Onde está meu Coração


Por Roberta Bonfim

Precisamos falar sobre tanto, que nem cabe na vida que se tem, mas quase coube no roteiro de George Moura, Sérgio Goldenberg, Laura Rissin e Matheus Sousa, "Onde está meu Coração", que tem no elenco Letícia Colin, Daniel Oliveira, Camila Márdila, Barbara Colen, Mariana Lima, Fábio Assunção, dentre outros, e traz tantas pautas, tantas questões, em especial as dependências. Mas, ainda sim nos lembra a cada episódio, dos dez da primeira temporada, lançada em 2021,  que nada é mais precioso que a vida e o amor. 
Com direção de Noa Bressane a série tem como tema principal a dependência em crack e o que acontece com o usuário, bem como, com quem está no seu entorno físico e emocional. A linha tênue entre a confiança e o aprisionamento, o tratamento que exige distanciamento, e o fato de que se trata de um ser, ou vários, e que os afetos permeiam todos os contextos. 

Sem dar spoiler, mas desejosa de que muitos assistam e gerem olhar empático a essas questões a que no século XXI estamos todes, direta e indiretamente relacionados. Pois diferente do discurso ultrapassado o crack alcança a todes, das diversas classes e é danoso. O crack pode inclusive já fazer parte do seu rolê de modo recreativo, a real é que quem usa diz que é bom, e nem todos tem em si essa predisposição à dependência, por isso é uma roleta russa, e o ideal é evitar experimentar. Há outros modos de chegar a essa plenitude de alma, ou de exaustão. Mas, vamos a esta série necessária e dinâmica.
Logo no primeiro episódio somos apresentados a Amanda, intensamente interpretada por Letícia Colin, que neste momento para mim é mais Amanda que Leticia. Amanda é médica, residente, vivendo todas as tensões, deste lugar de ser parte do contexto entre a vida e a morte do outro, e suas particularidades. Ao mesmo tempo, que vive uma luta interna e física com o crack, fragilizando seu casamento, relação familiar, e seu lugar profissional.
Também no primeiro episódio conhecemos Sofia, mãe de Amanda, interpretada pela sempre maravilhosa e chique Mariana Lima, que nos emociona com sua entrega a personagem e todas as suas questões com a sutileza de uma grande atriz. Fábio Assunção interpreta David, o pai, médico, com questões com álcool nunca compartilhadas com as filhas, na manutenção deste lugar um tanto hipócrita de parecência da perfeição. Conhecemos também Miguel, o companheiro vivido por Daniel Oliveira.
Nos próximos episódios os véus sobre a questão da solidão feminina, o machismo estruturação, traição, ganância, medos, inveja e outras emoções se relacionam, ao tempo que temos ali também caminhos do tratamento sendo explicados. Os excessos de amor, a síndrome do controle, na crença de sermos Deus, a dificuldade de lidar com as frustrações, são temáticas que vêm à tona. Junto com a relação com a dívida com o mundo do tráfico, e a relação de perda de cada um dos lugares.
A irmã mais nova de Amanda se apega a religiosidade em tempos de puberdade na busca pela felicidade, uma promessa, desejos, uma coisa meio Nelson Rodrigues, e mais uma relação que tem muita admiração, assim como também inveja e que só se resolve enquanto afeto depois de muitas situações, uma morte e um nascimento.
A série traz ainda em subtexto, questões de exploração sexual e moral, o uso indiscriminado de álcool de medicação, que são tão nocivos quanto as drogas ilegais. O uso do poder do dinheiro, as ausências médicas em hospitais, que levam a óbitos. Como eu disse no começo do texto, é uma séria de tanto e que vale demais assistir, pausadamente ou uma boa maratona da, indiferente, desde que se deixe afetar por esta família de tanto amor. Grata a todos que realizaram esta série de milhões.

