Entrando no mundo das letras e números

Eu pisquei e chegou o dia de o Tom começar na escola. Assim mesmo, um piscar de olhos. Eu, que ainda me flagro incrédula diante dele, que não consigo entender como meu bb já está desse tamanho, nem como ele faz e diz e mostra tudo o que ele faz, diz e mostra, me vi emocionada, mãos dadas com ele, levando-o ao primeiro lugar em que vai existir longe de mim. Ao lugar em que ele vai interagir olhando as pessoas de frente, e não erguendo o pescoço.

As vivências que antecederam esse momento trouxeram um misto de sensações: ansiedade, euforia, expectativa, alegria… e medo. Penso eu que o medo deve-se tão somente ao fato de meu filho iniciar sua vida escolar em meio a uma pandemia, decisão que carrega consigo uma responsabilidade enorme pelo que pode vir a ser. Mas como ‘a gente se ilude dizendo já não há mais coração’, há grandes chances de que o medo estivesse presente qualquer que fosse o contexto.

O julho foi todo expectativa e preparos: comprar uniforme, os materiais, organizar e etiquetar tudo, conversar com ele, tentando fazê-lo minimamente entender… Friozinho bom no estômago, que há tempos não sentia. Eu, amante dos livros e das letras e cria do ambiente escolar (lá fui aluna, cresci, aprendi e voltei para trabalhar), já imagino o Tom vivendo ali boa parte de suas melhores experiências.

E assim fomos, em nosso primeiro dia! Aquele 2 de agosto, dia do meu natalício, dia que sempre foi só meu, transformou-se magicamente no primeiro dia de aula do Tom. Nada me faz sentir mais mãe do que os momentos em que me esqueço e despeço-me de mim para dar lugar ao meu filho e, não por acaso, meus dois aniversários desde que ele nasceu deram lugar a alguma nova gracinha, palavra ou experiência dele.

Os primeiros dias não têm sido fáceis! Muito choro, conversas, tentativas… Mas é também muito prazeroso vê-lo entender que, agora, aquele universo faz parte da sua rotina. É lindo vê-lo explorar cada canto do espaço e chamar o nome dos coleguinhas: ‘Nham’ (Ian), ‘I-da’ (Davi), ‘Au’ (Álvaro). É de encher o olho d’água quando ele pega a mochilinha e convoca: ‘tudá!’. É emocionante vê-lo dizer que o melhor do dia foi brincar na areia (‘êia’) e ver a tartaruga (‘tatá’). Tudo naquele idioma que só os pais compreendem.

Meu passarinho tá alçando voo! Eu só peço às deusas sabedoria, paciência e discernimento para ensiná-lo a voar e dar-lhe norte sem no entanto podar suas asas. Voa, meu Tom, que teu colo-ninho está sempre aqui, pronto pra ser sempre teu pouso ou tua morada.

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano e meio

Tom brincando na ‘êia’, em seu primeiro dia de aula ❤

Sobre esperança: de vacinas a pessoas melhores

1 ano e 5 meses. Tomtom se aproxima dessa marca e, por aqui, muitas novidades e coisas boas acontecendo. A começar pela tão esperada, desejada e precisada vacina. Depois de mais de ano, a gente se pega voltando a fazer planos, voltando a ter esperança! Poder rever a família  (ainda com cuidados, distância e máscara. Sim!! Não caiamos na falácia de que ela não é necessária. Não há, ainda, vacina ou contaminação anterior que dispense seu uso) é um alento em tempos de tantas saudades e incertezas. Nos passeios pelas redes sociais, os lutos, lamentos e pesares dão lugar às agulhadas, sorrisos e – não menos importantes – protestos, o que renova o nosso fôlego e dá aquele quentinho no peito…

Nessa maré de esperança e possibilidades, meu bb começa, lentamente, a extrapolar as fronteiras de casa e explorar novos mundos: o jardim do prédio, as casas das vovós, a futura escolinha. Decidimos, William e eu, após muitas conversas, combinados e ponderações, iniciar Tomtom no mundo das letras e das ciências agora no segundo semestre. Estou em contagem regressiva e já explodindo de ansiedade! Escola sempre foi, para mim, espaço de alegrias, encontros e amizade. Tirando o tempo de faculdade, não consigo nem lembrar a minha vida longe de uma escola: saí de aluna a professora; da carteira para a lousa, mas nunca de lá de dentro, nem corpo nem cabeça nem coração.

