Prazer

Acho que estou perdendo o excesso de defesa. Por muitos e ainda em outros vários momentos da vida fui e sou uma fêmea arredia, daquelas que desbravam o território sempre na defensiva e em alerta para que algo ruim não aconteça. Ainda vivemos numa sociedade bastante machista e violenta, uma mulher precisa ter suas técnicas para defender seu corpo território. Porém, assumir que meu corpo está ficando poroso, cheio de espaço vazio, sendo penetrado pela existência é no mínimo uma declaração de amor curiosa. Meu campo energético de cultura está se deixando ser atravessado, esses momentos acontecem quando me sinto livre para essa entrega. Percebi com isso o limite tênue entre invadir e penetrar um território. A diferença está na sensação de prazer, e isso tem a ver com a vontade de si entregar ao movimento ou não. Andei pesquisando a palavra prazer no google e achei curioso o caminho simbólico dado a ele pela internet, nos levando a um significado imagético apenas sexual. E o ato de gozar com o segundo da materialização de um movimento? Estamos tendo prazer na vida? Ou buscamos essa sensação em experiências condicionadas e pré-determinadas como um cano de escape de uma vida irritante e frustrada? Essa organização social que nos ensinaram na infância nos encaminha a uma vida de prazeres ilusórios. Não caia nessa estratégia de marketing, o prazer está naquilo que tu sente e não naquilo que te mostram.

Como podemos penetrar territórios com amor e entrega?

Essa brincadeira acontece em relação entre e não em disputa de territórios.

Estamos há muito tempo reproduzindo em nosso campo energético de cultura a frequência |guerra| para conquistar territórios. Criamos com isso movimentos agressivos, invasivos, destruidores, ciumentos, sentimos que possuímos o objeto conquistado e este está sob o comando do “dono”. Segundo minha amiga Elisa Porto, “às vezes me sinto como um poste mijado”. Rs…

Acho instigante as diferenças e semelhanças entre os campos energéticos de cultura dos macacos chimpanzés e dos bonobos.  Essas espécies têm características físicas semelhantes, porém seus movimentos operam em registros bem opostos. Os chimpanzés são territorialistas, vivem numa sociedade patriarcal e guerreiam com bandos que não são o seu. Já os bonobos vivem em uma sociedade matriarcal, aceitam outros bandos e fazem sexo o tempo todo com vários parceiros diferentes sem se importar com o gênero. Culturalmente eles utilizam o sexo para compartilhar diversos tipos de sensação dentro da relação entre eles, e o parceiro específico pode ser todo o bando. Rs… adoro os bonobos. Uma sociedade monogâmica é pautada na posse, desse jeito a relação em grupo só acontece em um harém, tendo um sultão, como macho alpha, monopolizando o movimento do grupo inteiro. Pensando nessa inversão de valores, ao me imaginar, por exemplo, dominando vários machos, percebo que estarei realizando o mesmo monopólio de corpos. Será que assim não estarei realizando a mesma ação agressiva e territorial? Não quero ser uma latifundiária do prazer. Quero abundância!

Hum… (esse foi um ronronar de gato, eles fazem isso quando sentem prazer).

Para a abundância coletiva acontecer será necessário muito cultivo e afeto envolvidos, dentro da frequência |amor|. Sinceridade para falar sobre como sentimos prazer. Mas como o outro sente? O que o outro deseja? Onde nossos desejos se encontram, sem que uma invasão aconteça? Será que estamos nos ouvindo, ou estamos criando jogos que falseiam a escuta da relação, manipulando assim o movimento do corpo do outro ou se deixando ser manipulado? Existe limite para o território do corpo?  

Hoje o vento me atravessou pelo tempo. Senti meus poros serem preenchidos por ele, deixei o tempo escorrer em mim, enquanto o vento me penetrava de leve. Me abri para o seu sopro, que circulava por meus espaços. Senti prazer! Estou tendo um caso de amor com ele. Mas também com o mar… com a areia… com o coqueiro…

Quero fazer uma declaração:

Estou cultivando encontros de amor…

Diário de uma bruxa na cidade

Fortaleza, 11 de julho de 2020.

Deitada sob a sombra de um prédio, penso que:

Adentrar em campos energéticos de cultura urbanos requer preparação, caso se venha de localidades menores, pois onde se planta concreto, a conexão entre as raízes acaba sendo interrompida pelas paredes de seus vasos gigantes. Nesses campos energéticos, cultivar desconexão talvez seja cultura. 

