110 anos do Theatro José de Alencar

Sob o olhar de uma habitante do Curso Princípios Básicos de Teatro

Mar menino! Quer dizer que em junho de 2020 o Theatro José de Alencar completa 110 anos? Mas é tempo, né?!

Eu sou Juliana Veras, atriz, diretora, arte-educadora, artista da cena e do pensamento no teatro e na música aqui de Fortaleza, Ceará. Eu sou ex-aluna e professora do Curso Princípios Básicos de Teatro, o CPBT, esse projeto tão lindo sediado no Theatro José de Alencar, nosso TJA. E trabalho junto à Companhia Crisálida, ao coletivo Manada e alguns grupos de teatro do Ceará, com artistas que têm todos um vínculo afetivo muito forte com o TJA, nossa segunda casa.

Para áudio-descrição: Enquanto escrevo, estou sentada no meu lugar de estudo e trabalho, meu quarto, com meus livros, roteiro de espetáculo que estou escrevendo e objetos de inspiração para a criação. Estou usando uma blusa de estampa florida que tem as cores dos vitrais do TJA, que são também as cores da logo do CPBT: preto, azul, verde, amarelo, vermelho, branco.

Estou aqui para falar do CPBT e para isso convido vocês a voltar no tempo e imaginar o ano de 1991. Naquela data, o hoje centenário Theatro José de Alencar, depois de dois anos fechado para restauração, deixou de ser apenas uma casa de espetáculos para se tornar também um centro de formação e pesquisa em artes cênicas. No prédio anexo, onde antes funcionava o curso de odontologia da UFC, a então secretária da cultura Violeta Arraes e sua equipe de colaboradores, idealizaram e instalaram o CENA – Centro de Formação e Pesquisa em Artes Cênicas. Lá foram construídas salas destinadas a oficinas, cursos, residências, intercâmbios, estudos e experimentos artísticos dos estudantes, educadores, artistas e pesquisadores das diversas linguagens cênicas, ou seja, música, canto, dança, circo, palhaçaria e teatro.

Foi nesse contexto, em 1991, que os professores Joca Andrade e Paulo Ess, na companhia de outros colaboradores, iniciaram as atividades artísticas e educativas que deram origem ao CPBT, que, ano que vem, 2021, completa 30 anos de atividades ininterruptas. O Curso tem sobrevivido a todo esse tempo devido ao empenho dos professores, coordenadores, dos funcionários do Theatro, do interesse e importância que a comunidade fortalezense tem dado a esse projeto que foi incentivado por todos os gestores que passaram pela direção do TJA ao longo desses invernos e verões todos.

Joca Andrade, Neidinha Castelo Branco e Juliana Veras no CENA – TJA, 2020.

Atualmente o CPBT atende a três turmas, nos períodos manhã, tarde e noite. A equipe de coordenadores e professores é formada por Neidinha Castelo Branco, que ministra aulas no horário noturno, Joca Andrade, no turno tarde e eu, Juliana Veras, pela manhã.

Meu primeiro contato com o CPBT foi no ano de 2006, quando fui aluna de Joca Andrade e o Curso completava seus 15 anos. Na época, minha turma concluiu com a montagem de um espetáculo, Curingas.

Elenco do espetáculo CURINGAS, CPBT 2006 (Direção: Joca Andrade).

Cantávamos assim:

SENHORAS E SENHORES (Letra: Germana Cavalcante. / Música: Juliana Veras.)

Senhoras e senhores, boa noite!

Com sua licença vamos nos apresentar

O espetáculo Curingas é um jogo

E desse jogo, você vai participar

A sua sorte agora vai entrar em cena

Pois essa peça é você quem vai montar

A sua cena vai abrir uma janela

E essa janela, outra vida revelar

Luiz Otávio Queiroz e Juliana Veras no espetáculo CURINGAS, CPBT 2006 (Direção: Joca Andrade).

Eu tinha alguns anos de experiência no teatro. Comecei como muitos de nossos alunos hoje, reunindo pessoas de interesse em comum e arriscando comunicar a poesia para o mundo. Mas foi meu contato com o CPBT que abriu em mim portas para muitos questionamentos humanos. O projeto pedagógico do Curso é pautado no incentivo da relação do artista-criador com a cidade e o mundo para o qual ele cria. E para mim, saber direcionar o foco da minha vontade de compartilhar arte era o tempero que faltava.

Algum tempo depois ingressei como professora. Minha primeira turma montou o espetáculo Um Gole Divino, que está comemorando dez anos em 2020. Nós ainda nos encontramos, mas cada pessoa da turma já guiou sua vida para lugares bem distintos, afinal, dez anos são alguma coisa.

Elenco do espetáculo UM GOLE DIVINO, CPBT 2010 (Direção: Juliana Veras).

E no Gole, a gente canta assim:

NINHO DA UVA (Letra e música: Juliana Veras.)

Ele fez o vinho da uva

Foi criado no ninho da uva

Ele nos trouxe o cultivo da uva, a uva, a uva

E o mel que adoça os seus lábios que adoçam os meus

(…)

Amanda Alves e Anitta Muratori no espetáculo UM GOLE DIVINO, CPBT 2010 (Direção: Juliana Veras).

O espetáculo é uma ode a Dioniso, deus do teatro, e foi montado para comemorar o centenário do Theatro José de Alencar. De lá para cá, cada ano tem sido uma experiência de constante renovação para mim. Muitos são os depoimentos de nossos alunos e ex-alunos sobre a importância que o Curso tem em suas vidas. E isso reverbera profundamente em nós que mediamos a formação. Estar em contato com cada época, motivando jovens e adultos a pensarmos juntos a criação, em conexão com as urgências de cada época, reforça para mim o sentido de ser artista.

Hoje, em tempos de recolhimento pela pandemia do novo coronavírus, nossa programação se volta ao diálogo com os alunos em suas casas por meio virtual. Investimos na discussão teórica dos assuntos que cada módulo do Curso contempla, afim de compreender melhor nosso contexto e nos preparar para a forma como a arte virá a ser fruída em tempos vindouros.

