CORPORIFICAR 01

Água,

a água atiça memórias das minhas entranhas,

Das veredas do meu corpo.

Lembro que quando criança

minha brincadeira favorita era fazer “poço d´ água”.

Sou dos Picos, bairro rural da cidade  de Itapipoca_CE.

Tampávamos as correntes de água nas grotas para virar poço

Pulávamos de cima de uma azeitoneira

Tampávamos as pontes

e tudo se transformava,

Em poços de risadas e estripulias.

Fui criada pela minha avó, minhas tias e meus pais ali por perto.

Nosso quintal tinha uma cacimba

e nessa época não comprávamos água,

a água era nossa,

do nosso quintal,

nascia das entranhas das pedras e da terra.

Lata d´água na cabeça pelas manhãs

e as vezes no entardecer

Lata d`água na cabeça

Lata cheia,

E a água escorrendo pelo rosto, descendo pelo corpo,

Nessa época a água era nossa…

“Bebedor! ”

O bebedor era um oásis de fontes de água,

era onde a comunidade “Batia roupa”

Um encontro bonito de mulheres acontecia por lá,

mulheres de cócoras,

umas chegando, outras saindo

equilibrando na cabeça bacias de roupas.

No esfregar de panos,

uma pausa de outra mulher

para contar uma história, um acontecido do dia.

Água escorrendo

e a vida também,

Escorrendo…

Coisa de rio,

Fazer as histórias escorrerem.

Hoje lembrando dessas memórias

eu sinto o quanto era libertador aquele rito-rio,

mulheres se encontrando,

narrando suas histórias…

cantando,

partilhando,

desaguando seus traumas e suas dores…

Águas de rios

Escorrendo pelo corpo

Entre as pernas de cócoras

Lata d`água na cabeça

Água escorrendo pelo corpo

Agua da fonte, água do ventre da terra

Banhando o anúncio da sede

Banhando o preparo da vida

Banhando vidas por vir

Vidas que seguem nas mulheres que banham o tempo

No tempo que jorra entre as pernas…

“os povos originários não precisam de água potável porque se abastecem das águas dos rios” falou o despresidente desse país.

Já prevíamos que jorraria das nossas entranhas um ecocídio instaurado.

A nossa água insípida, incolor e inodora

Hoje fede a ignorância.

Hoje nossas águas matam dezenas de povos indígenas

que consomem das entranhas dos rios

a poluição vinda dos garimpos

e os agrotóxicos vindo das grandes fazendas.

A água era nossa!

Nos provocava respiros de abundância.

Hoje a água tem nome

Tem dono

Tem outros valores.

Desses que se somam por números

Desses que não vem das veias,

vem das vias,

rodovias que trazem litros de ignorância

ironia dos tempos compramos água.

E pagamos para estar vivos e vivas.

_Rafaela Lima.

Rito: corporificar gestos e palavras.

Sincronia

trajeto

posicionar

fluedez

restituir

quebra

expandir

movimento contínuo

gerar

desviar

afirmar

contrarir

cultitvar

friccionar

movimento estacato

opostos

nutrir

repetir

notar

aquilombar

movimento visceral

interagir

aproximar

rito

libertar

descolonizar

exaurir

ativar

corpo memória

insurgir

tennnnncionar

sincronia quebrada

atemporal

consolidar

repetir

repetir

distanciar

nutrir

desmarcar

dispor

rememorar

demarcar

restituir

afirmar

cortejo

contrair

viceral

friccionar

libertar

ativar

tencionar

atemporal

apostos

sincronia

posicionar

quebra

fluidez

nutrir

aquilombar

interagir

aproximar

libertar

exaurir

repetir

exaurir

contrair

cultivar

friccionar

friccionar

quebra

posicionar

trajeto

sincronia

movimento

opostos

descolonizar

demarcar

repetir

distanciar

interagir

aproximar

rito

fluuuidez

trajeto

sin

cro

nia

de

mar

c

ar.

FEMINAL

(POÉTICAS PARA NÃO MORRER)

Na pandemia eu morri

Na quarentena eu morri infinitas vezes

Apesar de que antes da pandemia eu já morria loucamente

Sim!

Muitas vezes morri por ser taxada de Louca

E continuo a morrer.

A cada duas horas morre uma parte de mim

A cada quatro minutos uma parte de mim decai, dilacera, apodrece…

Nos primeiros dez segundos desse texto eu já morri três vezes

Sim!

Eu morro todo dia.

Nos quatros cantos do mundo, dos países, estados, cidades, ruas, avenidas…

Nos quatro cantos da minha casa, no meu banheiro, no meu quarto, sala, cozinha…

Todo dia minha casa-corpo desaba.

Aqui no Brasil já se foi 22% de mim

No Acre se foram 300%

Rodônia 255%

Maranhão 166%

Mato Grosso 150%

São Paulo 83%

Rio de Janeiro 73%

Ceará 71%

Na minha cidade Itapipoca_CE, eu nem sei, não se conta os números só se sabe os nomes.

Poderá não morrer.

Mas eu morro.

Morro todo dia

E sangro

No final desse texto eu já sangrei cinco vezes.

E sangro

Sangro

Sangro

Sang

San

gro.

