Para dilatar o tempo do Amor

Por Roberta Bonfim

Não há caminhos impossíveis para quem deseja construir novas realidades, mesmo porque nenhum caminho tá livre das dores do caminhar, os calos são a prova da caminhada, as barreiras limitantes individuais e sociais parte do processo. Sou a Mãe que Sou e dentro disso tem o fato de ser mãe solo, mas tem também o fato de que não desiste de mim para me tornar mãe, ao contrário, foi quando decidi que queria ser mãe, porque apesar dos contextos escolhi e escolho todos os dias ser a mãe que posso ser. E ser mãe solo era também uma escolha, pois há todas as complexidades e limitações, claro que há. Mas, fui mãe velha e isso me possibilitou viver muito antes dessa pausa na euforia externa para abraçar as internas. Ser mãe me cura de mim, me chama a conhecer uma perspectiva de amor que eu até então desconhecia, um amor leve, risonho, cheio de responsabilidades que são cansativas, mas não precisam ser pesadas. 

Voltei a trabalhar quando ela estava com dois meses de vida, como trabalho com comunicação na era da informação, não é tão difícil fazer uma assessoria de imprensa em Fortaleza de casa e lembro que minha auto estima foi absolutamente abastecida, pois conseguimos capa nos dois jornais de maior circulação da cidade e eu reafirmava em meio ao caos que eu conseguiria. E consegui muitas coisas, desisti de outras no caminhar ao encontro do que sou, no tempo que tempo, com a vida que levo, somada aos valores que carrego e os sonhos/desejos que tenho para realizar ainda nesta existência. E quero muito, e agora por dois. Mas não são desejos megalomaníacos, só o que merecemos e vamos saber aproveitar de lugar de reconhecimento do mundo, em tempos ainda pandêmicos, na entrada ao mundo escolar, ao social sem escudos familiares, as descobertas delas, as inúmeras perguntas. Agradeço aos irmãos, afilhados e sobrinhos da vida por terem me preparado e seguirem fazendo seus trabalhos. 

Estamos em novembro, minha filha completará 3 anos e 10 meses e no ano que vem iniciará sua aventura escolar. Ela já pergunta sobre a escola, está ansiosa para conquistar seus amigos, mas comenta também que não quer ficar com os pequenos, mas quer ser da sala de seu primo de 9 anos, diz que gosta de conversar com ele. 

Quando penso na escola dela, penso no exercício de liberdade para nós. Um tempo em que ela estará em ambiente social se virando e me dando espaço para realizar o que eu desejar sem ficar pensando se ela porventura está sendo empecilho para alguma ação do outro. Com exceção de minha avó, a bisa da Ana Luna que todo momento junta para ela ainda é pouco. Mas essa proximidade… Outras complexidades.

Fiquei grávida como préviamente pontuado em algum diário, aos 35 anos, nos 45 do segundo tempo e meu desejo primeiro era viver um mês só eu e ela, construindo nossa relação externa com calma e silêncio, mas o que vivi foi um grande terror de sons, imposições e desrespeitos sociais camuflados de amor. Não pretendo ter outro filho nesta vida, mas se o tivesse essa regra eu não deixaria ninguém quebrar, do silêncio e do respeito aos tempos. Resolvi escrever sobre, enquanto a memória permite, pois logo as lembranças viram apenas cicatrizes da alma, que como as dos joelhos, lembramos que caímos, mas não necessariamente da intensidade da queda, ou da dor e mesmo da essência dos aprendizados. Desconhecemos depois de um tempo as profundezas das cicatrizes deixadas nas caminhadas, que como as veias do corpo e as raízes da terra perpassam e criam conexões. Assim, também vivem as redes de informação e cada um de nós em suas ilhas (micro-macro)

E dessas conexões dos contextos me transformo e me refaço a cada nova escrita que me justifica vida. Há uma música da Mariana Aydar que diz; “eu me entendo escrevendo e vejo isso sem vaidade, só sou eu e esse branco e ele me mostra o que eu não. E me faz crer no que não tem palavras, pois por mais que eu tente, são só palavras” e que mesmo não alcançando as intensidades das raízes de quem sou, por preguiça, conforto, ou medos as letras juntas, me explicam de alguma forma o meu existir.

Ser a mãe que sou dá sentido a tudo que vivi até aqui, e eu agradeço por cada etapa e as líbero também para que possa ser mais e mais leve e silencioso, sem perder dinamismo e construção de novas narrativas possíveis, a caminhada.

Nestes quase quatro anos em nenhum momento deixei de sonhar e buscar do modo que podia, no tempo que me era possível, às vezes com extremo desgaste, outras vezes sabendo equilibrar melhor as demandas, mas no caminho de ir me reencontrando comigo para além da mãe que sou e serei por toda a minha caminhada, onde eu estiver. Porque ser mãe é parte das minhas atribuições e dos meus grandes prazeres. Ser mãe da minha filha e para que ela possa dizer que sou sua mãe e juntas possamos pintar os mapas da alma, dos que amamos e do mundo com mais e mais amor, sorrisos e alguns bons gritos para extravasar.

Paro por aqui, pois agora preciso ir para sala uivar com minha filha, fazendo de conta que somos lobas ao luar, ou galo e max dos pets. Até logo menos e muitas vivências engrandecedoras por aí.

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