O nascimento de um peixe, olhos sobre tela.

Não sou como qualquer pessoa que quando senta-se para escrever, lhe correm palavras com a fluidez de um rio.

A mim elas se apresentam como em ondas, uma após a outra, num movimento de ir e vir, constante.

Esta “coisa” eu não sei para onde vai. Devo admoestá-los!

Talvez fale sobre como um artista com saudades pinta uma tela.

Num dos últimos encontros com o artista Zé Tarcísio, o vi iniciando uma pintura, da sua nova série.

Sentado à mesa de trabalho, e com as ferramentas dispostas sobre ela, ele mergulha o pincel no betume, retira o excesso, e faz um traço no papel em branco, está iniciada a obra. E segue, numa coreografia, da mão com o pincel.

O processo criativo me atrai.

Estou ali, observando-o, e quando ele me dá uma oportunidade (a curiosidade não mata a gata).

A obra vai se fazendo, se mostrando à medida que a pintura acontece, e de repente ele começa a ver a paisagem que está se formando. Nada antes imaginado.

Como repórter plástico, a nova série iniciada na pandemia da Covid-19 traz a saudade da paisagem, vivida pelo artista solitariamente, na sua casa e mais recentemente no seu atelier. É como uma fuga do artista durante o isolamento social.

Zé me disse ainda, que desenhar é como escrever um poema, é como uma música.

Sim, o que se busca afinal, em tudo, é a poesia.

Aos poucos e cuidadosamente vamos retomando o nosso contato, o que nos é uma injeção de ânimo e vida.

“Amar e humor, deve estar em tudo”. Zé Tarcísio, uma fonte inesgotável.

Talvez eu quisesse falar sobre processo criativo e saudade, ou sobre como eu não escrevo mais.

Sobre um peixe colorido, dentro de um tecido gelatinoso, muito fino e escorregadio, que em sonho eu devolvi ao mar, para que ele nascesse, ou ainda sobre a continuação do sonho, olhos sobre tela, uma tela pintada por Cecília Meireles, avaliada em 3.566.000,00, propositalmente manchada por um spray de arte urbana, na cor azul marinho.

Já aí teria muita coisa. Por ora, sinto-me como um peixinho, que precisa voltar à àgua, nutrir-se do que lhe é essencial, para no tempo certo, saltar do útero que lhe gesta, e nadar.

Voltar ao útero seja a nossa urgência, é nisto que agora eu penso.

Na posição fetal, que me é confortável.

Nascer, no entanto, acontece.

Ai, minha mãe! Cuide bem de mim, que ainda não nasci. E depois, de nós, só aquela fotografia de 1989, eu nos teus abraços, sem saber ainda que nascer escorre sangue.

Eu, a criança para sempre impura, nos abraços de minha mãe. Ao fundo, este pé de urucum, da casa de minha madrinha. Este é nosso único registro juntxs. 1989.

Estou cansada deste mundo, de aparências e hipocrisia.

O vento embala a noite

Embala a copa da árvore

Embala o sonho da menina.

Ainda era 19 de junho, quando eu já estava cansada. Naquele dia quase como uma revelação, recebi:

– Você não é mais uma escritora, agora é uma vendedora de livros.

Só se é escritora enquanto se está escrevendo.

Entro em exaustão.

Um dia após o lançamento do livro, desativei as redes sociais.

Me isolei ainda mais no meu quarto e chorei até ficar sem ar.

O acúmulo de tensão antecipou minhas regras, e eu menstruei na lua nova.

Um desânimo profundo.

Meu único silêncio possível tem sido a leitura de Poesia Completa, Orides Fontela.

Me demoro em cada verso, porque sua poesia é densa, e muito cheia.

Choro também por Orides.

E penso se escreverei ainda alguns livros, e se findarei paupérrima, internada como louca, e se no dia de minha morte me livrarei de ser enterrada como indigente graças à caridade de um médico.

Há muito trabalho, mas há quem já nasce em berço esplêndido, e para essas pessoas, a arte lhes é uma mulher boa.

Abro mão do tempo da criação, do ócio, da leitura, da escrita, do estudo, porque há mais três projetos, é trabalho, e é o que me mantém.

Jamais haverá igualdade.

