Um retrato da humanidade

Por Janaina Alencar.

Olá, povo!

Como vocês estão?

Já são 19 dias de isolamento social, prorrogados até o dia 20 de abril, portanto, no mínimo, mais 15 dias quietinhos em casa, né? Então, muita paciência, meditação e resiliência! Vamos procurar nos ocupar para nos mantermos sãos, ok?
Venho hoje indicar para vocês um filme que está bombando na Netflix, sendo muito comentado nas redes sociais, em páginas de cinema, de filosofia, de antropologia, em blogs, e tal. O Poço!!!!

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(imagem da internet)

O filme se passa em uma prisão vertical, quem está nos andares de cima pode comer à vontade, mas quem está nos andares de baixo passa fome…! O filme traz uma série de reflexões, indagações, revoltas e outras tantas emoções que só assistindo para entender e tirar suas próprias impressões sobre ele.
Trata-se de um filme espanhol, cinema pelo qual tenho me apaixonado mais e mais a cada filme e seriado que assisto, com atuações impressionantes.
Assistam e me digam o que acharam! Eu ainda estou analisando as minhas impressões sobre o filme e confesso que não firmei a minha opinião sobre ele. Mas vale a pena assistir, sim.
É isso, gente! Fiquem bem! Mantendo o isolamento social, a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo!
Forte abraço em todos!

Quais são os próximos movimentos?

Por Natália Coehl.

Nos meus estudos sobre Física Quântica, deparei-me novamente com a fórmula da teoria da relatividade de Albert Einstein: E=MC² (energia é igual à massa vezes a velocidade da luz no vácuo ao quadrado). Não sou da física, mas sou, pois acredito no movimento TRANS, este que dialoga com diferentes possibilidades de troca do ser/fazer para pensar sobre os caminhos de vida. Na verdade estamos o tempo pensando na existência, porém, infelizmente, às vezes (quase sempre) nos apegamos a determinadas formas de movimento, instaurando assim hábitos fixos e consequentemente culturas enrijecidas. Muita coisa em um começo de texto, mas vou explicar.

O que une tudo isso é o movimento da massa-corpo.

Voltando a fórmula da teoria da relatividade, entendemos que energia (E) é igual à massa (M) vezes a velocidade da luz no vácuo (C) ao quadrado. Partindo desse princípio, proponho um novo olhar: o de trazer essa fórmula para a nossa dimensão. O que compõe a relatividade dos campos energéticos nessa dimensão? O movimento dos corpos. Então vamos supor que, energia (E) é igual à massa-corpo (M) vezes o movimento deste (C) ao quadrado. Diante dessa informação, podemos entender que o movimento que meu corpo produz libera energia. Mas, qual o movimento de um corpo?

            Vamos olhar em nossa volta, observar a cidade (já que temos tempo agora) e perceber como ela foi construída. Quais são os movimentos que os corpos operam nela, para que sua estrutura continue se erguendo e se sustentando? Agora vamos pensar no nosso corpo. Qual o movimento que opero no dia-a-dia? Quais são os meus hábitos? Dentro dessa análise rápida dos movimentos dos corpos em uma cidade, podemos perceber, que tipo de campo energético este conjunto de pessoas produz, ao habitar e transitar nela. Esse movimento opera como afirmação de uma possibilidade de existência, é uma filosofia de vida, é uma cultura. Podemos calcular campos energéticos a partir dos nossos hábitos e da nossa cultura. Mas, esse tipo energia nos interessa? Como nos sentimos?

Eu tenho muitas perguntas.

            Tenho as feito diariamente pra mim. Respondê-las tem sido uma pesquisa constante de movimento, como se a dança estivesse sempre sendo ensaiada, ou melhor, como se a todo o momento a criação do movimento acontecesse. E é isso, o segundo se faz com a corporificação do gesto. Na dança contemporânea pesquisamos muito uma modalidade que se chama contato improvisação. Corpos que se relacionam em movimento. Relação, pra mim, é uma palavra chave para pensar contato improvisação. Como os corpos se põem a dançar em relação? Para isso, é necessário saber que existe uma superfície onde se dança, além de também existir a superfície móvel dos outros corpos. O peso é um fator muito importante. Como receber o peso do outro ou como dar seu peso ao outro? Existem possibilidades de estar em cima de outra pessoa sem pesar tanto, ou qual a relação que esse peso pode me dar, para me ajudar a realizar um movimento que não conseguiria sem ele? Puxar e empurrar. Como essas ações podem compor uma dança em relação? Importante pensar, que essas ações são concretizadas em prol da realização de um movimento difícil de fazer sozinho. Por exemplo, como posso puxar alguém de forma a o ajudar a deslizar pelo espaço? Como posso empurrar alguém para que salte mais alto do que o usual? Importante entender, que o objetivo da relação é fazer com que as possibilidades do movimento cresçam. Constantes descobertas se fazem na profundidade da relação entre corpos. Lembro-me das aulas que tive de contato improvisação e sempre iniciávamos tocando o corpo do outro, descobrindo os espaços, as dobras, os acúmulos de corpo, os ossos, a musculatura, as fáscias. O corpo é cheio de tecnologias. Já parou para se perguntar o que existe entre a tua pele e teu músculo? Para que serve uma glândula pineal? Talvez seu movimento agora seja ir ao google pesquisar o que são essas coisas que estão dentro do teu corpo e qual a função delas.

