Um dia por Vez

Por Roberta Bonfim

Já faz tempo que nem lembro bem, mas a mim parece sempre que foi ontem que toda essa brincadeira começou a partir desse desejo crescente de mundo. De conhecer lugares tangíveis e intangíveis. Demorei a me entender como bicho, e um pouco mais como lugar, e só agora venho percebendo que não passamos de grão de areia que podem voar. Então, alcemos vôo rumo aos afetos honestos, e ao desejo por uma caminhada em que a prática ande de mãos dadas com os discursos. O oposto a esse exercício, hoje, me parece hipocrisia.

Na semana tivemos nossa primeira atividade no Poço da Draga e iniciamos em um dia mágico e especial. Dia que iniciou a construção da Composta Comunitária do Poço, um projeto do qual amamos e somos parceiros. Neste dia também conversamos com a maravilhosa Izabel Lima (ONG VelauMar), com Ruan, filho do artista multi Robinho, e também com moradores desse lugar de tantos artistas. E com João, responsável por essa ação.

HOJE AS 18:30 vai rolar a inauguração, bora lá?

Conseguimos mandar os computadores ao conserto e trabalhamos nos detalhes internos, ao tempo que desenvolvemos e compartilhamos planejamentos para o futuro. Lorena tá aqui montando no lambe de fotos que narram nossa história, tá ficando tão lindo. Essa semana vamos trazer nossa cadeira amarela para deixar nossa salinha ainda mais a nossa cara.

E por falar nas obras de Lores, você já viu nosso calendário lindo de bonito? Adquirindo o seu você colabora com ações no Poço da Draga – só falar com a gente no direct do instagram.

Quem também tá dando show é Martinha, com seus convidados mágicos. Na última sexta, Ana e Carri só nos encantam e ensinam ao lado dessa ArteVista tão querida.

Estamos organizando mais novidades, fica ligade, acreditamos que você curtir.

O TESTAMENTO DO EU

Esse texto não é apenas o fim de uma série de artigos sobre a questão da identidade. É também o testamento do “eu”.

Era ainda o ano de 2019 quando pela primeira vez li o livro “A vida e a morte no budismo tibetano” de Chagdud Tulku Rinpoche. Nele o monge tibetano nos ensina a importância de lidar o mais cedo possível com o temor da morte. Quando terminei de ler o livro, imediatamente me veio a vontade de fazer o meu testamento. Sim, eu já havia pensado nisso muito antes, mas foi somente após lê-lo que me surgiu a necessidade espiritual de realizar essa ato testamentário. Esse texto que ora apresento faz parte do meu processo de descoberta de que o “fim” deve ser reconhecido como parte de intrínseca da nossa Jornada.

“Quem sou eu?” (ECO…)

A minha participação de escrita nesse blog começou com essa pergunta. E pretendo aqui respondê-la antes que termine o ano. O ano para mim só termina em março mesmo.

De certa maneira, definir quem somos parte de uma série de começos. Há muitos pontos de partida que podem orientar a nossa resposta. No entanto, enquanto figuras ocidentais imersas em coordenadas cartesianas, esperamos que haja apenas uma e definitiva resposta. Não é mesmo? Mas sabemos quem somos? A resposta é…

Sim e Não.

Primeiro, devemos admitir que a frequência desse tipo de resposta advém de um discurso pré-moldado. Como se fosse comprado na Tok Stok ou na Leroy Merlin ante-ontem. A verdade é que nossas reações diante dessa pergunta se pautam por uma questão de identidade social: um nome, uma biografia, um companheirismo, a família, um lar, o emprego ou o cartão de crédito.

Estamos na realidade preocupados com o “olhar do outro”. Mas, qual é a sombra de nossa identidade? Imaginem, por exemplo, uma pequena garotinha tomando sorvete. Seus pais a olham enternecidos e com certa “surpresa nostálgica” pelo desejo da filha ao tomar o dito sorvete. A garota reconhece o olhar dos pais. Na próxima vez que ela estiver na rua e pedir aquele mesmo sorvete aos pais, é de se perguntar se será para ela mesma ou para os pais que ela direcionará seu objeto de desejo a ser satisfeito. Muito complicado?

Dito de outro modo, quais outros sabores não conhecemos porque nossa satisfação está dependente do desejo do outro? Que parte de nós ainda não conhecemos?

De certo, essa parcela desconhecida advém e se instala quando acontece o “silêncio”. Quando não temos mais que dar respostas prontas ou agir de acordo com o que esperavam de nós. Ao cessarem os barulhos e as atividades, quase sempre nos deparamos com aquela espécie de silêncio ensurdecedor que nos diz quem somos. Todo o problema é que não encontramos o silêncio, porque ele não diz nada. E sem eco, somos o “não-dito”. Portanto, da próxima vez que te perguntarem quem és, responda simplesmente: “Sou o que tu não vês ou ouves. Tudo que disseram sobre mim não fui eu quem te disse, o que tu vê em mim, lembra que eu não vejo. Portanto, sou o não-dito”. Essa frase é minha, com “common rights”, portanto pode compartilhar mas fazendo menção ao autor. Ok? Penso que esteja nesse “não-dito” o que chamam de sombra.