Talvez esta seja uma oportunidade para pensarmos no quanto já vivemos adoecidos pelos sistemas controladores.

Estou cansada deste mundo, de aparências e hipocrisia.

Da supremacia branca.

Da hegemonia do falo.

Do D., do R., do A, do J…

Do alfabeto inteiro de homens que usaram o meu corpo, e ignoraram minha subjetividade.

HIPÓCRITAS! HIPÓCRITAS! HIPÓCRITAS!

Que ao me ver, me ignoram, porque eu sei muito de vocês.

“Passai por baixo do meu desprezo”. F.P

Estafada deste mundo que agora acontece apenas na virtualidade.

Cansei do amor.

Na realidade, não o sei.

Agora estou trabalhando no apagamento da minha memória.

Marcelina Acácio

Atriz, escritora, performer, poeta e produtora cultural. Autora do livro “De Vento em Poesia”. Escreve às quartas-feiras para o blog, “Coisas de Tempo e Vento”.

Venha a mim tudo o que for movimento.

Pensei escrever sobre qualquer coisa, sobre as intensas e macias cortinas alaranjadas que o J. quer comprar pra casa, assunto do nosso ritualístico café da manhã de hoje. Desacompanho a política brasileira para cuidar da minha imunidade, porque sinceramente, resistir ao vírus e ao governo autoritário e genocida daquele senhor, requer muita saúde, mental e física.

O J. disse que está me sentindo mais leve nos últimos dois dias.

Uma confissão pessoal, sinto que um ciclo se fecha, e outro desponta.

A semana corre intensamente e há o lançamento de um livro previsto para o próximo dia 20, às 22h00, pela Lugar ArteVistas, revista eletrônica e editora.

Este livro é o “De Vento em Poesia”, minha primeira obra, que será lançada em meio à pandemia de covid-19, reafirmando a vida e a arte. O livro tem isso, esse morrer e renascer. Ao tempo que nasce uma obra, morre parte da autora.

É um convite ao íntimo do ser que sou.

Me desnudo mais com a palavra, do que quando desço a roupa fora.

O livro é sobre L I B E R D A D E. Eu falo sobre L I B E R D A D E.

Minhas avós não falaram. Minhas bisavós não falaram. Gerações de mulheres não falaram.

Eu pertenço à geração das mulheres que falam. E eu sou vingativa! Não sou pacífica.

Volto às coisas práticas, porque estou atrasada com elas.

Tenho ainda que fazer um bom marketing para este produto.

Acompanhem a Lugar ArteVistas ( @lugarartevistas) e também a mim ( @marmaracacio) no Instagram. Lá saberão de mais informações sobre o lançamento e como adquirir o livro.

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Ilustrações: Thyara Costa

Projeto gráfico: Jão

Coisas de Tempo e Vento por Marcelina Acácio.

 

L I B E R D A D E para escrever

Minhas crises não causam mais nenhum escândalo. Ou eu estou querendo morrer, ou pensando em parar de escrever.

A mais recente se deu em função de uma desaprovação num edital de Literatura, o suficiente para eu pensar (mais uma vez) em parar com essa “coisa”, porque afinal, o mundo não precisa do que eu escrevo.

Passei o dia entre choro e raiva, no que pensava em parar, pegava o caderno para escrever sobre a angústia de não escrever.

Que inferno esse de não ter paz!

Não escrevo!

Não escrevo nada!

Envio mensagem para Roberta e ela me diz:

Escreves lindamente, lançarás um livro, e amanhã terás uma live pra contar dessas maravilhas.

Eu tenho vontade de dizer “in live”:

Bem, eu não escrevo. O que eu tenho é L I B E R D A D E, coragem, e muito ego.

Saulo é que gosta de me confortar. Formamos a dupla dos excluídos, dos que não escrevem para o mundo. E ele me diz:

Marci, se você quer ser reconhecida como escritora, vai precisar pensar numa fórmula.

Em outras palavras, se adequar aos padrões.

Esquece isso. Eu escrevo sim. E não é para o mundo. O mundo se quiser, me leia ou não me leia, eu continuarei escrevendo. Tenho “coisas” a dizer. E se não o faço, sofro um engasgo fulminante.

Concluo aqui este assunto, mas ainda não pararei.