            Olhar para dentro nos ajuda a pesquisar o nosso corpo e a partir daí começar a querer se relacionar com o corpo do outro.

            Voltando aos campos energéticos, sem ter fugido deles, associá-los ao movimento tem fundamento. O nosso corpo nunca para, ele vibra o tempo todo. O sangue está circulando, os átomos estão em movimento, as glândulas estão produzindo hormônios, os seres unicelulares estão realizando fagocitose, os rins estão filtrando o sangue, etc. A energia também está em movimento. Já parou para sentir a vibração dos teus chakras? Tudo está em relação. Abre teu campo de percepção.

            OBS: O título deste texto está no plural, pois acredito que as possibilidades são múltiplas.

Violência que isola

Por Indyra Gonçalves

(Recomendo fazer a leitura desse texto ouvindo o álbum Mulher do fim do mundo, da Elza Soares)

 Começo a escrita desta semana pedindo desculpa pela ausência na última sexta-feira. O isolamento tem sido ainda mais sobrecarregado de tarefas, processos de readaptações, fortalecimento de rede de apoio e uma infinidade de ordem e desordem para esse momento tão novo e incerto. Tenho tentado também usar esses dias como aprendizado.

Nesses dias de contato extremo comigo a vida tem sido de muita reflexão e de descobertas. Estou tentando, muito além da presença da energia pesada provocada pelo vírus, olhar para dentro, mesmo que esse seja um lugar complicado e que exija paciência. Num primeiro momento há muitas surpresas entre o que já fomos e o que somos. Em outro momento surge também a questão de para onde iremos e quais meios serão os mais saudáveis para fazê-lo. Os medos e a insegurança estão em alta, mas sempre sob a perspectiva de que é preciso desacelerar. Há exaustão porque o corpo segue em movimento e a mente também. Mas sigo organizando e refazendo a caminhada para o novo momento. Estou aprendendo.

Entre as minhas leituras, ativação da mente e reflexões acompanhei um questionamento constante de outras mulheres, além de artigos e matérias sobre o isolamento social vivido por milhares de mulheres que estão em relacionamentos abusivos. A recomendação mais apropriada para que possamos enfrentar com menores danos possíveis à vida causados pela Covid-19 é o isolamento. Inclusive, é um momento importante para o reencontro conosco e com as relações de afeto e amor com quem amamos. Por outro lado, muitas mulheres que sofrem, bem antes de sabermos da existência do vírus, com a violência doméstica estão em casa com os seus agressores. Os dias que já estão difíceis porque não podemos sair e socializar, imaginem para que já sofre com esse isolamento muito antes e ainda sob ameaça à vida.

O isolamento social que mulheres com parceiros abusivos sofrem está ligado diretamente ao processo de enfraquecimento das redes de apoio delas por eles. As vítimas são impedidas ao longo do convívio com a outra pessoa de manter relações afetivas e sociais com familiares e amigos. A vida delas passa exclusivamente a ser dividida e orientada com o parceiro e sob a perspectiva dele. Além do distanciamento social, elas sofrem também com violências psicológica, sexual e patrimonial. Ainda pior, muitas delas são vítimas de feminicídio.

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(imagem da internet)

A violência contra as mulheres é considerada uma questão de saúde pública e violação dos direitos humanos, pois está relacionada a maus tratos físicos, psicológicos, sexuais, morais e patrimoniais. Dados levantados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que entre 15% e 71% das mais de 1,2 bilhões de mulheres ao redor do mundo já foram vítimas de abusos físicos, sexuais ou ambos, pelo parceiro íntimo em algum momento da sua vida.

Se pensarmos na realidade brasileira, de acordo com dados apresentados em 2019, a partir de números do Ministério da Saúde compilados pelo Atlas da Violência, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) foram registrados 4.936 assassinatos de mulheres em 2017, o que representa a morte de 13 mulheres por dia. Esses crimes se agravam ainda mais em mulheres negras, que são 66% das vítimas, mortas por armas de fogo e na maioria dos casos dentro das suas próprias casas. Esses são números assustadores, covardes e racistas.

