tempo

Invisível

sou…

                                                                  sem passar despercebida.

Sabe o ego?

Joguei-o no lixo.

Vez por outra, busco-o em meio as coisas deixadas de lado.

Seu cheiro de decomposição é exalado ao vestí-lo, na tentativa de me proteger da não aceitação da vida comum.

Tenho aprendido a usar a composteira.

Cobrir o ego e esperar seu tempo de transformação, talvez assim ele se torne terra fértil.

Foto de capa: trabalho da artista @katieryankatieryan 

Criar raízes des|||urbanas|||

Quando vou ao topo do prédio onde moro, visualizo a monocultura urbana e sua plantação de edifícios. Para plantá-los é preciso um buraco profundo, vigas de ferro e muito concreto. Percebi, com isso, que a manifestação das raízes urbanas tem movimento inverso ao das raízes das plantas: pois estas crescem ao abrir a parte mais dura e resistente de si, a semente; ao contrário daquelas que acabam por virar a sua própria armadura. Assim, as raízes urbanas são criadas para se manterem estáticas e fechadas para qualquer tipo de interferência. Como uma planta em um vaso, a humanidade urbana cresce com restrição de espaço para aquilo que nos dá base e sustentação, as raízes. É nesse caminho que busco a criação de pesquisa em arte, ao investigar movimentos que buscam abrir espaço no cotidiano da cidade para que raízes des|||urbanas||| possam crescer, dando base e sustentação ao ser vivente.

Já venho escrevendo aqui neste blog, que um campo energético é criado pelo movimento do corpo, como, também, um campo energético pode influenciar o movimento do mesmo. Caminhar pela cidade tem sido uma prática, onde exercito a percepção de como as frequências energéticas urbanas podem alterar o meu campo vibracional. Este estudo serve para decifrar as influências que chegam ao meu entorno e para escolher se quero ou não este tipo de relação. Utilizo como ferramenta de medição de sensação o meu corpo, tecnologia que está em mim desde que nasci. Criar formas para ativá-la é a minha intenção. Tenho percebido que existe no olhar algo que aciona esta tecnologia, como também ele é o primeiro sentido que me faz perder a atenção da minha consciência. Pratico meditação há 4 anos e este exercício me ajuda muito a ativar esse estado. Meditar, nos ajuda a abaixar a frequência mental para destinar atenção ao momento presente. Será que preciso fechar os olhos para ativar meu corpo termômetro? Talvez de início sim, pois a captura do olhar é rápida dentro de um contexto urbano. Derivas de olhos fechados nos faz criar rugosidades nas vias duras da cidade, abrindo campo para a imaginação de novos espaços-tempos. Porém é pelo cruzamento de olhares que consigo acessar a consciência do outro e, consequentemente, o outro a minha.

Já há um tempo, realizo práticas com o olhar, por exemplo: já fiquei durante 30 minutos realizando uma meditação em frente ao espelho, conectando meu próprio olhar pelo meu reflexo; fiz o mesmo exercício, só que olhando para o nascer da lua cheia; troquei essa mesma experiência com amiges querides, como Kalina Lopes (@kalinaca), Marcelo Prudente (@marcelosprudente) e Maria Epinefrina (@epinefrine_se); pratico olhar nos olhos das pessoas as quais converso; em meus processos de derivas urbanas, quando busco olhar nos olhos das pessoas que atravessam o meu caminho; e, por ultimo, quando busco olhar nos olhos de uma planta (segundo Mancuso, elas tem um sentido que se assemelha ao nosso sentido da visão, só que menos evoluído), ou de um animal. Olhar nos olhos de um animal é sempre uma surpresa para mim. Exercitei esses dias com um grilo, que encontrei numa bromélia que estava plantada em vaso, perdida numa imensa sala. Isso quer dizer que para um grilo, o seu único local de segurança era aquela planta. Cheguei bruscamente para observar a bromélia e dei de cara com o grilo, que se esquivou imediatamente, ao andar pra trás e depois congelar o seu corpo. Quando percebi que o assustei, parei, mas continuei olhando nos seus olhos e ele continuou olhando nos meus. Assim ficamos por um tempo. Esse exercício do olhar exige cautela, pois não estamos acostumados a nos desnudar assim. A nudez do contato visual é muito mais intimidadora do que a física. Porém é uma prática necessária, pois é por ela conseguimos ler as entrelinhas desses encontros. Nesse mundo que tem sede pelo poder, uma troca de olhar pode ser uma estratégia de manipulação, mas se for feito com respeito, pode ser um caminho para criarmos horizontalidade nas relações.

Sugestão de experiência – Ficar 1 minuto olhando para o meu olho virtual

Exercitar a percepção separada dos sentidos é uma estratégia de ativação dessas tecnologias corporais, pois damos mais atenção as informações recebidas por essa via e, com isso, começamos a entender melhor como eles (os sentidos) funcionam. Quando adentro neste campo hiper sensível, ligo o meu corpo termômetro. É importante saber da necessidade de ligá-lo, pois o sistema quer que nos mantenhamos desligados, para assim poder agir por nós mesmo, ao induzir os desejos do nosso corpo. Retomar o movimento singular é uma estratégia de criação de raízes des|||urbanas|||.

Neste caminho, associo o movimento das raízes das plantas ao movimento das consciências dos corpos. As raízes procuram as melhores condições de luz, gravidade, contato, umidade, oxigênio, campo elétrico e fonte sonora como estratégia para encontrar as melhores circunstâncias de condução de sentido de movimento. Mesmo em situações mais hostis, elas são capazes de encontrar meios de crescimento em estruturas rígidas, como o asfalto e o cimento (MANCUSO, 2019, p. 30). Um corpo com a sua consciência ligada é capaz de encontrar os mesmos meios de expansão COM SENTIDO, mesmo vivendo em condições de urbanidades. Mancuso também me toca quando diz que os animais se deslocam para resolver seus problemas (uma “espécie” de fuga), enquanto as plantas, por não poderem ir a outro lugar quando se sentem incomodadas, sofrem mutação. Neste caminho, questiono a minha humanidade para aprender com as plantas, ao me perguntar o que preciso transformar em mim para alterar a manifestação da existência em minha volta. O caminho de alteração exige um olhar atencioso para quais práticas do movimento hegemônico ainda reproduzo.