O ano de 2020 para mim não foi atípico. Pelo menos não da maneira como a maioria do mundo tem julgado. Sinto que foi muito mais uma espécie de convite para que as outras pessoas pudessem experimentar aquilo que venho sentindo a minha vida inteira. Imaginem alguém que busca a ordem em meio às profundezas do caos da transformação incessante. É assim que um virginiano na casa 8 se sente. “Welcome to my world!”

Meus processos de morte me acompanharam desde cedo. Crenças que cederam lugar à desconfiança. Algumas cascas de feridas que deixaram marcas; outras esquecidas. Mergulhos nos mistérios da vida que não obtiveram compartilhamentos ou “likes”. Experiências que por serem demais obscuras me despertaram o verdadeiro temor e a opção de escolher apenas o superficial em vez do profundo. Outra vezes o inverso. E finalmente, o aprendizado que advém do reconhecimento dos meus limites, seja do âmbito corporal, psíquico/mental ou emocional. E tudo isso devo ao “outro”. É com o outro que me encontro, quem me manda uma mensagem que diz se o sinal está fechado ou aberto. 

O “olhar do outro” provoca e espera uma reação nossa. O distanciamento social nos tem proporcionado uma espécie de laboratório para o estabelecimento dos limites. Imaginem então esse cenário no mundo pós 2021: afinal, não é o outro com sua máscara na fila do pão que diz se você pode ou não avançar?

Graças a Deus eu tive um Pai para me impor certos limites. Hoje eu reconheço que é fundamental para a vida em sociedade. Por outro lado, sentir-se aprisionado, sem alternativas, com a impressão de ser um patinho feio, é perturbador demais para o “eu”. O que a maior parte das pessoas chama de “tradição” ou “conservadorismo” é na realidade uma “ansiedade da operação do desejo” que clama pela “aceitação”. Se é verdade que existe a exclusão a partir da definição do “normal”, não é menos verdade que o “diferente” se auto-exclui quando deixa de ceder ao diálogo, à negociação e ao convencimento. O “diferente” está errado em pensar que é um “eu” especial. Outro ponto importante seria colocar em perspectiva as inúmeras “formas estratégicas de sobrevivência” e as “reações inteligentes” quando surge a violência física no encontro do eu-outro, o que poderia ser melhor discutido em outro artigo, principalmente em relação à questão do papel simbólico da Mãe.

Essas questões no fim levantam a maior de todas: o que é a liberdade? E qual o seu limite? Ou melhor, ao se relacionar com o outro, qual é o preço da liberdade? Ou vocês acham que Adão [Primeiro Homem] estava feliz sozinho?

Certamente se deve a Freud a melhor explicação da forças atuantes no “ego”, submetido às forças do desejo e da necessidade do “id” e às forças castradoras do “superego” que moldam a personalidade do indivíduo para uma vida em sociedade. Esse arcabouço psicanalítico foi logo depois substituído pelos termos “pulsão de vida” e “pulsão de morte”. Eros e Tanos. As duas forças constitutivas de todo ser humano em duelo permanente.

No âmbito das ciências humanas foi bem pior essa repercussão. As pesquisas de linguística despertaram as forças de pandora para aniquilar o “eu”. Onde estaria portanto o “EU” na era pós-moderna? Sendo subitamente substituído pelos discursos  estruturantes, o indivíduo deixou de ter qualquer autonomia ou privilégio do seu destino. É assim que nascem o discursos hamletianos de “ser/estar”. Daí também a singular universalidade desse teatro. Ninguém mais “é”, no mundo contemporâneo “se está sendo”. Nunca antes a ideia de uma “construção” esteve tão em voga:

”Você não é uma pessoa bem-humorada. Você está bem-humorado”

“Você não é um viciado. Você está viciado”

“Você não ama. Você está amando”

Para então chegarmos à diferentes soluções, quando se acha que é mais importante “ser” do que “ter”:

“Você não tem um carro. Você está fazendo uber”

“Você não tem onde morar. Você está morando com os pais”

“Você não tem uma carreira. Você está fazendo um bico aqui e outro acolá… como freelancer

A questão de saber se Hamlet era ou se fingia louco é importante aqui, pois trata-se da força de seu ímpeto (desejo e poder). Como solução de um conflito trágico, Hamlet assassina e é assassinado. Cheque-mate. Quem vence não é o príncipe mas as forças do destino que aniquilam o “eu” e o “outro” dentro do reino podre da Dinamarca.

A morte e sua presença ressurge em uma espécie de paralelo histórico que reaparecem no entardecer da humanidade como uma minhoca que sobressalta e perfura a terra, deixando um único rastro: o buraco.

Outro dia ouvi o que disse a monja Coen: que o objetivo da vida não é a felicidade. Por quê? Porque existem muitos desconfortos na vida. É quase impossível ser feliz com tantos desconfortos. Porém, precisamos entender que tranquilidade é uma coisa, felicidade outra. Lutar por ter uma vida mais tranquila me parece mais justo e menos ambicioso na medida que estipulamos para nós mesmos.

