Um artigo do Artigo

Por Roberta Bonfim

Sou jornalista, antes disso, sou “gente do teatro” e tudo que eu sabia sobre artigos eram que eles poderiam ser de reportagem, crônica, narrativa, um texto de opinião. Assim, aprendi e executei, li e vivi durante uma vida. Artigos essencialmente opiniosos, normalmente gostosos de ler e não como um padrão, mas normalmente curtos. Estamos aqui falando de um artigo que entra no espaço midiático de massa, que precisava caber dentro do que o editor e o diagramador te oferecem de toques/espaço..

Na minha realidade atual de ser mais uma vez acadêmica, descubro caminhos metodológicos de pesquisas, tento construir um que caiba a mim e a pesquisa, conheço pessoas, leio um tanto, ouço outro mais. Aprendi também sobre mim, na observação dos outros em pequenas janelas que nada dizem e ouço falas potentes e outras completamente vazias, ouço atrocidades e respirou fundo buscando entender, como vivemos nessa sociedade micro e macro que mais parece uma grande feira de vaidades e posses.  E é neste universo que tenho reencontrado a filosofia, a sociologia, a psicologia, a comunicação e as infinitas artes. Vivo no universo acadêmico, ao tempo em que realizo a Lugar ArteVistas – arte onde estiver, onde nós, diversos, conversamos com outros diversos. E aprendo, duplamente, isso para além do aprendizado de viver com uma criança de três anos em casa, colocando na prática todas as filosofias em gestos grandiosamente simples e imensos em símbolos. E por falar em símbolo estamos envoltos em quantos? 

Se há um perigo comprovado pela história, são os discursos únicos que nos emburrecem, e nos cegam da forma mais cruel, e nos faz crer que precisamos caber.

Esses dias mesmo conversando com a indigena Telma Tremembé (PACHECO, 2021) que acaba de lançar um livro sobre as histórias a partir da sua e de suas ancestrais, é categórica ao dizer que não houve descobrimento do Brasil, o que houve foi uma invasão, agressão, escravização e roubo de terras originárias.  E mesmo hoje celebramos e é feriado o marco da agressão, que o discurso único nos fez crer em descobrimento. E fala isso com a plenitude de quem já sofreu todos os tipos de agressão e aprendeu a superar. Pois imagina viver em um estado que nega a sua existência enquanto povo. É o que acontece no Ceará, o estado ainda nega a existência dos indígenas que lutam em retomada. O que fica claro por exemplo na série de cinco papos que estão entrando no canal Lugar ArteVistas aos domingos deste mês de abril que é o Noda de Caju, onde indígenas conversam com indígenas a fim de fortalecer as redes e o conhecimento entre os parentes, como se chamam.Tem ainda a fala de Cacique Pequena, de Aquiraz que nos pede união, de Teka ao falar da importância da língua indigena que ela estuda e busca passar o conhecimento aos seus. É nítida a diferença de fala e postura entre indígenas que cresceram dentro de seus símbolos e signos, dos que foram criados nas cidades, mas mantém-se indignas, mas sem conhecimento sobre seus signos e símbolos perdem significado. Guajajara nos conta que falando sua língua e o portugues era tida como se falasse só um idioma porque o seu de matriz não é reconhecido em seu país, que chamamos Brasil.

E se primeiro explano sobre essas trocas, é porque o que viveram e vivem os indígenas é a prova da teoria da biopolítica, percebida e explicada por Foucault, onde há estratégias de manutenção da vida, mas também da morte. O que fica claro com a fala de Duarte (2007, p.04):

[…] tal cuidado da vida de uns traz consigo, de maneira necessária, a experiência contínua e crescente da morte em massa de outros, pois é apenas no contraponto da violência depuradora que se podem garantir mais e melhores meios de sobrevivência a uma dada população. Não há, portanto, contradição de gerência e incremento da vida e o poder de matar aos milhões para garantir as melhores condições possíveis: toda biopolítica é também, intrinsecamente, uma tanatopolítica.

Ao reproduzir Duarte, a reflexão sobre o que vivemos enquanto população no mundo, mais especificamente no Brasil, com um chefe do executivo sendo um genocida assumido que não ver qualquer problema nisso e por mais que não simpatize minimamente com ele, não o culpo como indivíduo pelas estruturas criadas no nosso país o terem feito assim. E ele não prometeu fazer diferente disse, e os poderosos que mandam no país e ditam as regras seguem sendo consumidos e enriquecidos. E as igrejas que sempre foram fundamentais no processo de colonização seguem fazendo seu trabalho. Além de que fomos nós nesse coletivo de existir em sociedade, que direta ou indiretamente o colocou ali, muitos vendo-o como o salvador, o Messias, ao meu ver, é o personagem perfeito para deixar o Brasil com toda potência que tem, no lugar de colonizado que ensaiava sair. 

E uma massa humana morre diariamente, as terras amazônicas estão sendo devastadas a olhos nus. E a metáfora dos Índios que troca a alma por um espelho segue. E estejam atentos que a metáfora é dos Índios, que agora somos todos nós, não do Indigenas. E a pergunta é, quem tá ganhando com isso? 

E aqui cabe conceitualizar este exemplo da necropolítica a partir da alta taxa de mortalidade em ambientes de cárcere, ou das favelas, e em tempos pandêmicos, onde a vida seria ganha no dia e não há comida, onde o isolamento se torna quase impossível, o que aumenta as taxas de infecção, mas também nas ruas onde não há estruturas mínimas.

Então volto aos símbolos colocados na vivência indigena, mas que veste a todos nós, nossos símbolos, são nossas referências espaciais, inclusive de existência, identidade, territorialismo, ambientação, a quebra desses símbolos, é a quebra desse ser, que precisa exercitar o perene estado de reconstrução. Que história nos veste das quantas que em absoluto desconhecemos.

E (MBEMBE, 2003/2018) pontua que essa destruição pela forma simbólica se dá, quando o indivíduo se percebe descartável, o que acontece por exemplo em estado de cárcere, no dentro do sistema capitalista que te repete a todo momento que você é facilmente substituível, e de forma ainda mais cruel, quando são negligenciados direitos constitucionais básicos de saúde, educação, assistência social, segurança, saneamento básico, dentre outras coisas, gerando um estado de precariedade, somada a uma pandemia, estamos aqui falando de uma calamidade pública, em meio a uma crise sanitário, com um desgoverno e sem plano de direcionamentos para sairmos dessa. E um sorriso no rosto que não cabe no rosto do presidente de um país, que vive o que o Brasil tem vivido em tempos atuais. Mas, que de acordo com Mbembe, com a diminuição do orçamento de políticas públicas, o sistema social permite-se escolher suas vítimas gerando efeito de intersubjetividades cotidianas contemporâneas. Então, esse sorriso não é novo, nada o é, nem nossas vozes.

