Web Rádio: você já ouviu falar?

Se você acompanha esta coluna, já ouviu sim

Todos os dias, dezenas de web rádios novas entram no ar. Desde o início dos anos 2000, quando elas começaram a virar tendência no Brasil. E continuam se proliferando, apesar da concorrência com Spotify, Deezer e demais streamings. Mas, de forma geral, sinto que as pessoas ainda não entendem muito bem o que é e, muitas das vezes, nunca ouviram uma web rádio. Por isso resolvi escrever especificamente sobre isso.

Este sou eu, gravando “Nasci Para Bailar”, um programa de MPB da Matula Web Rádio.

Outros fatores também me trazem a esta escrita. Há alguns meses estreei um programa na rádio online e me encontro completamente apaixonado por esta modalidade. Então vim te apresentar um pouco deste (incrível) mundo. 

Antes de partirmos objetivamente para isso, quero compartilhar uma fala do Beto, criador da Matula (veremos a seguir), onde ele diz: “Eu acho super legal não saber qual a próxima música que irei ouvir, tem essa coisa da surpresa. Além de ser orgânico: tem uma pessoa fazendo a seleção dessas músicas e conversando com você”.

Agora sim, vamos às ferramentas para que você também mergulhe nessa surpresa:

Qual a Diferença da Rádio convencional para a Web Rádio?

Essa é uma dúvida comum, mas simples de entender. As rádios convencionais (AM ou FM) possuem limite de alcance da sua transmissão, enquanto as transmitidas online não tem barreiras geográficas, basta ter um dispositivo com acesso à internet.

Outra diferença fundamental é quanto ao financiamento. Para transmitir o sinal AM ou FM, você precisa enfrentar bastante burocracia e fazer um alto investimento. A necessidade de obter receita suficiente para pagar a empreitada, não permite uma programação de nicho. Por isso, de maneira geral, as rádios convencionais tocam o que está no mainstreaming e, dificilmente, abrem suas portas para experimentações.

A web rádio é barata e, na maioria das vezes, de produção caseira. Praticamente qualquer um pode criar o seu próprio programa e até a sua própria rádio online. Isso permite um acesso muito democrático e programação extremamente diversa.

Preparei abaixo uma lista com algumas web rádios que melhor representam a sua categoria, assim você pode experimentar bastante de todas as suas vantagens:

Matula Web Rádio

Criada em Belo Horizonte, mas com relações por todo o país, a Matula Web Rádio é uma iniciativa coletiva que surgiu com a proposta de oferecer uma programação qualificada, diversificada, inclusiva e gratuita aos seus ouvintes. Sem se limitar ao mainstream, a Matula é uma alternativa às rádios tradicionais, abrangendo assim vários estilos e nichos.

Homepage da Matula Web Rádio

Com músicas 24h e a grade recheada de programas incríveis, um outro grande atrativo da Matula é o chat ao vivo, que permite a interação entre ouvintes e locutores. Assim é possível fazer comentários, pedir música e fazer amizades.

Web Rádio Veneno

A Veneno nasceu em São Paulo, da ideia de unificar e solidificar as mais diversas iniciativas culturais. A web rádio comporta programas de muitas vertentes, dialogando com diferentes estéticas e conceitos. Dispondo de uma programação 24 horas por dia, a rádio também é responsável pela criação de eventos e conteúdo sempre visando promover os nossos artistas residentes.

Homepage da web rádio Veneno

Recentemente (em maio) eles estrearam o programa “OuVisse”, um espaço dedicado a artistas, Djs e produtores de música eletrônica no Nordeste.

Mutante Rádio

A Mutante Web Rádio é uma iniciativa totalmente voltada ao alternativo e ao underground. Atuantes desde abril de 2016, os mais de 100 locutores, espalhados por vários lugares do mundo, focam em oferecer músicas inéditas de bandas ainda desconhecidas do mainstreaming. 

Homepage da web rádio Mutante

Rádio Frida Rock

Diretamente de Porto Alegre, a Web Rádio Frida Rock se dedica a experimentar novos olhares sobre o universo feminino e feminista. Além de valorizar a cultura negra e LBTQIA+. Com discussões de temas variados, como política, economia e cotidiano. E, claro, muita música!

