30 de Setembro de 2020.

Margot está aqui, o que é motivo de festa, de outros que temos. Falando assim pareço que ignoro a realidade. Não é verdade, eu a sei, e por isso mesmo celebramos o encontro, depois de longos e agora de repente meses distantes.

Amizade é este sentimento de liberdade, de nos sabermos no encontro ainda e sempre amigues, independente dos caminhos.

Tenho amizades saudáveis, este é um orgulho que carrego.

Amanhã é assustadoramente Outubro de 2020.

Volto para a festa, importa que eu dance entre e com os meus.

Viver não tem cura, é poema Leminskiano.

Marcelina Acácio

Viver é denso e impossível.

Crise pós-aniversário. Muito natural.

O sangue de minhas tentativas escorre.

A vida me escorre.

Só será possível curar o mundo por vias da poesia. Esta é a única inteligência que busco, a inteligência sensível.

Não darei conta jamais das complexidades do mundo contemporâneo, nem das minhas próprias, mas busco incessante a lucidez para atravessar os tempos.

Exercícios do existir

Chamo a tudo isto de “exercício”.

É raro escrever com a “intuição”.

Pela manhã exercitei

“Fagulhas do teu olhar entram com o vento, pela janela aberta, e incendeiam a casa, o quarto.

Vida também aberta.”

“Teus olhos, duas chamas.

Corpo-flama”.

Para

Orides Fontela

Flor

Silêncio

Pedra

Lúcida

A poeta fala de si mesmo, como o artista está sempre a representar o seu autorretrato.

“O real do pássaro está no voo.

Prendê-lo é roubar-lhe o real.”

Os exercícios acima são uns, motivados pela leitura de Orides Fontela, Ana Cristina Cesar, e Clarice Lispector. Os que vêm a seguir são outros.

Atenuadas as tensões da minha revolução solar, volto-me às questões práticas.

Anotações

1 – tarefas procrastinadas, voltei a elas, e Oxalá eu as cumpra até o final da pandemia.

2 – às terças-feiras, às 08h30, tenho meditação com Natália Coehl. Os mantras tupis (são vogais, cada uma correspondente a um chakra) têm gerado uma energia interessante de observar, sinto o corpo vibrátil ao fim de cada prática.

3 – de vento em poesia | quais palavras são geradoras de movimento? Pensamos, eu e Rafaela Lima, em dançarmos algumas poemas, isto é um desejo e um delírio para ambas, não há pressa em ser, iniciamos um processo, e eu adoro o status “em processo”.

4 – coletivo as filhas da mãe | voltamos ao processo inicial – no encontro de ontem compartilhamos nossas urgências, sobrecargas e etc. a questão principal que uma das filhas trouxe, é do quanto se sente sobrecarregada como mãe, esposa, mulher, dona de casa, e artista, sem tempo e disposição para a criação, e com angústia, esta é mais uma realidade que a pandemia expôs. Precisamos falar das questões de gênero na arte.

5 – Subjetividades e sexualidade feminina.

6 – temporal – encontro de pesquisa em improvisação em dança, às segundas-feiras, às 18h00.

7 – prática de Yoga com Laya, às segundas e quartas, às 19h30.

8 – redes sociais – aprendizagem pelos memes (diariamente).

9 – feliz ano novo!

Aproveitei para fazer anotações que precisava fazer.

Não uso agenda, porque não a sigo. Adoro comprar cadernos novos. Comprei dois, um para “coisas” práticas, outro para “coisas” reais, como o voo do pássaro.

Agora sigo para uma sessão de modelo vivo, que não estava programada, chamo isto de exercício da presença.

Vá escrever!

Ao meio-dia sentei para escrever.

Esta escrita dramática que é sempre outra, mas que é sempre a mesma.

Sinto que posso ter nascido mesmo para esta “coisa”, senão, o que explica o meu cansaço existencial?

A sensação irremediável da vida, só é possível suportá-la escrevendo-a.

Não sinto em outras linguagens este cansaço, mas a escrita torna-me cansada, medito demasiadamente.

Escrevo mentalmente à exaustão.

O exercício do pensar não é um trabalho?

Tenho pensado no que seja “trabalho”.

Tenho trabalhado sempre no exercício do pensar, e este pensar vem de muitas coisas, o que faz da minha alma inquieta.

Onde quero chegar com isso?

Estou aqui tecendo uma teia

A exaustão que me causam os pensamentos me impede muitas vezes da praticidade. Há poucos dias por exemplo, tendo que tomar uma decisão simples me senti imobilizada, assim como tenho procrastinado tarefas práticas.

