Comunicação não falada

Anos atrás, lá no período de universidade, compreendi a enorme importância que é, para uma pessoa surda, comunicar-se com o mundo. Não só com outros indivíduos da comunidade surda, mas também com professores, atendentes do comércio, para pedir informações na rua e em outras situações da vida em sociedade.

Como interessado que sou, sempre me encanto quando o assunto é aprender a usar a linguagem para comunicar. Não foi diferente quando tive o prazer de aprender um pouco da língua brasileira de sinais durante um semestre. Imagina aí: não é português, essa idioma que nós ouvintes desenvolvemos e aprendemos a falar ao longo da infância. É uma coisa totalmente nova, diferente e especial.

Provavelmente você nunca irá conversar com uma pessoa surda, mas, se acontecer uma situação em que para ajudar tal pessoa seja uma precisão, você poderia ajudar?

Foi o que me perguntei, recentemente, quando precisei me comunicar com a Larissa Nara. Certo dia ela apareceu no meu trabalho e foi aí que tive a honra de conhecê-la. Logo no primeiro contato pude perceber sua alegria ao ver que, mesmo pouco, eu conseguia compreendê-la e assim ajudá-la. Hoje, depois de alguns encontros, sinto já ter uma nova amizade em Quixadá.

Com o desenrolar das conversas que seguiram pedi permissão para fazer algumas perguntas sobre sua vida pessoal para escrever um pouco. Tive a permissão, e suas respostas revelam uma realidade que todos deveriam conhecer.

Larissa me contou que sofre com ansiedade e depressão. Uma situação bem triste pois, como ela me disse, tem poucos amigos para conversar, e sua família não sabe usar a LIBRAS.

Imagina só que difícil. Para nós, que vivemos a vida toda desabafando aos amigos e parentes sobre nossas dores, conflitos, problemas e angústias é quase inimaginável um cenário onde não há pessoas do seu círculo íntimo ou até mesmo profissional que possam lhe acolher ou ser apenas um “ouvido” para desabafar.

Quase ninguém pensa nessas questões. É o que percebo, como ouvinte. Estamos tão confortáveis com nossas vidas, de certo modo, que não pensamos que pessoas com deficiência, como a surdez, passam por problemas tão semelhantes aos nossos no campo familiar, social e profissional e que para elas as possibilidades de redes de apoio são muito mais limitadas.

Este texto é um desabafo e um manifesto ao mesmo tempo. Minha intenção é que quem me leia sensibilize-se quanto a este assunto e procure aprender pelo menos o básico de LIBRAS, para que um dia possa ser um fio de luz, de alegria e de esperança na vida de alguém que muitas vezes é ignorado, marginalizado e excluído por ter uma condição de vida diferente.

A vida de uma pessoa surda em uma sociedade como a nossa ainda é difícil. Pouquíssimas pessoas têm interesse em aprender e instituições dão pouco ou nenhum estímulo para formar seus colaboradores no uso da linguagem de sinais.

A verdade é que a vida de uma pessoa surda não tem que ser entediante, frustrante, triste e pesarosa. Nossa sociedade só estará plenamente evoluída quando nossos governos entenderem que LIBRAS é/deveria ser um componente importante para o currículo escolar desde as primeiras séries do ensino fundamental.

Precisamos enxergar a linguagem de sinais como ela realmente é, como qualquer idioma, rico, vivo, atraente, curioso, instigante, lúdico, dinâmico e cheio de historicidade. Entender que aprender pode transformar vidas e, quando se trata de aprender para incluir, faz muito mais sentido.

Pessoalmente, sempre considerei sensacional a possibilidade de me comunicar com e fazer parte de várias tribos/comunidades. A diversidade na cultura enriquece qualquer um que ouse entender e/ou fazer parte. Na comunicação por meio dos sinais o uso das expressões corporais são essenciais e é simplesmente lindo de se ver, na minha visão de mundo.

Apesar de não ser fácil para as pessoas com deficiências em geral, a vida merece ser valorizada e cuidada por todas as pessoas.

Viva a linguagem de sinais!

Uma receita de pão

Nesse domingo compartilho com vocês aqui uma receita bem básica de pão. Segue os passos e me diz depois se deu certo.

