Aguaceiro

Fortaleza não tem estrutura para chuva.

Nem eu, no quartinho da empregada do apto 101, do edifício Sonhos Dourados.

Digo assim, mas não reclamo o espaço, o chão é de madeira.

Nele cabem livros, uma cama de solteira, rede e um armário, de uma madeira muito boa, não compensado, digo assim que é boa mas não conheço, não sei quando uma coisa é boa, a madeira me parece boa, mas eu não sei se ela me suporta.

O que tenho mesmo e que me acompanha, como amuleto, são alguns livros, inclusive para venda, outros para devolução, como o Livro do Desassossego, que eu nunca devolvi ao Eduardo.

Pelo tempo, eu devia ter o direito de não o devolver, também não o leio, gosto de sabê-lo ao alcance de minha vista.

Será que isto é um tipo de doença?

Não quero, mas quero aqui!

Me torno quem eu sempre neguei.

Aquela que me escrevi, não a sou.

Pudera, uma mulher mutável.

Tenho sonhado com viagens

Aliás, isto é um fato que me faz minimalista, poucas coisas, poucos amigos, não pesam na viagem.

Já chega com esta coisa que não chega a lugar nenhum.

É urgente salvar a palavra

Tenho dito isto exaustivamente, escrever me salvou a vida por um longuíssimo tempo, e eu tenho por isto uma espécie de saudade, uma saudade que é irmã de minha infância.

A palavra me foi uma herança de meu avô materno, que nesta vida ocupou também o importante papel de meu pai.

Pai não frequentou a escola regular, em vez, aprendeu muito sobre o tempo, na observação da natureza e na preservação da memória, um pouco de matemática, e a palavrear. Gostava do português, gostava de me ouvir falar, gostava que eu escrevesse. Gostava de me corrigir. Herdei o mal da correção, embora erre vergonhosamente.

Pouco sei do Novo Acordo Ortográfico, apenas que ele precisa ser revisto e atualizado.

Eu não pensava até a exaustão e todo o tempo de minha existência era preenchido.

Hoje não trago novidades.

Meu pai não me compartilha nenhuma palavra recém-nascida, nenhuma que ele me peça para escrever.

É urgente agora salvar a palavra, de tudo que é urgente salvar, também a palavra tem sua urgência e não cabe mais tanta urgência em mim.

Salvar a palavra, talvez seja exercitar o silêncio, estou pensando nisto agora.

Se insisto em escrever quando a palavra não se oferta a mim, acabo por feri-la e por consequência a mim mesma. Não escrevo, sou amiga da palavra, e como amiga sei que o distanciamento é, nestes tempos ainda mais, saudável a tudo.

Na próxima quarta-feira volto com um texto último para este canal, saudável a todos nós.

Cuidemo-nos!

Conflito Interno

Decido que vou escrever
O meu excesso de autocrítica me tem tolhido o exercício.
Me era mais fácil falar das questões que se iam desvelando na infância e adolescência, isto significava a minha total liberdade e autonomia sobre mim.
Também eu não tinha as preocupações que hoje me exigem. E eu não tinha tantos meios de expressão.
Entrei num jogo próprio da ambição e do ego.
Mas não, não sirvo para o jogo.
O entusiasmo com a palavra me fazia crer que eu podia escrever sobre qualquer coisa que quisesse.
Que eu podia dar mais vida à vida.
De vida em mim, o gozo, que já não me é motivo para uma escrita.
Z. tinha razão quando me disse que era uma fase.
A poesia erótica não me excita agora, assim como o romantismo.
E eu não tenho habilidades para escrever ensaios, nem peças para teatro, nem qualquer outra coisa.
Melhor será sempre o silêncio.

Exercício diário

03 de março de 21

Ainda me exercitei antes de dormir, com Ana Cristina César e uns rabiscos desimportantes no caderno.

Não foi nada além de um bobo exercício.

Enviei para H, que me respondeu, como sempre o faz, com palavras carinhosas.

Será que estou me tornando uma mulher seca?

O clichê da terapia na escrita.                                                                    

A psicóloga me pede coisas difíceis.

Olhar para mim mesma com uma beleza que é ocultada de meus olhos.