Homepage da web rádio Frida Rock.

Vale ressaltar que tanto a Mutante, como a Frida Rock, fazem parte de uma rede de web rádios que se apoiam ao redor do mundo. Inclusive compartilhando programas e locutores. Nos sites de ambas, é possível ver a lista completa.

Segundo Ricardo, um dos Integrantes da Mutante, “se você ouve uma web rádio, você está ajudando a transformar cada vez mais a música em algo incrivelmente democrático, principalmente nos dias de hoje”.


Agora é só escolher por onde começar e apertar o play!

Sobre o autor:

Publicitário e Produtor Cultural. Colunista, pesquisador musical, colecionador de discos e amante da diversidade de movimentos artísticos do Brasil.

Instagram: @adonaielias.m

Até a próxima! 🙂

Discos revolucionários

Outro dia estava comentando com Renata (minha companheira) sobre um comentário que o DJ Albano Seletor tinha feito para mim, em uma entrevista. Ele falava sobre o espanto maravilhoso – quase revolucionário – de ter ouvido, pela primeira vez, à época do lançamento, o disco “Money for nothing”, do Dire Straits.

O modo como ele falava era muito radiante, até porque tinha um contexto maior, o “money for nothing” foi o primeiro disco que ele comprou, no início da adolescência e aquele som do Dire Straits realmente era algo incrível, um álbum com os maiores sucessos da banda, em 1988 (ano exato do lançamento).

Donatinho (à esquerda) e João Donato.

Desde então fiquei pensando no último disco que tinha me causando esse sentimento. Lembrei precisamente de uma edição do Prêmio da Música Brasileira (de 2018), onde descobri o premiado disco “Sintetizamor”, do João Donato e Donatinho, vencedor na categoria “música eletrônica brasileira”.

Poxa, ali foi uma revolução! Ainda não tinha conhecido João Donato, muito menos seu filho e fiquei assustado desde o primeiro tempo da primeira música. Você se esbarra numa música meio jazz, mas também meio latina, junto com tambores e sintetizadores, tudo eletrônico, mas com muito suingue. O disco todo é assim, super “sexy sem ser vulgar” (risos). Com a elegância desconcertante do Donato e a irreverência experimental do Donatinho.

Capa do álbum Sintetizamor, de João Donato e Donatinho.

Depois disso, eu mergulhei profundamente nas outras obras dos dois, principalmente do Donato (o pai). Um dos maiores compositores da Música Popular Brasileira e bastante desconhecido do público, muito injustamente. Mas também porque ele nunca quis cumprir com as expectativas da indústria cultural.

Lembro de uma entrevista engraçada, onde ele diz que só fazia música instrumental – da melhor qualidade –  e o Gilberto Gil convenceu ele a pôr letra nas composições para que pudesse ser viável o disco (financeiramente). E foi assim que surgiu “Bananeira”, “Emoriô”, “Vento no Canavial”, “Flor de Maracujá”, dentre vários outros sucessos. Músicas que ficaram famosas nas vozes de outras pessoas, não na dele.

Para mim, a voz do João Donato é tão boa quanto a sua música. Talvez porque eu entenda que a poesia fique mais completa na voz de quem a compôs. Ali está a verdade mais natural ou original (uma grande mentira, mas uma viagem pessoal que gosto de embarcar). Aquela qualidade tímida, que lembra João Gilberto, mas que é muito potente.

Por falar nisso, outro disco que descobri e foi revolucionário, é o “Chet baker sings”. Outro instrumentista (o Chet Baker) que resolveu cantar e mudou o mundo. E, veja só a “coincidência?”, a voz também tímida dele, influenciou o tal João Gilberto, que “fundou” a bossa-nova e abriu caminhos para Donato. Um se alimentando do outro. Mas isso já é motivo para um próximo texto.

E você, qual foi o último disco revolucionário que ouviu?

Sobre o autor:

Publicitário e Produtor Cultural. Colunista, pesquisador musical, colecionador de discos e amante da diversidade de movimentos artísticos do Brasil.