Enquanto alimentamos em nós a esperança de dias melhores, desejamos que a gente possa, sobretudo, sair deste momento difícil um pouco mais humanos.

Viva o CPBT, o Theatro José de Alencar em seus 110 anos; viva a arte, o encontro e a vida!

Juliana Veras e as Feras

Colaboração: Joca Andrade

Outras imagens do espetáculo CURINGAS, direção de Joca Andrade, 2006:

Nina Castro Brasil (in memoriam).
Elenco e direção.
Luiz Otávio Queiroz e Nina Castro Brasil (in memoriam).
Emerson Lúzbio, Adriana Coelho, Juliana Veras e Germana Cavalcante: Equipe de Sonoplastia.

Outras imagens do espetáculo UM GOLE DIVINO, direção de Juliana Veras, 2010:

As mulheres.
Gleyson Lýsios e Elaine Cristina.
Anitta Muratori.
O elenco.
Evoé!

Juliana Veras é atriz, diretora, escritora, compositora, filósofa e pesquisadora de teatro e música. Escreve aos domingos para o blog Lugar ArteVistas.

COMO PARA ME NUTRIR E PRINCIPALMENTE PARA FAZER A RECONEXÃO.

Por Matheus Prestes.

Começo o texto com a pergunta: Por que você se alimenta?

Algumas respostas podem ser: “para matar a fome”, “para suprir alguma emoção”, “por conforto”, “por obsessão”, “vício”, “por prazer” e por aí vai. As respostas são várias. Se me fizessem essa pergunta anos atrás eu responderia “como porque tenho fome e por hábito”, simples assim. Hoje a resposta é: COMO PARA ME NUTRIR E PRINCIPALMENTE PARA FAZER A RECONEXÃO. Minha relação com os alimentos é outra. Já não busco o prazer comum da mesa mas ele vem pela funcionalidade dos alimentos. Claro que também faço minhas receitas apetitosas mas a felicidade vem em sentir as sensações mais sutis no meu corpo como leveza, bem estar, vibrações leves. Acho lindo saber que através do que coloco em minha boca eu estou alimentando as minhas células e que essas irão formar de tempos em tempos novos tecidos. Alguns estudos sugerem que temos um corpo novo a cada 7/10 anos. Impressionante essa ideia né?!! Será que a teoria dos setênios tem ligação com essa renovação do nosso ser? Enfim, se for assim, podemos a todo momento, escolher a matéria prima, os tijolos, que edificarão esse organismo de alta tecnologia que é nosso veículo por essa jornada que se chama vida. E esse veículo já me levou a tantas e tantas experiências que meu desejo é que ele siga íntegro e com potência para que nossa aventura termine quando tiver que terminar e com dignidade. A alimentação mudou minha forma física, mas principalmente minha forma de pensar, pois a transformação se fez a nível celular, de dentro pra fora. Nosso corpo responde rápido a uma nutrição de qualidade. Se as escolhas alimentares duvidosas nos alertassem logo no primeiro contato nossa relação com nosso alimento seria outra, porém o normal é que leve um bom tempo que varia de alguns anos até décadas para que nosso organismo sinta as consequências de uma alimentação antinatural. Aí quando chegamos a terceira (melhor) idade onde temos nossa bagagem cheia de experiências  e mais seguros, já nos conhecemos o bastante para sabermos o que queremos fazer, falar, pensar, quem somos de verdade a ponto de não perdermos mais tempo remoendo julgamentos e opiniões externas, nesse momento que poderemos descansar de uma vida de doação para o sistema, nesse exato momento chegam as “doenças dessa fase” e junto com elas vários potinhos de remédios, horários e limitações. NÃO. NÃO PRECISA SER ASSIM. Apesar de estarmos acostumados com esse tipo de cenário a realidade pode e deve ser outra. Os italianos dizem “malattia di vecchiaia” para se referirem as doenças da velhice. Com o passar do tempo, nosso organismo vai diminuindo sua potência porém isso não significa que devemos virar dependentes da indústria farmacêutica e presos a um corpo disfuncional e sim que se antes corríamos atrás do ônibus por estarmos atrasados para o trabalho, agora iremos dar um passo de cada vez até chegar a casa de um amigo, se antes carregávamos um saco de cimento nos braços para a reforma da casa, agora levaremos nossa netinha nos ombros para ver o pôr do sol. O ser humano pode gozar de energia até altas idades. Se tiverem curiosidade e tempo deem uma olhada nos povos mais longevos do mundo: Abecásia, Cáucaso no sul da Rússia, Vilcabamba no Equador, Hunza no norte do Paquistão e os centenários de Okinawa no Japão. Os três primeiros vivem em áreas mais afastadas porém Okinawa é um local com as características da sociedade moderna. E falando em modernidade, quando a cultura moderna (progresso) com seus hábitos chegou a Vilcabamba, ao vale dos Hunza e a Abecásia a saúde se retirou aos poucos. A sociedade atual priorizou a praticidade em razão do natural e do saudável. Pense no miojo (já comi muitos), nos alimentos congelados, nos processados…. todos eles sem informação nutricional de qualidade porém no formato ideal para uma vida corrida sem tempo de respiro e de reflexão. Alimentos que se encaixam como uma luva na escravidão moderna. E pensando nisso tudo eu comecei a me desligar aos poucos do que o sistema me ofereceu e fui buscando a reconexão com meu berço que é a natureza. E como fazer isso vivendo numa cidade como São Paulo? Primeiro diminuindo as ambições que me foram impostas sem minha aprovação, e segundo diminuindo o ritmo que eu pensava ser natural. Com esses dois pontos claros em minha mente eu pude começar a olhar e perceber melhor o meu redor. Vi que estava vivendo algo superficial e tóxico mesmo defendendo minhas “verdades” da época. Busquei então a simplicidade no ter e no ser. Desde então uso os alimentos naturais , a flora, o ar (que por aqui não encontro puro), a água, o sol e a terra como pontes entre a selva de pedra e meu lar original. Quando eu tomo meu suco verde pelas manhãs eu entro em contato com a energia do Sol que viajou por 150 milhões de quilômetros até nós e se armazenou nas folhas, frutos e frutas, assim como a energia telúrica que chega através das raízes, a energia dos ventos e da água, entro em contato com a vibração de um alimento fresco, integral que não existe num produto de prateleira. É muito rico poder contar com a sabedoria da natureza que através de zilhões de anos vem nos dando suporte de forma gentil e amorosa através do processo simbiótico de evolução. A indústria desvirtuou meu paladar desde a infância a ponto de eu não perceber quando criança o doce de uma cenoura ou de uma beterraba e buscar essa sensação apenas em produtos com açúcar refinado, pois o leque de possibilidades naturais não tinha como competir com um ramo que gasta milhões de dólares para viciar um cidadão desde as fraldas. Mas como tudo é um processo constante de evolução, tudo está sempre em movimento, hoje posso dizer que minha felicidade habita na simplicidade. E vou aproveitar o momento de pandemia onde focam muito no isolamento social, álcool gel e máscaras e quase nada no fortalecimento da imunidade para deixar aqui a receita do meu suco verde que é uma ferramenta necessária para darmos minerais que alcalinizam nosso organismo, promovem a desintoxicação e a imunidade, trazem vida, vitaminas, enzimas, sai minerais e bactérias benéficas pra dentro de nós e tudo isso dentro de um copo de sangue verde de fácil ingestão. Essa é a minha receita de hoje em dia, caso nunca tenha tomado um suco verde (exceto aquele de abacaxi com couve) comece reduzindo o número dos ingredientes para ver como seu corpo reage. Sempre o tomo em jejum, é assim que desperto carinhosamente meu organismo. Coar o suco (uso um tecido para isso, voal) é uma forma de facilitar e aumentar a velocidade de absorção dos nutrientes.