Na semana passada, Djamila Ribeiro, mulher negra e ativista feminista, escreveu sobre o assunto em sua coluna na Folha de São Paulo. Além dela, a pauta tem sido colocada em debate e preocupação por outras redes de mulheres, declaradas feministas ou não, além de espaços de discussão jurídica. No texto da Djamila, ela traz um dado preocupante sobre a relação do Brasil com nós mulheres: somos um dos países mais violentos para mulheres viverem.

Cerca de 40% dos casos de homicídio de mulheres registrados no Brasil em 2017, a partir de dados do Altas da Violência, ocorreram dentro da casa das vítimas. Recentemente, em 2015, o país criou a Lei do Feminicídio (a conquista dela mostra como o lugar que estamos, especialmente dentro de casa, não é seguro para mulheres, mas é importante e necessária, porque os agressores precisam ser punidos de acordo com a lei), que enquadra homicídios cometidos contra mulheres, com penas de 12 a 30 anos de prisão.

Para esses dias de isolamento, especialmente para mulheres que vivem essa perversa e dolorosa realidade é preciso que a nossa sororidade seja reforçada. Estamos todos em casa. Deixemos os ouvidos atentos para ligar e denunciar pelo 180 (Central de Atendimento à Mulher). O isolamento nos impede, infelizmente, de termos contato físico, mas o cuidado umas com as outras deve continuar. Para aquelas que já sabemos que sofrem violência é importante o incentivo para que denuncie, que solicite uma medida protetiva para afastar o agressor. Esteja presente.

Ao longo da escrita de hoje fui acompanhada pela voz da maravilhosa Elza Soares, ouvindo o álbum Mulher do Fim do mundo (recomendo demais) que também teve em seu histórico a violência doméstica. Nas pesquisas que fiz sobre o assunto, achei um documentário chamado “Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180″: Elza Soares e a violência contra a mulher”. A peça faz parte de uma produção universitária, do curso de História, da Universidade de Santa Catarina. Vale o play pela voz e história de luta e resistência de Elza, assim como pelas vidas de tantas Marias, Dolores, Eugênias, Laras, Letícias, Augustas, Margaridas, Claúdias, Denises, Saras, Ingrids, Amandas, Natálias, Valentinas, Glórias, Selmas, Eloísas, Helenas, Neides, Raqueis.

Mantenham-se em casa. Enquanto isso, fortaleçam suas almas e seus corações com a arte. Escutem Elza Soares e denunciem a violência contra mulheres!

Diário COVID19. O Mundo Caiu na Mão

Por Bárbara Leite Matias.

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                    Imagem de Jamal C. Março de 2020.

 

Prólogo: Aqui nesse ensaio com cheiro de água sanitária, porque a classe rica brasileira sempre chega à frente nos supermercados e farmácias, suas mansões têm odor de álcool em gel e nossas pernas não acompanham essa gente. Antes de adentrar a farmácia a moça já responde: Tá faltando. Essa moça também não comprou álcool em gel, estava ocupada, vendendo pra manter o pequeno negócio que não é seu.

Diluímos o vidro de água sanitária na água. Alongamos nossos braços e compartilhamos o kit sobrevivência dos próximos dias. Dedos intrigados de dedos higienizam o país.

Dezesseis de março; inicio no meu perfil virtual do Instagram (@babisbarbarou) a produzir escritos e videoperformances sobre esse momento que estamos atravessando. Eu estou há dezesseis dias morando em Belo Horizonte, MG, porque estou fazendo Doutorado em Artes da Cena na EBA- UFMG, a aula dessa tarde é com um professor francês, as mensagens começam a pipocar no e-mail da turma: “Professor não acho suficiente o encontro de hoje”“ Eu não vou ““ Não posso ficar com falta”, “alguém faz um relatório da aula”,” Não podemos colocar nossa vida em risco ““…

Nesse dia eu estava na universidade desde cedo, porque tinha ido fazer minha carteirinha pra ter acesso à biblioteca. No Ceará, meu estado, a vida andava olhando pra COVID19 de forma mais assustada que nas terras mineiras, meus amigos e familiares diziam em coro.

-Volte pra casa.

Casa – Nunca essa palavra foi tão solicitada, nunca entendemos tanto a dimensão de ter um teto. Estamos esticando por dentro feito rede velha, disse minha vó quando viu a noticia no Jornal no inicio de março desse mesmo ano, quando isso tudo estava acontecendo na China.

Na Praça da Universidade um aluno grita;

– Bolsonaro tá com coronavírus.

Uma moça responde,

– Tomara que morra.