Mas, voltando ao assunto, os novos mundos que se apresentam ao Tom não abrandam sua infinda curiosidade por conhecer e explorar cada cantinho da casa. Cada manchinha na parede, folha caída no chão ou artefatos do cotidiano são objetos de um rico e minucioso estudo. Texturas, cores, funções; tudo cabe no interesse desse Sherlock bebê. Ocorre que, além de exímio investigador, meu filho traz também habilidades de alpinista. Não existem obstáculos para o Tom, todo cantinho serve de apoio e impulso para chegar ao lugar almejado, sejam cadeiras, armários ou janelas. Aí, papai e mamãe que lutem para alcançar a rapidez e a agilidade do bb escalador. A palavra mais pronunciada aqui em casa atualmente é NÃO – inclusive por ele, que já começa a arte se autoadvertindo que não pode. Não pode! Na boca não! No sofá não! Não puxa a televisão! Tomada não é brinquedo!

Como todas as etapas atravessadas até aqui, fui atrás de ler um pouco e conhecer possíveis abordagens para orientá-lo. Sempre em busca de uma educação mais afetiva, confesso que me surpreendi com o quanto se condena o NÃO. O que mais encontrei foram maneiras de ‘camuflar’ esse não para os filhos, seja trocando-o por outras palavras, seja nas estratégias de ação. Exemplo: Se o filho não pode pular no sofá, não diga isso a ele, aponte um lugar onde ele pode pular: ‘Olha, filho, aqui é mais legal!’. Tenho me policiado pra não fazer da minha vivência parâmetro para todos os seres, como o fazem os injustificáveis defensores da palmada, mas, pra mim, o NÃO também é afeto. Criança precisa de limite, precisa de borda, isso é estruturante para elas. Não se trata de tudo proibir, nem do ‘não porque não’ (embora eu saiba que em algum momento vou me valer dele, ainda. rsrs), mas de conversar, explicar os porquês, orientar a criança. Trata-se de diálogo, paciência e educação. E educar, meus caros, faz-se com muitos mais NÃOS do que SINS. É cansativo, trabalhoso e diário.

Deparo-me rotineiramente com o quanto a falta do NÃO pode interferir no desenvolvimento de uma criança, desde a fragilidade e pouca resistência diante de frustrações à ausência do próprio entendimento do sentido dessa palavra. Não à toa, hoje temos que repetir exaustivamente e explicar a marmanjos, que nem filhos nossos são, que NÃO É NÃO! Com o Tom, eu faço questão de mostrar desde cedo: os limites do corpo do outro, dos espaços que não lhe pertencem, daquilo que pode lhe fazer mal. Sempre de forma dialogal e afetiva, acolhendo suas birras e frustrações.

Acredito que, assim, estou formando uma pessoa atenta ao mundo ao seu redor, empática às dores do outro. Acredito que esse bebê, que tão pouco transita pelo mundo e entre as gentes, quando puder fazê-lo, vai ser sempre de maneira cuidadosa e amorosa. Porque sim, pode ter muito amor no NÃO também.

Tom conhecendo a futura escolinha dele.

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano e 5 meses

Poematernar

400 dias do Tom

A cada dia sei mais disto:

Melhor definição de mãe

É padecer no paraíso

Não existe mar de rosas

Na real maternidade

Só entende quem enfrenta

Essa tal realidade

E não dá pra ter descanso,

É uma função vitalícia

Pela vida desfrutando

Ora dor, ora delícia

Muda a vida, tudo passa

A ser entrega, doação

O filho a tudo ocupa:

Corpo, mente, coração

Isso sem falar do tempo

Que não nos pertence mais

Dormir uma noite toda?

Acho que é pedir demais

Mas há frestas de momentos

Destas em que o tempo para

Ter o filho em seu colo

A isso nada se equipara

E ver o seu crescimento

A cada dia, passo a passo

Faz tudo valer a pena

E manda embora o cansaço

E senti-lo junto ao peito

O colo, o laço, o olhar

Nutrir com nossas entranhas

Que potência é amamentar!

Vê-lo crescendo e, aos poucos,

Menos precisar da gente

Quer andar, ganhar o mundo

Tornar-se independente

Cada passo ou palavra

Cada novo aprender

Traz-me todo o entendimento:

Pra isso é que quero viver

Pra seguir sempre ao teu lado

Sobre a vida te ensinar

E quando não for possível

Te ajudar a levantar

É um sentimento tão forte

Chega a doer, tão profundo

Tudo se torna clichê  

Frente ao maior amor do mundo.