A única rotina possível tem sido a limpeza matinal da casa, porque tenho questões com ambientes sujos, à minha sujeira só eu tenho acesso.

Nasci para escrever. É como manter a casa limpa, é intrínseco a mim.

Quando não o faço, penso se estou viva. A sensação é de que os dias se repetem.

Este é o meu único amor possível, mas que também não me dá garantia alguma.

Escrevo porque é mais fácil para mim escrever, do que não fazê-lo.

Estes dias recebi do “A” um “vá escrever”, só depois entendi, eu havia lhe enviado:

“Luto contra desejos e vontades, mas, humana que sou, fracasso”.

O mais importante para mim é escrever

Marcelina Acácio

Eu tinha 16 anos quando uma tia me trouxe para morar com ela, o companheiro e o filho, em Fortaleza. Era 2005. Havia dois anos que nossa mãe falecera.  

Embora o pai ainda fosse vivo, a ligação com a mãe era muito mais forte, e era certamente o que me mantinha sob a sua asa, vivendo no ninho da família. Com a partida dela, aos meus 14 anos, cortei o cordão umbilical.

Ter saído de casa cedo e me tornado independente me fez uma mulher seguramente mais forte e com desejos de liberdade.

Nunca soube exatamente o que eu queria, mas a liberdade sempre foi o meu caminho.

Não me privei de viver as liberdades sexuais que a juventude me apresentou, assim como as paixões proibidas, os encontros casuais, e toda sorte de deleite que a vida nos oferece. Vivi absolutamente tudo que quis viver, e o que não me foi possível, não foi por culpa minha, é que nesse caminho também está o Outro, me refiro ao Outro enquanto Sujeito.

Então, esta mulher que se diz livre e independente estanca de ser quem é quando esbarra no Outro. Me é tão impossível me relacionar e não encarnar o Outro. Me é tão impossível me relacionar com o Outro, e ao mesmo tempo comigo.

Consigo me ver no futuro, uma velha, morando sozinha numa casa a alguns metros da estrada, um jardim com muitas plantas, com pouco contato humano, macerando flores para uma infusão, e escrevendo, naturalmente. Esse é o retrato da minha velhice. Sem clichês de uma velha bruxa cercada por gatos.

Não nasci para a maternidade.

Curto dormir as 08h que a medicina recomenda. Assim como sair para os rolês que não estavam programados. E viajar sem data limite para regresso.

Assumo que os meus excessos me cansam.

Assumo que os meus pensamentos me exaurem.

Isto eu não sei aonde vai dar, sinto que me afastei do que havia iniciado.

O que eu quero dizer é que, eu não sinto saudades do passado. O meu passado é como eguns que não encontraram a luz.

Reclamo tanto da vida, e no entanto reconheço, fui tão agraciada.

Mas não é o suficiente.

Eu queria ser amada. Este foi sempre o meu desejo.

Que me adianta toda a sorte que o destino me reservou, se nela não cabe o amor?

Tão simples!

Pedi tão pouco à vida, e este pouco me foi negado.

Saio desta “coisa” e salto para outra.

07.08

Herança

Do pai:

dois lenços.

Da tia Consuelo:

uma imagem (de plástico)

de Nossa Senhora Aparecida.

Da mãe:

duas saias de linho.

O que vem antes é uma releitura do poema “Herança”, de Orides Fontela.

Acordei pensando nele, e nos lenços de meu pai. Meu pai, que hoje faria 88 anos.

Em seguida vem o poema original:

Herança

Da avó materna:

uma toalha de (batismo).

Do pai:

um martelo

um alicate

uma torquês

duas flautas.

Da mãe:

um pilão

um caldeirão

um lenço.

(FONTELA, 2015, p. 226)

Sinto falta do silêncio.

Não sei se isto é um poema:

Findo

Rindo

Fundo

O mais importante para mim é escrever, que ser lida.

Referência bibliográfica

FONTELA, Orides. (Orides Fontela Poesia Completa, Hedra, São Paulo, 2015).

Corpo, lugar de presença

Me peguei pensando novamente na PRESENÇA, e me vieram lembranças dos momentos que eu vivi de maior gozo. Estão associados à investigação da anatomia, dos sentidos e dos movimentos do corpo, só por isso escrevo, porque esses instantes de PRESENÇA me permitem a observação e consequentemente o registro.

Meu corpo foi sempre uma pedra, mas esteve sempre em movimento.

Sou uma pedra que se move nos primeiros raios de sol e depois do crepúsculo.