Uma senhora que passa na mesma hora, fala baixinho, estava próxima dela, ainda a distância não era um caso pontuado.

– De que adianta ele morrer se Morão estará intacto, se o vice dele assumir é pior que vírus da Europa.

Sigo minha caminhada, vou para o restaurante universitário e a discussão é a mesma, depois pra aula e o assunto também segue.

Às 15h e 55 minutos, depois de alguns alunos assustados porque viajaram pelos aeroportos e rodoviárias de São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Salvador pra chegar naquela aula, alguém levanta a mão, estávamos falando de “Filosofia da Arte”:

– Gente, a UFMG entrará em greve dia 18 (quarta), ás 17horas, tá aqui a matéria. (aponta para o celular).

Todos, diante de uma aula de filosofia, começam a questionar, porque não entendiam quais estratégias a administração havia cogitado para o vírus não entrar no prédio naquela segunda, terça e quarta até ás dezessete horas.

– Aula finalizada.

 Disse o professor de olhos azuis, aparentemente um senhor de cinquenta e poucos anos talvez, beirando o grupo de risco.

No ônibus a discussão segue:

– Bolsonaro fará outro teste do covid19.

Alguém espirra.

– As blusas ganham outro formato no corpo, algumas pessoas sobem-na para cobrir nariz e boca.

Alguém não cobre a boca, não importa o vírus continuará a falar.

– Bolsonaro pode está com covid19, sabia.

Olhou pra mim, respondi de longe com os olhos. Retorno o olhar pra baixo.

Hoje, 24 de março de dois mil e vinte, às 16:29 minutos ainda não foi exposto o teste da figura citada acima.

 Eu, Barbara Leite Matias, vinte e seis anos, natural de Lavras da Mangabeira, Ceará, estou produzido alguns “vômitos de dentro pra fora” sobre esse confinamento, a ficção de repente se coletivizou no mundo, parece cena de filme, estamos entendendo e com medo.

O presidente do Brasil ainda não entendeu nem como coloca uma máscara cirúrgica de elástico na sua própria face.

O medo dorme comigo, ontem (dia 22 de março) cheguei de viagem na cidade de Crato, CE, passei por três aeroportos, uma viagem que se daria em menos de cinco horas durou trinta e duas horas, viajei com a mochila e o medo, acariciei seus cabelos, não dormimos. Aeroportos são vermes engravatados.

Daqui a quatorze dias saberei se fui ou não infectada. Já será seis de abril. Em vinte seis de abril farei vinte sete anos. Espero estar bem de saúde pro meu aniversário. Estou isolada, mas, tenho quintal e comida na geladeira. Minha cachorra não me trata estranho, lavei todas as coisas que carreguei nesse trajeto, inclusive minha identidade.

Movimento primeiro

Desgosto que cospe de dentro pra fora

Continua viva, pulsante.

Caroço de muitas

Nascendo de dentro pra fora

Sem chuva

Só sangria.

A solidão não veio morar comigo. Eu sou ela.

 

Movimento segundo

Retorno à casa, olho as paredes e descubro detalhes parados há tempos.

 Corro dentro de mim como um vírus com fome.

Olho pela janela, aceno pra vizinha.

 Não há sorriso no mundo inteiro.

Minha mãe me chama no vídeo, tomamos vitamina C juntas. Já é dezembro.

Movimento terceiro

  1. “Só sobra pra mãe”
  2. “Eu só penso na mãe”

Pra toda conversa minha mãe inicia com uma e responde com a outra. Frase de mesma resolução, esses dias elas me veem à cabeça o tempo inteiro. Talvez, estejamos sendo essa mãe em alguma instância, mãe de si em prol do outro.

Tenho me parido devagar, sem sangria, são tempos de conter nossos líquidos ao externo, me pari sozinha e em silêncio. Semana passada me batizei de Antônia, antes de ontem Ariel, livre, sem gênero fixo, conversei comigo de madrugada umas verdades engolidas em mim. De mim.

Agora há pouco me fiz em Paula. Olhando o azul do mar que por acaso caí – por destino da empresa de aeronave azul tive que dormir em Recife, PE, estou num hotel de frente à praia de boa viagem. Sabe comer um doce e não poder arrotar?!É essa a sensação!

Por enquanto, a gente enfrenta de outras formas. Disse ela. Sábia Paula.

Retorno a mim.

Tá certo, quem sou eu pra não escutar as tantas aqui dentro. É só por um tempo.

Espero todo dia o sol nascer. Eu penso em tanta coisa olhando pra ele ou ela, o sol me disse que é ela, a sol.

São tantas pessoas nesse tempo, sem tempo de ser mãe de si.