Receita para 1kg de farinha de trigo – 3 pães médios de cerca de 600g cada:

▪︎ 700ml de água fria ou gelada

▪︎ 20g (1 colher de sopa) de sal

▪︎ 75g  (5 colheres de sopa) de açúcar

▪︎ 60g (4 colheres de sopa) de óleo

▪︎ 8g   (80% do pacote de 10g) de fermento biológico seco

MODO DE PREPARO

▪︎ primeiro de tudo: peneira-se a farinha de trigo para garantir que está boa;
▪︎ dissolve-se bem na água o açúcar e o sal;
▪︎ despeja-se de uma só vez o líquido na farinha peneirada – agora, adiciona-se grãos a gosto;

▪︎ mistura-se até não ter mais farinha seca – não precisa mexer muito agora;
▪︎ descansa-se essa massa por pelo menos 60min, pode ser na geladeira, bem protegida, tampada;
▪︎ após isso, adiciona-se o óleo e em seguida o fermento biológico hidratado até um ponto de pasta: – cuidado: conte as gotas de água para não molhar de mais.
▪︎ dobra-se a massa sobre ela mesma repetidamente com as mãos para incorporar a mistura do fermento;

▪︎ delicadamente modela-se os pães e os coloca nas formas para crescer;
▪︎ por volta de 45min observa-se o crescimento dos pães em forma para ligar o forno  e aquecê-lo a 200°C no mínimo.

espera-se esfriar/amornar um pouco antes de desenformar os pães.

cobre-se pães com um pano limpo e pouco úmido enquanto esfriam;

Vida e trabalho

“Um homem se humilha

Se castram seus sonhos

Seu sonho é sua vida

E a vida é trabalho

E sem o seu trabalho

Um homem não tem honra

E sem a sua honra

Se morre, se mata

Não dá pra ser feliz”

Guerreiro Menino – Gonzaguinha

De fato, tudo que nos faz refletir de maneira mais profunda está diretamente ligado a nossa vida real, nosso dia a dia. Cada acontecimento pode ser um gatilho para uma porção de ideias. Criamos um mundo na mente que, antes de ser imaginado, também é resultado da realidade, resultado de tudo que verdadeiramente existe. É da condição humana ser pensante. É o que nos difere dos demais animais, dizem.

Tenho pensado ultimamente sobre trabalho, emprego e vida; o trabalho é uma condição indissociável da vida. Se há  vida, há trabalho, sempre existiu. Já com a invenção do emprego, passamos a gastar nosso tempo de vida com tarefas a serem cumpridas, horas marcadas, alarmes, cronogramas, rotinas etc. E a vida, é pra ser vivida. 

Desde pequeno fui iniciado aos trabalhos dentro e fora de casa. Isso, sem dúvida, tem influência, hoje, na minha  disposição e aptidão à uma série de serviços. Gostar de fazer, e fazer bem feito é o resultado das cobranças dos adultos ao meu redor, naquela época, para que eu fizesse bem feita toda e qualquer atividade que me atribuíam. 

De modo geral sou grato por, desde a infância, ter tido tantas oportunidades e experiências que me fizeram ser quem sou hoje: um trabalhador nato. A vida sem movimento nunca fez sentido para mim. Mas, por outro lado, reconheço a necessidade e importância dos momentos de ócio. Respeito, sempre que posso, meus limites. Busco equilíbrio em tudo. Afinal, sempre acreditei na vida baseada em movimento e equilíbrio. Aproveitando o gancho, isso é a perfeita analogia à patinação ou ao ciclismo e tantos outros esportes que precisam dessa combinação para acontecer.

Muitos afirmam que vida e trabalho são a mesma coisa. Na verdade, acredito que viver dá um tanto de trabalho. Para viver, em nossas sociedades modernas, temos a necessidade de trabalhar num emprego, para, em troca, conseguir manter um padrão de vida confortável e com dignidade básica. Nada além do que deveria ser garantido a qualquer ser humano desde o nascimento. Aí vem ao pensamento os muitos trabalhadores com difíceis condições de trabalho, as irregularidades e desigualdades que fazem uns serem mais explorados que outros.

É bastante utópico pensar que pode existir o fim do trabalho/emprego como conhecemos. Existem indícios lógicos e evidentes de que pode acontecer uma significativa diminuição no número de vagas de emprego, principalmente devido a evolução tecnológica. Assim tem sido com a substituição gradual dos seres humanos por máquinas e inteligências artificiais. Não é de hoje que observa-se e sabe-se disso.