Ter uma ou outra qualidade não faz de mim especial em qualquer coisa.

Se sou justa ou se me esforço por ser justa, isto não quer dizer nada, não seria o natural?

Se há profundidade e honestidade, isto também me é natural, portanto não se deve contar.

Se há verdade, e se há transparência, não há nada que ser dito sobre isto.

Por que haveria de olhar para o que sou?

Para saber o que sou, certo!

Bem, mas isto não importa!

O que quero dizer é que não vejo a necessidade em racionalizar o que me é natural.

Mas, ao mundo externo é preciso explicitar o quanto do bem e da bondade, o quanto o meu intelecto e minha carne e meu órgão sexual e minha alma apaziguada pode oferecer.

É preciso ser útil, não basta ser.

Há algo em minha existência que eu sinto como sendo maior que tudo, eu escrevo, e o que eu escrevo só eu escrevo, e eu posso fazê-lo com liberdade, porque não o faço para o mundo, mas para mim.

Memórias de carnaval

Foi só no ano de 2020 que tive minha iniciação no carnaval.
Nos anos anteriores me mantive distante, tanto por não gostar das multidões e da excessiva euforia que elas carregavam e que deixavam seus corpos, nas ruas, avenidas e nos litorais, como pelo fato de ter vivido infância e adolescência no sertão, onde o carnaval me era apresentado quando meu avô, no rádio já gasto pelo tempo, sintonizava uma frequência para ouvir marchinhas carnavalescas.
Também havia numa rádio popular uma programação especial com músicas baianas, onde prevalecia o axé.
Foi num dia de carnaval, ainda em minha infância, tocava no radio a canção de Daniela Mercury “O canto da cidade”, quando nos chegou a notícia trazida da cidade, de que minha suposta bisavó paterna que estava já muito velha, havia partido.
A notícia e a canção me ficaram entrelaçadas e eu nunca me esqueci daquele carnaval e do conflito que o entrelaço me gerou.
Pessoalmente, acho o carnaval demasiado para o que carrego em mim.
2020, este que será para sempre o ano de muitas iniciações me lançou de casa rumo ao bairro Benfica num sábado de carnaval, adequadamente vestida para a cerimônia inicial.
O impulso não viria solitário, pois eu jamais faria tal desvario sozinha, mas partiu da iniciativa de amigas, que milagrosamente transformaram-me.
Naquele dia aceitei iluminar os olhos e tingir os lábios com uma cor que não me era habitual para o tingimento dos lábios, e aceitei usar roupas íntimas para a minha iniciação.
Guardo aquela tarde de muito calor, calafrios, odores, maracatus, até à volta para casa, a pé, do bairro Benfica para Varjota, com passagem no show do Gil, na Praia de Iracema.
Naquela ocasião estive melhor por ter encontrado em meio aos foliões, queridos e queridas.
Esta é toda a minha relação com o carnaval, estou agora escrevendo e vendo a chuva cair, molhar a terra, nesta terça-feira de carnaval sem carnaval, em que não vejo motivos para outra escrita.

Escrita tardia

A minha relação com os homens tem sido sempre um cansaço.

O mesmo cansaço que me acomete a família, o trabalho, e por muitas vezes o convívio social…

Ainda ontem me perguntava para que serve o meu corpo, se ele não serve à minha satisfação.

Não tinha ganas de seguir vivendo.

Tinha desejos e pensamentos de atentar contra o meu corpo.

Atentar contra si, seria tomar as rédeas do seu destino?

Se o meu corpo e a minha consciência, que é tudo o que eu tenho, não encontram aqui espaço algum, para que lugar eu me mudaria?

O amor é um ato político

No último capítulo do livro Memórias da Plantação Episódios de Racismo Cotidiano, que Grada Kilomba nomeia Descolonizando o Eu, a lisboeta com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe, radicada em Berlim (GER), define o trauma segundo a psicanalise e nos escreve como o trauma colonial é vivenciado por mulheres negras e homens negros, e fundamentalmente, como é possível transgredi-lo, “descolonizando o eu”.

