Expansão

Expandir pode significar também ousar alargar os horizontes, ampliar o campo de visão para uma atuação que propicie outros significados da vida. É saber aproveitar as oportunidades quando elas surgem nos convidando a sair do lugar comum para experimentar coisas que levem a um novo crescimento. Todo mundo tem algo grandioso que gostaria de realizar, um desejo silencioso de dar um passo mais ousado. Pena que muitas vezes ficamos só na idealização, no desejo de… sem ousar nos lançar de fato, com ações mais comprometidas com os próprios sonhos. Muitas vezes desconhecemos que a concretização dos nossos anseios dependerá basicamente do tamanho dessa vontade. Quando nos acomodamos na constatação “procrastinante” de que um sonho não é realizável, pode ser então que isso seja mais fantasia do que um sonho verdadeiro, apenas ilusão estagnante a camuflar o medo de ousar dar passos no desconhecido, de quebrar a resistência e viver o prazer de algo inusitado acontecer. Sabendo disso, para aproveitar melhor a energia de expansão que agora está no ar, é bom refletir sobre o que pode nos dar um sentido mais verdadeiro de perspectiva e direção concretizando alegrias da nossa criação, ousando ser o que viemos aqui fazer de bom e belo.

Estar solitário

“Saber ser solitário é fundamental para a arte de amar. Quando conseguimos estar sozinhos, podemos estar com os outros sem usá-los como formas de escape.” bell hooks

Quem disse que é impossível ser feliz sozinho? Se pensarmos bem, essa aí pode ser mais uma das construções da sociedade de consumo, propagadora da ideia romântica e superficial das relações, a crença na idealização do amor, geradora de mais inadequações e infelicidade do que bons vínculos, o que só contribui para distanciar as pessoas de si mesmas e também das milhões de possibilidades saudáveis de um outro mais real e simplesmente humano. Mas, se queremos ser bons parceiros amorosos devemos, antes de tudo, aprender a ser bons com nós mesmos. Afinal, saber nos agradar, respeitar, reconhecer e curtir as nossas idiossincrasias é fundamental para a conquista do bem estar com a vida que tanto queremos. Quem consegue ser feliz sozinho é capaz de ser generoso e equilibrado, demonstra ter as condições essenciais para conquistar alguém e sentir-se mais respeitado e realizado nas inúmeras funções que envolvem os relacionamentos e o amor. Pena que para tanta gente, estar sozinho é tão doloroso, sem percebe o quanto saber ser solitário pode ser também uma boa escolha de vez em quando. Algo que precisamos também olhar com carinho quando chega esse tempo, ao invés de viver a tentar ocupar, preencher com qualquer coisa ou de qualquer jeito o espaço criativo do auto amor.

Olho gordo

“Olho gordo”, inveja, mau olhado… Será que o olhar do outro tem poder de ocasionar a baixa de energia de uma pessoa a ponto de comprometer a boa sorte, o próprio desejo, força, vontade, querer? Não teríamos como responder. Cada pessoa é quem sabe do seu contexto. Mas, por via das dúvidas, é sempre bom um banhozinho de ervas fervidas com sal grosso, para melhorar o axé, renovar a energia e partir para ação. Li num livro sobre a sabedoria de um Preto Velho, chamado Pai João de Aruanda, em que dizia que “O maior macumbeiro que existe somos nós mesmos”. Isso faz a gente pensar… De fato, existe “olho gordo” pior que nossos próprios pensamentos quando negativos? Muitas crenças que alimentamos não seriam também para justificar o medo do fracasso, os adiamentos ou nossa incompetência em lidar com os desafios que as complexidades da vida vão nos impondo? Empecilhos também surgem no caminho para nos inspirar outros sentidos… Limites forçam a consciência para o autoconhecimento, assim como para ampliar a nossa visão social, política, nos instigando a agir. Quando somos capazes de compreender o porquê de atrairmos certas coisas, deixamos de ser só vítimas das circunstâncias e de ficar à espera… Tudo pode ficar bem melhor quando ampliamos a visão, quando fortalecemos o nosso poder pessoal para superar obstáculos e nos proteger de ficarmos por aí à deriva de nós mesmos e dos vínculos que fortalecem. Não existe melhor escudo protetor contra “olho gordo” que a fé, no que cremos para o bem pessoal e coletivo, assim como em nossa capacidade interna de acionar a vontade de fazer algo e nos superarmos mais e mais a cada tempo.