O mundo nunca foi tão pequeno.

Minha tia continua na casa dos patrões, água sanitária diluída na água, novidade, ela sempre fez isso. Ela matou um corona com pano de chão ontem, depois, olhou pra família classe média de cu perdido;

-Estão aqui, água e água sanitária, rodo e tecido; mistura perfeita como meu salário.

Foi ser mãe de si.

 O mundo tá ficando pequeno e pode ficar mais.

Hoje contei quantas tias podem ser mãe de si, menos que os dedos de uma só mão.

E as mães da China engolindo suas lágrimas pra não contagiar os filhos de uma emoção gorda em vírus, não se diz mais eu te amo de perto. – Nunca amar com olhos foi tão importante, disse minha mãe pra mãe da China que só viu na televisão. Elas ficaram intimas, não ofereceu café porque dinheiro é sujo e tem que lavar as mãos duas vezes a mais.

Eu entendi agora porque sempre disseram “dinheiro é sujo”, passa na mão de todo mundo, do bom e do ruim. Menos dos pobres. Mão de pobre não acaricia dinheiro.

Esse corona é pra gente ser mãe de si, pensando no outro.

Todo mundo é suspeito até que não dê uma “tossinha” de leve.

Movimento quarto

Se por acaso sair na rua pense três vezes antes desse ato. Assim, ainda assim saindo, só em último caso perceba o dragão que cospe fogo de olho a olho, alguns metros de distância pra evitar o incêndio.  Não deixe de espiar. Guarde o instante, volte pra casa lave os sapatos, os alimentos, as mãos.

Nunca tive tanta intimidade com unhas, falanges, veias que tem olhos, que tão vivos querendo ficar em retorno a mim.

Guardar um olhar na quarentena é como sonhar que uma alma ofereceu uma botija.

Depois da quarentena, encontrar esse olhar é viajar com o ouro da botija desenterrada.

Alma penada vaga nas ruas da solidão cheia de gente.

Movimento Quinto

Aquele homem é um corpo engravatado-morto.

Aquele corpo amarelado, peste, pele, desgosto nosso de ter que escutá-lo dizendo que nos mantém vivos. Logo ele, corpo morto-vivo.

Aquele corpo não tem mãe nem festa.

Movimento sexto

 Sonhei que o presidente morreu engasgado com suco de limão feito por minha vó.

Sorriamos com a tragédia simbólica.

Lavávamos as mãos a cada peça costurada pra vestir aquele corpo para o enterro.

 Ele morto, nós éramos tantas.

Queimávamo-lo e todo vírus foi decapitado, amém.

Minha vó agora, presidenta.

Eu sonhei, enquanto podia, com a morte dos vírus.

Movimento sétimo

Eu dizia, eu não preciso de você, aliás, não preciso de ninguém.

Mesmo fazendo teatro eu bem no fundo, me faço só.

Eu menti.

Minha cor preferida nunca foi preta.

Eu emancipei um eu, que não sou eu.

Percebi agora, feito um grito no ouvido.

 Escuto meus gritos.

O silencio da rua aumenta como os gritos daqui de dentro.

Movimento oitavo

De segundo a segundo eu ligo a tv.

Sei detalhadamente – milímetro a milímetro de notícia, elas pesam toneladas.

Eu só penso nos jornalistas, alguém ligou pra eles.

Façam sopa pra eles, antes lave as mãos.

Eu só queria que todo jornalista e médico tivesse mãe pra sempre.

Ser jornalista e médico não é a mesma coisa.

Mas um dirige e o outro informa o ritmo. É como a música, existe pro mundo acontecer.

Por favor, inventem uma mãe pro povo da notícia e da saúde.

Ao sabor do vento

Por Marcelina Acácio.

Estou confusa se ouvi de alguém ou se li em alguma rede social que uma mulher que escreve é um perigo.

Devo confessar que eu cometi alguns crimes, pelos quais paguei antecipadamente. Primeiro sinto, depois escrevo.

Já que me dispus a revelar os meus crimes, aqui vai mais um.

Em 2013 incendiei o apartamento do meu ex- namorado, porque ele me fez crer que eu estava louca. Mas esse crime, foi em legítima defesa, aconteceu depois de eu ter vivido um sério relacionamento abusivo. Se eu me sinto honrada ou desonrada por tê-lo cometido?

Nem honra, nem desonra.

E aqui vai um alerta: não subestimem as loucas. Nem a uma mulher com lua em áries. Ela é o próprio demônio.

O mais recente crime foi um poema, fui bloqueada por causa de um poema.

Faz alguns meses que tenho andado na companhia de Clarice Lispector. Eu sempre a evitei porque sabia, eu passaria a imitá-la, ou porque ela me tiraria noites de sono.