Acredito que uma dessas transformações é aprender a manter as plantas vivas. Isso é mais que óbvio, já que a nossa existência depende delas, pois sem oxigênio nada na Terra existiria. Porém quando vamos observar os hábitos urbanos, parece que essa informação não é muito bem entendida. Para alterar esse movimento é importante aprender com as plantas a encontrar meios de crescimento em estruturas rígidas, como o asfalto e o cimento. Repensar urbanismo é encontrar com o desurbanismo. O movimento é o inverso de tudo o que viemos realizando até agora. É preciso urgentemente criar espaços para as plantas crescerem.

Essa semana visitei a agroflorestal urbana que Lucas de Mattos (@sombradocajueiro) tem cultivado. Acho interessante e performativo que os agrofloresteiros são criadores de sistemas, no plural, pois saem do padrão monocultural, para criar uma comunidade diversa de plantas. Este é o movimento oposto ao pensamento urbanista, o qual concentra todo o alimento da cidade nos frios supermercados. No sistema agroflorestal as plantas crescem livre de vasos, podendo assim se conectar pelas raízes com todas as outras que crescem ao seu lado. Em relação, elas têm a possibilidade de dialogar com o solo e as outras espécies, para encontrar seu melhor sentido de crescimento. A saúde está em abundância e o próprio sistema também controla as possíveis pragas, com chegada de animais que se alimentam delas. Um agrofloresteiro maneja seu cultivo para encontrar equilíbrio no sistema. A socialização do sol é de extrema importância, pois muitas espécies, como o milho por exemplo, precisa de sol em abundância. Lucas disse que existem mais de 100 espécies de árvores plantadas, estas, que se não forem podadas, acabam por sombrear o sistema criado. Portanto, para que as plantas alimentícias de sol sobrevivam, a poda é necessária para este tipo de sistema, pois o sol precisa ser compartilhado com todes!

Antes e depois – Agrofloresta Sombra do Cajueiro

Conversei com Lucas sobre estratégias de avanços dessa cultura pela cidade adentro. Ele disse que existem discussões para criações de leis que fortaleçam o acontecimento desse caminho.

Voltei pra casa de bicicleta. No caminho, parei para contemplar um lugar que resume muito esse texto: de um lado estava o Rio Cocó e a sua floresta majestosa, enquanto do outro estava a Av. Engenheiro Santana Junior e o deprimente Shopping Iguatemi (que por sinal foi construído ilegalmente em cima de um mangue).

TEMPO… RESPIRO… então pergunto:

A nossa sobrevivência pode ser encontrada de forma mais sustentável? Por que não plantamos árvores frutíferas na cidade? Por que não plantamos comida na cidade? Por que não utilizamos os terrenos abandonados para plantar? Por que a localidade do Poço da Draga não tem fossa verde e circulo de bananeira? Por que os nossos rios estão poluídos? Por que não desurbanizamos a cidade? Por que temos tanto medo de trocar de sistema? O que é existir?

Imagino nesse lugar uma agrofloresta, um galinheiro e pessoas dançando no meio

Bibliografia

MANCUSO, Stefano. A Revolução das Plantas. São Paulo-SP. Ubu Editora. 2019.

Para se inspirar

Pesquisar: @condocultural | @ronfinleyproject | Comunidade Vila Nova Esperança

Exercícios Telepáticos

Tenho criado aranhas no meu quarto. Quando vou limpá-lo, algo que faço frequentemente, limpo suas teias, mas não as mato. Será que assim cultivo um grão de floresta perto de mim? Elas vivem no teto, atrás dos livros e entre as plantas que tenho aqui. Pergunto-me: porque elas não comem as muriçocas? Essas que passam a noite inteira em festas dionisíacas com o meu sangue, tocando suas músicas cheias de Bs e Zs. Então pensei, que podia começar a cantar junto aos seus sintetizadores naturais, talvez isso me levasse a essas farras dionisíacas em sua companhia. Será que assim teria que beber o meu próprio sangue? Uma coisa é certa, ele deve ser muito bom, gostoso e viciante, pois elas vêm “aos monte”, para me penetrar e me saborear. Essa vida na cidade é uma experiência, digamos, conflitante… não sei mais o que é sujeira, acho que estou me misturando à floresta. Às vezes, quando tenho a oportunidade, passo horas a me esfregar na areia ao observar uma formiga caminhando. Para onde ela está indo? Os biólogos ganham por essa observação. Devo ter escolhido a profissão errada, mas posso ser bióloga também, sou artista. Quando se é artista pode ser tudo! Será? Inclusive os biólogos também podem ser artistas. Estou aqui a brincar de ser bióloga, mas porque separar as coisas? Eu observo as formigas, às vezes sou picada por elas, observo as aranhas, às vezes limpo as suas teias, que aliás são suas técnicas de sobrevivência. É como se alguém destruísse o nosso supermercado. Não! Uma teia de aranha não tem nada a ver com supermercados. Talvez uma agrofloresta tenha mais a ver. Já pensou em fazer uma feira numa agrofloresta? Ela tem até organização, departamentos em cada sistema, nada parecido com as prateleiras de supermercado, um pouco mais “bagunçado”, mas nem tanto. Aqui tem café, banana, cacau e milho… Imaginando agora, eu saindo do meu prédio e, simplesmente, após um passo, acabo por entrar na floresta (agrofloresta), em um passeio pelo mato vou fazendo a minha feira, quase como que se tivesse ido a um restaurante, ao qual vou escolhendo os ingredientes e comendo-os ao mesmo tempo. Ah! Parecido como a época em que éramos caçadores-coletores, só que um pouco mais tecnológico.  Vou andando e catando algumas seriguelas, vou comendo e andando, espalhando as suas sementes pelo caminho, posso também juntá-las para plantá-las em outro lugar. De repente vejo uma manga rosa em um galho mais ao alto da mangueira, vejo um caminho que dá para subí-la, pego a manga que desejei e a chupo em cima do pé. Vejo um cacho de bananas, colho-o. Pego um pouco de café, uma jaca e alguns cacaus. Colho um pouco de feijão. Vou até a horta, pego alguns legumes. Que rua mais incrível. Sonho! Sonho! Sonho!! Imagino! Intenciono!!!! Magia pura. Hoje tenho guardado e plantado sementes. Imagino um mundo cheio de árvores frutíferas, trepadeiras subindo nas paredes dos prédios, flores nascendo dos bueiros, os bichos andando soltos. Um tigre passando se roçando em mim pedindo carinho e ao lado dele uma vaca leiteira a caminhar. As plantinhas nascem coloridas. Quando as olho, sinto o que elas estão a me dizer. Telepaticamente de alguma forma, capto o que elas estão me falando. Como o tigre e a vaca, eu começo a escutá-los. Até as aranhas estão a me falar! Volto então ao meu apartamento no quinto andar de um prédio em Fortaleza-Ce, percebo que as aranhas daqui também estão a me falar: não destrua as minhas teias, deixa eu me alimentar. Aí Krenak, realmente o nosso mundo está sendo higienizado. Minhas práticas urbanas, ampliadas com um microscópio cogumelar, podem me levar além dos meus sentidos tecnológicos, ao os fazer voltar a funcionar.

