Vejo o Tempo Incerto

por Júlio @casamentopoetico

Dia após dia uma pergunta filosófica buberiana atravessa meu pensamento, como um relógio sem pilha na parede. Sem corda, sem força, sem propulsão para a vida. Estático, sem brio nem vigor. “O que faz com que você seja você”?

O relógio parado não marca as horas, não define o tempo, apenas se propõe a existir, semelhante a um quadro na parede.
Então, vejo o tempo incerto, de um presente estagnado, sem passado declarado, sem futuro alcançável. Estático. Mecânico. Árido e interminável é o tempo, afirmava Neruda.
Nenhum ponteiro se mexe.
Basta uma pilha e todo elã vital se recompõe, basta uma vontade de existir para que tudo se refaça, basta um mecanismo e todo movimento se renove. Marcadores, numeração, o fato de dar corda faz acordar, faz a cor dar, faz a cor de ar, invisível, intermitente, renovado. Como que vindo de dentro. Eu sou eu e as minhas circunstâncias, nos lembra Ortega y Gasset, independente se o mundo não está bem e o tempo pareça incerto, escolho estar feliz. Outra questão fundamental: por que as horas difíceis demoram a passar enquanto os momentos felizes voam ligeiramente? O poeta Virgílio aponta uma resposta plausível (ars longa, vita brevis) a vida é breve e arte longa, a oportunidade fugaz.

Pensando sobre pão no meu lugar

Pensar em pão é pensar também num universo de assuntos. Desde sua origem milenar, passando por sua importância social e cultural através dos tempos, até chegar no campo individual, onde nós somos privilegiados pelo desfrute dos prazeres palatares, olfativos e visuais. Fazer pão é delicioso e comer é ainda melhor.

Não experienciei na infância a cultura de fazer pão em casa, a não ser o regionalmente chamado “pão de milho”, também conhecido como cuscuz. Meu primeiro contato com fazer pão foi quando estive em São Paulo, já com vinte e poucos anos de idade. Assim foi: numa ocasião familiar assisti o cunhado do meu irmão, padeiro experiente, na condução de uma receita. Foi lá, em 2014, que me identifiquei com o ofício. Desde então foram algumas tentativas frustradas, estudo, tentativas bem sucedidas, pesquisas e mais experimentos até chegar no #lugar onde estou, na cozinha, durante a maior parte dos meus dias.

Um tempo depois, já em 2015, ingressei na faculdade em Fortaleza. Logo comecei a procurar empregos para me manter e estudar. Essa busca não demorou muito, pois as amigas com quem dividi morada, Diná e Carol, me incentivaram a fazer os pães para venda. Foi aí que tudo começou e dei início ao meu negócio, o @paodojean. Foi fundamental ter incentivo e apoio dos amigos nesse início de jornada, pessoas maravilhosas. Sou muito grato ao Uirá e à Geciola também pelo apoio que me deram no começo. E tantos outros amigos.

Pessoalmente falando, no que diz respeito aos saberes e fazeres, percebo que nos tornamos cada vez melhores em uma determinada função, ação ou habilidade a medida que ficamos bons em outras – é diretamente proporcional. É como acredito que funciona o universo: as coisas levam a outras coisas. Fazer pão, como exemplo, me faz melhorar em outras áreas da vida. É como uma engrenagem que quando uma peça se move as outras partes se movem junto. Às vezes tudo que precisamos é fazer alguma coisa boa para alguem ou, principalmente, para nós mesmos.

Colocando os pés na atualidade, sabemos que têm sido tempos tão difíceis que às vezes é melhor se perder em pensamentos nostálgicos que remetem a momentos agradáveis. Neste período pandêmico teve quem aproveitou para aprender e fazer seus próprios pães em casa. Isso é realmente bom! Fico contente demais em ver tanto conhecimento sendo compartilhado por tantas pessoas boas na internet. Cito aqui em especial a grandiosa professora Nanda Benitez, quem me proporcionou um “divisor de águas” no meu processo pessoal.

