Só vou falar se me escutar…

Por Coletivo Abayomi

Nossa fala carrega nossa existência. A arte das palavras é um saber milenar africano, uma forma de registro, tão engenhosa quanto a escrita, mas que serve-se de gestos, improvisos, música e dança na confluência do armazenar e transmitir. Transmite através da corporeidade e sons, para além da voz, a memória e a cultura, integra ao tempo e espaço das tradições e das comunidades e jamais deve ser entendida como a negação da escrita, mas como afirmação da prática, porque palavra é ação. Não existe corpo preto que não se manifeste ao som das nossas antigas ciências sonoras.

Imagem:@alfon_romeros

 A oralidade é tão sagrada ao povo preto ao ponto de ser personificada. Ananse é a grande aranha, que tece as teias da vida através de histórias, memórias que ligam as pontas regressas e pregressas da ancestralidade. Outra marca da importância da oralidade e todos os fundamentos contidos no verbo, é a institucionalização do Griot e da Griotte, cargos de confiança concedidos pelas realezas e que são transmitidos de forma hereditária. 

No Mali, a família Kouyatè serve honrosamente à sua comunidade e ao reinado desde o século XIII, como uma linhagem de bibliotecas vivas, se dividem na função de guardiões e difusores dos mitos – ficcionais e documentais – da sociedade malinesa. Ouvir as palavras e voz dos mais velhos, é entender que a tradição é viva. Que parte de toda história também está em você.

Imagem: @Islandboiphotography

Na unicidade do ser, segundo a cosmovisão africana, os pensamentos repercutem por toda a extensão do corpo e reverberam em palavras, por isso “as palavras têm poder”, pois são pensamento manifesto, além disso, toda vida, em alguma dimensão  rítmica, se movimenta, e toda vibração emite som, mesmo que infra ou ultrasonoros, sendo assim “som é vida”.

As palavras são potência de vida e de morte, nos chamam à razão e nos lançam aos devaneios, curam e ferem com a mesma rapidez, nos embalam poeticamente e nos seduzem como o canto de Oxum.

A oralidade é instrumento pedagógico de perpetuação da cultura e história de África e seu legado nativo e diaspórico. Ferramenta de preservação do hálito sagrado da memória, da identidade e cultura, na busca da valorização da ancestralidade resistimos, existimos e reinventamos através do axé que vem da boca.

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