Revisitando meu último caderno localizei essa anotação:

(a mulher só alcançará êxito por meio da inteligência)

Há muitas anotações, sonolentas.

Pausa para dar atenção ao Chico Buarque (ele é o gato dono da casa).

Chico Buarque entrou agora no quarto, passando os pelos macios nas minhas pernas, é como eu sinto que ele gosta de mim. Na verdade eu sei o que ele quer, mas finjo que não sei, e recebo o carinho. Ele quer que eu vá até à cozinha e sirva o seu patê. Os gatos e alguns homens, observei, tem esse algo em comum, são carinhosos quando querem comer, depois nos invisibilizam, até sentirem fome novamente. A diferença entre eles, é que os gatos são superiores, enquanto os homens são frágeis como porcelana.

Cansei com esta falta de novidade.

Eu deixo que eles pensem que estão me invisibilizando, e enquanto isso eu escrevo. Se eles amam o meu sexo, eu amo mais o que eles me dão em troca.

Cuidado com uma mulher que escreve, beibe. Pense muito, antes de se envolver, elas adoram uma trepada casual, mas são profundas, e intensas. Loucas e não são leves.

Pessoas felizes não escrevem.

Ai, que tesão!

Pulo para a próxima anotação. 20.04

“gozei e me transfigurei em seguida, como me ocorre.

não encontrei tua mão”

E para as próximas.

Lembrete (sem data)

não confundir sensibilidade com fraqueza.

E uma composição (sem data)

“estamos à flor da pele, estamos à flor da pele, i-ihhhhhhhh”.

 

24.05. Neste dia, escrevi para R.

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foto e edição: marcelina.

será que és o meu desejo?
pena não podes ver minha face cintilante e rubra, quando me lembro de teus olhos.
morte e desejo caminham serenamente ao meu lado, como bons amigos.
em parte culpo a ti por me fazer meditar sobre esses assuntos.
antes eu já o fazia, mas não com a intensidade de agora.
há qualquer coisa tua no céu da minha janela, andastes pintando para que eu veja a ti?
eu gosto de fantasiar e criar.
tenho criado a ti todos os dias, alimentado pelos meus seios fartos.

As anotações seguem, mas a “coisa” precisa findar.

Oxalá, tenhamos novidades para as próximas prosas, como disse, estou cansada com esta falta de novidade, e perco o tesão fácil.

Coisas de Tempo e Vento por Marcelina Acácio.

Uma vela e o tempo

Estou atrasada com esta “coisa”.

Deixo para o último dia porque sou mutável, tanto que me dá vergonha.

Se escrevo qualquer coisa no domingo, pensando na quarta-feira, finalmente quando chega o dia esperado, aquilo já não faz sentido algum. É assim que escrevo, as “coisas” só fazem sentido por um instante.

A “coisa” hoje tá difícil.

Acendi uma vela, embora eu seja um pouco cética. Hoje estou bem ritualística.

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Quando quero, invoco a força das marés cheias, e dos ventos de tempestade.

Abro bem os braços, cuido tônus, encho o pulmão de ar, e solto uma rajada de vento. Crio um estado de tensão e de força absoluta.

E então, nem o diabo me aborrece. Porque a minha força é destruidora.

Sou em excesso.

Meus excessos é que me levarão à loucura.

Excessos com o amor, com o sexo, com a revolta, com o sentir, com essa “coisa”.

Por que preciso ser excessiva?

Escrevo afinal, o que me excede, ou o que me falta?

Hum, este seria um bom tema para a escrita. Escrever sobre escrever.

Meus encontros literários, virtuais, com Saulo, Bárbara e Joaquina têm me feito amar mais, esta maldição que nos salva, como disse uma escritora chamada Clarice Lispector:

“Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva”.

(LISPECTOR, 2004, 179)

A semana começou com uma carta da nina rizzi, ela, que escreve como uma mulher, a poema, há poemas que não querem findar, nina. A carta é o prefácio do livro “De Vento em Poesia”, uma emoção.

Ontem voltei a lê-lo, e está pronto. É a minha força e salvação que estão impressas nele. Não há absolutamente nada genial, mas lhes garanto que há poesia, constituída de vento, suor, e gozo.

É uma tentativa de dar voz a todas as mulheres que vivem em mim.

