Violência velada

Há bastante tempo, lemos, nos meios de comunicação e nas redes sociais, sobre violência contra as mulheres. Mas, não obstante a saturação, ainda é pouco, muito pouco. É pouquíssimo! Esses dias, acompanhei uma campanha muito inteligente, intitulada “Ele não te bate, mas…” Aproveitei a deixa para usar esse jargão e conversar com vocês. Pois bem! Nós, ainda, precisamos falar sobre esse assunto. E, talvez, a gente tenha mesmo que falar, falar e falar, até que entendam que, em pleno século XXI, nós, mulheres, temos o direito de sermos respeitadas, andar na rua sem ser importunadas com piadas, sem assédio na escola e no trabalho. Que, inclusive, temos direito a ocupar os mesmos cargos e receber os mesmos salários e mais uma infinidade de direitos, que nada tem a ver com a questão de gênero e, sim, com o preconceito dessa sociedade tóxica e machista.
Muito mais que falar sobre esse assunto, mostrar causas, estatísticas e formas de prevenção, se faz urgente, empoderar mulheres para não se submeter a isso. É absurdamente surpreendente, perceber que muitas mulheres ainda acham que estão sob cuidados, quando ele reclama de uma saia curta ou de um decote mais ousado.
Violência física não é a única forma de violência vivenciada por nós mulheres, não. Algumas delas são tão veladas, travestidas de supostos cuidados, “amor”, que, na maioria das vezes, temos dificuldades de identificá-las, mas que, geralmente, tem um dano psíquico tão forte que compromete nossa autoestima, autoimagem e autoconfiança.
Violência velada geralmente vem em forma de brincadeira ou uma simples “briguinha” de casal e são invasões sutis, patrocinadas normalmente por seus familiares, seu companheiro, seu chefe, colega de trabalho e que não faz uso da agressão física, mas usa e abusa da pressão psicológica, constrange, humilha e impõe o medo.
Ele nunca te bateu, mas disse que você não precisa trabalhar porque ele banca tudo. De uma maneira subliminar, o que ele está querendo dizer é que não acredita na sua capacidade de se autosustentar, que seu trabalho não é relevante, que mulher não tem que trabalhar fora, que ambiente corporativo é lugar de homens. Babaca, lugar de mulher é onde ela quiser.
Ele chegou da farra com os amigos e te forçou a fazer sexo, mas ELE NÃO TE BATEU.
Ele não te bate, mas reclama que você engordou, sugere (exige) que você emagreça, que não corte os cabelos e um monte de outras exigências, como se ele fosse dono do SEU corpo. Caso contrário, você será uma forte candidata a ser “trocada” (isso mesmo, muitas vezes, somos tratadas como objeto) por outra, dentro dos seus padrões de beleza.
Ele não te bate, mas diz que você não vai sair sozinha e exige a senha do teu celular…
Um dia ele chega estressado do trabalho, distribui gritos e grosserias, quebra coisas, te xinga, chuta o cachorro, mas ELE NÃO TE BATEU!
Quem nunca se pegou cantando, dançando, sozinha ou com uma turma de amigos, sem se dar conta dos absurdos que contém a letra de uma música? Besteira! Muitos dirão. Afff! Isso é coisa de feminista mal-amada…. Não, não é besteira. E, sim, é coisa de feminista muito cheia de amor próprio.
Prestenção! Olha o que diz a letra da música: “Vidinha de balada:”
“Vai namorar comigo, sim”… Oi? Típico autoritarismo do macho alfa. E a gente nem percebe que estamos validando esse comportamento. Se parássemos para pensar, o quão nocivo para nós, mulheres, é autorizar homens, mesmo que em tom de brincadeira, falar (cantar) legitimando essa autoridade.
“Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada e dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca”
Mas claro, impossível! Como se não bastasse a autoridade, eles ainda detêm a ilusão de que são donos do nosso corpo.
“Ele não te bate”… Mas quer que você acredite que essa música é só de brincadeira…

Abraços, Samya Régia.

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