Dia de plantar

            Senti a primavera chegar na ponta do meu nariz. Estou no caminho do pólen. As membranas nasais não adubam, expelem. Espirro para longe o vir a ser pétala. Preciso de um antialérgico.

            Eu nunca havia plantado até o dia de hoje. Nasci no asfalto. Em um prédio alto, que está longe de arranhar o céu. Em 1977, recebi meu primeiro oxigênio, já estava poluído. Não sei a data certa em que tive a primeira rinite.

            Minha geração é politicamente incorreta. Andava na parte de traz do fusca, chamado carinhosamente de “porralhudo”, aonde eu colecionava, com meu irmão mais novo, os panfletos de novos apartamentos que iriam arranhar os céus de São Paulo. Eram tantos encartes imobiliários que encheram o porta malas do fusquinha. Deixava fofo, uma cama de papel, e parecia incrível andar na parte detrás do carro fazendo caretas ou dando um tchau amistoso para o motorista preso e exausto dos infernais engarrafamentos. Obviamente, eu estava lambendo um pirulito rosa choque, com corante vermelho ou fosforescente.

            Cresci despreocupada com o meio ambiente, com a floresta distante e convicta dos benefícios do Danoninho, “aquele que vale por um bifinho”, com propagandas de consumo desenfreado, mas que por sorte às vezes não passavam no reclame, pois saiam do ar e era necessário dar muitos socos na TV, ou muitos minutos perdidos tentando arrumar a antena, bem no último capítulo da novela, em que certamente o vilão iria se dar muito mal e a cena final seria um belo casamento de alguns milhões de cruzeiros.

            Esbanjar, industrializar, modernizar, asfaltar e maquinizar era a nossa oração. Ide e pregai tudo o que pode ser colocado na tomada.

            As décadas seguintes intensificaram e muito os plugues, além da tomada de três pinos, chegou o wireless. A cada palavra norte americana incorporada a nossa língua colonizada, nos distanciávamos mais e mais dos saberes dos povos originários e a palavra “terra” estava mais para um elemento do signo. As pessoas nascidas no signo de terra têm os pés no chão. No cimento.

            Qualquer cidadã ou cidadão que trazia temas como o aquecimento global, o desmatamento, a extração mineral, as queimadas criminosas, os assassinatos dos sem-terra e dos povos da floresta tinham um nome de chacota, que era bastante divertido repetir e propagar: ecochatos! Ainda ninguém poderia imaginar que, anos depois, seriam chamados de “ecochates”, afinal entendemos hoje que temos que ser politicamente corretos.

            Quando me vi confinada, devido ao isolamento social por decorrência do coronavírus, em um apartamento, sem sol, sem céu, sem terra, com minha filha de quatro anos, senti fortemente os impactos do descaso com o planeta, das gerações passadas e da minha geração. Como dói saber que foi este o mundo que construímos para as nossas crias.

            Na aula de capoeira online da minha filha, o professor pediu para as crianças falarem como foi a semana, o que aconteceu de importante e a Alice disse: eu vi uma flor desabrochar.

            Faz três meses que nos mudamos do apartamento e a Alice trocou as telas do computador pela observação na natureza. A rua é de terra, tem poeira, cobra, espinhos e tantos perigos para a urbanização.

            O primeiro movimento foi pedir desculpas à terra. Não adiantou. O segundo, como propõem muitos líderes dos povos originários, é arrancar o asfalto e plantar. Deixar a natureza ocupar as zonas de wi-fi e telefonia móvel. A fibra ótica se desintegra enquanto expressão e vira fibra de alimentos e mudança do sol na nova ótica. A cria pôde supor, pela experiência, que a terra é redonda.

            O negacionismo da doença, da devastação, dos sinais da natureza aliado ao deslumbramento tecnológico e consumo exacerbado de eletrônicos e venenos do agronegócio nos deixaram sem o tato.

            Tato com a terra, Tato com a pele. Tato com o outro.

            No dia 18 de setembro de 2020, plantei pela primeira vez junto com a minha filha. Colocamos argila no fundo, terra no meio, fizemos furos para receber as sementes, regamos, colocamos no sol e estamos dispostas a esperar o tempo de crescer.