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano

“Dormir no teu colo é tornar a nascer…”

Na minha existência A.T. (antes do Tom), não havia preocupação, problema, trabalho ou dor de cotovelo que valesse uma noite de sono. Sempre me admirei com insones, e me compadecia ao imaginá-los rolando na cama enquanto os ponteiros do relógio teimavam em correr. Questionava-me sobre como faziam para aguentar o amanhã, com suas urgências e novas preocupações e novos problemas e novos trabalhos e novas dores. Pra mim, não havia solução para qualquer coisa que houvesse, que não passasse pelo aconchego da minha cama.

                Hoje, na vida D.T. (depois do Tom), sigo resistindo, mesmo após 1 ano e 3 meses de pouco e picotado sono. Me surpreendo, também, com o quanto todo o nosso corpo se prepara e se transforma para gerar e acolher a cria – o que inclui acordar a cada mexida ou respirar mais profundo dela e sobreviver com pequenas e intervalados cochilos.

                Já ouvi relatos de bebês que desde pequerrotos engatam horas a fio abraçados a Morfeu, mas, definitivamente, dormir não é o forte do daqui de casa. Dizem que o gramado do vizinho é sempre mais verde; eu digo que o filho do vizinho é sempre mais sonolento. Desde os primeiros meses, ao tentar arrumar a rotina diária do Tom, as sonecas e o sono noturno foram as ações que mais se demoraram a organizar. Aos poucos, claro, as coisas foram melhorando, mas não ao ponto de nos possibilitar – a mim e a ele – um descanso ininterrupto, ou algo perto disso. Para completar, se durante o dia todos os cuidados com o Tom são justamente divididos entre mim e o pai, à noite o protagonista dessa história decide que só a minha companhia serve, possivelmente porque trago em mim a fonte de toda e qualquer solução para os seus probleminhas de bebê: o tetê da mamãe!

                Sigo resistindo e resistente, certa e feliz pela escolha que fiz pela livre demanda, mas carregando comigo toda a exaustão de 1 ano de privação de sono. Guerreira? Não, e nem faço conta desse rótulo. Apenas uma mulher (como tantas) atravessando os limites do seu corpo pelo bem da cria, buscando soluções e alternativas para conseguir continuar (como muitas) e que vai se corroer de culpa quando não mais conseguir (como todas!).

                Até quando conseguirei? Por quanto tempo pretendo amamentar? Não sei. Assim como todos ao redor, também me faço essas perguntas diariamente. Todos os dias penso em desistir, mas todos os dias escolho continuar, e assim seguiremos até quando for bom pra ele e possível pra mim. A ideia de não estabelecer meta e depois dobrar a meta tem funcionado até aqui e com ela que seguiremos. Sei que muito em breve sentirei falta do meu colo ser o melhor lugar do mundo para ele e das noites intermináveis sendo seu abrigo e alimento. A cada gota sorvida, sei que Tom é inundado de amor, aconchego, proteção e saúde, e isso é meu combustível, força e moeda que paga qualquer noite em claro.          

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano e 3 meses.

1 ano de nós

E assim, como num sopro, correu o primeiro ano. 366 dias e todos os clichês se confirmam: passou muuuito rápido, tudo vai gradualmente melhorando e se ajustando, sentimos saudades até do que não era bom! 

Não bastassem toda a loucura e a ambiguidade inerentes ao início da maternidade, 2020 mostrou a que veio e foi o ano mais louco e ambíguo de nossas vidas. Dentro de casa, segurança e saúde parcialmente asseguradas, a emoção da chegada do Tom e a alegria de acompanhá-lo crescer. Fora, o medo, as ausências, a vida que parou. Como tudo o que temos vivido nesses tempos pandêmicos, atravessar um puerpério e ser mãe de primeira viagem (ou de décima!) não foi nada fácil.

Mas conseguimos, e com louvor! Tomtom chega ao seu primeiro ano com pouco contato com o mundo externo e com as pessoas, mas, ao contrário do que imaginávamos, mostra-se curioso e receptivo com eles. Encanta-se com os bichos e plantas e reconhece toda a família, mundo que lhe é mostrado diariamente, nas fotos transmitidas na tv. 