Só vou falar se me escutar…

Por Coletivo Abayomi

Nossa fala carrega nossa existência. A arte das palavras é um saber milenar africano, uma forma de registro, tão engenhosa quanto a escrita, mas que serve-se de gestos, improvisos, música e dança na confluência do armazenar e transmitir. Transmite através da corporeidade e sons, para além da voz, a memória e a cultura, integra ao tempo e espaço das tradições e das comunidades e jamais deve ser entendida como a negação da escrita, mas como afirmação da prática, porque palavra é ação. Não existe corpo preto que não se manifeste ao som das nossas antigas ciências sonoras.

Imagem:@alfon_romeros

 A oralidade é tão sagrada ao povo preto ao ponto de ser personificada. Ananse é a grande aranha, que tece as teias da vida através de histórias, memórias que ligam as pontas regressas e pregressas da ancestralidade. Outra marca da importância da oralidade e todos os fundamentos contidos no verbo, é a institucionalização do Griot e da Griotte, cargos de confiança concedidos pelas realezas e que são transmitidos de forma hereditária. 

No Mali, a família Kouyatè serve honrosamente à sua comunidade e ao reinado desde o século XIII, como uma linhagem de bibliotecas vivas, se dividem na função de guardiões e difusores dos mitos – ficcionais e documentais – da sociedade malinesa. Ouvir as palavras e voz dos mais velhos, é entender que a tradição é viva. Que parte de toda história também está em você.

Imagem: @Islandboiphotography

Na unicidade do ser, segundo a cosmovisão africana, os pensamentos repercutem por toda a extensão do corpo e reverberam em palavras, por isso “as palavras têm poder”, pois são pensamento manifesto, além disso, toda vida, em alguma dimensão  rítmica, se movimenta, e toda vibração emite som, mesmo que infra ou ultrasonoros, sendo assim “som é vida”.

As palavras são potência de vida e de morte, nos chamam à razão e nos lançam aos devaneios, curam e ferem com a mesma rapidez, nos embalam poeticamente e nos seduzem como o canto de Oxum.

A oralidade é instrumento pedagógico de perpetuação da cultura e história de África e seu legado nativo e diaspórico. Ferramenta de preservação do hálito sagrado da memória, da identidade e cultura, na busca da valorização da ancestralidade resistimos, existimos e reinventamos através do axé que vem da boca.

Vem pra roda…

Por Coletivo Abayomi

Reunir-se e realizar atividades, este formato é uma tradição muito antiga de muitas civilizações:seja para ouvir e falar, para brincar, cantar ou rezar. Tem um significado infindo dedimensões temporais, éticas e políticas que influenciam acordos sociais e comportamentais.

A circularidade é o espírito motriz, fundamento que nos convida a receber todos os saberes e fazeres bem como nos impele a compartilhá-los. É o valor que desperta o senso de pertencimento através de ações comunitárias.

O convite para sentar se reunir em roda é quase sempre irresistível. Puxe pela memória e provavelmente lembrará… de uma roda de amigos, da família em volta de uma mesa, de histórias ao redor da fogueira, de uma roda de samba, de capoeira, de cirandas. E as brincadeiras em roda? O prazer do ato de sentar em roda é um estímulo para trocar de conhecimento e fortalecimento de nossas memórias.

Imagem: Michael Aboya

Entre todos os valores civilizatórios africanos e afro-brasileiros, a circularidade merece um lugar de destaque. A sabedoria de várias sociedades africanas nos convoca a repensar para o modo de se comunicar, se relacionar e se colocar no mundo. Literalmente como nos posicionamos diante de um coletivo ou uma comunidade.

Uma tecnologia leve que cria e mantêm vínculos éticos e simbólicos, a configuração espacial sem início e nem fim nos presenteia com uma concepção metodológica social e filosófica, permite que todos se olhem e sejam olhados. Essa comunicação através do contato visual nos coloca como iguais, sem hierarquia, aponta para o movimento, a troca, a renovação, a cooperação, a coletividade; possibilita a mesma oportunidade de estar na centralidade.

Uma roda não tem espectadores, uma vez nela todos são responsáveis por manter acesa a energia que a alimenta. Quem não toca, canta; quem não canta, dança; e quem não dança… balança a criança.