É possível alterar campos energéticos de cultura de uma cidade? Em minhas pesquisas sobre energia, a fórmula da teoria da relatividade me chegou novamente, como um insight para criação de magia. Energia é igual a massa (M) vezes a velocidade da luz (C) ao quadrado (E=MC²). Essa equação já veio à tona nos textos os quais escrevi aqui, porém não me canso de filosofar sobre ela. Aplicando a lei da correspondência (Caibalion), penso que massa (M), em nossa dimensão, seja o corpo e a velocidade da luz (C) o movimento. Podemos então presumir que a energia (E) de um corpo (M) depende do movimento (C) deste, ou que um campo energético (E) já criado pode alterar corpo (M) e movimento (C)? Tenho criado o hábito de prestar mais atenção em como meu corpo vibra ao adentrar em um espaço (pessoal ou atmosférico – nem sei se existe diferença entre) pela primeira vez. É uma espécie de meditação. Assim que meu corpo ocupa um território, paro, aciono a escuta dos meus sentidos, direciono meu campo de atenção para o meu chakra frontal (Anja ou Terceiro Olho), abro o tempo para meu campo de intuição ler meus sentidos, para assim perceber como me sinto em relação àquela atmosfera. Não existem paredes para energia, elas te penetram sem você perceber, alterando corpo (M) e movimento (C). Sem esse campo da intuição acionado, perdemos capacidade de nos sentir e assim deixamos nosso corpo ir no fluxo do campo energético de cultura o qual estamos. Quando nos damos conta disso, já é tarde, nosso movimento já foi programado e conduzido por essa força. Lembro-me de um pequeno texto que escrevi quando refleti sobre o que meu corpo se tornou na época em que morei São Paulo-SP:

Estou aqui paralisada. Como um bloco de concreto, sigo o fluxo veloz da cidade. Olhar desfocado, corpo preciso, não vejo nada. Sinto vultos de energias passando por mim, enquanto crio em minha mente uma vida imaginária. A ilusão acaba com o roncar da buzina, quase fui atropelada. Será que me tornei uma mulher civilizada?

Neste período intuí que precisava de tempo para encontrar os meus espaços vazios, intuí que precisava perder tempo, sentí-lo escorrer por entre os meus dedos, deixá-lo penetrar nos meus poros, expandindo a minha existência até me tornar poeira cósmica. A consciência de mim nessa menor partícula me envolveu num encontro com a minha não materialidade. Será que o corpo é uma ferramenta ultra tecnológica de sentir? Já imaginou que o universo é composto de vazios e matéria? Se somos também matéria, porque não somos também espaços vazios? Energia está em movimento constante, entrando saindo, indo de um lugar a outro, com uma organização impermanente e variável de sentimentos e sensações. Assim como o corpo, que também se movimenta nessa não ininterrupção, variando velocidades, tempos, níveis, dimensões, texturas… Sem separação ou dualidade entre corpo e energia. Este encontro é uma alquimia necessária à vida! 

Gosto muito de pensar sobre a expressão perder tempo, pois ela vai de encontro às regras do sistema vigente, por exemplo, a de termos que ganhar tempo pra ser alguém na vida. Sim, em um pensamento onde valorizamos apenas o campo da matéria, isso se torna em partes verdades. Jogamos de acordo com o jogo do ter, sonhando em nos tornarmos os maiores conquistadores e possuidores de territórios do mundo. Mas quem eu sou nesse registro? É importante lembrar que o movimento do corpo cria energia. Para se perceber nesse aqui e agora é importante observar que frequência a nossa dança tem criado em nosso campo de atuação. 

Sabendo disso me pergunto: como tenho criado meus campos energéticos? Eles se dão a partir de quê? De um excesso de apego à matéria ou à não matéria? Pois já senti que ao deixar meu tempo escorrer demais, acabo por adentrar num limbo cósmico, como se tivesse dançando a eternidade do vazio. Por isso penso, se estou na terra, será que meu desafio é criar matéria? Estou viva? Sim, estou viva! Vivíssima! Pulsando! Sentindo a matéria em mim! Como é necessário dançar! Uma dança que abre a matéria, a escancara, para mostrar as entranhas da existência e depois se revirar no verso do verso. 

Universo
une o verso
do meu verso
com o teu verso

Será possível olhar para o verso da cidade? Olhar para o verso da nossa vida em coletivo? Olhar para o verso da nossa cultura? Como a ação coletiva se dá? Quem ou o que conduz o nosso movimento? Somos nós! Percebo que a condução do nosso campo energético de cultura está muito mais para uma ação no plano material, jogando mais o jogo do ter. Conquistando territórios, construindo vasos gigantes e árvores de concreto. Está assim porque a maioria de nós está agindo nesse sentido. Criamos o que vibramos, isso não podemos mudar. Estamos apegados a quê? A esse “instinto” de sobrevivência capitalista? Sustentamos estruturas estagnadas, fadadas ao desmoronamento? Não esqueça que um campo energético de cultura influencia diretamente o nosso movimento. Mas também não esqueça que o movimento de um corpo também cria campo energético de cultura.