Grada inicia conceituando o trauma

“O conceito de trauma refere-se a qualquer dano em que a pele é rompida como consequência de violência externa. Analiticamente, o trauma é caracterizado por um evento violento na vida do sujeito “definido por sua intensidade, pela incapacidade do sujeito de responder adequadamente a ele e pelos efeitos perturbadores e duradouros que ele traz à organização psíquica” (Laplanche e Pontalis, 1988, p.465).

(Kilomba, 2019, p. 214)

E continua

 “Nesse sentido, vincularei o “trauma colonial” ao “trauma individual” e explorarei as diferentes categorias de trauma dentro do racismo cotidiano: (1) choque violento, (2) separação e (3) atemporalidade”.

(Kilomba, 2019, p. 216)

No trauma colonial, a escravização de mulheres negras e homens negros é revisitada por esses sujeitos cotidianamente através dos eventos racistas.

É importante que eu fale, também escreva, como uma mulher de pele clara, no entanto, sou uma mulher de pele clara nordestina e sertaneja, o que me coloca em uma outra posição. Minhas derivas sobre este assunto, se assim posso chamar esta coisa que desponta intuitiva e urgente parte de minhas experiências com a violência de gênero e como ela recai sobre o meu corpo nordestino, sertanejo, não padrão, acobertado de pelos. O que quero dizer é que o trauma que vivencio passa por outros lugares que não são o de uma mulher negra, mas que encontra semelhanças no “trauma colonial”.

Usarei algumas definições de Grada, pois elas servem muito além ao meu contexto, mas longe de querer dar um outro sentido.

Contextualizando as categorias do trauma colonial e individual

(1) choque violento

“Essa é a primeira característica do trauma clássico, qualquer experiência totalmente inesperada que o sujeito é incapaz de assimilar e à qual a resposta imediata é o choque (Bouson, 2000,; Laplanche e Pontalis, 1988)”. (Kilomba, 2019, p. 218)

No contexto de mulheres negras e homens negros “o choque violento, portanto, resulta não somente da agressão racista, mas também da agressão de ser colocada (de volta) no cenário colonial”. (Kilomba, 2019, p. 218)

No meu contexto, este choque violento resulta da violência que tem sido performada por homens brancos e mulheres brancas, de classe social distinta, tanto acerca do estereótipo da mulher sertaneja, forte, corajosa, resistente, como da exótica, tanto em relação aos pelos, ou ao que faço com o meu corpo, como do envolvimento em relações abusivas, o que me tem feito reviver o abandono paternal e as violências sexuais.

(2) separação

Quero me deter especialmente sobre esta categoria: separação.

“” É como se eu tivesse de cortar isso de mim, cortar minha personalidade como uma esquizofrênica. Como se algumas partes de mim não existissem””.

(Kilomba, 2019, p. 220)

“A metáfora de “cortar” ou “cortar sua personalidade” expressa o segundo elemento do trauma clássico: o sentimento de ruptura, corte e perda causada pela violência do racismo cotidiano, um choque inesperado que priva o sujeito de suas conexões com a sociedade”.

(Kilomba, 2019, p. 220)

A ruptura aqui significa sobretudo um afastamento do sujeito da presença, segundo Frantz Fanon, citado por Grada:

““(…) eu me levei longe da minha presença, para bem longe, de fato, e me fiz um objeto””

(Kilomba, 2019, p. 221)

É também um afastamento da identidade, da comunidade e do elo familiar e cultural do sujeito. Ao ler Grada compreendemos de que forma se deu o processo de escravização dos povos negros, e como o aniquilamento de suas identidades (nome, sobrenome, raízes ancestrais) faz parte do processo de dominação e opressão do sujeito negro. Para citar o exemplo de Anastácia:

“Sem história oficial, alguns dizem que Anastácia era filha de uma família real Kimbundo, nascida em Angola, sequestrada e levada para a Bahia e escravizada por uma família portuguesa. Após o retorno dessa família para Portugal, ela teria sido vendida a um dono de uma plantação de cana-de-açúcar. Outros alegam que ela teria sido uma princesa Nagô/Yorubá antes de ter sido capturada por europeus traficantes de pessoas e trazida ao Brasil na condição de escravizada. Enquanto outros ainda contam que a Bahia foi seu local de nascimento. Seu nome africano é desconhecido”.