Quando falo de conhecimentos me vem a reflexão sobre educação. Reflexão de que uma boa escola deveria ter uma disciplina sobre saúde básica, que necessariamente fale sobre alimentação saudável, sobre como preparar alimentos, mostrar que nós somos o que comemos, que a saúde começa pela alimentação. Mas é triste que isso seja, por enquanto, um sonho meio distante, pois sei que ainda é um privilégio para alguns ter acesso a conhecimento útil, acesso a comer bem, comer saudável ou simplesmente comer.

É difícil falar somente das coisas boas da vida e ignorar as mazelas que nos rodeiam. Mas é preciso equilíbrio em tudo nessa vida. Equilíbrio e movimento é o que mantém a vida viva.

Assim, movendo o pensamento para o meu #lugar atual, quero aproveitar para citar uma querida amiga e parceira de ofício aqui em Quixadá. Marta, além educadora no Museu da cidade, fabrica artesanalmente os saborosos e saudáveis pães da Marta. Ela tem muito conhecimento e oferece qualidade, pois além de usar bons ingredientes, faz o processo de fermentação lenta em seus pães. Esse processo faz a diferença nos pães. Além de tornar a massa mais saudável, de fácil digestão pelo organismo de baixo índice glicêmico e glúten.

Por fim, gostaria de convidar todos a acompanhar uma transmissão ao vivo promovida pelo Instituto Antônio Conselheiro, de Quixeramobim, junto com a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), que estão promovendo um “ciclo formativo virtual” através do Projeto Cuidar da Vida no Semiárido. Nesta ocasião, que será transmitida através do canal no YouTube do IAC, Marta é convidada para falar sobre o tema Memórias afetivas das nossas comidas de verdade. Marta me convidou também para essa conversa. Espero vocês lá.

Abraços.

Consciência

“A Carta do Dia” é uma coletânea de textos curtos com mensagens de minha autoria, publicadas diariamente no Caderno Buchicho do Jornal o Povo, entre os anos de 2003 e 2015. Nesses tempos de isolamento e novas escritas, as gavetas da memória abriram e deu vontade de rever e compartilhar com #lugarartevistas esses anos de afetos e muita gratidão, graças a escrita… #acartadodia

A Terra é o nosso templo macrocósmico, a casa maior que habitamos e da qual não podemos nos mudar e, por isso mesmo, que precisamos saber cuidar. Para cuidar da Terra precisamos ter consciência ecológica, a educação do sentir, do pensar, do expressar e do agir de maneira consciente, amorosa e o menos impactante possível para o equilíbrio do ambiente em que vivemos. Podemos compreender na prática os cuidados com o planeta se pensarmos em nosso próprio corpo como uma terra microcósmica, como um “templo sagrado” que também necessita de cuidado, carinho, atenção e de muito amor para funcionar em harmonia. Cuidar do corpo não apenas por preocupação com a aparência, mas com o propósito de obter o melhor que ele pode nos oferecer. Qualidade de vida é o que também contribui para que tenhamos saúde com consciência corporal. Mas tanto a consciência ecológica quanto a corporal só funcionam de verdade com mudanças de hábitos, com crenças positivas, saindo da ignorância (do não sei), para transformar novas e boas ações em filosofia de vida. Do contrário tudo fica apenas no “levantar bandeiras” em nome do modismo, das circunstâncias, ao invés de uma prática transformadora.

Vamos de indicados para o Oscar 2021?

Olá, povo!

Como estão todos? Desejo que estejam todos bem, com saúde e se cuidando! A vacina da Covid está mais perto do que longe! Que todos consigamos manter o entusiasmo e a esperança!

Antes de falar sobre os filmes de hoje, quero tecer algumas informações adicionais sobre filmes que já compartilhei com vocês e que estão na corrida do Oscar!

Na coluna de janeiro comentei com vocês sobre “A Voz Suprema do Blues”, que está concorrendo a 05 Oscar: melhor ator, com a indicação póstuma de Chadwick Boseman; melhor atriz – Viola Davis; melhor direção de arte; melhor maquiagem e penteado e melhor figurino.

Na coluna de fevereiro trouxe para vocês “Relatos do Mundo”, que está indicado ao Oscar em 04 categorias: melhor fotografia, melhor produção, melhor som e melhor trilha sonora.