Atravessei um portal

Olha,

Não é nada fácil se perceber em desconexão, das próprias palavras emitidas em vão. Sei que o processo de desconstrução é lento, pois o que passa dentro de mim é muita carência, por não saber lidar com o que está aqui dentro.

O lado de dentro de mim mora alguém que ainda não conheci.

Sou algo indeterminado e em constante fluxo, a camada superficial do meu ser é apenas a beira do precipício. A profundidade se dá no percurso.

Mergulho…

Onde estão os espíritos da cidade?

Gosto de pensar como Kazuo Ohno fala sobre espíritos: “o espírito pouco a pouco se transforma em cinzas. Quando expiramos, ele se desprende do corpo. Eu também respiro. Meu espírito se estende por todo o céu, torna-se cinza e tomba no chão” (OHNO, 2016, p. 54). A sensação a qual Ohno descreve a partir do modo como a percebe, vem-me como um movimento entre a dissolução da matéria e a materialização da mesma, trazido pela respiração, a qual se percebe quando se tomba no chão. Para entender melhor a sensação de Ohno, resolvi parar o fluxo mental de escrita para experimentar o corpo que tomba, proposto em seu livro Treino (em) Poemas. Nessa experimentação percebi que quando expirava, um leve tombamento acontecia, como se meu corpo físico se separasse sutilmente do meu corpo etérico (etéreo). Este continuava suspenso, como se expandisse, contrapondo o movimento da matéria visível aos olhos. Na inspiração, a sensação foi a de que meu corpo físico estava sendo puxado para cima, como se ela o trouxesse para ocupar o mesmo espaço do corpo etérico. Talvez o tombo para Ohno tenha relação em como ele percebeu em seu corpo a gravidade operada pela terra, mostrando como nós, seres vivos nascidos nela, sentimos a presença do corpo físico. Ao expirar, esvazia-se o corpo de ar, como se o entregasse à terra. Já na inspiração, inflados como um balão, a sensação é de desafiar a gravidade. Nesse sentido penso, como percebemos o nosso espírito na cidade? 

Como pesquisa de criação e busca de sentido para o movimento de corpos urbanos, passei a praticar derivas pelas ruas da cidade, com o intuito de realizar movimentos os quais alteram os gestos rotineiros propostos por grandes centros urbanos. 

Na cidade o sentido é certeiro, sempre predeterminado por uma força hegemônica e controlado pelo relógio. Como estratégia de alteração do movimento, saí à deriva com um pêndulo de radiestesia, como dispositivo de guiança de caminho. Em cada encruzilhada perguntava para ele qual sentido deveria seguir, para que pudesse encontrar um local para realizar uma meditação. A intenção era perceber como meu corpo vibrava ao meditar na rua da Cidade de Fortaleza. Acabei parando em um portal urbano, este se abriu devido a obra do metrô da Avenida Santos Dumont, pois esta fechou o fluxo da rua, fazendo com que fosse aberta uma passagem secreta em um muro que separava um prédio comercial e um posto de gasolina. Sentei ao lado do portal para meditar. Pessoas atravessavam o portal sem saber o que estavam fazendo, sentia a vibração eletrizante e ativa delas, ainda mais por que marte passava por áries e ainda realizava conjunção com minha lilith natal. Bruxaria pura. A sensação era de estar realizando uma ação controversa e que a qualquer momento podiam me levar embora como louca. Estava apenas meditando, buscando meu sentido de vida e meu espírito, questionei essa minha própria sensação de boicote. A energia urbana de condicionamento é tão intensa, que acaba reprimindo movimentos que se desassociam com a coreografia cotidiana. Porém Einstein já nos disse, E=MC², para alterar campo energético é preciso dançar diferente. 