Instagram: @adonaielias.m

Até a próxima! 🙂

Música e Diversidade

Uma vez uma amiga me perguntou no meio de uma conversa: “Quer dizer que esses números todos do Wesley Safadão não significam que ele é bom?”. Esse foi o momento ideal para aquele meme “eu conto ou vocês contam?” (risos). Claro que a dúvida é compreensível, nem todo mundo entende como funciona a indústria cultural e, além disso, acham que as histórias na música sempre são tão românticas como no filme “os dois filhos de Francisco”.

Hoje, na verdade, é fácil perceber essa tal indústria. Sabemos que a música que predomina nas rádios, na televisão e no mainstreaming (de forma geral) são produzidas como o aparelho de som que você usa, em larga escala, padronizadas, altos lucros, esquemas com governos corruptos (e fascistas) para burlar impostos – principalmente os trabalhistas – , etc.

Ilustração com a “cultura” sendo produzida em larga escala.

Ao mesmo tempo que isso acontece, crescem as iniciativas contrárias a esse movimento. E é sobre isso que devemos nos importar mais!

Em aula, um professor de antropologia (Rafael), me ensinou que uma das maneiras mais eficazes de combater o fascismo é apoiando projetos antifascistas. Projetos que divulguem e fomentem a diversidade. E, na música, também é assim! 

Se, por um lado, a indústria cultural existe e é forte, por outro a gente vai construindo e fortalecendo possibilidades onde o que prevalece é a inclusão, a diversidade, a ética, a liberdade de criação e sem a necessidade de construir um monopólio.

Uma dessas iniciativas fantásticas é a nossa Lugar Artevistas. Se você der uma rápida olhada geral, vai ver gente de todas as cores, de todas as tribos, com ideias totalmente diferentes, mas que se juntam em nome da diversidade.

Na música, um projeto fantástico que conheci há pouco, mas que também me apaixonei rapidamente, é a Matula Web Rádio, de Minas Gerais. São dezenas de apresentadores e programas, com ritmos  de todo o país e de absoluta qualidade. São 24h de música-não-enlatada, livre!

Luccones Nascimento, Humberto Teixeira e Wander Lot. Fundadores da Matula Web Rádio.

A Matula nasceu em 2020, durante a pandemia, porque alguns amigos que se encontravam frequentemente para ouvir música (fora do mainstreaming) não puderam mais continuar com esse hábito. Então criaram uma web rádio, primeiro entre amigos e, menos de um ano depois, já conta com quarenta colaboradores de todo o país.

E esses projetos sempre estão de portas abertas para você. 

Por tudo isso, é importante que a gente participe. Vamos ouvir e descobrir artistas diferentes, ter contato com novas ideias e, se possível, também apoiar em suas vaquinhas e campanhas! 

Assim podemos mudar alguma coisa!

Link para você conhecer e ouvir a Matula Web Rádio:

https://matulawebradio.com/

Sobre o autor:

Sou Adonai Elias, Produtor Cultural e Redator Publicitário. Escrevo e converso sobre música na “Lugar Artevistas” e na itaperidiscos.com. Para dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

Até a próxima! 🙂

Terraplanismo musical

Há algum tempo (2020), durante um programa no Youtube da Carta Capital chamado “Fechamento”, o jornalista Pedro Alexandre Sanches utiliza o termo “Terraplanismo cultural”. Isso para definir o projeto de cultura apresentado por Roberto Alvim, durante sua estadia no cargo de Secretário Especial de Cultura do governo Bolsonaro.

Não sei se ele foi o primeiro a utilizar esse termo, confesso que não fiz uma pesquisa tão profunda. Mas, falando do termo em si, parece genial! É uma afirmativa do obscurantismo medieval que toma certas pessoas, causando nelas um sentimento de poder para decidir o que é “cultura boa”, “cultura imprópria” e, até mesmo, o que não é cultura.

Roberto Alvim em transmissão nacional para apresentar seu projeto de “cultura brasileira”.

Ou muito pior, um sentimento que domina o governo fazendo-o declarar o que é a cultura oficial do Brasil e o que não é, ou pior ainda – o buraco sempre é mais embaixo – criar um plano de cultura “que não destrua, mas que salve a nossa juventude, enraizada na nobreza de nossos mitos fundantes: a pátria, a família, a profunda ligação do povo com deus, as virtudes da fé e do auto sacrifício” – Palavras de Roberto Alvim.

