Corpo, lugar de presença

Me peguei pensando novamente na PRESENÇA, e me vieram lembranças dos momentos que eu vivi de maior gozo. Estão associados à investigação da anatomia, dos sentidos e dos movimentos do corpo, só por isso escrevo, porque esses instantes de PRESENÇA me permitem a observação e consequentemente o registro.

Meu corpo foi sempre uma pedra, mas esteve sempre em movimento.

Sou uma pedra que se move nos primeiros raios de sol e depois do crepúsculo.

A quem usa o corpo como suporte é exigido disciplina e uma escuta atenciosa de tudo que se altera.

Dou atenção à respiração, aos batimentos, espasmos, estados de tensão, relaxamento, densidade, e aos micro movimentos internos. Experimento sempre o estado de tensão por pensar que viver implica viver em estado constante de tensão. É absolutamente tenso o presente pela incerteza do instante posterior.

Como diz o Zé Tarcísio “é a gratificação dos sentidos, meu bem”.

Gratificar os sentidos seja o sentido da vida.

Como me alegro quando como bem, ou quando sinto o vento vindo do mar. Da última vez em Barão Geraldo eu vi um crepúsculo tão belo que os olhos marejaram. Vi o céu numa paleta de cores que ia da cor laranja à rosa, e de repente ela se esvaiu, e eu sabia que nunca mais viria aquele pôr-do-sol.

Não sei se tenho saudades, não gosto de rememorar o passado, já que não posso voltar a ele, e nem modificá-lo. Fernando Pessoa, não me lembro se no Livro do Desassossego, diz:

“o passado me lembra o que eu não fui”.

Mas o corpo tem memória, e sem que se tenha às vezes controle ele acessa determinadas camadas, nem sempre claras.

“Construído na sua vida cotidiana, em processos de socialização, de educação, de repressão, de transgressão”. (DANTAS, 1999, p. 100)

O corpo, para além da sua formação química, física, biológica, é resultado de uma construção social, cultural, e do meio. O corpo de uma mulher sertaneja é diferente do corpo de uma mulher do litoral, que é diferente do corpo de uma mulher da cidade, de área nobre, que difere do corpo de uma mulher negra que habita na periferia. A violência nos molda de maneiras diferentes. O meu corpo tem gravado as mais diversas. Física, sexual, psíquica, moral.

Assim como adoece o corpo violentado, também está nele a própria cura, que pode ser na investigação estética e experiência do sensível, na busca pelo movimento, nas pulsões, na dança, no trabalho com as mãos, no manuseio das ervas, na redescoberta dos saberes ancestrais, enfim, na PRESENÇA. O estar em si é um portal para adentrar outros mundos.

Referência bibliográfica

DANTAS, Monica. (Dança: o enigma do movimento, Ed. Universidade, 1999).

Vivendo o presente

Marcelina Acácio

Tenho exercitado não fugir ao presente, este é um exercício de atenção. Escuta.

Quando sinto que me distancio, imediatamente volto.

Isto é a PRESENÇA, um corpo vívido, habitado e habitando.

Estava certa da mudança para uma casinha no Centro, com quintal, varanda, plantas frutíferas, numa rua aparentemente tranquila, entre a Padre Valdevino e Bárbara de Alencar, nas imediações do Banco Central, a poucos minutos do mar da Praia de Iracema.

Mariana e eu nos encantamos de imediato e num ato de impulsividade decidimos alugar.

Da casa futura à casa presente, o trajeto percorrido de bicicleta foi vestido por pensamentos que já me faziam moradora da casa, cozinhando num fogão de barro, que eu e Mariana já havíamos construído, em menos de duas horas.

Sem contar os diálogos:

– Ah, mas os banheiros são tão pequeninhos, Mariana.

– O quintal tem espaço para um chuveiro, e nós podemos construir um banheiro sustentável.

– A feijoada do Júnior Barreira no domingo, com muito samba.

– Uma mesa de madeira grande para o alpendre.

Chego em casa, banho e comunico à família (esta que eu escolhi, que são os melhores amigos com quem eu poderia passar 05 meses de confinamento, porque nós somos as pessoas que convidaríamos para as nossas festas).

Num instante meditativo no meu quarto, uma voz interna me diz para eu voltar ao presente, eu estava já morando em outra casa, e não habitava mais à mim mesmo, pois que para habitar-se é preciso estar no presente. Recuperei a consciência e com calma, dois dias depois, optamos por adiar o plano da mudança, dadas as incertezas com o futuro. Estou confortável, e é esta a questão. Mariana virá morar conosco, oficialmente.

Eis o exercício, trazer-me insistentemente ao presente.

Voltei a ter saúde, e com saúde se pensa melhor.

Não me canso mais com o mundo, e nem com esta ideia de amor.