Seguindo uma ótica de relação entre poder e amor, parece-me que uma escolha deve ser feita, entre dominar ou ser dominado. Ou simplesmente abdicar de tudo. Perdoar pode ser mais sensato. Desde o ter que levantar cedo para trabalhar a passar noites em claro cuidado de um enfermo ou de um bebê, quando precisa ser amamentado, a verdade é que somos requisitados por outrem. O que acontece com a pessoa que não quer mais amar? Elas ficam presas a momentos instantâneos. Querem dominar o outro, a natureza, Deus, a si mesmo. Estão ávidos por doses de prazer em curtos períodos. Aquele prazer curto e mesquinho ao qual se acostumaram. “Elas estão amando”, apenas. O amor visceral, ao contrário, como é sabido deixa um enorme buraco.

Essa incapacidade de amar de hoje nos tem levado às relações efêmeras, traços de uma personalidade miserável, não-produtiva, infértil. Em suma, egoísta. E por quê?

Chego a duas conclusões: a primeira tem a ver com a busca por pertencimento, a segunda pelo que significa diferença. A questão da individualidade surge de maneira distinta para as diversas culturas. Chegou-se à falsa noção de que para encontrar seu “verdadeiro eu” deve-se rechaçar tudo que veio antes ou que está posto como “norma”. Com isso, chegamos apenas à triste constatação de que o que se estará operando na vida será a “auto-exclusão”. Uma ilustração poderosa disso é aquela que surge quando queremos escolher uma roupa para sair. Embora tenhamos uma opinião, outro(s) opinariam de modo diferente, cabendo exclusivamente a VOCÊ decidir o que vai vestir.

Se você ouve sempre a opinião alheia ou se está sempre pouco lixando para as regras sociais, somente ao fim da noite, quando a carruagem virar abóbora, descobriremos quem tinha razão, não é mesmo?! É importante lembrar apenas que nem sempre posso seguir o que o outro quer de mim. Ponto. Portanto, não seja um “revoltadinho sem causa”. Amadureça e escolha com quem quer estar, usando essa ou aquela roupa. Dica Marie Claire: Há sempre um pé descalço à espera de um sapato que lhe caiba.

Outra ilustração poderosa de auto-exclusão aconteceu quando o buddha histórico Sakyamuni, quando ainda vivia no castelo como príncipe, dentro de uma sociedade familiar e de castas, decide vagar pelo mundo em busca da iluminação. Na verdade, estava ele em busca de compreensão sobre o nascimento, a velhice, a doença e a morte. O que ele faz? Visto que a rigidez social em que se encontrava o impedia de buscar essas respostas, decide cortar seus longos cabelos e viver frugalmente nas florestas com os antigos sacerdotes. Após ter chegado à “brilhante” conclusão de que as coisas somente “são”, ele retorna para a sociedade. Sim, ele volta para a sociedade ! Em suma, se eu puder escolher as roupas que quero vestir, e o outro também, e houver respeito, não vejo como evitar ficarmos lindos e maravilhosos num baile de gala.

Segunda conclusão. Somos semelhantes não somos iguais. “Respeito pela diferença, sim. Contudo, ninguém quer viver sozinho. Ou quer?”

As pessoas tendem a achar que estão sempre olhando para elas, que estão sendo observadas. Quanto egoísmo. Digo com “ismo”, porque somente com “ismo” tratamos aquilo que se deturpa: cristianismo, judaísmo, marxismo, liberalismo, etc. O “ego” é necessário na medida em que pode e deve lutar pelas suas necessidades.

Utilizar-se de um artifício sem escrúpulos como colocar uma melancia na cabeça pode bem ser o começo do fim. É bem verdade que do ponto de vista comercial a batalha pela atenção tem tornado o mundo um lugar bem difícil de se viver. O ego se coloca no mercado de modo ilusório – alienação de si – para que só depois se descubra o quanto aquele “produto” era frágil.

Mesmo um indivíduo que vive da caridade alheia necessariamente precisa ser olhado, mas o egoísmo dele é tão forte que ele mesmo é incapaz de doar alguma coisa. Esse é o tipo de pensamento “em si mesmado”, quando se acha que tudo e todos devem conspirar ao seu favor. Também é comum ouvir-se a queixa de que esse ou aquele projeto não deu certo porque fulano ou ciclano puxou o tapete. Esse discurso é recorrente e estou apenas mostrando o esqueleto do que acontece como efeito de uma causa muito perversa que é o egoísmo. Sim, o mendigo pode ter escolhido levar a vida da sua maneira. Isto é nobre e especial. Porém, somente o “não-dito” poderá validar. E isso só se torna visível quando um real processo de compartilhamento acontece. Quando o eu e o outro podem se irmanar, cedendo aquilo que se “é/está” para satisfazer a necessidade do outro. A maneira disso acontecer tratarei posteriormente.

Chego à conclusão de que compartilhar é também aquilo que chamam de “amor”. Porém, o que se diz sobre o “amor” é muitas vezes algo corrompido. Uma dor. Ao buscarmos comunicar nossos sentimentos e emoções humanas com amor elas são imediatamente reconhecidas. Saímos de nós mesmos. Saímos do “eu” e quase o aniquilamos. Mais que tudo, tem o poder de sair verdadeiro e simples. Não sai rebuscado como um “eu” especial.