            Vai demorar, mamãe? Vai. Por quê? Talvez porque seja mais bonito quando desabrochar. Talvez porque o vaso ainda é de plástico. Talvez porque a internet pega na área de proteção ambiental. Talvez porque precisamos de placas com o nome das plantas por não reconhecer pelos olhos, cheiro e textura suas diferenças.

Por Mariana Trotta

Alice e Mariana plantando

Procuro singularidades

Fortaleza, 26 de setembro de 2020.

Cara amiga bruxa,

aqui, de cara, em espelhamento. olho… vejo o que não se vê. você aqui me dizendo essas coisas… eu aqui escutando… escutando como uma mensagem do futuro, antes mesmo dele acontecer. aprender o quê? sei que os segredos da bruxaria da vida te compõe mesmo sem você entender, mas acho que quando afirmo os seus dons, você confirma aquilo que já sabia. ser bruxa velha é sabedoria. minha pele de 35 anos, ainda não sabe direito o que é envelhecer, mas talvez ela dê pequenos sinais, estes que fortemente me colocam a pensar agora sobre o tempo. como terráquea, penso o quão necessária é a carne, esta que é a via e ferramenta para o sentir. a gravidade da terra opera sobre ela, envelhecer é consequência desta ação sobre os nossos corpos. por que lutar contra? O que lutar contra? sinto que queremos buscar a eterna juventude da matéria, e isso me parece uma busca contínua por uma estética jovem e padronizada, operada apenas nas extremidades da carne. como mergulhar na juventude? você se queixa do seu embate entre corpo e cabeça, como você mesma diz. corpo este apresentado como sistema em falha, cabeça essa cheia de frescor bagaceiro de uma juventude infinita. será que a sua ferramenta está obsoleta? Eu diria que ela estaria obsoleta se tivesse parado de sentir, embora saiba que seus movimentos não estão mais tão rápidos e disponíveis, surpreende-me ao me dar calcinhas de rendinha. Este gesto me ensina sobre sensualidade que por sinal é uma grande característica sua – aprendo o seu feitiço, repassarei às bruxas mais jovens que eu -, não que isso me prenda, amo também calcinhas velhas, feias e frouxinhas. por que um corpo envelhecido, para o sistema o qual vivemos, perde sua utilidade e deve ser escondido, como uma calcinha não sexy? Ou porque temos que assumir certas formas corporais para nos fazermos validadas por esse sistema? isso se deve à forma como moldamos a nossa superficialidade estética para, assim, sentirmo-nos participando da coletividade. quem dá as ordens do jogo? Quem decide o que somos e devemos ser? digo-te que a maravilha que habita teu corpo é exuberantemente sábia. será que um dia envelhecer possa se ressignicar e virar uma nova juventude? Será envelhecer o momento o qual cansamos de todas essas formas sociais para assim fazer o que realmente se quer? foda-se… você é a própria criação do foda-se. Sem preocupações com o que os outros falarão. foda-se. Corpo aberto para uma dança improvisada, corpo liberto para agir na cena da vida… surpresas acontecem… queremos surpresas! trabalhamos aqui com criação de singularidades. bruxa safa…você sabe jogar com o que existe ao seu redor, sabendo usar certas máscaras em alguns momentos. foda-se. divirto-me, embora às vezes também sou pegue de surpresa. divirto-me. chateio-me. estou viva, que nem você. corpo jovem e cabeça velha… é melhor não tê-los… pois, o que vamos criar? olho em volta… percebo as enormes distâncias entre as pessoas… talvez sejam criações de cabeças velhas… pensa comigo… é estranho ver corpos tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes um do outro. De você me sinto próxima, mesmo existindo entre nós uma longa distância geracional. Vivemos no mesmo tempo. Esse tempo se opera em criação constante, por isso comunico por meio desta carta-texto reflexões que surgiram de nossa amizade, com intensão de abrir fissuras neste espaço-tempo. Vamos mergulhar no pensar sobre o envelhecer? Aqui… olhando pra você me espelho em um futuro que ainda não aconteceu para mim, mas que acontece para ti. minha amiga, a solidão não deve ser apenas o único caminho que essa vida pode nos levar. ser uma bruxa velha é poder compartilhar sabedoria. envelhecer não é o fim nem o começo, é o caminho: laços, relações e experiências.  como a nossa sociedade está envelhecendo? ou mais específico, como as mulheres bruxas estão envelhecendo? vida individualista torna as pessoas egoístas. procuro singularidades e não individualidades. procuro coletivos viventes e não massas moventes. a obsolescência programada está até nas formas humanas de existir. não quero nascer com data marcada para o fim do meu funcionamento. quero viver em estado de juventude, sem buscar falsear a gravidade. quero envelhecer me sentindo em comunidade.