A circularidade sintetiza a múltipla e rica cosmologia africana e pedagogicamente nos ensina que a vida é cíclica. Chamamos movimento cíclico porque a todo o momento mudamos nosso pensamento, humor, forma de agir e se comunicar, as pessoas expressam e passam energia por esta roda.

Imagem: Moisés Patrício

A complexa cosmologia africana, nos ajuda a compreender nosso tempo e o tempo do outro, ajudando-nos a assimilar que somos partes do mesmo todo, somos interdependentes e conectados ao ritmo da vida e da natureza, dimensões estas, cujas tradições africanas são retro-alimentadoras, por imprimir experiências envolventes, autênticas e profundas.

Quando a metodologia da circularidade ganha dimensões epistemológicas, ela torna-se uma espiral  — como o “tempo espiralar” de Leda Maria Martins —, uma roda infinita que se desloca pelo espaço-tempo conectando todos os membros da ancestralidade que a compõem. Uma mola que nos propulsiona a saltos maiores em um impulso coletivo.

A circularidade é o provérbio vivo: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo”.

Despertar ancestral: religiosidade

Por Coletivo Abayomi

Atualmente tem se tornado cada vez mais comum as pessoas se declararem adeptas de uma religiosidade e não pertencentes a uma religião. Esse espírito livre e fluído do espectro da crença condiz com os tempos contemporâneos, é uma tentativa de se manter uma conexão com as tradições e ancestralidades, sem necessariamente se comprometer com os preceitos e/ou obrigações.  Este texto não se trata de um julgamento crítico e muito menos moral das religiosidades – este cabe a cada praticamente de sua fé -, mas sim busca analisar de modo afro-orientado a eterna saga da humanidade em se reconhecer no encontro com o divino.

Fato é que, a religiosidade, muito antes deste aspecto pluralista e metafísico de hoje, foi o primeiro tratado coletivo das várias sociedades onde as figuras da “grande mãe terra” e do “pai celestial” vagam pelos mitos fundadores dos povos tradicionais como formas de explicar o mundo e as relações nele estabelecidas.

Imagem: Juh Almeida

Quando pensamos nos territórios da diáspora, mais do que simplesmente explicar o mundo, a religiosidade, se configura como forma (re)existência: reconstrói as relações de parentalidade destruídas pelo colonialismo, além dos terreiros serem território de salvaguarda de todo saber para cá trazido nos corpos e memórias dos homens e mulheres escravizados. Foi na união de tantos povos e culturas que crenças e ritos precisaram ser amalgamados para (re)existir, dando forma a um xirê que exaltasse: circularidade, ancestralidade, corporeidade, musicalidade, ludicidade, memória, cooperatividade e oralidade.

Há na cosmologia africana uma energia que coabita a todos os seres e planos: Asè. Talvez tenha sido esta a primeira ideia rizomática de “rede de conexão” – por que choram Deleuze e Berners-Lee? – e esta rede ajuda a compreender que, diferentemente da religiosidade outorgada pelo colonizador, a qual nos colocamos em constante, e culposa, busca de nos religarmos (religare) a algo divino e inalcançável, o Asè está constantemente presente, presente desde atos religiosos, até os elementos da natureza, também no respeitos aos mais velhos, por fim, em todos os rituais do cotidiano. O Asé está aqui, agora, basta estar desperto para sentí-lo.

 Ter um olhar afrocentrado para a vida nos permite experiênciá-la como ciclos onde tudo é começo-meio-começo. Assim, a cada ataque epistemológico que sofremos, eis que nasce uma nova geração com os genes dominantes deste Asè, uma necessidade indomável em reavivar os valores africanos e fazê-los brilhar à luz do seu tempo.

É por isso que a religiosidade é tão cara ao povo preto, ela é a centelha de vida que, independente da forma, nos conecta ao outro, ao o que nos habita e ao círculo da vida, não sendo possível ser vivenciada sem comprometer-se, na superfície.