Portanto, continuemos treinando nossas reações. Mesmo as reações ao amor. Pois não é fácil reconhecer que alguém te ama. E quando você ama, você ama de verdade ou está oferecendo migalhas que vão te satisfazer na medida do seu “ego”. Gosto da lição da monja Coen quando propõe pensarmos em termos cotidianos:

Como lidamos no trânsito? Você deixa passar? E quando vai ao banheiro, você cede ou quer sempre ir na frente?

Conclusão

Saber amar e saber deixar de amar podem ser igualmente as face das mesma moeda. Os pais que investem seus desejos poderosamente sobre uma criança que toma sorvete é igualmente pernicioso como uma mãe que não deixa seus filhos sairem do ninho, todo tempo fazendo tudo por eles, de modo que eles se tornam incapazes de sobrepujarem seus próprios limites. Foi o que teve de fazer o buddha Sakyamuni. Sair do olhar vigilante e super poderoso de seus pais para descobrir-se em si mesmo. Quando o amor se torna desequilibrado, é necessário afastar-se para que uma relação se mantenha saudável, onde haja participação tanto do “eu” quanto do “outro”.

Na minha vida pessoal, estive a maior parte das vezes envolvido com relações desiguais. Ao perceber isso, espero que consiga matar meu antigo “eu” e fazer um novo “eu” ressuscitar das cinzas. Pais, amigos, amores, fazem parte daquele “outro” que na maioria das vezes quiseram sempre ceder seu lugar na fila do banheiro. Eu reconheço com gratidão a oferta. Mas não. Hoje, sou eu quem quer deixá-los passarem na frente. Dessa forma, espero conseguir me desvencilhar do “poder do amor”. É tão mais justo revezarmos entre um e outro, quero acreditar que assim a fila andará mais rápido.

Eis meu fim escatológico!

Aniversário de 1 ano de uma MÃE.

Lara Leoncio

No dia 13 de janeiro de 2021 Íris Luz faz um ano de nascimento e com isso comemoramos também um ano do nascimento de uma mãe. E vendo tudo que passamos nesse ano percebo como é tudo muito forte. 

Lembro do pavor que fiquei quando tava saindo da maternidade com aquele presentinho divino nas mão, sim pavor, pois passei 5 dias na maternidade e tudo o que eu precisava, qualquer dúvida sequer, eu tinha ao meu redor médicas, enfermeiras e muitos outros profissionais que podiam me socorrer, na hora que estava no carro com meu esposo indo pra casa que caiu a ficha, negocio ficou serio.

Foto tirada na maternidade, um descanso necessário.

Agora um ano depois, vendo minha pequena andar, falar, correr, sorrir, brincar, percebo que realmente o negócio ficou sério, mas com uma pitada de leveza, aconchego e muito amor. 

Fico tentando decifrar o sentimento ou transpor em palavras o que meu coração sente, mas como é complicado. Como é complicado descrever um amor, medo, loucura, alegria se nunca tinha sentido isso antes, tudo muito novo, mesmo eu tendo lido muita coisa, estudado muito e me preparado, não sabemos nem a dimensão desse sentimento. Mas vamos lá, vamos tentar…

foto do primeiro mês em casa.

Até agora, cada momento foi muito comemorado, desde a notícia, toda gestação até o parto. E até agora sempre foi a primeira vez… a primeira vez que chorou, a primeira vez que olhou, a primeira vez que mamou, a primeira vez que sorriu, a primeira vez que fez coco e xixi, a primeira vez que falou mamãe, papai, vovó, a primeira vez que sentou, que engatinhou, a primeira vez que ficou de pé no berço, a primeira vez que caiu, a primeira vez que ficou em pé só, a primeira vez que caminhou, só um passo, agora dois, a primeira vez que comeu, a primeira vez;

a primeira vez que eu sorri, a primeira vez que eu chorei, a primeira vez que eu amamentei, a primeira vez que eu consegui ir ao banheiro, a primeira vez que eu levei o cabelo, a primeira vez que eu escutei mamãe, a primeira vez que eu acalentei um choro, a primeira vez que eu esqueci de mim, por ela, a primeira vez que eu cuidei de mim, por ela, a primeira vez que recebi um abraço de amor de filha, a primeira vez que segurei na mão para ajudá-la a caminha… nossa quantas primeiras vezes que nunca serão repetidas. 

foto curtindo o ano novo

Como me encho de orgulho, vendo aquela menina que entrou na maternidade e saiu apavorada com uma grãozinho de vida nos braços, pra tudo que já conquistamos juntas. Toda a confiança, o respeito, o cuidado. Principalmente nesse ano tão maluco de pandemia, sem poder fazer tanta coisa que era comum fazer. Nossa, como tive medos enlouquecedores dentro desse um ano, não só por conta do que todas as mãe passam, que já é muita coisa, mas por medo de pegar uma doença que mata o tempo todo e sem ter cura ainda, pensar em deixá-la só, ou dela pela essa doença, não gosto nem de imaginar, o medo ainda paira. Efim… 

Hoje vejo um caminho lindo trilhado por duas recém nascidas. E percebo que ainda vão vir muitas outras primeiras vezes, mas também percebo que muitas dessas primeiras vezes tão bem vividas e comemoradas só vão sendo lapidadas dia após dia. 