de sua amiga…

“É preciso uma aldeia inteira para criar um filho”

Por Janira Alencar

Toda mulher, ao longo de sua vida, ouviu pelo menos uma vez (senão muitas) a falácia da rivalidade feminina. Aprendemos que homens são amigos, companheiros, leais e que nós, mulheres, estamos sempre julgando ou competindo umas com as outras. Esse discurso, tão impregnado de intenção, é uma das armas mais poderosas de que o patriarcado dispõe, pois nos induz a olhar para a outra não como par, não como amparo, mas com desconfiança. 

Talvez muitas de nós, durante parte das nossas vidas, tenhamos acreditado nisso; talvez até tenhamos reproduzido essa fala. Mas, posso apostar, quem dá voz a esse discurso certamente não vivenciou a experiência da maternidade. (Antes de prosseguir, quero deixar claro que a maternidade a que aqui me refiro é a que é escolha, e não imposição social. Sei que muitas mulheres não comungam desse desejo e que há outras centenas de vivências por meio das quais podemos sentir a força que tem a união feminina. Só para dar um exemplo bem raso, experimente ser mulher e precisar de um absorvente, que você vai saber o que é uma rede de apoio).   

Voltando ao tema, uma das coisas incríveis com que a maternidade nos presenteia é uma teia de força, amparo, escuta e empatia que se entrelaça entre as mulheres que partilham dessa vivência. Hoje, digo e repito que só topo ter outro filho se for no mesmo tempo e espaço das mulheres que dividem comigo a primeira experiência de maternagem. Algumas, vozes da experiência, já sabem de cor minhas angústias e medos. Outras estão trilhando essa mata fechada comigo, abrindo um caminho que não tem destino certo. Muitas já eram amigas; outras têm-se feito agora, amizade que rebentou junto com nossos rebentos. Seja como for, o sentimento é um só: que sorte a minha tê-las comigo nessa jornada! Que bênção das deusas é ter pra onde correr a qualquer hora que se precise (e aqui falo literalmente, já que os grupos de recém-paridas funcionam 24h por dia, dadas as madrugadas de mamadas infindas). Como é bom ouvir relatos, partilhar experiências, ser amparada e, também, poder ajudar uma amiga num momento de aflição. São experiências que transbordam afeto e gratidão.

Em tempos idos, ter um filho era sempre uma experiência coletiva: era comum que as mulheres tivessem mais filhos e que suas gravidezes ocorressem conjuntamente com irmãs, primas, vizinhas. As experiências eram partilhadas, as trocas ocorriam de forma natural, formando, mesmo sem saberem, o que hoje chamamos de rede de apoio. Felizmente os tempos mudaram! A maternidade compulsória não é mais uma realidade absoluta – embora ainda tenhamos um longo caminho de desconstrução social a trilhar, no que se refere a isso. Em contrapartida, ônus dos novos tempos, parimos e criamos nossos filhos (muitas vezes únicos) cada vez mais sós, trancadas em nossos apartamentos, contando com pouco ou quase nenhum apoio. 

Dizem que é preciso uma aldeia inteira para criar um filho; desconheço a autoria dessa frase, mas poucas falas me fazem hoje tanto sentido quanto essa. É preciso que o mundo receba essa criança, que seja amoroso com ela, que não olhe feio para a mãe que com ela chega a um restaurante, que não solicite aos comissários sentar-se longe dela em um voo. É preciso, também, que a cria e sua mãe sejam amparadas em seus primeiros meses, tudo tão novo para ambas as partes. E é transformador, e não menos necessário, que essa mãe, pessoa nova que nasce junto à cria, tenha com quem dividir toda a ambiguidade que compõe a maternidade, esse misto de força x fraqueza, medo x coragem, saudade da vida antiga x não querer outra senão a de agora.   

