Encantaria no Sertão Kariri, Siará.

Lavras da Mangabeira, Ceará.

Boqueirão

Chamam esse lugar de garganta sagrada, eu sinto não só a garganta mas o corpo inteiro, feito uma rede de terra e alma.

Eu cresci escutando sobre uma sereia que mora nessas pedras, outros dizem que é um ser metade mulher metade cobra, talvez, a Maara que também aparece nas narrativas da cidade de Crato, Ceará, a verdade é que uma serpente encantada vive na memória dos ancestrais Kariri. 

SER PEN TEANDO MEM ÓRIAS

É visível nas paredes da pedreira o formato de uma espécie de “casa” desses seres encantados e mais na frente tem a gruta inacessível. Sobre esse ponto em outro momento conversaremos.

Essa natureza vibra nos olhos de quem a enxerga, dizem que o mergulho nessa água amolece o coração e causa sedução no olhar do corpo que se molhou.

O lago está sempre frio porque fica em baixo de um pé de oiticica, uma árvore também nativa da região, (planta endêmica na caatinga e na vegetação típica da faixa de transição entre o sertão semiárido do Nordeste).

Colegas Artevistas, nesse mês estou provocando um diálogo a partir do Boqueirão, que fica na minha cidade, além do desejo de apresentar a natureza viva, me interessa lembrá-los que ao mencionar essa vivacidade estou lembrando-os de abrir escuta para o originário. Lavras da Mangabeira, Ceará, é território do nativo dos Kariri, Siará.

Estamos preocupados em cuidar do Boqueirão porque são nossas avós chamando para dançar saúde.

Nosso corpo não se separa das encantarias.

Feliz ano novo. 

Por Barbara Leite Matias (Flecha Lançada).

Dezembro

Algumas poemas da minha página @podeserumapoema

(…)

 A professora perguntou ao menino se ele se sabia o que era se vesti com classe.

Ele respondeu,  só os urubus suportam um completo terno clássico.

(…)

Alma de pescador.

Pescador que é pescador só pesca para comer e enquanto isso a mente estica feito linha de anzol brincando de tocar a areia do rio.

(…)

Eu plantei um pé de manga para meu neto.

O neto de meu neto chupa as mangas do pé de manga que plantei.

As abelhas degustam as mangas dos pés de mangas que plantei.

Eu, o pé de manga, meu neto e as abelhas alimentamos a terra que sustentou da raiz da manga aos meus fios de cabelo da minha vó.

Minha vó virou abelha.

(…)

Vontade.

Vou mergulhar no rio e virar piaba. Pronto.

EU CARREGO UMA SOLIDÃO TÃO GRANDE DENTRO DE MIM.

AS VEZES ACORDO NA MADRUGADA SÓ PARA ACARICIAR O CABELO DELA.

EU DANÇO PELADA COM A MINHA SOLIDÃO. ONTEM ALGUÉM ME DISSE QUE PAREÇO ALEGRE E TRISTE, MEUS OLHOS CONFUNDEM.

EU NÃO SEI.

 NO FUNDO EU QUERIA MESMO ERA CATAR PEDRA NO CHÃO PARA  ATIRAR NO RIO. DEPOIS MERGULHOS DE OLHOS ABERTO EM BUSCA DAS PEDRAS.

A minha solidão parece uma pedreira, eu não tenho medo dela. Eu estou com medo do ano, o tal do 2020 e também 2021. Futuro, futuro sou eu anciã, só que agora.

 Quero que meus cabelos cresçam, toda sexta estou passando “babosa”, aproveito passo na pele toda, principalmente em cima do peito, dizem que é bom para cicatrizar.

Texto de Barbara Matias (Flecha Lançada)

Imagens de Jamal.

Te dedico

Por Barbara L. Matias (Flecha Lançada)

Te dedico um abraço forte, não há tempo para meios abraços. 

É  i. n. t. e. IRO. 

Ontem não deixei a cabeça voar, fui lavar a louça e quebrei dois pratos.

É preciso se integrar, principalmente com a terra, água e toda a magia que tá no universo, mas, também dentro da gente.

Mora um rio entre meus seios. E mora um rio, a dois quilômetros da minha casa. 

M O R A UM RIO ENTRE MEUS SEIOS. E M O R A UM RIO, A 2 KM D A M I N H A C A S A

E S S A Á G U A É S O B R E M E R G U L H O!

Imagem de Jamal.

Eu queria sugerir para você que converse com o  S I L Ê N C I O  e peça para sonhar. É assim que fazemos, sonhamos também com os olhos fechados. Se o sonho é vivo, enquanto vivemos, para olhos abertos e fechados há sonhos. Sonhar é deixar a raiz dos cabelos da cabeça dançar e fazer tranças entre milhões de fios. Amarrar memorias que carregamos.

Sonhar e criar é um moinho de produzir suor que nos encaminha as V E R E D A S.

O que mais sabemos é fazer veredas.

Por hoje é só. 

Antes faz chá, se banhe, arme uma rede. Pelada, beba chá. Deite teu corpo na rede.

E boa busca de veredas. Lembre-se essa água é sobre mergulhar.  AWETÉ!

Olhos de lavadeira de roupa

SINOPSE: A proposta é um convite para olharmos pro universo da poética dos sonhos, pras miudezas da vida enquanto potência, não só aquilo que está fora, mas sobretudo aquilo que pulsa dentro.
Pulsão: Mergulho na escuta das nossas vermelhas ancestrais.
Essa obra áudio visual tem o intuito de olhar pras miudezas da vida enquanto potencias que descobriremos nas ilhas de si, por meio da memória que carregamos no sangue que correu por anos nas pernas das mulheres que equilibraram bacia de roupa e balde de água na cabeça enquanto sobem ladeira e atravessam rio em prol da comunidade.
Roteiro e Atuação: Barbara L. Matias
Edição e câmera: Caio Oviedo