Escrevo para quem?

Passei um bom tempo numa livraria à procura de um bloco novo.

Como eu gostaria que a coisa se desse

01 caderno para anotações de trabalho

(Pergunto-me se escrever não me é um trabalho. Neste instante, sinto-me como um limão, muito verde, a ser espremido para qualquer utilidade)

Tenho desejos de viver, e isto inclui passar horas de meu dia a brincar no mar.

Associo a vida ao mar, talvez porque toda vida tenha nascido dele.

Aprendo mais com as marés, do que lendo (exaustivamente) filosofia clássica, aliás, estou para ser reprovada na cadeira de Iniciação à Estética por preguiça de leitura, minhas urgências são outras, e me é inaceitável que a base do ensino em Artes ainda seja eurocentrada, branca e masculina. Platão e Aristóteles, para citar os mais clássicos, e a ultrapassada discussão do belo na Arte.

Tenho aprendido mais sobre Estética com Grada Kilomba, uma mulher negra, artista e psicanalista que coloca a subjetividade da/o sujeita/o como objeto movedor da criação, ou “movente” para a criação.

Escrevo a partir de minhas urgências

Quando sou violentada

Quando o ódio me transborda

Quando me encho de água

Toda a minha dor é transformada num produto. Porque assim é.

E minhas/meus leitoras/es se é que as/os tenho/terei jamais saberão por que escrevo, e principalmente, que não escrevo para elas/eles.

Então, já estão a me cobrar um novo livro, antes que o primeiro sequer tenha saído da gráfica.

De volta aos cadernos

01 bloco para anotações quaisquer, apontamentos de leituras, escritas…

Nada resolvi. Voltei para casa alimentada de desejos, comprar mais livros, mas para este ano já enchi a cesta. Compartilho minhas leituras em curso, cem por cento latino-americanas.

os trabalhos e as noites, alejandra pizarnik (poesia)

árvore de diana, alejandra pizarnik (poesia)

sereia no copo d’água, nina rizzi (literatura)

torto arado, Itamar vieira junior (literatura)

por um feminismo afro latino americano, lélia gonzalez.

Mercúrio retrógrado se aproxima

“Kusa ka sta facil”, esta frase escrita em criolo, da Ilha de Santiago, em Cabo Verde, no continente africano, ilustra bem. Não tenho me exercitado nesta “coisa”, “a coisa não está fácil”.

Falta-me o tesão!

Em uma de minhas confissões escrevi

“Eu tenho uma infeliz vontade de escrever o dia inteiro. É verdade.”

Isto hoje não é verdade.

Tudo o que eu tenho feito é ler e reler este livro “De Vento em Poesia”, porque recebi uma, duas, três provas para correção, na última eu queria interferir nos poemas, eliminar os excessos, eliminar os poemas, não o fiz, foi para a impressão com os meus excessos e visceralidade.

Excessos esses que me custam.

Preciso entrar em crise, buscar um abismo…

A lua cheia se aproxima, tpm também, atenção, tensão para os próximos dias. Mercúrio estará retrógrado, a cartomante Paula Prado disse no tarot do mês de janeiro para o signo de virgem . Eu já estou retrógrada.

O voo do pássaro sem asas

Comprei livros e também recebi a minha primeira prova do De Vento em Poesia.

Que tesão vê-lo em minhas mãos. As ilustrações de Thyara ficaram lindas.

Eu ainda acho que a melhor escrita é a carta em lugar de prefácio de nina rizzi.

Pela primeira vez li o livro, assim, físico, palpável, e a materialidade me trouxe uma nova perspectiva. Consegui me distanciar, e não devo dizer o que penso.

Isto foi motivo para reaproximações.

Enviei mensagem para “A”. Ele respondeu.

Não avançamos. Ficamos nos emojis de coraçãozinho.

Não escrevo mais, também não me angustio.

Gosto mais que antes de ser leitora, é o que o tempo me tem exigido.

Embelezamento com sangue menstrual

“Quem dera o sangue fosse só o da menstruação”. Via um perfil de antologias poéticas e de artes visuais no Instagram.

registro da minha primeira hidratação facial com sangue menstrual (na lua cheia).
30.12.20

há cura
a cura é o sangue.

um de muitos processos até aqui, aceitar o sangue e curar.
nosso útero acumula muitas tensões desde nossas ancestralidades, mulheres que não foram curadas, homens violentadores, e isto se repete por gerações.
falo como alguém que conhece bem essas dores.

aprendo com outras mulheres
do poder do sangue para a nossa cura.