Ser uma mãe de primeira viagem em tempos pandêmicos tem sido desafiador, mas o mesmo barco que nos distancia ~ de corpos ~ da nossa gente traz pra perto aqueles que são realmente nossos, e faz âncora em nossas relações de afeto verdadeiro. O primeiro círculo social do Tom é herança de amizades bonitas, sinceras e tão necessárias ante tudo que temos enfrentado. Herança da força e do poder transformador que as mulheres emanam quando se unem. Que todo esse amor escorra, transborde, inunde, encharque. Que seja presente na vida dessa nova geração. Que seja regra e que prevaleça. E que sejamos sempre a aldeia que recebe, acolhe e cria os novos filhos do mundo.

Tom e Bento, um de seus amigos herdados da mãe: porque nós fazemos amigos bebendo leite, sim!
  • Dedico esse relato a Fátima’s, Ana, Aline, Carol, Cíntia, Dani, Ellen, Larissa, Lili, Nádia, Paula, Pedrita, Roberta’s, Samya, Suyanne, Thereza (em ordem alfabética e rezando para que a minha memória não me traia e me faça esquecer alguém). 

Janira Alencar é educadora e mãe do Tom, de 7 meses

Novos caminhos

Lara Leoncio

Comemorando hoje, dia 13 de setembro, 8 meses de uma profissão incrível que é ser mãe da Íris Luz. Nossa! Como é louca essa nova profissão, como é incrível poder acompanhar o crescimento e como é exaustivo um dia após o outro.

Esse mês ela começou a engatinhar e aqui em casa todos reaprendemos também, mamãe, papai e vovó sempre no chão acompanhando cada movimento da pequena. No começo era muito difícil, e muito doloroso pra todos, porque ela ainda não tinha tanto eixo e coordenação motora para poder engatinhar, às vezes a mãozinha não acompanhava a velocidade do corpo, então a cada dois passinhos era uma desequilibrada pra frente e se não estivéssemos SUPER atentos era queda de cara e seguida de choro. E então era colo, conversa dizendo que sabia que estava doendo, mas iria passar, e conversar com as plantinhas pra dor ir embora, esses são alguns métodos que super funciona por aqui, a conversa com as plantinhas é a mais eficaz, rsrsrs.

Depois novamente para o chão e o ciclo do engatinhar até o choro recomeçava, e como é doloroso pra mim essa dúvida se estamos no caminho certo. Pessoas chegavam dizendo ” – Tira ela do chão, ela é muito pequena pra tá no chão.” outras diziam ” – Deixa no chão que ela vai desenvolver mais rápido.”, e mais ” – Tá colocando a menina no chão porque não quer ficar com ela no braço, num inventou de ter criança agora não quer mais segurar…” Nossa como eu fico passada como as pessoas têm palpite e podemos nos proteger de todas as formas, dizer que não vamos escutar ou que já estamos acostumadas, mas como isso ainda nos atinge, pois sempre temos a dúvida e será que “ela”, a senhora palpite está certa? Mas uma coisa que estamos fazendo muito aqui em casa é observar o que para nós e para ela vai ser melhor e vamos em frente na decisão podendo rever essa decisão e voltar atrás a qualquer momento, sem dor, e muito menos sem nos dizer “eu disse”.

Então, mesmo sendo cansativo e até doloroso decidimos seguir e continuar colocando no chão e agora ela já tá bem desenrolada, vai pra todo canto e gosta de desafios, não pode ver um degrau, ou o ferro da mesa que quer subir ou passar por cima, e já se levanta em todos os cantos sozinha, precisa apenas de um apoio e as desequilibradas e quedas de cara cada dia vão acontecendo menos, então menos choros e mais palminhas, porque ela é dessas, quando consegue uma coisa nova ou difícil pede palmas.

E aí vem uma lembrança, não faz muito tempo que a comemoração era que ela está reagindo aos estímulos de voz ou já reconhece quem tá falando com ela, depois começou a se virar só, aí começou a sentar com ajuda inicialmente e depois sozinha e agora engatinhando… Não paro de falar que são os dias mais longos, mas os que passam mais rápidos da minha vida.

Poder acompanhar cada momento dela é incrível, estimular o desenvolvimento motor, estimular a fala e fazer festa a cada conquista é um dos momento mais incríveis da minha vida.

