#2 Refletindo a realidade

Por Jean Jackson

Imaginamos coisas que, se escrevêssemos, dariam páginas. E eu penso: como conseguir manter a mente positiva mesmo vivendo um absurdo atrás do outro? São muitas histórias que nos atravessam pesarosamente. Porquê tem que ser assim? Pode haver significado, propósito ou razão? São questionamentos sociais e filosóficos de respostas complexas. São questões profundas demais para tentar solucionar individualmente. Mas o que fazer para sobreviver, continuar vivo, não perder a vontade de estar vivo?

O que é real para cada um é antes de tudo a percepção pessoal e individual de realidade. É o que conseguimos capturar pelos nossos sentidos. Podemos sentir pelo outro, porém não passará disso: nosso sentimento sempre em relação ao outro, mas nunca igual, nunca o mesmo. Salvo quando se está vivendo junto a mesma realidade. É por isso que é difícil colocar-se no lugar do próximo. Quem sente na pele é quem sabe o quanto dói. 

É triste perceber que na maioria das sociedades naturalizou-se a separação de indivíduos da mesma espécie por gêneros, etnias, classes e crenças. É o humano sem humanidade. É a ausência de interesse em lembrar e cuidar dos esquecidos. Vidas dadas como irrelevantes. Pessoas que sempre sofreram, ainda sofrem e sofrerão com a falta de dignidade e de qualidade de viver.

No fim, de um jeito ou de outro, como todo animal, superamos os pesares do viver, sejam eles naturais ou causados pelo próprio ser humano. Aperta o peito e entala a garganta estar ciente da responsabilidade de uma parte dos seres humanos pela manutenção das desigualdades e destruição do planeta. Nossa própria destruição como parte desse imensurável universo, enquanto unidade. 

É necessário se agarrar nas artes, na natureza, nos esportes, nos amigos, na família, nos amores e nas paixões para ajudar a conseguir seguir. É fundamental não se deixar pensar demais nisso tudo sem agir com autocuidado. Cuidar-se é um ato de resistência. Cuidar do próximo é um ato de amor.

XIRÊ é grande e a gira não para… Nossos passos vêm de longe.

Por Coletivo Abayomi

Pensar em 2020 é pensar num ano onde tudo foi – e ainda está – muito atípico, ano de tensões e crises do macro ao micro nas várias áreas, nos vimos confinados em nossas casas tendo de reaprender a fazer tudo, reorganizar o tempo de fazer as coisas. Nunca estivemos tão virtualmente conectados quanto estamos agora, enquanto assistimos à vida se tornar ainda mais permeada pelas funções digitais do fazer e conviver. Embora essa virtualização do cotidiano pareça ser “o novo normal”, 2020 também nos apresentou um grande desafio: é preciso reumanizar a vida, visto que emergi então o que nunca foi sutil ou oculto, o racismo e as desigualdades

Transbordam diante dos olhos negacionistas o sistema colonial com “up” do século XXI; camaleônico, o racismo (estrutural e institucional) cotidianamente não tira o pé de nossas gargantas, porém mal sabem eles que nossos corpos não são de luto e sim o primeiro território de lutas, que somos imbuídos de valores e práticas que compreendem a conduta social e política, vivências que perpassam nosso modo de ser, fazer e interagir com o outro e com a natureza. 

Dessa forma, enquanto pessoas pretas, reumanizar a vida parece meio redundante, afinal, lutamos pela humanização e desobjetificação dos nossos corpos “carne mais barata do mercado” há alguns séculos, mas no caso do Coletivo Abayomi, foi neste ano, em meio a esta pandemia, que coletivamente encontramos um sul epistêmico para nos conduzir artística, ética e politicamente nesta ação proprioceptiva de reumanização da vida, a africanização do olhar.

C:\Users\Izabel\AppData\Local\Temp\Rar$DIa0.410\2.png

Nosso movimento é ancestral, demarca e estabelece espaços criativos que expressam como somos e sentimos o mundo. Pensar a circularidade da vida, onde tudo é começo-meio-começo, nos ajuda a mensurar que cada etapa dela, cada encontro, felicidade e infortúnio, faz parte de um ciclo eterno de aprendizagem, onde o caminho percorrido é mais importante que o objetivo final. Donos de uma musicalidade que lhe é própria, esses saberes cantam, dançam, são contados, recontados, vividos e teatralizados na luta pelo legado do encantamento inerente à gramática corporal mantenedora da energia vital. Com a estratégia de nos ensinar fazendo, percebemos de maneira lúdica que a vida é cíclica. 