COMPOSIÇÕES PARA CORPO/RIFICAR

Olhos fechados, mente tranquila, deixe os pensamentos externos passarem
Acolha o entendimento de se conectar com o agora.
Pés enraizados no chão
Canalize sua respiração
Acolha o AR essa energia masculina,
Energia que purifica e expande.
Se interiorize e acolha o autoconhecimento
Sinta o ar que te conecta com sua ancestralidade
Ative o estado de presença e ser presente
Perceba os sentidos com todo o seu corpo
És AR, TERRA, FOGO, ÁGUA e ÉTER.
Respira, Inala e Exala no seu tempo
A cabeça começa a desenhar pelo espaço movimentos circulares, alinhando cabeça e respiração, todos unidos em movimento
A trilha é o respiro que adentra nossos canais energéticos
AR, dança circular.
Ombros são acolhidos nessa dança espiral
Braços feito asas ao vento-tempo, entram nessa condução livre em estado de movençia
O AR circunda no peito-pulmão, acolhe o tronco, pélvis, vento-ventre-fértil, útero-casa
Uma dança desmunhecada que evoca o elemento-movimento ÁGUA
Dança circulante que traduz a fluidez livre e pulsante de estar vivo
Seja tão flexível e adaptável quanto a ÁGUA, acolha a fluidez e a flexibilidade de mudar, descolonize o movimento, mude de postura, mude os planos, direções, horizontes, expanda os pontos de vistas, tomadas e retomadas
A dança do ir.
Ir feito ÁGUA corrente e reluzente em águas de rio
Contorne os obstáculos abrindo novas possibilidades de movimento
Sem raciocinar, sem controlar, sem se preocupar se está feio ou bonito, certo ou errado, apenas deixe fluir, mova-se, confie
Seu movimento é chama acesa
Sua energia é FOGO, elemento masculino
Energia que transmuta e renova
É vitalidade corporificada, transmutação do viver, do falar e escutar
O mover é chama presente, dance como o embalo do FOGO
Descubra sua capacidade de fluir, conecte com o prazer de estar vivo.
Em movimento, no teu tempo, permita que esse fluxo dos elementos corporificados até aqui comece a se tornar menos intensos, os movimentos começam a ficar mais lentos, mais serenos.
Pês firmes na TERRA, elemento feminino
Sob o chão vermelho batido, na terra preta nutrida, mantenha pernas afastadas, joelhos flexionados, continue exatamente onde você estar
Observe seu corpo, sua integridade, acolha essa experiência de se observar
Reverencie sua casa-útero sagrado, sinta o vento-ventre, acolha essa mãe nutridora de vidas, geradora de mundos gigantes nutridos de saberes
Mulher-terra tu és revolução e inspiração para o bem viver!
Caminhe como você caminha, observe os pés, abra bem os olhos, sorria para você e para o outro daqui, dali, dacolá…
Acolha a sensação da sola do pé abrandando a terra passo a passo, perceba como ancora sua jornada sobre ela
Deixe seus pés tocarem no chão lentamente, comece a observar cada passo, observe suas pernas, todo o seu corpo
A caminhada ganha novos rumos, novos trajetos, modos de caminhar
Ir e vir se torna uma dança sobre a terra
Caminhadas pelo espaço, observe como seus pés geram o movimento, deixem que eles contarem sua história.
Aos poucos, os movimentos dos pés conduzem seu corpo-casa para direção que desejar
Comece a permitir a amplitude da movençia do seu corpo
A medida que você se entrega você entrega para TERRA todo seu medo, inseguranças, injustiças, dores, tristezas, lutos, tudo que for preciso regenerar.
Quando as bases estão firmes, o corpo dança feito árvore, acolhendo o mover do vento-ventre-mundos que nos compõe
Qual é a dança que te conecta ao elemento-movimento TERRA?
Assim como a terra ampara toda a vida, o seu corpo ampara a vida que brota em você
Através da sua dança, através do seu movimento, do seu corpo, honra cada passo dado até aqui, honra sua jornada, honra tuas raízes, tudo que te antecedeu
Aos poucos deixa seu corpo ir em direção a TERRA na posição fetal-semente
Sinta-se abraçada por essa força terral que nutre toda a vida
Caminhemos sobre ela com firmeza, suavidade e irreverência
Honremos nossos corpos como morada
Corpo presente no solo fértil, TERRA que é vida
Chão de afirmação, resistência, histórias, guerras e lutas derrotadas e vencidas
Bata o pé no chão, pise com firmeza, afirme sua existência quantas vezes for necessário
A sua vida também é importante.
Agora, ainda em estado circulante, AR, TERRA, FOGO, ÁGUA, renasce o ÉTER, elemento Vida.
Agradeça a todas as formas e que haja espaço para que as coisas fluam como tiverem que fluir
Que nós possamos resistir menos e fluir mais
Devagar, no seu tempo, abra os braços, se abrace, em seguida traga as mãos ao peito e agradeça
Reverencie o espaço-cosmo, universo-eu, outro, entre
Acolha as deusas e deuses do movimento e da vivacidade
A vida se faz elemento em movimento
Acolha seu eu.
Acolha sua jornada.

Rafaela Lima
(Artista de dança, Artista docente, performer)
Itapipoca_CE, Novembro, 2020, eras pandêmicas.