E em meio às tragédias sociais e mortificação da memória social coletiva, trazendo falas hegemônicas, como verdades absolutas, nós percebemos adoecidos, mas está difícil ainda aceitamos que somos adoecedores, devastadores, que se estamos aqui estamos executando o poder de saber. E a questão permanente é o que fazemos com isso?

Lembro agora de um texto muito reproduzido nas redes sociais, que dizia “Nenhum Direito a Menos”. E essa talvez seja a batalha cotidiana de todos nós neste momento. Garantir a não exclusão do máximo de direitos sociais já conquistados a partir de muito sangue, suor, trabalho e vidas. Pois somos humanos, racionais que reagimos ao mundo a partir das vivências pessoais, mas é a partir dos contexto sociais, ambientais e mesmo urbanos das estruturas de poder que existimos e nos relacionamos com quem nosso no mundo. Mas há genuinamente a necessidade de ser útil, ou deveria. 

E para fechar este texto com gancho no começo, afirmo que em meio às teorias humanas que nos mostram ou constroem como competidores, no contexto dual das culturas ocidentais e nas feiras de vaidades que por vezes sufocam no ambiente acadêmico, quando há mais autores que contexto, o que deve ter seu papel. O fato é que Achille Mbembe, que conheci neste texto, e assumir minha ignorância, mas me justifico por ser nova nesse universo apresenta reflexões e questões importantes e urgentes e de certo vou visitá-lo logo que possível para saber mais sobre suas vivências e estudos compartilhados.

Concluo refletindo que mesmo quando buscamos o global, é a partir do nosso lugar de existir, que o percebemos e nos percebemos a partir dele, e a fala vem depois. 

E você qual o seu Lugar?

Será?

Por Roberta Bonfim

Um texto é mesmo isso, né? Uma sopa de letrinhas que se misturam e se separam ao seu bel prazer e o escritor, inflado de sua pretensão e desejo pela possa crer que são deles as palavras que se formam sós, apenas usando-o como instrumento. Será?

E as canções, serão inspirações ou sopros do universo que ritmam os espaços, enchendo-os de sons e também de ruídos, a fim de nos salvar e enlouquecer, ao mesmo tempo. Mas, especialmente a música nos possibilitar falar, os ruídos nos libertam. Será?

As pinturas, certamente são a reprodução do visto, como presente externo aos olhos, ou nas viagens mentais sobre essas memórias que desconhecemos e nos visitam vez ou outra e que os de trações mais seguros arriscam desenhar. Será?

A dança é movimento e há movimento em tudo. Pois gente, tenho uma coisa para avisar, e espero que se te for um surpresa você assista a vários episódios do canal Lugar ArteVistas, para ser lembrado do que já sabe. De que a terra é redonda e em movimento permanente de translação e rotação. Será?

Será? Que no passado, já foi. No presente é, e no futuro… Será? Será que após o que vivemos estaremos para viver o será? E será que se não nos unirmos estaremos fadados a sermos os que foram e já não são? E então?

E como será que seria se de repente fossemos todes tomades por uma vontade sem fim de cuidar de si, talvez, se aprendêssemos a verdadeiramente nos cuidarmos com a atenção que merecemos, talvez, conseguíssemos cuidar do outro e que é também parte do mesmo todo que me me constitui e a você também. Será?

E nesse lugar tivemos estreias lindas no blog e no canal, e por falar em canal depois de anos eu tive coragem de organizá-lo, ele tá lindes. Será? 

Chega confere e depois me diz o que achou.

https://www.youtube.com/channel/UCgtYvtMKZi1GlAkvhUbdiVg

Buscando memórias

por Roberta Bonfim

Memória Social, uma perspectiva psicossocial, vendo esse título, de cara penso em sair correndo, pois tem algumas coisas que se formos buscar entender demais sem preparação psíquica corremos o risco de não entender nada  e cairmos em um limbo paralisante, sem fim. E eu não me sinto psiquicamente preparada para muito, dessa imensidão informacional. E quanto mais leio mais aprendo e quanto mais aprendo, mas me distancio do que eu pensava saber a princípio, e pluft! – Fui pega de novo pela bola de neve da vida que nos gera essa imensidão externa a nós, mas que precisamos por qualquer razão nos relacionar, mas nem sempre sabemos como. Todos esse conceitos acadêmicos me são novos, porém a filosofia me é companheira antiga, como gosto de salientar, sou do teatro, e o teatro é também filosofia e tanto mais que podemos conversar em um outro estar.

https://www.youtube.com/watch?v=_NeBJ_ONV30&ab_channel=DanielMedina

Para esse instante impessoal que já passou, tornando-se outro, e se reconheceu esse trecho como sendo de alguém és já conhecedor de alma do que se trata a quebra de tempo e espaço que apesar deles, tempo espaço estamos aqui, de Fortaleza, São Paulo, Aracaju, Beberibe, Jaguaruana, Mato Grosso, Bahia, somos de todas essas cidades e podemos falar sobre ela ao falarmos sobre nós. Nossas rotinas, relação com nossos resíduos sólidos, com o que produzimos de orgânico, como tratamos nossos vizinhos ou o cara que passar gritando pedindo comida para filha. Se temos janela, começamos uma relação mais estreita com ela e talvez comecemos a entender, pelo menos no lugar de memória feminina, essa partitura feminina de espionar, já que fora durante todo patriarcado proibida de participar, e ainda hoje, onde ainda vivenciamos esse sistema em reação, somos ainda proibidas de participar sem termos nossas memórias maculadas, sem nos culparem pelo ato agressor do outro. Nos agredimos constantemente. Não assisto big brother, mas Susi, que é parceira por aqui assiste e nos compartilhou um relato sobre sua relação com os cabelos, que teve com gatilho a fala de algum participante, na repetição dessa agressão cotidiana, essa em que o outro não percebe de fato que tá cometendo a agressão, e é por isso que chamamos de estrutural, por estar na base alicerçante do ser que somos. 