A África é o berço da humanidade e neste espaço/tempo nasceram diversas civilizações, que por sua vez, desenvolveram variadas tecnologias, valores civilizatórios, modos de estar no mundo, que, apesar do imenso esforço para seu apagamento, resistiram ao tempo e aqui, nos vários territórios da diáspora, se reinventaram e ressignificaram. Somos descendentes dos pioneiros, comprometidos da pele ao coração com a força vital que nada deixa estático.

Algumas das cosmologias africanas apontam a circularidade como uma metodologia social e filosófica que potencializa  as trocas, a sensibilidade, o entendimento do individual/coletivo e a expansão. Nossa produção intelectual e artística é correlacionada com nossa ética e estética. Sabemos muito antes dos registros em livros que a arte é um instrumento potente, entendemos seu poder dinamizador na preservação da memória de um povo, na (re)construção de si, no despertar crítico de consciência, no questionamento dos padrões e narrativas que ainda não nos contemplam, na emancipação do povo preto e enquanto dispositivo de luta anti genocídio e antirracismo da população negra. 

C:\Users\Izabel\AppData\Local\Temp\Rar$DIa0.765\1.png

São por estes motivos que apesar de todas as adversidades deste ano, nos aquilombamos em um terreiro digital, fizemos de nossa arte plataforma para corporificar, expandir e compartilhar os saberes, memórias, vozes, vidas e signos africanos e afrodiaspóricos,  não apenas em números e estatísticas de engajamento nas redes sociais, mas projetando e viabilizando encontros precisos – e preciosos – através da afrocentricidade. 

Desejamos construir um futuro honroso, digno e pleno aos nossos que virão. É nessa gira que os saberes ancestrais se corporificam para (orí)entar nossas vidas, fundimos o presente,  o passado e o futuro para cessar aquele (dis)sabor de sermos invisibilizados e apagados da história e para tal é preciso tecer os fios partidos ou soltos da nossa identidade a partir da nossa própria óptica. 

Pedimos a benção à nossa ancestralidade para fazer a gira continuar a girar…

Axé!

Agô! Afro-saudações!

Por Coletivo Abayomi

Agô! Porque é importante, antes de iniciar uma fala, saudar e pedir licença aos nossos mais velhos, à toda ancestralidade que nos cerca.

O Coletivo Abayomi – Terreiro Afro Futurista é sobre tantos desejos e tantos atravessamentos que fica difícil colocar todos em palavras. Falar sobre nós é falar sobre os caminhos, as encruzas da vida, que nos levaram a um mesmo lugar: QUEREMOS FALAR SOBRE A GENTE PARA A NOSSA GENTE.

Ao longo dos últimos séculos nossos saberes e fazeres foram, propositalmente, considerados menores, embora muitas das tecnologias atuais só existam em função de sua relação com nossos saberes ancestrais. Ogum criou a forja e passou a manusear o Ferro.

Apesar da violência e prática da morte física e simbólica, que hoje chamamos de epistemicídios, exercida sobre os corpos nos nossos ancestrais e que se estende até os dias atuais, há tecnologias e saberes que seriam impossíveis de se apagar: somos esplêndidos contadores de histórias. A teatralidade e performatividade é nosso saber mais ancestral, tecnologia leve, difícil de ser contida.

Escrevemos e inscrevemos nossos saberes no tempo e no espaço, comunicamos com nossos corpos, contamos enquanto cantamos, lutamos ao mesmo tempo em que dançamos, aprendemos na experiência do viver. De ilê em ilê, cabeça por cabeça, nos reinventamos e criamos novos mundos possíveis.

Dentre muitos nãos e uma infindável lista do que esteticamente “não somos”:

– Procura-se ator/atriz negro(a), bonito(a), estiloso(a), experiente, cara de jovem, que não tenha vínculos contratuais, que saiba dançar, cantar, corpo de passista de carnaval, sorriso de propagada de creme dental, cara de bem sucedido, não pode ter tatuagem ou marcas, sotaque neutro e bom de texto… enviar material e links para o e-mail agencia@descontruidona.com.br com o assunto “Figurante Negro na Torcida do Fla-Flu”. 

