Eu Estou Presa na Lua Cheia

Por Barbara Matias

A lua não morre, migra.

Eu morri e nasci na noite de 27 de maio de 2021. 

arte da parenta Drika Kariri.

É o vírus invisível que tenta paralisar minha espiração, meu sopro tá vagaroso.  Me arrebanhou, tirou um pouco da minha braveza que questiona as linhas retas.  Estou meio sonsa, murcha – fisicamente falando, fora isso tudo também a falta de buscar o pô do sol, de se encantar com o mistério.

Se encantar com o mistério está na delicadeza de correr com os pés descalços masturbando as pedras. 

Em casa – Eu caminho de um cômodo a outro e me canso, pronto. Me deito e invento de contar as horas. É um fracasso, honestamente perdoe essas palavras, estou com preguiça de tatear caminhos e atalhos para chegar ao coração.

Caminhos e atalhos leva ao coração.

 Busco ainda que exausta o silêncio, o espontâneo.  

Estou meio concreto, cimento, borracha, plástico e planta sintética.

Minha melhor amiga passou três meses aguando um pé de cacto de plástico.  

Estou sem graça desse estado. Em algum instante quero romper. Vou romper, aproveitei a lua para me engordar de fora pra dentro. E mesmo exausta, vou cuspir a dor quando tomar banho de rio pelada, eu sou como a lua – eu não para de existir, eu migro por oceanos desertos. 

É verdade, estou cansada, a noite vou abrir um vinho que comprei vou beijar na boca mesmo que seja na imaginação, vou beijar a sereia de cabelos encaracolados e unhas afiadas, a serei que eu vi na praça da Sé do Crato. Eu preciso beijar na ficção/realidade que as palavras me costuram,  a tempos minha escrita dorme no “estou cansada”, descosturada, tecido cheio de buraco, rasgado, frágil.    Ando péssima mas passo bem.  Está noite eu beijo ainda que com o vírus a sereia invisível da praça da sé do Crato.

No Crato não tem mar.

Hahaha  eu estou péssimo mas ri o rio de mim . Eu me faço sereia cabôca de rio. Eu nasço jurema. Agora estou bem. 

Viva. 

Sugestão: bebe um álcool aproveita a ideia de maior de 18 anos, acende um fogo em algum lugar.

Abraço virtual, Barbara Matias

Minha Primeira História de Amor

Por Jamil

Esses dias eu escrevi uma história de amor…. Ela estava na fila do banco, cabelos cacheados, volumosos com um laço de tecido rosa amarrado na cabeça. Blusa azul, saia jeans branco, sandálias japonesa branca. Olhar atento, olhar curioso, sobrancelhas vivas, sorriso fácil, corpo entregue. Pele alva, limpa, serena. Ela cabelos curtos, pretos ondulados. Olhar forte, atento, traços marcantes lábios hostis. Pele aveludada feito onça pintada, fala mansa como rio, sorriso profundo como um açude. Calça jeans azul até a canela, cintura alta, blusinha básica branca, fio de contas. ALL star preto, óculos retangulares pequeno, de oncinha Âmbar, brincos de semente. Seus olhares se cruzam, por alguns milésimos de segundo o coração acelera como se passou uma vida. Elas se despedem…. Te amo…

E foi assim que eu escrevi minha primeira história de amor.

Jamal

Você é dia de texto de Barbara Matias, mas este mês ela resolver nos presentear a todos com Jamil.

E também falas potentes em seu papo com Marta Aurélia no nosso canal Lugar ArteVistas.

Só me resta propor poesia

Por Barbara Matias

Não me vejam como uma sujeita preguiçosa. Se eu fosse uma criança brincando eu ia gritar “piiiiiiiiiiiiiiinico”.

Só que não é mais brincadeira.

Esquecer-se de brincar é como morrer.

Estou exausta, eu sou dengosa e não é porque o mundo está assim que devo esquecer de me dengar. Se dengo fosse um signo a minha lua estava lá e o sol na rede. Porque a rede também seria um signo. 