Em março falei sobre Os 7 de Chicago (e que continua sendo o melhor filme visto esse ano!), que vai disputar 05 estatuetas: melhor filme, melhor ator coadjuvante – Sacha Baron Cohen, melhor roteiro original, melhor montagem e melhor fotografia.

A cerimônia do Oscar será dia 25.04.2021, e hoje trago mais dois filmes que estão nessa corrida:

Em primeiro lugar vou lhes contar das minhas impressões sobre “Mank”! Um filme gravado em preto e branco, com uma fotografia e um figurino impecáveis, que tem como protagonista nada menos de Gary Oldman, e que, ainda, conta com outros atores maravilhosos e já bem conhecidos, como: Amanda Seyfried, Lily Collins, Charles Dance, Joseph Cross, entre outros.

O filme, dirigido por David Fincher, conta a tumultuosa história de Herman J. Mankiewicz, no período em que trabalhou para Orson Wells, e que escreveu sua maior obra prima – Cidadão Kane -, e da sua briga com Olson pelos créditos da obra.

O filme é intenso, nostálgico, profundo e lindíssimo. Gary Oldman – Mank, está, como sempre, magnífico em seu papel. Nos mostrando, mais uma vez, a natureza e o brilhantismo com que interpreta seus personagens.

O filme conta com 10 indicações ao Oscar desse ano. São elas: melhor filme, melhor ator – Gary Oldman, melhor atriz coadjuvante – Amanda Seyfried, melhor diretor – David Fincher, melhor trilha sonora original, melhor fotografia, melhor direção de arte, melhor figurino, melhor maquiagem e melhor produção. Está disponível na Netflix. Assistam!

Em segundo lugar, lhes trago O Som do Silêncio! Um filme denso e incrível, que nos faz submergir ao silêncio (embora tenha uma edição de som espetacular). Nos trás várias reflexões sobre a vida, seus desafios e perdas, a total falta de controle sobre ela, ao renascimento, ao poder de adaptação, à resiliência e a capacidade de se reinventar. Um drama com nuances impactantes. Belíssimo!

Está na corrida por 06 estátuas douradas: melhor filme, melhor ator – Riz Ahmed, melhor ator coadjuvante – Paul Raci, melhor roteiro original, melhor montagem e melhor produção. Disponível nas plataformas: Prime Video, YouTube e Now. É imperdível!

Bons filmes e muita saúde para todos vocês!

Forte abraço!

Janaina Alencar.

CORPORIFICAR 01

Água,

a água atiça memórias das minhas entranhas,

Das veredas do meu corpo.

Lembro que quando criança

minha brincadeira favorita era fazer “poço d´ água”.

Sou dos Picos, bairro rural da cidade  de Itapipoca_CE.

Tampávamos as correntes de água nas grotas para virar poço

Pulávamos de cima de uma azeitoneira

Tampávamos as pontes

e tudo se transformava,

Em poços de risadas e estripulias.

Fui criada pela minha avó, minhas tias e meus pais ali por perto.

Nosso quintal tinha uma cacimba

e nessa época não comprávamos água,

a água era nossa,

do nosso quintal,

nascia das entranhas das pedras e da terra.

Lata d´água na cabeça pelas manhãs

e as vezes no entardecer

Lata d`água na cabeça

Lata cheia,

E a água escorrendo pelo rosto, descendo pelo corpo,

Nessa época a água era nossa…

“Bebedor! ”

O bebedor era um oásis de fontes de água,

era onde a comunidade “Batia roupa”

Um encontro bonito de mulheres acontecia por lá,

mulheres de cócoras,

umas chegando, outras saindo

equilibrando na cabeça bacias de roupas.

No esfregar de panos,

uma pausa de outra mulher

para contar uma história, um acontecido do dia.

Água escorrendo

e a vida também,

Escorrendo…

Coisa de rio,

Fazer as histórias escorrerem.

Hoje lembrando dessas memórias

eu sinto o quanto era libertador aquele rito-rio,

mulheres se encontrando,

narrando suas histórias…

cantando,

partilhando,

desaguando seus traumas e suas dores…

Águas de rios

Escorrendo pelo corpo

Entre as pernas de cócoras

Lata d`água na cabeça

Água escorrendo pelo corpo

Agua da fonte, água do ventre da terra

Banhando o anúncio da sede

Banhando o preparo da vida

Banhando vidas por vir

Vidas que seguem nas mulheres que banham o tempo

No tempo que jorra entre as pernas…

“os povos originários não precisam de água potável porque se abastecem das águas dos rios” falou o despresidente desse país.