https://youtu.be/-2fJa9wlgeY

E por que falo sobre isso? Para te perguntar, o que me pergunto: quais têm sido as minhas agressões, e quais eu tenho sofrido, e as que tenho reagido, como o tenho feito, com qual reação. Por que a física confirma que a cada ação uma reação, mas essa reação é absolutamente imprevisível, e pode ser pessoal ou estar dentro da memória social, mas pode também estar em você por conta dessa mesma memória que não nos foi contada, mas exemplificada nos cotidianos, nos ambientes onde vivenciamos ou atravessamos e existir neles não necessariamente é habitá-los, mas ainda sim alterá-los, porém habitá-los é se responsabilizar por ele, falar em seu nome, defendê-los do opressor, mas quem é esse opressor, que não o outro diferente que como você se vestido de habitante protetor com suas próprias memórias sociais, algumas mesmo idênticas as suas, mesmo que você tenha vivido toda sua vida em Beberibe, e ou outro em São Paulo, capital ou interior,  Somos, de acordo com Jung esse universo interno e externo. Um ser humano que começa retirando da sua própria sombra de seu vizinho está fazendo um trabalho de imensa, imediata importância política e social” (Jung). Mas, por aí seguimos na caça às bruxas, ao diferente, não ao extraordinário, pois esse vira exotico e o exotico vende, haja vista negros sequetrados e vendidos indiscriminadamente, indigenas expuulsos e escravizados em seu território, isso sem falar nos portadores de deficiencia, que precisam viver em uma cidade de ca;çadas egoistas, e p[essoas pouco dadas a colaboração, na minha cidade Fortaleza, quando chore, parecem Lágrimas de índio (Daniel Medina), que cata os bairros e exausta os nomes indigenas para deixar as claras a relação estreita do estado com os povos originários. Aqui, pasmem, tiveram sua existência negada e isso tem tudo haver com memória e também com a música de Medina que “arrasta Mondubim, Maraponga corda tonta e toda Aldeota se alaga, e diz que Jurema tá de mal de Iracema, que tá grávida da América do Sul”. Celso Pereira de Sá, ressalta que “finalmente, o interesse pela memória invade hoje a vida cotidiana de uma maneira talvez nunca antes , como já diagnosticado por diversos autores”. E diz mais, diz que “é nesse sentido que, a partir do exame de diferentes formulações – de variadas origens e níveis de análise – sobre a memória e construção de afins,  selecionados por sua especial pertinência para reconstrução psicossocial , propõe-se a presente circunscrição conceitual do domínio da memória social (…) e tal proposta envolve três preocupações principais, arrolam-se cinco princípios unificadores básicos, no campo da memória social que tem no conceito a segunda, onde “Memória social ” designa interior conjunto de fenômenos psicossociais da memória na sociedade e a terceira é que sugerem-se sete principais instâncias, sem serem excludentes para constituição de um mapeamento inicial”.

https://open.spotify.com/track/60giWQsgqHmX5C0hdmV6FQ?si=YAIwAvC7QjG0yKTOPhzglA&utm_source=whatsapp

E penso que haja aqui outras tantas questões, é que a memória é uma necessidade e por isso também um apelo. Mas, mas que memórias são essas, se não as das pessoas que contam essas histórias.  E Pereira de já não nos deixa esquecer que “o que é lembrado do passado está sempre mesclado com aquilo que se sabe sobre ele.”O mero conhecimento de que os fatos aconteceram e Cidadão Instigado, fala em Fortaleza que a  conhece desde o dia em que nasceu, e conta histórias de ser cria da varjota, bairro nobre da cidade e aí a música traz a tona essas “memórias no pensamento do tipo de “representações sociais”e daí temos Tião Carreiro e Pardinho cantando os Encantos da Natureza, ou No Dia em que saí de casa, de Zezé de Camargo , que tem o filme com direção de breno Silveira, que é bom em contar histórias e memórias, é dele tb o do Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, que também mata a gente de chorar. E são essas “histórias do grupo e suas memórias coletivas que desempenham papel importante na constituição do sistema central de uma representação.”

https://www.facebook.com/watch/?v=478934446068032

E o mais complexo dentro disso penso que seja pensar em todas as variantes motivacionais. Dizer que eu particularmente já conversei gravando, afora os infinitos e intensos papos sem câmera, com mais de 300 ArteVistas, e são diversos os contextos. Mas, para que fique mais claro vou compartilhar com vocês o quem chamamos de ArteVistas, você, por exemplo, que está aqui nesta terça, buscando entender melhor a cidade, para buscar os melhores caminhos para ela a partir dos agentes motivacionais de cada um.  Mas, é também ArteVista Telma Tremembé, qua lançou um livro narrando a percepção de uma indigena sobre o que aprendemos na escola a chamara de descobrimento do Brasil e mesmo hoje alguns ainda o celebram com entusiasmos de conquista, quando se trata de múltiplas derrotas, da natureza que somos, mas ai é outra pauta. O que me parece fato é que estou formada a muitos anos e quando entrei na faculdade já tinham alguns bons profissionais estudando esse lugar, mas ouvir um indigena falando sobre o seu lugar, me é novo e essa experiência cada vez mais constante, muito por que no processo de sermos esse lugar somos coletivos, e Marta Aurélia tem deixado o legado de muitos papos potentes incluindo muito indígenas, e como eu que recebo todes, tenho mesmo me preenchido de muitas histórias e assim também de muitas cidades e de mim, que faço parte dessa cidade, e da minha casa que faz parte dessa cidade e volto Jung e a relação com nossos vizinhos, sem transformá-los em nossas sombras. Não é que tudo esteja ruim, é que existem algumas estruturas solidificadas no caminho, mas ao contrário do que eu mesma disse não pode ser a base, pois as bases são elementares, quem traz o conceito é o homem, nós e nosso nessecidade de memórias, de construção de narrativa para busca desenfreada de explicar o que tá no campo do mistério. E a difícil aceitação sobre o óbvio de que somos uma totalidade, o entretenimento e meio de comunicação entenderam essa fórmula faz tempo. E nós gostamos de boas histórias, então espero que ainda haja alguém aqui. 

https://www.youtube.com/watch?v=OV4StlQh4ik

E tais as tais memórias pessoais onde cabe um Mucuripe de Belchior e Fagner, que não há nenhum problema não conhecer, mas essa música foi durante quase uma década um símbolo distante do que já foi Fortaleza, hoje com seu jangadeiros apertados em brechas de areia, e um Mucuripe que luta para existir, frente ao setor imobiliário de prédios altos na orla da cidade. 

https://youtu.be/evSIj_MkpKs

É que a memória social tem variadas instâncias, podendo ser vista como um conceito, mas pode também ser espontânea, e tem as memórias pessoais, que logicamente vão para além do indivíduo, já que habitamos um lugar e o compartilhamos, assim também compartilhamos memórias, diversas. E tem ainda as memórias comuns. O fato é que existe uma infinidade de memórias e todas elas passam por nós para ganhar, adeptos em ação, na construção das memórias do por vir. 

http://www.youtube.com/c/LugarArteVistasarteondeestiver

Mas, agora vou fechar dizendo que cada passo nesse espaço é nosso ex-passo e seguimos na geração de novos. Então vamos de atualizações, esse mês já temos 5 programas no canal e isso é lindo e de um conhecimento profundo. Neste mês de abril Martinha tá fazendo abril originário e Lorena Armond pensou em uma comunicação mais indigena, então eu estou aqui extasiada só absorvendo tantos conhecimentos e me percebendo em ações nesses lugares todos. Qual o meu papel no mundo eu não sei, mas o da Lugar ArteVistas é ser lugar para todes. que queiram chegar para contribuir com o lugar que habitamos de modo respeitoso. Silvinha vem arrasando com suas conversas que buscam desatar nós, e ontem eu conversei com uma mulherada linda. 