E por que estou ressucitando esse assunto? 

Erra quem pensa que esse tipo de pensamento está distante de nós e que não contribuímos para ele. 

Durante a cobertura do grammy – agorinha – o Produtor Rick Bonadio, talvez mais conhecido como Creuzebeck, pois assim era carinhosamente chamado pela banda Mamonas Assassinas, afirmou no twitter o seu espanto e indignação ao ver o funk brasileiro presente em uma das maiores premiações musicais do mundo. Ele, que produziu Mamonas e CPM22, por exemplo, é um cara que gosta de parecer descolado.

Porém, diz que “era bom quando o Brasil exportava a bossa nova”. Agora nada serve, nada é bom como “naqueles tempos”. Acrescentou coisas no seu tuíte como “funk só fala de putaria”, “mesma batida”, etc.

Em uma matéria precisa, o Jornalista do Uol, Pedro Antunes, analisa essa situação como um “elitismo cultural”. Afirma que o funk canta uma realidade tão diferente da de Bonadio que não adianta exigir entendimento, pois ele nunca vai entender. Porém, é necessário pedir respeito. E que a atitude do produtor se trata de um “terraplanismo musical”, por negar algo que ele não compreende.

Aqui no Brasil existe uma luta histórica para que o “novo” não seja sufocado. Foi assim com o samba, a tropicália, o rock e várias outras movimentações culturais além da música

Belchior já dizia: “tudo muda e com toda razão”.

Negar a importância do funk, que gera riqueza e empoderamento, de todos os tipos, para milhares de pessoas da periferia, é uma atitude perigosa. Que contribui para aquele sentimento medieval de poder dizer o que é cultura e o que não é. Ou o que é arte ou não.

Anitta, talvez a mais expressiva representação do funk brasileiro, em cartaz na Times Square.

É fácil rirmos dos terraplanistas, óbvio. Mas estamos vendo o quanto eles estão contaminando o planeta  com crenças negacionistas. A cultura é algo sempre em transformação. Se você não acompanhar e decidir bater de frente, ela passa por cima de ti. E te deixa como um Rick Bonadio. Ou pior, um Roberto Alvim. Cuidado!

Leia também aqui no blog: Xerecard

Sobre o autor:

Sou Adonai Elias, Produtor Cultural e Redator Publicitário. Escrevo e converso sobre música na “Lugar Artevistas” e na itaperidiscos.com. Para dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

Até a próxima! 🙂

Xerecard

Na metade do mês de fevereiro, veja só, o vereador de Fortaleza Wellington Sabóia (PMB) chegou à tribuna para exigir medidas cabíveis a motoristas de aplicativos que entraram na onda da música “Xerecard” e estamparam em seus carros (centenas deles) a revelação de um Ceará misógino.

Se você estiver ainda perdido, vou fazer um resumo aqui. Conversei com algumas pessoas antes de escrever esse texto, daqui de BH, e elas não fazem a menor ideia do que está acontecendo, então acho pertinente dar alguns detalhes.

Capa do clipe oficial “Xerecard”.

Há alguns meses, os artistas Jeff Costa e Mc Danny lançaram o sucesso “Xerecard”, pela gravadora Love Funk (SP). Uma música super dançante, com um clipe bonito, com gente diversa (pretos, brancos, gordos, magros, etc.) se divertindo, o ritmo é envolvente. Tá, até aí nada demais pra ninguém. A música toca direto nos carros de sons pelo Ceará, com a seguinte letra (e é aqui onde a discussão começa): 

“O meu bonde tá passando 

Novinha presta atenção 

Nois vai te patrocinar 

Mas tem que dá o Xerecão

Lá no camarote

Eu tô bebendo à vontade

Traz a maquininha

Que hoje eu passo xerecard”

O adesivo em questão, que estaria constrangendo mulheres nos carros de motoristas de aplicativos, tem a seguinte mensagem: “Aceito Xerecard”, fazendo menção à música. Uma sugestão dos prestadores de serviço para que a usuárias paguem as corridas com sexo, prostituição mesmo e afins.

