Comunicação não falada

Anos atrás, lá no período de universidade, compreendi a enorme importância que é, para uma pessoa surda, comunicar-se com o mundo. Não só com outros indivíduos da comunidade surda, mas também com professores, atendentes do comércio, para pedir informações na rua e em outras situações da vida em sociedade.

Como interessado que sou, sempre me encanto quando o assunto é aprender a usar a linguagem para comunicar. Não foi diferente quando tive o prazer de aprender um pouco da língua brasileira de sinais durante um semestre. Imagina aí: não é português, essa idioma que nós ouvintes desenvolvemos e aprendemos a falar ao longo da infância. É uma coisa totalmente nova, diferente e especial.

Provavelmente você nunca irá conversar com uma pessoa surda, mas, se acontecer uma situação em que para ajudar tal pessoa seja uma precisão, você poderia ajudar?

Foi o que me perguntei, recentemente, quando precisei me comunicar com a Larissa Nara. Certo dia ela apareceu no meu trabalho e foi aí que tive a honra de conhecê-la. Logo no primeiro contato pude perceber sua alegria ao ver que, mesmo pouco, eu conseguia compreendê-la e assim ajudá-la. Hoje, depois de alguns encontros, sinto já ter uma nova amizade em Quixadá.

Com o desenrolar das conversas que seguiram pedi permissão para fazer algumas perguntas sobre sua vida pessoal para escrever um pouco. Tive a permissão, e suas respostas revelam uma realidade que todos deveriam conhecer.

Larissa me contou que sofre com ansiedade e depressão. Uma situação bem triste pois, como ela me disse, tem poucos amigos para conversar, e sua família não sabe usar a LIBRAS.

Imagina só que difícil. Para nós, que vivemos a vida toda desabafando aos amigos e parentes sobre nossas dores, conflitos, problemas e angústias é quase inimaginável um cenário onde não há pessoas do seu círculo íntimo ou até mesmo profissional que possam lhe acolher ou ser apenas um “ouvido” para desabafar.

Quase ninguém pensa nessas questões. É o que percebo, como ouvinte. Estamos tão confortáveis com nossas vidas, de certo modo, que não pensamos que pessoas com deficiência, como a surdez, passam por problemas tão semelhantes aos nossos no campo familiar, social e profissional e que para elas as possibilidades de redes de apoio são muito mais limitadas.

Este texto é um desabafo e um manifesto ao mesmo tempo. Minha intenção é que quem me leia sensibilize-se quanto a este assunto e procure aprender pelo menos o básico de LIBRAS, para que um dia possa ser um fio de luz, de alegria e de esperança na vida de alguém que muitas vezes é ignorado, marginalizado e excluído por ter uma condição de vida diferente.

A vida de uma pessoa surda em uma sociedade como a nossa ainda é difícil. Pouquíssimas pessoas têm interesse em aprender e instituições dão pouco ou nenhum estímulo para formar seus colaboradores no uso da linguagem de sinais.

A verdade é que a vida de uma pessoa surda não tem que ser entediante, frustrante, triste e pesarosa. Nossa sociedade só estará plenamente evoluída quando nossos governos entenderem que LIBRAS é/deveria ser um componente importante para o currículo escolar desde as primeiras séries do ensino fundamental.

Precisamos enxergar a linguagem de sinais como ela realmente é, como qualquer idioma, rico, vivo, atraente, curioso, instigante, lúdico, dinâmico e cheio de historicidade. Entender que aprender pode transformar vidas e, quando se trata de aprender para incluir, faz muito mais sentido.

Pessoalmente, sempre considerei sensacional a possibilidade de me comunicar com e fazer parte de várias tribos/comunidades. A diversidade na cultura enriquece qualquer um que ouse entender e/ou fazer parte. Na comunicação por meio dos sinais o uso das expressões corporais são essenciais e é simplesmente lindo de se ver, na minha visão de mundo.

Apesar de não ser fácil para as pessoas com deficiências em geral, a vida merece ser valorizada e cuidada por todas as pessoas.

Viva a linguagem de sinais!

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