Território da memória

Por Coletivo Abayomi

Sempre que pensamos em corpo as imagens que se formam prontamente nos direcionam a pensar na estética, no desempenho físico, sua fisiologia mas, ao longo do tempo, com o descortinar dos saberes e o aprofundar nas culturas não ocidentais, compreendemos que o corpo é mais, muito mais, do que algo a ser reproduzido em uma estátua de mármore BRANCO.

Imagem: Marta Azevedo

A corporeidade está para nós como algo singular, capaz de contar histórias, nossos corpos diaspóricos revivem mitos e ao revivê-los nos informam sua ética milenar. Nosso corpo PRETO, moldado no barro de Nanã e que inspira e expira a todo momento o sopro de vida de Olodumaré, nos conta todos dos dias dos caminhos que fez para chegar até aqui.

Como diz Lube Prates, temendo o peso que teria uma vida inteira para este país não nos permitiram trazer malas, mas ainda assim trouxemos a cor da nossa pele, nossos cabelos crespos, nossos muitos idiomas maternos, nossas comidas preferidas, nossos orixás, nossos antepassados e tudo isso na memória de nossa língua. Afinal, somos também um pouco daquele que tudo come e tudo devora e nos fizemos 1000 mais 1 experimentando um eterno vir a ser, pois sabemos nunca teremos fim, apenas começos e meios, e nos tornamos múltiplos.

Imagem: Juh Almeida

Corpo a corpo, nos recriamos, nos aquilombamos, cantamos, dançamos, comemos, recobramos nossas memórias ancestrais ao fazer da vida nosso teatro e fizemos deste não-lugar território de nossas memórias onde cada um é um todo e, citando Hampatè Ba, a cada perda se perde uma biblioteca inteira.

Vida e trabalho

“Um homem se humilha

Se castram seus sonhos

Seu sonho é sua vida

E a vida é trabalho

E sem o seu trabalho

Um homem não tem honra

E sem a sua honra

Se morre, se mata

Não dá pra ser feliz”

Guerreiro Menino – Gonzaguinha

De fato, tudo que nos faz refletir de maneira mais profunda está diretamente ligado a nossa vida real, nosso dia a dia. Cada acontecimento pode ser um gatilho para uma porção de ideias. Criamos um mundo na mente que, antes de ser imaginado, também é resultado da realidade, resultado de tudo que verdadeiramente existe. É da condição humana ser pensante. É o que nos difere dos demais animais, dizem.

Tenho pensado ultimamente sobre trabalho, emprego e vida; o trabalho é uma condição indissociável da vida. Se há  vida, há trabalho, sempre existiu. Já com a invenção do emprego, passamos a gastar nosso tempo de vida com tarefas a serem cumpridas, horas marcadas, alarmes, cronogramas, rotinas etc. E a vida, é pra ser vivida. 

Desde pequeno fui iniciado aos trabalhos dentro e fora de casa. Isso, sem dúvida, tem influência, hoje, na minha  disposição e aptidão à uma série de serviços. Gostar de fazer, e fazer bem feito é o resultado das cobranças dos adultos ao meu redor, naquela época, para que eu fizesse bem feita toda e qualquer atividade que me atribuíam. 

De modo geral sou grato por, desde a infância, ter tido tantas oportunidades e experiências que me fizeram ser quem sou hoje: um trabalhador nato. A vida sem movimento nunca fez sentido para mim. Mas, por outro lado, reconheço a necessidade e importância dos momentos de ócio. Respeito, sempre que posso, meus limites. Busco equilíbrio em tudo. Afinal, sempre acreditei na vida baseada em movimento e equilíbrio. Aproveitando o gancho, isso é a perfeita analogia à patinação ou ao ciclismo e tantos outros esportes que precisam dessa combinação para acontecer.

Muitos afirmam que vida e trabalho são a mesma coisa. Na verdade, acredito que viver dá um tanto de trabalho. Para viver, em nossas sociedades modernas, temos a necessidade de trabalhar num emprego, para, em troca, conseguir manter um padrão de vida confortável e com dignidade básica. Nada além do que deveria ser garantido a qualquer ser humano desde o nascimento. Aí vem ao pensamento os muitos trabalhadores com difíceis condições de trabalho, as irregularidades e desigualdades que fazem uns serem mais explorados que outros.