Mas a verdade é que o que ela escreve, me serve de tal modo que eu já não escreveria mais não fosse por Clarice. Eu não saberia mais escrever sem ela.

Gosto especialmente das crônicas que ela traz o ato de escrever como libertação e salvação, como em ESCREVER (II), do Livro Aprendendo a Viver:

“Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro porque exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva”.

(LISPECTOR, 2004, p.179)

Ela continua:

“Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada. Que pena que só sei escrever quando espontaneamente a “coisa” vem. Fico assim à mercê do tempo. E entre um verdadeiro escrever e outro, podem-se passar anos”.

Não poderia senão amá-la por ter deixado tais iluminações.

Por que estou escrevendo sobre “escrever” e não sobre como continuamos vivos ou não, atravessando a pandemia de Covid-19?

Naturalmente, não estou fugindo ao tema, se percebem, escrever tem me salvo a vida, desde a minha tenra idade. Em momentos de grande dor ou de angústia, é a escrita que tá ali, pronta para nascer, basta que eu me dê o tempo necessário da escuta interna. Escrever não é difícil, acho até que das artes, é a mais fácil, quem não sabe pintar, desenhar, tocar um instrumento, dançar, atuar, sabe escrever, disso eu tenho certeza.

Meu avô materno, pai de criação, era agricultor e não pode frequentar a escola, mas sabia ler e escrever, e fazer cálculos. Era bom com números e adorava as palavras, me fez gostar de aprendê-las. Dos momentos mais puros que tivemos juntos, me lembro de uma palavra que ele me pediu para ensinar-lhe a grafia, a palavra me fugiu, mas não esqueci do seu pedido infantil: me ensine uma palavra.

Aos 04 anos eu aprendi a ler e a escrever. Desde então não parei. Se escrever é a benção de quem não nasceu abençoada, eu tomo posse do meu destino. Escrevo! E por isso existo.

Quero falar aos amigos que tem me enviado mensagens, seja agradecendo pelos textos, seja compartilhando sentimentos.

Ontem me dei conta de que é tão pessoal a minha escrita que escrevo para mim mesma, estou apenas me ouvindo, eis o ápice do meu egoísmo, como quando invadi o silêncio e a individualidade do D., (tenho vontade de dizer o nome dele, já que ele não me lê) até ele me bloquear, mas se a minha pessoalidade consegue provocar no outro “movência”, então eu me percebo abençoada.

Diário Pandêmico – excessivamente pessoal

01 de abril, Dia da Mentira.

Acordei nas primeiras horas do dia.

Hoje faz um dia bonito, ensolarado e com muito vento. Abri a janela e a porta para que ele circule melhor.

Vitamina D é vital, se podes ir ao teu quintal ou varanda, apressa-te em tomar banho de sol, recomendável até às 10h00 da matina.

31 de março de 2020, ontem se completaram 56 anos do Golpe de 1964, que deu início à Ditadura Militar, essa se estendeu até 1985, marcada pela censura, desaparecimentos e execuções. Que ela não se repita nunca mais!

Também ontem, à noite, o ineficiente e inescrupuloso do planalto que quer que o povo volte às ruas e morra para salvar a economia, fez um pronunciamento em cadeia nacional, distorcendo a fala do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Houve panelaço durante o pronunciamento e nós aderimos.

Mais cedo eu vivi uma tarde orgástica, entre leituras e gozos, e uma lembrança boa do A.

Fiz planos para o futuro, eu que não sou de planejar, se eu não morrer em breve, quero me apaixonar e publicar “De vento em poesia”, um livre (erro de digitação, mas com sentido) que reúne minhas poesias e divagações, pensamentos ao sabor do vento.

Vivendo em distanciamento, descobri saudades e certezas. Nossas relações nunca mais serão as mesmas, algumas deixarão de existir, ou já não existem mais.

Finalizo essa extensa “coisa” com o poema da pequena Elena, de 06 anos, filha de pai poeta e mãe psicóloga, uma criança que me fez gostar de crianças.

“A lua é minha amiga

Amiga é minha lua

Eu gosto de comida

Eu amo a minha lua”.

Poema de Elena

(Poema de Elena. Imagem cedida pelo amigo Guilherme Salgado, pai de Elena).

Edit:

Enquanto eu relia o texto o vento me trouxe o nome de um livro

“O vento e a rosa” ou a “A rosa e o vento”.

 

Referências bibliográficas

LISPECTOR, Clarice. (Aprendendo a Viver, Rocco, Rio de Janeiro, 2004).

31 de março – Em campanha pela vida!

Por Roberta Bonfim.

Olá ArteVistas!