Queria poder fazer uma festa grande para comemorar com todos que amamos essa nossa passagem tão importante, mas como estamos em tempos de se cuidar para um amanhã próximo, vamos comemorar a primeira vez de um aniversário de mãe e filha no aconchego de casa, nos braços do papai, vovó e Bisa.

Foto do meu grãozinho de vida curtindo a vida.

O ano começa em dose dupla!

Olá, povo!

Como foram as festas de fim ano? Quais são suas expectativas para 2021? Desejo a todos que esse seja um ano de muita luz, saúde e prosperidade!

Vou começar 2021 em dose dupla, indicando logo dois filmes para vcs! Pra gente já começar esse ano com o pé direito, com muito entretenimento!

Um dos filmes é bem pesado, mas o conhecimento da informação nele contida é extremamente necessária! E muito mais necessária é a mobilização da maior quantidade possível de pessoas cobrando medidas para barrar o quão nocivas podem ser as consequências do que podem causar seus efeitos. Estou falando do “Dilema das Redes”, filme disponível na Netflix, e que nos mostra como foram criados e como são usados os algoritmos das redes sociais que todos utilizamos.

Que nossos dados são armazenados na internet, que esses dados são manipulados (e nós consequentemente também somos), que as informações que nos são direcionadas são pensadas e filtradas, isso todos nós já sabíamos, o problema é como isso é feito e a profundidade de como isso é feito! É muito bizarro e muito perigoso! E o pior, não existe, ainda, nenhum mecanismo de proteção para os dados, nenhum mecanismo de punição para o uso indiscriminado desses dados e dessa manipulação, mas é possível que haja essa proteção e essa punição, e quanto antes isso aconteça, melhor…. Enfim, assistam! Pensem a respeito. É um assunto muito sério e de interesse de todos nós.

O outro filme é arte! É música! E resgate histórico! É inclusão social! É cultura! É desses filmes que a gente assiste e que quer ver de novo!

A protagonista, Ma Rainey, é, nada mais, nada menos que Viola Davis! Assinam a produção: Denzel Washington, Tood Black e Dany Wolf, e a Direção é de George C. Wolf. Estou falando de “A Voz Suprema do Blues”, que está disponível na Netflix! O filme conta uma passagem da história da “mãe do blues”.

Foi o último filme que Chardwick Boseman (Pantera Negra)gravou antes de se despedir de nós! Ele dá um show de interpretação dando vida a Leeve, um trompetista virtuoso e destemperado!

Apesar de ser baseado em figuras reais, o filme não é exatamente biográfico. Tem diálogos fortíssimos e lindamente executados! E se torna ainda mais marcante pela interpretação de seu elenco, que é excepcional.

É isso, povo! Espero que vocês gostem tanto quanto eu dos dois filmes!

Forte abraço em todos e até o mês que vem!

Janaina Alencar.

Rito: corporificar gestos e palavras.

Sincronia

trajeto

posicionar

fluedez

restituir

quebra

expandir

movimento contínuo

gerar

desviar

afirmar

contrarir

cultitvar

friccionar

movimento estacato

opostos

nutrir

repetir

notar

aquilombar

movimento visceral

interagir

aproximar

rito

libertar

descolonizar

exaurir

ativar

corpo memória

insurgir

tennnnncionar

sincronia quebrada

atemporal

consolidar

repetir

repetir

distanciar

nutrir

desmarcar

dispor

rememorar

demarcar

restituir

afirmar

cortejo

contrair

viceral

friccionar

libertar

ativar

tencionar

atemporal

apostos

sincronia

posicionar

quebra

fluidez

nutrir

aquilombar

interagir

aproximar

libertar

exaurir

repetir

exaurir

contrair

cultivar

friccionar

friccionar

quebra

posicionar

trajeto

sincronia

movimento

opostos

descolonizar

demarcar

repetir

distanciar

interagir

aproximar

rito

fluuuidez

trajeto

sin

cro

nia

de

mar

c

ar.

AXÉ PARA NÓS E PARA OS NOSSOS!

Por Coletivo Abayomi

Ao redescobrirmos os valores civilizatórios afro-brasileiros, princípios que proporcionam novas possibilidades de produzir epistemologias, modos de ser, fazer e interagir, podemos compreender a natureza do pensamento africano. Através dos saberes ancestrais entendemos que a vida é cíclica, que somos parte integrante do sagrado presente na natureza de todas as coisas e que a energia, força motriz, que possibilita a experiência da vida em comunidade e a manutenção do saber é o Axé. 

Axé, ou Asè em iorubá, palavra repleta de sonoridade e encantamento. Pequena e, ao mesmo tempo, tão potente que, como fagulha, acende a vida dos assentamentos e dinamiza o cotidiano nos terreiros. É por meio das iniciações que damos os primeiros passos para o entendimento do mundo e que se revelam as complexas cosmologias que transcendem o visível e invisível, material e imaterial, Orum e Ayiê. 