Voltando a palavrinha: Exausta, pegue e faça um funk: Exá,exá, exaustaaaa. Exá, exá no rabetãoo, rabetão, rabetão. Bebebetão…. hahhaha

– penso alto:Não posso nem reclamar.

 A vizinha enquanto varria a calçada gritou para os curumins que brigavam dentro de casa para eleger um canal de televisão. Estou acabado, parem de chamar meu nome F……… morreu (Se referindo a ela).

Ótima tática: Barbara morreu, eu me mato quando quero, só de pinico, sabe!

Recebi um áudio de um mano pós-doutor em artes, das artes, das artes: Babis estou exaurido.

Exaurido????

é o estado F….. morreu chique. 

Eu tinha um namoradinho na adolescência que ele dizia: Gatinha temos que aprender a ficar “pexe”, tranquilo, fresco. Ai que saudade de nadar.

Dentro da gente tem água. A gente esquece-se da parte bonita.

No meu próximo casamento, vou me separar num ato de alegria. 

Imagem de Jamal.

Fim, dia 26 faço 28 anos, eu gosto de presente. Se até lá houver impeachment do genocida me sinto presenteada.

DIVULGAÇÃO NODA DE CAJU

 

NODA DE CAJU é a revitalização de um ritual muito antigo dos nossos povos originários, é a recriação da memória das celebrações nos cajusais de tybyra que sofreram memoricídio sendo tornadas práticas proibidas pela colonização. 

Somos pessoas atravessadas pela experência da mulheridade e da racialização atribuídas à nossas corpas nativas de origem Kariry e Potyguara descontruindo o imaginário criado sobre nossas existências, apagando a história do homem branco sobre nós e escavando nossas memórias ancestrais como quem retira de debaixo da terra o pote de mocororó enterrado por nosses ancestrais. 

Nos encontramos em equipe reduzida na Chapada do Araripe, território de nosses ancestrais, seguindo os protocolos de proteção contra covid-19, pisamos nesse chão sagrado para evocar Maara, nossa grande cobra encantada que nos encoraja

e protege para atravessar o mundo caraí (branco) e para nos mantermos firmes e tranquiles celebrando tybyra. 

Para reconhecer nossa cultura originária na cultura sertaneja, saber o que é tybyra, mocororó, quem é Maara e suas formas de comunicação conosco convidamos todes a acessarem e se inscreverem no Canal do Youtube Projeto Noda de Caju, apoiado pela Lei Aldir Blanc Ceará, lá poderão acompanhar nossa preparação para o ritual de tybyra nas Lives-oficinas “Corpas indígenas e “mestiças” do Sertão do Nordeste” com ritual de pintura online e participação da artista visual Kariri Indja, “Presença indígena na identidade sertaneja” com as participações de Cristina Kariri e Teka Potyguara, “Caju na cultura alimentar indígena e as celebrações de tybyra” com as participações de Juão Nyn Potyguara e Luan Apyká Tupi-guarani. 

Também está disponível em nosso Canal a temporada Noda de Caju, uma espécie de programa em que compartilhamos em narrativa e performance ao vivo a recriação do mito fundante das celebrações rituais de tybyra, trata-se da história de três yetçamiá (parentes) Kariri que partem do reino encantado das pedras do Araripe em direção aos cajuzais do litoral em flor para celebrarem tybyra e beberem

o mocororó, mas que para isto terão que atravessar o contexto violento das fazendas de bois implantadas no sertão pela colonização e contarão com a proteção de Maara. Os programas contam com as participações musicais de Ana Floresta e Jéssica Caitano. 

As atividades no Canal do Youtube continuam durante o mês de março, a ritualização deste mito será compartilhada em formato de cinema através de oito vídeos que serão publicados. 

Criação Coletiva 

Por: Yakecan Potyguara, Bárbara Matias, oBruna Mabellz e Luz Bárbara. Onde: Canal do Youtube Projeto Noda de Caju 

https://cutt.ly/ql5Y0bJ

E informações através dos perfis no Instagram: @flechalancadaarte @yakecan_potyguara @yluzbarbara @obrunamabellz

Realização: Flecha Lançada 

Direção geral e roteirização: Luz Bárbara 

Direção de arte e figurinos: Alice Assal 

Produção: Bárbara Matias, Jamal, Luz Bárbara 

Participações: Indja, Jéssica Caitano, Ana Floresta, Cristina Kariri, Teka Potyguara, Juão Nyn, Luan Apyká. 