Aos que já me conhecem, que bom reencontrá-los. Aos que caíram aqui de paraquedas, alerto;

Aqui é Lugar de crescimento, aprendizado, campanhas em prol da vida, tendo o amor e a arte como caminhos possíveis para grandes transformações. E no meu texto desta terça 31 de março de 2020, quando vivemos o que vivemos, e não temos quaisquer certezas sobre o amanhã, e absoluta necessidade de vivermos e observarmos o presente que somos. Foi meio assim que aconteceu. 

Estava eu aqui, como todos devem estar – em casa. Eu seguia cuidando da minha vidinha, entendendo que o toque de limpeza, somado ao Corona-19,  e com Ana Luna e Clarice Lispector em casa, estão afetando minha coluna que guarda duas hérnias de disco. Constatação! Vou ter de fazer pelo menos 50 abdominais por dia para não sair da quarentena para fisioterapia intensiva. Importante também alongar. E aqui tenho também buscando exercitar o reiki. Seguia com os mil passos necessários para manutenção deste Lugar ArteVista, existimos por que fazemos um Airbnb – que teve todas as suas reservas canceladas.   Como faremos se não poderemos gravar na nossa querida Varanda Criativa? E assumo que apesar dos quase oito anos de programa, pensar em uma live em que fico olhando com meus olhos estrábicos para câmera, me causam taquicardia, frio no estômago e um medo gigante. E as ações? E a equipe? E nem poderemos ir para o Poço da Draga realizar as ações organizadas para este mês? E o Poço Draga? Assim, a pedido de Marilac Lima, responsável junto com Isabel pela ONG Velaumar, convidamos os nossos a se somarem ao Poço da Draga, felizmente algumas pessoas já estão aderindo e te convidamos a fazer o mesmo. 

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(Campanha para doação de alimentos à Comunidade Poço da Draga)

Mas, o grande respiro mesmo veio com a colaboração da ação organizada pela Associação Anjo Rafael, já falei sobre eles aqui em outro post. Eles têm conseguido juntar anjos e arrecadar recursos e estão conseguindo distribuir 1.100 quentinhas por dia, 500 cestas básicas até o momento e com a sua ajuda com certeza farão mais. 

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(Dados bancários da Associação Anjo Rafael, para quem puder doar)

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(Texto de Rafael Dantas)

Outra ação que nos enche o coração de gratidão e certeza de que a humanidade é boa, é a campanha em prol dos artistas, realizada por outros artistas, onde apresentam live de espetáculos, em prol de verba que gera cesta básica aos artistas maravilhosos de Fortaleza. Uma ação que nos aquece o coração.

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(Flyer da ação de apoio aos artistas cearenses)

E em meio a esse lugar que vivemos de tantas polaridades, estar em casa é apenas um detalhe, que nos mostra que podemos ser atuantes, que precisamos assumir nossas responsabilidades sobre o lugar que habitamos. E eu roteirizando o programa que vai subir nas segundas, às 21 horas do mês de abril, e que tá solar, com Adrya Costa, Di Ferreira, Márcio Muamba. Preciso agradecer mais uma vez a arte, ao afeto, à Lugar ArteVistas e aos ArteVistas que nos cruzam por me salvarem e inspirarem, particularmente, neste momento em especial, e em todos os outros. 

ArteVistas

(Papo gostoso com os ArteVistas  Marcio Muamba, Adrya Costa e Di Ferreira na Varanda Criativa)

E o caso do programa que subiu ontem, com o ArteVista lindo que eu amo, Gyl Giffony, que com seu sorriso largo nos encanta e nos convida a reflexões importantes sobre nosso lugar no mundo. Grata Gyl por ser-se e por existir-nos. E somos mesmo isso tudo e tanto mais que ainda nem percebemos. Viva a arte de existir na arte. 

(Programa  com Gyl Giffony, postado ontem, 30/03)

Junto a isso, a ideia de que precisamos pensar, sem criar expectativa, sobre os dias após isso passar. E volto ao Poço Draga, para que comecemos a pensar em ações que podemos fazer que possam colaborar para o desenvolvimento do ecossistema do Poço da Draga, e de Fortaleza. Se quiser somar nesse Lugar, seja bem-vindo.

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(Chamada do blog da semana)

E temos aqui o nosso blog, que tem sido um lugar de troca, vivências e percepções incríveis. Chega junto. 

Mãe de quarentena

Por Janira Alencar.