5 tipos de folhas – alface, acelga, couve manteiga, radíchio, ramas da cenoura. Costumo  usar de 7 a 10 folhas das mais doces como alface e rama da cenoura e de 4 a 7 das mais amargas como rúcula e almeirão. Você pode usar quais folhas estiverem ao seu alcance e de acordo com seu paladar.

1 raiz – cenoura OU 1 batata yacon MAIS 1 fruto – 1 pepino OU 1 abobrinha OU 1 chuchu.

1 a 3 maçãs para adoçar.

1 naco de uns 2cm de raiz de cúrcuma.

Bater tudo no liquidificador e depois coar. Caso você tenha um liquidificador sem um bastão pilador você pode usar um biosocador  para empurrar os alimentos sentido a hélice ajudando assim seu liquidi, mas sempre com muito cuidado por amor. Esse biosocador pode ser a cenoura por exemplo. Para facilitar o processo, coloco primeiro a maçã picada, seguida pelo pepino. Bato esses dois para extrair a água estruturada dos alimentos e só depois bato as outras folhas, dando prioridade as mais moles como a alface. Nesse suco não vai um pingo de água, todo o líquido virá de dentro dos vegetais. Esse líquido é mais equilibrado da face da terra. Se puderem consumam alimentos orgânicos mas não deixem de tomar seu suco caso só tenham acesso aos alimentos cultivados de forma tradicional.

Se quiserem conhecer um pouco mais sobre meu trabalho e estilo de vida acesse o Instagram do Begodverde.

Desejo ótimos passos a cada um de vocês e lindas reconexões!

Seguimos falando de amor.

Olá, povo!

Agora que nossos papos são mensais eu fico com saudades de falar com vcs! Como estão todos?

Vou seguir falando de amor! Porque é sempre válido, está sempre na moda, é sempre bem vindo e necessário! E, claro, o amor é generoso! Prova disso é que vou indicar dois filmes pra vcs hoje!

O primeiro é Milagre na Cela 7! Um filme turco, remake de um filme coreano, que conta a história de Memo! Um rapaz deficiente mental que é acusado de um crime que não cometeu e sua filha, Ova, faz de tudo para tirá-lo da prisão. O grande milagre do filme é a transformação que o amor faz nos companheiros de prisão de Memo, a partir da convivência e amizade que criam com ele. Uma história linda e muito tocante, com interpretações impressionantes! Peguem sua caixa de lenço e assistam!

Milagre

Imagem da Internet

O segundo filme que trago para vcs é espanhol, cinema que me encanta mais e mais a cada dia: Viver Duas Vezes! Emilio é um renomado matemático, rabugento e independente, distante da família, que é diagnosticado com Alzheimer e descobre em seus piores momentos que a família o ama! Uma história linda de amor e de solidariedade! Que mostra como Alzheimer é uma doença cruel e ingrata! Vale muito a pena ver! Muito mesmo!

Viver duas vezes

Imagem da Internet

Amor sempre mexe! Sempre emociona! Sempre transborda! São filmes que fazem chorar mesmo! Ou sou eu que sou chorona! Mas são filmes que nos deixam felizes!

Espero que gostem tanto quanto eu!

Por hoje é só! Até mês que vem!

Forte abraço em todos!

Janaina Alencar.

Arte por meio das lives

Por Karlos Aires.

Um dos meus anseios enquanto artista é poder contemplar o trabalho de tantos amigos queridos e também de tantos nomes incríveis do Ceará. Mas, com os ensaios e atividades, fica complicado ir a tantas peças, apresentações musicais, espetáculos de dança. Apesar disso, neste momento de quarentena, temos a chance de prestigiar mais manifestações de arte por meio das lives.

Eu mesmo tenho tido algumas experiências bem interessantes e gostaria de compartilhar com vocês. Imagine-se você no show de seu artista preferido e antes de cantar a próxima música ele manda um abraço pra você. Quase impossível num show presencial, não é? Mas, recentemente, Marcelo Frota (MoMo) lembrou de sua passagem por Fortaleza e mandou aquele abraço pra mim durante uma live, após ler meu comentário. 

