Identidade (ancestralidade III)

Há duas semanas iniciei um papo sobre ancestralidade e feminismo. Para começar, trouxe a memória forte e doce de minha avó materna, Dona Terezinha, a Mãezinha. Uma mulher que muito me orgulha, no presente, porque mesmo não estando mais nesse plano, sua história é contada por nós e fortalecida pelos valores deixados por ela. Falei ainda sobre a diversidade de nós mulheres nas construções diárias das lutas, conquistas, dos amores, dos medos e das dores. Trouxe um pouco do sentimento após a leitura do livro Identidade e força ancestral – Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo, inclusive, o responsável por estas minhas escritas e outras leituras sobre o tema. Escrevi sobre ser grata às tantas histórias incríveis de mulheres que vieram antes de mim, da nossa geração, que nos garantiram lugar de fala, existência, de vida. Trouxe também a minha gratidão pela resiliência das mulheres da minha família e pela minha história que está em curso. Percebi a importância, ainda mais, do feminismo em todos esses lugares e na vida de nós mulheres. Que bom que existe diversidade para acreditar e viver.

Hoje, para fechar esse nosso papo e acender o espírito de inquietação sobre nossas histórias, sobre a pluralidade de construir o feminismo vou falar sobre identidade. Quem somos nós mulheres? Quem é você, mulher? Quais histórias foram vividas antes do hoje para chegarmos até aqui. A nossa identidade nos faz livres? Quais os fatores, lugares, abraços, dores nos trouxeram até aqui? Como construímos o nosso ser?

Em busca rápida no Google, identidade vem “do latim identitas, a qualidade do que é idêntico (o que é o mesmo). É um conjunto de características essenciais do que diferenciam coisas, indivíduos ou grupos sociais; características próprias do indivíduo ou de uma comunidade; consciência que uma pessoa tem de si mesma e que a diferencia das outras”.

Banco de imagens

Na sociologia, além do conceito de identidade também é estudado a alteridade, de forma resumida, ela representa o grupo do outro, a dor do outro, o lugar de existência do outro. É reconhecer que, muito além da sua existência e crenças, também existem outras culturas, outras formas de pensamentos e que, acima de tudo, é preciso respeitar e conviver de forma civilizada com toda essa pluralidade.

Eu sou uma mulher negra de pele clara. Fruto de uma mulher branca com um homem negro. Esse reconhecimento é recente. Resultado de leituras, aprofundamento na minha própria história, dos processos de desconstrução como mulher, ser humano e intelectual. O estudo sobre o feminismo é um caminho que me ajudou muito a entender e reconhecer minha identidade. Ser uma mulher feminista também é recente. 

Me sentia completamente perdida em relação à minha identidade quando mais nova. Olhava para minha pele clara, meu cabelo crespo e me perguntava quem eu era. Não era reconhecida por pessoas brancas como uma menina branca, porque meu cabelo “não era adequado para essa cor da pele”, motivos de violências que pratiquei comigo como queimar por várias vezes meu couro cabeludo (tenho cicatrizes até hoje) e usar produtos químicos fortíssimos, como formol, para deixar meu cabelo liso e assim “pertencer”. Não era negra, porque a cor da minha pele nunca me tirou nenhuma oportunidade na minha vida, nem me fez ser vigiada nos lugares por onde andava ou qualquer outra violência sofrida por quem tem a pele escura. O conflito sempre foi reforçado pela minha família que, assim como muitas famílias, não conhecem e nem reconhecem suas origens. Não os culpo. 

Ainda no terror da chamada adolescência, eu também não era vista como uma mulher. “Masculina demais, só gosta de coisas de homens, não é feminina, só anda com macho, joga bola, não toma jeito de moça” e tantas outras frases machistas me acertavam. Na rebeldia nata da idade eu me apropriava cada vez mais desse lugar, considerado de masculino, à medida que as violências aumentavam. Levou muito tempo, muitas cicatrizes foram deixadas, dores provocadas para que eu finalmente pudesse entender que a  construção da identidade é um processo e que leva tempo.

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Trouxe essa clássica frase de Simone de Beauvoir no primeiro texto sobre ancestralidade e feminismo. E agora, quando falo sobre identidade, o uso dela se faz muito necessário. Diferente do modelo tradicional do patriarcado, que exerce forte influência sobre a construção das sociedades determinando funções sociais para homens e mulheres desde antes de seus nascimentos, a construção da identidade do indivíduo parte pela diversidade de processos que ele vai passar. No que diz respeito à nós mulheres e, as perspectivas do movimento feminista, é processo constante de desconstrução para a formação daquilo que nos representa, nos define, nos torna livres e iguais (no que diz respeito a direitos e deveres), iguais. 