Em outra saída busquei alterar o campo energético de cultura modificando a minha coreografia respiratória. Busquei exercitar técnicas de Pranayama, que são propostas de exercícios respiratórios propostos pelos yogues. Antes de sair de casa pratiquei o Pranayama da abelha (Bhramari) e o de levitação (Murcha), ambos me colocam em estados mais concentrados e calmos. A intenção era trabalhar o oposto do fluxo respiratório da cidade, este que é rápido e curto, investindo em ciclos mais lentos e profundos. Ao sair à deriva me mantive praticando o Pranayama Ujjayi, este tem uma sensação de estar bocejando de boca fechada, e é muito praticado nas práticas de movimento da yoga. A máscara dificultou a respiração, mas me mantive firme na prática. Neste processo senti meu tempo dilatado, não me senti apressada, apenas caminhava, observando o sentido do meu espírito ao observar a gravidade da terra tomando o meu corpo na expiração. Li muito a palavra urbanização, pensava em seu oposto desurbanização. Li muitos mantras espalhados pela cidade em formato de propagandas, refleti sobre como a cidade investe  nesse condicionamento contínuo de continuarmos com a estrutura da urbanização. Sempre desconfio das tendências da moda. Urbanizar para mim é igual a enconcretar. Mas o que estava procurando? Comecei a pensar sobre as sincronicidades. O que estava atraindo para o meu caminho? Foi aí que uma ação esquisita aconteceu, dois carros pararam para mim, durante um bom tempo, esperando que atravessasse a rua, que nem estava com a intenção de atravessar, mesmo assim atravessei com calma, sem receber nenhuma buzinada e nem arranques de carros. Sei que isso não é material suficiente para comprovar uma sincronicidade, porém é algo pouco provável de acontecer na cidade. O tempo pode nos distanciar do espírito.

Nesta busca por ações que contrapõem as rotinas urbanas, procuro danças que façam sentido ao espírito. “Danças” está no plural, pois não acredito em coreografias fixas. Entendo o processo de criação de movimento em experimentação contínua e aceito as repetições se elas fizerem sentido ao espírito. Lembro aqui do povo Yanomami e a sua dança dos Xapiris. O capítulo “Iniciação” do livro “A queda do céu” de David Kopenawa e Bruce Albert (assim como o filme Xapiri, encontrado facilmente no youtube e vimeo) nos contam de forma muito mágica o ritual de iniciação deles para receber os Xapiris (espíritos da floresta) em sua casa (cabeça). Nesse ritual de iniciação eles “bebem” (sopram para dentro das narinas) o pó de yãcõana repetidas vezes durante dias, com o intuito de preparar a casa/cabeça para receber os Xapiris, para que nelas eles possam dançar. Atravessada por esse ritual me pergunto: quais espíritos da cidade cultivamos em nossas cabeças? Como eles dançam em nós e como dançamos com eles? Essas perguntas não são tentativas de comparar essas culturas e nem de me apropriar dela. Na verdade, é uma maneira de abrir o campo de visão para pensar diferente sobre os sentidos da existência urbana. Assim me pergunto: quais são os espíritos da cidade? Qual o espírito do prédio? Do asfalto? Do concreto? Qual o espírito do sinal de trânsito? Do ônibus? Qual o espírito da estátua que fica no meio da praça? O que a nossa civilização nos diz com os signos os quais veneramos? Como isso afeta o nosso movimento? Qual o espírito do computador e do celular? Como esses elementos nos compõem e o que eles dizem de nós?

 Assim o sentido se perde e o espírito se escapa…

Ballet Filosófico

Experimentar novos movimentos na cidade tem sido práticas as quais tenho vivenciado dentro do contexto urbano. Minha primeira pergunta nessa pesquisa é se é possível alterar campos energéticos de cultura? Já venho escrevendo neste blog sobre a fórmula da teoria da relatividade, E=MC², e suas possíveis pistas, que nos diz que para alterar frequência energética é preciso alterar movimento e/ou massa/corpo. Neste rastro, farejo sinais preciosos que me colocam em diálogo entre a criação de existência e as fissuras deixadas pelo urbanismo colonial. 

Acabo de assistir ao documentário da Netflix chamado “O Começo da Vida”. Falar sobre o agora é falar sobre a energia de descobrimento da vida que existe na criança, pois elas estão em estado de criação constante. Gosto de conversar com minha amiga e parceira Livia Rios sobre o brincar. Já trabalhamos muito tempo juntas. Pesquisamos e vivemos o estado de palhaço, este que nos faz buscar o movimento das crianças como fonte de inspiração, nos ajudando a mergulhar no período de nossa infância, para assim resgatar esse estado de curiosidade tão importante para vida que experiencia. Confesso, tenho percebido em mim movimentos de minha criança e adolescente, esse contato se manifesta como um dispositivo o qual aciono para ter novas possibilidades de viver a energia criacional destes estados de presença. Esse documentário, fala sobre a importância da presença dos pais e da comunidade para valorizar e levantar a autoestima das crianças, para que elas, assim, não tenham medo de experimentar, nem de errar. Por que perdemos esse estado quando nos tornamos adultos? Por que temos tanto medo de viver novos movimentos? Somos adultos que foram pouco influenciados positivamente? Sem querer gerar culpas… Existem também os medos dos pais, pois estes também foram crianças. Existe um padrão que está criando adultos com baixa autoestima. Como alterar esse movimento?

Ao observar o movimento urbano, percebo que a experimentação do corpo está aprisionada e para soltá-la é preciso encontrar o devir-criança, devir-animal, devir-vegetal, devir-elemental… Como seria ser vento na rua? Por onde escorro ou penetro nesses espaços se for água? O que meus instintos dizem para mim quando ando pelo espaço urbano? Observando a cidade com outros olhares, começo a perceber o sentido das estruturas criadas. Sinceramente, não vejo nenhum, porém se olharmos e sentirmos esses espaços por meio dos devires acima, vamos ter outras possibilidades de vivências e alterar esses espaços. Alteração de movimento amplia o campo existencial. 