ESTE PROJETO É APOIADO PELA SECRETARIA ESTADUAL DA CULTURA, ATRAVÉS FUNDO ESTADUAL DA CULTURA, COM RECURSOS PROVENIENTES DA LEI FEDERAL N.º 14.017, DE 29 DE JUNHO DE 2020. 

contato: cajusaldetibira@gmail.com

Somos vivos como o sol de “ameidia”

Por Barbara L. Matias.

Deram o Kariri como extinto. E, no entanto os cabôco estão preparando a terra pra receber o plantio de milho e dançar pra fogueira em junho.

Imagem de Ana Adenilda e tratada por  Victório Fróes.

Deram o Kariri como extinto.

E no entanto os Cabas descansam “ameidia” enquanto o sol dança pra terra.

E no entanto em cada quintal uma farmácia do mato. Viva.

E no entanto o pião roxo na frente da casa.

A rede, as danças de pés atolado na terra, a agricultura, o cuscuz, a mandioca, a pescaria, o raizeiros, o artesão.

E no entanto o ato de conversar na “boca da noite”.

 Do nascer do dia, das fases da lua.

E no entanto, o Kariri Vivo no modo das pessoas se organizarem.

O aviso do Vimvim, Coruja, Bahia e Carcará.

Saber da véia d’agua no tabuleiro é uma tecnologia ancestral que preservamos. É essa herança que carregamos. 

É por isso, que estamos vivos.

E no entanto nossos avós silenciados gritando pro neto nas entrelinhas.

Escutamos.

E no entanto, você.

Eu.

O curumim que está sonhando.

O morador de rua com identidade negligenciada. Quantos Kariris dormem na rua devido um enorme memoricídio que reverbera a cinco séculos. 

                                                                           É medíocre negar a terra que tu vive e se alimenta.

É sobre #Abyayala

Tem um povo Kariri que pega peixe de rio com as mãos, como se fosse um só corpo. E esses peixes estão vivos. E esse povo está retomando.

Encantaria no Sertão Kariri, Siará.

Lavras da Mangabeira, Ceará.

Boqueirão

Chamam esse lugar de garganta sagrada, eu sinto não só a garganta mas o corpo inteiro, feito uma rede de terra e alma.

Eu cresci escutando sobre uma sereia que mora nessas pedras, outros dizem que é um ser metade mulher metade cobra, talvez, a Maara que também aparece nas narrativas da cidade de Crato, Ceará, a verdade é que uma serpente encantada vive na memória dos ancestrais Kariri. 

SER PEN TEANDO MEM ÓRIAS

É visível nas paredes da pedreira o formato de uma espécie de “casa” desses seres encantados e mais na frente tem a gruta inacessível. Sobre esse ponto em outro momento conversaremos.

Essa natureza vibra nos olhos de quem a enxerga, dizem que o mergulho nessa água amolece o coração e causa sedução no olhar do corpo que se molhou.

O lago está sempre frio porque fica em baixo de um pé de oiticica, uma árvore também nativa da região, (planta endêmica na caatinga e na vegetação típica da faixa de transição entre o sertão semiárido do Nordeste).

Colegas Artevistas, nesse mês estou provocando um diálogo a partir do Boqueirão, que fica na minha cidade, além do desejo de apresentar a natureza viva, me interessa lembrá-los que ao mencionar essa vivacidade estou lembrando-os de abrir escuta para o originário. Lavras da Mangabeira, Ceará, é território do nativo dos Kariri, Siará.

Estamos preocupados em cuidar do Boqueirão porque são nossas avós chamando para dançar saúde.

Nosso corpo não se separa das encantarias.

Feliz ano novo. 

Por Barbara Leite Matias (Flecha Lançada).

Dezembro

Algumas poemas da minha página @podeserumapoema

(…)

 A professora perguntou ao menino se ele se sabia o que era se vesti com classe.