No tempo do tempo

Mesmo com a nossa habitual ansiedade, uns mais outros menos, tudo na vida tem o seu momento certo para acontecer. Legal a sabedoria do tempo que também nos leva a perceber quanto os obstáculos, impedimentos, atrasos, vão acabando por se transformar em instrumentos necessários ao amadurecimento que precisamos para a manifestação do que tem que ser. Quando arrancamos uma fruta do pé antes da hora, só por estar aparentemente bonita, ou a perdemos ou vamos ter que esperar amadurecer. Saber esperar pode ser mesmo uma arte. Por mais angustiante que pareça aguardar por aquele encontro maravilhoso, pelo resultado de um concurso ou tentar tapear o tempo da espera torturante de um acontecimento certo e ruim marcado para determinada data, às vezes situações que se dependessem da nossa vontade, não chegaria o dia nunca. Só com o tempo descobrimos o valor de nos rendermos a ele, desapegar das exigências só da vontade, confiar na vida, sair do controle e apenas viver o que vier. Talvez esperar pode ser arte, somente se conseguirmos aprender a importância do tempo, a maturar as coisas dentro e fora de nós. Sabedoria então pode ser conseguir o equilíbrio entre o que não precisa da angustia da pressa e aquilo com o que não devemos perder tempo, pois o tempo do tempo chegou…

Sabedoria

A sabedoria corrige...
…nossas falhas porque aproveita a lição dos erros;
…nossa desesperança porque é portadora da fé;
…nossa tristeza porque infunde alegria;
…nosso orgulho porque trabalha a humildade;
…nossa angústia porque regenera a esperança;

(M E. Castro)

O verdadeiro sábio sabe que pouco sabe, portanto permanece humilde. Sabe dar a sua abundância filosófica, ampara e estimula a vida de seu próximo. Tudo quanto pode dar o faz largamente, não cria dependências, sabe construir as pontes para que seu conhecimento e os dos outros continue a fluir constante e generosamente. Como meros aprendizes, somos eternos buscadores deste equilíbrio. Mas, é muito bom ter esta referência de sabedoria como algo que possa nos conduzir de maneira mais consciente para onde precisamos chegar. Para tanto, é imprescindível que acrescentemos a esta percepção: conhecimento, respeito, tolerância e determinação, estando totalmente presentes e abertos para aproveitar as boas oportunidades que chegam e crescer um pouco mais a cada experiência.

EuTambismo

“EuTambismo” foi o nome que dei a uma espécie de “Síndrome” (ou mania, mesmo), visíveis em alguns processos da comunicação.

Já repararam nas pessoas que param tudo que o outro fala ou expressa, dizendo: “Eu também”?

Seria tal prática que chamo de “Síndrome de EuTambismo”

– Eu também fui

– Eu também li

– Eu também vi

– Eu também acho

– Eu também sinto

– Eu também conheço…

Quase um vício que muitas vezes acaba gerando a falta de um outro que seja só escuta, que apenas ouça de forma interessada, acolhedora, empática, curiosa, educada. Tudo que alguém necessita do seu interlocutor em determinados momentos. Já parou para pensar que essa mania rouba desse outro o prazer de compartilhar sua simples novidade, quando ávido por comunicá-la vai sofrendo uma série de interrupções desatentas.

Tentando compreender um pouco mais o “EuTambista”, dentre outras coisas, identifiquei ânsia, desejo um tanto desordenado de competição, “sombra”, gente que quer ser brilho o tempo todo, que não compreende que pode ser bom, gentil, até terapêutico, deixar o outro ser…

Comunicação é respiração. Respirar para falar e também para escutar pode fazer a diferença se desejamos uma troca sem ansiedades… Porque não possibilitar a alguém ser o dono da sua fala, somente e ponto?

Sinto que o ideal nos processos de comunicação é a arte de chegar ao outro transitando por uma via de mão dupla – regular o ouvir e o falar, prestar atenção na emissão e recepção no diálogo. Em tempos de tanta gente com assunto, às vezes, tudo que uma pessoa precisa é ser ouvida por alguém que se importe com quem fala.

Minha casa vive em mim

Quando penso na infância a primeira coisa que vem a minha mente é a casa que morava com minha família – eu meu pai, minha mãe, duas irmãs e quatro irmãos. Sempre desorganizada. Era uma casa bem versátil, verdade. Teve muitas caras, cores e jeitos. Os habitantes dos quartos iam mudando de acordo com o aumento da prole, ao longo dos quase vinte e dois anos em que vivemos lá. Rua Raul Leite, nº 20, casa 3 – fundos, que acessávamos por uma longa escadaria. Estava localizada num bairro bem eclético em termos da diversidade social que ali vivia. Tinha gente pobre, classe média baixa, classe alta metida a burguesa que se “esfolava” para se manter em tal posição e tinha gente abastada mesmo. Nós éramos os pobres, mas sempre agraciados por uma vizinhança muito amiga e gentil, em sua maioria. No geral, posso dizer que um lugar agradável!

