A existência de vários corpos nos coloca num movimento de celebrar a diversidade das nossas formas. Entender que não há graça em piadas de cunho gordofóbico. Que pessoas muito magras não devem ser questionadas se estão bem de saúde. Que o pelo em nosso corpo é nosso deve ser respeitado sobre mantê-lo ou tirá-lo. O caminho é para conseguir corpos livres com relação saudável entre nós e o nosso corpo. Este caminho é um processo com tempo indeterminado e constante. E o mais importante, somos muito mais do que um corpo.

Confira, parte das Fotoperformances de Marcelina Acácio:

Acompanhe as fotoperformances de Marcelina Acácio em: https://www.flickr.com/photos/96780509@N05/with/50276849172/. Obrigada pela participação especial e política, Marcelina.

P.S.

Hoje quero deixar também o meu abraço de gratidão e até breve nas escritas aqui na Lugar Artevistas. Agora, outros projetos serão abraçados. Com o mesmo entusiasmo que tive em minha chegada nesse aqui, deixo, com alma e coração cheios de gratidão, o meu muito obrigada por fazer parte desse Lugar. Aproveito para agradecer a querida Roberta Bonfim, que é luz. 

Sou muito grata pela revista ter entrado em minha vida, junto com você e pelo convite mega especial de participar e colaborar desse Lugar vivo, que pulsa arte, compartilhamento e boas energias. Você, minha amiga Beta, é arte onde estiver. É energia de renovação. É abraço gostoso. É florescer. Amo muito você, sou uma admiradora de seu trabalho, de suas lutas e da mulher incrível que você é. Muito obrigada pela oportunidade e por toda essa transmissão de amor que você tem. A gente se vê nos caminhos da vida.  Conte comigo sempre. Um abraço carinhoso também em cada pessoa que este Lugar me permitiu conhecer. Até logo!

Brasil: subjetividade e sociedade em tempos de pandemia

Por Paulo Germano Barrozo

Nesses tempos de pandemia, muito se tem falado sobre as consequências políticas, econômicas e sociais das medidas adotadas para conter a propagação da doença. Muito se tem falado também sobre as consequências psicológicas e a ansiedade e a depressão encabeçam a lista de sintomas psíquicos. 

A ansiedade parece ser uma companheira inevitável da Modernidade e mais ainda da Pós-Modernidade. Um mundo em constante movimento e transformação faz do desassossego, faz da experiência do desamparo, uma experiência cotidiana. A pandemia aprofundou essa experiência do desamparo. A ausência de solidariedade e a indiferença desavergonhada ganharam visibilidade. Os laços sociais se mostraram frágeis para ajudar na travessia desse período. E isso nos fez pensar no que somos como nação, como povo. Nos faz pensar sobre as imagens que criamos sobre nós mesmos: um povo alegre, feliz e acolhedor. 

Paulo Prado, com seu Retrato do Brasil, publicado em 1928, e que trazia o subtítulo “ensaio sobre a tristeza brasileira”, causa estranheza, até hoje, aos que compartilham a ideia do “povo alegre”. Nos faz perguntar: desde quando somos o povo alegre? Paulo Prado afirmava:“o fato é que há povos alegres e povos tristes”. E o autor não nos colocava na coluna dos alegres. E continuava: “no Brasil, o véu da tristeza se estende por todo país (…)” e, ao se referir ao caráter brasileiro, falava da “taciturnidade indiferente ou submissa do brasileiro”. 

Capa do livro Retrato do Brasil, de Paulo Prado

Nesse mesmo ano, Oswald de Andrade lançava seu Manifesto Antropófago e, nele, o poeta propunha seu critério para a avaliação de uma sociedade: 

“A alegria é a prova dos nove”.   

E dizia que nossa história era marcada pela perda da felicidade:  

“Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade” 

Desde a descoberta, perdemos a felicidade.  

Desde a descoberta, perdemos a felicidade? 

Capa do livro Manisfesto antropófago e outros textos – Oswald de Andrade

Freud, em seu livro Mal-estar na civilização, afirmava que nossa felicidade é um fenômeno episódico. E acrescentava: “nossas possibilidades de felicidade são restringidas por nossa constituição”. Já a experiência da infelicidade e do sofrimento possui fontes permanentes: o próprio corpo, a natureza e as relações humanas. Para o inventor da psicanálise, o “programa de ser feliz” é irrealizável. Ele não acreditava em uma ideia única de felicidade e defendia que “cada um tem que descobrir a sua maneira particular de ser feliz”. Mas também sabia que uma sociedade que não cria condições para essa descoberta está fadada ao fracasso. Uma sociedade que não cria as possibilidades dessa descoberta particular não está a serviço do “divino Eros”, mas se entristece com a propagação das pulsões de morte. 

Capa do livro O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930 – 1936), de Sigmund Freud

A formúla do antropófago permanece: 

“A alegria é a prova dos nove”. 

Colaborador/convidado das sextas: Paulo Germano Barrozo de Albuquerque é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atualmente é coordenador do curso de Psicologia do Centro Universitário 7 de Setembro (UNI7) e professor do mestrado em Direito Privado da mesma instituição. Além de ser um estudioso dos campos da Psicologia social de temas como o racismo e as construções das relações de gênero; e Psicologia jurídica nas questões voltadas para família. Ele também mais um dos apaixonados pela literatura de Clarice Lispector.