E do que acham que “não merecemos”:

– Cachê: Portfólio e lanche.

Dissemos chega! Cansados de servir de massa de manobra para uma produção “pagar de desconstruidona” e “antirracista”, cumprindo suas cotas de representatividade com uma aparição desfocada e no último plano possível, ou então cedendo nosso rosto para uma máscara branca, da qual o discurso que sai não comunica aos nossos iguais.

 O mais engraçado – pra não dizer bizarro ou cretino – é que há pouco menos de uma década éramos seres ainda mais invisíveis nos bancos e currículos universitários, encontrar outrx pretx em uma universidade, principalmente de arte, era tão raro quanto encontrar uma agulha no palheiro, enquanto encontrar umx pretx na referência bibliográfica da ementa era como a vida fora da Terra: a gente até sabe que existe, mas ver que é bom…

É um vazio, um não-lugar pelo qual erramos, é ser um refugiado dentro do próprio lar, mas justamente quando o NADA se instala é que a única alternativa é CRIAR.  Assim nascemos!

A pandemia foi o impulsionador deste encontro Elo virtual. O projeto tem sementes em vivências individuais, mas foi nas encruzas cibernéticas que se transformou em precioso e potente encontro.

Somos o Coletivo Abayomi – Terreiro Afrofuturista. Amigxs, Artistas, Pesquisadorxs, Educadorxs, PRETXS e PRETXS, dedicados ao estudo da afrocentricidade. Comprometidxs com o estudo das teatralidades negras e com o resgate epistêmico negro, num constante exercício de africanizar o olhar e (re)humanizar a vida.

Nessa nova configuração geramos e gestamos nossas inscrições afro artísticas neste outro espaço-tempo.  Na encruzilhada que é a aprendizagem nos colocamos dispostos à troca de saberes e apresentamos nossas narrativas onde nossos corpos e vozes são protagonistas.

Laroyê!!!

O Coletivo Abayomi – Abayomi que em Yobubá significa encontro precioso – é o terreiro onde nossos desejos são postos em ação e transformados em arte, afrofuturista, rumo ao afro-distópico, na construção de uma nova narrativa onde nossos corpos e vozes são protagonistas.

C:\Users\Eliane\AppData\Local\Temp\Rar$DI60.809\2.png

Eliane Rocha 

Mestra em Performances Culturais pela UFG, graduada e m Direção Teatral pela UFOP. Integrante do Coletivo Abayomi – Terreiro Afrofuturista. Mulher negra, dedica-se à pesquisa e desenvolvimento de epistemologias afro-orientadas.

C:\Users\Eliane\AppData\Local\Temp\Rar$DI67.716\1.png

Breno Villas Boas 

Ator e Arte-educador formado pela UFOP e Tecnólogo em Marketing pela FMU. Integrante do Coletivo Abayomi  – Terreiro Afrofuturista. Ávido por artes e performances afrocentradas e iniciante na afroepistemologia.

C:\Users\Eliane\AppData\Local\Temp\Rar$DI49.832\3.png Thayany Muniz 

Mulher Preta periférica. Atriz e Produtora Cultural. Graduada em Artes Cênicas pela UFOP. Pós-graduada em Relação Étnico Raciais. Integrante do Coletivo Abayomi -Terreiro Afrofuturista, dedica-se arte e cultura negra tendo como base os valores civilizatório afro brasileiro.

Alimentação e autoconhecimento

Manuela Ramos

“Doutora, ainda bem que apareceu a senhora, porque eu tenho dez (10) dietas lá em casa, e nenhuma presta. As nutricionistas são horríveis”.

Nós poderíamos iniciar essa conversa falando sobre diversas vertentes ligadas à nutrição. No entanto, vim aqui convidá-los a fazer um breve passeio sobre o mundo que eu percorri como profissional, nesses temas, e sua aplicabilidade na vida das pessoas. Peço a você que, junto comigo, possamos pensar em propostas sobre uma nutrição aplicada à sua realidade. Como eu, realmente, posso te ajudar?