Me preparo para entrar no meu inferno astral. Hidratei os cabelos, e agora vou para um banho de ervas (manjericão, alecrim e boldo, com óleo essencial de patchouli e muita reza), feito pela Raísa Inocêncio, amiga que os ventos fizeram cruzar os nossos caminhos. Epahey, Oyá!

Festejo

Marcelina Acácio

Estou festejando a menstruação, é sempre um alívio quando desce.

Sofro com a tensão pré-menstrual.

De pensamentos obsessivos à irritabilidade, crises e alguns processos desencadeados durante.

É um momento de recolhimento da mulher em atenção ao seu corpo.

Comuniquei aos amigos que convivem comigo, avisei ao Zé que estaríamos menos em contato por uns dias, e me recolhi.

Comum é o desejo da morte, de algo, de um sentimento, ou a própria.

A cada tpm eu sinto vontade de ir embora, de pôr fim a algumas relações, ou de qualquer coisa que signifique mudança.

Nesta, mandei embora a cama, substitui-a pelo tapete de Yoga e a rede, assim, ganhei mais espaço para movimentos.

Sou minimalista, gosto de ter o que eu posso carregar comigo no máximo em duas bagagens.

Não sou acumuladora, e nem apegada ao que é material, a exceção são alguns livros que me acompanham.

Meu apego é com pessoas, dessas tenho certa dificuldade de me afastar, mesmo quando é preciso.

Seis dias sangrando e hoje eu estanquei.

Esta “coisa” teria muitos desfechos, mas minha cabeça dói e eu paro por aqui, sintomas de uma gripe que tento curar com chás e banho de ervas, própolis e vitaminas.

Até breve e com saúde a todas/es/os.

“Se tem de escrever, quase como uma obrigação moral”. Grada Kilomba

Marcelina Acácio

Por que escrevo?

Porque eu tenho de

Porque minha voz

em todos seus dialetos,

tem sido calada por muito tempo.

O poeta Jacob Sam-La Rose, citado por Grada Kilomba em Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano.

Em toda a minha vida, depois que eu aprendi a ler e a escrever, jamais passei tanto tempo longe da escrita como agora.

Doloroso, principalmente porque, estou olhando para o caminho, para a construção de uma escrita de cura da ferida colonial.

No livro Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba, que penso, seja uma cartilha básica, pois revela as estruturas do racismo e das relações de poder e dominação exercidas pela branquitude, como elas operam, a máscara de Anastácia aparece explicitando os “regimes brutais de silenciamento das/os chamadas/os Outras/os”. Sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar de silenciamento, de tortura.” (KILOMBA, 2019, p. 33).

“A boca é um órgão muito especial. Ela simboliza a fala e a enunciação”. (KILOMBA, 2019, p. 33).

“Consequentemente o órgão que, historicamente, tem sido severamente censurado.” (KILOMBA, 2019, p. 34).

Não se sabe a história oficial de Anastácia, onde ela nasceu ou quem eram seus pais, há no entanto muitas versões sobre ela, e no que elas concordam é que Anastácia teria sido uma ativista política, que ajudava na fuga das/dos escravizadas/dos, e resistia “às investidas sexuais do “senhor branco”” (KILOMBA, 2019, p. 36) por isso era castigada com o uso de uma máscara de metal, colocada no interior da boca, instalada entre a língua e o maxilar, e fixada por detrás da cabeça por duas cordas, como na imagem.

Retrato do francês Jacques Arago, que veio ao Brasil como desenhista numa expedição, em 1817.

A obra de Grada Kilomba Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano é vasta e densa, é um despertar para a consciencialização da urgência da descolonização, para que cada uma/um torne-se sujeito, e seja capaz de construir sua própria narrativa.

Imagem de divulgação

Finalmente, eu escrevo porque eu tenho L I B E R D A D E para fazê-lo.

Porque “se tem de escrever, quase como uma obrigação moral”. (KILOMBA, 2019, p. 27).

Porque o conhecimento é colonizado.

As relações opressoras agem para o apagamento do sujeito Outra/o, da memória e da história, reduzindo-a/o a objeto. Identidades, como diz Kilomba, que são retiradas da sua subjetividade e reduzidas a uma existência de objeto.

A História tem sido escrita por homens brancos, que falam como homens brancos, que não representam a mim, mas só a eles mesmos.

Há uma tentativa de apagamento da memória do colonizado.

O que sabemos do Yorubá ou Tupi-guarani? Nossas línguas-mães!

Por que somente a Língua Portuguesa nos é rigidamente ensinada, numa tentativa de “civilização” dos povos colonizados? Civilização e um processo de introduzir o pensamento e cultura ocidental, em detrimento dos saberes e culturas ancestrais dos povos originários, repassados através da oralidade de geração para geração. Isto é um tipo de conhecimento a que não tivemos acesso.