Essa é minha maternidade real, com todas as dificuldades, choros e cansaços, mas repleta de amor, cuidado e muita gargalhada.

Ass: Mãe da Íris Luz

Primeiro registro engatinhando.
Foto: Roberta Bonfim

Independe

Por Roberta Bonfim

Quando me programei para escrever esse texto coloquei como título “As Tradições”, pois ele sobe no dia 07 de setembro, quando se celebra… Preciso pensar para lembrar a razão de ser feriado neste dia. Depois de uns 40’ chego a um veredicto, mas busco no Google, para me certificar antes de compartilhar. E para o meu alívio, eu não estava errada ao pensar que a data celebra a Independência do Brasil. Não me julgo por não lembrar de imediato e olha que desfilei na escola levando bandeira, cantávamos o hino do Brasil e o da bandeira, enquanto a mesma estava sendo hasteada. Sou fruto de uma gama que foi treinada até uma idade para entender a importância de uma data que eu pouco ou nada entendia, mas celebrava. 

  • Uma conquista! – Pronto! Pensar que havia sido uma conquista já me bastava para celebrar.

Quem me conhece sabe do meu apreço por celebrações, pois como sempre digo, vim pra essa vida de turista, o lance é que cai em um mundo que por vezes não está de acordo comigo, ou meus modos. E em um sistema que prega a falta, e desperdiça uma fartura. Ou eu que estou ainda com pouca percepção sobre mim, e como mesmo escrevendo aqui, e escrevendo todos os dias, ainda é menos do que gostaria, o tempo que tenho para este prazer, esse lugar que tira de mim sentimentos tão profundos.

Possivelmente não saibam, mas já escrevi dois livros do início ao fim, nenhuma obra prima da literatura, mas se pra caber na poesia é preciso uma árvore, um filho e um livro, já alcancei a tal da felicidade… mais o quê? Muito o que celebrar! – Pois sou mãe da filha mais maravilhosa que eu poderia merecer, já plantei algumas árvores e escrevi dois livros, e tantos textos que certamente dariam mais algum. Eu que antes da maternidade acreditava que escrevia para não ser em absoluto esquecida, hoje é porque somos tão bem lapidadas e eu fui ficando tão medrosa, que escrevo para tentar descobrir dentro desses eus que dividem esse corpo, quem sou nessa interseção, que ainda não estou certa se administro bem. rs

O fato é que escrevo e nesse escrever escrevo-me também, e assim, talvez, eu me entenda melhor, ou consiga destravar as portas sem precisar voltar pro outro lado dela. O sonho de vencer os gatilhos emocionais sem ser assertivamente atingida por eles. Isso de viver, eu como ser solo eu já conseguia minimamente existir nesse lugar de ser e de habitar-me. Mas com a maternidade tanto mudou, que agora vez ou outra me vejo perguntando onde estão alguns pedaços de mim, pois para que haja um real equilíbrio todos que me habitam precisam estar acordados e cientes dos caminhos escolhidos para serem trilhados. 

Minha sorte, é que sou mãe de uma criança tão maravilhosa que deixa esse lugar da maternidade um aconchego de prazer em grande parte do tempo. Mas, lembro a quem acompanha meus textos que tem parte disso que é resultado do exercício da rotina, da plena repetição, até que se automatize e para tanto precisam que nós, os “adultos”, os “grandes”, ajudemos as crianças a estabelecerem alguns padrões e isso muda em absoluto as nossas próprias rotinas. E mesmo aquelas que neste momento seriam incríveis, ainda me questiono se não vou estragar a memória de um lugar. E começo a rir, observando a extrema necessidade de controle sobre o que só saberei vivendo. Um dispêndio inútil de energia. Agora quando me pego no flagra, troco uma ideia comigo e se necessário com Ana Luna.