Quando iniciei a faculdade de nutrição, em 1992, ficava encantada com a possibilidade de entender como funciona nosso organismo. Pensava em como o alimento iria constituir o nosso corpo. Vi muita bioquímica, fisiologia, fisiopatologia. Algumas aulas relacionadas à saúde pública. Uma disciplina de psicologia. Confesso que, naquele momento, as pessoas iam se transformando em um conjunto de reações químicas, e eu, cada vez mais querendo entender aquele mundo. Fiz iniciação científica em bioquímica, segui o fluxo, indo parar no mestrado/doutorado em Fisiologia Humana, na USP. Fui para estudar suplementação e câncer.

Cada vez mais, eu estudava muita bioquímica. Sabia muito de nutrição, do funcionamento do organismo, de fisiologia e a dita bioquímica. E Isso tudo é, sim, muito importante, mas, para mim havia um longo caminho até os indivíduos, eu queria chegar mais perto. 

Dei muitas aulas de Fisiologia Humana em universidades, até que, em 2005, em Fortaleza, recebi o convite da Professora e psicóloga Ângela Andrade, para estruturar e criar o projeto de extensão PRONUTRA, Programa de Nutrição aos Transtornos Alimentares e obesidade, da Unifor – Universidade de Fortaleza. E foi lá que comecei a deixar os ratos, sapos e células de lado, e comecei a ouvir pessoas. Desde então, quando comecei a ouvir aquelas falas, nunca mais consegui deixar de ouvi-las. Entendi que existe muita coisa para além da comida ou do peso, da Fisiologia ou Bioquímica, ou até mesmo da própria nutrição. Percebi, dentro do contexto da nutrição, que o ato alimentar é um ato relacional, que há um elo entre os alimentos e os sentimentos.

Também trabalhei no IPREDE, onde acompanhei a mudança de um Instituto de Prevenção à Desnutrição, ao Instituto de Desenvolvimento Humano. Trabalhei com desnutrição e, na época, com crianças obesas e suas famílias. Tive a oportunidade de estudar, na instituição, sobre desenvolvimento humano e outros projetos relacionados. Fui conhecer muitas moradias dessas famílias, que são completamente carentes. E as falas que eu ouvia, só iam se multiplicando, e ficando mais complexas. Agora teríamos que auxiliar as pessoas no desenvolvimento de competências relacionadas à mudança de hábitos alimentares, assim como no Pronutra, mas aqui tudo ficou bem mais complexo: autoconhecimento, auto-estima, autoconfiança, visão confiante de futuro(?), sentido de vida(?), plenitude(?), reconhecimento do outro, convívio com a diferença, comunicação, interação, resolução de problemas, leitura e escrita (?). As pessoas não entendem o que você está falando. Aprender a aprender? Sim! São também objetivos!

Com uma equipe interdisciplinar, com uma nutrição focada na escuta, na empatia; com ações assistencialistas? Também! Fui parar em um doutorado em Psicologia – Desenvolvimento humano, na UNB. Por incrível que pareça, era muita matemática, mas isso é outra história.

Assim, para além da academia e com minha experiência de vida, segui percebendo corpos psíquicos, sociais, físicos, mentais, emocionais e espirituais. Seres que, muitas vezes, manifestavam seus limites de suportabilidade, por meio de sintomas alimentares, alguns utilizando canais de expressão oral e corporal, como uma maneira de manifestar conflitos e dificuldades emocionais. Por meio de aspectos como oralidade, voracidade, impulsividade, compulsividade, transgressão, agressividade, passividade, dentre outros, podia-se tentar compreender as relações que o corpo estabelecia com o mundo exterior. Sem delimitações de inclusão, exclusão e sem uma identificação do que é meu e o que é do outro, a realidade e seus próprios afetos, assim como as relações com os alimentos, tornam-se complexas e angustiantes.

     O profissional, mesmo com todo esse conhecimento, se vê amarrado diante da complexidade do que o outro trás.

“Nos primeiros dias, foi mais difícil. Final da primeira semana, eu estava confusa. No final de semana, foi mais difícil. Comi docinhos num churrasco, só 3, foi um avanço, mas com muito sofrimento. Me senti feliz ao levar a lancheira com temperos para o trabalho, mas desconto minhas raivas na comida. Gosto de comer. Associo a comida a todos os sentimentos, felicidade, impaciência.”