Fazendo um retrospecto, vejo que temos muito a comemorar. Mês a mês, conseguimos driblar as dificuldades e nos conectar, apertando os nós que tornam o nós, um. Tomtom desenvolve-se bem e mostra-se um bb feliz, leve e ativo. A cada virada de mês (os picos e saltos dele são assim, reloginho), renova seu acervo de gracinhas e aprendizagens, nos dando a impressão de que chegou um novo neném ao virar a folhinha do calendário. Seguimos em livre demanda, o que me faz transbordar de alegria e orgulho (foi fácil não!!). Com 1 ano completo, não havia ainda enfrentado, até esta semana, grandes intempéries de saúde – coisa de bb que mama feat quarentena.

Assim, botando cada coisa de um lado da balança, nem consigo questionar ou lamentar o fato de que, após planejar e replanejar e desistir e voltar e insistir e ajustar, o 1º aniversário dele deu-se com poucas pessoas, todas devidamente distanciadas e mascaradas. A ausência sentida da família – em especial dos meus pais – é compensada pela certeza de que não há, nesses tempos, maior prova de amor do que estar ausente. A mesma certeza me sussurra que teremos muitos aniversários ainda por vir, e justamente por isso é que vale a pena que este seja assim.

Como alegria e bolo são bem dizer sinônimos, e ambos eram demasiadamente grandes para não partilhar, fizemos um tour pela vizinhança (amigos e família da nossa regional se deram benzão!) distribuindo felicidade em forma de baba de moça, doce de leite e brigadeiro. Foi lindo, foi amoroso, foi emocioante, foi a nossa festa, a festa possível.

Hoje, digo e repito: se eu já não acreditasse em algo maior – chamem deuses, energia ou universo – certamente a chegada do Tom teria mudado essa perspectiva. Me sinto tão feliz e abençoada por esse encontro, por ele ter me escolhido, em algum momento, lá atrás, que só posso crer numa mão divina atando esse laço, amarrando esse ‘nós’. Tom faz jus à graça com que foi nomeado: é cor, é música, é maestria! E se depois de tão grande presente ainda há algo que eu possa pedir à mão divina que nos amarrou, eu só pediria que ela conserve sua luz, sua alegria e sua saúde de bb solar. E que essa vacina chegue logo a todos, para que possamos, no seu próximo aniversário, abraçar, rolar no chão e lamber os dedos sujos de glacê, para ser completo o comemorar. Feliz vida, meu Tom!   

  

Tom faz 1 ano

Para ouvir: Cria, da Maria Rita

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano

Então é Natal

2020, para o alívio de muita gente, chega ao fim. Não preciso conhecer cada pessoa, cada história em particular, para afirmar que o ano que finda foi o mais difícil das nossas vidas. Um ano permeado de saudades, distâncias, incertezas e muitas perdas – sentimentos que afloram ainda mais forte em tempos de Natal, uma festa que divide opiniões: muitas pessoas o têm como época de encontro e fraternização, mas há quem se sinta mais tomado pela melancolia da data do que por qualquer outra coisa.

Eu sou team Natal. Gosto de tudo que envolve a data, do reencontro com parentes de outras terras à uva passa no arroz. Por mim, muitas das coisas que vemos no Natal perdurariam pelo ano todinho: as luzes que enfeitam a cidade, o espírito de solidariedade e mais amor ao próximo, a esperança que nos invade com a chegada de um novo ano. Este ano, porém, como tudo o que vivemos ao longo dele, o sentimento é diferente. Caminhando lado a lado, mãos dadas, o desejo de encerrar este ano junto dos nossos e o medo de adoecer ou, pior, adoecer aqueles a quem amamos. Tempos duros esses em que o gostar  nos impele para longe, em que mostra de amor e cuidado é o avesso da presença, do toque.   

Esse sentimento que ora me invade é o dono dos meus pensamentos, determina todas as minhas ações, permeia a minha (ausência de) escrita. O primeiro Natal do Tom – como todas os seus primeiros até então – será privado de convívio, de interações, de afagos para além dos nossos, seus pais. Eu, fruto de uma família imensa, na qual a chegada de uma criança a todos encanta e mobiliza, sobrevivi ao desafio de enfrentar o primeiro ano de um bb (com todos os desafios que isso traz) em situação de confinamento (com todos os desafios que isso traz). Não me sinto a mãe guerreira, nem mais forte que ninguém; ao contrário, reconheço todos os privilégios que me cercam e que me ajudam a atravessar essa situação. O que trago aqui são apenas divagações e desabafos sensibilizados pelo longo tempo de confinamento e pela chegança de Noël.