(minha vela está na metade)

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Já faz tempo que eu sentei aqui para escrever, nem percebi. Eu amo quando isso acontece, não perceber o tempo, e deixá-lo passar (estou louca que chegue logo Agosto, para o meu aniversário de 32 anos, eu não pensei que chegaria até aqui).

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Mas, preciso agora ser prática, e não quero deixá-los.

Quem sabe na companhia de Ana Cristina Cesar, seja mais agradável de estar. Leiam o que para mim é um manual para “uma poema” e em seguida “poesia”.

flores do mais

devagar escreva

uma primeira letra

escrava

nas imediações construídas

pelos furacões;

devagar meça

a primeira pássara

bisonha que

riscar

o pano de boca

aberto

sobre os vendavais;

devagar imponha

o pulso

que melhor

souber sangrar

sobre a faca

das marés;

devagar imprima

o primeiro olhar

sobre o galope molhado

dos animais; devagar

peça mais

e mais e

mais

(CESAR, 2013, 209)

poesia

jardins inabitados pensamentos

pretensas palavras em

pedaços

jardins ausenta-se

a lua figura de

uma falta contemplada

jardins extremos dessa ausência

de jardins anteriores que

recuam

ausência frequentada sem mistério

céu que recua

sem pergunta

(CESAR, 2013, 208)

Edit I

Videopoesia, Coisas de Tempo e Vento – Poemas Isolados

Contemplado pelo Edital Dendicasa 2020, da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará.

E aproveito para agradecer mais uma vez a minha sister monster Jão, por tude. Que sem ela, parte das minhas poesias visuais não existiriam.

Também convido-os a conhecer o seu trabalho como artista visual, especialmente o Coisas de Viado – Cartografias de Corpos que Resistem, contemplado no mesmo edital.

Referências bibliográficas

Aprendendo a viver / Clarice Lispector. – Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

Poética / Ana Cristina Cesar. – 1ª edição – São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

Edit II

Não me dei conta da parede, que agora terei que pintar.

Coisas de tempo e vento

por Marcelina Acácio.

“menininha”

Me sinto como se eu tivesse que ter uma conversa semanalmente, sendo colunista de um blogue. Às vezes a “coisa” flui, e eu gosto. São as raras exceções, gostar do que escrevo.

Por acaso vi passando hoje na linha do tempo de um amigo, no Facebook, essa citação da Hilda Hilst:

“Na verdade, para fazer uma literatura que seja considerada essencial, você precisa ler muitíssimo, estudar muitíssimo e, só depois de muitos anos, é que você fica mesmo apta a trabalhar. Você pode ter um processo intuitivo, bonitinho e tal… mas não será ‘literatura’ essencial. Outro dia, vi no Caderno 2 uma menininha escrevendo um poema e todo mundo dizendo que era um gênio. Uma bobagem enorme. O processo demora muitos anos; quinze, vinte anos, para de repente se poder dizer: ‘Agora acho que está bem, que eu consegui o melhor de mim.'”

(HILDA HILST – “Fico Besta Quando Me Entendem”.)

Andei pensando em, parar de escrever, foi numa dessas noites enquanto eu tentava meditar, deitada sobre um caminho de pedras. Mais parecia uma lutadora de esgrima, tentando me esquivar dos pensamentos.

Só escrevo por angústia. E estou mais para essa “menininha” que escreve intuitivamente.

Clarice dizia não gostar muito de estudar, o intelectualismo a exauria. Os intelectuais conceituam tudo, a vida, a morte, o amor, a arte. Para ser bem aceita no meio artístico é preciso ser intelectual e conceituar, aí sim se faz arte, e se alcança um status. Melhor é ser nada, e estar ao mesmo tempo em tudo. A arte é um perigo psicológico, e esta, eurocêntrica e falocêntrica, é brutal, exclui, dita. Seria ela um tipo de ditadura, sem intervenção militar, mas que ainda assim dita as regras do belo, do que é ou não arte? Particularmente, sou a favor de uma arte libertária, acessível. Cada ser possui subjetividades, portanto, é capaz de produzir arte.

Saindo da arte, e indo para o universo onírico, onde a realidade acontece, eu poderia falar só sobre a minha vida onírica. Embora seja igualmente perturbada, há uns lampejos de beleza.