Logo que foi anunciada a quarentena que ora temos enfrentado, começou a circular
nos grupos de educadores de que faço parte uma piada: ‘Se agora as escolas vão parar, pode ter certeza que uma mãe descobre a cura do corona vírus em 48h. Brincadeiras à parte, além do cenário de inseguranças e incertezas que vivemos, muitos pais têm que lidar com outra questão: o que fazer com os pequenos nesses catorze dias de confinamento?
Sem querer fazer a Poliana, já que estamos, de fato, atravessando um momento seríssimo e sem precedentes na história do país, mas, se há algo de positivo que podemos
tirar dessa experiência, penso que seja a necessidade de repensar e reinventar (ou
redescobrir?) as relações familiares. Olhar o outro com calma, falar, ouvir, fazer todas as
refeições juntos, buscar formas de se entreter nos momentos livres – coisas que muitas vezes a correria nos impede de fazer. No caso das crianças, especificamente, o grande desafio é não deixá-las ociosas, organizar uma rotina que lhes possibilite compreender que não estão de férias.
Aí é que surge a grande questão: o que fazer com “essir mininu” nesses dias de isolamento? Algumas escolas têm se dedicado a propor atividades e enviar tarefas remotamente; se é o caso da escola do(a) seu(sua) pequeno(a), a sugestão é fazê-las sempre no horário escolar, no intuito de manter a rotina. Se não, você pode, nesse mesmo horário, propor atividades mais educativas ou rever conteúdos escolares. Esse trabalho pode (e deve!) ser algo bem lúdico: a leitura compartilhada de uma história, a resolução de desafios matemáticos, assistir a vídeo-aulas referentes a temas estudados etc.
Também no intuito de organizar a rotina, é importante que os horários de refeições, banho, lazer, dormir/acordar sejam mantidos. Isso é muito organizador e tranquilizador para a criança. Entretê-las nos momentos de lazer parece ser o maior desafio, pois o tédio se apossa rapidinho e o estoque de ideias se esgota na mesma proporção. É fundamental lembrar que, assim como acontece conosco, o momento vivenciado mexe com o emocional delas, deixando-as mais sensíveis, estressadas ou irritadas; por isso a importância de ‘desopilar’ nos intervalos das atividades. A leitura é sempre uma grande aliada, e permite que o tempo livre não seja gasto apenas à frente das telas. Ler junto com as crianças ou para elas é sempre uma vivência prazerosa para ambos os lados. Outra dica é dramatizar a história lida: fazer teatrinho, construir fantoches, alterar o final ou partes da história; tudo isso vai mobilizar os pequenos e despertar sua criatividade. Algumas atividades para fazer juntos, como dançar, cozinhar, brincar com jogos de tabuleiro possibilitarão bons momentos e uma maior vinculação entre pais e filhos.
Além de tudo o que já foi citado aqui, seguem, abaixo, algumas sugestões de sites, canais e filmes que certamente farão bem ao corpo, à mente e ao coração da sua criança. No mais, fiquem em casa o máximo possível, cuidem-se e cuidem dos seus e lavem as mãos.
Quando esse temporal passar, teremos aprendido a ressignificar o nosso tempo e as nossas relações, valorizando quem e o quê realmente importa. Lembrem-se: “O sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações, do mal será queimada e semente, o amor será eterno novamente!” ❤
Sugestões de canais (Youtube):
– Manual do mundo
– Se liga nessa história
Sugestões de site (Jogos educativos):
– Letroca
– Racha cuca
Sugestões de Instagram:
– Tempojunto
– Comidinhasdadiana
– festivalmusicaemcasa
– quartinhodadany
– Revista Bula (muitas, muitas dicas de filmes, séries e livros para os pequenos – e para os
grandes também!)
Ex.: https://www.revistabula.com/30241-10-series-do-amazon-prime-video-para-assistir-com-criancas/?fbclid=IwAR3wXSAbiUfxPHMFkxi9uUzoTpFfovR8kjU2WDZf3TbEEtBOm91tfjdddcM

Bula
https://www.revistabula.com/24232-10-filmes-da-netflix-que-podem-transformar-um-diaruim/?fbclid=IwAR09hHljZjqP6Aem4KK-dx21gh0WMuwy9_r8VN7P8Et-XMAvgqlw5QXEc3A

bula 2

https://www.revistabula.com/29951-10-documentarios-da-netflix-para-assistir-com-ascriancas/?fbclid=IwAR3BsPbehQJlXCWAU9jwFc-6ZDg7dVwpGtAB1w3vWKDHmTyPssfhcFGIf-I

bula 3

https://www.revistabula.com/30051-25-brincadeiras-para-ascriancas/?fbclid=IwAR3yvqZqCHYZTIJhJio1YrCTyABBNVqvejU2BFO1XgK8rq7wb0ew67ApNs0

bula 4

 

*Janira é Coordenadora Pedagógica de uma escola infantil e mãe do Tom, de 2 meses.