A luta, agora, é para ressignificar essa vivência, principalmente para o Tom. Manter viva a certeza de que presenças continuam sendo mais ricas que presentes, ainda que, por ora, não sejam possíveis. Uma coisa meio A vida é bela, sabe?, de tornar bonito o que não está. A luta é para não permitir que as agruras deste ano que finda nos tirem a esperança de tempos melhores, de vida que se renova com o ano que se achega. 

Então, a todos e todas, eu desejo força para seguir lutando e resistindo e para que não desistamos de ser (e fazer) um país mais justo e generoso com os que nele vivem. Que o 2021 seja mais leve e traga consigo tempos de liberdade, justiça, saúde, empatia e amor.

  • Janira Alencar é mãe do Tom, de 10 meses.

‘És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho’

Por: Janira Alencar

Confesso! Tornei-me aquilo que eu mais temia: a mãe que pede, bem clichezona, para o tempo ir devagar. Acho que não tem um filho ou filha de amiga que não tenha sua fotinha estampada nas redes com essa frase-apelo. Sempre que as via, pensava que eu não ia querer segurar o tempo, pois não devia ter beleza maior do que assistir ao crescimento de um filho. Acompanhar cada mudança, cada evolução, cada nova gracinha e registrá-las todas no livro dos dias que são as lembranças de uma mãe. Até hoje, tendo por filhas e filho três ‘caba véi’, minha mãe se regozija recontando as peripécias de suas crianças (no caso nós), sentindo as mesmas emoções e alegria de quando as vivenciou.  

Hoje, embora mais do que nunca siga encantada com as belezuras promovidas pelo tempo no desabrochar de um filho, rogo para que ele vá devagar. Queria poder laçá-lo e mantê-lo às minhas rédeas, soltando-as a meu gosto ou revés. Tivesse eu esse poder, seguraria a minha corda-tempo nas manhãs de sábado, quando Tom acorda parecendo saber que aquele dia é de desfrute. Sempre de bom humor, gastando todo o seu repertório de sapequice, no sábado não há choramingo se o deixo no cercado enquanto preparo o nosso café. O laço da corda também se apertaria quando, depois de desbravar toda a casa, ele resolve que o melhor lugar para recuperar o fôlego é no meu colo, onde pousa poucos minutos, coração sincronizado com o meu, antes de buscar a próxima tomada, chinela ou gaveta de armário.  

O fato é que já se somam 18 meses de minha vida com o Tom; 9 com ele dentro de mim e 9 em que eu sigo dentro dele – corpo que se faz líquido para nutri-lo e inundá-lo de mim. Nesse ínterim, chegaram-se os balbucios e conversas em nenenês, os sorrisos têm a cada dia branqueado-se mais, as comidinhas passaram a ocupar boa tarde de nossa rotina. Vejo meu bebê extrapolar meu colo, mas isso já não é problema, pois ele domina seus movimentos a ponto de arrumar-se como mais confortável lhe parecer. Observo Tom experimentando o mundo e mostrando suas predileções por músicas, cores, sabores e pessoas. Três quartos de ano! Ele já ensaia seus primeiros passos e eu já prevejo os passos futuros: o primeiro aniversário, a chegada à escolinha, o primeiro banho de mar, os lugares aos quais quero ir com ele…   

Na maternidade, os dias passam devagar mas os meses voam! E, sim, dá saudade do que eles eram ontem e de tudo mais que ficou pra trás. Vejo meu bebê grande, ocupando cada vez mais espaço na casa, em nossas vidas e no meu coração, e tudo o que me vem à cabeça ao olhar para ele ou segurá-lo em meus braços é: tempo, vai devagar!

18 meses do Tom: 9 ele dentro de mim, 9 eu dentro dele.

Janira Alencar é Educadora e mãe do Tom, de 9 meses.

Me abraço, me beijo e me chamo de meu amor

Por: Janira Alencar

Na minha vida A.T. (antes do Tom), quando o meu tempo era ainda só meu, parte dele era gasta com os chamados cuidados pessoais: manicure, salão, academia… Uso aqui o termo ‘chamados’ porque sempre tive a noção de que cuidar de nós mesmas está muito além da aparência. Mas, ainda assim, como boa leonina, sempre gostei de dar um trato na ‘casca’. Muitos desses hábitos permaneceram e até foram ampliados na gravidez, mas o foco era bem outro: pilates pra ajudar a parir legal, caminhadas diárias pra regular os picos de açúcar no sangue, topless no sol para preparar os peitos para a jornada leiteira. Tudo agora era para ele, para nós, para o nosso encontro.