Essa noite eu sonhei que o mar tinha uma língua, e que lambia os meus pés me fazendo cócegas. Depois, que eu engatinhava sobre as pedras, até vir uma onda e me alcançar. E por fim, eu entrava num barco, cuja a capitã era minha avó materna. Seguíamos por alto mar, desbravadoras, e ela me apontava para uma lua vermelha. Também sonhei derrubando um bolo de aniversário, mas não era o da Roberta Bonfim. Tomara que isso não seja um mal presságio. Eu adoro bolo de aniversário.

No meu último aniversário não teve. Não teve nada de aniversário. Mas ganhei dois presentes do Zé, o primeiro uma pintura, o segundo, fomos à estreia do Cine Ceará 2019, assistir A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Não tínhamos convite, mas ganhamos um par do Pablo Arellano.

Que cerimônia cansativa. A próxima eu poderia ir de pijama, se bem que, durmo desnuda. Tão cansativa que quando começou o filme eu e o Zé já estávamos cansados, eu achei indelicado pedir para sair na metade, mas ele me convidou, e eu o agradeci. Saímos e fomos comer uma massa, penne, me lembro, à carbonara. Deus foi muito feliz em ter criado o bacon, melhor que a humanidade. Se é que ele existe mesmo, e a tenha criado. Eu não acredito. Voltando à minha relação com o Zé, ele é um dos meus melhores amigos. Temos uma relação profissional e de amizade. Nossas conversas ao telefone não duram menos que uma hora. Recebo seus áudios de 30’ ao Whatsapp e os ouço. Se eu pudesse eu gravaria nossos diálogos. Outro dia ele me contou do encontro com a Hilda Hilst e me falou uma frase que ela deixou escapar pra ele “o homem é só, mas constelar na essência”. Essa frase estampava o cartaz da peça teatral O Verdugo, escrita por HH durante os anos de chumbo, de forte engajamento político, revolucionário, e poético, como o era o teatro hilstiano, e toda a sua obra poética, falar do gozo é um ato político e poético, também.

Pausa para ligar pro Zé. E fazer uma pesquisa rápida sobre O Verdugo.

O cenário e o figurino foram assinados por ele. A peça foi montada no Teatro Oficina, e bombardeada pela ditadura, pelo teor político e libertário que apresentava. Já que nos anos de chumbo, a censura era a “namoradinha do Brasil”.

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Cartaz da montagem de O verdugo no Teatro Oficina (Reprodução). Fonte: Cult Revista.

“Só é liberdade se for”. Zé Tarcísio. Um homem do teatro, das artes plásticas, do cinema. Um libertário.

O material para pesquisa sobre O Verdugo encontra-se no seu arquivo, no atelier, ali no entorno do Centro Dragão do Mar de Arte Cultura. Quando voltarmos, quero me debruçar sobre ele. Ele me sugeriu aprofundar.

Voltando à língua do mar, que no sonho me lambera os pés, não é um fetiche, mas a língua pode e deve ser muito bem usada.

Pensei num poema, nada genial, mas “bonitinho”.

“Na hora dourada, a língua do mar lambia os meus pés, sujos de areia.

E o vento me soprava nos ouvidos segredos de marinheiros e Yemanjás.

Os marinheiros, que após longos meses ao mar, aportando por terras desconhecidas voltam para suas casas sedentos.

A Ponte Velha, o Mara Hope, testemunham o amor em noite de lua cheia.

E o pescador, homem simples, deleita-se sobre os seios da amada.”

Afinal, a conversa foi para um outro lugar, que eu não pretendia, mas, escrevo ao sabor do vento, como sabem, por isso chamo essa coisa de “coisas de tempo e vento”.

Coisas de Tempo e Vento por Marcelina Acácio.

Carnal

Como se eu fosse deus, eu me criei a mim mesma, com o poder da imaginação.

Levei um tempo reconhecendo o corpo antes do primeiro toque.

“Sexo é na cabeça e é solitário, boy”.

Jamais esqueci Uma Flor de Dama, um texto do Caio Fernando Abreu, interpretado por Silvero Pereira, num monólogo brutal.

Mas mesmo deus, vestido de poder e glória, deseja beber o leite que escorre da carne.

Tudo isso é simples e natural.