E tem mais chegando. Olha esse convite! Fui!

https://youtu.be/_z3dGWXcGIY

Gratidão a todos do grupo de estudo Ser Cidade É Coletivo, que compartilharam músicas.

Desejo e Teimo

Por Roberta Bonfim

Texto que escrevi para semana passada e não subiu, mas desejo compartilhar, então teimo. hihih

Estamos em meio a uma pandemia, panelas batem timidamente ao meu lado direito, nenhuma ao lado esquerdo, e tudo bem, também não bater panelas. Depois de mais de 3 anos estou só em casa, sem criança. Na casa que eu moro é a primeira vez que dormirei sozinha, Eu estava na realidade apreciando o silêncio, que me foi tomado por panelas e baterias,e gritos baixos de fora Bolsonaro, genocida. Não me dei ao trabalho de ouvir a fala do próprio, como não me ative as panelas  E ok bater panelas. De onde moro o bater panelas há uma ano, quando começou a pandemia e a grande maioria ainda apoiava o chefe do executivo, eu ainda batia panelas e tinha no peito um coração cheio de esperança de que esse homem sairia. Gravei cada panelaço e o que descobri é que muitos, como eu, deixaram de pegar a panela, elas amassam com a batia e nada, além de perturbar cães e gatos, já tão estressados com o que vivem, trabalhando dobrado para limpar campos áureos. Mas, aí é pauta para outro texto. O fato, é que meu único e absoluto desejo individual, egocêntrico e pretensioso, quando pensamos na cidade e seus sons, era só a manutenção do silêncio que me fora usurpado, junto com tanto mais. 

As panelas batiam e eu pensava em saúde mental, lembrei mesmo de um curso que preparei de arte como caminho para promoção da saúde mental, 

Ao tempo que nunca se falou tanto em necessidade de saúde mental. Saúde física tá em falta, são números que como opção de vida, para manutenção da tal saúde, optei por não acompanhar as atualizações da nossa tragédia sanitária, em meio a um desgoverno, quando enfrentamos uma pandemia mundial, além da percepção de uma série de questões estruturais que nos agridem e também nos coloca como agressores carrascos. As normas, as caixas, e todos em casa, se entreajudam, para caber em salas de aula, papos, sites de namoro virtual. Janelas. As vezes minha cabeça completamente insana tem vontade de simplesmente dizer ok para tudo e descer desse Jipe. Mas, no decorrer da construção das histórias modificadas e creditadas que nos vestem até a escolha por tirar a própria vida é imbuída e pesada pela culpa cristã, que mantém o sistema de exploração. Porque afinal de contas é melhor ser explorado do que queimar no marmore do inferno. E ao vivermos agressões cotidianamente, e agredidos vamos começando a crer que a agressão é normal e faz parte, é inclusive prova de amor, ou pior, que ela só existe no outro, o que faz de nós agressores ferozes salvos pela ignorância de seus atos.  As mulheres mais que ninguém crescem com esse padrão. O garoto que a ignora, destrata, possivelmente o faz, dizem, que por gostar dela. Eu aqui humildemente alerto que esse tipo de sentimento é insuficiente, injusto, desleal e agressivo, pois gera um movimento, de ações e de omissões repetitivos. Me pergunto se não estamos o tempo todo nessa gangorra. Oszlak & O’Donnell, (1976, p. 21), disse que o “conjunto de ações e omissões que manifestam uma modalidade de intervenção do Estado em relação a uma questão de interesse de outros atores da sociedade civil. Desta intervenção, pode-se inferir uma determinada direção, uma determinada orientação normativa, que, presumivelmente afetará o futuro curso do processos social desenvolvido até então, em torno do tema”.

Quando pensamos em saúde, ela é, rapidamente, o oposto da doença, mais do que a construção da saúde em sua amplitude. É o que precisa ser cuidado para ser restabelecido, antes de uma crise de modo geral nada é doença, dizem. E o que somos, então, senão uma sociedade adoecida, amedrontada, humilhada? Uma humanidade adestrada à hipocrisia, ao fazer o que digo e não o que faço. Ao “se fosse eu faria…”, mas não se trata de… E é. O fato é que por vezes me pego pensando, assim no meio do nada, entre uma varrer a casa, escrever um artigo, contar uma história para minha filha, assistir a uma desenho animado (aqui será pauta do meu próximo texto na Mãe que Sou. Somos agredidos pela necessidade imposta de seguirmos um padrão, para sermos mais facilmente tangidos. Nos vejo como seres sem bases de sustentação, sem perspectivas sobre o futuro estável pelo qual se destruiu o todo a fim de construir. E como isso o DNA fica insalubre. Cada época tem seus valores e a humanidade está em construção, mas se somos racionais, precisamos refletir sobre o já vivido e juntes entendermos respeitosamente as diferenças. Mas, não temos essa escola interna, não temos essa memória genética, nunca antes vivemos esse lugar de respeito às diferenças, não sabemos fazer isso, e tudo bem, é caminho, vai que um dia.

Descartes Gadelha, diz “somos todos filhos da seca”, e pontua que o que mudou foram os desejos, por um tempo, espaço, consumos, mas, o buraco impreenchido da ausência de termos uma história, uma origem, brasileira, é, um buraco na saúde social, que sem base relacional com o lugar, segue o padrão da invasões, das agressões, dos planejamentos binários de dominação. e tudo isso é insalubre, adoecedor.

Enquanto isso, outros números de comprovação de doença social sobem no país, como os números da fome, das agressões à mulher, violências sexuais, números de casos de depressão e tentativas, algumas como êxito de suicidio. Isso sem contar a educação pública online, sem com que o aluno tenha nem comida, imagina, um celular e uma boa internet. O que abre para outro papo que não seguiremos, que é o ofertado de internet para as favelas.E aqui podemos falar também de iluminação pública, posto de saúde, psicólogos e médicos disponíveis para atender quem precisa. 

Há tem tem os negros, os indígenas, tem quem mora na rua e quem se quer tenha um CPF, na sociedade do consumo, e sofrem agressões constantes pela existência, as galera LGBTQ+, que eu particularmente e sem nenhum juízo de valor, gosto de me apresentar com simpatizante da causa, e lembro da fala de André Lion. Compartilho papo.