Nossa casa tinha três quartos, um banheiro, duas salas, cozinha, uma área externa grande e um quintal com um pé enorme de jenipapo. Num lar com tantas crianças e quartos não muito espaçosos, é claro que os famosos beliches (de três e de dois andares) tornavam as acomodações bem mais funcionais, o que não significa necessariamente belas ou harmônicas. Vivi num ambiente sem nenhuma estética, onde nada combinava com nada, no que se refere a harmonia que a minha alma tanto necessita numa moradia. Sou libriana com ascendente leão e sol quase de casa IV no meu Mapa Astrológico. Traduzindo, isso significa que lar é santuário sagrado e que um cantinho gostoso é tudo de bom para a paz do meu espírito.

Meu pai era um eletricista profissional, trabalhava na antiga Companhia de Energia Elétrica da Bahia, hoje Coelba, e aquele velho adágio “casa de ferreiro, espeto de pau”, cabia perfeitamente na figura dele. Apesar de ser “o cara” na eletricidade, era um faz tudo em casa. Pintava parede, consertava canos, capinava o quintal, cozinhava, fazia feira, compras, forrava nossos livros da escola, amava minha mãe, mas era de uma desorganização alucinante. Vivia a bradar que “trabalhava sem deixar vestígios”, o que não correspondia a verdade dos fatos. Era bom no que fazia, um profissional muito solicitado por toda a vizinhança e elogiado por quem recebia os seus serviços. Mas, dentro de casa, não primava em nada pelo bom acabamento das instalações, deixando fios expostos, cacareco para todo lado, tubulações visíveis, caixa de ferramentas embaixo dos móveis. Pintava a casa e o chão ficava todo salpicado por meses a lembrar da “limpeza” das paredes de todo ano, sem nenhum primor nos retoques.

Minha mãe, por sua vez, era professora, mas acabou indo trabalhar como educadora em saúde, uma função que corresponde hoje em dia ao papel das nossas maravilhosas ACS – Agentes Comunitárias de Saúde. Era também auxiliar de enfermagem, o que a colocava numa exigente escala de trabalhos externos e infindável jornada de afazeres domésticos quando retornava. Tendo que dar conta de tantas coisas ao mesmo tempo, a beleza da casa não era mesmo a sua prioridade. Gostava da ordem, mas os dias eram naturalmente para bagunçar tudo e passar o final de semana arrumando o que dava.

Em síntese, vivíamos num lugar, em minha opinião, digno de “sobreviventes”.

Na medida em que íamos crescendo meu pai nos colocava numa tabela de tarefas. Meninos e meninas iam entrando na lista das obrigações domésticos, inicialmente de forma igualitária, tipo: lavar pratos, por a mesa, encerar a casa, limpar o quintal…. Mas, o machismo estrutural estava presente para subalternizar as fêmeas da casa, o que nos fazia sempre trabalhar mais e ao macharal, reservado sempre mais tempo para a delicia dos momentos de brincadeiras, diversão e rua.

Eventualmente tínhamos alguém que vinha na função de “diarista” para ajudar na faxina e também uma lavadeira que semanalmente levava as trouxas de roupas sujas da casa para lavar fora… Como mais velha das mulheres, fui sendo encarregada do “rol das roupas” que iam para lavagem, e também outras tarefinhas, como tomar conta dos irmãos menores, varrer, forrar cama, passar as manhãs de sábado com minha mãe tratando carne, preparando comida da semana, e no final de tudo passar a tarde arrumando a cozinha e o resto da casa, numa rotina cansativa, chata e infindável.

É claro que eu amava a escola e odiava os sábados e feriados. Naquela época cristalizei a casa como um local de sacrifícios, de trabalhos forçados e reprodução de desigualdades. Mas, até os 17 anos assumi a incumbência silenciosa de deixar aquela casa “bonita” como podia, mesmo estando longe daquilo que a minha alma tanto queria. De verdade, nunca consegui… Então, fui colocando a nossa casa no lugar de simplesmente “nossa casa”, a base de tudo que pude receber e, ponto. Fui sossegando meu coração e, mais ou menos nessa idade, comecei a sentir a necessidade de buscar minha própria casa, meu lugar de ordem, silêncio e beleza…

Um desafio tal busca, que me parece ter se tornado existencial. Minha casa interior passou a ser com o tempo, o lugar que até hoje tento ordenar. A melhor casa que pude conhecer a cada tempo, desde que tomei consciência de que está tudo dentro de nós. Arrumar as desordens, silenciar os barulhos e desarmonias foi me aproximando de verdade do melhor lugar do mundo para viver, a casa que carrego onde vou… Aqui dentro de mim. E fora de mim, cada vez menos canto para organizar…