Assunto: Notícias minhas

Não falta mais nada…

Este ano, definitivamente, pode ir findando.

“D” respondeu a um e-mail que eu já nem me lembrava.

Coisa de uns dois anos atrás, dos cinco que transamos (fisicamente, virtualmente, telepaticamente).

O assunto era “notícias minhas”

Não devia ter feito isso!

Senti tudo

Ele sabe como disparar os meus gatilhos. Sabe tanto que estou eu aqui, sentada, escrevendo.

Desta vez eu não quis me enganar, mas estou sofrendo.

Uma vez mais senti-me como um objeto sexual.

E se escrevi para ele um livro, movida pela minha ideia de amor, sou capaz de com a fúria mover mundos ainda maiores.

E eu estou maravilhosa, com um bronze ótimo de Icapuí , inclusive, louca pra trepar.

Assim a coisa fica mais leve (risinhos e “cara de safada” olhando pra tela) (ironia)

Saudades das rubricas teatrais, agora só sei das rubricas da Lei Aldir Blanc.

Se jogasse com quem eventualmente me lê, perguntaria:

Você gosta de uma “coisa” mais leve ou mais adensada?

Tem para todos os gostos.

Esta ironia toda é porque recebi uma proposta para ser “apenas técnica”.

É ótimo para o patriarcado ter mulheres técnicas, subtraídas de suas subjetividades.

Meu c* é técnico!

Estou “virada na Jiraya”, aliás, ouçam esse álbum da Flaira Ferro, é ótimo.

Fica para a próxima atingir o clímax.

Como um flash

Não me lembro exatamente em que época de minha vida aconteceu, se no último estágio da infância ou já na adolescência. Um tio que trabalhava para o prefeito da cidade e aos domingos frequentava a sua casa, me presenteou com alguns livros que a filha da autoridade doara. Pollyanna, algumas revistas de moda dos anos 80, um livro de receitas, e havia também uma revista de mulheres nuas, vestidas de poses sensuais, com impecável depilação e bucetas rosadas.

Esta lembrança me veio como um flash.

(mas não creio que a revista da qual minha pouca memória se lembra tenha sido uma doação)

Fui toda a vida pré-disposta ao uso da imaginação.

Pollyanna me fora uma descoberta prazerosa da leitura, passava horas do meu dia a acompanhá-la em suas aventuras e desventuras com a terrível Miss Polly e Nancy, mas sem nunca exercitar o Jogo do Contente.

Já o livro de receitas aguçava-me os sentidos e a imaginação, que criava uma espécie de imagem do futuro, onde eu estaria experimentado àquelas “delícias”.

É possível que venha daí o meu prazer em cozinhar, para mim. Quem gosta de comer bem, aprende a cozinhar bem. Gosto dos cheiros, das texturas, das cores, dos sabores.

Mas há os dias em que nada tem sabor, quando é assim, eu não cozinho, ou se o faço, tempero com lágrimas.

Daquelas revistas de moda, o que mais me interessava eram as bicicletas com cestas de flores.

Estas lembranças hoje vagam em minha memória, e me é estranho que eu tenha lembrado aletoriamente delas, agora mesmo pareço ver tudo diante de meus olhos, assim como a casa de meus avós, onde nasci e cresci, e que saberia lhes contar melhor estas “coisas” do que eu.

Eu, a criança para sempre impura.

Às vezes me ocorre de súbito voltar à criança que fui.

Num desses dias, por desejo infantil banhei-me numa bacia.

Por algum tempo pude sentir a mesma alegria da tenra idade, em que o ato de banhar-me era uma glória.

Eu brincava com a água, pulava com a água, dançava com a água. Eu era feliz com a água, sem pensar no que pudesse ser a felicidade, ou mesmo se ela existiria.

Sai da bacia com a água já vermelha, o tempo dera um salto enquanto eu me banhava, mas havia ainda em mim qualquer coisa daquela felicidade infantil.

Se racionalizo hoje o ato de banhar-me, não é nada além de tentar lavar-me de minhas impurezas.

Eu, a criança para sempre impura.