Mas como poderemos superar essas previsões? Trata-se de uma questão de planejamento de políticas públicas? – provavelmente. Nosso planeta é rico em recursos que, na maioria das vezes, são desperdiçados: matéria-prima e alimentos. E o planejamento não poderia ajudar a evitar desperdícios? – sem dúvida! O básico sempre será alimentação e moradia. Com isso resolvido o resto flui. Agora, o mais difícil será abolir os interesses da minoria que controla o poder e usa isso para exploração e lucro. Acredito e tenho uma forte esperança de que a humanidade caminha para a resolução de grandes questões como essas. É o que eu quero, um dos mais profundos desejos meus.

Sempre existiu desproporcionalidade entre pessoas e vagas de emprego. Os que estão fora das estatísticas do desemprego são, infelizmente, sortudos. Do contrário, seriam infelizes por não poder ter uma vida minimamente aceitável. Os tradicionalistas, mentes fechadas, podem achar uma tremenda besteira, mas a verdade é que é difícil fugir da alienação que o capitalismo sempre nos causou.

Fica fácil perceber o porquê de muitos trabalhadores permanecerem “presos” em seus empregos. É quase uma obrigação, um dever. Existe tensão e pressão para conseguir pagar os boletos e por mais injusto, ilegal, irregular, exploratório e nocivo à saúde física e mental, ter um emprego garantido, parece que sempre será a alternativa menos pior.

Sonho com uma grande mudança de valores, éticos e morais, desde as bases do sistema. Espero que possamos garantir nossas liberdades individuais, desejos, conforto, momentos de descanso, lazer, prazer e trabalhos, sem necessariamente submeter-nos ao apagamento/esquecimento do nosso verdadeiro lado animal, humano, que é o estado de desfrute da vida em contato com a natureza.

Ao passo que é no mínimo preocupante pensar sobre isso tudo, é preciso ao mesmo tempo tentar acalmar a mente e buscar aquele famoso equilíbrio através  de alternativas criativas e outras coisas que nos ajudam a suportar. Isso evitará uma crise existencial gerada por uma causa que não tem nem previsão para solução. Tipo: aceita que dói menos. Aqui, no final, deixo escapar risos.

Histórias da infância

De início não é fácil lembrar as histórias da infância, mas, com um pouco de esforço e paciência, percebo que consigo retroceder e (d)escrever os detalhes do meu passado. Boas lembranças de um tempo bom em que fui muito feliz e aproveitei bastante a vida no meio do mato, lá na comunidade chamada Barreiras Branca, zona rural do município Choró. 

Fecho os olhos com a intenção de enxergar o passado mais distante que possa ver. Lá está a imagem de quando tinha por volta de três anos: meu avô materno havia amarrado a vaca-leiteira no mourão da cerca e minha irmã e eu éramos acordados muito cedo, talvez às 5h30 da manhã, para tomar um copo generoso do leite ordenhado naquele mesmo instante. Hoje eu não teria essa disposição; e talvez nem tivesse naquele tempo, isso porquê era uma imposição e não uma opção.

Lembro que quando fomos morar no sertão, depois da separação dos meus pais, meu pai tratou de resolver a moradia. Construiu, ele mesmo, com a ajuda de alguns parentes, uma casinha de taipa de dois cômodos. Consigo ver o relevo que as mãos deixaram na parede rebocada de barro molhado. Perto de casa, de onde foi retirado o barro, formou-se o barreiro, onde, por alguns anos, nos meses chuvosos, nos divertíamos em banhos e brincadeiras. De lá também era retirada a água para resolver os afazeres domésticos. Éramos proibidos de banhar no barreiro antes de ter separado a água para o banho e/ou para lavagem de roupa. O motivo é que a água quando calma ficava assentada, limpa para os usos, e, com os banhos, com a agitação, ficava baldeada e suja. 

Crianças criadas na roça fazem sempre alguns trabalhos para ajudar, mesmo que mínima e proporcionalmente. Comigo não foi diferente. Os adultos tinham suas funções de grande responsabilidade e para nós sobravam tarefas pequenas e simples que me davam, na maioria das vezes, a sensação de prazer em fazer. Naturalmente os pequenos tendem a imitar os adultos ao seu redor. Assim, quando miúdo, debulhava e engarrafava grãos de milho e feijão para guardar, tirava a semente do algodão, tangia os bichos para beber água no açude ou no rio, pisava o milho com pedra polida para transformar em xerém, para alimentar os pintinhos, colhia lenha para o fogão, entre outros pequenos serviços possíveis para o meu porte de menino.