Ser mulher é uma construção. A identidade é uma construção. É um longo caminho que pega um pouco de nossas heranças emocionais, espirituais, de carne, de convívio, do que absorvemos do mundo e damos de volta para nos caracterizar. Assim como a digital, a identidade é única, porém, ninguém nasce com ela definida. “Você tem que criar a sua própria identidade. Você não a herda,” Zygmunt Bauman sobre a definição de identidade pessoal. 

Ainda, de acordo com Bauman, a identidade é um projeto de vida. Talvez não na atualidade, visto a velocidade com que recebemos as informações, assim como as tantas certezas são fluídas. Mas ela deve ser um projeto construído e modificado ao longo da vida. 


Zygmunt Bauman – Identidade pessoal

Antes me tornar uma adulta, nunca havia falado ou ouvido sobre feminismo. Apesar de ele ter sido um dos pilares mais fortes das mulheres de minha família, mesmo elas não se considerando feministas, nos muitos anos minha mãe, minhas avós e minhas tias eram resistência e reinvenção na arte de ser mães, mulheres, escritoras de suas histórias. Aliás, até hoje são. Todo o meu respeito às mulheres que vivem a maternidade. É um projeto de vida que admiro muito. 

“Mesmo sem ter conhecimento sobre movimentos teóricos e militantes, mesmo sem ter ideia de como mudar um status quo de opressão, fica entendido por nós, que em momentos singelos, toda e qualquer mulher já se questionou de vivermos como vivemos. Partilhamos não só uma força ancestral e uma vontade de mudança, como também dores e indagações que permeiam nossa individualidade, ainda que de forma subjetiva.” (pg.63), trecho do livro Identidade e força ancestral – Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo.

Quem é você?

A pergunta mais demorada para ser respondida nos anos de análise. E muitas vezes, as respostas não ficam claras. Somos nós; o que trazemos de casa; das relações com os outros e com mundo; os medos; as dores. Somos o nosso olhar sobre nós, os olhares dos outros sobre nós, o lugar onde estamos. Somos nossas crenças, incertezas, os traumas que trazemos, as feridas abertas e curadas da vida. Não cabemos em uma linha do tempo que segue uma ordem cronológica. Somos a necessidade de se adaptar, na grande maioria das vezes sob uma perspectiva de violência, para caber e pertencer. 

No livro “Quem tem medo do feminismo negro” da Djamila Ribeiro, a autora conta sua história de silenciamento e das diversas tentativas de tentar caber para pertencer, um processo clássico do patriarcado. Ela revela esses lugares confusos e perversos que é a negação, especialmente por crianças negras, das suas raízes e, consequentemente, da sua existência. “Acostumada a querer agradar as pessoas para que fossem minhas amigas, patinei, sem saber o que estava fazendo . Por um tempo, já adulta, quando me lembrava dessa cena, me culpava por julgar que não havia respeitado minha avó. Tempos depois me dei conta de que teria achado graça”, Djamila, trecho do livro “Quem tem medo do feminismo negro?”.

O feminismo negro: entrevista com Djamila Ribeiro

Você se reconhece nesse lugar? Quantas vezes você desrespeitou suas raízes para entrar no padrão? Negou as lutas de suas ancestrais para não criar conflitos? Repito, a construção da identidade é um processo. Entender e se apropriar do movimento feminista é um caminho, especialmente para nós mulheres, para o fortalecimento dessa identidade. 

Eu sou uma mulher feminista. Sou negra. Sou uma mulher que sonha, chora, luta, resiste. Eu sou plural na minha individualidade. Eu sou uma das bisnetas de Maria Raimunda da Conceição da Silva Vitorino Souza Tomaz Gomes, mulher preta que nasceu como propriedade de alguém e recebeu na pele essa marca. Uma mulher analfabeta, que da vida tinha muito conhecimento, mesmo tendo sido privada de estudar da maneira tradicional. Eu sou a neta da agricultura Terezinha Gonçalves de Carvalho, semi-analfabeta que investiu todo o suor do seu trabalho na educação dos filhos. Eu sou filha de Antônia Anizia Gonçalves Moreira, mulher, professora que sob os ensinamentos de Paulo Freire aprendeu e nos ensinou que “a educação faz sentido porque as mulheres e homens aprendem que através da aprendizagem podem fazerem-se e refazerem-se, porque mulheres e homens são capazes de assumirem a responsabilidade sobre si mesmos como seres capazes de conhecerem”, Paulo Freire.