Imagem: @poe_cole

Energia que se troca no abraço, elo que une a roda, força que move a gira, é cumprimento e saudação, benção, força, senioridade e potencialidade do ser. Axé, é essa força que assegura a dinâmica da vida, força invisível — mágico-sagrada — da realização e do movimento, é o poder de criar e transmitir conhecimento, pois cada palavra proferida carrega a energia vital de transformação, como dizia Mestre Dalua “asè vem da boca”. Axé é tudo e tudo é axé. Axé se tem, se usa, se renova, se acumula. E então, qual o axé desejamos acumular?

As diferentes culturas nos apresentam inúmeros prismas e nomes para o que aqui chamamos de axé: paz, equilíbrio, expansão, natureza, bem-estar, ki, prana, chi, ka e tentam interpretá-lo por diferentes vieses seja através da espiritualidade, ciência, filosofia, ética, etc., mas todas possuem um ponto em comum: a certeza da renovação dessa força ser um novo modo de estar no mundo, devir, e de novas possibilidades de compreender e apreender sobre a pluralidade de nossas existências.

Imagem: @sinistar22x2

Todas as passagens são momentos propulsionadores que nos permitem refletir e firmar intenções positivas porvir. Um respiro, convite ao discernimento que pode estimular a compreensão e a auto confiança. Durante a famosa contagem regressiva, em que nos despedimos de um ano já cansado e nos preparamos para receber um outro ano novinho em folha, de forma contagiante nos nutrimos e vibramos carga positiva e 3…2…1…! Os fogos de artifícios nos dão a dimensão, a materialização, do que se passa por dentro. Isso é axé.

Ao nos permitir canalizar e multiplicar esta potência nos tornamos condutores de toda essa fertilidade e a direcionamos para as diferentes áreas da vida. A energia não mente! Quando buscamos elevar nossas ações e pensamentos, uma reforma íntima e apurada nos auxilia a reformular conceitos éticos nos permitindo buscar por uma consciência mais ampla de si e da sociedade. Tudo sobre a lente da sabedoria ancestral do amor e da benevolência.

“O REINO DOS CÉUS ESTÁ DENTRO DE VOCÊ, E TODO AQUELE QUE CONHECE A SI MESMO DEVE ENCONTRÁ-LO” Provérbio Egípcio.

No corpo de uma mulher que foi mutilada virgem

Por Katiana Monteiro

Minha amiga confidente e Dinda de meu Namir, Roberta Bonfim, me desafiou a falar da maternidade. Eu, que no dia 11 de fevereiro de 2021, completo uma década como mãe. 

Até hoje ainda me surpreendo com a indagação. – Eu sou mãe? 

O nome soa tão doce e ao mesmo tempo carrega um peso de chumbo. 

Namir não foi planejado como tudo na minha vida, Mas, por ser contra ao uso da pílula no meu corpo e por ter cedido as vontades de quem me prometia amor. Ele veio, no corpo de uma mulher que foi mutilada virgem, um ovário lhe foi tirado quando tinha apenas 18 anos.  Era eu, ou o ovário. A  vida por um fio.O outro era valente com seus policísticos impetuosos. E, aos 30 me trouxe Namir. 

Juro que quando peguei o exame perdi o chão. Fui tomada por um medo tão grande, afinal apesar de estar na idade da maturidade, eu era ainda meninona no corpo de uma mulher. E pensei, com todos os limites que eu acreditava que meu corpo  tinha, ele  está aqui no ventre, porque era pra ser meu. Encontrei na minha família paterna o alicerce. 

Como é bom ouvir: 

Pode contar comigo. 

Eu

mulher grávida,

 grávida de vida.

Tive a gravidez mais louca e saudável que uma mulher poderia suportar. O abandono, a vida como animadora de um park Aquático, muitos zombavam da palhaça grávida e os puros de coração se encantavam, uma turnê com um espetáculo, dois meses, subindo e descendo avião, de cidade em cidade, uma paixão avassaladora por um carioca. E um segundo abandono. 

Mas a nega aqui, estava firme e forte para dar luz ao seu menino. Que veio de baixo de um dilúvio, o céu de Fortaleza trovoava e o clarão dos raios tomava conta da enfermaria. Nasceu meu Luiz Namir, um ser tão grandioso, de espírito tão sábio que todos os dias me ensina a viver.

Katiana Monteiro – atriz, pedagoga, mãe do Namir e tanto mais.

O ano que descobri Stevie Wonder

Stevie Wonder

Apesar de tudo o que aconteceu em 2020, eu descobri Stevie Wonder. Há alguns meses tenho escutado nos fones de ouvido o álbum “Song in the key of life”, um dos mais importantes da sua carreira e um dos mais reveladores, para mim, sobre a música de muita gente aqui no Brasil e no mundo todo.