Já prevíamos que jorraria das nossas entranhas um ecocídio instaurado.

A nossa água insípida, incolor e inodora

Hoje fede a ignorância.

Hoje nossas águas matam dezenas de povos indígenas

que consomem das entranhas dos rios

a poluição vinda dos garimpos

e os agrotóxicos vindo das grandes fazendas.

A água era nossa!

Nos provocava respiros de abundância.

Hoje a água tem nome

Tem dono

Tem outros valores.

Desses que se somam por números

Desses que não vem das veias,

vem das vias,

rodovias que trazem litros de ignorância

ironia dos tempos compramos água.

E pagamos para estar vivos e vivas.

_Rafaela Lima.

O Mapa não morre. Salve Carolina Maria de Jesus!

Bordado da imagem de Carolina sobre desenho do Mapa Solar, pelo designer gráfico Raimundo Laranjeira

Na Astrologia costumamos dizer que um Mapa não morre, que a memória de alguém pode ser celebrada de tempos em tempos, mesmo após a sua partida para um outro plano, sempre que um trânsito planetário ativa de forma significativa, configurações do seu dia de nascimento. É o que venho observando em relação ao mapa solar da escritora Carolina Maria de Jesus, no qual tenho me debruçado em estudos nos últimos anos.

Ainda na vibração das homenagens pelos sessenta anos do seu livro “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”, publicado pela primeira vez em 17 de agosto de 1960, observei atentamente aos efeitos do trânsito de Saturno, que na época encontrava-se a 12º31′ de Capricórnio, fechando o seu segundo ciclo, aproximadamente 58-60 anos deste fato. Além da sua obra mais conhecida, Carolina e o seu legado vem sendo de várias formas colocado em evidência, possibilitando uma maior visibilidade da autora, no campo das letras e da literatura e com isso, recebendo outras homenagens.

No dia 25 de fevereiro de 2021, quarenta e quatro anos após a sua morte, que ocorreu em 17 de fevereiro de 1977, vibrava no Cosmo um fechamento importante de ciclo dos planetas Júpiter (expansão) e Saturno (limites) no signo de Aquário, ativando posicionamentos do mapa solar da escritora, energias de importante relevância para a forma como expressou sua consciência social, política e humanitária ao longo da vida e que continua reverberando nos diálogos que os seus escritos sobre a realidade da pobreza e da favela travam com contextos tão atuais.

Nesta sincronia, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu o título de Doutora Honoris Causa a Carolina Maria de Jesus, em uma justa homenagem póstuma, como reconhecimento pela sua contribuição social através da riquíssima obra que produziu, mesmo tendo tido uma passagem breve pela escola de apenas dois anos na infância. Com isso vemos que Saturno, conhecido também como o “Senhor do Tempo”, no devido tempo, vem fazendo justiça a Carolina, colocando-a no assento de reconhecimento que há muito deveria ter ocupado como escritora e nos ajudando a honrar a sua memória na literatura feminina negra brasileira. Uma outra forma de compreender que “a vida continua”, que “existe vida após a morte” e também um outro sentido para os #carolinavive, #carolinapresentesempre…

Somos fruto de uma sociedade racista, preconceituosa, machista, desigual, excludente que por muito tempo insistiu em relegar à Carolina apenas um lugar de figura “exótica”, a mulher preta, favelada, considerada “até inteligente”, pois escreveu um livro, mas por muito tempo só “a diferente”. Pensar que ainda existe quem não a considere uma escritora, mesmo tendo seu livro na época, vendido mais de um milhão de cópias, sido traduzido para 13 idiomas, publicado em mais de 40 países, levando a autora Clarice Lispector, que inclusive faleceu no ano de 1977, como Carolina, a declarar que ela “era a verdadeira escritora por relatar a realidade”. Não é qualquer coisa!