Ele respondeu,  só os urubus suportam um completo terno clássico.

(…)

Alma de pescador.

Pescador que é pescador só pesca para comer e enquanto isso a mente estica feito linha de anzol brincando de tocar a areia do rio.

(…)

Eu plantei um pé de manga para meu neto.

O neto de meu neto chupa as mangas do pé de manga que plantei.

As abelhas degustam as mangas dos pés de mangas que plantei.

Eu, o pé de manga, meu neto e as abelhas alimentamos a terra que sustentou da raiz da manga aos meus fios de cabelo da minha vó.

Minha vó virou abelha.

(…)

Vontade.

Vou mergulhar no rio e virar piaba. Pronto.

EU CARREGO UMA SOLIDÃO TÃO GRANDE DENTRO DE MIM.

AS VEZES ACORDO NA MADRUGADA SÓ PARA ACARICIAR O CABELO DELA.

EU DANÇO PELADA COM A MINHA SOLIDÃO. ONTEM ALGUÉM ME DISSE QUE PAREÇO ALEGRE E TRISTE, MEUS OLHOS CONFUNDEM.

EU NÃO SEI.

 NO FUNDO EU QUERIA MESMO ERA CATAR PEDRA NO CHÃO PARA  ATIRAR NO RIO. DEPOIS MERGULHOS DE OLHOS ABERTO EM BUSCA DAS PEDRAS.

A minha solidão parece uma pedreira, eu não tenho medo dela. Eu estou com medo do ano, o tal do 2020 e também 2021. Futuro, futuro sou eu anciã, só que agora.

 Quero que meus cabelos cresçam, toda sexta estou passando “babosa”, aproveito passo na pele toda, principalmente em cima do peito, dizem que é bom para cicatrizar.

Texto de Barbara Matias (Flecha Lançada)

Imagens de Jamal.

Te dedico

Por Barbara L. Matias (Flecha Lançada)

Te dedico um abraço forte, não há tempo para meios abraços. 

É  i. n. t. e. IRO. 

Ontem não deixei a cabeça voar, fui lavar a louça e quebrei dois pratos.

É preciso se integrar, principalmente com a terra, água e toda a magia que tá no universo, mas, também dentro da gente.

Mora um rio entre meus seios. E mora um rio, a dois quilômetros da minha casa. 

M O R A UM RIO ENTRE MEUS SEIOS. E M O R A UM RIO, A 2 KM D A M I N H A C A S A

E S S A Á G U A É S O B R E M E R G U L H O!

Imagem de Jamal.

Eu queria sugerir para você que converse com o  S I L Ê N C I O  e peça para sonhar. É assim que fazemos, sonhamos também com os olhos fechados. Se o sonho é vivo, enquanto vivemos, para olhos abertos e fechados há sonhos. Sonhar é deixar a raiz dos cabelos da cabeça dançar e fazer tranças entre milhões de fios. Amarrar memorias que carregamos.

Sonhar e criar é um moinho de produzir suor que nos encaminha as V E R E D A S.

O que mais sabemos é fazer veredas.

Por hoje é só. 

Antes faz chá, se banhe, arme uma rede. Pelada, beba chá. Deite teu corpo na rede.

E boa busca de veredas. Lembre-se essa água é sobre mergulhar.  AWETÉ!

Olhos de lavadeira de roupa

SINOPSE: A proposta é um convite para olharmos pro universo da poética dos sonhos, pras miudezas da vida enquanto potência, não só aquilo que está fora, mas sobretudo aquilo que pulsa dentro.
Pulsão: Mergulho na escuta das nossas vermelhas ancestrais.
Essa obra áudio visual tem o intuito de olhar pras miudezas da vida enquanto potencias que descobriremos nas ilhas de si, por meio da memória que carregamos no sangue que correu por anos nas pernas das mulheres que equilibraram bacia de roupa e balde de água na cabeça enquanto sobem ladeira e atravessam rio em prol da comunidade.
Roteiro e Atuação: Barbara L. Matias
Edição e câmera: Caio Oviedo