O álbum, lançado em 1976, continua super atual. Influenciou nitidamente quase toda a música preta do Brasil a partir dos anos 1980 até hoje. Sandra de Sá, em seu disco mais reverenciado (“Sandra Sá 1982”), é quem diz: “preciso urgentemente falar com Cassiano, sobre o som que Stevie Wonder faz…”. No mesmo ano, Moraes Moreira lança o “Coisa Acesa” e canta:

“Estive ouvindo

Stevie Wonder

Tentando assim

com muito tato andar

Andar na onda que ele anda

Num sentido, sentido assim

Mais abstrato

E o mundo prá que ele nos leva

Eleva a alma e o espírito

Num espaço infinito

Seu universo musical

Pois tudo que ele respira

É música e oxigênio

E assim como todo gênio

É cósmica sua visão

É música e oxigênio

É cósmica sua visão”

E digo que o álbum continua atual porque, apesar de não ser muito ligado a cultura pop contemporânea, assisti recentemente na Netflix o “documentário” sobre o show da Beyoncé no Coachella. Todos aqueles metais (Sax, trompete, etc.) parecem ter saído de “I wish”, música presente em “Song in the key of life”. 

Além dos que citei aqui, ouvindo o disco, lembrei de Carlos Dafé, Mano Brown (principalmente no seu solo “Boogie Naipe”), Hyldon e diversos outros. Ah, sabe aquela música “Pé na tábua”, da Marina Lima? É quase uma versão (linda) em portugûes de “Ordinary Pain”, do Stevie, também presente no disco.

A música mais famosa do álbum é “Isn’t she lovely”, é também a minha preferida, por hora. Estou pensando aqui, talvez, depois de Beatles e João Donato, Stevie Wonder será uma paixão duradoura, com vários discos preferidos.

E você, o que descobriu em 2020?

Sobre o Autor:

Sou Adonai Elias, Comunicador, Dj e amante dos discos. Escrevo mensalmente sobre música para a “Lugar Artevistas” e semanalmente na @itaperidiscos. Para dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

Até a próxima! 🙂

Ballet Filosófico

Experimentar novos movimentos na cidade tem sido práticas as quais tenho vivenciado dentro do contexto urbano. Minha primeira pergunta nessa pesquisa é se é possível alterar campos energéticos de cultura? Já venho escrevendo neste blog sobre a fórmula da teoria da relatividade, E=MC², e suas possíveis pistas, que nos diz que para alterar frequência energética é preciso alterar movimento e/ou massa/corpo. Neste rastro, farejo sinais preciosos que me colocam em diálogo entre a criação de existência e as fissuras deixadas pelo urbanismo colonial. 

Acabo de assistir ao documentário da Netflix chamado “O Começo da Vida”. Falar sobre o agora é falar sobre a energia de descobrimento da vida que existe na criança, pois elas estão em estado de criação constante. Gosto de conversar com minha amiga e parceira Livia Rios sobre o brincar. Já trabalhamos muito tempo juntas. Pesquisamos e vivemos o estado de palhaço, este que nos faz buscar o movimento das crianças como fonte de inspiração, nos ajudando a mergulhar no período de nossa infância, para assim resgatar esse estado de curiosidade tão importante para vida que experiencia. Confesso, tenho percebido em mim movimentos de minha criança e adolescente, esse contato se manifesta como um dispositivo o qual aciono para ter novas possibilidades de viver a energia criacional destes estados de presença. Esse documentário, fala sobre a importância da presença dos pais e da comunidade para valorizar e levantar a autoestima das crianças, para que elas, assim, não tenham medo de experimentar, nem de errar. Por que perdemos esse estado quando nos tornamos adultos? Por que temos tanto medo de viver novos movimentos? Somos adultos que foram pouco influenciados positivamente? Sem querer gerar culpas… Existem também os medos dos pais, pois estes também foram crianças. Existe um padrão que está criando adultos com baixa autoestima. Como alterar esse movimento?

Ao observar o movimento urbano, percebo que a experimentação do corpo está aprisionada e para soltá-la é preciso encontrar o devir-criança, devir-animal, devir-vegetal, devir-elemental… Como seria ser vento na rua? Por onde escorro ou penetro nesses espaços se for água? O que meus instintos dizem para mim quando ando pelo espaço urbano? Observando a cidade com outros olhares, começo a perceber o sentido das estruturas criadas. Sinceramente, não vejo nenhum, porém se olharmos e sentirmos esses espaços por meio dos devires acima, vamos ter outras possibilidades de vivências e alterar esses espaços. Alteração de movimento amplia o campo existencial. 