Quando o Jornal O POVO divulgou essa matéria, uma internauta comentou: “gente, meu marido é dono de gráfica, vocês não tem ideia do absurdo, são dezenas de homens que chegam todos os dias pedindo para imprimir esses adesivos”. Outras centenas de mulheres comentam que a ideia é “machista”, “misógina” e “constrangedora”. É fácil achar todas essas manifestações lá no instagram do veículo. 

Anúncio no Mercado Livre de adesivo “Aceitamos Xerecard”, com mais de 500 vendas.

Você pode estar agora com ódio “desse tipo de música”, tudo é passível de crítica. Ou, como vi, algumas pessoas podem rir da situação e até sair correndo para imprimir seu adesivo – não me espanta. Mas precisamos tomar cuidado com o pensamento de censura da arte, como também vi acontecer nesse caso.

O intuito da música talvez tenha sido o de revelar uma fantasia ou feitiche que muitos homens e mulheres podem ter, não há nenhum problema nisso. A grande questão é quando passamos a violentar ou constranger os outros que não tem nenhuma relação consensual nisso. Não há nenhuma contradição em rebolar ou ouvir “esse tipo de música”, por exemplo, e querer ter seu corpo respeitado. As fantasias são permitidas e devem continuar, assim como a arte. Não percamos esse pensamento.

É triste e sim, no mínimo, constrangedor o que os homens estão fazendo com esses adesivos em seus carros de aplicativo. Corridas devem ser pagas com dinheiro, assim está na lei. Devemos reprimir essa atitude, através de boicotes e de quaisquer maneiras legais. Ao invés de, mais uma vez, culpabilizar os artistas. Ou pior, a mulheres e quem mais quiser se expressar livremente sem ser violentada ou violentado.

PS: A expressão “xerecard” não foi cunhada pelos artistas. Ela já existia e era utilizada de maneira velada pela população.

Sobre o Autor:

Sou Adonai Elias, Produtor Cultural e Redator Publicitário. Escrevo e converso sobre música na “Lugar Artevistas” e na itaperidiscos.com. Para dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

Até a próxima! 🙂

Rádio Acalanto

Era madrugada do dia 23 de janeiro, estava tomando a última taça de vinho. Já tinha desistido dos discos, pois em certa altura, você cansa de virar e trocá-los na vitrola, ainda mais bebendo. Acontece isso com você também? Liguei o rádio no receiver, como de costume, na Rádio Inconfidência Mineira (FM 100,9 / AM 880), a noite estava linda, em Minas, da janela do Prédio Juscelino Kubitschek, onde moro, no centro de BH.

Erasmo Carlos, em Capa de Disco

A música que toca logo em seguida é “Queremos saber”, de Gilberto Gil, mas interpretada por Erasmo Carlos. Uma das mais lindas da carreira de ambos, segue um pequeno trecho para se ter uma ideia, caso não conheça. Se já conhece, há de concordar comigo:

“Queremos saber

O que vão fazer

Com as novas invenções

Queremos notícia mais séria

Sobre a descoberta da antimatéria

E suas implicações

Na emancipação do homem

Das grandes populações

Homens pobres das cidades

Das estepes, dos sertões…”

“…Queremos, de fato, um relato

Retrato mais sério do mistério da luz

Luz do disco voador

Pra iluminação do homem

Tão carente, sofredor…”

Essa composição sempre me emociona bastante, pois Gil aproxima todos homens. Afinal, todos nós “queremos saber”. Temos a carência de conhecimento sobre o dia de amanhã, por exemplo. Ouvir essa canção pode ser libertador. Ela traduz nossas ânsias e nos emancipa de alguma escuridão. Pelo menos da escuridão da solidão. 

“Queremos saber” tocou bastante nos anos 70, nas rádios brasileiras, auge das FM ‘s. Praticamente todos os brasileiros tinham acesso. Inclusive, a rádio foi o primeiro canal a unificar o Brasil. Antes disso, cada região tinha seus próprios cantores, seu próprio jornal, etc. Isso em 1930. Foi uma revolução, como sabemos.