Uma das coisas que mais ouvi ao longo da gravidez foi que eu estava muito bem, “que nem parecia estar grávida”. Essa fala, que eu mesma já havia dito tantas vezes antes, me fez refletir um bocado. Refletir sobre como nem grávidas, num momento cuja maior preocupação (senão a única) deveria ser a saúde e o bem estar do organismo mãe/bb, deixamos de ser cobradas em nos adequar a um padrão que nos é imposto. A sociedade nos impõe que a mulher nasceu pra ser mãe e que esse é o momento mais sublime de nossas vidas, mas devemos atravessá-lo sem parecer grávidas. Sem ganhar muito peso, sem ficar demasiada inchadas. Como se tudo isso não viesse no pacote gravidez.

De fato, gestar uma vida é uma experiência tão sublime e nos preenche de tal forma, que acabamos por esquecer um pouco de nós mesmas. As prioridades mudam, o conceito de felicidade muda e, da mesma forma, muda também o nosso corpo. Não quero trazer aqui uma visão romântica de que ‘virei mãe e agora é só isso que importa’. Não! Ao contrário, em algum momento – e esse tempo não é universal, mas de cada mulher – vamos querer encontrarmo-nos com nós mesmas outra vez. Seja no convívio social, nos antigos hábitos ou (por que não?) no corpo pré-materno. O que quero dizer é que tenho me trabalhado para fazer as pazes com esse novo corpo que nasceu junto com o Tom. Se toda a minha vida já não é mais a mesma desde que ele chegou, se eu mesma não me encontro mais naquela antiga Janira, como posso querer que o corpo que passou 9 meses se transformando, para ser abrigo dele, volte ao lugar de antes?

Some-se a isso os modelos perfeitos da vida cor-de-rosa dos instagrans e tv’s da vida, em que, mesmo antes do fim do puerpério, as influencers já estão felizes, sem olheiras, barriga chapada, propagando a fórmula mágica da mens sana in corpore sano. Poucas delas falam sobre ressignificar esse novo corpo, corpo de mãe. Ninguém nos conta que tudo bem querer ‘melhorá-lo’, se isso é importante pra você, mas que ele pode, sim, estar melhor agora, com suas novas marcas que denunciam que ele foi casa de uma nova vida. Não nos é dito, também, que nós podemos vê-lo bonito e que essa beleza pode ser mais sublime e verdadeira do que aquela esculpida pela academia. 

Pensava eu que o projeto antigo – que nunca deixara de ser projeto por falta de tempo, de dinheiro e de coragem, não necessariamente nessa ordem – de botar os peitos apontando pra lua ganharia força depois de amamentar um filho por mais de ano. Ledo engano! Depois de tudo que enfrentamos juntos, meus peitos e eu, para alimentar o Tom, nunca os vi tão bonitos, fortes, parte da fêmea que me tornei. Vejo-os com tanto orgulho, admiração e respeito, que acho que os bichinhos não merecem ser cortados e sentir mais dor do que já sentiram, pela tão menos nobre razão de ficar igual a todos os outros peitos fabricados, que são como o mundo diz que tem que ser. 

Não há aqui julgamento a quem busca na cirurgia a solução para ter o corpo (e a mente) que almeja ter; eu mesma posso desengavetar o antigo projeto em algum momento do curso do rio vida. O que há é uma mulher que tem aprendido a amar – e, quando não é possível, a aceitar – seu corpo com todas as suas marcas, sejam elas tatuagens, que escolhemos para ilustrá-lo, sejam elas cicatrizes, com que a vida nos carimba.

Janira Alencar é Educadora e mãe do Tom, de 8 meses

“É preciso uma aldeia inteira para criar um filho”

Por Janira Alencar

Toda mulher, ao longo de sua vida, ouviu pelo menos uma vez (senão muitas) a falácia da rivalidade feminina. Aprendemos que homens são amigos, companheiros, leais e que nós, mulheres, estamos sempre julgando ou competindo umas com as outras. Esse discurso, tão impregnado de intenção, é uma das armas mais poderosas de que o patriarcado dispõe, pois nos induz a olhar para a outra não como par, não como amparo, mas com desconfiança. 