Quando muito jovem, tinha encantamento e felicidade nisso tudo. E, com o passar dos anos, as atividades deixaram de ser tão prazerosas e se tornaram obrigações. Via o tempo do trabalho como desperdiçado, pois me tirava a possibilidade de brincar mais. Por outro lado, sempre tive apoio, incentivo e estímulo para os estudos. Tinha trabalho, mas também tinha brincadeira e aprendizado em tudo. Ter contato com as mais diversas experiências que uma vida pode proporcionar, desde o início, é um caminho incrível na formação de qualquer ser humano.
Considero uma enorme riqueza ter experienciado essas formas de crescer e de estar em contato com o mundo real, de ter responsabilidades dadas, entregues e assumidas e a noção da importância de lutar por meus direitos. O grande poeta Manoel de Barros dizia: “Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.” Interpreto serem os detalhes da vida que fazem a própria vida ter sentido. Há sabedoria em tudo, basta estar atento e ser observador de tudo que acontece ao nosso redor.

A vida em Quixadá

Lugar dos sonhos de muitos aventureiros, como eu. Para quem estuda a nossa geografia, nossa geologia, nosso planeta, para os que voam livre, para os que buscam as altitudes e belas vistas para onde as trilhas levam, para escaladores sedentos por adrenalina, ciclistas amadores e profissionais e até patinadores, como eu, descobri que habitam por aqui.  Quixadá é o #lugar. Essa pequena grande cidade, localizada no meio do nosso Ceará, é atualmente meu lar e tem sido maravilhoso estar aqui.  

Se por um lado as cidades transmitem um certo pesar devido ao fato de serem, em sua concepção, um lugar onde se evidenciam as desigualdades, por outro, elas são lugares de diversidade e de possibilidades. Curtir a cidade como se ela fosse um grande parque de diversões é um sentimento indescritível. Só quem o faz sabe do que estou falando. Muitas cidades têm potencial para ser um parque ao ar livre, oferecendo aos indivíduos que nelas vivem opções para a prática de uma variedade de esportes e outras atividades de lazer.

Desde muito miúdo tenho parentes e amigos no município e, na infância, vivi algumas temporadas/semestres por aqui. Se para um “eu criança” tudo o que a vista conseguia alcançar neste #lugar já era fantástico, hoje, com vinte e sete anos, nada mudou aos meus olhos. Continuo encantado, sempre me deleitando com as belas paisagens naturais de Quixadá.  

Há cerca de seis meses cheguei aqui com a intenção de ficar uma temporada indefinida. Sempre me agradou a ideia de viver num lugar que me possibitasse a conexão com a natureza, que considero como uma das formas de conexão com o divino. A natureza como uma parte de tudo que existe é, sem dúvida, um dos maiores exemplos de que a vida não se resume à humanidade que habita o planeta Terra. Algo imensurável e inexplicável rege nossa existência. 

De volta à vida prática, durante a semana tenho produzido pães e, recentemente, me lancei como instrutor de patinação, fazendo jus ao ser multipotencial que sou, expandindo assim minhas possibilidades, meus fazeres. Além disso, trilhas a pé e treinos/passeios de bicicleta preenchem de muita contemplação os meus dias. E o que sem dúvidas não pode faltar na minha semana é a patinação. Patinar é uma das atividades que mais me renova o espírito. Uma dose essencial de vida para o meu corpo e mente. 

Além de tudo, Quixadá tem se mostrado como o melhor cenário até hoje para o meu negócio, o @PãodoJean. Sou grato por trabalhar com o que amo fazer. Grato por conquistar uma clientela que se mantém fiel, em constante expansão. Para além de ganhar meu sustento, quero mesmo é impactar a sociedade de forma positiva e nada mais digno do que a intenção de promover saúde através do alimento que produzo.  