É bastante utópico pensar que pode existir o fim do trabalho/emprego como conhecemos. Existem indícios lógicos e evidentes de que pode acontecer uma significativa diminuição no número de vagas de emprego, principalmente devido a evolução tecnológica. Assim tem sido com a substituição gradual dos seres humanos por máquinas e inteligências artificiais. Não é de hoje que observa-se e sabe-se disso.

Mas como poderemos superar essas previsões? Trata-se de uma questão de planejamento de políticas públicas? – provavelmente. Nosso planeta é rico em recursos que, na maioria das vezes, são desperdiçados: matéria-prima e alimentos. E o planejamento não poderia ajudar a evitar desperdícios? – sem dúvida! O básico sempre será alimentação e moradia. Com isso resolvido o resto flui. Agora, o mais difícil será abolir os interesses da minoria que controla o poder e usa isso para exploração e lucro. Acredito e tenho uma forte esperança de que a humanidade caminha para a resolução de grandes questões como essas. É o que eu quero, um dos mais profundos desejos meus.

Sempre existiu desproporcionalidade entre pessoas e vagas de emprego. Os que estão fora das estatísticas do desemprego são, infelizmente, sortudos. Do contrário, seriam infelizes por não poder ter uma vida minimamente aceitável. Os tradicionalistas, mentes fechadas, podem achar uma tremenda besteira, mas a verdade é que é difícil fugir da alienação que o capitalismo sempre nos causou.

Fica fácil perceber o porquê de muitos trabalhadores permanecerem “presos” em seus empregos. É quase uma obrigação, um dever. Existe tensão e pressão para conseguir pagar os boletos e por mais injusto, ilegal, irregular, exploratório e nocivo à saúde física e mental, ter um emprego garantido, parece que sempre será a alternativa menos pior.

Sonho com uma grande mudança de valores, éticos e morais, desde as bases do sistema. Espero que possamos garantir nossas liberdades individuais, desejos, conforto, momentos de descanso, lazer, prazer e trabalhos, sem necessariamente submeter-nos ao apagamento/esquecimento do nosso verdadeiro lado animal, humano, que é o estado de desfrute da vida em contato com a natureza.

Ao passo que é no mínimo preocupante pensar sobre isso tudo, é preciso ao mesmo tempo tentar acalmar a mente e buscar aquele famoso equilíbrio através  de alternativas criativas e outras coisas que nos ajudam a suportar. Isso evitará uma crise existencial gerada por uma causa que não tem nem previsão para solução. Tipo: aceita que dói menos. Aqui, no final, deixo escapar risos.

Música da Alma

Por Coletivo Abayomi

Cantar, dançar, batucar são elementos fundantes e complementares das culturas pretas. Por isso tudo o que se movimenta – e tudo está em movimento – tem Musicalidade. Entre todos os valores africanos, este é onipresente e ininterrupto, reconhecê-lo é admitir que tudo tem seu tempo, seu ritmo e, por assim dizer, seu momento.

Cantamos choros de saudade e de dor, pelos que perdemos na travessia e pelas diversas violências infringidas aos nossos corpos, cantamos como forma de manutenção das nossas línguas, forma subliminar de comunicação e resistência, cantamos quando festejamos e quando partimos o tempo para unir Orúm e Ayê e, a cada canto, a cada ponto, iniciamos um novo encanto. 

Encantados, corpo e voz, cientes de sua inteireza e completude, presentes em todo movimento que manifesta a passagem do tempo, são, tanto compositores dessa “orquestra mundo”, quanto notas musicais deste “concerto vida”.

É nessa “jam session” que vamos aos poucos dançando, ora mais acelerados, outras “dois pra lá-dois pra cá”, às vezes ao som do nosso coração e muitas outras ao som que a banda toca, contudo, saber ouvir é fundamental! Ter um ouvido musical para a vida e reconhecer de onde vem a vibração que te impele a se movimentar é imprescindível para que o corpo esteja sempre em compasso.  Reformulado o pensamento: não ouça apenas com os ouvidos, ouça de corpo todo.