A gente sabe que não é a mesma experiência de contemplar a arte pessoalmente. Mas, precisamos considerar que as transmissões ao vivo podem gerar novas possibilidades também. Então, quero listar algumas pra vocês, amigos leitores. 

  1. Acessibilidade: se antes não havia tempo, hoje ficou mais fácil de se programar para assistir aquela apresentação que você estava esperando.
  2. Pluralidade: em um mesmo dia você pode assistir não só várias apresentações como também de diferentes linguagens.
  3. Interatividade: quem diria que seu artista preferido poderia te mandar aquele abraço ao vivo?
  4. Curiosidade: nem sempre a gente sabe como aquela canção, peça ou movimento nasceu. Nas lives, muitos acabam contando como surgiu tal obra.
  5. Convidado: seu amigo pode te acompanhar num convite presencial. Agora, com um clique ele pode conferir com você uma live. 

Não há nada melhor que ter a experiência do presencial. Mas, enquanto não podemos nos aglomerar, a gente aproveita o melhor do que podemos fazer. Certamente, quando for possível retornar aos espaços culturais, cada experiência terá um valor bem diferente.

Lembre-se de valorizar as lives dos artistas locais, como sugeri no primeiro texto (se você não leu, https://lugarartevistas.wordpress.com/2020/05/03/na-era-das-lives-apoie-os-artistas-locais/ ). E se puder, contribua financeiramente com ele. Afinal, o que seria de nós se não fosse a arte, principalmente neste momento de pandemia, não é?

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Foto – Freepik.

Adentro

Aproveitamos para indicar uma série de lives nesse mês de Junho no perfil do Instagram @lugarartevistas, com ArteVistas que passaram por esse Lugar e deixaram suas marcas.

As lives são em comemoração aos 08 anos de revista, a ser comemorado no dia 20.06. Vem com a gente que tá lindo!

Horário das lives: às 22h00.

 

 

VIAJANTE DO TEMPO

Por Juliana Veras.

Um mergulho no Poço da Draga em comemoração aos seus 114 anos, para ser lido em voz alta, ouvindo o mar numa concha de mão junto ao ouvido.

Fortaleza, 26 e 27 de maio de 2020.

Meu filho, sente aqui. Já tô falando sozinha há tempo demais, fique aqui pertinho da sua avó. E preste atenção. Pode ser que amanhã você precise saber dessa história toda, pra contar sozinho. Pode ser que a memória do seu povo dependa da sua memória, portanto, é melhor você saber.

É que a história de um lugar é feita de humanidade. De anseio, vontade, paixão, revolta. Das decisões cotidianas das pessoas humanas, que puxam o barco do tempo.

Se um viajante do tempo viesse nos visitar, precisaria acompanhar a passagem dos anos, tintim por tintim, pra entender. É que, como dizia a poeta, viver ultrapassa todo o entendimento. E a identidade das coisas, quem dá mesmo é a vida.

Sabe a Fortaleza dos bondes, do algodão, do café, da belle époque, das serestas, das modinhas, da Padaria Espiritual? 

Era noite e a lua serena

Vagamente no seu caminhava,

E, em praia de límpida areia,

Eu sentado, sozinho, cismava.

 

Já da vida me tinha esquecido,

Vendo aquelas espumas do mar

E ouvindo o gemido das ondas

Que se iam perdendo no ar.

E meus olhos, outrora tão cheios

Dessa luz, dessa chama divina

Pouco a pouco se iam fechando

Como fecha-se a flor da bonina.

Desde então quando a lua prateia

Estas brancas espumas do mar,

Eu, sentado na límpida areia,

Só procuro meu anjo encontrar.

 

Viva Antônio Sales, “Meu anjo do mar”, e nossos poetas do passado e do agora. Pois essa Fortaleza de um século atrás é a mesma onde uma certa comunidade surgia, e que hoje celebra sua identidade. 

Você tá cansado? Você tá disposto? Então, sente. Sente e escute o barulho do mar. Bote o ouvido pra além da sua porta. E escute. (Concha.) Esse barulho estonteia até os corações mais acostumados com a canseira do pensamento. A tal das preocupações cotidianas, que todo mundo tem. É importante lembrar. A gente também é feito de sentar e escutar o mar.

Pois eu ouvi, um dia desse, a história dessa gente muito querida. Estou falando do Sérgio, da Germana, a Isabela, o Henrico, o João, o Marco, a Ivoneide, a Iolanda, a Alzira… e outras tantas pessoas que, nesse momento, a quarentena e o tempo nos impedem de abraçar com o corpo, mas a gente pode abraçar de outras formas como o afeto e a memória. Essas pessoas são parte do sangue que pulsa e faz viva uma comunidade que vive no coração da nossa Fortaleza, o Poço da Draga. 

Preste atenção, meu filho. Solte esse negócio aí, agora você vai só me escutar.

Conta que em 2008 começou-se a comemorar o aniversário da Ponte Metálica, que foi se tornando patrimônio referencial do Poço da Draga pra cidade. Lembra do Nirez lá em cima? Do documentário projetado, de todo mundo lá na Ponte fazendo festa nesse dia? Era a época do Orkut… Lembra? Aquele Aquário começando a ser construído, a dona Alzira ainda morava lá e a Germana também, naquelas casinhas de madeira. Lembra? Os meninos pulavam da ponte, muita gente pulou no mar dali. Será que quem pulou no mar da Ponte Metálica sabia que ela foi o primeiro Porto de Fortaleza? 

O aniversário da Ponte Metálica hoje é o aniversário do Poço da Draga. Porque o que fez aquele lugar nascer em 1906 foi aquelas pessoas que passaram a viver ali. Os trabalhadores da ponte, os estivadores, a mulher do café, o embarcadiço, marido da dona Geraldinha, todo mundo ali foi formando o grupo de moradores que originou a comunidade.