A identidade é um projeto de vida adequada a cada novo momento vivido ou espaço ocupado. “A identidade é uma construção social”, como defende a antropóloga Lilia Schwarcz. Analisando a formação da identidade do lugar Brasil, Schwarcz avalia o processo de construção da identidade como, “um fenômeno contrastivo, eu crio a minha identidade por contraste a alguém. Não é essencial. E ela é alterativa. Eu posso mudar de identidade dependendo do local. Num local eu sou professora. Num local eu sou mãe. Em outro lugar, ainda, eu sou amiga. Enfim, nós construímos várias identidades. No fim, identidade é uma resposta política a um contexto político”

Ser brasileiro: Qual a minha identidade?| Lilia Moritz Schwarcz

P.S.

Parabéns ao aniversário de um ano da Lei nº16.946, comemorado ontem 30 de julho, que assegura o direito de uso do nome social para travestis e pessoas trans em serviços públicos e privados no Ceará. O nome social deve ser reconhecido em registros, cadastros, correspondências e nos sistemas de informação de serviços de ensino, saúde, previdência social e de relação de consumo, dando maior segurança jurídica a pessoas trans e travestis.

Força ancestral: diferenças e compartilhamentos (ancestralidade II)

Na última sexta, começamos um papo sobre ancestralidade e feminismo. Hoje vou continuar o papo da ancestralidade a partir da perspectiva da pluralidade do feminismo. Quero me referir também à trajetória de mulheres, que mesmo negando explicitamente a importância do movimento feminista, acabaram por afirmá-lo nas conquistas de suas vidas. Acima de tudo, entender que nas histórias de nós mulheres há muitos caminhos e formas de lutas, o que, na maioria das vezes, não cabe dentro de um conceito abstrato. Cada mulher tem um universo, um cotidiano, várias experiências e particularidades. Especialmente, porque nós mulheres ocupamos lugares diferentes que têm a opressão ampliada, de acordo com a cor da pele, da classe e da orientação e da identidade sexual. 

“Quem nasce na periferia tem que construir uma força extra para lutar por seus direitos e espaços diariamente. Dentro desse contexto, a mulher parece deter um estímulo ancestral, enraizado, ainda que ela não tenha descoberto ou admitido”, trecho do livro Identidade e força ancestral –  Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo.

Todo o meu respeito às lutas, conquistas, aos lutos e às reinvenções das minhas avós, da minha mãe, da minha irmã e das minhas primas. Todo respeito à minha história. Todo respeito à coragem de lutar, mudar, perder e vencer de tantas mulheres. Nesse sentimento de conexão e nas leituras desses dias encontrei o livro “Identidade e força ancestral –  Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo”, resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Brenda Torres e Sabrina Nascimento, em Jornalismo pela FIAM FAAM – FMU, em 2016. A obra reúne o desejo de ambas em reaver suas histórias partindo do ponto de vista de estudar o feminismo por meio das narrativas das vidas de sete mulheres moradoras de diferentes periferias de São Paulo.

Pensar feminismo dentro da periferia de São Paulo é enxergar as diferentes vivências que se misturam e se fortalecem numa junção do individual com o coletivo. Essa caminhada é de longa data, desde nossas ancestrais, avós, tias e tantas outras mulheres com quem convivemos”, 4ª capa, livro Identidade e força ancestral –  Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo.

As histórias das vidas de Tula, Ana Paula, Marilu, Aline, Jéssica, Giovana e Bea, personagens do livro, de acordo com as autoras, são vistas a partir do feminismo interseccional, pois tratam de questões de gênero, raça e classe. Inclusive, vou continuar esse assunto em outro post de forma mais aprofundada. Por enquanto, deixo uma curta entrevista da Djamila Ribeiro para a compreensão inicial do que significa essa temática:

O que é feminismo interseccional? – Djamila Ribeiro

Na imersão das histórias de todas essas mulheres, “que buscam construir suas identidades a partir de incômodos com a estrutura do nosso sistema. Além disso, alimentam a sede por mudanças por meio do resgate da ancestralidade, a fim de olhar para o passado e projetar a construção de um futuro melhor” (pg.91) surgiu a necessidade/vontade de escrever sobre ancestralidade com fortes e importantes doses de feminismos, no plural, na diversidade que esse movimento deve ser. Sob a construção desse olhar busco, assim como estou, inquietar vocês (mulheres, especialmente, e homens) para falarmos sobre essas diferenças e compartilhamentos das nossas histórias, que envolvem medos, lutas, abismos, encontros e reencontros. 