Outro dia, em meio as minhas pesquisas e práticas de Pranayama, exercícios de respiração da Yoga, quis testar como seria realizar um destes exercícios andando pelo espaço urbano. Criei um programa performativo, este tinha dispositivos de investigação para o pré-caminhar, caminhar e pós-caminhar. O tempo que estive na rua respirei um ciclo longo e profundo, confesso que a máscara dificultou essa experimentação, porém este acessório não me distanciou de resultados interessantes. Trabalhei com a respiração Ujjayi, técnica utilizada nas práticas de Yoga. Ela tem um som particular, porque a glote é acionada como um quase bocejo de boca fechada. Essa respiração é profunda e duradoura, acontece sempre pelo nariz e tem relação com o movimento operado pelo corpo. Escolhi uma respiração lenta e longa, como forma de contrapor o ritmo veloz da cidade. Achei interessante, pois meu ciclo respiratório estava sempre querendo mudar para o ritmo mais rápido, como se o fluxo da cidade quisesse me colocar no movimento padrão, porém minha intenção trabalhava para que continuasse com o exercício. O que mais alterou no meu campo de consciência foi que meu corpo não estava com pressa de realizar nenhum movimento, mas também não perdia tônus e nem presença. Nesse mesmo caminho, trabalhei também a relação com o olhar. Olhar nos olhos de alguém que passava por mim, para lembrar a forma interiorana de cumprimentar os que nos atravessava. Olhar nos olhos de alguém em um contexto urbano pode ser uma afronta, nesse contexto aconteceram: desvio de olhar, desconfiança, não percepção que eu estava olhando e possível clima de paquera. Com a respiração em ciclos lentos e profundos, a ansiedade para agir rapidamente é alterada, colocando o meu corpo para pensar sobre meu movimento, conseguindo alcançar um transe meditativo neste processo.

Esse treinamento de alteração respiratória, induziu meu estado energético, trazendo espaço para que meu campo emocional aja sem pressão; aumentou meu campo de percepção do espaço-tempo, ampliando meu estado de atenção, sem tensionar o corpo; e organizou os encontros sincrônicos de uma forma bem particular.

Tenho estudado a sincronicidade por Jung e também pela filosofia do povo maia. É interessante observar esses acontecimentos e como eles vão acontecendo a partir das intenções criadas. Jung fala que a sincronicidade se relaciona com os afetos, estes podem ser múltiplos, pois são campos emocionais que criamos e com isso atraímos o que vibra na mesma frequência que nós. Por exemplo, sabe aquele dia que tudo dá certo? Estamos vibrando numa certa frequência que atrai os acontecimentos da vida, pensar sobre o que estamos passando é pensar sobre como estamos vibrando. Nosso campo emocional é o mais sensível e rápido de todos, age imediatamente aos acontecimentos. É importante saber disso para entender o que estamos atraindo para o nosso espaço-tempo de vida. Ao trabalhar a respiração em um tempo longo e profundo, percebi que os encontros que tive ao andar no espaço urbano foram, de certa forma, tranquilos. Carros esperaram eu atravessar a rua tranquilamente, sem buzinar ou acelerar para que apressasse o meu passo. Achei esquisito esse momento, pois passei um longo período de tempo urbano para começar a atravessar a rua. 

Reflito, diante desses pontos os quais apresento a vocês, possíveis pistas que podem nos ajudar a criar vida diferente. Passamos por um ano de muita provação, nosso campo emocional, psicológico, físico se desestabilizou. A rua virou um lugar de passagem rápida, sem muitos encontros. Ficamos em casa por muito tempo, nossos olhos cansaram de telas, nossa cabeça quase explodiu de tanto pensar. A tristeza chegou, foi difícil se relacionar com a carência, o vazio assolou a vida, o sentido se perdeu. Porém diante de crises existe sempre a experiência de se recriar. Sabemos que os nossos movimentos estão sem sentido e agora é o momento de abrir o campo de visão para ver a multiplicidade que existe no mundo e começar a se relacionar com ela de formas menos exploradoras. Estamos também sendo explorados. O que fazer? Essa é a busca.

Um dia desses estava conversando com minha a Livia em um banquinho da Praia de Iracema, vendo as ondas bater nas pedras e se espalhar pelo ar, formando um belo desenho de espuma branca. Falávamos sobre os sábios que andam e moram nas ruas, de repente um catador de latinhas parou ao nosso lado para dizer que deus tinha enviado uma missão pra ele, a de catar as latinhas que deixamos na praia para que nós possamos utilizar uma praia limpa. Disse que era esse o serviço dele, portanto ele precisava de dinheiro como pagamento pelo trabalho que estava prestando para nossa sociedade. Em nossa sociedade um catador de latinhas ganha uma miséria pelas latinhas que cata, porém a importância social deste trabalho é enorme. Por que ainda realizamos serviços à nossa comunidade que não tem sentido para ela? Se paga muito bem para serviços que aumentam a quantidade de lixo no mundo, que aumentam a diferença social, enquanto o serviço deste homem não era valorizado? Ele é um sábio, enxerga a existência sem véus. Para onde estamos apontando o nosso pensamento criacional? Como pensamos em serviços que sejam realmente importantes para a vida em comunidade?

Enquanto caminho pela cidade danço outras danças, para pensar sobre a vida neste agora. Sou uma bailarina filósofa, sou brisa, água e furacão. Minha expiração soltada num tempo maior que a inspiração é sem dúvidas um avanço tecnológico ancestral, que retoma a percepção que somos natureza. Nossa programação é impermanente, não podemos controlar a vida, somos partículas desse todo. O que temos é a experiência, nossa professora, que nos ensina pelo movimento. Axé para os dias que virão e, sem deixar de lembra-los, que o ano vira sempre no agora, não precisamos esperar datas comemorativas para atravessar portais, as sincronicidades já estão acontecendo.

Eclipse

Acho interessante, quando Silvia Federici cita Francis Bacon, em seu livro Calibã e a Bruxa: 

“A magia mata a indústria”. 