Outro dia, em meio as minhas pesquisas e práticas de Pranayama, exercícios de respiração da Yoga, quis testar como seria realizar um destes exercícios andando pelo espaço urbano. Criei um programa performativo, este tinha dispositivos de investigação para o pré-caminhar, caminhar e pós-caminhar. O tempo que estive na rua respirei um ciclo longo e profundo, confesso que a máscara dificultou essa experimentação, porém este acessório não me distanciou de resultados interessantes. Trabalhei com a respiração Ujjayi, técnica utilizada nas práticas de Yoga. Ela tem um som particular, porque a glote é acionada como um quase bocejo de boca fechada. Essa respiração é profunda e duradoura, acontece sempre pelo nariz e tem relação com o movimento operado pelo corpo. Escolhi uma respiração lenta e longa, como forma de contrapor o ritmo veloz da cidade. Achei interessante, pois meu ciclo respiratório estava sempre querendo mudar para o ritmo mais rápido, como se o fluxo da cidade quisesse me colocar no movimento padrão, porém minha intenção trabalhava para que continuasse com o exercício. O que mais alterou no meu campo de consciência foi que meu corpo não estava com pressa de realizar nenhum movimento, mas também não perdia tônus e nem presença. Nesse mesmo caminho, trabalhei também a relação com o olhar. Olhar nos olhos de alguém que passava por mim, para lembrar a forma interiorana de cumprimentar os que nos atravessava. Olhar nos olhos de alguém em um contexto urbano pode ser uma afronta, nesse contexto aconteceram: desvio de olhar, desconfiança, não percepção que eu estava olhando e possível clima de paquera. Com a respiração em ciclos lentos e profundos, a ansiedade para agir rapidamente é alterada, colocando o meu corpo para pensar sobre meu movimento, conseguindo alcançar um transe meditativo neste processo.

Esse treinamento de alteração respiratória, induziu meu estado energético, trazendo espaço para que meu campo emocional aja sem pressão; aumentou meu campo de percepção do espaço-tempo, ampliando meu estado de atenção, sem tensionar o corpo; e organizou os encontros sincrônicos de uma forma bem particular.

Tenho estudado a sincronicidade por Jung e também pela filosofia do povo maia. É interessante observar esses acontecimentos e como eles vão acontecendo a partir das intenções criadas. Jung fala que a sincronicidade se relaciona com os afetos, estes podem ser múltiplos, pois são campos emocionais que criamos e com isso atraímos o que vibra na mesma frequência que nós. Por exemplo, sabe aquele dia que tudo dá certo? Estamos vibrando numa certa frequência que atrai os acontecimentos da vida, pensar sobre o que estamos passando é pensar sobre como estamos vibrando. Nosso campo emocional é o mais sensível e rápido de todos, age imediatamente aos acontecimentos. É importante saber disso para entender o que estamos atraindo para o nosso espaço-tempo de vida. Ao trabalhar a respiração em um tempo longo e profundo, percebi que os encontros que tive ao andar no espaço urbano foram, de certa forma, tranquilos. Carros esperaram eu atravessar a rua tranquilamente, sem buzinar ou acelerar para que apressasse o meu passo. Achei esquisito esse momento, pois passei um longo período de tempo urbano para começar a atravessar a rua. 

Reflito, diante desses pontos os quais apresento a vocês, possíveis pistas que podem nos ajudar a criar vida diferente. Passamos por um ano de muita provação, nosso campo emocional, psicológico, físico se desestabilizou. A rua virou um lugar de passagem rápida, sem muitos encontros. Ficamos em casa por muito tempo, nossos olhos cansaram de telas, nossa cabeça quase explodiu de tanto pensar. A tristeza chegou, foi difícil se relacionar com a carência, o vazio assolou a vida, o sentido se perdeu. Porém diante de crises existe sempre a experiência de se recriar. Sabemos que os nossos movimentos estão sem sentido e agora é o momento de abrir o campo de visão para ver a multiplicidade que existe no mundo e começar a se relacionar com ela de formas menos exploradoras. Estamos também sendo explorados. O que fazer? Essa é a busca.

Um dia desses estava conversando com minha a Livia em um banquinho da Praia de Iracema, vendo as ondas bater nas pedras e se espalhar pelo ar, formando um belo desenho de espuma branca. Falávamos sobre os sábios que andam e moram nas ruas, de repente um catador de latinhas parou ao nosso lado para dizer que deus tinha enviado uma missão pra ele, a de catar as latinhas que deixamos na praia para que nós possamos utilizar uma praia limpa. Disse que era esse o serviço dele, portanto ele precisava de dinheiro como pagamento pelo trabalho que estava prestando para nossa sociedade. Em nossa sociedade um catador de latinhas ganha uma miséria pelas latinhas que cata, porém a importância social deste trabalho é enorme. Por que ainda realizamos serviços à nossa comunidade que não tem sentido para ela? Se paga muito bem para serviços que aumentam a quantidade de lixo no mundo, que aumentam a diferença social, enquanto o serviço deste homem não era valorizado? Ele é um sábio, enxerga a existência sem véus. Para onde estamos apontando o nosso pensamento criacional? Como pensamos em serviços que sejam realmente importantes para a vida em comunidade?

Enquanto caminho pela cidade danço outras danças, para pensar sobre a vida neste agora. Sou uma bailarina filósofa, sou brisa, água e furacão. Minha expiração soltada num tempo maior que a inspiração é sem dúvidas um avanço tecnológico ancestral, que retoma a percepção que somos natureza. Nossa programação é impermanente, não podemos controlar a vida, somos partículas desse todo. O que temos é a experiência, nossa professora, que nos ensina pelo movimento. Axé para os dias que virão e, sem deixar de lembra-los, que o ano vira sempre no agora, não precisamos esperar datas comemorativas para atravessar portais, as sincronicidades já estão acontecendo.