É a vida acontecendo, escorrendo pelas pernas.

É com presença que se goza. E só se pode fazê-lo estando viva.

Faço do meu gozo um ato de resistência. Estou viva, logo gozo.

Me investigo, exercitando os sentidos. Toco com a ponta dos dedos o clitóris, sinto o gosto, o odor. Sinto, e o sentir é de quem está viva.

Há muitos dias isolada, o desejo cresce, pulsa entre os dedos.

Normal.

Sou carnal. Tenho fome.

 

Coisas de Tempo e Vento por Marcelina Acácio.

Volúpia

Acordei bem. A noite anterior foi de insônia.
Sonhei com o A., passeávamos por uma cidade, praiana, e íamos a um motel, mas não aprofundávamos. Isso foi na noite do dia 10 de maio. Tenho anotado.
A tarde com taquicardias. Muitos dedos. O cheiro inebriante do sexo me excede.
Não sei mais quem desejo, só ardo.
Adoro escrever para quem não me lê. Tenho fantasias.
Começa assim, a minha intuição aponta para o meu desejo, nada é fortuito.
A exceção foi um ex-namorado, que não me rendera sequer uma linha mal escrita, só o título de incendiária. Eu era jovem, sentimental. Não me lembro se foi a intuição que me mandou tocar fogo no apartamento. Nada é fortuito. Ele me fez crer que eu estava louca. Eu só precisei de um incentivo.
Eu sou uma puta louca!
Toda mulher é.

Os homens, nos querem donzelas no meio social, e na cama, uma putinha, putona.
Ah, vão chupar o dedo de vocês!
Coisa boa, estou ovulando. Estou linda, gostosa. Peluda! Uma loba! Selvagem, primitiva, exalando odores, sem ser subtraída.
Ainda questiono a incapacidade do D. de me amar. Eu o amei, excessivamente. Ele não me compreendeu. Nunca me leu. “Escrevi um livro pra você e você não me leu. Posso dizer que você é um escroto, porque você não me lê”. Ele não me sabe, ele me supõe, e acha que sabe tudo. Eu queria odiá-lo. Mas todo mal está em eu ser boa demais. Por que eu nasci mulher e não um anjo, sem sexo?
Bebi uma garrafa de vinho para me acalmar.
Ana Cristina César me olha de óculos escuros. Clarice, com os olhos bem abertos me reprova.
Queria não precisar me exercitar em trabalhos burocráticos. Tenho pouco tempo para essa “coisa” que remexe as entranhas.
O que que acontece depois que se esvazia?
Que lugar é esse tão sublime que só agora eu visitara, mas que sempre esteve ali, querendo se apresentar a mim?
Naquela tarde de taquicardias, muitos dedos, suor e gozo, a ausência escorreu pelas mãos. Cai num vazio absoluto.
O corpo adensou-se, preenchido de silêncio. Uma energia quase palpável. Criou-se uma atmosfera.
Sou comum com a ausência, esse lugar solitário, onde nele me encontro.
E de novo gozo, até esvaírem-me as forças…
E de novo ressuscito…
O corpo, a roupa, o tempo, que jaziam no chão do quarto.

Coisas de Tempo e Vento por Marcelina Acácio.

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Fotos e edição: Jão.

Eu desaprendi como se escreve

Por Marcelina Acácio.

O que eu chamo de “Coisas de Tempo e Vento” são, como o próprio nome sugere, “coisas”  ocasionadas pelo vento e pela mudança do tempo. São esses dois fatores principais que me movem, e consequentemente, a minha escrita. Hoje, confesso, foi dificílimo escrever, não sei se influenciada pela lua cheia, ou se porque estou no quarto dia da minha lua. Portanto, o que vem a seguir são tentativas, que eu confesso (estou eu mais uma vez me confessando) não me deixaram satisfeita, logo, estou entregando ao mundo algo que eu considero poderia ser melhor, o mundo merece o melhor. Vamos seguir com as tentativas.

Tentativa I

Eu, Marcelina Acácio, venho do sertão.

Esta é a minha única verdade, a que eu carrego desde o meu nascimento.

O que excede a isso são construções sociais, de educação, repressão, e opressão sobre um corpo.