Talvez muitas de nós, durante parte das nossas vidas, tenhamos acreditado nisso; talvez até tenhamos reproduzido essa fala. Mas, posso apostar, quem dá voz a esse discurso certamente não vivenciou a experiência da maternidade. (Antes de prosseguir, quero deixar claro que a maternidade a que aqui me refiro é a que é escolha, e não imposição social. Sei que muitas mulheres não comungam desse desejo e que há outras centenas de vivências por meio das quais podemos sentir a força que tem a união feminina. Só para dar um exemplo bem raso, experimente ser mulher e precisar de um absorvente, que você vai saber o que é uma rede de apoio).   

Voltando ao tema, uma das coisas incríveis com que a maternidade nos presenteia é uma teia de força, amparo, escuta e empatia que se entrelaça entre as mulheres que partilham dessa vivência. Hoje, digo e repito que só topo ter outro filho se for no mesmo tempo e espaço das mulheres que dividem comigo a primeira experiência de maternagem. Algumas, vozes da experiência, já sabem de cor minhas angústias e medos. Outras estão trilhando essa mata fechada comigo, abrindo um caminho que não tem destino certo. Muitas já eram amigas; outras têm-se feito agora, amizade que rebentou junto com nossos rebentos. Seja como for, o sentimento é um só: que sorte a minha tê-las comigo nessa jornada! Que bênção das deusas é ter pra onde correr a qualquer hora que se precise (e aqui falo literalmente, já que os grupos de recém-paridas funcionam 24h por dia, dadas as madrugadas de mamadas infindas). Como é bom ouvir relatos, partilhar experiências, ser amparada e, também, poder ajudar uma amiga num momento de aflição. São experiências que transbordam afeto e gratidão.

Em tempos idos, ter um filho era sempre uma experiência coletiva: era comum que as mulheres tivessem mais filhos e que suas gravidezes ocorressem conjuntamente com irmãs, primas, vizinhas. As experiências eram partilhadas, as trocas ocorriam de forma natural, formando, mesmo sem saberem, o que hoje chamamos de rede de apoio. Felizmente os tempos mudaram! A maternidade compulsória não é mais uma realidade absoluta – embora ainda tenhamos um longo caminho de desconstrução social a trilhar, no que se refere a isso. Em contrapartida, ônus dos novos tempos, parimos e criamos nossos filhos (muitas vezes únicos) cada vez mais sós, trancadas em nossos apartamentos, contando com pouco ou quase nenhum apoio. 

Dizem que é preciso uma aldeia inteira para criar um filho; desconheço a autoria dessa frase, mas poucas falas me fazem hoje tanto sentido quanto essa. É preciso que o mundo receba essa criança, que seja amoroso com ela, que não olhe feio para a mãe que com ela chega a um restaurante, que não solicite aos comissários sentar-se longe dela em um voo. É preciso, também, que a cria e sua mãe sejam amparadas em seus primeiros meses, tudo tão novo para ambas as partes. E é transformador, e não menos necessário, que essa mãe, pessoa nova que nasce junto à cria, tenha com quem dividir toda a ambiguidade que compõe a maternidade, esse misto de força x fraqueza, medo x coragem, saudade da vida antiga x não querer outra senão a de agora.   

Ser uma mãe de primeira viagem em tempos pandêmicos tem sido desafiador, mas o mesmo barco que nos distancia ~ de corpos ~ da nossa gente traz pra perto aqueles que são realmente nossos, e faz âncora em nossas relações de afeto verdadeiro. O primeiro círculo social do Tom é herança de amizades bonitas, sinceras e tão necessárias ante tudo que temos enfrentado. Herança da força e do poder transformador que as mulheres emanam quando se unem. Que todo esse amor escorra, transborde, inunde, encharque. Que seja presente na vida dessa nova geração. Que seja regra e que prevaleça. E que sejamos sempre a aldeia que recebe, acolhe e cria os novos filhos do mundo.

Tom e Bento, um de seus amigos herdados da mãe: porque nós fazemos amigos bebendo leite, sim!
  • Dedico esse relato a Fátima’s, Ana, Aline, Carol, Cíntia, Dani, Ellen, Larissa, Lili, Nádia, Paula, Pedrita, Roberta’s, Samya, Suyanne, Thereza (em ordem alfabética e rezando para que a minha memória não me traia e me faça esquecer alguém). 

Janira Alencar é educadora e mãe do Tom, de 7 meses