Uma vez, Fernanda Montenegro disse, em entrevista para um documentário, que a rádio tinha (e tem) o poder de libertar: “o homem do campo, por exemplo, fica capinando o mato com seu rádio do lado. Ele trabalha e, ao mesmo tempo, é sensibilizado por essas músicas”.

Fernanda Montenegro na Rádio MEC

Nesse dia em que ouvi “queremos saber” na rádio, também pensei sobre o que a Fernanda disse. Era uma mistura de sentimentos. Ouvir Erasmo Carlos cantando “queremos saber”, sabendo que o Brasil inteiro poderia estar ouvindo junto comigo essa canção, que me é tão íntima, foi um acalanto.

A minha geração praticamente não ouve rádio, então demorei bastante para descobrir os encantos dessa mídia. E essa experiência me aproximou bastante. Só depois de ouvir a música do Gil é que parei para pensar nisso.

Sobre o Autor:

Sou Adonai Elias, Comunicador, Dj e amante dos discos. Escrevo mensalmente sobre música para a “Lugar Artevistas” e semanalmente na @itaperidiscos. Para dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

Até a próxima! 🙂

O ano que descobri Stevie Wonder

Stevie Wonder

Apesar de tudo o que aconteceu em 2020, eu descobri Stevie Wonder. Há alguns meses tenho escutado nos fones de ouvido o álbum “Song in the key of life”, um dos mais importantes da sua carreira e um dos mais reveladores, para mim, sobre a música de muita gente aqui no Brasil e no mundo todo.

O álbum, lançado em 1976, continua super atual. Influenciou nitidamente quase toda a música preta do Brasil a partir dos anos 1980 até hoje. Sandra de Sá, em seu disco mais reverenciado (“Sandra Sá 1982”), é quem diz: “preciso urgentemente falar com Cassiano, sobre o som que Stevie Wonder faz…”. No mesmo ano, Moraes Moreira lança o “Coisa Acesa” e canta:

“Estive ouvindo

Stevie Wonder

Tentando assim

com muito tato andar

Andar na onda que ele anda

Num sentido, sentido assim

Mais abstrato

E o mundo prá que ele nos leva

Eleva a alma e o espírito

Num espaço infinito

Seu universo musical

Pois tudo que ele respira

É música e oxigênio

E assim como todo gênio

É cósmica sua visão

É música e oxigênio

É cósmica sua visão”

E digo que o álbum continua atual porque, apesar de não ser muito ligado a cultura pop contemporânea, assisti recentemente na Netflix o “documentário” sobre o show da Beyoncé no Coachella. Todos aqueles metais (Sax, trompete, etc.) parecem ter saído de “I wish”, música presente em “Song in the key of life”. 

Além dos que citei aqui, ouvindo o disco, lembrei de Carlos Dafé, Mano Brown (principalmente no seu solo “Boogie Naipe”), Hyldon e diversos outros. Ah, sabe aquela música “Pé na tábua”, da Marina Lima? É quase uma versão (linda) em portugûes de “Ordinary Pain”, do Stevie, também presente no disco.

A música mais famosa do álbum é “Isn’t she lovely”, é também a minha preferida, por hora. Estou pensando aqui, talvez, depois de Beatles e João Donato, Stevie Wonder será uma paixão duradoura, com vários discos preferidos.

E você, o que descobriu em 2020?

Sobre o Autor:

Sou Adonai Elias, Comunicador, Dj e amante dos discos. Escrevo mensalmente sobre música para a “Lugar Artevistas” e semanalmente na @itaperidiscos. Para dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

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Como você apresentaria o Brasil?

As lives que aconteceram no início do lockdown foram um alívio para muita gente. Eu e muitos amigos nos encontrávamos (virtualmente) para ouvir música e ficar conversando pelos bate-papos das redes sociais. Em um desses momentos, um colega Dj comentou, de surpresa, que se a ele fosse perguntado “Qual artista (de música) você utilizaria para apresentar ou explicar o Brasil?”, ele responderia: Gilberto Gil.

Primeiramente achei engraçado, o comentário dele foi quase sem nexo com a conversa da hora. Mas isso não me saiu da cabeça. Pensei que foi uma escolha violenta, porque eu tinha acabado de estudar a discografia do Hermeto Pascoal e escolher Gil, obviamente o deixaria de fora. Como deixar Hermeto de fora? Depois ri de mim mesmo. Gil é tão vasto, Hermeto também e muitos outros também o são. O Brasil é gigante, quantos artistas seriam/são necessários para explicar tal complexidade?