Diante disso fica o questionamento: Qual é a sua musicalidade? Você está em harmonia com o ritmo que te habita? A música da sua vida está em harmonia com o som ao seu redor?

Saber escutar é se permitir escolher o que escutar, é ter domínio sobre a musicalidade que te cerca e, sobretudo, da qual você emana.

Histórias da infância

De início não é fácil lembrar as histórias da infância, mas, com um pouco de esforço e paciência, percebo que consigo retroceder e (d)escrever os detalhes do meu passado. Boas lembranças de um tempo bom em que fui muito feliz e aproveitei bastante a vida no meio do mato, lá na comunidade chamada Barreiras Branca, zona rural do município Choró. 

Fecho os olhos com a intenção de enxergar o passado mais distante que possa ver. Lá está a imagem de quando tinha por volta de três anos: meu avô materno havia amarrado a vaca-leiteira no mourão da cerca e minha irmã e eu éramos acordados muito cedo, talvez às 5h30 da manhã, para tomar um copo generoso do leite ordenhado naquele mesmo instante. Hoje eu não teria essa disposição; e talvez nem tivesse naquele tempo, isso porquê era uma imposição e não uma opção.

Lembro que quando fomos morar no sertão, depois da separação dos meus pais, meu pai tratou de resolver a moradia. Construiu, ele mesmo, com a ajuda de alguns parentes, uma casinha de taipa de dois cômodos. Consigo ver o relevo que as mãos deixaram na parede rebocada de barro molhado. Perto de casa, de onde foi retirado o barro, formou-se o barreiro, onde, por alguns anos, nos meses chuvosos, nos divertíamos em banhos e brincadeiras. De lá também era retirada a água para resolver os afazeres domésticos. Éramos proibidos de banhar no barreiro antes de ter separado a água para o banho e/ou para lavagem de roupa. O motivo é que a água quando calma ficava assentada, limpa para os usos, e, com os banhos, com a agitação, ficava baldeada e suja. 

Crianças criadas na roça fazem sempre alguns trabalhos para ajudar, mesmo que mínima e proporcionalmente. Comigo não foi diferente. Os adultos tinham suas funções de grande responsabilidade e para nós sobravam tarefas pequenas e simples que me davam, na maioria das vezes, a sensação de prazer em fazer. Naturalmente os pequenos tendem a imitar os adultos ao seu redor. Assim, quando miúdo, debulhava e engarrafava grãos de milho e feijão para guardar, tirava a semente do algodão, tangia os bichos para beber água no açude ou no rio, pisava o milho com pedra polida para transformar em xerém, para alimentar os pintinhos, colhia lenha para o fogão, entre outros pequenos serviços possíveis para o meu porte de menino.

Quando muito jovem, tinha encantamento e felicidade nisso tudo. E, com o passar dos anos, as atividades deixaram de ser tão prazerosas e se tornaram obrigações. Via o tempo do trabalho como desperdiçado, pois me tirava a possibilidade de brincar mais. Por outro lado, sempre tive apoio, incentivo e estímulo para os estudos. Tinha trabalho, mas também tinha brincadeira e aprendizado em tudo. Ter contato com as mais diversas experiências que uma vida pode proporcionar, desde o início, é um caminho incrível na formação de qualquer ser humano.
Considero uma enorme riqueza ter experienciado essas formas de crescer e de estar em contato com o mundo real, de ter responsabilidades dadas, entregues e assumidas e a noção da importância de lutar por meus direitos. O grande poeta Manoel de Barros dizia: “Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.” Interpreto serem os detalhes da vida que fazem a própria vida ter sentido. Há sabedoria em tudo, basta estar atento e ser observador de tudo que acontece ao nosso redor.