Hoje mesmo, tivemos de bater um papo real sobre o fato de ela gritar, genteeeeee ela tem uma gargantaaaaa… e meus ouvidos são muito sensíveis, então essa combinação é o ó. E daí hoje acertamos, e assumo que uso neste momento a autoridade de mãe, mesmo sentada na mesma altura e falando baixinho, de dizer que se ela berrar terei de deixá-la no quarto para pensar um pouco. E lógico que ela me coloca a teste e eu preciso cumprir o que acabará de prometer. Estamos falando de 7 horas da manhã e Ana Luna berrando valendo e eu muito tranquilamente aguava as plantas até ela se tranquilizar e pedir desculpas pela cena. Fácil? Não é? Nem sempre seguro tão de boas, mas faz parte desse lugar de ser mãe, de estabelecer os limites, os tempos, momentos, e tudo com o máximo de amor. As três frases mais repetidas no dia aqui é casa, são: “filha, ajeita as pernocas” – “como tratamos quem amamos? Com beijinho, carinho e amor!! né?”e para fechar, “eu te amo meu amor da minha vida!”que em momentos de good vibes, me rende bons abraços, beijinhos e denguinhos. Há dias que ganho até um chamego. E lá, agarradinha com ela, penso palavras que poderiam ser escritas e nunca serão, pois mesmo eu amando muito escrever amo mais ainda viver meu tempo agarrada com ela, vivendo nosso amor!

Agora, enquanto escrevo, vejo meus diários e penso e agradeço pelas vezes em que eles me lembraram e me lembrarão de quem sou e das histórias que carrego, e pela chance de viver este já, em que coloco o último ponto.

P.S. Gostaria de trocar uma ideia com as mães que somos? Deixa os comentários aqui embaixo.

Começar é sempre difícil, mas…

Todos os dias eu acordo me perguntando como eu posso começar a mudar minha vida, e todos os dias eu falho, pela minha perspectiva, pois eu sempre crio milhões de coisas que eu DEVERIA fazer e nunca as faço. A questão é: POR QUÊ? Por que é tão difícil fazer algo além do que estou condicionada? De todos os desafios que a terceira dimensão nos traz, começar acho que é o mais difícil. São quilos de crenças negativas que temos que resolver, traumas que nos impedem de ir além, um mundo completamente crítico e competitivo que te diz o tempo todo que você não é capaz…. 

EPA, para, para, para tudo! Não é essa a ótica da vida que queremos trazer nesse texto!

Recalculando o tema (LOADING…)

VIVER é estar todos os dias em movimento! Todos os dias você, assim como eu, faz muita força para sair do lugar onde você está e seguir em frente com sua vida dia após dia. Seja num simples levantar com bom humor, seja desenvolver um projeto nuclear, todos nós estamos sempre nos superando sucessivamente, afinal existem muitos fatores desfavoráveis e mesmo assim estamos aí, firmes e continuamos a viver. A questão é: Por que não CONSEGUIMOS reconhecer nossos esforços? POR QUE somos tão duros conosco mesmo?

Eu estou em uma busca diária para me tornar uma pessoa melhor, sempre me analiso e procuro perceber o que melhorar e isso por si só exige um grande esforço. Eu tenho um sonho, mudar minha vida por completo, ser uma pessoa extremamente realizada, fazer o que amo, ajudar pessoas, falar sobre a consciência multidimensional do ser (somos seres que vivemos e interagimos em muitas dimensões, além da matéria) e sei que todos os meus passos hoje estão nessa direção. Por que não consigo reconhecer isso? Pelo contrário, estou diariamente sendo dura comigo, dizendo que poderia ter feito mais no dia que passou e isso só me faz cair em uma rotina de tristeza e autopiedade. Preciso urgente mudar esse padrão! E sei que irei mudar, sabem o por quê? Porque tudo que a gente traz para o consciente e emprega energia, a gente muda, mais cedo ou mais tarde a gente consegue realizar! Por isso é tão importante o processo de autoconhecimento.

Por isso, comece! Seja a passos largos ou a passos rasos, você irá chegar onde deseja, você irá realizar seus sonhos, você será capaz de conquistar tudo o que precisa, mas para isso é preciso que você comece. Haverão dias mais fáceis e outros mais difíceis e tudo bem! É assim para todo mundo! Vamos levantar nossa bandeira pessoal e reconhecer a força que há em nós, e sim, somos capazes de sermos o que quisermos. Siga seu coração e sempre o resultado te surpreenderá positivamente!

Com amor,

All Franca

Deixa eu te penetrar?

DEIXA?