Essa semana muitos nomes me vieram à cabeça, todos representando um “tipo” de Brasil. Por que não escolher Pixinguinha, Dilermando Reis, João bosco, Nação Zumbi, Djonga, Racionas MC’s, etc? Resolvi levar a brincadeira a frente, mas agora não mais tomando a pergunta como algo tão sério e sim tentando me divertir junto de outros amigos para descobrir as possibilidades e diversidade de músicas e de Brasis. 

Procurei a Jornalista e Pesquisadora Musical, de BH, Maria Caram (@mariacaram). Como libriana que é, disse que foi bem difícil escolher. “Pensei em falar do “Meu corpo, minha embalagem todo gasto na viagem” (Álbum do Pessoal do Ceará), mas acho que a obra que usaria para apresentar o Brasil seria o “Tropicália ou Panis et circenses”. –  Particularmente, achei a dúvida entre os dois álbuns genial!  

“Essa escolha passa tanto pela mistura dos artistas, por um coletivo que é e não é, mas pela capacidade de síntese de várias referências, várias partes e várias épocas do Brasil. Cheio de experimentos, sonoridades, um bom humor único, uma ironia fina, os traços de amor e brega que marcam nossa música, tudo meio misturado e cuspido. A gente começa sem saber onde vai chegar e termina sem saber direito o que aconteceu. Acho que não tem nada mais Brasil que isso (risos).”

Conversar com Maria me deixou muito empolgado para continuar com a brincadeira. Então fui conversar com o amigo, Dj e também Pesquisador Musical, Tai Holanda (@_djtai) que, aparentemente sem dúvida alguma, disse: “explicar o Brasil, é falar da discografia de Daniela Mercury, que é uma verdadeira aquarela rítmica”

Balé Mulato

Tai também fez questão de citar um álbum em especial: Balé Mulato (2005), de Daniela Mercury, é pura brasilidade, desde a capa que retrata a miscigenação tropicalista. A música “Levada brasileira”, presente no disco, celebra a mestiçagem do suingue nacional, caindo inclusive na cadência bonita do samba. Na mesma linha, “Balé popular” puxou a rede para as águas da África matricial, fonte que abasteceu a música da Bahia.”

Parei diversas vezes de me concentrar na escrita desse texto para ouvir os álbuns que Tai e Maria citaram. Apesar de serem obras cheias de pluralidade, ambas possuem uma perspectiva diferente de Brasil. Um nos apresenta um país melancólico, de uma falsa alegria estampada no cartaz, onde é preciso passear escondido. Inclusive, Caetano e Gil foram presos pela Ditadura Militar logo após a interrupção de um show tropicalista pelos generais. “Tropicália” é um disco ainda atual, num país que ainda não tolera a diversidade e que ainda muita gente sente que precisa se esconder para ser feliz.

O outro, de Daniela, é uma celebração ao amor, a cultura negra e a um país que vibra, é feliz e resistente. Consigo enxergar também esse Brasil, mas com muito menos frequência. Confesso que há em mim menos otimismo do que em “Basil Mulato”, porém, quando o consigo celebrar, o peito enche de alegria, como a cantora propõe. É, sem duvida, um lindo disco.

Conversei também com outras pessoas. A Dj Beá Tomaz (@djbeatomaz) disse que o nome que mais vem em sua mente é o do cantor Djavan, “ele parece que conta nossa vida em várias músicas.” E, a amiga e cantora Andréa Piol (@andreapiol), explicaria ou apresentaria o Brasil com a obra de Milton Nascimento. Não justificou o porquê, mas a gente consegue imaginar diversos motivos para a escolha.


Ana Mudim (@djanamudim), Professora Universitária e Dj, foi quem mais me surpreendeu com a resposta: “Oi, amado, minha tese de doutorado contesta tudo isso (…), falar sobre algo que é demarcadamente brasileiro tem relação com manutenção de poder e articulação de mercado a partir de uma ideia estereotipada sobre o Brasil. Creio que não consiga colaborar porque não acredito nisso”. Na mesma hora pedi autorização para publicar essa fala, que me encantou e fiquei bastante entusiasmado para ler mais. Não sei como ela poderia ter colaborado melhor (risos).