Um pequeno negócio com aspirações grandiosas. Além dos pães integrais, os recheados e os de côco, tenho estudado outras duas receitas para disponibilizar no menu: já lançada e fazendo sucesso com a clientela, tenho feito uma deliciosa torta de banana chamada  banoffe, que consiste em uma base de biscoito crocante seguida de três camadas que formam a perfeita combinação entre sabores e texturas: (1) doce de leite caseiro, (2) bananas maduras e (3) chantily, também caseiro, feito do puro creme de leite fresco. Ainda não lançada oficialmente, outra receita que promete fazer sucesso no meu cardápio é o  pão de mel  com as especiarias cravo, canela e noz moscada que dão um sabor especial e super marcante; além de ser recheado com doce de leite e coberto com chocolate.  

Estar na cidade e, ao mesmo tempo, estar no interior, no sertão, que sempre foi meu lugar de origem, é uma sensação de estar verdadeiramente em casa. Não havia pensado que, ao longo de todos esses anos em que vivo, seria tão cativado por um lugar como estou sendo por Quixadá. Aqui tenho amigos e família muito próximos. E apesar de ter amigos-família em tantos cantos do mundo, sinto que estou conectado com estes de forma permanente, pois o que nos mantém unidos é muito forte e nada pode alterar essa lei.   

Sou profundamente grato por ser quem sou e por ter sempre tantas pessoas maravilhosas ao meu redor, em meus círculos, além de tantas coisas boas, verdadeiras bênçãos, me acontecendo. Apesar de serem tempos de lutos e de lutas mais severas que nunca na nossa história recente, anseio fortemente, depois que tudo isso se der por resolvido, pelos nossos [re]encontros, pelos nossos próximos abraços, pelos olhares nos olhos que fazem brilhar as vistas, pelas palavras fraternas que nos fazem querer viver para viver o amor.   

Deixo aqui um video mostrando um pouco disso tudo.

A vida em Quixadá

Pensando sobre pão no meu lugar

Pensar em pão é pensar também num universo de assuntos. Desde sua origem milenar, passando por sua importância social e cultural através dos tempos, até chegar no campo individual, onde nós somos privilegiados pelo desfrute dos prazeres palatares, olfativos e visuais. Fazer pão é delicioso e comer é ainda melhor.

Não experienciei na infância a cultura de fazer pão em casa, a não ser o regionalmente chamado “pão de milho”, também conhecido como cuscuz. Meu primeiro contato com fazer pão foi quando estive em São Paulo, já com vinte e poucos anos de idade. Assim foi: numa ocasião familiar assisti o cunhado do meu irmão, padeiro experiente, na condução de uma receita. Foi lá, em 2014, que me identifiquei com o ofício. Desde então foram algumas tentativas frustradas, estudo, tentativas bem sucedidas, pesquisas e mais experimentos até chegar no #lugar onde estou, na cozinha, durante a maior parte dos meus dias.

Um tempo depois, já em 2015, ingressei na faculdade em Fortaleza. Logo comecei a procurar empregos para me manter e estudar. Essa busca não demorou muito, pois as amigas com quem dividi morada, Diná e Carol, me incentivaram a fazer os pães para venda. Foi aí que tudo começou e dei início ao meu negócio, o @paodojean. Foi fundamental ter incentivo e apoio dos amigos nesse início de jornada, pessoas maravilhosas. Sou muito grato ao Uirá e à Geciola também pelo apoio que me deram no começo. E tantos outros amigos.

Pessoalmente falando, no que diz respeito aos saberes e fazeres, percebo que nos tornamos cada vez melhores em uma determinada função, ação ou habilidade a medida que ficamos bons em outras – é diretamente proporcional. É como acredito que funciona o universo: as coisas levam a outras coisas. Fazer pão, como exemplo, me faz melhorar em outras áreas da vida. É como uma engrenagem que quando uma peça se move as outras partes se movem junto. Às vezes tudo que precisamos é fazer alguma coisa boa para alguem ou, principalmente, para nós mesmos.

Colocando os pés na atualidade, sabemos que têm sido tempos tão difíceis que às vezes é melhor se perder em pensamentos nostálgicos que remetem a momentos agradáveis. Neste período pandêmico teve quem aproveitou para aprender e fazer seus próprios pães em casa. Isso é realmente bom! Fico contente demais em ver tanto conhecimento sendo compartilhado por tantas pessoas boas na internet. Cito aqui em especial a grandiosa professora Nanda Benitez, quem me proporcionou um “divisor de águas” no meu processo pessoal.