Mas, com tudo isso, ainda tentam reduzir a luz de Carolina, invisibilizando sua obra das escolas, do acesso ao público em geral, como se faz com tantos outros autores e autoras negras em nosso país. O epistemicídio, tentativa de negar o conhecimento produzido, por uma pessoa, sobretudo mulheres, negras, indígenas, por ser resultante do processo de colonização do saber, que impôs como válido somente o conhecimento de homens, brancos, europeus, mantendo o cânone acadêmico e literário reservado a essa elite intelectual, é também insistente e resistente. Mas o tempo que é sábio e justo, com a contribuição importantíssima de todo um movimento de mulheres e homens carolinian@s como a escritora Conceição Evaristo, a Vera Eunice de Jesus (filha de Carolina), Raffaella Fernandez, pesquisadora da sua obra, Tom Farias, autor do livro “Carolina, uma Biografia”, paralelo ao ativismo feminista negro, mesmo sabendo que o caminho é árduo e longo, mesmo com os absurdos retrocessos, podemos considerar que muita coisa tem sido mudada. Precisamos de muito mais!

Diante dessa organização de forças, a decisão em 2020 da editora Companhia das Letras em publicar toda a obra de Carolina de Jesus, com reedições de livros já publicados e outros escritos inéditos, soma-se às tantas iniciativas importantes nessa justa celebração, para a história do Brasil, para literatura brasileira e a sociedade como um todo, pelas pessoas que têm sido transformadas e empoderadas com o seu legado, principalmente meninas e mulheres negras e pobres das periferias do nosso país.

Convido a todas, todos e todes então, a visitarem os próximos textos que serão publicados aqui, na nossa coluna, sempre no segundo sábado de cada mês, onde estarei adentrando na interpretação das configurações astrológicas do mapa solar de Carolina Maria de Jesus, numa humilde contribuição como astróloga, para conhecermos um pouco mais sobre a energia cósmica dessa escritora tão extraordinária, e o que instigava o seu movimento pelo mundo de forma tão única e especial. #SalveEla.

Salve ela! Salve Carolina!!!

Faxina

“A Carta do Dia” é uma coletânea de textos com mensagens de minha autoria, publicadas diariamente no Caderno Buchicho do Jornal o Povo, entre os anos de 2003 e 2015. Nesses tempos de isolamento e novas escritas, as gavetas da memória abriram e deu vontade de rever e compartilhar com #lugarartevistas esses anos de afetos e muita gratidão, graças a escrita… #acartadodia

Quando um pensamento ou crença não é mais útil, o melhor seria nos livrarmos dele! Achei muito legal quando encontrei nas minhas leituras uma analogia entre o exercício de livrar a mente dos pensamentos negativos com uma faxina na casa. Limpar a mente separando coisas que valem a pena daquilo que não serve mais. Tal qual a maneira como vamos arrumando partes da nossa casa. Existem coisas que já não usamos, mas que precisamos de tempo pra desapegar e jogar fora. Tem coisas que nos livramos com muita facilidade. O mesmo deve ser feito com os pensamentos, dizia o texto: “Alguns eu amo, por isso dou-lhes brilho e polimento para torná-los mais úteis e belos. Outros, noto que precisam de conserto, restauração, cuido deles da melhor maneira no momento. Outros ainda são como jornais e revistas velhas, ou roupas que não servem mais. Estes eu jogo no lixo e esqueço deles para sempre.” O bom da faxina é deixar tudo limpo e abrir espaço para o novo. Com os pensamentos, é jogar fora os limitantes, dando lugar a padrões mais positivos que farão a gente se ver e se sentir muito melhor com nós mesmas(os), com os outros e com a vida.

Publicada em  19/01/2014

Todo corpo é ancestral.

Por Coletivo Abayomi

Enyin Baba-nla mi, iba           Meus antepassados, eu os saúdo

/ba ni mo wa fi ighayije        Meu tempo presente é para fazer saudações.

É próprio do ser humano o desejo de perpetuar a espécie e junto a isso surgem os questionamentos: Quem teria sido o primeiro? Haverá um último na jornada humana?

Em meio a trajetória da vida, estamos nós, impulsionados pelo passado e motivados pelo futuro e é, justamente nesse ínterim, que pulsa a Ancestralidade, valor motriz entre todos os outros valores civilizatórios africanos e, consecutivamente, os afrodiaspóricos. 