É certo que ele, filósofo aliado ao estado, quis contestar a magia, pois seguir crenças mágicas, em sua visão, atrapalhava a linha de produção industrial. Estes preceitos teve como consequência a criação do sistema capitalista. Curiosamente também, Bacon era membro da rosacruz, indicando seu interesse por fraternidades filosóficas, conhecimentos ocultos e consequentemente pelo poder político. Neste sentido, entendo que Bacon categorizou a magia, ao diminuir o conhecimento da natureza da terra e ao enaltecer o homem. Então, ao diferenciar natureza de cultura, pode-se entender que para ele alguns “tipos” de magia matavam a indústria, outras a fortaleciam. Em tempos de era de peixes, as crenças eram enraizadas profundamente, criando um misticismo dogmático, o qual produzia medo no humano que a quisesse subverter, controlando assim seus movimentos. Bacon também usava de magia, era um criador de dogmas, e assim, influenciou o plano mental do inconsciente coletivo, utilizando o medo como ferramenta, para criar um caminho único de existência. Porém, quero dizer que agora trabalhamos aqui em prol da biodiversidade.

Fazer magia é algo inerente a todos os seres, mais precisamente a todas as matérias existentes no cosmo, porém não é algo intencional, sem querer generalizar é claro. O que quero dizer é que, talvez, nós humanos (seres “super evoluídos”) não saibamos ainda que fazemos magia, pois para a indústria crescer tivemos que acreditar que magia era ilusão, algo distante da materialidade terrena, porém nos esquecemos que magia é movimento e força de intenção. Isso só me faz ter a certeza que caímos no feitiço industrial, hipnotizados começamos a nos movimentar, com força, garra e determinação, num trabalho em série, com o objetivo de conseguir um espaço dentro do ninho exclusivo dos bem-sucedidos – isso sim é ilusão. Cegos e anestesiados chegamos até aqui, porém – falando por mim – sinto-me cheia de vontade de reativar meus sentidos perceptivos ao saber que também posso criar minha magia existencial. Para isso, quero criar movimento, ao invés de me agarrar a pensamentos que me coloquem sensações de ressentimento.

Os maias se relacionavam com o movimento dos astros para medir o tempo. Eles entendiam que os seus trânsitos influenciavam a vida na terra, como por exemplo: as estações do ano e o movimento das marés. Consequentemente tudo isso nos induz também à criação de nossas danças de vida. Recuperar o animismo, como diz Isabelle Stangers é uma forma de fazer crescer em nós a percepção de que estamos em relação com todas as matérias da terra e do cosmo, com o intuito de transformar a crença da supremacia humana, para assim descolonizar a ideia de querer centralizar o poder em nós. Biodiversidades. Fazer magia é entender que nossos afetos se relacionam diretamente com a criação de momentos no nosso campo existencial no presente. É na intenção que atraímos o que está grudado em nós. Somos como imãs, um campo gravitacional, a emoção, a mente são nossas aliadas no campo da magia, pois ao intencionar energia, atraímos para nossas vidas aquilo que mantramos. Os mantras para os orientais e nossos povos originários, são frases que repetimos de forma rotineira. Acrescento ao significado de mantra também os nossos gestos que diariamente repetimos. Ao analisar isso em mim, caio em diversos círculos repetitivos, esses os quais não entendo porque se formam em minha vida, porém para alterá-lo é necessário modificar o mantra. Jung diz em seu livro Sincronicidade, que o afetos são responsáveis pela criação de sincronicidades. A magia está no mantra de nossa filosofia de vida, criando assim todo o nosso campo vibracional. Tudo depende dos nossos valores e crenças, é assim que fazemos magia. Quero indicar aqui que não pretendo, criar um texto coaching… muito pelo contrário… este tipo de ação nos pressiona a continuar dentro de um campo de mantra criado por Francis Bacon e pelos amigos dele. Meu interesse aqui é na biodiversidade e não na contínua manutenção da padronização de corpos. Entramos na era de aquário, é muito importante entender esse momento, pois essa energia pode criar tanto uma grande comunidade biodiversa, como podemos adentrar em uma realidade paralela e perder a conexão entre os corpos no âmbito na matéria. Digo, estamos criando um movimento muito tecnológico, não podemos nos esquecer de esfregar os nossos corpos!!!!!!!!!!! Nem podemos nos esquecer de que podemos nos conectar em rede por meio dos OLHOS, nem que esse simples gesto pode nos auxiliar a desenvolver tecnologias corporais, como a TELEPATIA.

Eclipses chegam para alterar o padrão mensal cheio da lua, para nos dizer que inclusive os corpos celestes também estão alterando os seus percursos. Dia 30/11/2020 a terra se alinhará com a lua e o sol, e por causa disso a sua sombra apagará o brilho na lua. Enxergar-lá-emos vermelha e opaca. Essas alterações nos céu indicam novos processos em nossas marés, levando-nos a uma mais forte percepção das nossas oscilações emocionais e mentais. Eclipses criam portais e estes criam abertura temporal que se desenvolve na duração de estadia do eixo em que a terra se encontra agora. Hoje o eixo norte da terra está apontado para a constelação de gêmeos e o sul para a de sagitário. Gêmeos indica uma energia que se espalha percorrendo de forma veloz diversos pontos, ligando-os entre si e formando uma rede de conexão. Isso nos pede diálogos mais velozes, porém certeiros, verdadeiros e ligados pelo afeto da lua – coletividade conectada. Por aqui, nesse texto, agora, intenciono, como num mantra, que creio em processos criativos coletivos que envolvam seres muito diferentes uns dos outros e que estes encontros sejam cuidadosos e generosos.

Investimento

Devo começar este texto a partir de um sentido. O pêndulo apontou para mim. Devo começar esta escritura com meu sentido, o direcionamento do meu movimento. Se entendo a vida como algo que se cria no agora, devo entender que o sentido é uma variante impermanente, esta a qual se organiza a partir das minhas intenções e das do coletivo. Eu tenho a minha filosofia, crio os meus rituais diários – os quais também posso chamar de hábitos -, para com isso criar energia e materializar existência. Estas dão força para o campo energético coletivo e assim acontece o investimento, que gera um campo energético de cultura de uma localidade, por exemplo. Simples, parece, porém existe toda a complexidade filosófica humana em torno da valorização do que é necessário à existência. 