A importância dos determinantes históricos na compreensão dos determinantes de saúde-doença.

• Ao analisar recuando no tempo → retira-se a naturalização do atual 

“O que julgamos ser nem sempre o é, e o que julgamos não ser, talvez, seja” (Polignano,2001).

• Realidade atual gera mudança nos conceitos de qualidade de vida, de

estilo de vida, de saúde e de doença.

E para não dizer que não falei das flores, vamos as nossas coisinhas:

Blog – Temos Artevistas noves no pedaço, e te convidamos a chegar mais perto desse blog que se constrói à tantas mãos, letra, palavras, histórias e ricos aprendizados. Nesta semana que vivemos, ontem teve texto da Mãe de três, Mayane Andrade, às terças sou eu, quartas até amanhã teremos a alegria de dois textos, as Cartas de Kitah, e o texto de até quando der de Marcelina, nossa poeta querida, autora do livro que a gente ama De Vento Em Poesia, que tem ilustrações incríveis de Thyara, na primeira quinta do mês o texto é da sertaneja inspirada e inspiradora Bárbara Matias, e a sexta de (Des) construção da forte e leve Celma Prata, e no sábado aprendizados individuais com auxílio de Daniel Prem Hamido, o domingo com os encantados do coletivo Abayomi. E na segunda tem o texto sobre os desenhos que escreverei. E na próxima terça já passo a agenda da semana seguinte. 😀 

Canal – Estamos nessa de sermos um canal com programação diária, estamos já em rede com o Arte Onde Estiver, apresentado por mim, às segundas, na terceira terça de cada mês temos o Mirabília – Roda de Cintos do Mundos, uma parceria com a Escola de Narradores Online, na quarta quarta do mês temos revista lugar ArteVistas, nova temporada, e na terceira Periferias, um produto Invenção do Lugar, projeto do nosso ArteVista Kiko Alves, que escreve conosco e o texto da quinta passada, tá incrível, as quintas rola uma Conversa Entre Nós, com Silvia Helena e na sexta tem a diva Marta Aurélia e sua Casa d’Aurélia, ao sábados temos já na rede Mentalizando Mapas Culturais, com Ivina Passos, e Novo Ciclo – Estamos Vivos, com Crica Carneiro, e nos domingos de abril teremos o projeto Noda de Caju, cedido por Bárbara Matias e equipe para transmitirmos e deixarmos no nosso rico acervo ArteVistíco.

A Campanha do Poço da Draga ainda está frágil, mas se fortalecendo, e conseguiremos ter fé que conseguiremos na medida das nossas possibilidades apoiar esse lugar que tanto amamos. Vamos juntes afastar a fome desse Lugar.

Por hoje é só!

abs repletos de boas energias e o desejo de nos conectarmos com o nós.

No caminho de ser Coletiva

Por Roberta Bonfim

Lembro que quando meu primeiro irmão nasceu, eu com 3 anos senti um profundo sentimento de alegria, seria possível dali em diante brincar junto. E brincamos, depois disso fui encontrando amigos, colegas, parceiros de momentos da vida, esse negócio de ir aprendendo a se relacionar, de partir, chegar, partir, chegar… sigo nesse exercício até hoje, chego mesmo a pensar que essa seja minha missão, aprender esse lugar em que ao me relacionar eu não perca o meu centro existencial de valores que se fortalecem cotidianamente. 

Gosto de observar os caminhos que a vida segue. Lembro que quando entrei em uma boate a primeira vez, Ibiza, ali na Praça Portugal. Tinha umas matinês e na primeira que fui, passei grande parte da festa parada em um lugar específico observado a dança do lugar, os destinos, trocas, exageros adolescentes, as vozes estridentes no “Amigaaaaaa”” do encontro caloroso, eu assistia tudo ali e me perguntava se eu queria brincar, e a resposta foi sim. Parei de observar para ser parte da dança. Pensava eu naquele momento. Gostei! Mas, minha intensidade carente da juventude entendeu que se eu amasse aquela vida mais que a dose eu me perderia naquela ilusão para sempre, pois seu quadro parecia bonito. Em resumo, só afirmo que já mais velha vivi e trabalhei em algumas boates da cidade como Eden, Mucuripe Club, Domínio Público, Órbita, só para deixar clara a potência do flerte desse primeiro encontro. 

Para minha sorte entendi mesmo naquela noite, e mudando os planos. Por excesso de curiosidade flertei também com algumas igrejas, fui integrante ativa do Maranatha, da igreja Batista, e do GEPE, sou muitíssimo grata a todas, mesmo as que só passei. É preciso admitir que mesmo hoje eu não desejando essa relação tão próxima, foram nas instituições religiosas, onde mais identifiquei a potência do trabalho coletivo. E tinham os encontros, onde de quebra aprendi a cozinhar, a princípio só pra muita gente, hj, só pra duas.

Mas, foi no teatro que me senti em casa, ali eu sentia tudo, naquele lugar de existir em que me percebia atriz eu estava inteira, entregue, feliz, mas a arte é coletivamente egoísta e talvez eu, pouco disciplinada e muito insegura para ela, depois que fui perdendo a ousadia natural da juventude o palco que antes era desejo, virou quase medo. E junto o aumento de cobrança por ações mais claras e “”certas” e novas vidas a serem vividas junte e também aquela parte em que vivemos sós. E somos doutrinados a temermos essa solidão, a afastarmos ela a todos os custos. Temos necessidade de amor, todes, nos alimentamos do olhar do outro. A questão aqui é que a medida que fui crescendo, me senti profundamente só muitas vezes e depois segui. O que quero dizer com isso, é que estar só é normal e saudável, estamos sós em grande parte de nossas vidas.

E o tal coletivo que eu apresento no título desse texto? 

É que neste momento o que sinto é que o coletivo só funciona para além das palavras, em sua prática por seres que já encararam essa solidão sem medo. Pois o trabalho coletivo é o jogar-se ao mundo acreditando no desenvolver conjunto que nos pede escuta, organização, metas, respeito, generosidade, muita água e respiração para encontrar os caminhos de saída criativa em meio a tudo que se vive e para nossa sorte temos a arte como caminho.

Voltando ao só coletivo, penso que seja quando encontramos esse lugar respeitoso da solidão, que iniciamos um processo novo, um tipo de existência interrelacional. Afinal, existir é coletivo, o que talvez nos falta seja nos responsabilizamos pelo nosso papel no palco da vida. 

Mas vamos agora ao apurado da semana e razão de parte das minhas olheiras.

Fechamos 90% da nossa programação do canal. 