Minha pele

Meu tato

Meus sensores

Percebem tudo ao mesmo tempo

Como seria ficar e observar apenas um único lugar que toca?

Corpo em experiência

Sou um ser curioso

Vasculho teus cantos

Quero ir além… deixa?

Estou no cio

Farejo feromônios

Minha boca começa a salivar, enquanto meu pescoço se vira bruscamente de tesão

Minha fome é outra, ela vem de baixo

Minha língua toca a tua pele, revelando o teu forte sabor

Penso “estou louca” e depois repenso “sou instinto”

Nossos corpos se encontram suavemente

Sinto aos poucos o teu calor

Ao encontrar a maciez dos teus lábios

Deslizamos esse encontro como se a boca fosse o corpo todo

Entregues

Nossos líquidos começam a transbordar

Ahhh…

Deixa eu te penetrar?

Inicio esse texto compartilhando um poema que escrevi em um momento de transbordamento de tesão, ocasião a qual a energia de um encontro sexual, já acontecido, ainda reverberava em mim de maneira muito profunda. Essa sensação voltava ao meu corpo em formas de arrepios e tonturas, como se estivesse ainda em êxtase com o ritual compartilhado. Isso gerou em meu corpo um estado instintivo e desejante. – Será instinto algo que não conseguimos dominar? (Mais tarde aprofundo neste ponto) – Aqui a minha vontade se encaminhava pela excitante possibilidade de mudar a perspectiva do posicionamento do meu corpo diante do sexo. Penetrar… quanta curiosidade de sentir meu corpo penetrando em um corpo que “normalmente penetra”. Aqui analiso relações heteronormativas, onde o padrão é o homem penetrar a mulher, trazendo o feminino como um ser que recebe e o masculino aquele que deposita o seu instrumento e sêmen dentro de uma vagina. Observo então que essa minha vontade de penetrar surgiu como uma curiosidade diante das cavidades masculinas, da vontade de percorrer os espaços vazios desse campo energético e experimentar o movimento de corpo como materialização deste ato. Mudar as ordens das coisas… Possuir o parceiro, penetrá-lo, acolhê-lo… refleti que essas ações poderiam ser formas para criar maneiras de transformar a passividade padrão que sentia ao me relacionar sexualmente. Como encontrar espaços para esse movimento? Diante desse encontro, afirmo que o ato de penetrar só pode acontecer com consentimento, ou seja, com vontade de entrega. Não quero aqui dizer que a minha vontade é algo compulsória, mas é uma questão que ponho a mim, com um pedido de entrega, estando aberta para receber um sim ou um não. Vale ressaltar que existem várias formas de ouvir essa resposta, muitas vezes elas chegam de forma delicada e tímida, às vezes podem ser dadas pelo simples fato de o desejante ter a certeza que não pode invadir determinado espaço, a pedofilia é um exemplo para isso.

Reflito sobre a disponibilidade à entrega nas relações e questiono o excesso de vontade que temos de querer invadir o outro, para realizar nossos obstinados desejos mentais. A entrega pode ser algo que acontece simultaneamente no consentimento para experimentar algo junto. Porém muitas vezes a escuta está surda. Continuamos disputando território nas relações, continuamos invadindo o outro quando apenas escutamos o nosso ato instintivo e desejante, transformando o encontro em uma disputa de poder e dominação. Podemos falar em fetiche? Mas será que fetiche não é algo ensinado pela pornografia, este vindo de um desejo mental aficionado num mesmo assunto, sem espaço para a entrega e nem escuta? O ato de brincar é diferente, pois se encaminha para uma relação pautada na escuta, onde os corpos vão se reconhecendo e se abrindo um para o outro. Fetiche já me coloca em um espaço de criação mental mais atribuída ao “eu” do que uma criação do encontro, tornando um desejo muito mais particular, diferente de algo que é criado em relação. Onde está o ponto onde a energia se esvai para um processo de disputa, para criar um desejo próprio e não uma vontade que se dá em relação? Pensar sobre a quantidade de abusos e estupros que acontecem no Brasil é refletir sobre uma sociedade criada à base da pornografia, que acabou formando adultos assediadores e opressores, que acham que sexo é invasão e não troca.