Quando falo de conhecimentos me vem a reflexão sobre educação. Reflexão de que uma boa escola deveria ter uma disciplina sobre saúde básica, que necessariamente fale sobre alimentação saudável, sobre como preparar alimentos, mostrar que nós somos o que comemos, que a saúde começa pela alimentação. Mas é triste que isso seja, por enquanto, um sonho meio distante, pois sei que ainda é um privilégio para alguns ter acesso a conhecimento útil, acesso a comer bem, comer saudável ou simplesmente comer.

É difícil falar somente das coisas boas da vida e ignorar as mazelas que nos rodeiam. Mas é preciso equilíbrio em tudo nessa vida. Equilíbrio e movimento é o que mantém a vida viva.

Assim, movendo o pensamento para o meu #lugar atual, quero aproveitar para citar uma querida amiga e parceira de ofício aqui em Quixadá. Marta, além educadora no Museu da cidade, fabrica artesanalmente os saborosos e saudáveis pães da Marta. Ela tem muito conhecimento e oferece qualidade, pois além de usar bons ingredientes, faz o processo de fermentação lenta em seus pães. Esse processo faz a diferença nos pães. Além de tornar a massa mais saudável, de fácil digestão pelo organismo de baixo índice glicêmico e glúten.

Por fim, gostaria de convidar todos a acompanhar uma transmissão ao vivo promovida pelo Instituto Antônio Conselheiro, de Quixeramobim, junto com a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), que estão promovendo um “ciclo formativo virtual” através do Projeto Cuidar da Vida no Semiárido. Nesta ocasião, que será transmitida através do canal no YouTube do IAC, Marta é convidada para falar sobre o tema Memórias afetivas das nossas comidas de verdade. Marta me convidou também para essa conversa. Espero vocês lá.

Abraços.

Histórias de infância

Sem dúvidas a infância é onde construímos a base de tudo que vivemos e que ainda vamos viver ao longo das fases da vida. É nesse #lugar que se desenham descobertas, percepções, sentidos, desejos, gostos e visões de mundo. E eu tive a sorte grande de ter tido vivências satisfatórias, empolgantes, estimulantes, diversas e principalmente felizes. Tento sempre recordar as histórias que vivi, e mesmo com um pouco de dificuldade lembro-me de um tanto delas.

Agrada-me narrar minha trajetória pessoal, pois percebo nisso uma forma de autoconhecimento, além de assim permitir ser melhor conhecido pelos meus velhos e novos amigos. Quero ser narrador da minha história, contar para eu mesmo, e por consequência para os outros, do quê sou feito.

Mais novo de três irmãos, nasci em Caucaia, onde nunca morei. Até os dois anos morei na periferia em Fortaleza. Após a separação dos meus pais, meu núcleo familiar se desfez inevitavelmente. Fui morar com parentes (tias, tios, avôs e avós) em Choró e por vezes (semestres) em Quixadá. Aqui percebo que desde pequeno estive em movimento de migração.

Reflito sobre isso hoje com superação, sei que tive uma boa infância, uma rede familiar cuidadosa, amigos presentes e educadores extraordinários. Criado no sertão: em contato direto com a natureza, brincadeiras diversas, banhos de chuva e de açude, além de importantes introduções a trabalhos braçais e manuais como cultivar a terra, plantar, colher, debulhar espigas de milho, vagens de feijão maduro e até algodão.

Embora avalie que tive bons tempos na infância, não posso descartar a infeliz realidade da seca, do semiárido. A dificuldade de se conseguir e armazenar água para beber e banhar em extensos períodos sem chuva. Lembro bem da minha pouca coragem de montar o jumento com o aparato de cangalha e canecas para buscar água nos açudes consideravelmente distantes de casa. Ia com minha avó para assumir a função de segurar o funil na “boca” das canecas. Vovó ia a pé e eu montado no jumento sentindo pena do bichinho por ter que carregar tanto peso quase diariamente com aquela típica mansidão. 

Sinto saudade daquele tempo, daquela comunidade pacata, de sotaque forte, do dialeto com entonação e ritmo tão específico do interior desse nosso Cearázão.