Se um viajante do tempo viesse nos visitar e visse o Poço da Draga da Fortaleza do comecinho do século XX, com certeza ia se espantar um bocado. O que hoje é essa comunidade centenária tem sua história desde o início vivida à beira-mar, na orla. Fazendo morada no mar num tempo em que o litoral de Fortaleza não era habitado. Não era sequer habitável. Não era agradável aos olhos das pessoas que chegavam à cidade.

Muitos dos primeiros moradores do Poço da Draga eram imigrantes da seca de 1877. Lembra? Nunca se esqueça. A Fortaleza da planta original resumia a cidade a três grandes avenidas, Dom Manuel, Duque de Caxias e Imperador. Quem chegava de outras cidades, buscando refúgio das grandes secas que assolaram o Ceará, era excluído da área planejada. Quando não ia pros campos de concentração, muitas vezes acabava indo pro litoral. E o litoral de Fortaleza… 

É bonito o mar, né? Infelizmente, ali era o lugar dos despojos. Do lixo, do despejo do esgoto da cidade. A fossa. Já se via um casebre aqui e outro ali, mas era em geral inabitado. Isso era século XIX pra XX. Com o tempo, foi-se construindo casas de taipa, de madeira, a comunidade foi-se juntando…

Você tá prestando atenção, meu filho? Ah, bom. E não preste não, pra você ver, viu?

Quando se construiu a Ponte Metálica, em 26 de maio de 1906, nascia o primeiro Porto de Fortaleza. Que só recebia mercadoria, até que começou-se a pensar no transporte de pessoas embarcadas também. Pra isso foi sendo construída a Ponte dos Ingleses, mas que nunca foi inaugurada. 

As pessoas que davam suporte às atividades do Porto e ao comércio gerado naquele entorno foram se tornando a comunidade Poço da Draga. O nome é devido ao poço ali que guardava as dragas, embarcações que serviam pra tirar areia do fundo do mar, pra construção do futuro Porto do Mucuripe. As atividades foram transferidas para o novo Porto, mas a comunidade já tinha se estabelecido ali. 

Nesse maio de 2020, as famílias do Poço da Draga acendem a vela e partem o bolo pra comemorar os 114 anos de sua história e importância pra cidade. É necessário celebrar. Bolo a gente parte é pra unir.

Preste muita atenção, meu filho. Ouça e aprenda. E entenda pra um dia você me explicar. E me contar como pode uma rua ser chamada de Viaduto Moreira da Rocha, sem viaduto. E como pode um Aquário começar a ser construído pros turistas, sem pensar no bem estar dos moradores. Entre tantas coisas que você talvez um dia possa entender. Aprenda. 

E eu vou lhe dizer. 

Um dia você vai precisar contar essa história pra alguém. Eu espero, meu filho, que, quando precisar, você possa nunca contar essa história sozinho. E sim, cheio de gente ao seu redor.

Feliz Aniversário, Poço da Draga!!!

 

Juliana Veras e as Feras.

Alfazema-Bamburral

Por Juliana Veras.

Fortaleza, 24 de maio de 2020

Olá, Lugar ArteVistas. Casa confortável de elucubrações preciosas, que admiro tanto pela beleza da proposta, pelas pessoas envolvidas e suas reflexões. Gostaria de compartilhar com vocês um escrito que não é dramaturgia nem música, nem é processo de montagem teatral, mas faz parte de tudo isso pois me compõe artista e humana. E é temporal. Me veio há alguns dias numa manhã de maio. Achei importante trazer esse texto a esta casa como primeira postagem minha como artevista. Meu companheiro Clesio, que é das letras e do coração além de Primeiro Leitor, insistiu para que publicasse apesar de criticar algumas de minhas anarquias gramaticais ou, como chamo, minhas tentativas de alcançar o diabo do fluxo de pensamento. Me esforcei para, na digitação, tentar reproduzir algo próximo à fluência da escrita no caderno, que tem uma dinâmica sensorial própria. Quando escrevi, no início da semana, eu ainda tinha 39 anos. Sugiro então que sintamos um cheiro que nos conecte a um passado bom, e que escutemos o canto dos pássaros. Vamos à leitura. 😉

foto I

Fortaleza, 18 de maio de 2020, por volta de 5h da manhã.

Alfazema

O vovô João já estava com a memória difícil, mas ainda falava. Um dia, numa daquelas caminhadas em Isidoro, trouxemos uns gravetinhos pra ele cheirar. “– Bamburral”, com aquela voz mansa, rouca e macia que o tempo deu pra ele. A mamãe também chorou. As crianças e os idosos frágeis fazem isso com a gente, despertam em nós certa vontade de chorar, apertá-los e guardá-los no bolso, ainda mais quando os amamos muito.

A vovó Maria já tinha morrido. E eu já usava antes, pensando nela, mas depois dessa fala do vovô, aí é que a alfazema ficou sendo um dos meus cheiros favoritos.  Alfazema e as colônias de bebê suaves.

O amor potencializa tudo.

Acho que a lembrança deles me veio, dessa forma sinestésica, sensorial, tão pessoal assim… e agora por alguma razão me lembro da carne fofa da minha avó me abraçando forte… Nossa, como era bom. Quarenta menos dezesseis… aquilo é um sabiá? …, vinte e quatro. Como faz muito tempo, há muito deixou de ser uma lembrança triste. Acho que nunca foi. Dá uma acochadinha na garganta como se tivesse uma piranha de cabelo presa no gogó, dessas bem pequenas. Mas vem com um sorriso interno.

Eu era muito nova, mas pude ainda colher muitas lembranças incríveis. Algumas. Várias. Uma que me marcou muito, vivo repetindo essa história, é que a vovó sempre deixava guardado pra mim um pouco de galinha cozida. Ela sabia que eu adoraaava. Deixava guardado pra mim num pote de margarina.

As letras do caderno de repente embaçam e a paisagem ganha um gosto salgado. Faço questão de provar. Algumas. Outras, que fiquem fazendo cócegas no rosto. É bom. Sinestesias da quarentena.