Por fim, jogo a brincadeira para você leitor ou leitora: se identificou com alguma perspectiva que descobrimos até aqui? Qual artista (de música) você utilizaria para apresentar ou explicar o Brasil? Bem, espero que essa e outras perguntas nos levem para novas ideias e novas discussões.

Sobre o Autor:

Sou Adonai Elias, Comunicador, Dj e amante dos discos. Escrevo mensalmente sobre música para a “Lugar Artevistas” e (quase) diariamente na @itaperidiscos. Para dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

Até a próxima 🙂

Música nas Gerais!

A música brasileira é relatada pela primeira vez ao mundo na carta de Pero Vaz de Caminha, quando um gaiteiro português se junta aos indígenas e, a partir desse encontro, começam uma dança regada a risos e espantos. 

Depois desse episódio, outro europeu continuou com as incursões musicais pelo interior do País. Francisco Espinoza, seu objetivo principal era a busca por metais preciosos, mas sempre levava consigo um órgão. Talvez tivesse compreendido o poder do encontro para contemplar a arte. Na capitania de Minas Gerais, ele criou uma capela onde cânticos eram proferidos à Maria, dessa vez, já na língua dos indígenas. 

Minas Gerais

Décadas depois, os mineiros filhos dos europeus, dos escravos negros e indígenas, miscigenados, que se “misturavam” na mineração do ouro, criaram a música barroca de Minas Gerais, contemporânea a arte barroca de Aleijadinho. Um estilo único na história da música no mundo, que representava o amálgama das culturas que ali estavam.

Músicos do país inteiro se encontravam (e se encontram) aqui, principalmente vindos do Nordeste e do Rio de Janeiro. É dessa revolução, que foram os encontros artísticos em Minas, que surge a música rica e plural dos mineiros. – Falando dessa diversidade, é impossível não ilustrá-la através da música de Clara Nunes (sim, ela é daqui).

Clara Nunes

Tal pluralidade permaneceu no decorrer dos séculos e continua se inovando. Foi aqui onde o rock, a bossa nova e o jazz se encontram em uma esquina, dando ferramentas e inspiração a músicos como Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini, o compositor Fernando Brant, Toninho Horta e vários outros que, desse lugar, construíram a identidade do que conhecemos como Música Popular Brasileira. 

Clube da esquina e  Juscelino Kubitschek

Não para por aqui. Recém chegado, os primeiros encontros musicais que tive foram com os artistas Vinícius Rodrix (Dj e Produtor) e Dédé Santaklaus (Músico, Compositor e Produtor), me deparei com uma Belo Horizonte que faz uma pesquisa em música eletrônica de ponta, influenciada por ritmos de todo o planeta.

Não à toa, Minas Gerais tem o primeiro brasileiro concorrendo ao BET Hip Hop Awards, Djonga. Que, na maioria de suas entrevistas, gosta de afirmar o encontro diverso de suas influências, “de Elza Soares, Milton Nascimento, Cazuza aos Racionais”.

Antes de chegar aqui, minha maior referência musical era o estado da Bahia, por conta de Gal, Veloso, Gil e tantos outros. Depois de pouco tempo, entendi Minas como esse grande terreno, onde também brincam as músicas do mundo inteiro, criando novas expressões singulares de arte. Então, agora estou todo ouvidos pra cá, e recomendo, com afeto, que todos façam o mesmo.

Além dos mineiros citados, é importante conhecer a voz de Marina Sena, vocalista da “Rosa Neon” e “A outra Banda da Lua”. E o grupo “Lamparina e A Primavera”, que fazem uma música incrível! Reuni todos esses sons em uma playlist no spotify chamada “Música nas Gerais”, se tiver curiosidade: só clicar aqui.

Sobre o Autor:

Sou Adonai Elias, Comunicador, Dj e amante dos discos. Escrevo mensalmente sobre música para a “Lugar Artevistas” e para a “Discos que amei”, para ou dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

Até a próxima 🙂