Enquanto fomos – e ainda somos – condicionados a pensar em ancestralidade enquanto referência exclusiva aos nossos antepassados e tradições familiares, os povos africanos tinham Ananse (cultura Akan), a aranha, que com sua habilidade e sabedoria, ampliava esse pensamento em uma teia de relações. Quando subiu aos céus usando suas teias, Ananse pediu ao Deus Supremo o baú com as histórias dos seus antepassados para que fatos e mitos pudessem ser contados aos homens garantissem a manutenção e felicidade da sociedade. Sendo assim, aos olhos de África, todo aquele que direta ou indiretamente marcam e influenciam a nossa existência são nossos ancestrais, dessa mesma forma, nós somos potencialmente ancestrais de todos aqueles que vêm durante e após a nossa existência.

Ananse – Simbolo Adinkra

A partir do momento em que rompemos com essa ideia de ancestralidade enquanto um caráter consanguíneo tomamos para nós a consciência de que somos o resultado não apenas de nossas escolhas, mas de tantas outras que foram realizadas antes de sonharmos existir, por outro lado assumimos a responsabilidade sobre conduzir nossas potências de forma a impactar positivamente o máximo de pessoas ao nosso redor, sabendo que certamente, nossas intencionalidades ecoarão anos a fio.

A Profª. Drª. Leda Maria Martins ao apresentar a teoria do tempo espiralar sintetiza maravilhosamente a ideia de ancestralidade para a filosofia africana. Ela suscita a imagem de um tempo que não corre em linha reta e sim como uma espiral, enquanto transcorre ele retoma ao mesmo ponto, porém sempre em um tempo-espaço diferente.

Okotó – Simboliza o processo de crescimento, um cone que rola espiraladamente e que se abre a cada revolução.

O tempo é uma mola propulsora, e como reza a física básica, tem a capacidade de transformar energia potencial em cinética, ou seja, nós que estamos engatilhados nessa “mola-tempo” recebemos culturas, tradições, ciências e filosofias e temos como missão transmitir adiante e movimentar a vida rumo aos devires.

Para as africanidades a energia não se perde, apenas se transforma, é por isso que espíritos e viventes podem conviver em corporificações energéticas diferentes, assim como nossos pensamentos e sentimentos também são vistos como vibrações emanadas, dessa forma cada indivíduo carrega em seu íntimo o passado, presente e o futuro. Todo corpo é ancestral.

Depressão ou temporariamente sem tesão?

“A Carta do Dia” é uma coletânea de textos com mensagens de minha autoria, publicadas diariamente no Caderno Buchicho do Jornal o Povo, entre os anos de 2003 e 2015. Nesses tempos de isolamento e novas escritas, as gavetas da memória abriram e deu vontade de rever e compartilhar com #lugarartevistas esses anos de afetos e muita gratidão, graças a escrita… #acartadodia

Com muito mais frequência pessoas tem se colocando em estado de “depressão”. Lá fora, parece que vivemos um alerta constante para esse que já pode ser considerado um dos males do século. Com direito a posse, muita gente até se apropria: “a minha depressão”. Gente de todas as idades, contagiadas pela dor de descobrir-se “sem sentido”, mergulhada em profunda tristeza. Claro, que há casos e casos a serem analisados com critério. Mas, onde é que fica o “Não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe”? Seria interessante outros olhares para esse estado, algo que lembre a ciclicidade da vida, os ciclos de alegria e tristeza, fases de altos e baixos naturais que necessitam de silêncio, quietude, introspecção, isolamento, autoconhecimento para o fortalecimento do eu, da autonomia, da identidade… Algo possível apenas quando se é capaz de permitir o aprimoramento do “olhar para dentro, mais do que para fora, desenvolver a paciência, tolerância, compaixão necessária à aceitação de que certas fases acontecerão longe do “oba-oba” da vida, sem nos permitir as cobranças exageradas, pressão externa, e que também poderia ser sem “tarja preta”, sem morte física como saída. Tudo na vida passa e o fluxo natural deve seguir também, de um momento mais “down” para fases mais “in”, onde novamente caberão alegrias, criatividade, mais clareza, o amor…