 

Bem-te-vi

Identifiquei. Te peguei. Safado desse bem-te-vi. Parei pra sentir o ar um pouquinho. Frio táctil na ponta do nariz, o rabo macio do gato passando perto, o som macio da respiração do amor no quarto ao lado, o quentinho nas pálpebras do Sol que aparece agora – Olá, Astro-Rei. Divindade querida, junto à tua irmã Lua, por tantas civilizações. Ele veio, acariciou meu rosto com sua mão quente e agora ajeitou o seu manto, ocultando-se nas nuvens. Como um bom deus, ele só está aqui pra me fazer feliz.  Me acariciar, iluminar a minha escrita e possibilitar a visão dessa paisagem indizível em palavras. É tudo uma experiência de amor. O senhor fique sempre assim, viu, Sol? Fala a habitante dos trópicos. Há quem esteja mais próximo dos trópicos do que em Fortaleza. Nessa ponta do continente não é possível se aproximar mais. Estou coladinha no mar atlântico voltada pro norte referencial do planeta. Redondo. Arredondado.

Como estava dizendo antes do Sol me encantar e interromper com sua exuberância, parei pra sentir o ar um pouco e me perdi no meio dessa multidão de passarinhos. Como é o nome desse tipo que canta uma frase grande e aguda, que termina parecendo uma pergunta? O rei do sertão Seridó saberia. “É meu concriz, é meu sofrê, corrupião, êêê, voa cantando, rubro negro do sertão”. Será esse o nome? Será que ele tá me respondendo com a lembrança das letras de suas músicas? Não me espantaria. Agora foi que eu chorei mesmo – hehehe! Queria que você estivesse vivo, Cícero querido. Por inúmeros fatores. Mas pode morrer, viu! Já a gente se encontra por aí. A Covid inclusive tá levando um bocado de gente bem rápido. A festa vai ser é grande. Claro, depois que organizar a fila que deve tá uma confusão. Ciço querido, recebe aí nossos amigos artistas. Tem uns músicos incríveis que devem estar trocando altas ideias contigo agora, que companhia de luxo!… Pena que as mortes são tão tristes. Tão cheias de dor, principalmente psicológica pra quem fica. A leveza aparente nunca seja confundida com insensibilidade, rimos feridos com punhos cerrados, garganta em chamas e lágrimas nos olhos. E vai morrer muito mais gente. Culpa daquele abestado ali fazendo caminhada lá embaixo. Alguém salve o Brasil de seus representantes genocidas.

Então eu ouvi essa multidão de passarinhos. E captei o bem-te-vi no ar. Te peguei, bonitinho. Mas eu tô ligada que o teu ninho é na outra rua. Não pare de cantar não, que te ouvir é a coisa mais linda, assim como ouvir teus companheiros. Esse aí parece um soim, mas cantando com métrica. O galo também está super afinado. Amburguesa? Ainda existe? Os tetéus, acho que só ouvimos na madrugada. Meu Deus. Estou no meio do sertão. Era aí que eu queria chegar.

Anarquia gramatical

Ainda bem que minha mente tem um Colaborador que faz contas rápido pra mim, às vezes, e que eu tenho alguma intimidade com as letras. Se não, a beleza desses sons, dessas vistas e desses sabores não me deixaria pensar. Meu Colaborador me mostrou o número daquela casa à frente. 24. Faz vinte e quatro anos que a minha avó materna morreu, levada pelo Alzheimer, assunto que inclusive me uniu à Roberta Bonfim na possibilidade da montagem de uma peça um dia.

Vinte e quatro anos…

Coisa mais feia, “Colaborador”. É que não posso revelar o nome do meu Eu Interior. Pensar, às vezes, dá preguiça, ainda mais quando se está acordando. É mais fácil realmente conceber que tem alguém na sua cabeça pensando por você, daí, a você fica a missão de interpretar ou simplesmente reunir as coisas.

Minha amiga Marcelina Acácio tem razão de se admirar com “quantos eus não cabem dentro de mim mesma”.

Digo eu, mãe, que a gente pira pra não endoidar. Ensandece pra não enlouquecer.

Então, Gó.

Há um certo prazer no atrevimento da quebra de parágrafos. Quase tão bom quanto escrever frases muito compridas sem usar vírgulas como os alemães que a gente lê traduzido pro português. Se se distrair, perdeu.

Então, Gó.

Melhor que quebrar parágrafos é quebrar parágrafos com parágrafos que se repetem. Ainda mais, parágrafos curtinhos. !! Ai, Marianne Bonfim, preciso te contar isso! Mas sabe, Lorrana Feitosa, eu ainda tô na fase das vírgulas. Às vezes, abuso delas. Se erro, geralmente é proposital. Não por irreverência, mas por atrevimento gramatical. Não são a mesma coisa. Agora dei pra, além de pensar em voz alta, escrever o que converso em minha cabeça com minhas amigas escritoras. Hoje é o aniversário de uma delas inclusive. Parabéns, Jéssy Santos querida. Que nosso Deus de Amor te faça muito feliz.

Então, Gó. Vou concluir com muito gosto pra ti, pelo prazer de poder ser lida por ti. A sua filha começou este escrito falando dos avós. Sim, escrever é um tipo de fala, fora o fato de que eu geralmente digo em voz alta o que vou escrever. Perdão, só mais uma coisa.

Lorrana, mulher, eu estou na fase das vírgulas. Porque parei de questioná-las, foi uma fase curta se comparada a toda a minha vida, logo, talvez as quebras com vírgula sejam mesmo a minha tendência natural. Ou, voltei a ser assim. Mas, mais madura, pois, desencanei, né. Risos inauditos. Só que o que eu queria te contar é que também andei namorando as reticências… … . Viu? Abandonei quase que totalmente o travessão. Dei pra falar os meus “à partes” dentro das frases mesmo hahaha, pelo mesmo atrevimento gramatical antes mencionado… Preciso melhorar alguns dos meus títulos… Mas Marianne – adoro teus dois enes… – … maldito travessão…, eu entendo o prazer das frases curtas. Só não confio muito. Nelas. Também não confio muito na quebra dos parágrafos.