Daí trazermos, também, essa responsabilidade para você. E a consciência de que caminharemos juntos, pensando na sua realidade, na sua vida, em toda sua amplitude.

Fisiologicamente, se pensarmos que impulsos irresistíveis podem tornar-se compulsivos, vindos de pensamentos que não conseguem ser habilmente afastados da mente; que obsessões, em condições patológicas, perturbam a vida, tornando-se estímulos constantes; que nossos comportamentos tornam-se automáticos pelas repetições, e que esses, tornar-se-ão, muitas vezes, nossos hábitos diários, como o de escovar os dentes. Se pensarmos que nosso cérebro regula o comportamento motivado classificando nossas ações em boas ou ruins, e, fazendo, assim, milhões de associações, muitas vezes não por alterações estruturais, mas por excesso de ativação, podemos concluir que esses estímulos constantes, compulsivos, repetitivos, relacionados à comida, poderão virar um hábito. Ou seja, para reverter a formação de um hábito, teremos que começar pela sua auto observação.  

Você acredita na existência de um caminho de autoconhecimento, quando falamos de alimentação? Quais suas relações de afeto, emoções, desejos, fantasias, quando falamos de alimentação? 

Voltamos a tal escuta que falei anteriormente, mas que, agora, está relacionada ao seu corpo. Você terá que ouvir o seu corpo em todos os seus contextos, para chegar ao tão sonhado e tirano peso ideal, ou qualquer que seja seu objetivo relacionado à nutrição.

Aí retornamos para aquele profissional Nutricionista, o mesmo a quem demos o poder de modificação de nossos hábitos. E chegamos lá entendendo que tudo parte de nós, de como nos vemos, nos observamos, nos escutamos. De como a relação entre comida e corpo perpassa pelo auto-cuidado, pela conexão consigo mesmo. Preciso da sua ajuda para entender a sua verdadeira motivação, assim, as dietas não serão mais acumuladas. Você saberá diferenciar fome física, de fome emocional. Você se libertará da tirania das dietas, comerá intuitivamente, com atenção plena, se reinventará. E o profissional fará uma verdadeira Terapia Nutricional, tendo como objetivo a criação de um conceito positivo para com o alimento, mobilizando o melhor de nós, para lidar com nossas escolhas. Será um sucesso!

 “A experiência de comer devagar foi ótima, me senti saciada e só comi a metade do chocolate, estou feliz!”

Cliente após uma vivência sobre comportamento alimentar.

Manuela Ramos é nutricionista, doutora em Fisiologia Humana pela USP e doutoranda em Psicologia – Desenvolvimento Humano pela UNB.

Não está exercendo no momento nenhuma dessas atividades.

Teatro e resistência em tempos de pandemia

Karlos Aires

Que o teatro é uma das artes que mais enfrenta dificuldade para resistir, isso a gente já sabe. Quem não lembra do Teatro Jornal de Boal onde os grupos sofriam repressão e precisavam mudar diariamente os roteiros para continuarem em atividade? Hoje, a pandemia causada pelo novo coronavírus mostrou-se como mais um obstáculo e como sempre a arte se reinventa para continuar sobrevivendo.

Hoje, quero partir para uma reflexão mais racional sobre este assunto. Por isso, trago a fala de alguns profissionais do teatro para dialogar conosco sobre suas experiências. Como o diretor da companhia municipal de teatro de São Gonçalo do Amarante (CE), Ivan Lourinho. Para ele, que também integra como ator o Grupo Mirante de teatro Unifor, há inúmeros benefícios nos novos formatos que encontrou para resistir.

“A primeira questão é a vontade de não parar. A partir do momento que você deseja continuar produzindo, seja dirigindo, seja atuando, a gente teve que buscar caminhos para poder conseguir continuar trabalhando e não parar. Isso tanto como diretor e como ator”, conta Lourinho que iniciou com o grupo do município cearense um novo espetáculo para o final de 2020 e o processo de montagem tem sido inteiramente online.