A vida em Quixadá

Lugar dos sonhos de muitos aventureiros, como eu. Para quem estuda a nossa geografia, nossa geologia, nosso planeta, para os que voam livre, para os que buscam as altitudes e belas vistas para onde as trilhas levam, para escaladores sedentos por adrenalina, ciclistas amadores e profissionais e até patinadores, como eu, descobri que habitam por aqui.  Quixadá é o #lugar. Essa pequena grande cidade, localizada no meio do nosso Ceará, é atualmente meu lar e tem sido maravilhoso estar aqui.  

Se por um lado as cidades transmitem um certo pesar devido ao fato de serem, em sua concepção, um lugar onde se evidenciam as desigualdades, por outro, elas são lugares de diversidade e de possibilidades. Curtir a cidade como se ela fosse um grande parque de diversões é um sentimento indescritível. Só quem o faz sabe do que estou falando. Muitas cidades têm potencial para ser um parque ao ar livre, oferecendo aos indivíduos que nelas vivem opções para a prática de uma variedade de esportes e outras atividades de lazer.

Desde muito miúdo tenho parentes e amigos no município e, na infância, vivi algumas temporadas/semestres por aqui. Se para um “eu criança” tudo o que a vista conseguia alcançar neste #lugar já era fantástico, hoje, com vinte e sete anos, nada mudou aos meus olhos. Continuo encantado, sempre me deleitando com as belas paisagens naturais de Quixadá.  

Há cerca de seis meses cheguei aqui com a intenção de ficar uma temporada indefinida. Sempre me agradou a ideia de viver num lugar que me possibitasse a conexão com a natureza, que considero como uma das formas de conexão com o divino. A natureza como uma parte de tudo que existe é, sem dúvida, um dos maiores exemplos de que a vida não se resume à humanidade que habita o planeta Terra. Algo imensurável e inexplicável rege nossa existência. 

De volta à vida prática, durante a semana tenho produzido pães e, recentemente, me lancei como instrutor de patinação, fazendo jus ao ser multipotencial que sou, expandindo assim minhas possibilidades, meus fazeres. Além disso, trilhas a pé e treinos/passeios de bicicleta preenchem de muita contemplação os meus dias. E o que sem dúvidas não pode faltar na minha semana é a patinação. Patinar é uma das atividades que mais me renova o espírito. Uma dose essencial de vida para o meu corpo e mente. 

Além de tudo, Quixadá tem se mostrado como o melhor cenário até hoje para o meu negócio, o @PãodoJean. Sou grato por trabalhar com o que amo fazer. Grato por conquistar uma clientela que se mantém fiel, em constante expansão. Para além de ganhar meu sustento, quero mesmo é impactar a sociedade de forma positiva e nada mais digno do que a intenção de promover saúde através do alimento que produzo.  

Um pequeno negócio com aspirações grandiosas. Além dos pães integrais, os recheados e os de côco, tenho estudado outras duas receitas para disponibilizar no menu: já lançada e fazendo sucesso com a clientela, tenho feito uma deliciosa torta de banana chamada  banoffe, que consiste em uma base de biscoito crocante seguida de três camadas que formam a perfeita combinação entre sabores e texturas: (1) doce de leite caseiro, (2) bananas maduras e (3) chantily, também caseiro, feito do puro creme de leite fresco. Ainda não lançada oficialmente, outra receita que promete fazer sucesso no meu cardápio é o  pão de mel  com as especiarias cravo, canela e noz moscada que dão um sabor especial e super marcante; além de ser recheado com doce de leite e coberto com chocolate.  

Estar na cidade e, ao mesmo tempo, estar no interior, no sertão, que sempre foi meu lugar de origem, é uma sensação de estar verdadeiramente em casa. Não havia pensado que, ao longo de todos esses anos em que vivo, seria tão cativado por um lugar como estou sendo por Quixadá. Aqui tenho amigos e família muito próximos. E apesar de ter amigos-família em tantos cantos do mundo, sinto que estou conectado com estes de forma permanente, pois o que nos mantém unidos é muito forte e nada pode alterar essa lei.   