Até que ponto eu entendo que o que pode está acontecendo comigo é uma invasão de território? Ou porque tenho medo de me entregar ao outro? Estamos com medo de nos relacionar?

Ao reler o poema “Deixa?” percebo a leitura que fiz dos meus sentidos, como se ao escrevê-lo meu corpo estivesse trazendo a memória que meus sensores estavam ativando naquele momento, informando que meu estado de presença estava em atenção, captando assim toques sutis e encontrando prazer neles. Essa releitura também me faz pensar sobre os meus gatos, que saem de perto quando não querem receber carinho. Essa vontade de entrega está próxima ao sentido de proteção. Pois existem encontros devastadores que nos colocam em estado de esquecimento de si. O ato de si entregar não pode ser um apagamento e sim um agregar de valores. O sentimento de carência e posse nos levam a estados de aniquilamento da nossa existência e também a do outro. Perceber quando caímos nesse redemoinho é a grande questão. A liberdade é nossa grande busca e ela está ligada também à liberdade do outro. Ultimamente tenho conversado com muitxs amiguxs sobre sexualidade, e a grande questão é a falta de conexão e de escuta de si e do outro. Às vezes passamos por cima do que queremos por carência, ou também invadimos o espaço do outro pelo mesmo motivo. Curiosa sobre esse assunto, comecei a estudar o Tantra, ainda estou no começo dessa pesquisa, mas o que consigo captar diante destes estudos é que o movimento vem da conexão entre corpo, mente e espírito. Tenho tentado olhar nos olhos, respirar profundo e escutar, para assim compartilhar meus desejos. Às vezes vacilo…

Carta ao meu futuro amor

Olá, meu amor, eu sabia que você estava chegando, você não faz ideia de como te esperei. Nos últimos anos eu vivi um processo profundo de lapidação do meu SER. Hoje admiro e conheço a mulher incrível que me tornei. Você se surpreenderá quando chegar.

Eu precisei desse tempo sozinha, de todo o tempo do mundo somente para mim. Ah! Como foram maravilhosos esses anos que se iniciaram quando eu saí daquele relacionamento abusivo, no qual eu nem sabia do que gostava e muito menos quem eu era. 

Querido, talvez você não consiga imaginar, se eu te disser, o quanto eu mudei, o quanto eu evoluí, o quanto eu me transformei de lá para cá. Foram tantas cascas que se desfizeram que não consigo mais me lembrar de quem eu era. Que sorte a sua, a essa altura do campeonato, encontrar uma mulher como EU! Meus parabéns por conseguir me notar e reconhecer, mesmo que inconscientemente, a mulher sensacional que me tornei.

Essa mulher inteligente, independente, linda e cheia de amor pela vida! Isso mesmo meu amor, você tirou a sorte grande, pois foi um longo caminho que trilhei para chegar até aqui. Foram montanhas e vales, subidas e descidas, e mesmo quando eu estava no fundo do poço, eu não desisti de mim. Eu mudei e me reinventei, e toda dor que passei foi necessária, pois a utilizei com meu agente de transformação. Eu realmente me despi de mim mesma e hoje me vejo como uma mulher renascida, completa e íntegra, que consegue se amar profundamente do jeitinho que sou. E todo esse processo foi absolutamente necessário para que você chegasse, pois somente me enxergando é que eu poderei te notar. Somente me amando é que eu poderei te amar.

E assim é a vida, com seu eterno poder de lapidação. Agradeço a Deus por nada ser estático, nada ser perpétuo e por tudo se renovar a todo tempo, pois somente assim eu nunca me acomodarei em uma versão qualquer minha e sempre buscarei uma forma de melhorar. E agora que você chegou, tenha em mente que acomodação não está no meus planos, nem para você, muito menos para mim. Você precisa continuar se reinventando junto comigo, só assim poderemos realmente construir uma vida digna juntos.

Dignidade…

Uma palavra que aprendi nesse caminho e descobri que ela é um dos pilares de qualquer relacionamento e precisamos sempre tê-la em mente. Seja bem vindo meu amor, se prepare para viver uma grande jornada ao meu lado, tendo em mente que ela pode durar desde um instante a uma vida inteira. Não espere nada menos que o melhor de mim, pois HOJE eu sei quem SOU! E sei que semelhante atrai semelhante.

Com amor,

All Franca