“Comecei com exercícios de vídeos individuais e a gente foi evoluindo esses exercícios. Passamos a fazer em dupla e depois em grupos. Gravamos alguns vídeos para poder nos vermos e eu também gravava nossos encontros com algumas interpretações. Hoje temos ensaio direto, tudo à distância. Eu converso com os atores individualmente, a gente chega em um consenso do que é o personagem como ele se desenvolve na trama”, pontua.

Ivan Lourinho é diretor da companhia municipal de teatro de São Gonçalo do Amarante (CE) e ator o Grupo Mirante de teatro Unifor.

Já para João Paulo Lima, artista, pesquisador, educador, coreógrafo e diretor, há muitos pontos positivos e estes cobrem as dificuldades. “Eu acho que há muitos pontos positivos, mas temo a precariedade das obras. A gente vai receber esse feedback daqui há um tempo, depois que essa necessidade de estar todo tempo compondo dessa maneira passar, disse o ativista das causas dos artistas PCDs.

“Eu tenho muito receio de como a gente pode ser capturado pelo poder público e privado. Mais uma vez o artista ser vítima de ser diminuído nos valores, até mesmo dos trabalhos, por utilizarem essa desculpa de que se faz uma obra com celular na mão. E não é verdade. Eu acho que a gente tem que ter muito cuidado a partir de agora sobre como vamos desenvolver isso como trabalho, como política, como sustento. Apesar disso, eu acho super interessante, acho que tem mais a acrescentar do que precarizar o trabalho”, colocou.

João Paulo Lima: artista, pesquisador, educador, coreógrafo e diretor. Ativista das causas dos artistas PCDs.

E partindo da visão técnica, o cenógrafo Klebson Alberto compartilhou que o momento não tem sido nada favorável, mas que organizou o Fórum das Áreas Técnicas em Espetáculos Artísticos e Culturais do Ceará que reúne iluminadores, sonoplastas, produtores, figurinistas e também os cenógrafos. Ele explica que este grupo já passa normalmente por um processo de invisibilização por estar nos bastidores e que a pandemia acentuou isso.

“Uma das ações que conseguimos fazer foi junto ao Porto Dragão compor uma equipe técnica para auxiliar os processos que vão  ser gravados dentro do equipamento neste período de retomada. Até então eu estava parado e não tinha trabalho de cenografia para mim, até porque as pessoas estão tentando produzir tudo com o material que tem dentro de casa.  Tem sido um momento de captação via editais e de cobrar que esses editais contemplem os técnicos. Fui contemplado no edital “Dentro de Casa” com uma vídeo-aula falando sobre Introdução à Cenografia. Está é uma articulação mediante a inclusão nas políticas públicas culturais para sanar esse processo de invisibilização”, finalizou.

Klebson Alberto é cenógrafo e designer.

Karlos Aires é jornalista e ator. Pesquisa música e artes cênicas. Escreve aos domingos para o Blog Lugar ArteVistas.

O palhaço

O Palhaço…
Nem sei direito como começar a escrever… Tampouco que caminho seguir no decorrer do texto, pois há muito para falar sobre enquadramentos, planos de detalhes, a maquiagem discreta, com a expressão perfeita. E o roteiro? E a força de dois tão maravilhosos atores em cena? E tem a direção de Selton Mello e tem o próprio Selton que foi minha primeira paixão quando fazia Tropicaliente. (Hihihihi) Deixo tudo isso claro, para o caso do texto ficar bagunçado.

Quando ouvi falar do filme, já quis ver, mas tudo foi ficando bem enrolado, até que finalmente consegui e chorei. E não foi feito gente, porque gente chora normal, eu chorava desesperadamente. Chorava por lembrar dos circos de cidadezinha que tive a honra de assistir e visitar, porque lembrei da infância, senti cheiros que nem acreditava ainda guardar na memória. Ai ! E porque vi o palhaço, o ser que sempre me assustou por sua bipolaridade. Como podia aquela pessoa ser tão triste e nos fazer rir tanto? Chorei porque vi atores maturos, atuando linda e simplesmente. Não havia grandes efeitos, nem grandes nada. Tudo quase pequeno de tão grande.

O que vem se tornado uma característica de Selton Mello, que a cada nova produção se mostra mais apaixonado pelo cinema e em O Palhaço, talvez, ele tente demonstrar um pouco de onde vem também toda essa paixão. Do circo, do oral, do pulsante, poético, do de verdade.