Conversa Entre Nós – com apresentação da ArteVista Silvia Helena
Casa D’Aurélia – apresentação da ArteVista Marta Aurélia
Mentalizando Mapas Culturais – com apresentação da ArteVista Ivina Passos

Aprendi a respirar e esperar o tempo das coisas no trabalho coletivo, mas também aprendi a pontuar prazos limites. 

A campanha pelo Poço ainda está frágil, ontem a VelauMar fez entrega de 50 cestas básicas, um número ainda muito baixo. E isso me gera um sentimento de… não sei nomear esse sentimento, mas penso assim, se enquanto cidade não conseguimos nos em 3000 pessoas doando 10 reais e isso mudar a realidade vigente de famílias, que estão em casa, sem dinheiro nem comida. Lembro sempre da Fala de Descartes Gadelha, dizendo que somos filhos da seca, que isso está no nosso DNA. 

Mas tenho fé que vai se fortalecer. 

E nós contamos com a sua chegada para conseguirmos mais juntes, coletivamente.

Fiz um cálculo, se conseguimos cada sexta a 50 reais e existem 550 casas no poço da draga, então precisaríamos 27500, que são possíveis com a doação de 10 reais de  2750 pessoas. 550 pessoas doando 50 reais. 275 pessoas doando 100. 27,5 pessoas doando 1.000. Estou muito chocada com os ridículos desses números. 

Lorena Armond maravilhosa fechou a arte do nosso feed do mês de abril que tá tipo maravilhoso. Para nossa alegria e abertura de caminhos temos a menina que me fez entender o professor Raimundo quando dizia “queria ter um filho assim˜, que tá fazendo a campanha pelo Poço da Draga acontecer. Grata meninas, alegria ter vocês por perto também nesse Lugar.

Quem também arrasou foi Jether Junior que resolveu nossa vida com as graficas.

Recebemos os quadros da exposição Isole-se para viver, de Lorena Armond, que vai acontecer quando o mundo deixar.

No canal muitas lindezas, gente amanhã Marta Aurélia vai conversar com Teuda Bara, e eu vou editar esse babo e babar toda minha baba por ela. Estou até nervosa. 

Ontem o papo foi uma delicinha com Cintia Sant`Anna, Lorena Nunes e Karla Patricia. 

Arte Onde Estiver – apresentação Roberta Bonfim

Marcelina acabou de dizer que não seguirá escrevendo no blog e nós lamentamos, mas entendemos, porque é isso, as tais chegadas e partidas.

Hoje é terça!

 Por Roberta Bonfim

Despertei às 2 horas da manhã e levantei de um salto, constatando. 

E eu não escrevi meu texto do blog. O dia está cheio e ainda tem os cortes do programa de segunda para o instagram e, os métodos para ler que deveriam ter sido lidos ontem. Preciso fechar conteúdo textual de 8 programas, separar as imagens de apoio, e hoje tem reunião com Euládia, Susi, Amália, Crica e já já começa a aula. A campanha do Poço está recebendo menos doação do que precisamos, o que fazer para melhorar? Preciso pensar caminhos. Lembro que minha orientadora quer me encontrar semana que vem e que meu projeto é um caos de informações soltas desde a última orientação. Na quarta temos um encontro com um possível parceiro e até sexta preciso entregar a casa organizada para Monika poder trabalhar. Na quarta gravamos 2 programas da Casa D’Aurélia, e na quinta tem Sílvia Helena, com Conversa entre Nós, recebendo Karlinha e Zumira, para falar sobre os mapas afetivos. tenho que pedir as frutas e verduras do ecobox. Falar com Kerla, Péricles e Manuel, e ter um encontro virtual com Crica e Renata… as demandas me saltavam a mente e fui organizando tudo mentalmente ali ali de pé ao lado da cama olhando pra minha filha que dormia tranquila. 

E nossa comunicação está cada vez mais linda, feita tão carinhosamente por Lorena Armond. A campanha do Poço está sendo lindamente feita por Mariana Costa. E Susi me salva na agenda dos programas e nos stores com todes nós. stories e na agenda dos programas da segunda temos Susi, e quem tá arrasando na campanha do Poço é Mariana Castro. Jether resolveu tudo de gráfica, pela glória. E Lara Leoncio tá adaptando nossa blusa depois de eu montar uma peça de instagram e decidir mudar o que já tínhamos de padrão. Ana Luna acorda pra dar um confere se estou ao lado. O papo de ontem foi leve e me mostrou a potência do streaming, pois fiquei total sem internet e a live não caiu. Incrível, achei.  Eu ainda estava por perto e só de ouvir a respiração, ela virou pro lado e seguiu dormindo.

E sei que a quem ler parece um surto de ansiedade, mas para minha alegria sou só eu voltando a mim. Levanto -me coloco tudo no planer e finalizo com: – E no final de semana, escrevo os textos dos posts de abril.

Abril?

a passagem rápida do tempo, e já fazia uma semana que eu não conseguia parar para ler os textos do blog e assim, comecei o dia, prático, lendo os textos potentes desse blog. Gente que honra compartilhar lugar com cada um, estamos com alguns Artevistas novos escrevendo no blog conosco é o caso de Alana Alencar e Nathalia Rocha, que vão somar no quadro a Mãe que sou. Quem também chega é Júlio, Kitah para o existências e Alicia Pieta para lugar de fala. Muitas lindezas. 

Digo o mesmo sobre o canal. Já estamos no ar com as segundas comigo, na terceira terça de cada mês temos uma roda de contos do mundo, com as quinta tem Conversa entre Nós, com Silvia Helena, a sexta é comandada por Marta Aurélia, o sábado é multi e diverso, com Ivina Passos, Crica, Cintia e chegando mais gente, o domingo em breve trazemos essa novidade.

E eu que comecei esse texto de manhã bem cedo lembro dele agora depois de 90% da agenda concluída. para dizer: Boa noite! Té terça que vem!

Tá no DNA

Por Roberta Bonfim

Neste mês, as mulheres recebem em um único dia, 8 de março, o afeto generoso ao qual merecem 365 dias no ano. Em momentos em que Ser Mulher vem se tornando tarefa cada vez mais multi, a exaustão por vezes nos toma por completo e as mulheres normalmente mais recatadas e retraídas pela pesada mão do patriarcado, quando se rebela, rapidamente torna-se a louca, a bruxa, a vítima, a má, interesseira, e muitas outras coisas ruins que a sociedade dita sem sequer perceber, nesse lugar de sociedade não dissocio gênero, idade, classe, tom da pele.  E é essa ausência de percepção e empatia o que mais me choca particularmente. E aqui assumo que não fujo às regras, nem de ser mulher, nem tão pouco de ser a sociedade inquisidora. 