O direito de acesso à educação e ao conhecimento, no Brasil colonial, era restrito às classes dominantes. Estas mesmas classes dominantes que nos dias atuais trabalham para que as classes inferiorizadas continuem sem acesso ao conhecimento, e sigam silenciadas. Há um projeto de dominação e manutenção do poder.

Ainda há, no sertão nordestino, por exemplo, uma taxa alta de analfabetismo, falo isso como uma mulher sertaneja, a primeira de algumas gerações a ter acesso ao “conhecimento”, este colonizado.

Isto, ao meu ver, implica diretamente nos índices de violência doméstica e feminicídio, no caso do sertão nordestino, pois há aí, também, um silenciamento e apagamento da Outra.

Quem conta a história da Outra?

Como se defende uma mulher que não fala? Silenciada pelo medo.

Falo como uma mulher racializada, sertaneja, que tem sofrido opressões do patriarcado branco, reconheço aqui que estou tratando de uma questão que é relacionada ao gênero apenas, mais precisamente à violência de gênero no sertão nordestino, que é um tema que venho investigando, a partir das minhas próprias experiências de violência, e das experiências compartilhadas por mulheres sertanejas de meu ciclo.

Mas há de se fazer menção e reconhecimento que estas mulheres, não só as sertanejas, vítimas de feminicídio e toda sorte de violência são em maior número mulheres negras, pois sofrem um conjunto de opressões, a intersecção racismo, sexismo.

Trata-se de darmos voz, de sermos voz, e ouvintes umas das outras.

Escrever é cotidiano e urgente, para que narrativas outras sejam contadas por cada uma e cada um.

Hoje eu não escreveria, mas me é mais fácil escrever do que não escrever. Não é o tipo de escrita a que estou habituada, e pouco a exercito, no entanto foi a que me foi possível.

Referência

KILOMBAGrada. (Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019).

O nascimento de um peixe, olhos sobre tela.

Não sou como qualquer pessoa que quando senta-se para escrever, lhe correm palavras com a fluidez de um rio.

A mim elas se apresentam como em ondas, uma após a outra, num movimento de ir e vir, constante.

Esta “coisa” eu não sei para onde vai. Devo admoestá-los!

Talvez fale sobre como um artista com saudades pinta uma tela.

Num dos últimos encontros com o artista Zé Tarcísio, o vi iniciando uma pintura, da sua nova série.

Sentado à mesa de trabalho, e com as ferramentas dispostas sobre ela, ele mergulha o pincel no betume, retira o excesso, e faz um traço no papel em branco, está iniciada a obra. E segue, numa coreografia, da mão com o pincel.

O processo criativo me atrai.

Estou ali, observando-o, e quando ele me dá uma oportunidade (a curiosidade não mata a gata).

A obra vai se fazendo, se mostrando à medida que a pintura acontece, e de repente ele começa a ver a paisagem que está se formando. Nada antes imaginado.

Como repórter plástico, a nova série iniciada na pandemia da Covid-19 traz a saudade da paisagem, vivida pelo artista solitariamente, na sua casa e mais recentemente no seu atelier. É como uma fuga do artista durante o isolamento social.

Zé me disse ainda, que desenhar é como escrever um poema, é como uma música.

Sim, o que se busca afinal, em tudo, é a poesia.

Aos poucos e cuidadosamente vamos retomando o nosso contato, o que nos é uma injeção de ânimo e vida.

“Amar e humor, deve estar em tudo”. Zé Tarcísio, uma fonte inesgotável.

Talvez eu quisesse falar sobre processo criativo e saudade, ou sobre como eu não escrevo mais.

Sobre um peixe colorido, dentro de um tecido gelatinoso, muito fino e escorregadio, que em sonho eu devolvi ao mar, para que ele nascesse, ou ainda sobre a continuação do sonho, olhos sobre tela, uma tela pintada por Cecília Meireles, avaliada em 3.566.000,00, propositalmente manchada por um spray de arte urbana, na cor azul marinho.

Já aí teria muita coisa. Por ora, sinto-me como um peixinho, que precisa voltar à àgua, nutrir-se do que lhe é essencial, para no tempo certo, saltar do útero que lhe gesta, e nadar.

Voltar ao útero seja a nossa urgência, é nisto que agora eu penso.

Na posição fetal, que me é confortável.

Nascer, no entanto, acontece.

Ai, minha mãe! Cuide bem de mim, que ainda não nasci. E depois, de nós, só aquela fotografia de 1989, eu nos teus abraços, sem saber ainda que nascer escorre sangue.

Eu, a criança para sempre impura, nos abraços de minha mãe. Ao fundo, este pé de urucum, da casa de minha madrinha. Este é nosso único registro juntxs. 1989.