Em tempos de “Amanhecer” (Saga Crepúsculo); Avatar e X-men, assistir O Palhaço é um bálsamo, um recanto de encontro com a alma. E aquele palhaço de alguma forma nos parece todos nós, esmagados por uma tristeza de não sermos o que sabemos.

É no picadeiro que a alegria se revela e sua tristeza ajuda na graça de nos fazer sorrir. São histórias das cidadezinhas, com seus prefeitos, pessoas e histórias. De alguma forma somos apresentados a todos da trupe e compartilhamos de suas relações. Puro Sangue (Paulo José) e Pangaré (Selton Mello) são pai e filho e são uma dupla e amam o mesmo oficio e é a descoberta desse amor que os separa e une.

O Palhaço então trata um pouco da tristeza dolorida de ter que deixar uma vida para trás e ir em direção a uma nova. Como se lembrasse que, se tudo está ruim, é porque ainda não terminou e lá no final tudo vai dar certo. O sorriso de criança, a mesma que espiava por baixo das arquibancadas, pode até se esvair ao perceber que o mundo fora do picadeiro não é tão alegre, nem seus problemas podem se resolver como um passe de mágica, mas, ainda assim, tudo é carregado ao final feliz por essa esperança que é real aos que vivem da arte.

E é essa magia da arte que faz com que Paulo José, mesmo doente há vários anos, saia dessa realidade frágil e viva esse personagem profundo e sensível, que serve de âncora para o filho ao mesmo tempo em que parece se esconder em um canto de trás das cortinas do picadeiro antes de entrar, como se demonstrasse o quanto talvez seja mesmo difícil encontrar graça onde você é o responsável pelos risos.

A piadas contadas dignamente por Zé bonitinho despertam o riso de Beijamin e servem de catarse para o personagem “se redescobrir”. A trilha sonora é algo delicioso. As imagens, planos, tonalidades.O ventilador, a certidão, a ingenuidade e o amor.

Todas essas nuances sobram para o Selton Mello diretor, que não perde nenhum desses olhares, gestos e emoções, tudo está estampado em seu filme. É definitivamente um filme vivo, de emoções e desafios fortes e fundamentais. Uma das grandes relembranças que vivi. Sou grata ao terminar.

E penso que todo mundo, por qualquer razão, ou mesmo sem ela merece assistir O Palhaço.

A criança para sempre impura

Uma mão fria apertou-lhe a garganta, e não a deixou respirar a vida.

A outra, ainda mais gélida, fez-lhe doer as entranhas.

A flor silenciada desfez-se em sangue.

Isto foi dos 06 aos 10 anos.

Me lembro que nasci com uma vagina, e que fui criada pelos meus avós maternos, e que eles tiveram 11 filhos, 04 mulheres e 07 homens. Cresci entre os meus tios, como irmã caçula, cercada de cuidados que eu julgava exagerados por parte da mãe e do pai, hoje eu entendo que não o foram. Fui sempre obediente, nunca os questionei.

Próxima aos 32 anos, concluo os porquês.

O corpo feminino desde a idade infantil, é objetificado, sexualizado, fetichezado.

Observo que uma criança do sexo masculino desnuda é motivo de graça, enquanto que uma criança do sexo feminino desnuda parece ofensivo. Me lembro de ouvir algumas vezes o adjetivo “feio” para uma menina desnuda.

Isto faz parte da estrutura social forjada pelo patriarcado, onde o direito à liberdade feminina inexiste.

Quando soube do caso da “menina de 10 anos”, entrei imediatamente para o banho, pensei no seu sexo sendo penetrado sem que ela o quisesse, senti nojo do meu corpo.

É uma consequência, sentir nojo do próprio corpo, tornado impuro.

Este é um texto que mereceria algumas laudas, no entanto não me exercitarei, mas reforço que o tema é urgente, e não pode ser esquecido.

EU, A CRIANÇA PARA SEMPRE IMPURA

Criança sem pecado!

Concebida pelo divino sem mácula.

Virgem flor inaugurada na dor.

Primavera tão cedo desflorada.

Quem apresentara-lhe a maldade?

Quem derramara-lhe o mel?

O que de ti roubaram é o sangue doce que percorre minhas veias

e alimenta minhas linhas.

