A procura do bairro que satisfeito sorri

(Não leia caso você seja o Nando Reis)

Esse texto pode parecer muito específico e talvez seja. 

Ia dormir, me lembrei que escrevi para uma pessoa sobre o fato de all star combinar ou não com priquitinha (para quem não é de Sergipe, é um termo para sandália de couro.). Resolvi revisitar, mudar tudo e publicar aqui no Artevistas. Então, esse texto é a conversa que ficou pra hoje. Ou para um tempo atrás, já que essa pessoa não se faz mais presente e isso aqui é apenas um monólogo modificado e caótico.

Fiquei pensando sobre a ideia de comprar os dois all stars, o azul e o preto de cano alto, e se isso não acaba sendo muita expectativa. Isso de ser um ser completo e inteiro em termos filosóficos e amorosos. Talvez me deixe nervosa e sinto, mais uma vez, que vou ficar repleta de talvez, sendo a confusão minha única certeza em praticamente tudo que escrevo.

Lembro de uma vez que escutei “Nossa você é tudo que eu imaginava”, essa situação me dá um pouco de pavor, porque não sei na verdade quem eu sou e quem eu imagino que eu sou, então pensar que eu estou sendo a imaginação perfeita de alguém sem ao menos ser a minha, me deixa apavorada. Se eu estou em contínuo processo de autorreflexão e descobrimento, como essa pessoa consegue acompanhar essas mutações? Como essa ideia fica se adaptando a esse ser que não sabe ao certo para onde está indo? E de onde surgiu essa pessoa que você imaginava? Quem é essa pessoa?

Além de que fico um pouco nervosa de pensar que já tenho em minhas mãos os dois all stars, sabe? Esse fato de já ser esses dois e eu não sei, Nando Reis, se eu estou tendo uma crise de ansiedade, se quero ter esses dois, se esses dois se completam realmente, se isso tudo é um motivo importante para crise e talvez eu devesse só escutar a música e imaginar cenários românticos como qualquer pessoa. Mas esse tanto de questionamento e o não saber as coisas me deixa nervosa pensando que se eu já tenho esses dois, talvez eu não precise procurar mais all star nenhum. Então os gregos estavam errados, Zeus não dividiu ninguém no meio e a gente não precisa ficar buscando nada. Fábio Júnior, você também tem culpa nisso, mas não vou entrar nessa música, no momento estou apenas justificando o que vem a seguir com base em meu mapa astral ser praticamente igual ao dele.

E por ter nascido no mesmo dia que o “Carne e unha, alma gêmea, bate coração” eu preciso assumir que gosto da ideia de que a gente vive numa constante busca desse outro all star, ou de priquitinhas, ou de havaianas azul e branca ou de um scarpin vermelho, e enfim sapatos falam muito sobre pessoas. Nunca liguei muito para eles, Chorão estaria orgulhoso desse antigo eu, mas só comecei a prestar atenção nas minhas roupas, de modo geral, quando eu senti vontade de passar uma imagem mais séria e talvez eu tenha me perdido um pouco nessa visão de seriedade e misturado com uma sensualidade que eu nem queria ter, mesmo sem usar os sapatos certos para isso. Mas isso é pauta pra outro texto e talvez vocês se sintam como minha terapeuta se sente agora.

Talvez por me perder em mim mesma é que fico nervosa de ser esses dois all stars e não estar mais buscando por ele ou pela priquitinha. Inclusive, não busco mais priquitinhas, já tive a que passou em minha vida e acho desesperador pensar em ter algo próximo daquele estilo de novo. Acredito que é preciso de novos sapatos e é preciso experimentar novas combinações, mas no momento me encontro longe da busca do sentido amoroso da coisa, pois a combinação já foi encontrada.

No fundo isso tudo faz parte daquela ideia de que o desejo é o maior dos sentimentos e afins, porque a ideia de querer ter os dois é um desejo. Você deseja encontrar o bairro das laranjeiras que satisfeito sorri, sendo que é tudo uma visão idealizada e fruto de um Nando Reis que talvez não tenha superado Marisa Monte. Desculpa Nando, avisei para você não ler, pode ser um gatilho.

Por fim, acho intrigante ter os dois ou querer comprar os dois porque no final a gente é tudo isso, né? O all star, ou priquitinhas, ou havaianas azul e branca ou o scarpin vermelho. É muito mais do contexto, do desejo e da coragem do que sobre o sapato em si.

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