Hoje felizmente falamos sobre o racismo estrutural, mas a bem da verdade é que estamos rodeados de preconceitos, “verdades” e agressões estruturais. E a mulher sabe muitíssimo bem disso, mesmo as que nunca viveram ou viram qualquer grande agressão, trazem em seu DNA as marcas da opressão, do silenciamento e dos tantos desrespeitos. E sempre que constato tudo isso no meu cotidiano… haaa…

Outro dia resolvi mesmo foi tentar contar as agressões de um mesmo dia vinda da rua, dos da família, dos colegas de trabalho, amigos e também nas artes. Nessa mesma onda em que eu observava isso, eu me questionava: Se atraio o que penso, e neste momento coloco as agressões no protagonismo. Atrairei mais agressões? – Nem! – Lembro-me que respondi foi auto. E de não falar já viemos até aqui, e o que vimos e vemos, são mulheres sendo socialmente agredidas. E eu bem poderia contar inúmeras histórias de tantas mulheres que tenho no ao redor e que são agredidas e silenciadas cotidianamente, mesmo porque às vezes o melhor de tudo é só o silêncio e a crença de que logo aquilo vai passar. Mas, a única que tenho profundidade, sou eu. Então, estabelecendo essa relação de confiança falarei sobre uma das infinitas mulheres que posso ser. Não sei se sou tantas por ser geminiana, por me conhecer em algumas das minhas infinitas contradições humanas, ou simplesmente por sermos todes múltiples, e sermos todes um, dentro do ovo Terra.

E ai sobre o lugar que em que eu habito na terra, sou Mulher, 38 anos, mãe da filha mais maravilhosa que eu acho,  bailarina frustrada, atriz saudosa, comunicadora de alma, com especialização em gestão, mestranda em psicologia ambiental, idealizadora e realizadora da Lugar ArteVistas – arte onde estiver, amadora-amante do Poço da Draga, neta da Daita, criada por muitas mulheres incríveis em suas particularidades e com rápidas ou permanente passagens de homens frágeis e agressivos, não que as mulheres também não o fossem, mas seguravam e seguiam. Que bicho impressionante esse bicho mulher que podemos ser. 

Então, neste nesta terça corrida, agradeço a todas as mulheres incríveis que me cuidaram, e me afogaram em sucos de maracujá, cada uma ao seu modo foi e é fundamental para construção do ser que sou e me exercito para ser. Sou muito grata por ter sido criada por tantas e ser a personificação desse lugar de ser criado pelos diferentes que somos, e aprender a adaptar-se e a respeitar cada um deles, buscando sempre e especialmente também se respeitar.

E sobre o todo desse lugar falo mais na semana que vem, mas adianto que ontem vivemos um momento especial na Lugar ArteVistas, em doces companhias, que vão gerar um novo programa para falarmos sobre o autismo. Lindeza!

E acabamos de sair da nossa primeira reunião com a Inspire Comunicação, nossa assessoria de imprensa, e foi lindo! E o mais importante, Marilac voltou para terra alencarianas. ❤

Construçãooo

Por Roberta Bonfim

Ontem preparei um banho de ervas e me banhei. Ao som de minha própria voz. Fiz o banho pois fazia meses que eu me prometia um e já não poderia adiar, não me cabe mais qualquer tipo de negligência comigo, além dessa vida no 320 que venho vivido. Logo menos terei de focar na pesquisa e aí talvez eu consiga mais tempos além da madrugada para boas leituras, além de que sinto falta de ler livros não técnicos.

Ontem conversei com Márcia Cipriano e Iago Barroso sobre esse lugar de sermos que somos. E quem somos? O que fazemos? E cada um com sua pegada foi compartilhando saberes precisos e eu me encantando com eles e tentando manter Ana Luna em silêncio.

Arte onde estiver

Na sexta tivemos o papo na Casa d`Aurélia, onde Martinha recebeu para lindes  papos Caio Castelo, nosso primeiro papo da Casa D`Aurélia, nesse formato gravado e com intervenções de edição. Caio é um encanto e como Claudio Mendes com quem ainda vamos conversar por aqui algum dia nesta vida, toca e /ou faz produção musical de uma galera, inclusive com a Mulher Barbada com quem já trocamos por aqui, no saudoso Mambembe. 

Casa D`Aurélia

A quinta foi massa, por que é dia de Conversas entre Nós e ela convidou Marcelina autora do livro De Vento em Poesia e Thyara, ilustradora do mesmo, o papo ganhou ares potentes e bem pontuados pela ArteVista Silvia Helena Amorim, que inclusive pesquisa o lugar da mulher na sociedade.

Conversa entre Nós

A terça foi linda repleta das melhores histórias com a Escola de Narradores.

Mirabilia

Terça de Não Carnaval

Nesta terça carnavalesca do não carnaval, o texto não é meu mas de Leo Machado, com quem conversei, na segunda da semana passada, junto com Zé Filho e Robinho e foi massa. Fiquemos com a reflexão de Leo, que mesmo em ano não carnavalesco faz sentido.

A gliterização do carnaval de Salvador

Por Leonardo Machado

Quarta feira de cinzas. O último trio passou. Só dá tempo para uma saideira e um pouco de descanso para voltar a dura realidade da vida. Tudo vai embora junto com o último trio da quarta, menos o glitter. A porra do glitter não sai. Já estamos no segundo dia pós carnavral e eu ainda não consegui me livrar dessa zorra.

Já foi carnaval, cidade. Satanás vai pra Porto Seguro e Jesus volta pra Salvador para começar a reorganizar as coisas. A primeira coisa que ele faz é dialogar com o prefeito para convencê-lo a não esticar a festa. Uma boa ação. Acredite: o prefeito não te ama e quer te matar de cirrose.

A cada término do carnaval vem uma polêmica a ser discutida no trabalho, em bares, redes sociais e coletivos.

A bola da vez é: A viadagem no carnaval de Salvador.

O velho e cansado papo que sempre começa assim: eu não tenho nada contra gay, maaaaaaas….

Eu já fui um desses caras, heteronormativo privilegiado que fazia cara feia quando o Crocodilo passava. Até descobrir que alguns amigos de infância já tinham se assumido gay para as amigas e escondido dos amigos, tipo eu.

Diante do exposto eu comecei a questionar.

Porque eles estão fazendo isso?

Será que eles não confiam em mim?

Aos poucos eu fui percebendo o quanto era difícil para meus amigos gays essa aproximação. E que nós (héteros) levantamos esse muro.