Tudo indica aqui que, para conseguir o que quero, preciso investir recursos, tempo e esforço; preciso criar rituais diários, hábitos, para conseguir vantagem, benefício lucro, para materializar. Ok…

Mas o que quero? O que queremos?

Existem armadilhas.

Armadilhas que enchem os olhos e enganam a vista, direcionando-a para um determinado caminho. Se a vida é um “jogo”, o que enxergamos? Ver o todo, abrir o campo de visão, pode ser uma jogada interessante. Posso aqui começar a dizer que o dinheiro, o capitalismo, a bolsa de valores é isso ou aquilo, porém posso tentar entender como o “jogo” de trocas acontece e perceber saídas coletivas as quais se consiga gerar energia para alterar campos energéticos bloqueados. Primeiro, existem jogadores interessados com e sem capital, como também existem jogadores com valores de vida duvidosos. O jogo acontece com altas e baixas de ação, onde os investimentos são expectativas intuitivas em empresas que estão em baixa no momento, mas com chance de crescimento – pois preciso comprar ações baratas e vendê-las mais caras para poder lucrar. Nesse sentido, meu jogo é sempre arriscado, pois lida com a imprevisibilidade, a impermanência do sistema. Mas sempre existe algo que manipula os acontecimentos, movimentando a massa energética em prol de algo poderoso e específico. O marketing é manipulador de energia (e pode ser comprado facilmente por quem tem dinheiro), podendo, dependendo de sua estratégia, conduzir o jogo dos valores.  Desculpe, essa é apenas uma análise superficial com a tentativa de explicar as regras do jogo capitalista. Mas também nos mostra como a nossa vida é conduzida hegemonicamente. 

Visão… o que vemos? Observa o que tens visto diariamente, observa como isso influencia a tua vida, tanto no campo emocional como no campo mental. Como influencia as tuas vontades, fazendo-as chegarem de fora, conduzindo-nos coletivamente em grande escala. É fácil para quem tem grande capital atrair  investimento individual. O corpo saliva de vontade, o foco quer mergulhar e conseguir o alvo. Feitiço financeiro. Porém, existem alguns segmentos de investimento que estão “alterando” um pouco esse caminho. Andei pesquisando sobre investimento sustentável, empresas as quais têm medidas que valorizam o meio ambiente, as relações sociais e corporativas, ganham selos para atrair investidores mais conscientes. Mesmo assim, o jogo maior fica entre as grandes e poucas empresas, as quais detêm grande massa de investidores, sendo a maioria dessas norte americanas. Pois quem é “investidor” quer lucro em dinheiro e não ficar cuidando da natureza ou das relações sociais. Existe nesse jogo um medo feroz da filantropia. Lógico… quem tem dinheiro quer que ele (dinheiro) trabalhe para si (merchant dos blogueiros investidores), muitas pessoas estão jogando com as possibilidades de investimento para um dia pararem de trabalhar e fazerem o que gostam. Quando chegar esse dia de fazer o que gosta, o que será que essas pessoas vão querer fazer? Confesso… seria lindo ter dinheiro para investir nesse jogo, porém é desagradável saber que estarei dando força para empresas que fogem totalmente do meu caminho filosófico. Mas se uma grande força coletiva resolver mudar os rumos do investimento, apostando em empresas da localidade do investidor, será que essa ação poderia mudar um pouco o rumo do oligopólio empresarial? Ou será que esta ação também geraria aumento da ganância dessas empresas locais, acabando por criar outros oligopólios empresariais? Será que esse jogo tem sempre o mesmo fim, o intuito de conseguir poder de ação dentro da sociedade, manipulando assim energeticamente a grande massa? Existe alguma forma dessa organização de investimentos financeiros, que visam lucro, criar vida menos devastadoras?

É difícil pra mim escrever sobre este assunto, pois sempre fui uma pessoa com aversão ao dinheiro. Não é que não o queira, pois sinto alívio nos momentos de alta, mas essa troca está doentia. Um dos meus processos ritualísticos a partir desse tema aconteceu com a performance PET. Ação que fiz em 2015. No momento de criação deste trabalho me perguntava para quem estava vendendo o meu movimento, a minha dança de vida? Quem ou o que estava conduzindo o meu movimento diário? A questão era quais movimentos a conquista de dinheiro me fazia operar e que tipo de energia estaria criando. Resolvi passar pela experiência de me encoleirar com uma coleira de pérolas. Chamei o performer Aquele Mario, parceiro de longa data, para me levar para passear pela Rua Oscar Freire em São Paulo-SP.  Por favor, assistir o filme abaixo:

Esta ação mostra pra mim o que nos limita o movimento, um grande paradoxo, pois o que nos limita também nos libera. Na verdade a coleira é controlada e a suposta liberdade é ao mesmo tempo uma prisão, pois quando a mente é encoleirada, nossos movimentos acabam por serem conduzidos de forma inconsciente, tirando assim a nossa capacidade de sentir o nosso gesto, nos capturando o sentido da vida. Quem nós somos e o que de fato acreditamos, se vai com uma brisa leve, quando recebemos uma bela proposta financeira. Para ter certeza disso basta olhar em volta. Vamos começar pela política brasileira… chegando até você e sua busca pela sobrevivência. Assim, a humanidade investe, em sua grande maioria, naquilo que ela não acredita, sustentando por exemplo empresas como a Vale do Rio Doce (super cotada nas ações brasileiras), responsável pelo desastre que acabou com as cidades de Mariana e Brumadinho, além de destruir o Rio Doce. Esse também é o nosso lucro por esse investimento.Acredito que as energias se transformam quando mudamos o nosso movimento. Ano passado participei de alguns encontros do evento “Teia das 5 Curas” na Aldeia dos Pitaguarys (etnia indigena que reside em Pacatuba-CE). Fui convidada pela grande amiga bruxa Juliana Capibaribe, a Rezadeira Vândala (ver foto abaixo), conheci a proposta do encontro, que tem como objetivo reunir etnias indígenas e quilombolas da América Latina e Canadá, para dialogar e compartilhar suas experiências. (site do projeto: https://decolonialfutures.net/portfolio/teia-das-5-curas/) “O projeto enfoca a cura dos pensamentos, dos sentimentos, das relações, dos ciclos ecológicos e das trocas econômicas. A abordagem educacional é baseada em uma pedagogia que coloca a terra no centro como a mãe que sustenta a vida.” (citação tirada do site apresentado acima).