Você é feminista?

Toda mulher tem que ser assumidamente feminista e levantar bandeiras? A mulher que hoje eu me tornei responde sim sem nem pensar. Especialmente, porque me considero salva pelo movimento feminista, pois ele é um forte influenciador pelo que me tornei como mulher e pessoa. É também resultado dos meus estudos e das minhas vivências pelo feminismo a maneira como me olho e olho o mundo. Para minha alegria, para alegria das nossas lutas e dos gritos por igualdade entre os gêneros de várias e várias gerações de mulheres o número de mulheres que se declaram feministas está crescendo.

A constatação é resultado de uma pesquisa realizada nos Estados Unidos e Reino Unido, pelo Instituto YouGov, de 2018 e divulgada no ano passado, que aponta que uma em cada cinco mulheres, questionada sobre ser feminista, diz que é. O resultado desse crescimento é reflexo de muitos anos de lutas, da força de mulheres unidas contra as tantas violências, por direitos iguais, por lugar de fala. É o não silenciar. É pelo crescente apoio de mulheres públicas e com um gigantesco número de seguidores ao movimento feminista. É resultado de debates, de trazer o assunto o tempo todo e por uma rede de encorajamento de mulheres que também já foram ou são vítimas de diversas violências para outras mulheres.

A mesma pesquisa traz ainda que o movimento feminista não encanta mulheres mais jovens. Algumas mulheres, não apenas as jovens, optam por não se afirmarem como feministas pelos estereótipos que, historicamente foram e são dados por meio de conceitos machistas e desrespeitosos ao que o movimento representa. 

A partir do livro Feminists Don’t Wear Pink and Other Lies (Feministas Não Usam Rosa e Outras Mentiras), de Scarlett Curtis, a autora fala sobre esses estereótipos, tais como o de que feministas são mulheres que odeiam homens, não gostam de maquiagem, não se depilam, não tomam banho (lugar  que se propõe a depreciar as mulheres e o movimento) como pontos que afastam mulheres do feminismo. Para a socióloga Christina Scharff, que ensina Cultura, Mídia e Indústria Criativa na universidade King’s College, em Londres, esses pontos são “cruciais”, a partir de pesquisa sobre o tema, que são apresentados por mulheres que rejeitam o feminismo.

O mundo não precisa do feminismo? | Isabella Trevisani | Mude Minha Ideia | Quebrando o Tabu

O feminismo, pelo contrário, na raiz do que seu significado se propõe, é definido como a luta por igualdade entre os gêneros. De forma mais intensa, o feminismo é liberdade. É o direito de escolha. É a quebra dos padrões. É um grito pela diversidade. É o direito de ser princesa, guerreira, careca, cabeluda, gorda, magra. O que desejar ser.  É fogo no patriarcado (adoooro)!

Em um outra pesquisa, também de 2018, realizada Grã Bretanha, uma em cada três mulheres de classe alta se diz feminista. Já em classes mais baixas, uma em cada cinco assume o movimento. As mulheres de classes diferentes concordam que homens e mulheres devem ter os mesmo direitos. Do ponto de vista racial, para mulheres americanas, 12% das mulheres latinas se identificam como feministas, mas que o índice sobe para mulheres negras (21% se consideram feministas), asiáticas (23%) e brancas (26%).

Um ponto importante da pesquisa coloca que 3/4 das entrevistadas apontam que as conquistas do movimento feminista fez “muito” ou “algo”  para melhorar a vidas de mulheres brancas. Esse cenário é descrito no ensaio autobiográfico da Djamila Ribeiro, no livro “Quem tem medo do feminismo negro?”, onde ele recupera suas memórias de infância e adolescência que a coloca em constante lugar de silenciamento até o fortalecimento e orgulho de suas raízes por meio da construção do feminismo como pluralidade. Inclusive, esse é um outro papo que também quero trazer para o nosso debate. 

Existe ainda, por parte de muitas feministas brancas, uma resistência muito grande em perceber que, apesar do gênero nos unir, há outras especificidades que nos separam e afastam. Enquanto feministas brancas tratarem a questão racial como birra e disputa, em vez de reconhecer seus privilégios, o movimento não vai avançar, só reproduzir as velhas e conhecidas lógicas de opressão”, trecho do livro Quem tem medo do feminismo negro?