Os sistemas de opressão capitalismo, religião e sociedade, operam sobre o corpo para que o percamos, e tendo-o perdido, percamos também o pensamento crítico.
Esses sistemas operam sobretudo para tolher nossos desejos, já que são eles, os desejos, a força movedora do mundo.
Detentores da posse, do domínio dos corpos, esses sistemas agem limitando-nos da nossa humanidade, nos afastando de nossa essência, selvagem, primitiva e pagã.

No corpo tem-se o que nele é posto.

Tenho um corpo sertanejo e ancestral.

Marcado pela convivência com a natureza áspera, árida, bruta, difícil e violenta, que exige dele uma constante batalha pela vida.

Meu corpo desde o seu nascimento foi esculpido para resistir.

Sou áspera, difícil, densa como uma pedra.

No entanto, no encontro com a arte, tornei-me sensível.

Tentativa II

“O que é que se tornou importante para mim?” C.L

A escrita e as artes do corpo.

Escrever é desnudar-se, é entregar-se sem volta, é corajoso e ao mesmo tempo demente.

Duas carreiras eu considero de risco e às duas tenho me dedicado: o teatro e a escrita.

A primeira é coisa mais recente, deu-se a partir de 2017.

O teatro me acolheu quando eu não cabia mais em Lugar algum.

Já a escrita, me acompanha desde a tenra idade. Logo cedo eu descobri que eu sabia escrever. Era fácil. Eu tinha questões incompreendidas suficientes para colocar no papel e olhar profundamente para elas.

Um amigo a quem eu muito estimo, me disse certa vez vir me observando há um tempo, e notara a minha atração pelas situações de perigo.

Mas logo eu, que tenho tanto medo e insegurança?! Se me atraio pelo perigo, de certo não é coisa racionalizada.

Falo de risco e demência, porque tanto o teatro quanto a escrita colocam-nos em situação de total vulnerabilidade diante do outro. E ao passo que tenho que lidar com as questões do ego, me entrego sem calcular o que virá, o desejo é mais forte que tudo.

Não sei se escolhi ou fui escolhida por essas duas artes, o fato é que hoje eu não saberia fazer qualquer coisa que fosse distante disso. Talvez seja pra mim o modo mais fácil de acessar o mundo, e de pretensamente, muito pretensamente tentar melhorá-lo.

Também as duas, ao meu ver, são das linguagens artísticas as que mais se aproximam e se aprofundam nas questões humanas. Prova disso é que o teatro só existe na presença do outro, presença, olhar, encontro. Os outros que também somos. Só o teatro nos permite ser ao mesmo tempo atriz-criadora-espectadora-poeta, olhar com o terceiro olho. A poesia da atriz está escrita no corpo, são os gestos, as partituras físicas, o que o corpo diz, para além do texto.

E a escrita, por ser solitária e íntima, nos exige um mergulho interno, um voltar-se a nossa humanidade, para tirar das entranhas as crias que serviremos ao mundo.

Serviço ou desserviço?

Para que serve o que eu escrevo?

Se há alguém que se pode beneficiar dessas “coisas”, sou eu. Escrevo porque não sei não escrever.

Essa escrita não tem pretensão a nada, apenas de ser e existir. E eu gosto de olhar para ela como um organismo vivo, ou como uma marionete, que eu posso a qualquer tempo movê-la. Ela sou eu mesma me dando ao mundo.

Quanto as artes do corpo, pelas quais sou fascinada, como a dança, a performance e o teatro, é preciso entender melhor desse corpo, tanto da sua construção biológica, quanto social.

Tentativa III

Percepções de um corpo isolado

O corpo se agita com a masturbação, e as glândulas produzem mais substâncias.
Cresce o odor, a respiração e os batimentos cardíacos se alteram.
Também na boca é possível perceber um outro sabor, como do gozo.

No mundo pós pandemia, faremos sexo com mais entrega?

Descansaremos nossos olhos na face do outro por mais tempo?

Conheceremos a cartografia do nosso corpo?

Sinto saudades

do sertão e da Praia do Futuro.

da rotina das aulas no IFCE.

do teatro.

de ficar em casa por escolha.

de alguns amigos.

do atelier do Zé Tarcísio.

de respirar lá fora quando o ar de casa me sufoca.

de uma dança orgástica.

Tentativa IV