A quem usa o corpo como suporte é exigido disciplina e uma escuta atenciosa de tudo que se altera.

Dou atenção à respiração, aos batimentos, espasmos, estados de tensão, relaxamento, densidade, e aos micro movimentos internos. Experimento sempre o estado de tensão por pensar que viver implica viver em estado constante de tensão. É absolutamente tenso o presente pela incerteza do instante posterior.

Como diz o Zé Tarcísio “é a gratificação dos sentidos, meu bem”.

Gratificar os sentidos seja o sentido da vida.

Como me alegro quando como bem, ou quando sinto o vento vindo do mar. Da última vez em Barão Geraldo eu vi um crepúsculo tão belo que os olhos marejaram. Vi o céu numa paleta de cores que ia da cor laranja à rosa, e de repente ela se esvaiu, e eu sabia que nunca mais viria aquele pôr-do-sol.

Não sei se tenho saudades, não gosto de rememorar o passado, já que não posso voltar a ele, e nem modificá-lo. Fernando Pessoa, não me lembro se no Livro do Desassossego, diz:

“o passado me lembra o que eu não fui”.

Mas o corpo tem memória, e sem que se tenha às vezes controle ele acessa determinadas camadas, nem sempre claras.

“Construído na sua vida cotidiana, em processos de socialização, de educação, de repressão, de transgressão”. (DANTAS, 1999, p. 100)

O corpo, para além da sua formação química, física, biológica, é resultado de uma construção social, cultural, e do meio. O corpo de uma mulher sertaneja é diferente do corpo de uma mulher do litoral, que é diferente do corpo de uma mulher da cidade, de área nobre, que difere do corpo de uma mulher negra que habita na periferia. A violência nos molda de maneiras diferentes. O meu corpo tem gravado as mais diversas. Física, sexual, psíquica, moral.

Assim como adoece o corpo violentado, também está nele a própria cura, que pode ser na investigação estética e experiência do sensível, na busca pelo movimento, nas pulsões, na dança, no trabalho com as mãos, no manuseio das ervas, na redescoberta dos saberes ancestrais, enfim, na PRESENÇA. O estar em si é um portal para adentrar outros mundos.

Referência bibliográfica

DANTAS, Monica. (Dança: o enigma do movimento, Ed. Universidade, 1999).

Vivendo o presente

Marcelina Acácio

Tenho exercitado não fugir ao presente, este é um exercício de atenção. Escuta.

Quando sinto que me distancio, imediatamente volto.

Isto é a PRESENÇA, um corpo vívido, habitado e habitando.

Estava certa da mudança para uma casinha no Centro, com quintal, varanda, plantas frutíferas, numa rua aparentemente tranquila, entre a Padre Valdevino e Bárbara de Alencar, nas imediações do Banco Central, a poucos minutos do mar da Praia de Iracema.

Mariana e eu nos encantamos de imediato e num ato de impulsividade decidimos alugar.

Da casa futura à casa presente, o trajeto percorrido de bicicleta foi vestido por pensamentos que já me faziam moradora da casa, cozinhando num fogão de barro, que eu e Mariana já havíamos construído, em menos de duas horas.

Sem contar os diálogos:

– Ah, mas os banheiros são tão pequeninhos, Mariana.

– O quintal tem espaço para um chuveiro, e nós podemos construir um banheiro sustentável.

– A feijoada do Júnior Barreira no domingo, com muito samba.

– Uma mesa de madeira grande para o alpendre.

Chego em casa, banho e comunico à família (esta que eu escolhi, que são os melhores amigos com quem eu poderia passar 05 meses de confinamento, porque nós somos as pessoas que convidaríamos para as nossas festas).

Num instante meditativo no meu quarto, uma voz interna me diz para eu voltar ao presente, eu estava já morando em outra casa, e não habitava mais à mim mesmo, pois que para habitar-se é preciso estar no presente. Recuperei a consciência e com calma, dois dias depois, optamos por adiar o plano da mudança, dadas as incertezas com o futuro. Estou confortável, e é esta a questão. Mariana virá morar conosco, oficialmente.

Eis o exercício, trazer-me insistentemente ao presente.

Voltei a ter saúde, e com saúde se pensa melhor.

Não me canso mais com o mundo, e nem com esta ideia de amor.

Me preparo para entrar no meu inferno astral. Hidratei os cabelos, e agora vou para um banho de ervas (manjericão, alecrim e boldo, com óleo essencial de patchouli e muita reza), feito pela Raísa Inocêncio, amiga que os ventos fizeram cruzar os nossos caminhos. Epahey, Oyá!