Tendo em vista que uma das dificuldades da expansão do movimento feminista são os estereótipos, tais como o que apresentei nas análises anteriores, é necessário refletirmos sobre como podemos democratizar e aproximar as mulheres do feminismo, respeitando suas individualidades e pluralidades de existência. Então, deixo essa questão com vocês: como é possível melhorar a imagem do feminismo?

Mãezinha (ancestralidade I)

Nós somos infinitos enquanto conhecemos e reconhecemos nossas raízes, assim como quando elas passam de geração em geração pelo sangue ou pelos afetos, especialmente, pelos afetos. Esses dias senti o cheiro do sabonete Phebo, o preferido da minha avó materna, dona Terezinha, quando viva.   A maioria das pessoas que a conheciam a chamavam de “mãezinha”. Acho que com tantos dias em confinamento, a vontade de estar perto da família e dos amigos me fez sentir o perfume do sabonete preferido dela. 

Dona Terezinha era abrigo. Era uma curandeira que usava sua sabedoria adquirida na sua vida simples, perfumada, de luto e luta, na força do trabalho braçal de sua trajetória como agricultora, no seu amor pela vida e, especialmente, na sua fé inabalável. Eu sinto tanto a falta dela. Sinto falta da sabedoria. Sinto falta da calmaria e da segurança. Em dias de incertezas e angústias, sinto falta daquele abrigo que era dona Terezinha.

Estou de volta com as minhas escritas nesse Lugar de compartilhamentos. Numa conexão intensa com o passado, com as minhas heranças espirituais, especialmente, com as mulheres que antes de mim lutaram, construíram, perderam e amaram para que eu estivesse aqui. Mais do que nunca, sou grata ao feminismo. Melhor, grata ao plural movimento das mulheres livres, diversas e reais que foram responsáveis pela minha criação, formação afetiva e de valores.

O feminismo, mais do que nunca, se faz necessário e de forma plural. Diante das tantas realidades de nós mulheres na sociedade é fundamental fortalecer corpo e alma na imensidão que a diversidade dos feminismos nos traz. Precisamos nos conectar com as histórias das mulheres que vieram antes de nós. Discutir, estudar e tentar entender a nossa ancestralidade familiar, política e social. O olhar é tanto sobre as nossas histórias individuais, como para as histórias dos tantos outros coletivos de mulheres. É entender que ser mulher está longe de caber num significado singular, mas que existem muitas singularidades. Especialmente, compreender que há diferentes e gigantescas questões relacionadas à classe, gênero e raça.

“Ninguém nasce mulher, torna-se”, a clássica frase de Simone de Beauvouir é a mais pura verdade. Não apenas nós mulheres, mas todo e qualquer ser humano. Quando a escreveu, acredito que o sentimento e a ideia que ela gostaria de passar foi o de que ninguém cabe em caixas, num padrão. Que só numa sociedade livre, marcada pelas mais diversas liberdades, é possível construir lugares democráticos e seres humanos plurais, lugares nos quais as pessoas possam ser o que desejam, respeitando suas histórias, com as influências de suas ancestralidades.

Ah que saudade de dona Terezinha…

Clarice Lispector e o encontro de G.H. com uma barata

Cá estou de volta a este Lugar que tanto quero bem e que estava com saudade. Num formato diferente e cheio de compartilhamento, anuncio uma novidade na escrita das sextas-feiras: além dos textos que escrevo e compartilho com vocês, serão convidadas outras pessoas para escrever e dividir conosco suas experiências e análises sobre política, diversidade (nos mais variados aspectos), feminismos, pautas da comunidade LGBTQIA+, futebol, questões contra o racismos, veganismo, dentre outros assuntos que nos colocam em desconstrução sobre o olhar que temos da gente, do mundo e do outro.

Esse lugar de compartilhamento foi iniciado no mês passado e seguido até a última sexta, 3, no qual tivemos a participação maravilhosa de Washington Feitosa, Gustavo Xavier e Katiana Monteiro, que trouxeram em suas escritas colaborações incríveis, cheias de lutas, resistência e lugar de fala. Muito grata por vocês terem colaborado com tanto. 

Hoje, o convidado é Paulo Germano, que traz um trecho do seu livro  “Mulheres  Claricianas:  imagens  amorosas”, resultado da sua dissertação de mestrado, que analisa a construção das personagens femininas centrais de quatro obras de Clarice Lispector: A Paixão segundo G.H, A aprendizagem ou livro dos prazeres, Água viva e A hora da estrela. 