(Kilomba, 2019, p. 35)

No contexto da violência de gênero, que afeta principalmente corpos femininos negros (interseccionalidade (racismo x sexismo)), esta separação é ainda mais brutal.

Mulheres têm sido separadas de suas subjetividades, complexidades, lançadas para longe de suas histórias, de seus pais, irmãs /os, filhas /os, ancestrais, aldeias, etnias, tornando-se objetos. “Uma história centrada no drama da desunião, da separação e do isolamento”.

(Kilomba, 2019, p. 221)

No contexto da separação Grada cita bell hooks em All About Love: New Visions (2000) e Salvation: Black People and Love (2001), a escritora aponta para o amor como um projeto político a fim de promover a união e a retomada das subjetividades do sujeito.

Mas de que tipo de amor bell hooks fala?

Novas visões são visões diferentes das que conhecemos. No que diz respeito às relações afetivas, a forma de amor a qual fomos ensinadas/os e experienciamos compreende ao meu ver um grande equívoco, pois está associada à dor, à posse e à opressão. A violência neste sentido tem sido confundida com o amor, e assim temos sido silenciadas/os.

Numa rápida busca na internet encontrei um artigo sobre All About Love: uma nova perspectiva sobre o amor, onde bell hooks questiona as construções equivocadas do amor, e já que não o sabemos, tampouco saberemos o que é amar e ser amada/o.

O amor romântico tem sido o grande vilão da vida das mulheres. Assim como a ideia de amor paternal, maternal, familiar, ao meu ver, muitas vezes constitui outras formas de aprisionamento e opressão à mulher.

Tudo o que você pode fazer por uma mulher é ensiná-la a ser só.

Para bell hooks o amor é uma ação, muito mais que um sentimento.

Eu acredito que só podemos amar quando estamos sendo, agindo como sujeito. É urgente revermos as relações nas quais não somos sujeito, elas compreendem não ao amor, mas à opressão.

Tenho me questionado sobre o acolhimento feminino, nessa perspectiva do amor que se dá pelo cuidado, responsabilidade, comprometimento e escuta, como cita hooks, e não o vejo efetivamente entre mulheres, mas o percebo entre os homens. E em partes compreendo a partir de uma autoanálise, é demasiado cansativo, pois temos a todo instante de lidar com nossas próprias questões, e trazendo Grada novamente “a sororidade feminina é uma ilusão”, aqui ela se refere ao feminismo branco que ignora a interseccionalidade, que é a intersecção de opressões diversas contra a mulher negra.

Minha pergunta é de que forma podemos vivenciar este tipo de amor, se nossos corpos têm sido marcados pela violência, se nem ao menos sabemos o que é o amor?

“Não importa a ternura da conexão, ela foi, muitas vezes ofuscada pelo trauma do abandono e da perda”.

(Kilomba, 2019, p.221)

(3) atemporalidade

o passado e o presente

“Essa sensação de imediatismo e presença é o terceiro elemento do trauma clássico. Um evento que ocorreu em algum momento do passado é vivenciado como se estivesse ocorrendo no presente e vice-versa: o evento que ocorre no presente é vivenciado como se se estivesse no passado”.

(Kilomba, 2019, p.223)

Desta maneira, mulheres negras e homens negros têm tido de conviver com os espectros do passado colonial, que os aterroriza através do racismo cotidiano.

Assim como toda violência e opressão é revivida pelo sujeito que a vivenciou toda vez que ele se depara com um novo choque violento.

As questões que Grada traz são densas e profundas, me detive a estas porque elas me trouxeram a mim e me são urgentes. É preciso falar sobre o trauma.

Para finalizar, Grada apresenta uma questão que pode ser disparadora do sujeito para a conquista de sua autonomia:

“O que o racismo fez com você?”

(Kilomba, 2019, p.226)

“A questão “O que o racismo fez com você?” não tem nada a ver com vitimização; tem a ver com o empoderamento, pois precede o momento no qual alguém se torna o sujeito falante, falando de sua própria realidade”.

(Kilomba, 2019, p.227)

Grada Kilomba é artista interdisciplinar, escritora e teórica.