O mangue

Acervo pessoal.

Engraçado como incertas

mudanças chegam aqui, rastejando

imperceptíveis, embaixo dos

pés, ou suspensas no ar, coadas na

poeira, que sempre é parte do corpo,

mesmo depois de um maravilhoso banho numa

banheira com água quente e sais aromáticos.

Alguém por perto, tão coberto

de lama quanto você, esse alguém é

rude, mas encontra e devolve

imagens que a anestesia dos

outros condôminos não

vê; insuportável, esse alguém continua

tendo algo a te dizer, algo

que você talvez não queira escutar,

e isso diz muito sobre você.

Já não tem mais rabecas por

aqui, nessa terra de calor grosseiro; nunca

houve um berimbau por aqui.

A fumaça do cigarro, com sua temperatura

previsivelmente alta, passa por

dentro do pulmão como uma brisa fresca, assegurando

que essa vida hoje não te sustenta sem algum veneno.

E da próxima vez em que você resolver

rastejar pra dentro do cofrinho de louça

da sua mente, diga a si mesma(o): fiz

isso em prol de um mundo melhor, não foi?  

Debochar ou levar a sério não faz

diferença pra 5% da população mundial e seu

acordo particular com o Deus Tempo.

Alguém dirá que há compensações,

daqui a alguns dias alguém te consolará

assim: se não pode destruir o mundo, você

sempre pode destruir a si mesmo,

ou algo em si mesmo, fazer disso festa.

Não é que às vezes se possa

prever o futuro; é que a vida humana é

previsível demais, embora em

geral a gente não perceba.

Essa gente, aliás, assombrada

Por aqueles traços de suas

personalidades que chamam de boletos,

enquanto fios de alta tensão eletrocutantes

passam foram do alcance de seus

crânios, mas obviamente não de outros.

Três quartos da folhagem verde na árvore

escondidos do sol pelo prédio em frente.

Três quartos da folhagem

não se tornaram naquele momento tela verde vivo

por causa do prédio ao lado e, além disso,

por perto tem muita gente morrendo mal, vivendo mal.

A cidade, marmorizada como algum

pedaço de carne bovina japonesa,

coleciona suas epidemias de carência de atenção

por tempo indeterminado.

O mangue virou uma extensão da predialhada,

um quintal, mas ainda é mangue,

ainda é um tipo de floresta, ou seja, mais ou menos,

terra emendada em plantas emendadas em bichos.

Para um cidadão visitante, o mangue é

um paraíso por algumas horas

ou um inferno, caso o visitante venha

morar ali definitivamente.

O mangue, esse lugar para outras ocorrências do concreto,

tão invisíveis quanto você,

mas de outro jeito. E afinal

essas coisas continuam sem

importância alguma, e talvez seja preciso

que você escreva que elas continuam

sem importância, sem esquecer que

poucas coisas têm ou tiveram alguma importância hoje

ou nos últimos quatro ou dez milênios.

Existem apenas uns 500 tigres da Sibéria

 vivos; enquanto isso, um

anúncio comercial antigo supõe

que exista um animal selvagem

incluso, opcional, em cada

cidadão, pronto pra uma utilidade

eventual; outro comercial revela que

um mendigo embriagado é o

guardião do multimetaverso,

pelo bem da minha segurança

e da minha felicidade, amém.

Aquela frase, que tinha sido guardada uma vida inteira

num armário, ela caiu no chão, se despedaçou e,

quando colaram seus cacos, virou outra frase, virou

algo que nem dá pra chamar de frase, de imagem,

algo que passou pelo corpo e pegou rumo de mundo,

que passou pela vida como

uma coisa muito boa de que alguém já não se lembra.

Alguém, aliás, que sugeriu que a história

deve ser levada a sério, mas não demais.

Acervo pessoal.

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