Eu, a que escrevo com as mãos sujas desse mesmo sangue.

Eu, a criança para sempre impura.

Impura!

Este texto foi escrito por Marcelina Acácio, em lugar do texto de hoje de Juliana Veras, que não pode ser publicado, pelo que lamentamos.

Somos sementes

Matheus Prestes

“TENTARAM NOS ENTERRAR MAS NÃO SABIAM QUE ÉRAMOS SEMENTES ” provérbio mexicano.

Acho incrível e linda essa frase. Ela é poderosa!!! Essa imagem de que todos somos sementes é a pura realidade, nós temos o poder de florescer em nossa caminhada a partir de nossas experiências. Com tudo que nos acontece podemos aprender algo. Sempre digo que sou um semeador (além de semente) e que presto bastante atenção a minha semeadura. Nossos dias, nossa mente e nossa vida são nossa “terra” que podemos preparar para colocar as sementes que gostaríamos de ver nascer. Muitas vezes plantamos inconscientemente. Aí mora o perigo. Pois a semeadura é opcional mas a colheita, obrigatória! Sendo assim, hoje eu penso mais antes de falar, de agir, de decidir, pois tudo são “sementes”. Podemos ir matando aos poucos nossas sementes ou ir criando espaço com autoconhecimento, adubando com pensamentos e regando com atitudes e palavras para que quando menos esperamos, ocorra aquela explosão de energia e mágica que se dá numa vida com sentido e plena.E falando em sementes aproveito para deixar aqui uma receita de suco verde com sementes germinadas (nesse caso já se tornaram brotos) de lentilhas. O suco verde é uma grande ferramenta que uso para dar ao meu corpo na parte da manhã vitalidade, oxigenação, alcalinidade e poder de desintoxicação. E às vezes alio isso à mágica dos germinados. Imaginem a energia vital e potência que uma semente precisa para conseguir romper seu momento estático e buscar pela vida. É muita coisa!!! E é nesse momento que podemos desfrutar delas. Quando estão ainda no comecinho. Apenas apontando um rabinho. Ali alguns nutrientes se multiplicam e outros que quase não existiam podem aumentar em até 600%. É pura vida tchurma!!! Vamos lá:


água de 1 coco ( e polpa quando conseguirem abrir )

1 inhame

1 cenoura

3 beterrabas pequenas

1 beringela

ramas de cenoura

talos de salsão

folhas de rabanete

folhas de alface

galinhos de manjericão

naco de gengibre


Lentilhas germinadas
Para germinar: pegue um punhado de sementes secas, lave bem, coloque num vidro e cubra com água potável. Deixe assim por 8 horas. – escorrer numa peneira, enxague bem e acomode essa peneira numa vasilha e busque cobrir as sementes, pode ser uma tampa ou mesmo pano. – você irá umedecer essas sementes 2x por dia, manhã e noite, até que o pólo germinativo apareça, quando o “rabinho aparecer” é hora de desfrutar do poder. Lembre sempre de enxaguar bem antes de consumir. pode ser em saladas, no suco como eu faço ou mesmo nas suas receitas. Para retirar as películas, coloque as sementes numa vasilha grande, encha de água e com as duas mãos vá “apertando-as” carinhosamente, esfregando uma mão na outra com as sementes no meio delas que as casquinhas irão sair e boiar. Daí é só pescar com uma peneirinha essas que boiam. Não precisa tirar 100%. Bater tudo e depois de tudo misturado acrescentar as sementes germinadas e bater mais um pouco. Às vezes eu bato a primeira parte toda, coo, volto para o liquificador e daí coloco as sementes, bato mais um pouco e tomo. Se presenteiem com luz, alimentos de verdade, reconhecíveis. Seu organismo agradecerá e responderá a isso. A sensação é de purificação e banho interno! Bons momentos a todos!

Matheus Prestes é ator, inquieto e questionador. Nascido em Ribeirão Preto foi parar em São Paulo por impulso da vida. Trabalha com teatro, cinema e tv. É um apaixonado pela vida e suas possibilidades. Foi no meio da caminhada que teve um feliz encontro com a alimentação que transformou sua mente e vida. Hoje, casado, pai de duas almas recém chegadas tem um grande prazer em compartilhar o que me lhe faz bem.