Faço não por irreverência.

Nem por atrevimento.

É pela mais pura anarquia gramatical.

Mesmo.

Mas confesso o que está posto, ainda não cheguei no nível de abandonar as maiúsculas… … Ô que eu olho pra vocês como uma puritana olha morrendo de inveja pra saia curta das cocotinhas… Maldita Clarice Lispector, maldito Alan Mendonça, malditos todos vocês! A-doro!

Mãe! Te amo. Tchau.

Mini-crise de riso.

Foto II

Bamburral

Pois é, Gó. Outros sons se mesclam agora ao canto dos pássaros, inclusive bateres de asas e mesmo outros pássaros. Porém, sons humanos com o raiar do dia. E eu queria dizer que comecei falando dos meus avós, seu pai e sua mãe e o bamburral-alfazema, talvez porque me senti, no friozinho do findar da madrugada e em meio ao canto de tantos pássaros, no aconchego do sertão de Isidoro, no nosso Recanto João e Maria, a casa deles e o solo das raízes de nossa família.

Não há aviões, os carros diminuíram e o trânsito das pessoas está bem menor na quarentena… infelizmente maior do que deveria, pois muitas pessoas não estão respeitando o isolamento e pagaremos um preço cada vez mais caro, com muito mais mortes por conta disso… Mas, pelo confinamento necessário dos humanos, que se protegem da doença, protegendo sua espécie, creio que os bichos, imunes que são, estão dominando o mundo. Os pássaros vieram fazer seus ninhos nas ruas, nas árvores, nas portas das casas, trazendo o sertão pra pertinho de nós.

Infelizmente, sabemos, há tristeza e morte.

E uma certa languidez no ar.

E não sei se em parte porque agora podemos finalmente apreciar, mas uma coisa é certa. Definitivamente, sem a euforia da modernidade o mundo fica muito mais bonito.

Fiquemos em casa, se pudermos.

Juliana e as Feras

Veras

Como mudei minha alimentação

Matheus Prestes.

Meu primeiro texto. Por onde começar? Vejamos, fui uma criança (com bronquite), um adolescente (com acnes) e um adulto (com coriza) comum. Quero dizer que minha alimentação não devia ser muito diferente das outras pessoas. Ou era! Enfim.Tinha como fonte de energia e matéria prima das minhas células e tecidos o trigo e seus derivados, os lácteos, o açúcar, balinhas, chocolates, miojo e outros alimentos que se mantinham por meses numa prateleira sem que a ação do tempo os abalasse. Nem uma ruga sequer! Lembro até hoje da primeira vez que comi uma bolacha Bono de doce de leite, ela havia sido recém lançada. Imaginem! O famigerado doce de leite vinha agora entre duas camadas de muito trigo (olhem ele aqui de novo) mais açúcar, um tanto de cacau e algo que junto dos pós brancos tinham o poder de potencializar a característica viciante dos doces: a gordura trans! Foi amor a primeira mordida. Ou melhor,dependência! E posso dizer? Eu amava tudo aquilo. E quando eu disse dependência eu não estava falando no sentido figurado não. A indústria de alimentos gasta milhões de dinheiros em pesquisas e sabe muito bem que o tripé sal-açúcar-gordura está no mesmo patamar de outras drogas condenáveis pelo sistema no quesito “poder de vício” mas como existe o lobby e muita politicagem, ah…deixa esse assunto pra outro momento. No meio de um mundo de possibilidades que a Terra estava me ofertando eu decidi restringir minhas opções a poucas páginas do cardápio. Lia apenas as da seção “industrializados/processados”. E tive grandes apoiadores e incentivadores, entre eles a famosa marca Nestlé que produzia as melhores e mais viciantes guloseimas. Salada era persona non grata na minha mesa. Pão branco e macarrão (trigo), uma derivação do mesmo carboidrato refinado com pouquíssimos nutrientes, foram meus melhores amigos até uma década atrás. Quando fui morar em Milão,Itália, em 2001, acabei convivendo com um argentino de Córdoba por 11 meses. Era um louco de pedra que amava churrasco. Fazíamos vários, até parados pelos carabinieres (policiais) uma vez fomos por estarmos assando uma carne numa das ruas da cidade. E foi nessa viagem louca com esse personagem de gibi que meu cardápio começou a se abrir e ampliar meus horizontes em relação à comida. Folhas verdes, pimentões vermelhos, repolhos brancos, cenouras laranjas e uma diversificada paleta de cores pintavam meus pratos e me traziam nutrientes que se tivessem sido analisados antes, poderiam estar em falta naquele corpinho jovial. E claro, muita tinta roxa era vertida goela abaixo enquanto saboreava a culinária argentina-italiana. Voltando para Terra Brasilis depois de meses ensandecidos, eu trouxe na bagagem novos gostos que acabaram criando raízes em mim, mesmo que envergonhadas. Segui com minha dieta limitada mas pelo menos agora haviam alguns alimentos em minhas refeições que não tinham sido produzidos por máquinas e sim pela mais alta inteligência amorosa existente que é o poder superior. Segui assim visitando supermercados e farmácias até 2013/14 onde alguns eventos foram reverberando e provocando curiosidade em mim. Um deles foi a visita de minha mãe e de meu irmão a uma nutricionista. Ambos na época estavam com sintomas, digamos quase crônicos. Mãe tinha dolorosas enxaquecas e outros distúrbios intestinais, irmão estava sofrendo de ácido úrico, mais conhecido como gota. Bom, foram os dois e como moramos em cidades distintas, quando os reencontrei eu fiquei surpreso com as mudanças e perguntei sobre a nutri. Só de pirraça resolvi ir lá também, não tinha nenhum sintoma que me incomodasse tanto, fora a coriza que insistia em me acompanhar,as dores de cabeça que chegavam sem avisar,outras estruturais como nas costas, e as amídalas que de tempos em tempos, gostavam de me lembrar que elas realmente estavam ali no fundo de minha garganta, enfim, viram que eu não tinha nada né?! As vezes, tomados pelo dia a dia a gente acaba se acostumando em carregar na pochete coisas que não somam na vida e quando percebemos lá estão, na mesma pochete, o Rinosoro (quando não um Aturgil, droga pesada!) o Omeprazol, a Aspirina,o Cinema e os Urubus todos. Afff! Estamos até aconselhando a pessoa da frente na fila do pão qual o melhor anti inflamatório pr’aquela simples dor de garganta. Fiz questão de levar minha companheira junto na primeira consulta, ela também não sentia nada, assim como eu…só uma queimação semanalmente que a impedia de comer certos alimentos. Chegamos, cumprimentamos e nos sentamos. A nutri nos olhou, nos apalpou, nos interrogou e constatou: vocês estão cheio de bactérias ruins, vamos fazer umas mudanças aí. De cara ela pediu para cortarmos açúcar, farinha (lembram dos meus melhores amigos lá de cima?) leite e derivados e soja. Eu de cara, sem a menor humildade para receber uma informação nova, me protegi e disse “Quê qui é isso? Cortar açúcar? Imagina, eu adoro sentar com a Bi pra ver um filme e um prato cheio de brigadeiro no colo pra comer com aquelas colheres bem pequenininhas (que assim dura mais)”. Só faltou eu me levantar e chamar a nutri de doida. Mas fiquei e ouvi tudo. Saindo do consultório já comecei a criticar que “onde já se viu uma coisa dessas?”, “eu tô super bem!” e etc. Acontece que sou cabeça dura no início mas graças ao bom universo sou permeável. Passado um tempo pensamos melhor no assunto e resolvemos tirar,ou melhor, diminuir o consumo de alguns alimentos. E não é que mudanças começaram a ocorrer?: Primeira coisa que mudou foi o funcionamento do intestino, começou a parecer que usava relógio. Diminuímos mais e mais e mais e a vida começou a mudar. Pro positivo. Foi aí que eu, curioso e geminiano por natureza(leia inquieto) comecei e me interessar pelo tema da alimentação e não parei mais. E falando em parar eu vou ficando por aqui pois se deixar eu sigo noite adentro ou até que os olhos fechem involuntariamente. Já ouviram aquela frase “fala mais que o hómi da cobra”? Prazer! Matheus Prestes. Até logo menos!