Brilhar os dias

Já ficou magoada(o), chateada(o) ou emburrada(o), um dia inteiro por um  fato ocorrido no trânsito ou por um tom de voz mais elevado em um momento de discussão, por um “bom dia” que não lhe deram ou um “olhar mau olhado” de alguém? Pois é… quando isso ocorre, já imaginou o poder que dá, assim, de presente, a outra pessoa que às vezes você nem conhece, talvez nunca mais veja na vida, ou mesmo que seja alguém conhecido, mas que de repente, acaba por dar uma super importância, ao tirar o seu bom humor, sua disposição? Esteja atenta(o) para essas armadilhas da comunicação e previna-se. Nunca esqueci do filme “O Homem Milagre”, que tem uma frase que diz o seguinte: “SNIOP”, ou seja: “Salve-se das Nefastas Influências de Outras Pessoas”. É importante sim, nos esforçarmos para manter o devido controle emocional, serenidade e procurar nos proteger do baixo astral solto por aí. Um dos aspectos mais importantes da capacidade de comunicar de uma pessoa é a energia que flui sutilmente da voz, do corpo, das palavras, de gestos, olhares. O corpo fala o mal também. Tudo é expressão. Claro que existe tristeza, vontade de silêncio, solitude… Mas, nada disso precisa ser agressivo para com os outros. Quão agradável, potente e transformadora pode ser a vibração de alegria, otimismo, bom humor e tolerância, mesmo diante dos desafios da vida. Quando conseguimos isso, mais que comunicar, irradiamos luz, boa energia que ajuda a brilhar os dias.

Hoje, o que é de hoje

“A Carta do Dia” é uma coletânea de textos curtos com mensagens de minha autoria, publicadas diariamente no Caderno Buchicho do Jornal o Povo, entre os anos de 2003 e 2015. Nesses tempos de isolamento e novas escritas, as gavetas da memória abriram e deu vontade de rever e compartilhar com #lugarartevistas esses anos de afetos e muita gratidão, graças a escrita… #acartadodia

Para que esquentar a cabeça com coisas que não se pode resolver exatamente agora e do jeito que se quer? Todo problema tem uma solução que aparece sempre, dentro do seu tempo e ritmo. O que precisamos é aprender a confiar e relaxar para sentir o desenrolar das situações de forma menos estressada, complicada, mais confiante. Quando o stress domina e a pessoa saí do seu centramento, tornam-se maiores as chances de meter os pés pelas mãos, fazer besteira, dizer o que não deve, de discutir, alimentar mais a ansiedade. E com isso tornar-se mais vulnerável a atrair outras complicações, tipo doenças, negatividade e entrar no baixo astral. Quando não compreendemos a nós mesmos, tendemos ao mesmo comportamento com os outros. Diante dos desafios da vida é importante também o auto-respeito, mais tolerância, ser humilde, sem impor-se julgamentos nem culpas, aprender a se perdoar antes de qualquer coisa e jamais esquecer de cuidar de si, das próprias emoções e sentimentos. Boas saídas podem estar também nas coisas simples, na leveza que leva a certeza de que tudo começa e acaba dento de nós.

A CARTA DO DIA, 23/11/14

No devido tempo

“A Carta do Dia” é uma coletânea de textos curtos com mensagens de minha autoria, publicadas diariamente no Caderno Buchicho do Jornal o Povo, entre os anos de 2003 e 2015. Nesses tempos de isolamento e novas escritas, as gavetas da memória abriram e deu vontade de rever e compartilhar com #lugarartevistas esses anos de afetos e muita gratidão, graças a escrita… #acartadodia

Transformação profunda é mais do que a mudança de circunstância da vida, ela se realiza em nosso coração e em nossa alma, como um despertar do sono da inconsciência. Nem sempre é necessário mudar de lugar, fundamental é sempre a abertura para nos permitir a mudança. Quando seguimos o fluxo da energia e da força vital, a transformação acontece como que por si mesma. No entanto, não há receita de como fazer para se abrir, tendo em vista não ser apenas uma resolução do racional. A transformação pode ser iniciada por um acontecimento externo, mas, fundamentalmente se concretiza é dentro de nós. A verdadeira mudança vem de dentro. Quando permitimos à energia fluir livremente através de nós, pode dissolver velhos hábitos de pensamentos, sentimentos, padrões… Tudo no seu devido tempo. Quando renunciamos a nossas escoras, de modo a ouvir a guiança do coração, então tudo tem mais chances de ganho: já não há medo, já não há perigo… simplesmente as coisas acontecem…

A CARTA DO DIA – 22-11-14