Livro  “Mulheres  Claricianas:  imagens  amorosas”  de  Paulo  Germano  Barrozo  de  Albuquerque. Rio de  Janeiro. Editora  Relume-Dumará,  2002.

Clarice é uma leitura necessária para desorganizar a alma, a mente e, ao mesmo tempo, construir várias linhas de pensamentos sobre existência e desconstrução. De tantos livros que aí estão sobre Clarice, “o que esperar de mais um livro sobre Clarice”, questiona o autor e convidado de hoje. “Sabe-se que ela não gostava de ser capturada por modelos literários , filosóficos ou de qualquer outra espécie. O que se propõe neste livro não é uma ‘interpretação filosófica’ de sua escrita, como se fosse possível estabelecer sua verdade e sua força, a partir de outro discurso, mas produzir uma conexão entre a escrita clariciana e a filosofia de Gilles Deleuze. Não se trata, portanto, de estabelecer verdades acerca dessa escrita, mas compor linhas entre Clarice e Deleuze: fazer rizoma”. 

Abaixo, deixo vocês com o trecho do livro, com as inquietações de Clarice e de Paulo:

Clarice  Lispector  e o  encontro de G.H. com a barata*

“(…)  Bicho pré-histórico, imemorial, encarnação da “resistência pacífica”. A barata emerge como signo do que é a própria vida: resistência e proliferação. Gota virulenta, gota de matéria que provoca horror em GH. Barata que é pura atenção, não atenção à vida, mas atenção como núcleo  da própria processualidade da vida. E é essa barata que provoca a irrupção de um desejo que lhe invadia: o desejo de matar: “Eu me embriagava pela primeira vez de um ódio tão límpido como de uma fonte, eu me embriagava com o desejo, justificado ou não, de matar.**” Desejo que inicia o desmanche de sua montagem humana e a colocava no nível da natureza.

Desejo de matar indicando a entrada no universo de forças animais e a busca da composição de uma outra imagem de si. Contudo,  nesse  momento, ela fechou a porta sobre o corpo da barata e matou… Mas matou a quem?  Seu próprio eu que se desconhecia nesse desejo e acabou por encontrar algo além do humano: “ eu sentia que ‘eu ser’ vinha de uma fonte muito anterior à humana e, com horror, muito maior que a humana.

A irrupção desse desejo leva GH a um universo no qual se deve abandonar os sentimentos humanos,  inclusive  o  mais  humano  de  todos: a esperança.  E esquecer regulamentos e leis para entrar no inferno da matéria viva. Ao entrar no quarto, GH era um eu e agora tinha se transformado num ‘ela’, em algo impessoal.

Devir-barata de GH. Conjugação de fluxos que desfaz as formas, que explode com a Forma-Homem e estilhaça qualquer eu. Devir que a arrasta pela viscosidade da vida crua: “lama ainda úmida e ainda viva, era uma lama onde se remexiam com lentidão insuportável as raízes de minha identidade

 Não a identidade de um eu fixo, mas a da profunda processualidade da natureza, de seu poder de sedução, de conexão. A barata é pura sedução e “eu tinha milhares de cílios pestanejando, e com meus cílios eu avanço, eu protozoária, proteína pura”. Devir-barata, devir-protozoária, devir-proteína: a vida é conectividade e a doença da forma-homem foi ter soterrado esse poder em nome da civilização e de seus valores, em nome da superioridade dos sentimentos humanos”.

*Trecho  do  livro  “Mulheres  Claricianas:  imagens  amorosas”  de  Paulo  Germano  Barrozo  de  Albuquerque. Rio de  Janeiro. Editora  Relume-Dumará,  2002.

**  Os  trechos  em  itálico  são  do  livro  de Clarice  Lispector,  A  paixão  segundo  GH.

Paulo Germano, psicólogo e estudioso de Clarice Lispector

Biografia resumida do convidado: Paulo Germano Barrozo de Albuquerque é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atualmente é coordenador do curso de Psicologia do Centro Universitário 7 de Setembro (UNI7) e professor do mestrado em Direito Privado da mesma instituição. Além de ser um estudioso dos campos da Psicologia social de temas como o racismo e as construções das relações de gênero; e Psicologia jurídica nas questões voltadas para família. Ele é também mais um dos apaixonados pela literatura de Clarice Lispector.