Todos os dia, o dia todo

Só mais um dia na rotina de uma mulher, brasileira, nordestina, trabalhadora e mãe.
O bip do celular avisa a entrada de uma mensagem da escola. O coração dispara automaticamente.

  • Boa tarde, d. Samya!
  • Oi, tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
  • O João Vitor está com o nariz escorrendo e reclamando de dor na garganta.
  • Vou buscá-lo! – Não pensei duas vezes. Atitude como mãe e como cidadã em meio à Pandemia. – Vamos fazer o que tem que ser feito. Imediatamente começo o processo de desligar computador, fechar agenda, comunicar aos colegas e jogar as coisas na bolsa com a pressa que só as mães com o coração apertado conhecem.
    Ah, se a gente tivesse o poder de se teletransportar…
    Quem é mãe sabe: tudo, tudo, menos filho doente, por favor! – Dói neles, dói mil vezes mais na gente. Mas não é sobre isso…
    Estou com raiva, sim! Eu precisava trabalhar e mais que isso: eu queria ter ficado trabalhando. Estou p.. Porque não só voltei mais cedo do trabalho, como sei que amanhã, depois de amanhã e depois, depois e sempre, sou eu quem vai ter que faltar ao trabalho para cuidar do filho.
    Estou exausta porque durmo 1h, e levanto às 5h, e se o pequeno acordar nesse intervalo sou eu quem vai acalentá-lo.
    Estou com muita raiva por ter que adiar a manutenção das unhas, desmarcar o café com as amigas e ficar sem a sessão de acupuntura da semana.
    Nada disso tem a ver com meu amor pelo meu filho e ou é culpa dele ter adoecido, não é sobre isso. Ele, aliás, eles, sempre serão minhas prioridades. A questão aqui é outra. É sobre o papel do maternar solo, mesmo tendo um pai presente.
    É sobre o que foi enraizado em nós mulheres/mães quanto à responsabilidade desse cuidado quase que simbiótico entre mãe e filhos.
    É sobre a cômoda exclusão voluntária do pai nesse processo, principalmente quando nossas crias são pequenas.
    Tenho responsabilidade nisso, claro. Afinal, eu me permito viver dessa maneira sobrecarregada.
    A sociedade na qual estou inserida e fui educada, dentro dos padrões machistas, ensinou/ensina a reforçar crenças limitantes nos papéis da mulher enquanto mãe, dona de casa, esposa, que precisam ser priorizados.
    Já a vida da mulher, enquanto profissional deve ficar em segundo, terceiro plano, ou pior, se sobrar tempo.
    Como não pensar em Helena, a protagonista do filme A filha perdida?, – Esse filme veio mesmo para incomodar, para nos convidar a pensar no papel da mulher. Se fosse para encantar, a gente assistia à Sessão da tarde da Disney. Quem nunca viveu na pele da Helena? Quem nunca precisou fazer uma escolha difícil que fizesse bem só para si? Qual mãe nunca sentiu vontade de fugir (mesmo que por alguns instantes)? Jogar tudo para o alto e correr atrás de um sonho, da carreira profissional ou de um grande amor proibido?
    Helena fez. Abandonou as filhas, o marido e a vida cheia de frustrações. E foi julgada, impiedosamente, por isso. Mas Helena não foi sozinha. A culpa, a saudade, o julgamento, o medo, sempre foram seus “aliados”.
    Só mais um dia na rotina de uma mulher, brasileira, nordestina, trabalhadora e mãe.

Samya Régia
Mãe de João Pedro 19a e João Vitor 3a

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