Na performance como Rezadeira Vândala, Juliana Capibaribe vendia cafuné na Praça do Ferreira, em Fortaleza-CE.

Mas o que seria a cura das trocas econômicas?

Para curar as trocas econômicas, talvez precisaremos mudar a moeda de troca. Começo então, a imaginar uma moeda curada (hahahahahaha…). Talvez, ela não seja uma peça de metal cunhada por autoridades governamentais. Talvez, ela não seja um objeto. Talvez, ela seja, antes de tudo, energia. Talvez, esta moeda imaginada, seja algo que nos dê sentido para o movimento coletivo da existência, para a vida, para, assim, termos o que de fato trocar. 

Olha aqui… Telepatia…

Procuro singularidades

Fortaleza, 26 de setembro de 2020.

Cara amiga bruxa,

aqui, de cara, em espelhamento. olho… vejo o que não se vê. você aqui me dizendo essas coisas… eu aqui escutando… escutando como uma mensagem do futuro, antes mesmo dele acontecer. aprender o quê? sei que os segredos da bruxaria da vida te compõe mesmo sem você entender, mas acho que quando afirmo os seus dons, você confirma aquilo que já sabia. ser bruxa velha é sabedoria. minha pele de 35 anos, ainda não sabe direito o que é envelhecer, mas talvez ela dê pequenos sinais, estes que fortemente me colocam a pensar agora sobre o tempo. como terráquea, penso o quão necessária é a carne, esta que é a via e ferramenta para o sentir. a gravidade da terra opera sobre ela, envelhecer é consequência desta ação sobre os nossos corpos. por que lutar contra? O que lutar contra? sinto que queremos buscar a eterna juventude da matéria, e isso me parece uma busca contínua por uma estética jovem e padronizada, operada apenas nas extremidades da carne. como mergulhar na juventude? você se queixa do seu embate entre corpo e cabeça, como você mesma diz. corpo este apresentado como sistema em falha, cabeça essa cheia de frescor bagaceiro de uma juventude infinita. será que a sua ferramenta está obsoleta? Eu diria que ela estaria obsoleta se tivesse parado de sentir, embora saiba que seus movimentos não estão mais tão rápidos e disponíveis, surpreende-me ao me dar calcinhas de rendinha. Este gesto me ensina sobre sensualidade que por sinal é uma grande característica sua – aprendo o seu feitiço, repassarei às bruxas mais jovens que eu -, não que isso me prenda, amo também calcinhas velhas, feias e frouxinhas. por que um corpo envelhecido, para o sistema o qual vivemos, perde sua utilidade e deve ser escondido, como uma calcinha não sexy? Ou porque temos que assumir certas formas corporais para nos fazermos validadas por esse sistema? isso se deve à forma como moldamos a nossa superficialidade estética para, assim, sentirmo-nos participando da coletividade. quem dá as ordens do jogo? Quem decide o que somos e devemos ser? digo-te que a maravilha que habita teu corpo é exuberantemente sábia. será que um dia envelhecer possa se ressignicar e virar uma nova juventude? Será envelhecer o momento o qual cansamos de todas essas formas sociais para assim fazer o que realmente se quer? foda-se… você é a própria criação do foda-se. Sem preocupações com o que os outros falarão. foda-se. Corpo aberto para uma dança improvisada, corpo liberto para agir na cena da vida… surpresas acontecem… queremos surpresas! trabalhamos aqui com criação de singularidades. bruxa safa…você sabe jogar com o que existe ao seu redor, sabendo usar certas máscaras em alguns momentos. foda-se. divirto-me, embora às vezes também sou pegue de surpresa. divirto-me. chateio-me. estou viva, que nem você. corpo jovem e cabeça velha… é melhor não tê-los… pois, o que vamos criar? olho em volta… percebo as enormes distâncias entre as pessoas… talvez sejam criações de cabeças velhas… pensa comigo… é estranho ver corpos tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes um do outro. De você me sinto próxima, mesmo existindo entre nós uma longa distância geracional. Vivemos no mesmo tempo. Esse tempo se opera em criação constante, por isso comunico por meio desta carta-texto reflexões que surgiram de nossa amizade, com intensão de abrir fissuras neste espaço-tempo. Vamos mergulhar no pensar sobre o envelhecer? Aqui… olhando pra você me espelho em um futuro que ainda não aconteceu para mim, mas que acontece para ti. minha amiga, a solidão não deve ser apenas o único caminho que essa vida pode nos levar. ser uma bruxa velha é poder compartilhar sabedoria. envelhecer não é o fim nem o começo, é o caminho: laços, relações e experiências.  como a nossa sociedade está envelhecendo? ou mais específico, como as mulheres bruxas estão envelhecendo? vida individualista torna as pessoas egoístas. procuro singularidades e não individualidades. procuro coletivos viventes e não massas moventes. a obsolescência programada está até nas formas humanas de existir. não quero nascer com data marcada para o fim do meu funcionamento. quero viver em estado de juventude, sem buscar falsear a gravidade. quero envelhecer me sentindo em comunidade.

de sua amiga…