Uma lição de amor

Por Janaina Alencar.

Olá, povo! Tudo bem com vcs?
Hoje vamos falar de amor! Amor no seu mais puro significado! Amor
sem nenhum interesse, sem nenhuma intenção, sem esperar
recompensa, sem necessidade de reconhecimento. Amor com generosidade. Simplesmente amor!
Acho que estou emotiva, porque hoje é dia das mães e eu não vejo e não posso abraçar a minha há quase 2 meses, e nem sei quando poderei
abraçar! Do mesmo modo não vejo e nem posso abraçar e cheirar meu
sobrinho Tomzim, que é mesmo que ser meu, ainda há mais tempo….
I am Sam é um filme que fala de amor! O amor de um pai autista, que
cria sozinho uma filha sem nenhuma deficiência e hiper inteligente, e que num dado momento entende que não pode criá-la sozinho! Enfrenta milhões de dificuldades para continuar com ela, enfrenta a justiça e muitas incertezas, mas não desiste de jeito nenhum. E a filha também não desiste de ficar com seu pai! Os amigos ajudam, todo mundo
colabora, uma advogada sem coração se sensibiliza, o universo conspira a favor!
É uma dessas histórias que nos faz ter fé em dias melhores, que enche
nossos corações de esperança, alegria e amor. E é tudo sobre amor!
Esse sentimento do qual o mundo anda tão carente! Esse alimento do
qual a humanidade tanto precisa pra ser melhor!
E pra tudo melhorar nessa história, o ator principal é o Sean Penn, a
filha é a Dakota Fanning, a advogada é a Michelle Pfiffer e ainda tem a
Laura Dern! Elenco incrível, né?
Peguem seus lenços e assistam!
Por hoje é só!
Mais amor, sempre!
Forte abraço em todos!

Na era das lives, apoie os artistas locais

Por Karlos Aires.

Você já se perguntou como os artistas estão se virando neste período de isolamento social? Como se apresentar se não pode haver aglomeração para formar público? O jeito é fazer isso à distância. As lives estão ajudando a tornar um pouco mais suportável este momento de pandemia. É bem comum ver nas redes sociais comentários e publicações sobre as transmissões ao vivo de artistas de nível nacional e local.

Mas, você já parou pra se perguntar sobre como os artistas locais estão se virando? Qual a formação de público que eles podem fazer por meio das lives? Pode ser difícil competir com grandes nomes. Por isso, eu quero encorajar você, caro leitor, a valorizar ainda mais os artistas da sua cidade. Se faça presente nas transmissões dos regionais.

Aqueles que vivem da arte estão encontrando dificuldade para continuar pagando as contas. Peças, shows, apresentações de dança. Tudo parado, cancelado, adiado. Como receber o fruto do trabalho se não há trabalho? O mínimo que podemos fazer é continuar prestigiando os fazedores de arte locais. E vou um pouco além. Encorajo você a quem sabe colaborar financeiramente com aquele que está tentando se reinventar durante este período.

Outra dica é compartilhar o conteúdo artístico dessas pessoas e as novas iniciativas que elas estão tomando para continuar sobrevivendo. É uma forma também de contribuir com o trabalho dos regionais. Essa valorização é indispensável neste momento e você tem o poder de incentivar a arte para que ela não pare, mas continue tornando nossos dias mais leves, nos impactando e nos fazendo refletir e questionar.

Meu nome é Karlos Aires, eu sou ator e jornalista. Neste primeiro texto eu trago um apelo: não deixe de valorizar os artistas locais. A sua presença, mesmo  que virtual, é força e incentivo. Nos próximos textos pretendo levar até vocês alguns desses artistas por meio de entrevistas e relatos. Gratidão à você que leu até aqui. Compartilhe esta ideia e continue apoiando a arte local.