Sou profundamente grato por ser quem sou e por ter sempre tantas pessoas maravilhosas ao meu redor, em meus círculos, além de tantas coisas boas, verdadeiras bênçãos, me acontecendo. Apesar de serem tempos de lutos e de lutas mais severas que nunca na nossa história recente, anseio fortemente, depois que tudo isso se der por resolvido, pelos nossos [re]encontros, pelos nossos próximos abraços, pelos olhares nos olhos que fazem brilhar as vistas, pelas palavras fraternas que nos fazem querer viver para viver o amor.   

Deixo aqui um video mostrando um pouco disso tudo.

A vida em Quixadá

Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas

Por Coletivo Abayomi

Assentados em um pensamento Zulu, uma das 11 línguas oficiais da África do Sul, Umuntu ngumuntu ngabantu, que significa: uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas, começamos a desenhar a vocês um pouco das cosmologias africanas que estampam em um de seus fundamentos a cooperatividade e o comunitarismo.

As estruturas sociais africanas, em sua maioria, têm nestes dois valores civilizatórios uma filosofia moral, ética e política. Diferente de nosso olhar eurocidental que tudo fragmenta e separa, a solidariedade, empatia e o respeito estão diretamente vinculados com a prática na comunidade. Para além do discurso e do aspecto religioso, este conceito pontua a necessidade da interdependência como ética cotidiana, e está ligado à ancestralidade.

 Há um princípio do povo Akan, que é um grupo étnico entre Gana e Costa do Marfim: “Onipa firi soro besi a, obesi onipa kurom”, algo como, “quando uma pessoa desce do céu, ele/ela desce em uma sociedade humana”. A vida em sociedade é uma necessidade da natureza humana, somos seres sociáveis e interdependentes para além da lógica material, abrangendo as formas espiritual e psicológica. Os pertencentes à comunidade possuem elos intelectuais, ideológicos e emocionais, compartilhando objetivos e valores, por isso o indivíduo pode satisfazer suas necessidades individuais vivendo em sociedade, porém precisamos de suporte, e é a comunidade quem o pode nos dar.

Imagem: @poe_cole

Assim, a comunidade não é vivenciada como uma banal associação de pessoas cujos interesses são afins, mas um grupo de pessoas que entendem o significado de interdependência, que dão ênfase à valores comuns e ao bem coletivo, comprometidas em viver em harmonia e cooperação com os outros. Pessoas conectadas por laços interpessoais, biológicos e /ou não-biológicos, com senso e sentido de responsabilidade pelo outro, enfatizam a ajuda mútua, a troca e compartilham partes no destino do outro. 

Imagem: @poe_cole

Nossa primeira experiência em comunidade é a família. É neste espaço-tempo que são pautadas as subjetividades, as emoções, desejos e interesses, revelando–se individuais e/ou coletivos. Há então uma negociação entre o âmbito público e privado, uma relação opositora e complementar, que considera sua capacidade individual de trabalho aliado à sensibilidade das necessidades do grupo, por tanto pensamos em toda a comunidade como uma extensão da família.

O pensamento ocidental nos condicionou a, paulatinamente, compreender a cooperatividade e o comunitarismo com a diminuição da autonomia e capacidade de escolher, valorizando a prevalência da cultura do self, individualista, e de uma sociedade de consumo que opera em lógica oposta aos valores, projetos, práticas comunitárias desenvolvidas pelo pensamento africano. 

Imagem: @poe_cole

Segundo a concepção dos bantu-kongo, dos povos da região de Angola- Congo todo ser humano é um sol vivo. Que cabe à comunidade gestar e gerir essa luz para que, assim como o astro que tem sua trajetória, o Muntu – o indivíduo – nasça como o sol faz, para ser e tornar-se com capacidade de acender outros. Deste modo, pleiteia a tomada de consciência de suas potências, reconhecendo-se como parte de uma constelação solar. Uma metáfora mais aconselhável, e possível, do que correr para rodar seus próprios pratos. 

Buscar novos caminhos, mirando outra compreensão social da palavra comunidade não é tarefa fácil, não possui receita, nem garantia de sucesso pleno, porém, sulear, é preciso e nos traz a palavra “UBUNTU” em toda sua potência: “EU SOU PORQUE NÓS SOMOS”.