Gayatri Chakravorty Spivak: “Pode o subalterno falar?” (1)

A crítica literária e filósofa indiana Gayatri Chakravorty Spivak (1942) contrapõe e costura, em suas obras, a tradição marxista, a filosofia desconstrucionista do franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004), os estudos feministas, as discussões pós-coloniais. Seu ensaio Pode o subalterno falar? (1985) desenvolve a questão imediata do título conforme a tese de que, em muitos contextos fora das áreas “civilizadas” e economicamente privilegiadas do capitalismo contemporâneo, as pessoas desprestigiadas e oprimidas têm como arma de luta política imprescindível a comunidade, mesmo que restrita ao pensamento, com aqueles que ecoam suas vozes ou mesmo as inventam. Isso não resultaria numa representatividade ingênua e idealizada, mas num campo de forças e relações complexo e em contínuos rearranjos e desarranjos.

“Este texto se deslocará, por uma rota necessariamente tortuosa, a partir de uma crítica aos esforços atuais do Ocidente para problematizar o sujeito, em direção à questão de como o sujeito do Terceiro Mundo é representado no discurso ocidental. Ao longo deste percurso, terei a oportunidade de sugerir que uma descentralização ainda mais radical do sujeito é, de fato, implícita tanto em Marx quanto em Derrida. E recorrerei, talvez de maneira surpreendente, ao argumento de que a produção intelectual ocidental é, de muitas maneiras, cúmplice dos interesses econômicos internacionais do Ocidente” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Pensadores franceses da segunda metade do século XX, na trilha da noção espinozana de afeto e da vontade de potência nietzscheana, propuseram o conceito de desejo, encarnação de vitalidade e força transformadora, como questão mais aguda para a filosofia recente. Gayatri, entretanto, vai enxergar numa louvação em coro que Gilles Deleuze (1925-1995) e Michel Foucault (1926-1994) fazem, desse conceito, um descuidado retorno a uma subjetivização simplificadora e antiquada: o desejo teria sido tratado pelos autores referidos como uma via absolutamente benéfica de práticas políticas; com interferência marxista (por intérpretes como Walter Benjamin e Louis Althusser), a indiana matiza a pulsão desejante como intensidade produtiva, mas também como desejo por aquilo que se sabe ou se descobre prejudicial, fenômeno comum tanto em indivíduos dispersos (como ressaltado na psicanálise freudiana) como em coletividades subalternizadas na periferia do capitalismo mundial. É como se o sujeito unitário e essencialista que Deluze e Foucault tanto criticam (tradicionalmente cristalizado na figura do indivíduo como simplicidade e essência), fosse recuperado por eles mesmos, inadvertidamente, na formulação de um desejo triunfal e homogeneizado.

Gayatri C. Spivak | The Department of English and Comparative Literature
Gayatri Chakravorty Spivak. Foto da internet.

“Esses filósofos não admitem a ideia da contradição constitutiva – e é aí que eles se separam de comum acordo da esquerda. Em nome do desejo, eles introduzem novamente o sujeito indivisível no discurso do poder. Foucault frequentemente parece atrelar “indivíduo” e “sujeito”; e o impacto disso em suas próprias metáforas é talvez intensificado em seus seguidores. Devido ao poder da palavra “poder”, Foucault admite usar a “metáfora do ponto que progressivamente irradia suas adjacências”. Tais deslizes tornam-se a regra em vez da exceção, em mãos menos cuidadosas. E esse ponto radiante, que anima um discurso efetivamente heliocêntrico, preenche o espaço vazio do agente com o sol histórico da teoria – o Sujeito da Europa” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

Tida como difícil, a prosa ensaística de Gayatri pode ser descrita como um jeito singular de escrita e, desse modo, de tentativa de chamar a atenção do leitor para um posicionamento político participante a partir de sua própria linguagem: é preciso sacudi-la, deslocá-la, por opção, por vontade de viver melhor, como modo de situar práticas possíveis de subjetividade frente ao que é estagnação socioeconômica, cultural e existencial, da vida nas zonas precarizadas da linguagem, da geografia e do corpo mundo(s) afora. Próximo mês, continuo citando e comentando a prosa de provocação que Gayatri assume em seu ensaio.

“Meu argumento é que Marx não estátrabalhando para criar um sujeito indivisível, no qual o desejo e o interesse [como aquilo que é interessante, antiopressor, para um indivíduo ou um grupo] coincidem. A consciência de classe não opera”- com esse objetivo. Tanto na área econômica (capitalista) quanto na política (agente histórico-mundial), Marx é compelido a construir modelos de um sujeito dividido e deslocado cujas partes não são contínuas nem coerentes entre si” (Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?).

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