Minha primeira empatia com a causa foi tomando uma cerveja com um amigo que conheço desde molequinho, lá no condomínio que eu morava. Francisco, apelidado por mim como Chicão, estava abalado psicologicamente por um namoro mal sucedido que ele teve com um cara. Estávamos lá. Apenas eu e ele. Bebendo uma cerveja e dialogando sobre o romance que acabou. Ouvindo meu amigo atentamente me vejo levemente emocionado porque estava passando pelo mesmo cenário. Tava recém terminado com Gabi(minha namorada na época), relacionamento de 7 anos. A dor de Chicão era a minha dor, éramos todos iguais naquela noite.
Chico falou sobre o sexo deles, o que eles gostavam de fazer juntos, das brigas e das resenhas. E eu na gaiatice disse:

  • Porra Chico é a primeira vez bato um papo gay. Que estranho, né?

E ele riu.

Outra personagem que me fez ter sensibilidade sobre a causa foi Carol. Ela tinha uma marca de camisa chamada “Oxe Véi” e eu comprava sempre alguma novidade na mão dela. Teve um dia que eu fui na casa dela para pegar uma das milhares de camisas que eu tenho. Sou convidado para entrar e vejo uma casa toda cheia de cor. Estava ela e Geo(sua namorada) no cantinho da varanda finalizando uma embalagem. Não sei porque, mas ao entrar na casa delas eu senti uma leveza surreal. Não demorei muito lá, mas foi o suficiente para entrar no carro pensando: que bacana o namoro dessas meninas.

Eu vi a beleza em uma forma de amor pelo qual eu não estou inserido. E afirmo queridos ouvintes: É possível!

Um tempo depois Carolzinha descobriu um câncer e com a firmeza de uma mulher partiu pra dentro dessa doença escrota. Eu via tudo de longe porque nunca fui íntimo das meninas, mas ficava numa torcida grande. Parecia que eu tava vendo uma novela. Eu só queria que no final tudo desse certo e elas ficassem juntas. E ficaram. Carol venceu o câncer, casou com Geo e escreveu um livro lindo sobre tudo isso.

E eu comprei, claro!

https://gramho.com/explore-hashtag/CarolinaMagalh%C3%A3es

Tem uma passagem dedicada só ao amor das duas, que ao ler, chorei.

Chico, Geo e Carol indiretamente me fizeram ter sensibilidade. Já não sou o cara que fazia cara feia ao ver o trio de Daniela Mercury. Eu sou o cara que ao som de Maimbê Dandá, com um lata de cerveja quente na mão, dança e mentalmente fala para os foliões do bloco: arrasem, amem, pulem, vibrem, sintam. O carnaval é de vocês também.

A polêmica sobre a vultosidade do gay na folia é a trágica fala privilegiada de quem quer manter seu privilégio.

Antes o carnaval era palco da chuparinação dos héteros, hoje o bolo está sendo repartido.
E isso incomoda.

Vazou um vídeo de uma mulher de outro estado que veio para Bahia curtir o carnaval. Ela, revoltada grita que nunca mais vem pra terra da folia porque só tem viado. Provavelmente ela gastou uma boa grana para curtir o carnaval, mas não comeu ninguém.
Essa senhora deveria seguir os conselhos do velho Raul Seixas.

Tente outra vez!

Até porque há uma voz que CANTA, uma voz que DANÇA e uma voz que GIRA pairando no ar.

Reparem…

Essa frase de Raulzito é bem “Largadinho” né?

Um velho amigo conversando comigo disse que se incomodava com a putaria que a comunidade LGBT tava promovendo no carnaval.
Beijo de tripo, quádruplo. Um em cima, um em baixo, um puxando e o outro vai, aí ai ai.

Rindo, questiono ele daquela vez que a gente pegou 3 mulheres de vez na Ondina no carnaval de outras épocas e ele fica sem resposta. Não satisfeito pergunto daquela vez que a gente ajudou um amigo a escalar um camarote para beijar uma menina que tava lá em cima e ele meio que sem graça responde:

  • Mas aí é diferente.

E eu retruco:

  • Isso se chama privilégio masculino. Bem vindo ao seu mundo.

Entendam…
A inserção do gay na avenida é um ato revolucionário, político, de amor.

É um grito!

De forma extrovertida eles e elas estão dizendo: Não nos machuquem, nos respeitem, não nos mate, é só amor, a gente EXISTE.

É só isso. Enxerguem o belo. Como eu havia dito: é possível.

É tão bom cair na folia e encontrar com Chicão, Thiagão, Luis, Jorge, Pitoco, Thales e outros mais.
Eles estão sempre com uma fantasia foda, uma mensagem bacana, 1 kg de purpurina no corpo e quase bêbados(que nem eu).

Fica a dica: Se você não é capaz de aceitar que essa galera veio pra ficar creio que seja melhor procurar outros locais para curtir a temporada de festa. Soube que no Alaska o carnaval é bem bacana. Fica bem pertinho. Fica lá na casa da disgraça a direita.
Não pense duas vezes, reúna seus amigos, dividam a passagem em 40 vezes no Hipercard e sintam o calor do carnaval do Alaska.

Eu sou a favor da gliterização do carnaval.

Essa galera é massa.

Você já viu uma linha de 10 viado de frente pra uma linha de 15 esperando Ivete largar um “vai buscar Dalila” pra sair na mão? Eu nunca vi!

Você já viu a polícia ter que atuar numa briga generalizada de gays? Nunca houve!
Nem o programa do Bocão conseguiu mostrar.

Você já viu um taxista, moto taxista, Uber, dono de hostel, hotel ou apartamento reclamar porque boa parte dos seus clientes são gays?

Entendam…
A moeda tá circulando na cidade. Isso gera emprego e renda. Essa galera, inclusive, tá ajudando a melhoria da financeira da tia do isopor que tá lá ralando pra caramba sob condições humilhantes.

Portanto, largue de ser trouxa e saia da bolha. E digo mais: Não ouse contrapor essa rapaziada fisicamente. Eles são muitos, aprenderam arte marcial e estão fazendo academia.

O mundo machista não irá perdoar ver você voltando pra casa marcado por um cruzado de purpurina na ponta do queixo ou uma chave de glitter. Seria um nocaute e tanto.

Por fim…

Voltando pra casa na segunda de carnaval, no final do circuito Barra – Ondina, mais precisamente conhecido como monumento das gordinhas, ao abaixar as cordas do trio de Daniela Mercury presenciei um turma de 30 abraçados e gritando algo do tipo: aí que delícia, que delícia é ser viado.

Eu, com minha cerveja quente, observo tudo e solto um riso de aprovação. Que massa. Isso é carnaval.

Sabe o que eu quero?

Eu quero tudo!

Ou melhor…

Não quero nada!

Não quero 8 nem 80, eu quero o bloco do prazer.

E quem não vai querer?

Texto de Léo Machado – Eterno folião, hétero e apoiador da gliterização do carnaval de Salvador.