E como é bom saber que são também dessas experiências que sou formado. Hoje me enxergo um pouco de tudo que vivi na infância: meus medos, traumas, tristezas, perdas, ganhos, alegrias, liberdades, aprendizados. Narrar isso me faz lembrar da minha essência enquanto ser social e me faz querer ser melhor e melhorar o mundo ao meu redor. Essa consciência me mostra a importância de cuidarmos bem das nossas crianças agora e sempre.

#2 Refletindo a realidade

Por Jean Jackson

Imaginamos coisas que, se escrevêssemos, dariam páginas. E eu penso: como conseguir manter a mente positiva mesmo vivendo um absurdo atrás do outro? São muitas histórias que nos atravessam pesarosamente. Porquê tem que ser assim? Pode haver significado, propósito ou razão? São questionamentos sociais e filosóficos de respostas complexas. São questões profundas demais para tentar solucionar individualmente. Mas o que fazer para sobreviver, continuar vivo, não perder a vontade de estar vivo?

O que é real para cada um é antes de tudo a percepção pessoal e individual de realidade. É o que conseguimos capturar pelos nossos sentidos. Podemos sentir pelo outro, porém não passará disso: nosso sentimento sempre em relação ao outro, mas nunca igual, nunca o mesmo. Salvo quando se está vivendo junto a mesma realidade. É por isso que é difícil colocar-se no lugar do próximo. Quem sente na pele é quem sabe o quanto dói. 

É triste perceber que na maioria das sociedades naturalizou-se a separação de indivíduos da mesma espécie por gêneros, etnias, classes e crenças. É o humano sem humanidade. É a ausência de interesse em lembrar e cuidar dos esquecidos. Vidas dadas como irrelevantes. Pessoas que sempre sofreram, ainda sofrem e sofrerão com a falta de dignidade e de qualidade de viver.

No fim, de um jeito ou de outro, como todo animal, superamos os pesares do viver, sejam eles naturais ou causados pelo próprio ser humano. Aperta o peito e entala a garganta estar ciente da responsabilidade de uma parte dos seres humanos pela manutenção das desigualdades e destruição do planeta. Nossa própria destruição como parte desse imensurável universo, enquanto unidade. 

É necessário se agarrar nas artes, na natureza, nos esportes, nos amigos, na família, nos amores e nas paixões para ajudar a conseguir seguir. É fundamental não se deixar pensar demais nisso tudo sem agir com autocuidado. Cuidar-se é um ato de resistência. Cuidar do próximo é um ato de amor.

Como é bom estar aqui

Eis meu primeiro texto neste lugar tão especial que é o #LugarArtevistas. Agradeço a amada Roberta Bonfim pelo convite. Aceitei com muito gosto, o mesmo gosto que tenho pela escrita. Escrever é verdadeira e essencialmente importante. É uma da muitas artes que dominamos. É uma ação que, percebo, me instiga a dizer sempre muito mais e melhor o que falaria normalmente numa conversa ou em outras situações que envolvem a oralidade. 

Mas, para começar, quem sou eu, né? – Sou o Jean Jackson. Não considero fácil apresentar-me. Ultimamente tenho dito que sou padeiro/cozinheiro por vocação e paixão, professor de inglês por formação e patinador por amor ou vício. Mas não me resumo a essas categorias apenas. Sou educador, produtor, linguista, aventureiro, artista, ArteVista.

Antes de tudo, considero-me um ser. Um vivente neste planeta, aprendiz de tudo. Meus interesses estão além do que conheço. O desconhecido, o novo, me causa a vontade natural de conhecer e entender. 

Escrever sempre foi do meu agrado. Dissertações, cartas, bilhetes, listas ou planos. Sempre fui de escrever. Gosto muito do que disse o grandioso e admirável Graciliano Ramos em uma carta à sua irmã Marili. Para ele “só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso, não há nada”. E, de fato, a vida é o que acontece ao nosso redor todos os dias. É o que nos faz pensar, imaginar, inventar, sonhar, criar e fazer acontecer.  

Aqui, doravante, me dedicarei em compartilhar meu livre pensar, reflexões sobre tudo que me “atravessa”. A essência dos meus textos é a minha realidade, outras realidades, minhas ideias e ideais, meus sonhos, meus desejos. Por fim, quero ainda dar dicas de receitas, explorar curiosidades sobre linguagem, contar das minhas aventuras sobre rodas, indicar livros, filmes, séries e tudo mais que me convém. 

Muito bom estar aqui.